{"id":12590,"date":"2016-11-09T20:19:23","date_gmt":"2016-11-09T23:19:23","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12590"},"modified":"2016-11-26T18:06:13","modified_gmt":"2016-11-26T21:06:13","slug":"silvio-rodriguez-a-valentia-e-nao-renunciar-ao-socialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12590","title":{"rendered":"Silvio Rodr\u00edguez: A valentia \u00e9 n\u00e3o renunciar ao socialismo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"465\" width=\"747\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/elinciso.com\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/silvio_rodr%C3%ADguez-820x510.jpg?resize=747%2C465\" alt=\"imagem\" \/>Este m\u00eas se celebra o quinto anivers\u00e1rio de seu tour de shows gratuitos pelos bairros mais humildes de Cuba. Momento ideal para que Silvio Rodr\u00edguez fa\u00e7a uma retrospectiva dos caminhos que Cuba enfrenta a partir de sua aproxima\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos, analise os desafios da cultura cubana ante as reformas econ\u00f4micas que se desenvolvem no pa\u00eds e, tamb\u00e9m, por que n\u00e3o, fa\u00e7a uma apaixona defesa da poesia.<!--more--><\/p>\n<p>\u2013 A aproxima\u00e7\u00e3o de Cuba e Estados Unidos abre muitas possibilidades, por\u00e9m tamb\u00e9m representa desafios para a cultura cubana.<\/p>\n<p>\u2013 A n\u00edvel cultural, sempre existiu interc\u00e2mbio com os Estados Unidos. Que existam condi\u00e7\u00f5es para que se aumente esse interc\u00e2mbio ser\u00e1 como derrubar barreiras para que tudo flua com mais naturalidade. Se existe algo frustrante n\u00e3o \u00e9 porque seja negativo o contato, mas porque pode aumentar a distor\u00e7\u00e3o causada pelas propens\u00f5es de deslumbrar-se acriticamente. Digamos que o mimetismo pode voltar-se ainda mais presente, se tal coisa for poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2013 Cuba \u00e9 tamb\u00e9m uma potencia cultural, mas sem o poder econ\u00f4mico da cultura estadunidense. N\u00e3o teme que a cultura cubana se veja obrigada a \u201cpassar pelo filtro\u201d para acessar ao mercado dos Estados Unidos?<br \/>\n\u2013 Sempre existiram artistas que pensam em mercados e em conveni\u00eancias, e artistas que antep\u00f5em a arte sobre tudo. Nunca esque\u00e7o aquele ditado martiano que nossos ramos podem ser do mundo, por\u00e9m que o tronco se mantenha conosco. Satyajit Ray come\u00e7ou sua c\u00e9lebre trilogia de Ap\u00fa com um pensamento muito l\u00facido: \u201cConte sua aldeias e contar\u00e1s o mundo\u201d. S\u00f3 a banalidade \u00e9 capaz de disfar\u00e7ar-se de \u201cmundo\u201d e dar as costas ao mesmo, pensando no sucesso f\u00e1cil.<\/p>\n<p>\u2013 Quais s\u00e3o as principais fortalezas da cultura cubana para enfrentar o caminho da nova aproxima\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos?<\/p>\n<p>\u2013 Creio na identidade. Sem confundi-la com o caracter\u00edstico radicalismo, que pode resultar caricaturesco, como essa pintura do cubano que parece seduzir a tantos. \u00c9 que a identidade tamb\u00e9m evolui com a instru\u00e7\u00e3o de um povo, como \u00e9 neste caso. Inclusive, quando n\u00e3o t\u00ednhamos a consci\u00eancia que nos deu meio s\u00e9culo de confronto pol\u00edtico, Cuba resistiu e seguiu sendo Cuba. Por que n\u00e3o deveria faz\u00ea-lo agora?<\/p>\n<p>\u2013 Quais seriam suas principais fraquezas?<\/p>\n<p>\u2013 Suponho que a superficialidade e, ocasionalmente, alguns brotos de oportunismo.<\/p>\n<p>\u2013 No momento em que as reformas visam o autofinanciamento de todos os setores, como voc\u00ea acredita que pode faz\u00ea-lo a cultura? O podem fazer o bal\u00e9 ou o cinema?<\/p>\n<p>\u2013 Atividades art\u00edsticas que requerem infraestruturas mais ou menos complexas, como o bal\u00e9 e o cinema, s\u00e3o impratic\u00e1veis em pa\u00edses em desenvolvimento. Por\u00e9m, muito mais se n\u00e3o existe a vontade de constru\u00ed-las e sustent\u00e1-las. Em Cuba, se desenvolveram pela voca\u00e7\u00e3o humanista de Fidel Castro e pelo incentivo de personalidades como Hayde\u00e9 Santamar\u00eda, Alicia e Fernando Alonso, Alfredo Guevara, Julio Garc\u00eda Espinosa e muitos outros. Inclusive, pa\u00edses com desenvolvimento, como Espanha, est\u00e3o em constante luta pelo cinema, pela m\u00fasica cl\u00e1ssica e outras manifesta\u00e7\u00f5es. Isto ainda quando em muitos lugares essas express\u00f5es sobrevivem gra\u00e7as ao mecenato. Por\u00e9m, se sup\u00f5e que um Estado socialista deve ser mais respons\u00e1vel, mais benevolente. Inclusive, tratando-se de um Estado pobre, bloqueado, cada vez com menos ajudas e ainda por cima com uma crise econ\u00f4mica mundial, como pano de fundo. Cabe perguntar-se o que pode significar para Cuba sair do bloqueio e cair nas m\u00e3os do FMI. Seja como for, \u00e9 preciso ser muito valente para declarar que n\u00e3o renunciamos ao socialismo.<\/p>\n<p>Os cineastas cubanos se mostram conscientes da realidade; tamb\u00e9m, da\u00ed suas ideias de independ\u00eancia e de uma lei cinematogr\u00e1fica. N\u00e3o creio que o bal\u00e9 v\u00e1 desaparecer, por\u00e9m as institui\u00e7\u00f5es dificilmente sobreviver\u00e3o sem mudan\u00e7as. \u00c9 admir\u00e1vel que figuras como Liz Alfonso e agora Carlos Acosta levem adiante seus projetos. Por outro lado, tamb\u00e9m existem outras experi\u00eancias novas e interessantes, como a F\u00e1brica de Arte, de X Alfonso.<\/p>\n<p>Estruturas como as Funda\u00e7\u00f5es foram tomadas em Cuba com reserva, talvez por temor de que se tornassem demasiado independentes. Assim, existem projetos que levam anos esperando por uma anunciada revis\u00e3o da Lei de Funda\u00e7\u00f5es. Pois creio que uma forma de salvaguardar algumas boas atividades que come\u00e7aram com a Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 transformando-as precisamente em funda\u00e7\u00f5es ou institui\u00e7\u00f5es semelhantes. E que cada iniciativa prove na pr\u00e1tica sua capacidade e sua vig\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2013 O turismo em Cuba cresceu muito. Dizem que muitos turistas querem conhecer o pa\u00eds \u201cantes que cheguem os norte-americanos\u201d Voc\u00ea acredita que realmente Cuba corre o risco de americanizar-se, de que os McDonald\u2019s suplantem o p\u00e3o com pernil?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o se pode subestimar a agudeza dos cubanos. \u00c9 inevit\u00e1vel o auge vertiginoso dos restaurantes e de outros servi\u00e7os. Se chegar a Cuba, n\u00e3o duvido que McDonald\u2019s acabe vendendo p\u00e3o com pernil, mas ainda ter\u00e1 de ver como \u00e9 feito. Eu queria que n\u00e3o mud\u00e1ssemos o vital do que comemos: esse \u00e9 um valor nosso a ser defendido. Alguns espertinhos pressionam a natureza para que as frutas amadure\u00e7am mais r\u00e1pido, o que lhes muda o sabor, al\u00e9m do dano dos agentes qu\u00edmicos. Eu espero que esses maus h\u00e1bitos n\u00e3o se generalizem e que nunca troquemos sa\u00fade por falso crescimento. Pode ser a coisas assim que se referem com \u201cantes que cheguem os norte-americanos\u201d.<\/p>\n<p>\u2013 Seus concertos pelos bairros populares t\u00eam repercutido muito a n\u00edvel nacional e internacional.<br \/>\n\u2013 Come\u00e7amos fazendo-os muito discretamente; repudi\u00e1vamos que o trabalho que faz\u00edamos nesses lugares se transformasse em show. Por\u00e9m, com o tempo, foi inevit\u00e1vel que transcenda. Alguns document\u00e1rios ajudaram. O primeiro, feito pelo espanhol Nico Garc\u00eda, se chama\u00a0Ojal\u00e1. Tamb\u00e9m foi feita uma exposi\u00e7\u00e3o de pain\u00e9is de Tony Guerrero e fotos minhas no Centro Cultural Pablo de la Torriente. Foram ocorrendo coisas que colocaram o projeto \u00e0 luz.<\/p>\n<p>\u2013 Por que voc\u00ea decidiu faz\u00ea-los?<\/p>\n<p>\u2013 O primeiro concerto me foi pedido por Jos\u00e9 Alberto \u00c1lvarez, um policial que atendia o bairrozinho de La Corbata. Por\u00e9m, acontece que ir aos bairros \u00e9 viciante. Voc\u00ea chega ali e v\u00ea as fam\u00edlias, as crian\u00e7as, os velhinhos nas portas e varandas, os jovens pendurados nos telhados, e voc\u00ea enxerga a beleza e percebe que faz falta e que as pessoas agradecem. N\u00e3o existem raz\u00f5es melhores.<\/p>\n<p>\u2013 Quantos realizou?<\/p>\n<p>\u2013 Estamos no concerto n\u00famero 68 e, em 9 de setembro passado, completamos 5 anos de tour.<\/p>\n<p>\u2013 Como os financia?<\/p>\n<p>\u2013 Recebo um pouco de ajuda estatal. Fornecem-me o palco, a planta de eletricidade e as luzes, que s\u00e3o coisas que n\u00e3o temos. Tamb\u00e9m nos ajuda o pessoal do Departamento de Viagens do Minist\u00e9rio da Cultura. Todo o mais, o som, os microfones, os instrumentos e os sal\u00e1rios de alguns trabalhadores s\u00e3o fornecidos pelo projeto Ojal\u00e1. Estes gastos s\u00e3o um cap\u00edtulo fixo de nossa economia. As viagens ao exterior nos servem para ir melhorando condi\u00e7\u00f5es, sobretudo a qualidade do som, que pouco a pouco chega a ser muito profissional. N\u00e3o \u00e9 demais pontuar que todos os m\u00fasicos e artistas que se oferecem para o tour o fazem com absoluto desinteresse material.<\/p>\n<p>\u2013 Suas opini\u00f5es sobre a situa\u00e7\u00e3o social que encontrou nos bairros populares despertaram todo tipo de coment\u00e1rios. O que encontrou realmente nesses lugares?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 que eu ignorasse que temos bairros assim. O projeto Ojal\u00e1 tem mais de 20 anos ao lado do El Romerillo. Todos que vivem em Cuba e querem ver que isso existe, o veem. \u00c9 que o trabalho constante nesses lugares faz aprofundar a vis\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 sobre as car\u00eancias e as condi\u00e7\u00f5es de vida, mas a luta constante contra a indol\u00eancia e a burocracia. Por isso se fez dessa forma Canci\u00f3n de barrio, o document\u00e1rio de Alejandro Ram\u00edrez, que resume os dois primeiros anos do tour: descarnado, como \u00e9 a realidade. E, por isso, no dia da estreia, convidamos os dirigentes dos lugares que iam ser expostos. Alguns foram.<\/p>\n<p>\u2013 Que lhe acrescenta, como artista e como pessoa, estes concertos?<\/p>\n<p>\u2013 Eu comecei a experimentar essa pr\u00e1tica desde menino, no in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o. Eu vi bal\u00e9 n\u00e3o por forma\u00e7\u00e3o familiar ou por possibilidades econ\u00f4micas, mas porque, de repente, Alicia Alonso dan\u00e7ava em uma pra\u00e7a. O que \u00e9 que conta o primeiro document\u00e1rio de Octavio Cortazar,\u00a0Por primera vez? A visita de caminh\u00e3o projetor \u00e0s montanhas, onde nunca tinha estado o cinema. Que faz\u00edamos em nossa juventude n\u00f3s mesmos, constantemente, sen\u00e3o cantar em todas as partes? Eu nunca deixei de cantar assim, sobretudo em meu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Pode ser que voc\u00ea n\u00e3o saiba, mas jamais cobrei um concerto em Cuba. Bom: uma vez Luis Eduardo Aute e eu cobramos um, no Karl Marx, e doamos o dinheiro a San Antonio de los Ba\u00f1os, para que a prefeitura tivesse um fundo (que dizia n\u00e3o ter) e pudesse pagar os trabalhadores que limparam o rio Ariguanabo. Por\u00e9m, tamb\u00e9m afora cantei assim. Fiz muito isso no M\u00e9xico, onde comecei a ir por aquelas Jornadas de Solidaridad com Uruguai. O fiz na Col\u00f4mbia, em Venezuela, em Angola, na Rep\u00fablica Dominicana, no Equador, na Bol\u00edvia, no Paraguai. O fiz em alto mar, durante meses, quando estive com a Frota Cubana de Pesca. O fiz nas pris\u00f5es v\u00e1rias vezes. H\u00e1 muito pouco tempo, fizemos um show em Villa Lugano, em Buenos Aires. No Chile, falei com Michelle Bachelet para que fizesse uma lei que obrigasse os estrangeiros a fazer um show gratuito. Parece que n\u00e3o foi poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Conseguir a sistematiza\u00e7\u00e3o da Gira por los Barrios en Cuba (tamb\u00e9m conhecida como Gira Interminable) me deu uma satisfa\u00e7\u00e3o muito grande. Mais que qualquer outra coisa.<\/p>\n<p>\u2013 Como voc\u00ea v\u00ea as possibilidades de se manter o projeto social da Revolu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Os projetos sociais humanistas, revolucion\u00e1rios, ser\u00e3o mantidos sempre que existirem aqueles que os levem a cabo.<\/p>\n<p>Por Fernando Ravsberg<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/elinciso.com\/silvio-rodriguez-la-valentia-es-no-renunciar-al-socialismo\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Este m\u00eas se celebra o quinto anivers\u00e1rio de seu tour de shows gratuitos pelos bairros mais humildes de Cuba. 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