{"id":1259,"date":"2011-03-03T17:33:04","date_gmt":"2011-03-03T17:33:04","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1259"},"modified":"2011-03-03T17:33:04","modified_gmt":"2011-03-03T17:33:04","slug":"sobre-lukacs-e-a-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1259","title":{"rendered":"Sobre Luk\u00e1cs e a pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p>1.<\/p>\n<p>Luk\u00e1cs jogou todo o sentido de sua vida, a partir de 1918, quando ingressou no Partido Comunista h\u00fangaro<sup>1<\/sup>, na elabora\u00e7\u00e3o de uma obra inscrita na vertente do que ele designou como marxismo ortodoxo, um marxismo visceralmente distinto do marxismo vulgar, ent\u00e3o dominante e generalizado pela Segunda Internacional (a velha Internacional Socialista).<\/p>\n<p>O marxismo ortodoxo de Luk\u00e1cs, na medida em que se funda numa particular articula\u00e7\u00e3o entre a teoria e a pr\u00e1tica<sup>2<\/sup>, implica de modo necess\u00e1rio uma dimens\u00e3o imanentemente pol\u00edtica no conjunto da obra constru\u00edda no seu marco; como Carlos Nelson Coutinho escreveu,<\/p>\n<p>[&#8230;]mesmo a grande Ontologia \u2013 ainda que, de suas 1.200 p\u00e1ginas, somente cerca de 40 sejam dedicadas de modo expl\u00edcito \u00e0 an\u00e1lise filos\u00f3fica da pr\u00e1xis pol\u00edtica \u2013 foi programaticamente concebida como um ato de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; ao buscar liberar o marxismo de suas deforma\u00e7\u00f5es stalinistas e neopositivistas, a obra visava a contribuir para um &#8221; renascimento do marxismo&#8221;, para a retomada de um aut\u00eantico socialismo no mundo.<sup>3<\/sup><\/p>\n<p>Entendemos que esse tra\u00e7o essencial vinca o complexo te\u00f3rico erguido por Luk\u00e1cs em mais de meio s\u00e9culo da atividade intelectual, ou seja: a sua obra filos\u00f3fica e est\u00e9tico-cr\u00edtica elaborada a partir de 1918, sem preju\u00edzo de suas especificidades te\u00f3ricas, est\u00e1 saturada de entona\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Duas refer\u00eancias, que tomamos aqui como simples ilustra\u00e7\u00f5es, podem esclarecer esta determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir da entrada dos anos 1930, quando Luk\u00e1cs j\u00e1 pensava \u2013 antes do VII Congresso da Internacional Comunista (1935), que superou intempestivamente o grave equ\u00edvoco da palavra de ordem &#8220;classe contra classe&#8221; \u2013 tanto a luta antifascista quanto a estrat\u00e9gia de transi\u00e7\u00e3o ao socialismo na \u00f3tica da unidade (centralizada pela classe oper\u00e1ria) das for\u00e7as populares e democr\u00e1ticas, a sua elabora\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e cr\u00edtica relativa ao romance revela-se fortemente enla\u00e7ada ao seu pensamento pol\u00edtico. Quer concebendo a forma romanesca como a estrutura particular, quer recuperando o significado do realismo burgu\u00eas \u2013 v.g, <em>O romance hist\u00f3rico<\/em> (1937), <em>Escritos de Moscou<\/em> (1933-1944)<sup>4<\/sup> -, Luk\u00e1cs rep\u00f5e, no plano te\u00f3rico, as exig\u00eancias da pol\u00edtica das frentes populares. Tamb\u00e9m nos anos 1930, quando Hegel era instrumentalizado mistificadoramente pelos ide\u00f3logos do fascismo, a interpreta\u00e7\u00e3o lukacsiana da sua obra (<em>O jovem Hegel e os problemas da sociedade capitalista<\/em>, conclu\u00eddo em 1938 e publicado dez anos depois) mostra-se solid\u00e1ria com o empenho de resgatar os conte\u00fados humanistas e democr\u00e1ticos do pensamento burgu\u00eas anterior a 1848, quando a burguesia, enquanto classe, experimenta a inflex\u00e3o \u2013 analisada por Luk\u00e1cs no \u00e1spero <em>A destrui\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o <\/em>(1954) \u2013 que a conduzir\u00e1 \u00e0 &#8220;decad\u00eancia ideol\u00f3gica&#8221;. Nestes dois passos, h\u00e1 a notar, enfaticamente que:<\/p>\n<p>1)\ta cr\u00edtica liter\u00e1ria e filos\u00f3fica lukacsiana n\u00e3o se reduz com essa dimens\u00e3o pol\u00edtica; se ela, sem d\u00favidas, imp\u00f4s-lhe alguns limites, permitiu-lhe tamb\u00e9m ampliar e densificar categorias te\u00f3ricas, enriquecendo o acervo anal\u00edtico da forma liter\u00e1rio-romanesca e de romancistas e o patrim\u00f4nio heur\u00edstico dos estudos hegelianos;<\/p>\n<p>2)\to fio da concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica lukacsiana n\u00e3o vulnerabilizou somente a(s) ideologia(s) burguesa(s), mas feriu tamb\u00e9m a escol\u00e1stica do dogmatismo da era stalinista que instaurava \u2013 seja problematizando a utiliza\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica e rasteira do realismo socialista, seja demonstrando a in\u00e9pcia da caracteriza\u00e7\u00e3o de Hegel como pensador reacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em resumo: a obra marxista de Luk\u00e1cs, em que pesem os giros efetuados pelo fil\u00f3sofo desde 1918, jamais esteve, do ponto de vista do seu conte\u00fado essencial, alheia \u00e0 dimens\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>H\u00e1, todavia, no conjunto dessa obra, um estrato que, indiscutivelmente, pode ser caracterizado como eminentemente pol\u00edtico<sup>5<\/sup>, refigurando um processo de evolu\u00e7\u00e3o e ac\u00famulo que articular\u00e1 a concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica madura de Luk\u00e1cs. Constitui-o um elenco significativo de fontes (ensaios, confer\u00eancias, artigos curtos, entrevistas) nas quais a aten\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo volta-se diretamente para a problem\u00e1tica pol\u00edtica em sentido estrito, enfrentando at\u00e9 as &#8220;quest\u00f5es do dia&#8221;. N\u00e3o se trata de um elenco textual homog\u00eaneo, e uma avalia\u00e7\u00e3o abrangente, fundada numa an\u00e1lise inclusiva desse elenco, revelaria nele pelo menos tr\u00eas momentos distintos.<\/p>\n<p>2.<\/p>\n<p>O primeiro momento abre-se com os textos elaborados por Luk\u00e1cs entre a proclama\u00e7\u00e3o da Comuna h\u00fangara (mar\u00e7o de 1919)<sup>6<\/sup> e a &#8220;a\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o&#8221; (1921) dos comunistas alem\u00e3es e a sua completa derrota em 1923<sup>7<\/sup>, per\u00edodo em que foi presen\u00e7a marcante na revista <em>Kommunismus<\/em><sup>8<\/sup> e publicou <em>T\u00e1tica e \u00e9tica<\/em> (sua primeira colet\u00e2nea marxista, 1919) e <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em> (1923). O messianismo revolucion\u00e1rio de que estava imbu\u00eddo o fil\u00f3sofo<sup>9<\/sup> conduziu-o a um utopismo radical e a tomadas de posi\u00e7\u00e3o tais que Lenin n\u00e3o hesitou em consider\u00e1-lo &#8220;esquerdista&#8221;; messianismo e utopismo, por outra parte, que se colavam teoricamente numa particular leitura da obra de Rosa Luxemburg.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, Luk\u00e1cs via a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria como processo imediata e universalmente em curso<sup>10<\/sup> e compreendia, neste processo, o Partido Comunista \u2013 express\u00e3o mais alta da consci\u00eancia de classe do proletariado, tomado este enquanto o sujeito que introduziu um sentido na hist\u00f3ria \u2013 como organizador demi\u00fargico da passagem da &#8220;pr\u00e9-hist\u00f3ria da humanidade&#8221; ao est\u00e1gio da emancipa\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Este momento da constitui\u00e7\u00e3o do pensamento pol\u00edtico de Luk\u00e1cs (nutrido, ainda, pelo principismo eticista pr\u00f3prio de um intelectual que, oriundo de fam\u00edlia e educa\u00e7\u00e3o aristocratizadas e aristocratizantes, renuncia conscientemente \u00e0 sua origem e condi\u00e7\u00e3o de classe e corajosamente salta para a trincheira oposta nas lutas de classes) come\u00e7a a esbater-se a partir de meados dos anos 1920. O &#8220;esquerdismo&#8221; de Luk\u00e1cs come\u00e7a a derruir-se.<\/p>\n<p>Do ponto de vista ideol\u00f3gico, a cr\u00edtica de Lenin impressionou-o profundamente \u2013 e, escrevendo um pequeno ensaio logo na sequ\u00eancia da morte do l\u00edder bolchevique (<em>O pensamento de Lenin<\/em>, 1924), Luk\u00e1cs v\u00ea-se no in\u00edcio de um ajuste de contas consigo mesmo para defrontar-se com o antiutopismo leniniano -, conduzindo-o a repensar as suas tomadas de posi\u00e7\u00e3o no sentido do que chamou de &#8220;realismo revolucion\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>Por outra parte, j\u00e1 antes, o III Congresso da Internacional Comunista (junho-julho de 1921), de que Luk\u00e1cs participou, em Moscou, pressionara claramente o &#8220;esquerdismo&#8221;, colocando na ordem do dia a &#8220;frente \u00fanica prolet\u00e1ria&#8221; e reconhecendo o refluxo da mar\u00e9 revolucion\u00e1ria \u2013 nas palavras de Lenin, &#8220;h\u00e1 que p\u00f4r fim \u00e0 ideia de assalto {ao Estado burgu\u00eas] e substitu\u00ed-la pela ideia de ass\u00e9dio&#8221;<sup>11<\/sup>. Mas \u00e9 no seu IV Congresso (Moscou, dezembro de 1922), que a Internacional Comunista consolidou a nova orienta\u00e7\u00e3o, real\u00e7ando que o mundo capitalista experimentava uma &#8220;relativa estabilidade&#8221;. Foi,contudo, a pr\u00e1tica pol\u00edtica no interior do partido h\u00fangaro, na qual ele estar\u00e1 medularmente comprometido, com sua atividade dirigente, que responde pela rota\u00e7\u00e3o das concep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de Luk\u00e1cs.<sup>12<\/sup><\/p>\n<p>Com efeito, entre a morte de Lenin e o II Congresso do Partido h\u00fangaro (1929), Luk\u00e1cs \u00e9 um dos respons\u00e1veis pela dire\u00e7\u00e3o do Partido, brutalmente reprimido e posto na mais dura clandestinidade pelo regime protofascita de Horthy. Na luta interna que irrompe no Partido, Luk\u00e1cs \u2013 Blum era seu &#8220;nome de guerra&#8221; \u2013 alinha-se com a lideran\u00e7a de Jeno Kun, respaldada por importantes segmentos da dire\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista.<\/p>\n<p>A luta interna se trava com aspereza e a repentina morte de Landler<sup>13<\/sup> p\u00f5e Luk\u00e1cs \u00e0 frente da oposi\u00e7\u00e3o: cabe-lhe oferecer, no II Congresso do Partido (1929), uma alternativa \u00e0 linha de B\u00e9la Kun<sup>14<\/sup>, o que obriga o fil\u00f3sofo a um estudo exaustivo das realidades h\u00fangara e internacional. Da\u00ed resulta o documento que apresenta ao Congresso, as c\u00e9lebres Teses de Blum, nas quais prop\u00f5e, como objetivo do Partido, no combate pela derrubada da ditadura de Horthy, n\u00e3o uma rep\u00fablica conselhista (tal como a Comuna h\u00fangara de 1919), por\u00e9m uma ditadura democr\u00e1tica de oper\u00e1rios e camponeses, cujo conte\u00fado imediato e concreto n\u00e3o ultrapassaria os quadros econ\u00f4micos da sociedade burguesa<sup>15<\/sup>. Essa proposta, produto de um acurado estudo econ\u00f4mico-social e pol\u00edtico da Hungria, expressava tamb\u00e9m a matura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da ades\u00e3o de Luk\u00e1cs ao comunismo, fomentada pela sua pr\u00e1tica partid\u00e1ria e pelo seu melhor conhecimento das rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>A proposta, todavia, era formulada no momento mesmo em que a Internacional Comunista, numa viragem espetacular operada no seu VI Congresso (julho-setembro 1928), substitui de fato a pol\u00edtica da &#8220;frente \u00fanica prolet\u00e1ria&#8221; por aquela da &#8220;classe contra classe&#8221;, justificando-a pela altera\u00e7\u00e3o da conjuntura: \u00e0 &#8220;estabilidade relativa&#8221; do capitalismo sucederia um novo per\u00edodo (o &#8220;terceiro&#8221;), marcado pela sua &#8220;crise geral&#8221;, o que repunha \u2013 segundo a interpreta\u00e7\u00e3o da Iinternacional \u2013 a luta pela ditadura do proletariado na ordem do dia<sup>16<\/sup>. Em suma: Luk\u00e1cs operava um giro pol\u00edtico no sentido diametralmente oposto \u00e0quele a que se dirigia a nova orienta\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista \u2013 de fato, a proposta lukacsiana antecipava, individual e, na realidade, solitariamente, uma plataforma que s\u00f3 teria guarida no movimento comunista tardiamente, ap\u00f3s a ascens\u00e3o de Hitler, somente sendo abra\u00e7ada pelos comunistas depois da palavra de ordem da &#8220;frente ampla&#8221; tal como a apresentou G.Dimitrov no VII Congresso da Internacional Comunista (julho-agosto de 1935).<sup>17<\/sup><\/p>\n<p>O resultado n\u00e3o poderia ser outro: uma fragorosa derrota das Teses de Blum no congresso do Partido h\u00fangaro, que obrigou Luk\u00e1cs a uma autocr\u00edtica insincera (1929)<sup>18<\/sup> e o recolhimento em face da atividade pol\u00edtico-partid\u00e1ria. A derrota do fil\u00f3sofo na luta interna, por\u00e9m, marcou especialmente a ruptura do pr\u00f3prio Luk\u00e1cs com suas concep\u00e7\u00f5es ut\u00f3pico-esquerdistas (ele reconheceu, explicitamente, que as Teses de Blum constituem uma &#8220;conclus\u00e3o&#8221;<sup>19<\/sup>) e o passo ao segundo momento evolutivo do seu pensamento pol\u00edtico.<\/p>\n<p>3.<\/p>\n<p>\u00c0 concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica esbo\u00e7ada nas malogradas Teses de Blum faltava um substrato te\u00f3rico-filos\u00f3fico \u2013 substrato que permitiria a Luk\u00e1cs assent\u00e1-la com solidez e desenvolv\u00ea-la consequentemente. \u00c9 esse substrato que come\u00e7a a desenhar-se entre 1930 e 1931, quando, estagiando em Moscou antes de transferir-se para a Alemanha, tem a oportunidade de estudar manuscritos ainda in\u00e9ditos de Marx e Engels (que viriam \u00e0 luz em 1932: os <em>Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos de 1844<\/em> e <em>A ideologia alem\u00e3<\/em>) e de iniciar uma sistem\u00e1tica an\u00e1lise da obra de Lenin.<\/p>\n<p>A est\u00e2ncia de Luk\u00e1cs na Alemanha, entre 1931 e a chegada de Hitler ao poder, confrontando-o diretamente com a pol\u00edtica de &#8220;classe contra classe&#8221; \u2013 dos grandes partidos comunistas, talvez tenha sido o alem\u00e3o aquele que implementou mais radicalmente a orienta\u00e7\u00e3o do VI Congresso da Internacional. Escaldado pela derrota de Blum e continuando primordialmente preocupado em n\u00e3o ser alijado da luta antifascista por um afastamento qualquer do movimento comunista, Luk\u00e1cs combate aquela pol\u00edtica nos estreitos limites da sua atividade como cr\u00edtico liter\u00e1rio \u2013 donde os seus debates acerca do impressionismo e contra o vanguardismo sect\u00e1rio da esquerda alem\u00e3.<sup>20<\/sup><\/p>\n<p>Mas \u00e9 no duro ex\u00edlio na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica que o seu pensamento pol\u00edtico ingressa mesmo num segundo momento evolutivo: a\u00ed ele embasar\u00e1 teoricamente a concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, nas Teses de Blum, se encontrava ainda em <em>statu nascendi<\/em>. Justamente nesses anos, que v\u00e3o de 1933 a 1945 \u2013 mais de uma d\u00e9cada em que se entrecruzam os horrores do fascismo, a plena instaura\u00e7\u00e3o do stalinismo e do seu terror e a guerra \u2013, Luk\u00e1cs consolidar\u00e1 a sua concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica madura. Do ponto de vista te\u00f3rico-filos\u00f3fico, ele se apropriar\u00e1 intensivamente do conjunto da heran\u00e7a de Marx e Engels, superando os vieses que marcaram parte da sua elabora\u00e7\u00e3o dos anos 1920; em especial, seus estudos hist\u00f3ricos e econ\u00f4mico-pol\u00edticos erodem definitivamente os res\u00edduos do seu utopismo inicial; e tamb\u00e9m o aprofundamento de sua investiga\u00e7\u00e3o sobre a obra leniniana lhe propicia uma vis\u00e3o mais rica e abrangente do car\u00e1ter unit\u00e1rio do marxismo como concep\u00e7\u00e3o de mundo. Cumpre assinalar que, desde ent\u00e3o, Lenin se inscrever\u00e1 no universo intelectual de Luk\u00e1cs com uma centralidade que vai muito al\u00e9m da refer\u00eancia te\u00f3rica e pol\u00edtica \u2013 centralidade que, desenvolvida depois de 1956, redundar\u00e1 na entroniza\u00e7\u00e3o de Lenin como emblema para configurar a constru\u00e7\u00e3o do &#8220;homem novo&#8221; anunciado pelo comunismo.<sup>21<\/sup><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nesses anos est\u00e3o as ra\u00edzes da perspectiva te\u00f3rico-filos\u00f3fica do marxismo que, nos anos 1960, depurada e afinada, Luk\u00e1cs explorar\u00e1 ao limite, designando-a como ontol\u00f3gica e postulando-a como a \u00fanica capaz de, simultaneamente, guardar a fidelidade ao esp\u00edrito de Marx e assegurar o desenvolvimento cr\u00edtico-criador do marxismo (nas palavras do \u00faltimo Luk\u00e1cs, &#8220;o renascimento do marxismo&#8221;).<\/p>\n<p>Ainda aqui, contudo, foram as duras li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria que conduziram a reflex\u00e3o pol\u00edtica lukacsiana \u2013 de uma parte, a derrota das for\u00e7as democr\u00e1ticas e populares em face da instaura\u00e7\u00e3o do fascismo e, doutra, a terr\u00edvel experi\u00eancia do stalinismo. Se a primeira foi objeto da sua investiga\u00e7\u00e3o e resultou numa s\u00e9rie de ensaios publicados ao longo do per\u00edodo e mesmo ulteriormente, a segunda teve efeitos e impactos duradouros, por\u00e9m s\u00f3 explicitados no p\u00f3s-1956.<\/p>\n<p>Luk\u00e1cs, exilado na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica de Stalin, n\u00e3o se disp\u00f4s ao sacrif\u00edcio f\u00edsico para combater abertamente o stalinismo (o que, diga-se de passagem, n\u00e3o impediu que sofresse coer\u00e7\u00e3o direta<sup>22<\/sup>). A posi\u00e7\u00e3o de Luk\u00e1cs torna-se compreens\u00edvel se se leva em considera\u00e7\u00e3o a sua an\u00e1lise pol\u00edtica de fundo: o fil\u00f3sofo, no contexto da expans\u00e3o do fascismo e da Segunda Guerra Mundial, estava absolutamente convencido de que a sobreviv\u00eancia da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica era um valor absoluto, que condicionava tanto a vit\u00f3ria sobre a barb\u00e1rie fascista quanto a possibilidade de evolver futuro do socialismo; por isso, mesmo que intimamente desenvolvesse uma postura cr\u00edtica em face de Stalin e de seus m\u00e9todos desde 1938-1939, ele n\u00e3o a exprimiu publicamente. Julgava, e nunca recuou desde julgamento, que faz\u00ea-lo equivalia a abrir o flanco ao inimigo.<\/p>\n<p>L. Feuchtwanger, ali\u00e1s objeto de nota\u00e7\u00f5es cr\u00edticas em <em>O Romance hist\u00f3rico<\/em>, escreveu em alhum lugar que &#8220;ser m\u00e1rtir \u00e9 f\u00e1cil; dif\u00edcil, muito dif\u00edcil, \u00e9 permancer entre luzes e sombras pelo bem de uma ideia&#8221;. Tais palavras caem como uma luva para a problem\u00e1tica posi\u00e7\u00e3o assumida por Luk\u00e1cs: ele se recusou ao mart\u00edrio e travou contra o stalisnismo, nesses anos, o combate poss\u00edvel, que caracterizaria como o &#8220;combate espiritual de um <em>partisan<\/em>&#8221; : defendeu, no plano estrito da cultura, ideias colidentes com a doutrina oficial<sup>23<\/sup>, mas sempre proregendo-se com cita\u00e7\u00f5es protocolares de Stalin e com uma intencional restri\u00e7\u00e3o de seus ju\u00edzos \u00e0 esfera cultural.<sup>24<\/sup><\/p>\n<p>O fato \u00e9 que os sil\u00eancios de Luk\u00e1cs, sua rever\u00eancia formal a Stalin e a limita\u00e7\u00e3o da sua cr\u00edtica obl\u00edqua ao plano de cultura custaram-lhe o r\u00f3tulo de &#8220;stalinista&#8221;: G. Lichtheim mensiona &#8220;a resoluta ades\u00e3o de Luk\u00e1cs a Stalin&#8221; e, de forma mais delicada, Y. Ishaghpour credita-lhe uma &#8221; ades\u00e3o mais ou menos t\u00e1cita ao stalinismo&#8221;; outros, como H. Rosenberg, assinalam a &#8220;sua pat\u00e9tica resist\u00eancia ao stalinismo&#8221;; na contracorrente, cr\u00edticos como L. Kofler replicaram que &#8220;Luk\u00e1cs e o stalinismo distinguem-se entre si como o socialismo democr\u00e1tico distingue-se do socialismo burocr\u00e1tico. Entre eles n\u00e3o h\u00e1 nenhuma ponte&#8221;.<sup>25<\/sup><\/p>\n<p>Entendemos que este \u00faltimo ju\u00edzo est\u00e1 mais pr\u00f3ximo da verdade \u2013 mas ele requer determina\u00e7\u00f5es para tornar-se mais exato. De uma parte, \u00e9 necess\u00e1rio analisar em que medida a op\u00e7\u00e3o de Luk\u00e1cs imp\u00f4s-lhe limita\u00e7\u00f5es significativas no plano de suas avalia\u00e7\u00f5es cr\u00edtico-filos\u00f3ficas e est\u00e9ticas<sup>26<\/sup>; de outra, no que diz respeito diretamente a sua concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, h\u00e1 que investigar como tamb\u00e9m a sua op\u00e7\u00e3o pelo &#8220;combate espiritual de um partisan&#8221; no marco posto pela defesa do &#8220;socialismo em um s\u00f3 pa\u00eds&#8221; deixou sequelas que n\u00e3o podem ser ignoradas.<sup>27<\/sup><\/p>\n<p>4.<\/p>\n<p>Luk\u00e1cs retorna \u00e0 Hungria em 1945, depois de mais de um quarto de s\u00e9culo de aus\u00eancia for\u00e7ada. Chega com a Liberta\u00e7\u00e3o propiciada pelas vit\u00f3rias do Ex\u00e9rcito Vermelho e participa ativamente do processo de reconstru\u00e7\u00e3o nacional, no plano cultural (torna-se membro da dire\u00e7\u00e3o da Academia de Ci\u00eancias da Hungria, leciona na Universidade de Budapeste) e no plano pol\u00edtico (participa do Conselho Nacional da Frente Popular Patri\u00f3tica).<\/p>\n<p>Regressa a seu pa\u00eds projetando sua inser\u00e7\u00e3o na vida h\u00fangara a partir de duas hip\u00f3teses, intimamente vinculadas entre si: de uma parte, est\u00e1 convencido de que a conjuntura mundial propiciar\u00e1 a continuidade, sobre novos fundamentos, da &#8220;grande alian\u00e7a&#8221; constru\u00edda em 1941 entre as democracias ocidentais e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, favorecendo um clima internacional de paz e desenvolvimento progressista; de outra, acredita firmemente que a reconstru\u00e7\u00e3o nacional dever\u00e1 avan\u00e7ar mediante a unidade das for\u00e7as democr\u00e1ticas e populares (da\u00ed, entre outros, seu esfor\u00e7o de entendimento e uni\u00e3o entre socialdemocratas e comunistas), na constru\u00e7\u00e3o do que sustentava ser a democracia popular ou, nos termos lukacsianos da \u00e9poca, a nova democracia.<sup>28<\/sup><\/p>\n<p>Estas duas hip\u00f3teses condensavam o que, linhas acima, designamos como sendo a sua concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica madura, elaborada nos anos do ex\u00edlio na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. De uma parte, Luk\u00e1cs, mesmo convencido de que capitalismo e socialismo constitu\u00edam sistemas necessariamente mundiais, compulsoriamente demandantes do espa\u00e7o planet\u00e1rio, tinha por vi\u00e1vel a possibilidade da coexist\u00eancia dos dois sistemas sem guerras destrutivas (por isso, inclusive, em sua sincera e apaixonada participa\u00e7\u00e3o no Movimento pela Paz, em que exerceu expressiva interven\u00e7\u00e3o), o que depois de 1956 seria definido como coexist\u00eancia pac\u00edfica &#8211; e que n\u00e3o exclu\u00eda a din\u00e2mica das lutas de classes por meios outros que n\u00e3o a guerra \u2013 \u00e9 um dos pilares da concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica madura de Luk\u00e1cs. O outro, constituiu-o a sua vis\u00e3o da transi\u00e7\u00e3o ao socialismo: para Luk\u00e1cs, tratava-se de processo largo e complexo, que \u2013 se implicava ruptura e traumatismos no confronto com a rea\u00e7\u00e3o e com os inimigos de classe \u2013 teria tanto mais sucesso se se operasse mediante as vias pr\u00f3prias do enfrentamento de ideias e cosmovis\u00f5es que envolviam o conjunto da sociedade, com o recurso sistem\u00e1tico ao debate franco, voltado para a persuas\u00e3o e o convencimento. A forte interdepend\u00eancia entre os dois componentes elementares dessa concep\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia; um clima de paz internacional vincula-se diretamente \u00e0 maior limita\u00e7\u00e3o poss\u00edvel dos caminhos revolucion\u00e1rios e meios que dispensem a viol\u00eancia f\u00edsico-material; e tamb\u00e9m \u00e9 \u00f3bvia a conex\u00e3o dessa concep\u00e7\u00e3o com a &#8220;pol\u00edtica frentista&#8221; que Luk\u00e1cs antecipara em 1928.<sup>29<\/sup><\/p>\n<p>Esta \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o com que Luk\u00e1cs regressa \u00e0 Hungria e com a qual interv\u00e9m ativamente, por cerca de tr\u00eas anos, na vida pol\u00edtica e cultural de seu pa\u00eds, e, mais, na vida intelectual europeia \u2013 entre 1946 e 1949, viaja ao ocidente, participa de confer\u00eancias e congressos, tem obras publicadas no pa\u00eds e no exterior. Mas os supostos sobre os quais repousava a sua proje\u00e7\u00e3o n\u00e3o resistem \u00e0 prova de curto prazo da hist\u00f3ria: de uma parte, a Guerra Fria (e a guerra a quente, como o demonstrar\u00e1 na sequencia a conflagra\u00e7\u00e3o coreana) liquida com a alternativa da coexist\u00eancia sem belicismo; de outra, os aparatos de poder estatal-partid\u00e1rios, controlados por grupos afinados com o stalinismo (sem contar o recrudescimento da ditadura de Stalin no final desses anos), destroem no Leste Europeu as possibilidades de uma transi\u00e7\u00e3o socialista sem o recurso \u00e0 viol\u00eancia e ao terror.<\/p>\n<p>Na Hungria, o sinal dos novos tempos \u00e9 dado por Rakosi, m\u00e1ximo dirigente partid\u00e1rio e estatal: qualificando 1948 como &#8220;o ano da mudan\u00e7a&#8221;, o ditador eliminou da vida pol\u00edtica a pluralidade partid\u00e1ria e deu in\u00edcio \u00e0 ca\u00e7a a seus advers\u00e1rios \u2013 uma repress\u00e3o que atingiu tanto os n\u00e3o-comunistas como os opositores dos seus m\u00e9todos no interior do Partido. Como notou M\u00e9sz\u00e1ros, o primeiro passo desta ca\u00e7ada foi, no ver\u00e3o\/outono de 1949, o processo contra Rajk e sua execu\u00e7\u00e3o; e o regime avan\u00e7ou, simultaneamente, contra tudo o que significava a nova democracia: desencadeou-se uma cruzada p\u00fablica (e internacional: na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, por exemplo, Fadeiev reclamou &#8220;severas medidas administrativas&#8221;) contra Luk\u00e1cs.<sup>30<\/sup><\/p>\n<p>A partir de 1949, uma campanha de descr\u00e9dito e cal\u00fanias, orquestrada pela c\u00fapula do Partido, \u00e9 dirigida contra Lukc\u00e1s: aberta formalmente, sob orienta\u00e7\u00e3o pessoal de Rakosi, por L. Rudas em julho de 1949, ser\u00e1 conduzida subsequentemente por um grupo de intelectuais vinculados ao aparelho partid\u00e1rio (dentre os quais J. R\u00e9vai, M. Horv\u00e1th e J. Darvas<sup>31<\/sup>).<\/p>\n<p>O ataque a Luk\u00e1cs envolvia a sua interven\u00e7\u00e3o como cr\u00edtico liter\u00e1rio (a pretexto de seus livros publicados em h\u00fangaro depois de 1945: <em>Literatura e democracia<\/em> e <em>Por uma nova cultura h\u00fangara<\/em>) , retomava a condena\u00e7\u00e3o \u00e0s Teses de Blum e promovia um inquisitorial \u00e0s suas ideias acerca do realismo socialista e da significa\u00e7\u00e3o da literatura russa. Por\u00e9m, o alvo cebtral dos advers\u00e1rios era a concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que \u2013 segundo eles, e corretamente \u2013 se vinculava \u00e0s suas ideias acerca da cultura: a sua defesa de nova democracia. Indo diretamente ao n\u00f3 do problema, no mais longo dos seus derradeiros depoimentos, Luk\u00e1cs relembra o que o antagonizava, nos finais dos anos 1940, com o regime Rakosi:<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, que remonta \u00e0s Teses de Blum, a democracia popular \u00e9 um socialismo que nasce da democracia. Segundo o outro ponto de vista, a democracia popular \u00e9, desde o in\u00edcio, uma ditadura e, desde o in\u00edcio, aquela forma de stalinismo para a qual ela evoluiu ap\u00f3s o caso Tito.<sup>32<\/sup><\/p>\n<p>A cruzada anti-Luk\u00e1cs se acentua em 1950, repercutindo no movimento comunista internacional. Sob forte press\u00e3o, Luk\u00e1cs faz autocr\u00edtica, de novo recusando-se ao mart\u00edrio<sup>33<\/sup>, e \u00e9 obrigado, em 1951, a recolher-se \u00e0 vida privada. Mais uma vez, como em 1929, a interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do fil\u00f3sofo redunda numa derrota. Ele e suas ideias pol\u00edticas deixam a cena p\u00fablica \u2013 contudo, n\u00e3o ser\u00e1 por muito tempo.<\/p>\n<p>5.<\/p>\n<p>1956 \u00e9 o ano do &#8220;outubro h\u00fangaro&#8221;<sup>34<\/sup>. Fazendo a s\u00edntese do que se passou naquele ano, um comentarista registrou: &#8220;revolta dos intelectuais, queda do stalinista Rakosi; retorno ao poder de Imre N\u00e1gy; ressurgimento de uma imprensa livre e de partidos pol\u00edticos; desmoronamento do Partido Comunista; fim da coletiviza\u00e7\u00e3o; florescimento dos conselhos oper\u00e1rios; a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 esmagada pelas tropas russas&#8221;.<sup>35<\/sup><\/p>\n<p>O comentarista n\u00e3o mencionou que, na explos\u00e3o da crise do regime de Rakosi, tamb\u00e9m entraram na arena for\u00e7as contra-revolucion\u00e1rias, efetivamente reacion\u00e1rias; por\u00e9m, como assinalou um ex-marxista,<\/p>\n<p>[&#8230;]o dilema h\u00fangaro n\u00e3o era entre um socialismo existente, por mais imperfeito que fosse, e a contra-revolu\u00e7\u00e3o, e sim entre uma realidade anti-socialista e uma possibilidade socialista. A imensa maioria dos oper\u00e1rios, estudantes e intelectuais n\u00e3o combateria at\u00e9 a morte para reinstalar capitalistas nas f\u00e1bricas e sim instaurar uma democracia pol\u00edtica que tornasse real a posse das f\u00e1bricas pelos trabalhadores [&#8230;]. Diante do despertar das for\u00e7as reacion\u00e1rias h\u00fangaras, [&#8230;] a garantia eram os oper\u00e1rios h\u00fangaros organizados em conselhos [&#8230;], eram tamb\u00e9m os intelectuais e estudantes, que em sua maioria ainda acreditavam no socialismo e n\u00e3o queriam passar de uma ditadura a outra.<sup>36<\/sup><\/p>\n<p>O ex-marxista tem raz\u00e3o: o que explode na Hungria \u2013 tendo como pano de fundo a desestaliniza\u00e7\u00e3o que fora posta em curso a partir do &#8220;relat\u00f3rio secreto&#8221; de Kruschev ao XX Congresso do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (PCUS), em fevereiro de 1956 \u2013 \u00e9 a demanda de profundas mudan\u00e7as que levassem \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de algo como a nova democracia que Luk\u00e1cs propusera no imediato p\u00f3s-guerra. Por isso mesmo, o velho fil\u00f3sofo reingressa na cena pol\u00edtica com entusiasmo: em junho, pronuncia no &#8220;C\u00edrculo Pet\u00f6fi&#8221; a confer\u00eancia <em>A luta entre progresso e rea\u00e7\u00e3o na cultura contempor\u00e2nea<\/em> e, juntamente com Tibor D\u00e9ry, Giulia Illi\u00e9s e Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros<sup>37<\/sup>, lan\u00e7a a revista <em>Eszm\u00e9let <\/em>(Tomada de consci\u00eancia). De junho a novembro, seu ativismo parece juvenil: participa do processo de refunda\u00e7\u00e3o do partido e torna-se Ministro da Cultura do ef\u00eamero governo N\u00e1gy, cargo a que renuncia quando este prop\u00f5e a retirada da Hungria do Pacto de Vars\u00f3via.<sup>38<\/sup> Na repress\u00e3o que se segue ao 4 de novembro (quando as tropas russas entram em Budapeste para liquidar o levante)<sup>39<\/sup>, Luk\u00e1cs \u2013 ap\u00f3s um breve ref\u00fagio na embaixada da Iugosl\u00e1via, que ele mesmo considerou um &#8220;erro brutal&#8221; \u2013 \u00e9 deportado para a Rom\u00eania.<\/p>\n<p>No ano seguinte, obt\u00e9m permiss\u00e3o para retornar. Exige-se-lhe uma autocr\u00edtica, que ele recha\u00e7a frontalmente: &#8220;Luk\u00e1cs, o velho Luk\u00e1cs de 71 anos, recusa-se a fazer novamente sua autocr\u00edtica, a reconhecer seus erros, a submeter-se novamente \u00e0 autoridade e \u00e0 burocracia que se pretendem socialistas. No terceiro canto do galo, o Pedro petrificado do marxismo se recusa a renegar e a renegar-se&#8221;.<sup>40<\/sup> Concede-se-lhe uma esp\u00e9cie de <em>otium cum dignitate<\/em>, mas lhe \u00e9 negado o ingresso no Partido refundado<sup>41<\/sup> e se lhe imp\u00f5e a proibi\u00e7\u00e3o de suas publica\u00e7\u00f5es e atividades pol\u00edticas, ao mesmo tempo em que nova campanha \u00e9 oficialmente aberta contra ele.<sup>42<\/sup><\/p>\n<p>Logo afinado com os novos tempos da desestaliniza\u00e7\u00e3o, o governo de Kadar, ap\u00f3s a &#8220;normaliza\u00e7\u00e3o&#8221; (ou seja, quando a oposi\u00e7\u00e3o expressa em outubro de 1956 foi desarticulada), orienta-se num sentido auto-reformista: promove significativas altera\u00e7\u00f5es na ordem econ\u00f4mica e instaura um clima de toler\u00e2ncia pol\u00edtica e ideol\u00f3gica. Em face deste novo rumo, Luk\u00e1cs preocupa-se fundamentalmente em apoiar as mudan\u00e7as que parecem progressistas e democratizantes: definia sua postura no quadro h\u00fangaro como &#8220;n\u00e3o oposi\u00e7\u00e3o, mas reforma&#8221;, sublinhando que o essencial era a solu\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o b\u00e1sica: a quest\u00e3o democr\u00e1tica.<sup>43<\/sup><\/p>\n<p>A\u00ed reside o componente in\u00e9dito que enriquece a concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica madura de Luk\u00e1cs e a eleva a um patamar mais alto: ainda que prosseguindo e prolongando as ideias que o conduziram \u00e0 defesa da nova democracia, \u00e9 leg\u00edtimo afirmar que, no p\u00f3s-56, o fil\u00f3sofo chega ao est\u00e1gio culminante de sua reflex\u00e3o pol\u00edtica, configurador do terceiro momento a que aludimos: a democracia defendida por ele, e qualificada como socialista, prop\u00f5e-se como a via para a reconvers\u00e3o das sociedades sovi\u00e9ticas e do leste em forma\u00e7\u00f5es societ\u00e1rias compat\u00edveis com o projeto emancipador que animou o pensamento marxiano e marxista antes da sua pervers\u00e3o pelo dogmatismo e pelo sectarismo.<\/p>\n<p>De fato, ap\u00f3s o XX Congresso do PCUS e seu retorno da deporta\u00e7\u00e3o, Luk\u00e1cs vislumbra a concreta possibilidade de uma auto-reforma do &#8220;socialismo real&#8221; (express\u00e3o, ali\u00e1s, estranha a Luk\u00e1cs). Avalia o per\u00edodo que se abre como uma transi\u00e7\u00e3o que pode resgatar as promessas emancipadoras do Outubro vermelho de 1917, desde que se erradiquem as ra\u00edzes do stalinismo e, ao mesmo tempo, mantenha-se e se aprofunde a cr\u00edtica da sociedade burguesa<sup>44<\/sup> \u2013 que, para ele, volta a experimentar, nos anos 1960, uma crise profunda<sup>45<\/sup>. No plano pol\u00edtico, pois, trata-se de um combate em duas frentes: contra o stalinismo (que ele jamais reduziu ao clich\u00ea do &#8220;culto \u00e0 personalidade&#8221;) e contras as falsas alternativas oferecidas a ele (no limite, a restaura\u00e7\u00e3o da democracia pol\u00edtica formal burguesa).<\/p>\n<p>Luk\u00e1cs estava firmemente convencido de que este combate em duas frentes implicava uma profunda renova\u00e7\u00e3o do pensamento marxista; donde o seu esfor\u00e7o te\u00f3rico para fomentar o que chamou de renascimento do marxismo, esfor\u00e7o do qual s\u00e3o testemunhos documentais a monumental <em>Est\u00e9tica <\/em>(cuja primeira parte, a \u00fanica conclu\u00edda, sai em 1963) e a <em>Ontologia do ser social<\/em> (publicadas, a &#8220;grande ontologia&#8221;, em 1976-1981, e a &#8220;pequena&#8221;, em 1986), bem como o seu est\u00edmulo \u00e0s pesquisas de investigadores jovens, como aqueles que ficaram conhecidos como membros da &#8220;Escola de Budapeste&#8221;.<sup>46<\/sup><\/p>\n<p>Neste per\u00edodo, Luk\u00e1cs p\u00f4de expressar livremente o seu pensamento pol\u00edtico<sup>47<\/sup>, explicitando-o claramente, sem as restri\u00e7\u00f5es e os compromissos a que se condicionara anteriormente. Os textos mais expressivos desta quadra s\u00e3o dirigidos \u00e0 cr\u00edtica do stalinismo e suas sequelas e p\u00f5em a quest\u00e3o da democracia socialista na ordem do dia. E neles se expressa, reiteradamente, a aposta na auto-reforma do socialismo, sempre sinalizada pelo apoio que Luk\u00e1cs ofereceu \u00e0 lideran\u00e7a sovi\u00e9tica de Kruschev.<\/p>\n<p>Esta aposta, como o desenvolvimento posterior da hist\u00f3ria demonstrou, foi perdida: as regress\u00f5es do regime sovi\u00e9tico sob Brejnev reverteram a sua possibilidade e, no fim dos anos 1980, os tardios intentos de Gorbachov comprovaram que a auto-reforma era invi\u00e1vel, do que derivou a insustentabilidade da experi\u00eancia iniciada em 1917. Luk\u00e1cs, por\u00e9m, n\u00e3o assistiu a este desfecho.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 forte indica\u00e7\u00f5es de que ele pressentiu, com a queda de Krusckev (1965) e especialmente com a repress\u00e3o \u00e0 auto-reforma empreendida na Tchecoslov\u00e1quia (agosto de 1968<sup>48<\/sup>), que o projeto auto-reformador em que estava empenhado corria risco substantivo. Por isto, reagiu imediatamente \u00e0 invas\u00e3o da Tchecoslov\u00e1quia, repudiando a interven\u00e7\u00e3o das for\u00e7as do Pacto de Vars\u00f3via<sup>49<\/sup> e redigindo o ensaio em que sintetiza, clara e inequivocamente, este terceiro momento da sua evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, em formula\u00e7\u00f5es que podem ser tomadas como conclusivas do seu itiner\u00e1rio comunista em texto que entregou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do seu partido e s\u00f3 foi publicado postumamente (1985): <em>Demokratisierung heute um morgen<\/em>, integralmente traduzido nesse volume sob o t\u00edtulo <em>O processo de democratiza\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Neste ensaio, coligido no presente volume e em que recusa simultaneamente o modelo stalinista (e todas as suas deriva\u00e7\u00f5es) e a democracia pol\u00edtica de corte formal-burgu\u00eas (ou suas variantes, que seduziram muitos daqueles que se opuseram ao stalinismo), Luk\u00e1cs p\u00f5e, como \u00fanica alternativa progressista \u00e0s estruturas do &#8220;socialismo real&#8221;, a democracia socialista, que s\u00f3 pode ter efetividade se se constituir como democracia da vida cotidiana; mais exatamente: &#8220;uma democracia da vida cotidiana, tal qual apareceu nos conselhos oper\u00e1rios de 1871, 1905 e 1917 e tal qual existiu nos pa\u00edses socialistas e deve a\u00ed ser novamente despertada&#8221;. Comentando essa passagem, nota justamente um cr\u00edtico que Luk\u00e1cs op\u00f5e essa democracia dos conselhos oper\u00e1rios &#8220;simultaneamente \u00e0 burocracia arbitr\u00e1ria e \u00e0 democracia burguesa, como um sistema de democracia aut\u00eantica e real, que surge cada vez que o proletariado revolucion\u00e1rio aparece no palco da Hist\u00f3ria&#8221;.<sup>50<\/sup><\/p>\n<p>De fato, no \u00faltimo Luk\u00e1cs, a transi\u00e7\u00e3o socialista quase se identifica com um profundo e radical processo de democratiza\u00e7\u00e3o, a ser perseguido sem concess\u00f5es se o horizonte da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos comunistas for mesmo a edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade sem explora\u00e7\u00e3o, opress\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o \u2013 isto \u00e9, a sociedade comunista.<\/p>\n<p>6.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que Luk\u00e1cs veio desenvolvendo desde a sua ades\u00e3o ao comunismo n\u00e3o constitui o n\u00facleo central da sua contribui\u00e7\u00e3o ao pensamento marxista: se, na sua obra, como salientamos, a dimens\u00e3o pol\u00edtica est\u00e1 sempre presente, conformando mesmo um estrato significativo da sua atividade intelectual e pr\u00e1tico-concreta, \u00e9 preciso sublinhar que ela n\u00e3o disp\u00f5e do privil\u00e9gio de que goza em marxistas cuja aten\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria voltou-se para a pol\u00edtica enquanto esfera com estatuto, legalidade e relev\u00e2ncia espec\u00edficos (como, por exemplo, em Antonio Gramsci).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 pertinente, nesta oportunidade, identificar as raz\u00f5es te\u00f3ricas e\/ou filos\u00f3ficas deste fato. O que importa \u00e9 ressaltar que, no conjunto da obra lukacsiana, a pol\u00edtica n\u00e3o comparece como um objeto aut\u00f4nomo, pass\u00edvel de ser tematizado em suas peculiaridades. Em poucas palavras: h\u00e1, no conjunto da obra lukacsiana, uma \u2013 insistimos \u2013 inequ\u00edvoca dimens\u00e3o pol\u00edtica; mas n\u00e3o se pode, legitimamente, considerar a exist\u00eancia de algo como que um sistema de teoria pol\u00edtica na obra lukacsiana: Luk\u00e1cs foi um pensador pol\u00edtico, n\u00e3o um pensador da pol\u00edtica. Esta determina\u00e7\u00e3o n\u00e3o retira da sua concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a import\u00e2ncia, como tampouco minimiza a sua significa\u00e7\u00e3o; apenas permite apontar o espa\u00e7o restrito em que decorre a sua reflex\u00e3o pol\u00edtica, subordinada n\u00e3o a um tratamento sistem\u00e1tico, mas as exig\u00eancias decorrentes das suas concep\u00e7\u00f5es te\u00f3rico-filos\u00f3ficas e a injun\u00e7\u00f5es do seu protagonismo como sujeito pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Nos textos recolhidos neste volume, o leitor certamente notar\u00e1 que o espa\u00e7o restrito a que nos referimos acima, determinante do arsenal de categorias com que Luk\u00e1cs trata os processos pol\u00edticos<sup>51<\/sup>, tem fortes incid\u00eancias na an\u00e1lise pol\u00edtica lukacsiana: por exemplo, a sua cr\u00edtica de princ\u00edpio ao stalinismo frequentemente \u00e9 viciada por uma redu\u00e7\u00e3o teoricista \u2013 ao colocar no centro de suas aprecia\u00e7\u00f5es, vigorosa e corretamente, a quest\u00e3o te\u00f3rico-metodol\u00f3gica (em especial, o contraste das concep\u00e7\u00f5es stalinianas e stalinistas com as de Lenin), Luk\u00e1cs n\u00e3o apreende a refer\u00eancia hist\u00f3rico-concreta da experi\u00eancia sovi\u00e9tica (seus condicionantes econ\u00f4mico-sociais, a contextualidade internacional, as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas etc.) que aparece rarefeita e com pouco peso.<\/p>\n<p>Deriva dessa redu\u00e7\u00e3o teoricista um vi\u00e9s que pode induzir a avalia\u00e7\u00f5es unilaterais, pouco aptas a apreender os nexos complicad\u00edssimos entre teoria e pr\u00e1xis, na suposi\u00e7\u00e3o de que a correta imposi\u00e7\u00e3o te\u00f3rico-metodol\u00f3gica conduz, pela for\u00e7a da sua verdade, a solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas adequadas. Poder-se-ia argumentar, num aprofundamento cr\u00edtico que escapa ao escopo desta introdu\u00e7\u00e3o, que a op\u00e7\u00e3o de fundo de Luk\u00e1cs \u2013 que, p\u00e1ginas atr\u00e1s, sinalizamos como valor absoluto (a exist\u00eancia da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) e do qual ele nunca abriu m\u00e3o \u2013 responde, centralmente, pelas limita\u00e7\u00f5es da an\u00e1lise pol\u00edtica lukacsiana, na qual, quase sempre, predomina um otimismo n\u00e3o suficientemente fundado.<\/p>\n<p>Enfim, esse otimismo e mais aquela redu\u00e7\u00e3o teoricista poderiam ser responsabilizados pelas derrotas pol\u00edticas que, independentemente da sua congru\u00eancia te\u00f3rico-metodol\u00f3gica e da sua coer\u00eancia ideol\u00f3gica, Luk\u00e1cs protagonizou, quer ao tempo das Teses de Blum, quer no per\u00edodo em que batalhou pela nova democracia, quer nos anos em que emprestou seu apoio \u00e0 auto-reforma que Kruschev tentou implementar.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica cuidadosa e radical da concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Luk\u00e1cs ainda est\u00e1 por fazer-se e o primeiro passo para conduzi-la com rigor \u00e9 conhec\u00ea-la, o que reclama imperativamente o estudo dos textos como os coligidos nesse volume. E, na condu\u00e7\u00e3o dessa cr\u00edtica, h\u00e1 que n\u00e3o perder de vista o esp\u00edrito geral da obra lukacsiana p\u00f3s-1918: Luk\u00e1cs morreu afirmando que &#8220;o pior socialismo \u00e9 melhor que o melhor capitalismo&#8221;.<sup>52<\/sup><\/p>\n<p>7.<\/p>\n<p>Cumpre, finalmente, lembrar ao leitor, em especial ao mais jovem, que a correta avalia\u00e7\u00e3o dos textos aqui reunidos sup\u00f5e o conhecimento da contextualidade hist\u00f3rico-pol\u00edtica no interior da qual foram elaborados por Luk\u00e1cs. Depois de mais de um quarto de s\u00e9culo, que registrou uma profunda derrota pol\u00edtico-ideol\u00f3gica da classe oper\u00e1ria e das camadas trabalhadoras em todo o mundo, que assistiu ao colapso das experi\u00eancias p\u00f3s revolucion\u00e1rias, que testemunhou o redimensionamento da domina\u00e7\u00e3o do capital e o descr\u00e9dito das proposi\u00e7\u00f5es socialistas \u2013 depois dessas quase tr\u00eas d\u00e9cadas de reacionarismo pol\u00edtico e aviltamento cultural, o empenho de Luk\u00e1cs na renova\u00e7\u00e3o do socialismo e no renascimento do marxismo pode parecer algo anacr\u00f4nico.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no que toca a Luk\u00e1cs, inclusive no que diz respeito \u00e0 sua reflex\u00e3o pol\u00edtica, \u00e9 preciso determinar &#8220;o que \u00e9 vivo e o que \u00e9 morto&#8221; na sua obra; por\u00e9m entendemos igualmente que esta avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode excluir a temporalidade hist\u00f3rica em que o fil\u00f3sofo se moveu. Os textos aqui reunidos s\u00e3o historicamente determinados: trazem a marca da esperan\u00e7a aberta com os primeiros passos para al\u00e9m do stalinismo (da expectativa de um socialismo com rosto humano), da crise da ordem capitalista (a luta pelos direitos civis e a rebeldia nos campi dos Estados Unidos; o crescimento dos partidos comunistas e do movimento sindical classista na Europa Ocidental; a rebeli\u00e3o estudantil na Fran\u00e7a e Alemanha; a derrota do imperialismo na sua agress\u00e3o ao povo do Vietn\u00e3), da quebra dos grilh\u00f5es colonialistas na \u00c1frica etc. Ent\u00e3o, uma cultura anticapitalista se generalizava e um pensador do n\u00edvel e da audi\u00eancia de Sartre afirmava com tranquilidade que &#8220;o marxismo \u00e9 a filosofia do nosso tempo&#8221;.<\/p>\n<p>Esta temporalidade hist\u00f3rica esgotou-se. Mas \u00e9 grosseiro equ\u00edvoco supor que a hist\u00f3ria chegou ao fim: Clio, sabe-se, \u00e9 uma deusa ardilosa. Reprimidas mas n\u00e3o suprimidas, mistificadas ideologicamente e\/ou manipuladas politicamente, as lutas sociais reais prosseguem e revelam, na sua essencialidade, o condicionalismo maior das lutas de classes: metamorfoseada, a ordem do capital n\u00e3o perdeu suas caracter\u00edsticas estruturais de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o e continua produzindo e reproduzindo a sua negatividade. Quando esta reunir as condi\u00e7\u00f5es para aflorar \u00e0 superf\u00edcie da vida social, colocar-se-\u00e1 em novo patamar a quest\u00e3o central da transforma\u00e7\u00e3o desta ordem societ\u00e1ria \u2013 colocar-se-\u00e1 abertamente o dilema entre uma alternativa socialista renovada e a cronifica\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie capitalista.<\/p>\n<p>Nesta perspectiva, os textos pol\u00edticos de Luk\u00e1cs deixam de ser importantes documentos referidos a uma conjuntura hist\u00f3rica passada. Adquirem uma nova significa\u00e7\u00e3o e uma extraordin\u00e1ria atualidade: podem indicar, pela cr\u00edtica do passado, um rumo para o futuro.<\/p>\n<p>Esta \u00e9, ali\u00e1s, a raz\u00e3o pela qual nos animamos a tornar acess\u00edveis ao leitor brasileiro os textos que comp\u00f5em o presente volume.<\/p>\n<p>Recreio dos Bandeirantes, mar\u00e7o de 2008<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p><sup>1<\/sup> Uma s\u00edntese bibliogr\u00e1fica da longa trajet\u00f3ria de Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs (1885-1971) est\u00e1 dispon\u00edvel em G. Luk\u00e1cs, <em>O jovem Marx e outros escritos de filosofia<\/em>, Rio de Janeiro, UFRJ, 2007, p. 15-24<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> A concep\u00e7\u00e3o lukacsiana do &#8220;marxismo ortodoxo&#8221; foi formulada no ensaio de abertura de<em> Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em> (1923); releva notar que, posteriormente, ao criticar essa obra, Luk\u00e1cs n\u00e3o estendeu sua autocr\u00edtica \u00e0quela formula\u00e7\u00e3o, em que \u00e9 central a rela\u00e7\u00e3o entre elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1xis (ainda que tenha feito restri\u00e7\u00f5es \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de pr\u00e1xis que atravessa o conjunto do livro). Tamb\u00e9m importa observar que, em meados dos anos 1920 (1925 ou 1926), precedendo as autocr\u00edticas que realizou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em>, Luk\u00e1cs redigiu um texto em que a defende das cr\u00edticas que, imediatamente ap\u00f3s a sua publica\u00e7\u00e3o, lhe foram dirigidas por A. M. Deborin (1881-1963) e L. Rudas (1885-1950), texto que s\u00f3 veio \u00e0 luz postumamente (1996), sendo vertido ao ingl\u00eas pouco depois \u2013 ver G. Luk\u00e1cs, <em>A defense of History and class consciousness. Tailism and dialetic<\/em> [Uma defesa de Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe. Reboquismo e dial\u00e9tica], Londres, Verso, 2000.<\/p>\n<p><sup>3<\/sup> C.N. Coutinho, &#8220;Luk\u00e1cs, a ontologia e a pol\u00edtica&#8221;, em R.Antunes e W.L. Rego (org.), <em>Luk\u00e1cs. Um Galileu no s\u00e9culo XX<\/em>, S\u00e3o Paulo, Boitempo, 1996, p.23.<\/p>\n<p>4 Para todas as refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas aqui assinaladas, ver a bibliografia citada na nota 1.<\/p>\n<p>5 N\u00e3o casualmente, uma cole\u00e7\u00e3o brasileira dedicada \u00e0s &#8220;fontes do pensamento pol\u00edtico&#8221; foi inaugurada com um estudo e uma seleta de textos pol\u00edticos de Luk\u00e1cs \u2013 trata-se do volume <em>Luk\u00e1cs<\/em>, preparado por Leandro Konder (Porto Alegre, L&#038;PM, 1980)<\/p>\n<p><sup>6<\/sup> Para uma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 Comuna H\u00fangara, ver, entre outros, G.D.H. Cole, <em>Historia del pensamiento socialista<\/em>, M\u00e9xico, Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, 1961, v.5; Rudolf L. T\u00f6kes,<em> B\u00e9la Kun and the Hungarian Soviet Republic<\/em>, Nova York Iorque\/Londres, Praeger\/Pall Mall Press, 1967; Pierre Brou\u00e9, <em>Hist\u00f3ria da Internacional Comunist<\/em>a, S\u00e3o Paulo, Sundermann, 2007, t.1, p. 121 e ss.<\/p>\n<p><sup>7<\/sup> Para uma s\u00famula dos eventos alem\u00e3es da &#8220;a\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o&#8221; (de 1921) at\u00e9 \u00e0 derrora comunista de 1923, ver Isabel Loureiro, <em>A revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 (1918-1923)<\/em>, S\u00e3o Paulo, Unesp, 2005; uma aprecia\u00e7\u00e3o, de vi\u00e9s trotskista, encontra-se em Pierre Brou\u00e9, cit., t. 1, p. 268 e ss. ; uma vis\u00e3o sint\u00e9tica e equilibrada do colapso da Rep\u00fablica de Weimar \u00e9 fornecida por Peter Gay, no ap\u00eandice a seu livro <em>A cultura de Weimar<\/em>, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.<\/p>\n<p><sup>8<\/sup> Entre 1921 e 1923, Luk\u00e1cs tamb\u00e9m escreveu textos significativos para <em>Rote Fahne<\/em> (Bandeira vermelha), peri\u00f3dico do Partido Comunista alem\u00e3o; tais textos, express\u00e3o das suas concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e pol\u00edticas \u00e0 \u00e9poca, foram integralmente publicados por M. L\u00f6wy em <em>G. Luk\u00e1cs, Litt\u00e9rature, philosophie, marxisme<\/em>, Paris, PUF, 1978.<\/p>\n<p><sup>9<\/sup> Acerca do messianismo do &#8220;jovem&#8221; Luk\u00e1cs, ver Jos\u00e9 Ignacio L\u00f3pez Soria, <em>De lo tr\u00e1gico a lo ut\u00f3pico. El primer Luk\u00e1cs<\/em>, Caracas, Monte \u00c1vila, 1978; Leandro Konder, &#8220;Rebeldia, desespero e revolu\u00e7\u00e3o no jovem Luk\u00e1cs&#8221;, <em>Temas de ci\u00eancias humanas<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 2, 1978; Michael L\u00f6wy, <em>Reden\u00e7\u00e3o e Utopia. O juda\u00edsmo libert\u00e1rio na Europa Central<\/em>, S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 1989; Carlos Eduardo Jord\u00e3o Machado, <em>As formas e a vida. Est\u00e9tica e \u00e9tica no jovem Luk\u00e1cs<\/em> (1910\/1918), S\u00e3o Paulo, UNESP, 2004.<\/p>\n<p><sup>10<\/sup> Recordando esse per\u00edodo, Luk\u00e1cs declarou, d\u00e9cadas depois: &#8220;\u00c9ramos todos sect\u00e1rios messi\u00e2nicos. Acredit\u00e1vamos todos na revolu\u00e7\u00e3o mundial como num fato para acontecer amanh\u00e3&#8221; (G. Luk\u00e1cs, <em>Pensamento vivido. Autobiografia em di\u00e1logo<\/em>. S\u00e3o Paulo\/Vi\u00e7osa, Ad Hominem\/UFV, 1999, p.77).<\/p>\n<p><sup>11<\/sup> A cita\u00e7\u00e3o \u00e9 feita conforme Annie Kriegel, <em>Las Internacionales obreras (1864-1943)<\/em>, Barcelona, Orbis, 1986, p.92.<\/p>\n<p><sup>12<\/sup> Estudando esse per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o do pensamento pol\u00edtico de Luk\u00e1cs, Michael L\u00f6wy (<em>A evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Luk\u00e1cs: 1909-1929<\/em>, S\u00e3o Paulo, Cortez, 1998, p. 234-237), numa instigante interpreta\u00e7\u00e3o \u2013 da qual divergimos -, aponta a relev\u00e2ncia do ensaio lukacsiano <em>Moses Hess e o problema da dial\u00e9tica idealista<\/em> (1926) na inflex\u00e3o que, segundo sua an\u00e1lise, levaria \u00e0 &#8220;ades\u00e3o de Luk\u00e1cs ao termidor sovi\u00e9tico&#8221;.<\/p>\n<p><sup>13<\/sup> Jeno Landler (1875-1928) desempenhou importantes fun\u00e7\u00f5es durante a Rep\u00fablica H\u00fangara dos Conselhos; membro do Comit\u00ea Central do Partido h\u00fangaro desde 1919, dirigiu-o durante a emigra\u00e7\u00e3o na \u00c1ustria.<\/p>\n<p><sup>14<\/sup> Ver, infra, a nota 1 do ensaio &#8220;Para al\u00e9m de Stalin&#8221;.<\/p>\n<p><sup>15<\/sup> Excertos deste documento foram publicados no Brasil: &#8220;Teses de Blum (Extrato). A ditadura democr\u00e1tica&#8221;, <em>Temas de ci\u00eancias humanas<\/em>, S\u00e3o Paulo, n. 7, 1980.<\/p>\n<p><sup>16<\/sup> A ruptura de toda alian\u00e7a com os socialdemocratas, nesta perspectiva, tornou-se inevit\u00e1vel, uma vez que a socialdemocracia fora identificada como &#8220;irm\u00e3 g\u00eamea do fascismo&#8221;. O car\u00e1ter absolutamente irrealista e suicida desta pol\u00edtica, que contribuiu para facilitar a ascens\u00e3o do fascismo na Alemanha, \u00e9 flagrante na aprecia\u00e7\u00e3o que E. Thaelmann, principal dirigente comunista alem\u00e3o \u00e0 \u00e9poca, formulava da resposta \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o nazista de 22 de janeiro de 1933, realizada pelas tropas de assalto diante da Karl Liebknecht Haus: &#8220;O 22 de janeiro desenvolveu-se sob o signo de uma viragem das for\u00e7as de classe em favor da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria&#8221; (apud Annie Kriegel, cit., p. 111). A aprecia\u00e7\u00e3o de Thaelmann \u00e9 de 1\u00ba de fevereiro; mas, a 30 de janeiro, j\u00e1 Hitler fora investido por Hindenburg no cargo de chanceler&#8230;<\/p>\n<p><sup>17<\/sup> Ver as interven\u00e7\u00f5es de Dimitrov no referido Congresso em G. Dimitrov, <em>Obras escolhidas em tr\u00eas volumes<\/em>, S\u00f3fia, S\u00f3fia-Press, 1982, v. 2, p. 22-135.<\/p>\n<p><sup>18<\/sup> Sobre esta autocr\u00edtica, quase quatro d\u00e9cadas depois Luk\u00e1cs esclareceu: &#8220;Quando soube de fontes confi\u00e1veis que B\u00e9la Kun preparava a minha exclus\u00e3o do partido na condi\u00e7\u00e3o de &#8220;liquidador&#8221;, decidi renunciar a prosseguir a luta, pois sabia da influ\u00eancia de Kun na Internacional, e publiquei uma &#8216; autocr\u00edtica&#8217;. Embora naquela \u00e9poca eu estivesse profundamente convencido de estar defendendo um ponto de vista correto, sabia tamb\u00e9m \u2013 pelo destino de Karl Korsch, por exemplo \u2013 que a exclus\u00e3o do Partido significava a impossibilidade de participar ativamente da luta contra o fascismo iminente. Como &#8216; bilhete de entrada&#8217; para tal atividade, redigi esta autocr\u00edtica, j\u00e1 que, sob tais circunst\u00e2ncias, eu n\u00e3o podia e n\u00e3o queria mais trabalhar no movimento h\u00fangaro. Era evidente que esta autocr\u00edtica n\u00e3o podia ser levada a s\u00e9rio: a mudan\u00e7a da opini\u00e3o fundamental que sustentava as teses [&#8230;] passou a ser doravante o fio condutor para minha atividade te\u00f3rica e pr\u00e1tica&#8221;. Ver &#8220;Pref\u00e1cio&#8221; (1967) em <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em>, S\u00e3o Paulo, Martins Fontes, 2003, p. 36-37.<\/p>\n<p><sup>19<\/sup> Ibid., p. 37.<\/p>\n<p><sup>20<\/sup> Quanto a isto, s\u00e3o emblem\u00e1ticos os seus ensaios, de 1932, Tend\u00eancia ou partidarismo?, Reportagem ou configura\u00e7\u00e3o? Observa\u00e7\u00f5es cr\u00edticas a prop\u00f3sito do romance de Ottwalt e Da necessidade, virtude.Esta linha de cr\u00edtica ter\u00e1 prosseguimento nas pol\u00eamicas que envolver\u00e3o, at\u00e9 1938, a intelectualidade alem\u00e3 exilada na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, como o comprovam as interven\u00e7\u00f5es de Luk\u00e1cs nos peri\u00f3dicos Das Wort (A palavra) e Internationale Literatur (Literatura Internacional). Ver, sobre este ponto, Carlos Eduardo Jord\u00e3o Machado, Um cap\u00edtulo da hist\u00f3ria da modernidade est\u00e9tica: debate sobre o expressionismo, S\u00e3o Paulo, UNESP, 1998.<\/p>\n<p><sup>21<\/sup> A nosso ju\u00edzo, a rela\u00e7\u00e3o do \u00faltimo, a rela\u00e7\u00e3o do \u00faltimo Luk\u00e1cs com a figura de Lenin (e poder-se-ia pesquisar sua similitude com a rela\u00e7\u00e3o do Hegel posterior a 1805 com a figura de Napole\u00e3o) est\u00e1 marcada por uma forte idealiza\u00e7\u00e3o do m\u00e1ximo dirigente bolchevique, com implica\u00e7\u00f5es que comprometem a an\u00e1lise pol\u00edtica que o velho Luk\u00e1cs realiza dos rumos tomados pela revolu\u00e7\u00e3o de outubro.<\/p>\n<p><sup>22<\/sup> Em 1941, Luk\u00e1cs foi preso pela pol\u00edcia pol\u00edtica stalinista e s\u00f3 foi libertado, ap\u00f3s alguns meses, gra\u00e7as aos empenhos de G. Dimitrov, ent\u00e3o o mais alto dirigente da Internacional Comunista (ver I. M\u00e9sz\u00e1ros, <em>Luk\u00e1cs&#8217; concept of dialetic<\/em>, Londres, Merlin Press, 1972, p. 142); esta pris\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m referida por M. L\u00f6wy, <em>A evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Luk\u00e1cs: 1909-1929<\/em>, cit., p. 244-245) e por Tibor Szab\u00f3, <em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs. Filosofo aut\u00f4nomo<\/em> (N\u00e1poles, La Citt\u00e1 Del Sole, 2005, p. 51), que recorda que ingualmente seu enteado (Ferenc J\u00e1nossy) esteve nos c\u00e1rceres stalinistas.<\/p>\n<p><sup>23<\/sup> S\u00e3o exemplos bastantes, ademais da obra sobre Hegel (conclu\u00edda em 1938 e publicada dez anos depois) e dos textos reunidos nos <em>Escritos dos Moscou<\/em>, dentre outros, os ensaios <em>A fisionomia intelectual dos personagens art\u00edsticos <\/em>(1936), <em>Tribuno do povo ou burocrata<\/em> (1940), <em>Progresso e rea\u00e7\u00e3o na literatura alem\u00e3<\/em> e <em>A literatura alem\u00e3 na era do imperialismo<\/em> (ambos de 1944-1945, reunidos depois num volume sob o t\u00edtulo geral de <em>Breve hist\u00f3ria da literatura alem\u00e3<\/em>).<\/p>\n<p><sup>24<\/sup> Um exemplo emblem\u00e1tico dos procedimentos lukacsianos diante de Stalin aparece na entrada dos anos 1950. Em 20 de junho de 1950, o secret\u00e1rio-geral publicou, no <em>Pravda<\/em>, um longo artigo &#8220;O marxismo e os problemas da lingu\u00edstica&#8221; em que criticava as teses do linguista N. J. Marr. (Sobre o contexto imediato em que Stalin preparou o citado artigo, ver o cap. 10 de Z. A. Medvedev, <em>Um Stalin desconhecido<\/em>, Rio de Janeiro, Record, 2006.) Pois bem: cerca de um ano depois (29 de junho de 1951), Luk\u00e1cs pronunciou na Academia de Ci\u00eancias da Hungria a confer\u00eancia &#8220;Arte e literatura com superestrutura&#8221;, na qual, ap\u00f3s render homenagens formais ao texto de Stalin, realiza uma &#8220;interpreta\u00e7\u00e3o&#8221; do seu pensamento que \u00e9, de fato, uma refuta\u00e7\u00e3o das suas teses.<\/p>\n<p><sup>25<\/sup> Uma larga bibliografia trata da rela\u00e7\u00e3o entre Luk\u00e1cs e o stalinismo; a t\u00edtulo meramente ilustrativo, ver George Lichtheim, &#8220;Luk\u00e1cs and stalinism&#8221;, <em>New Left Review<\/em>, Londres, n. 91, 1975; Michael L\u00f6wy, &#8220;Luk\u00e1cs and stalinism&#8221;, em Gareth Stedman Jones ET AL., <em>Western marxism. A critical reader<\/em>, Londres, Verso, 1978 (com modifica\u00e7\u00f5es, este ensaio foi conclu\u00eddo em Michael L\u00f6wy, <em>A evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Luk\u00e1cs<\/em>, cit.); Jos\u00e9 Paulo Netto, &#8220;Luk\u00e1cs e a problem\u00e1tica cultural da era stalinista&#8221;, &#8220;Temas de ci\u00eancias humanas, S\u00e3o Paulo, n. 6, 1979; Alberto Scarpono, &#8220;Luk\u00e1cs critico dello stalinismo&#8221;. <em>Critica marxista<\/em>, Roma, v.17, n. 1, gennaio-febbraio 1979; Cliff Slaughter, <em>Marxismo, ideologia e literatuta<\/em>, Rio de Janeiro, Zahar, 1983, cap. 4; Eugene Lunn, <em>Marxism and modernism. An historical study of Luk\u00e1cs, Brecht, Benjamin and Adorno<\/em>, Bekerley, University of Calif\u00e9rnia press, 1982; Nicolas Tertulian, &#8220;G. Luk\u00e1cs e o stalinismo&#8221;, <em>Pr\u00e1xis<\/em>, Belo Horizonte, n. 2, set. 1994); I. M\u00e9sz\u00e1ros, <em>Para al\u00e9m do capital. Rumo a uma teoria da transi\u00e7\u00e3o<\/em>, S\u00e3o Paulo\/Campinas, Boitempo\/UNICAMP, 2002; Arpad Kadarkay, <em>Georg Luk\u00e1cs. Life, thoughs and politics<\/em>, Cambridge, Mass., Basil Blackwell, 1991. Num pequeno texto de Nicolas Tertulian, &#8220;Luk\u00e1cs hoje&#8221; (em M. O. Pinassi e S\u00e9rgio Lessa, org., <em>Luk\u00e1cs e a atualidade do marxism<\/em>o, S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2002), tamb\u00e9m se encontram refer\u00eancias significativas sobre a rela\u00e7\u00e3o aqui sinalizada.<\/p>\n<p><sup>26<\/sup> Algumas apontadas em textos indicados na nota anterior e outras indicadas e diferencialmente problematizadas, por exemplo, em Marzio Vacatello, <em>Luk\u00e1cs. Da Storia e coscienza di classe al giudizio sulla cultura borghese<\/em>, Floren\u00e7a, La nuova It\u00e1lia, 1968; G. H. R. Parkinson, org., <em>Georg Luk\u00e1cs. El hombre, su obra, sus ideas<\/em>, Barcelona, Grijalbo, 1972; Ernst Bloch ET AL., <em>Aesthetics and politics<\/em>, London, Verso, 1980; Francisco Posada, <em>Luk\u00e1cs, Brecht e a situa\u00e7\u00e3o atual do realismo socialista<\/em>, Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1970; Giuseppe Bedeschi, <em>Introduzione a Luk\u00e1cs<\/em>, Roma\/B\u00e1ri, Laterza, 1970; Helga Gallas, <em>Teoria marxista de la literatura<\/em>, M\u00e9xico, Siglo XXI, 1977; Fredric Jameson, <em>Marxismo e forma. Teorias dial\u00e9ticas da literatura no s\u00e9culo XX<\/em>, S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1985: George Steiner, <em>Linguagem e sil\u00eancio: ensaios sobre a crise da palavra<\/em>, S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 1988; Terry Eagleton,<em> A ideologia da est\u00e9tica<\/em>, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993; Eva L. Corredor, org., <em>Lik\u00e1cs after communism. Interviews with contemporary intellectuals<\/em>, Durham\/London, Duke University Press, 1997; Celso Frederico, M<em>arx, Luk\u00e1cs: a arte na perspectiva ontol\u00f3gica<\/em>, Natal, EDUFRN, 2005; Carlos Nelson Coutinho, <em>Luk\u00e1cs, Proust e Kafka. Literatura e sociedade no s\u00e9culo XX<\/em>, Rio de Janeiro, Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2005. Cr\u00edticas \u00e0s concep\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas desenvolvidas por Luk\u00e1cs a partir dos anos 1930 encontram-se tamb\u00e9m em Galvano della Volpe, <em>Cr\u00edtica do gosto<\/em>, Lisboa, Estampa, s.d., e em Theodor W. Adorno, <em>Teoria est\u00e9tica<\/em>, Lisboa, Edi\u00e7\u00f5es 70, 1988.<\/p>\n<p><sup>27<\/sup> Para al\u00e9m do debate frequentemente gen\u00e9rico e equivocado acerca do (ou n\u00e3o) &#8220;stalinismo pol\u00edtico&#8221; de Luk\u00e1cs, neste \u00e2mbito a investiga\u00e7\u00e3o que aqui se faz necess\u00e1ria ainda \u00e9 muito pouco substantiva; ademais de dois dos textos citados na nota 25 \u2013 o de L\u00f6wy, cuidadoso e s\u00e9rio; o de Slaughter, bilioso &#8211; o ensaio de Marco Macci\u00f2, &#8220;Las posiciones te\u00f3ricas y pol\u00edticas Del \u00faltimo Luk\u00e1cs&#8221; (<em>Cuadernos de pasado y presente<\/em>, C\u00f3doba, n. 16, sept. 1970) e o artigo muito ruim de Fran\u00e7ois Fejt\u00f6, &#8220;Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs et la politique&#8221; (<em>Esprit<\/em>, Paris, n. 106, oct. 1985) mostram o quanto s\u00e3o quase inexistentes estudos detalhados. Mesmo no que se refere \u00e0 rela\u00e7\u00e3o te\u00f3rica entre as concep\u00e7\u00f5es gerais do \u00faltimo Luk\u00e1cs (filos\u00f3ficas e pol\u00edticas) e sua op\u00e7\u00e3o pr\u00e1tico-pol\u00edtica, um debate mais denso ainda n\u00e3o se realizou, embora j\u00e1 haja contribui\u00e7\u00f5es iniciais que merecem cita\u00e7\u00e3o (como \u00e9 o caso das contidas no livro de I. M\u00e9sz\u00e1ros referido na nora 25), inclusive no Brasil; vale referir as interven\u00e7\u00f5es de fato colidentes, de Carlos Nelson Coutinho, no ensaio &#8220;Luk\u00e1cs, a ontologia e a pol\u00edtica&#8221;, cit., e de S\u00e9rgio Lessa, &#8220;Luk\u00e1cs: direito e pol\u00edtica&#8221;, recolhido em Maria Orlanda Pinassi e S\u00e9rgio Lessa (org.), tamb\u00e9m citado na nota 25; S\u00e9rgio Lessa, ali\u00e1s, em um op\u00fasculo mais recente (<em>Luk\u00e1cs. \u00c9tica e pol\u00edtica<\/em>, Chapec\u00f3, Argos\/Editora Universit\u00e1ria, 2007) reorienta muito problematicamente a sua an\u00e1lise anterior.<\/p>\n<p><sup>28<\/sup> Ver &#8220;As tarefas da filosofia marxista na nova democracia&#8221;, em G. Luk\u00e1cs, <em>O jovem Marx e outros escritos de filosofia<\/em>, cit., p. 55 e ss.<\/p>\n<p><sup>29 <\/sup>Luk\u00e1cs mesmo reconheceu esta conex\u00e3o. Comentando a insinceridade da autocr\u00edtica a que se submeteu em 1929, quando da derrota das Teses de Blum, escreveu, como se via na nota 18: &#8220;Era evidente que esta autocr\u00edtica n\u00e3o podia ser levada a s\u00e9rio: a mudan\u00e7a da opini\u00e3o fundamental que sustentava as teses [&#8230;] passou a ser doravante o fio condutor para minha atividade te\u00f3rica e pr\u00e1tica&#8221;<\/p>\n<p><sup>30<\/sup> Sobre os personagens aqui referidos, ver, infra, as notas 11, 15 e 4 e do texto &#8220;Para al\u00e9m Stalin&#8221;, O &#8220;processo&#8221; contra Luk\u00e1cs foi notavelmente narrado por I. M\u00e9sz\u00e1ros no seu artigo &#8220;El debate sobre Luk\u00e1cs y sus consecuencias: R\u00e9vai y El zdanovismo&#8221;, coligido em G. Steiner ET AL., <em>Luk\u00e1cs<\/em>, Buenos Aires, Jorge Alvarez, 1969; ver tamb\u00e9m M. Merlau-Ponty, <em>As aventuras da dial\u00e9tica<\/em>, S\u00e3o Paulo, Martins Fontes, 2006. Para uma reconstru\u00e7\u00e3o do clima do &#8220;ano da mudan\u00e7a&#8221;, n\u00e3o s\u00f3 na Hungria, cf. Fernando Claud\u00edn, <em>A crise do movimento comunista<\/em>, S\u00e3o Paulo, Global, 1986, v. 2, p. 511 e ss.<\/p>\n<p><sup>31<\/sup> Sobre Rudas, ver, infra, a nota 13 do texto &#8220;Para al\u00e9m Stalin&#8221;. Joseph R\u00e9vai (1898-1959), publicista, antigo companheiro de lutas de Luk\u00e1cs, exilado durante as duas guerras, tornou-se o principal ide\u00f3logo do regime de Rakosi, sendo ministro da Cultura de 1949 a 1953; suas acusa\u00e7\u00f5es a Luk\u00e1cs encontram-se em seu livro <em>La litt\u00e9rature et la d\u00e9mocratie populaire: \u00e0 propos de Georges Luk\u00e1cs<\/em>, Paris, La Nouvelle Critique, 1950. Joseph Darvas (1913-1973), romancista, ocupou cargos ministeriais no regime de Rakoi. Marton Horv\u00e1th (1906-1987) foi membro do Comit\u00ea Central do Partido h\u00fangaro de 1944 a 1956 e, na primeira metade dos anos 1950, seu respons\u00e1vel por agia\u00e7\u00e3o e propaganda.<\/p>\n<p><sup>32<\/sup> G. Luk\u00e1cs, <em>Pensamento vivido<\/em>, cit., p. 117. Recorde-se que, em 28 de junho de 1948, o Centro de Informa\u00e7\u00e3o dos partidos Comunistas (Komminform) divulgou a &#8220;condena\u00e7\u00e3o&#8221; da dire\u00e7\u00e3o comunista iugoslava, liderada por Tito (Josip Broz, 1892-1980).<\/p>\n<p><sup>33<\/sup> Escrevendo em 1967, Luk\u00e1cs afirmava ser esta sua autocr\u00edtica &#8220;inteiramente formal&#8221;, fato ali\u00e1s denunciado por seus oponentes (J. R\u00e9vai, M. Horv\u00e1th): ver o seu pref\u00e1cio a <em>Arte e societ\u00e1<\/em>, Roma, Riuniti, 1977, v. 1, p. 19. Mas admitindo, anos depois, que fez excessivas concess\u00f5es nesta autocr\u00edtica, o velho fil\u00f3sofo acrescentou: &#8220;Como justifica\u00e7\u00e3o posso dizer que, se Rajk foi executado na Hungria, n\u00e3o se podia ter uma garantia s\u00e9ria de que, no caso de haver oposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o nos poderia acontecer coisa semelhante&#8221; (Luk\u00e1cs, <em>Pensamento vivido<\/em>, cit., p. 117). N. Tertulian, no texto j\u00e1 citado na nota 25, &#8220;Luk\u00e1cs hoje&#8221;, reproduz o coment\u00e1rio de Luk\u00e1cs a um interlocutor em 1962, referindo-se \u00e0 sua atitude em face dos debates de 1949\/1950: &#8220;Se naquela \u00e9poca eu n\u00e3o tivesse feito a minha autocr\u00edtica, estaria agora num t\u00famulo sendo venerado. [&#8230;] Eu teria sido enforcado e logo em seguida reabilitado com todas as honras&#8221;.<\/p>\n<p><sup>34<\/sup> Sobre a insurrei\u00e7\u00e3o h\u00fangara de 1956, ver, para interpreta\u00e7\u00f5es muito diferenciadas, I. M\u00e9sz\u00e1ros, <em>La rivolta degli intellectuali in Ungheria<\/em>, Turim, Einaudi, 1958; Fran\u00e7ois Fejt\u00f6, <em>La trag\u00e9die hongroise<\/em>, Paris, Pierre Horay, 1958; Tam\u00e1s Acz\u00e9l e Tibor M\u00e9ray, <em>The revolt of the mind: a case history of intellectual resistance behind de Iron Curtain<\/em>, Londres, Thames &#038; Hudson, 1960; Jean-Paul Sartre, <em>O fantasma de Stalin<\/em>, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967; Fernando Claud\u00edn, <em>A oposi\u00e7\u00e3o no &#8220;socialismo real&#8221;. Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, Hungria, Pol\u00f4nia, Tcheco-Eslov\u00e1quia 1953-1980<\/em>, Rio de Janeiro, Marco Zero, 1983.<\/p>\n<p><sup>35<\/sup> Kostas Papaionnou, <em>Marx et les marxistes<\/em>, Paris, Flammarion, 1972, p. 17.<\/p>\n<p><sup>36<\/sup> Fernando Claud\u00edn, cit., p. 163-164.<\/p>\n<p><sup>37<\/sup> Tibor D\u00e9ry (1894-1979), figura exponencial da literatura h\u00fangara, condenado \u00e0 pris\u00e3o em 1957 e anistiado em 1960. Sobre Illi\u00e9s, ver, infra, nota 43 do texto <em>Testamento pol\u00edtico<\/em>. Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros (1930), disc\u00edpulo de Luk\u00e1cs, emigrou na sequencia dos eventos de 1956, radicando-se na Inglaterra; muitas de suas obras foram publicadas no Brasil.<\/p>\n<p><sup>38<\/sup> Sobre tais eventos, ver as evoca\u00e7\u00f5es do fil\u00f3sofo em G. Luk\u00e1cs, <em>Pensamento vivido<\/em>, cit., p. 131-137, 168-169.<\/p>\n<p><sup>39<\/sup> Saldo da luta: &#8220;aproximadamente 2.000 mortos e 13.000 feridos em Budapeste, 700 mortos e 1.500 feridos no resto do pa\u00eds. Foram encarcerados milhares de combatentes, em sua maioria oper\u00e1rios jovens. A imprensa h\u00fangara informou, nos meses seguintes, sobre at\u00e9 105 execu\u00e7\u00f5es&#8221; (F. Claud\u00edn, <em>A oposi\u00e7\u00e3o no &#8220;socialismo real&#8221;<\/em>, cit., p.162).<\/p>\n<p><sup>40<\/sup> K. Axelos, &#8220;Pref\u00e1cio&#8221; a G. Lik\u00e1cs, <em>Histoire et conscience de classe. Essais de dialectique marxiste<\/em>, Paris, Minuit, 1965, p.3.<\/p>\n<p><sup>41<\/sup> Luk\u00e1cs s\u00f3 \u00e9 readmitido no Partido em 1967.<\/p>\n<p><sup>42<\/sup> Parte do material dessa campanha foi publicada em portugu\u00eas: de B\u00e9la Fogarasi (1891-1959, fil\u00f3sofo antes pr\u00f3ximo a Luk\u00e1cs), o artigo &#8220;As concep\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas de Georg Luk\u00e1cs&#8221; (divulgado na edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas da revista internacional patrocinada pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, <em>Problemas das Paz e do Socialismo<\/em>, n. 4, 1959), e de Joseph Szigeti (nascido em 1921, ex-aluno de Luk\u00e1cs), &#8220;Rela\u00e7\u00e3o entre as ideias pol\u00edticas e filos\u00f3ficas de Luk\u00e1cs&#8221; (<em>Estudos Sociais<\/em>, Rio de Janeiro, n. 5, 1959). De fato, a campanha contra Luk\u00e1cs esgota-se na entrada dos anos 1960.<\/p>\n<p><sup>43<\/sup> Ver <em>Pensamento vivido<\/em>, cit., p. 169.<\/p>\n<p><sup>44<\/sup> Luk\u00e1cs considerava que o stalinismo, ao promover a paralisia do pensamento marxista, respondia tamb\u00e9m pela aus\u00eancia de uma cr\u00edtica substantiva ao capitalismo contempor\u00e2neo \u2013 cr\u00edtica que deveria enfatizar o seu car\u00e1ter manupilat\u00f3rio. Na exig\u00eancia de um &#8220;renascimento do marxismo&#8221;, Luk\u00e1cs chegava a exagerar, afirmando que a \u00faltima pesquisa criativa sobre o capitalismo era o livro de Lenin sobre <em>O imperialismo<\/em> (1916) e insistia na necessidade de se escrever um <em>O capital <\/em>do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p><sup>45<\/sup> Ver G. Luk\u00e1cs, &#8220;The twin crises&#8221;, <em>New Left Review<\/em>, Londres, n. 60, 1970.<\/p>\n<p><sup>46<\/sup> Sobre esta &#8220;escola&#8221; (Agnes Heller, F\u00e9renc F\u00e9her, G. e M. Markus, M. Vajda), ver o pref\u00e1cio de Jean-Michel Palmier a Agnes Heller, <em>La th\u00e9orie des besoins chez Marx<\/em>, Paris, UGE-10\/18, 1978; depois da morte de Luk\u00e1cs, este grupo transitou para posi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e ideol\u00f3gicas antag\u00f4nicas \u00e0s de Luk\u00e1cs. \u00c9 preciso n\u00e3o identificar esta &#8220;Escola de Budapeste&#8221; com o que outros estudiosos v\u00eam designando como &#8220;escola de Luk\u00e1cs&#8221; : cf. Tibor Szab\u00f3, <em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs. Filosofo autonomo<\/em>, cit., p. 225-238.<\/p>\n<p><sup>47<\/sup> \u00c9 tamb\u00e9m o per\u00edodo em que suas ideias ganham crescente difus\u00e3o no Ocidente, com o in\u00edcio da publica\u00e7\u00e3o de sua obra completa pela editora alem\u00e3-ocidental Luchterhand e a ampla repercuss\u00e3o de vers\u00f5es de seus textos em italiano, ingl\u00eas e castelhano. Nos finais dos anos 1960, sua ativa participa\u00e7\u00e3o na campanha internacional em defesa da comunista norte-americana Angela Davis (nascida em 1944), torna-o ainda mais conhecido.<\/p>\n<p><sup>48<\/sup> Sobre os eventos na Tchecoslov\u00e1quia, ver, entre outros: Roger Garaudy, <em>La liberte em sursis: Prague, 1968<\/em>, Paris, Fayard, 1968; &#8221; L&#8217;intervention em Tchecoslovaquie, pourquoi?&#8221; , <em>Cahiers Rouge<\/em>, Paris, n. 5, 1969; Pierre Brou\u00e9, <em>A primavera dos povos come\u00e7a em Praga<\/em>, S\u00e3o Paulo, Kair\u00eds, 1979; Fernando Claud\u00edn, <em>A oposi\u00e7\u00e3o no &#8220;socialismo real&#8221;<\/em>, cit.<\/p>\n<p><sup>49<\/sup> M. L\u00f6wy, no texto j\u00e1 citado (<em>A evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Luk\u00e1cs<\/em>, p. 252), anotou: &#8220;Jovens estudantes revolucion\u00e1rios da Europa Ocidental, que visitavam Luk\u00e1cs por volta de setembro de 1968, ficaram espantados com a severidade da sua cr\u00edtica quanto \u00e0 URSS e, por outro lado, seu interesse profundo pelos acontecimentos de maio na Fran\u00e7a. Luk\u00e1cs compreendia a rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre as duas crises, a do stalinisno e a do mundo burgu\u00eas&#8221;.<\/p>\n<p><sup>50<\/sup> M. L\u00f6wy, cit., p.254; da\u00ed extra\u00edmos a frase de Luk\u00e1cs citada pouco antes.<\/p>\n<p><sup>51<\/sup> \u00c9 not\u00e1vel o fato de Luk\u00e1cs, reconhecendo expressamente a necessidade de an\u00e1lises capazes de aprender os tra\u00e7os contempor\u00e2neos da ordem capitalista, pensar as transforma\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias \u00e0 auto-reforma do socialismo \u2013 elas igualmente contempor\u00e2neas \u2013 com as categorias leninianas, sem submet\u00ea-las a qualquer atualiza\u00e7\u00e3o e\/ou cr\u00edtica.<\/p>\n<p><sup>52<\/sup> Afirma\u00e7\u00e3o que, tamb\u00e9m ela, pode prestar-se a mal-entendidos: ver os apontamentos de N. Tertulian, no artigo citado na nota 25 (p. 30-32).<\/p>\n<p>[LUK\u00c1CS, Gy\u00f6rgy. <em>Socialismo e democracia: escritos pol\u00edticops 1956-1971<\/em>. Organiza\u00e7\u00e3o, introdu\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o Carlos Nelson Coutinho e Jos\u00e9 Paulo Neto. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2008, p. 7-31]<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong> Cronologia da vida e da obra de Luk\u00e1cs<\/strong><\/p>\n<p><strong>1885<\/strong> Nasce em Budapeste, a 13 de abril, segundo filho de J\u00f3zef von Lu\u00e1cs e Ad\u00e9l Wertheimer.<\/p>\n<p><strong>1902<\/strong> Ingressa na Universidade de Budapeste, publica seus primeiros textos na imprensa h\u00fangara e frequenta reuni\u00f5es do &#8220;C\u00edrculo de Estudantes Socialistas Revolucion\u00e1rios&#8221;, criados por Erwin Szab\u00f3.<\/p>\n<p><strong>1904<\/strong> \u00c9 um dos fundadores do grupo teatral <em>Thalia<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1906 <\/strong> Doutora-se em direito pela Universidade de Budapeste. Colabora com a revista progressista h\u00fangara <em>Huszadik Sz\u00e1zad <\/em>(S\u00e9culo XX). A leitura dos <em>Uj Versek<\/em> (Novos poemas), de Endre Ady, impressiona-o profundamente.<\/p>\n<p><strong>1908<\/strong> Recebe, pelo seu texto ainda in\u00e9dito <em>Hist\u00f3ria do desenvolvimento do drama moderno<\/em>, o Pr\u00eamio Kristina, da Sociedade Kisfaluddy. Torna-se colaborador da revista <em>Nyugat <\/em>(Ocidente).<\/p>\n<p><strong>1909<\/strong> Trava rela\u00e7\u00f5es com Endre Ady e torna-se amigo de B\u00e9la Bal\u00e1zs, a cuja obra po\u00e9tica dedica um livro. Tem um tumultuado relacionamento amoroso com Irma Seidler, que se suicida algum tempo depois. Dedica a esta tr\u00e1gica experi\u00eancia um ensaio intitulado &#8220;Sobre a pobreza do esp\u00edrito&#8221;. Doutora-se em Filosofia pela Universidade de Budapeste.<\/p>\n<p><strong>1910<\/strong> Viagens \u00e0 Alemanha, Fran\u00e7a e It\u00e1lia. Trava rela\u00e7\u00f5es com Georg Simmel e conhece Ernst Bloch.<\/p>\n<p><strong>1911<\/strong> Publica a <em>Hist\u00f3ria do desenvolvimento do drama moderno<\/em> e, tamb\u00e9m em alem\u00e3o, <em>A alma e as formas<\/em>. \u00c9 um dos fundadores da revista <em>Szellem <\/em>(Esp\u00edrito).<\/p>\n<p><strong>1912<\/strong> Vive em Floren\u00e7a. Por sugest\u00e3o de E. Bloch, transfere-se para Heidelberg.<\/p>\n<p><strong>1913-1915<\/strong> Em Heidelberg, relaciona-se com Ferdinand T\u00f6nnies, Max Weber e Emil Lask. Estuda a obra de Hegel. Trabalha numa <em>Est\u00e9tica<\/em>, que deixou inconclusa e s\u00f3 foi publicada postumamente; projeta um livro sobre Dostoi\u00e9vski. Conhece sua primeira mulher, Ieliena A. Grabenko. Publica <em>Cultura est\u00e9tica <\/em>(1913).<\/p>\n<p><strong>1916<\/strong> Publica, em revista especializada, <em>A teoria do romance<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1917<\/strong> Em Budapeste, anima o &#8220;Circulo Dominical&#8221;, frequentado por B\u00e9la Fogarasi, Arnold Hauser, Karl Mannheim e Eugene Varga. Publica A rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto na est\u00e9tica. Recebe com entusiasmo as primeiras not\u00edcias sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique.<\/p>\n<p><strong>1918<\/strong> Retoma o exame de Marx (que conhecia desde a prepara\u00e7\u00e3o de <em>Hist\u00f3ria do desenvolvimento do drama moderno<\/em>) e, sob a influ\u00eancia de E. Szab\u00f3, l\u00ea Rosa Luxemburg e Georges Sorel. Publica o ensaio &#8220;O bolchevismno como problema moral&#8221;. A 2 de dezembro, ingressa no Partido Comunista.<\/p>\n<p><strong>1919<\/strong> Com a queda da monarquia dos Habsburgos e a proclama\u00e7\u00e3o, em mar\u00e7o, da Rep\u00fablica Sovi\u00e9tica da Hungria, torna-se Vice-Comiss\u00e1rio do Povo para a Cultura e a Educa\u00e7\u00e3o Popular. Ap\u00f3s a derrota da rep\u00fablica, em agosto, sob a violenta repress\u00e3o de Horthy, \u00e9 um dos dirigentes clandestinos do Partido Comunista. Em setembro, exila-se na \u00c1ustria. Condenado \u00e0 morte pelo regime de Horthy, \u00e9 preso em Viena, em outubro; sua extradi\u00e7\u00e3o \u00e9 evitada gra\u00e7as \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de intelectuais alem\u00e3es. Publica <em>T\u00e1tica e \u00e9tica<\/em>, seu primeiro livro de inspira\u00e7\u00e3o marxista.<\/p>\n<p><strong>1920<\/strong> Torna-se co-editor de <em>Kommunismus <\/em>(Comunismo), \u00f3rg\u00e3o te\u00f3rico da Internacional Comunista. Casa-se com a companheira de sua vida, Gertrud Bortstieber, vi\u00fava do matem\u00e1tico Imre J\u00e1nossy. Sob a forma de livro, publica <em>A teoria do romance<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1921<\/strong> Na luta interna que se trava no Partido h\u00fangaro, alinha-se com a fra\u00e7\u00e3o de Jeno Landler, opositor de B\u00e9la Kun; representando esta fra\u00e7\u00e3o, participa, em Moscou, do III Congresso da Internacional Comunista.<\/p>\n<p><strong>1922<\/strong> Aprofunda seus estudos sobre Marx e come\u00e7a sistematicamente a leitura de Lenin.<\/p>\n<p><strong>1923<\/strong> Publica <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe. Estudos spbre a dial\u00e9tica materialista<\/em>, colet\u00e3nea de textos escritos depois de sua ades\u00e3o ao comunismo.<\/p>\n<p><strong>1924<\/strong> <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em> recebe as primeiras cr\u00edticas nas inst\u00e2ncias oficiais do movimento comunista. Publica <em>Lenin: a coer\u00eancia de seu pensamento<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1926<\/strong> Publica <em>Moses Hess e o problema da dial\u00e9tica idealista<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1928<\/strong> Com a morte de J. Lander, assume a lideran\u00e7a da corrente anti-B\u00e9la Kun no interior do partido h\u00fangaro. Prepara documentos para o II Congresso do Partido.<\/p>\n<p><strong>1929<\/strong> Clandestino, permanece tr\u00eas meses na Hungria, em tarefas partid\u00e1rias. Apresenta, no II Congresso do Partido, as &#8220;Teses de Blum&#8221; (Blum era o seu nome na clandestinidade); derrotado e amea\u00e7ado de expuls\u00e3o, faz autocr\u00edtica e afasta-se de atividades diretamente pol\u00edticas por quase tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><strong>1930-1931<\/strong> Vai para Moscou, onde pesquisa no Instituto Marx-Engels-Lenin, ent\u00e3o dirigido por David Riazanov. Conhece os ainda in\u00e9ditos <em>Manuscritos econ\u00f4mico-filos\u00f3ficos de 1844<\/em>, de Marx. Estabelece rela\u00e7\u00f5es com Mikgail A. Lifschitz, a quem dedicar\u00e1 mais tarde, &#8220;com venera\u00e7\u00e3o e amizade&#8221;, o seu <em>O jovem Hegel<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1931-1933<\/strong> Vive semiclandestino em Berlim (sob o pseud\u00f4nimo de Keller). Tem ativa interven\u00e7\u00e3o na revista <em>Die Linkskurve<\/em> (Giro \u00e0 esquerda), \u00f3rg\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o de Escritores Prolet\u00e1rios Revolucion\u00e1rios, vinculada ao Partido Comunista alem\u00e3o. S\u00e3o deste per\u00edodo ensaios que discutem a rela\u00e7\u00e3o entre realismo e &#8220;literatura prolet\u00e1ria&#8221;, tais como &#8220;Tend\u00eancia ou partidarismo&#8221; e &#8220;Reportagem ou configura\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p><strong>1933-1940<\/strong> Regressando a Moscou, desenvolve intensa atividade intelectual, de que resultam in\u00fameros ensaios, entre os quais: &#8220;Friedrich Engels, te\u00f3rico e cr\u00edtico da literatura&#8221;, &#8220;Tolstoi e a evolu\u00e7\u00e3o do realismo&#8221; e &#8220;Heinrich Heine como poetra nacional&#8221; (1935), &#8220;A fisionomia intelectual dos personagens art\u00edsticos&#8221;, &#8220;A com\u00e9dia humana da R\u00fassia pr\u00e9-revolucion\u00e1ria&#8221; e &#8220;A trag\u00e9dia de Heinrich von Kleist&#8221; (1936), &#8220;O escritor e o cr\u00edtico&#8221; (1939), &#8220;Tribuno do povo ou burocrata&#8221; (1940), quase todos p\u00f3steriormente coletados em livros. Torna-se membro do Instituto Filos\u00f3fico da Academia de Ci\u00eancias da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e do conselho editorial de v\u00e1rias revistas culturais. Em 1937-1938, \u00e9 figura cemtral nos debates em que se envolve a intelectualidade exilada (Ernst Bloch, Bertolt Brecht e Anna Seghers), nos quais critica o expressionismo alem\u00e3o e insiste na defesa de uma literatura capaz de assimilar a heran\u00e7a cultural do realismo cr\u00edtico burgu\u00eas. Come\u00e7a a pesquisar as rela\u00e7\u00f5es entre o irracionalismo filos\u00f3fico e o fascismo. Publica<em> O romance hist\u00f3rico<\/em>, em 1937, e, um ano depois, conclui seu estudo sobre <em>O jovem Hegel<\/em>, publicado em 1948.<\/p>\n<p><strong>1941-1944<\/strong> Em 1941, a pol\u00edcia pol\u00edtica stalinista o prende, sob o falso pretexto de, nos anos 1920, ter sido trotskista; \u00e9 libertado gra\u00e7as ao empenho de seu amigo de joventude Eugene Varga (que se tornara importante economista na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) junto a Gueorgui Dimitrov, ent\u00e3o dirigente m\u00e1ximo da Internacional Comunista.<\/p>\n<p><strong>1945-1949<\/strong> Retorna \u00e0 Hungria libertada e empenha-se na constru\u00e7\u00e3o da nova democracia: participa do Conselho Nacional da Frente Popular Patri\u00f3tica, da dire\u00e7\u00e3o da Academia de Ci\u00eancias da Hungria, assume a c\u00e1tedra de Est\u00e9tica e Filosofia da Cultura na Universidade de Budapeste e funda a revista cultural <em>Forum<\/em>. Realiza v\u00e1rias viagens \u00e0 Europa Ocidental, participando de encontros internacionais, semin\u00e1rios e col\u00f3quios. Recebe o Pr\u00eamio Kossuth e \u00e9 membro fundador do Conselho Mundial da Paz. Em 1948, na Su\u00ed\u00e7a, publica seu estudo sobre <em>O jovem Hegel<\/em>. No Partido e no Estato h\u00fangaros, polarizam-se posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, com a vit\u00f3ria da corrente ligada a Rakosi, express\u00e3o local do dogmatismo stalinista; desta vit\u00f3ria resulta a execu\u00e7\u00e3o do l\u00edder da corrente opositora, Rajk. Publica, em 1947, <em>Goethe e seu tempo<\/em> e <em>Crise da filosofia burguesa<\/em> (que, na tradu\u00e7\u00e3o francesa parcial, ter\u00e1 o t\u00edtulo de <em>Existencialismo ou marxismo?<\/em>).<\/p>\n<p><strong>1949-1951<\/strong> Reflexo da vit\u00f3ria de Rakosi, abre-se a &#8220;quest\u00e3o Luk\u00e1cs&#8221;: a intelectualidade oficial \u2015 L. Rudas, o ex-disc\u00edpulo J. R\u00e9vai, M. Horwath, J. Darvas \u2015 critica injuriosamente a sua obra. A revista <em>Forum<\/em> \u00e9 fechada e a campanha contra ele se desenvilve tamb\u00e9m na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (com o romancista Alexander Fadeiev reclamando at\u00e9 a ado\u00e7\u00e3o de medidas adminstrativas). Pressionado, faz nova autocr\u00edtica \u2015 considerada por R\u00e9vai como &#8220;meramente formal&#8221; e por ele pr\u00f3prio, em declara\u00e7\u00f5es posteriores, como &#8220;c\u00ednica&#8221; \u2015 e \u00e9 obrigado a retrair-se \u00e0 vida privada. Publica <em>O realismo russo na literatura universal<\/em>, <em>Thomas Mann<\/em> (1940) e <em>Realistas alem\u00e3es do s\u00e9culo XIX <\/em>(1951).<\/p>\n<p><strong>1952<\/strong> Publica <em>Balzac e o realismo franc\u00eas<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1954<\/strong> Publica <em>A destrui\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o<\/em> e <em>Contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 hist\u00f3ria da est\u00e9tica<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1956<\/strong> Na sequ\u00eancia do XX Congresso do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, os Estados socialistas experimentam um per\u00edodo de efervesc\u00eancia pol\u00edtica, aflorando as aspira\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, particularmente fortes na Hungria. Volta \u00e0 cena p\u00fablica, em junho, com a confer\u00eancia &#8220;A luta entre o progresso e a rea\u00e7\u00e3o na cultura contempor\u00e2nea&#8221;, pronunciada no &#8220;C\u00edrculo Pet\u00f6fi&#8221;, e com a cria\u00e7\u00e3o (juntamente com Tibor D\u00e9ry, Gyula Ill\u00e9s e Istv\u00e1n M\u00e9sz\u00e1ros) da revista <em>Eszm\u00e9let <\/em>(Tomada de consci\u00eancia). Em meio a enorme mobiliza\u00e7\u00e3o popular, o Partido h\u00fangaro entra em crise aberta e Rakosi cai. A 23 de outubro, constitui-se um novo minist\u00e9rio, liderado por Imre N\u00e1gy, disposto a democratizar o pa\u00eds, ao mesmo tempo em que se cria um comit\u00ea para a refunda\u00e7\u00e3o do Partido; no governo N\u00e1gy, assume o Minist\u00e9rio da Cultura; participa da comiss\u00e3o encarregada de dar nova forma \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. Op\u00f5e-se \u00e0 proposta de sa\u00edda da Hungria do Pacto de Vars\u00f3via, bem como ao apelo de N\u00e1gy \u00e0 interven\u00e7\u00e3o da ONU. A crise tem seu desfecho na brutal invas\u00e3o sovi\u00e9tica e obriga-o a asilar-se na embaixada da Iugosl\u00e1via. \u00c9 deportado para a Rom\u00eania, onde permanece prisioneiro.<\/p>\n<p><strong>1957-1961<\/strong> Obt\u00e9m permiss\u00e3o para regressar a Budapeste. \u00c9-lhe exigida nova autocr\u00edtica; ante sua recusa, consuma-se a perda da c\u00e1tedra universit\u00e1ria; n\u00e3o \u00e9 admitido no Partido refundado e nova campanha de descr\u00e9dito (iniciada por Joseph Szig\u00e9ti e engrossada por Bela Fogarasi) \u00e9 organizada contra ele. Em 1957, publica na It\u00e1lia os <em>Proleg\u00f4menos a uma est\u00e9tica marxista<\/em> e <em>A significa\u00e7\u00e3o presente do realismo cr\u00edtico<\/em>. At\u00e9 seu retorno ao Partido h\u00fangaro, ocorrido em 1967, sues livros deixam de ser publicados na Alemanha Oriental e passam a s\u00ea-lo na Alemanha Ocidental.<\/p>\n<p><strong>1962<\/strong> A revista italiana <em>Nuovi Argoment<\/em>i divulga a sua &#8220;Carta sobre o stalinismo&#8221;. Na Alemanha Ocidental, a editora Luchterhand anuncia a publica\u00e7\u00e3o das suas <em>Obras completas<\/em>. Conclui a primeira parte da sua <em>Est\u00e9tica <\/em>e anuncia sua pretens\u00e3o de escrever uma <em>\u00c9tica<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1963<\/strong> Pela Luchterhand, sai a primeira parte (a \u00fanica que redigiu) de sua est\u00e9tica, com o t\u00edtulo <em>Est\u00e9tica I: A peculiaridade do est\u00e9tico<\/em>. Em abril, morre Gertud Bortstieber, sua mulher. Publica o ensaio &#8220;Sobre o debate entre a China e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica&#8221;, onde toma posi\u00e7\u00e3o a favor da pol\u00edtica de paz da dire\u00e7\u00e3o kruscheviana da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>1964<\/strong> S\u00e3o-lhe feitos os \u00faltimos ataques pela intelectualidade oficial h\u00fangara. Publica o ensaio &#8220;Problemas da coexist\u00eancia cultural&#8221;.<\/p>\n<p><strong>1966<\/strong> Concede a Hans Heinz Holz, Leo Kpfler e Wolfgang Abendroth uma longa entrevista, publicada em livro, na Alemanha ocidenntal, sob o t\u00edtulo <em>Conversando com Luk\u00e1cs<\/em>. Decide, antes de empreender a reda\u00e7\u00e3o da <em>\u00c9tica <\/em>(projeto nunca conclu\u00eddo), elaborar um texto introdut\u00f3rio sobre a <em>Ontologia do ser social<\/em>, que se autonomizaria, adquirindo grandes dimens\u00f5es e sendo publicado s\u00f3 postumamente. A editora Grijalbo, com sede na Espanha e no M\u00e9xico, inicia, com a <em>Est\u00e9tica I<\/em>, a edi\u00e7\u00e3o em castelhano das suas <em>Obras completas<\/em>, a qual, depois de v\u00e1rios volumes, restar\u00e1 inconclusa.<\/p>\n<p><strong>1967<\/strong> Autoriza, pela primeira vez, uma reedi\u00e7\u00e3o de <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em>, como parte do volume III de suas <em>Werke<\/em>, para o qual escreve um longo pref\u00e1cio. A seu pedido, \u00e9 reintegrado no Partido h\u00fangaro. Com isso, volta a possibilidade de ser publicado em seu pa\u00eds. Prepara uma densa antologia de seus escritos sobre arte, de 1910 at\u00e9 os anos 1960, publicada tr\u00eas anos depois em h\u00fangaro sob o t\u00edtulo<em> Arte e sociedade<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1968<\/strong> Critica, no interior do Partido h\u00fangaro, a interven\u00e7\u00e3o das tropas do Pacto de Vars\u00f3via na Tchecoslov\u00e1quia, mas evita tornar p\u00fablica sua posi\u00e7\u00e3o. Com a primeira reda\u00e7\u00e3o da <em>Ontologia do ser social <\/em>praticamente conclu\u00edda, dedica-se a um ensaio sobre a quest\u00e3o da democracia, que pretendia publicar na It\u00e1lia, por Riuniti, editora ent\u00e3o ligada ao Partido Comunista Italiano. Conclu\u00eddo o ensaio, Luk\u00e1cs submeteu o texto \u00e0 dire\u00e7\u00e3o do Partido h\u00fangaro, que lhe pediu que esperasse dez anos para public\u00e1-lo. O ensaio, com o t\u00edtulo <em>Democratiza\u00e7\u00e3o ontem e hoje<\/em>, s\u00f3 foi publicado no original alem\u00e3o em 1985, quase quinze anos ap\u00f3s sua reda\u00e7\u00e3o. Conheceu depois edi\u00e7\u00f5es em diferentes l\u00ednguas (italiano, franc\u00eas, ingl\u00eas).<\/p>\n<p><strong>1969 <\/strong>Recebe o t\u00edtulo de <em>doctor honoris causa <\/em>da Universidade de Zagreb.<\/p>\n<p><strong>1969-1970<\/strong> O grupo intelectual que lhe era pr\u00f3ximo, mas que depois romperia com sua orienta\u00e7\u00e3o (a ent\u00e3o chamada &#8220;escola de Budapeste&#8221;: Agnes Heller, Ferenc Feh\u00e9r, Gy\u00f6rgy M\u00e1rkus e Mih\u00e1ly Ajda), faz uma s\u00e9rie de cr\u00edticas ao manuscrito original da <em>Ontologia do ser social<\/em>. Embora sem aceitar tais cr\u00edticas, mas insatisfeito com alguns aspectos deste original, inicia a reda\u00e7\u00e3o de um novo manuscrito para clarificar algumas de suas posi\u00e7\u00f5es. Tal como o primeiro, tamb\u00e9m este segundo manuscrito s\u00f3 ser\u00e1 publicado postumamente, com o t\u00edtulo <em>Proleg\u00f4menos a uma ontologia do ser social. Quest\u00f5es de princ\u00edpio de uma ontologia hoje tornada poss\u00edvel<\/em>. Na literatura kukacsiana, os dois manuscritos passaram a ser conhecidos, respectivamente, como &#8220;grande&#8221; e &#8220;pequena&#8221; ontologia.<\/p>\n<p><strong>1970<\/strong> Recebe o t\u00edtulo de <em>doctor honoris causa<\/em> da Universidade de Ghent e o Pr\u00eamio Goethe. Publica o livro <em>Soljenitsin<\/em>, no qual assume claramente a defesa do escritor contra os seus opositores sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p><strong>1971<\/strong> A 4 de junho, em consequ\u00eancia de um c\u00e2ncer pulmonar, falece em Budapeste. Pouco antes, j\u00e1 consciente do car\u00e1ter terminal de sua doen\u00e7a, escreve alguns apontamentos autobiogr\u00e1ficos e concede uma longa entrevista a Istv\u00e1n \u00c9orsi, na qual explicita os temas sugeridos nestes apiontamentos. Estes \u00faltimos e a entrevista foram publicados, em 1980, com o t\u00edtulo <em>Pensamento vivido. Autobiografia em forma de di\u00e1logo<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1973<\/strong> \u00c9 encontrado em Heldelberg um conjunto de cerca de 1.650 cartas, parte da sua correspond\u00eancia entre 1900 e 1917. Muitas delas foram publicadas mais tarde, em diferentes l\u00ednguas, com o t\u00edtulo <em>Correspond\u00eancia de juventude 1908-1917<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1974 <\/strong> Divulgam-se, pela primeira vez no Ocidente, alguns rensaios sobre quest\u00f5es de teoria liter\u00e1ria, que redigiu em Moscou entre 1933 e 1944. Na edi\u00e7\u00e3o francesa, tais ensaios formam um livro intitulado precisamente <em>Escritos de Moscou<\/em>.<\/p>\n<p><strong>1976-1986<\/strong> Os dois volumes de <em>Para a ontologia do ser social <\/em>s\u00e3o publicados na It\u00e1lia, respectivamente em 1976 e 1981. Somente em 1986, como volumes 13 e 14 de suas <em>Werke<\/em>, a obra aparece no original alem\u00e3o, precedida da chamada &#8220;pequena Ontologia&#8221;, que ser\u00e1 tamb\u00e9m publicada em italiano em 1990. H\u00e1 ainda uma edi\u00e7\u00e3o h\u00fangara integral das duas &#8220;ontologias&#8221;.<\/p>\n<p>[LUK\u00c1CS, Gy\u00f6rgy. <em>O jovem Marx e outros escritos de filosofia<\/em>. Organiza\u00e7\u00e3o, apresenta\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o Carlos Nelson Coutinho e Jos\u00e9 Paulo Neto. 2\u00aa ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2009, p. 15-23]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nJos\u00e9 Paulo Neto\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1259\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-1259","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-kj","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1259","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1259"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1259\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}