{"id":1261,"date":"2011-03-03T21:01:19","date_gmt":"2011-03-03T21:01:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1261"},"modified":"2011-03-03T21:01:19","modified_gmt":"2011-03-03T21:01:19","slug":"leocadia-prestes-a-mae-coragem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1261","title":{"rendered":"Leocadia Prestes, a m\u00e3e coragem"},"content":{"rendered":"\n<p>HOMENAGEM Para o Dia Internacional da Mulher, trazemos o exemplo desta mulher que, aos 60 anos de idade, aderiu, conscientemente, \u00e0s ideias marxistas.<\/p>\n<p><strong>Leoc\u00e1dia Prestes \u2013 m\u00e3e coragem<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lygia Prestes<\/strong><\/p>\n<p>Leoc\u00e1dia Felizardo Prestes nasceu no dia 11 de maio de 1874, em Porto Alegre, Estado do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Seu pai, Joaquim Jos\u00e9 Felizardo, abastado comerciante, foi um homem culto, de id\u00e9ias liberais, partid\u00e1rio da Aboli\u00e7\u00e3o e da Rep\u00fablica. Sua m\u00e3e, Ermelinda Ferreira de Almeida, descendia da aristocracia portuguesa. Contudo, era pessoa de id\u00e9ias abertas e partilhava plenamente os ideais de justi\u00e7a social de seu marido.<\/p>\n<p>Dotada de car\u00e1ter en\u00e9rgico e independente, Leoc\u00e1dia Prestes destacou-se, desde cedo, das jovens da sua classe social. Educada segundo os moldes tradicionais da \u00e9poca, falava v\u00e1rios idiomas, era ex\u00edmia pianista, estudou pintura, canto, declama\u00e7\u00e3o. No entanto, tais predicados, que lhe permitiam brilhar nos sal\u00f5es, n\u00e3o lhe bastavam. Ela gostaria de desenvolver alguma atividade \u00fatil e, ainda adolescente, manifestou o desejo de ser professora p\u00fablica, o que evidentemente n\u00e3o p\u00f4de ser concretizado devido aos preconceitos sociais. A pol\u00edtica e os problemas sociais a interessavam muito, pelo que era leitora apaixonada dos jornais da Corte, fato inusitado entre as mo\u00e7as de seu tempo.<\/p>\n<p>Em 1896, casou-se com o capit\u00e3o Ant\u00f4nio Pereira Prestes, engenheiro militar, que havia sido aluno de Benjamim Constant, na Escola Militar da Praia Vermelha, e participara, ainda cadete, da proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, no Campo de Santana. Era um homem de vasta cultura, partid\u00e1rio do Positivismo, que era a corrente filos\u00f3fica mais progressista no Brasil, no fim do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>O conv\u00edvio com o marido muito contribuiu para que Leoc\u00e1dia Prestes ampliasse sua cultura geral e aprofundasse ainda mais o seu interesse pela pol\u00edtica e pelas quest\u00f5es sociais. Anos mais tarde, ela contaria aos filhos a ansiedade com que ela e o marido viveram epis\u00f3dios como a Guerra de Canudos ou o c\u00e9lebre Caso Dreyfus, na Fran\u00e7a, que comoveu todos os setores progressistas, na passagem do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>A morte prematura do marido deixou-a em situa\u00e7\u00e3o muito prec\u00e1ria. A ex\u00edgua pens\u00e3o n\u00e3o era suficiente para o sustento dos filhos. O caminho mais f\u00e1cil teria sido arrimar-se a algum parente rico. Ela preferiu, por\u00e9m, conservar a sua independ\u00eancia e partira para a luta.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a dar aulas de idiomas e de m\u00fasica, trabalhou de modista, foi balconista e at\u00e9 costuras fez para o Arsenal de Marinha. Finalmente, em 1915, conseguiu ser nomeada professora da Escola P\u00fablica, como coadjuvante do ensino prim\u00e1rio, cargo que exerceu at\u00e9 1930. Trabalhava \u00e0 noite, nos cursos noturnos destinados a comerci\u00e1rios, oper\u00e1rios e dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>Era um trabalho muito pesado, pois tais cursos funcionavam em escolas dos sub\u00farbios do Rio, longe da condu\u00e7\u00e3o, freq\u00fcentemente no alto dos morros. Pela primeira vez em sua vida, ela p\u00f4de ter um maior contato com as camadas mais pobres da sociedade e isso agu\u00e7ou ainda mais a sua revolta contra as injusti\u00e7as sociais. Em pouco tempo, tornou-se muito estimada pelas alunas, pois era uma das poucas professoras, naquele tempo, que n\u00e3o admitiam discrimina\u00e7\u00f5es, tratando da mesma forma a comerci\u00e1ria bem arrumada e a cozinheira de roupa surrada ou a oper\u00e1ria de tamancos. Com sua atitude, ela procurava transmitir a seus alunos, al\u00e9m dos conhecimentos elementares, no\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a social, de igualdade e dignidade humana.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, ao educar os filhos, sua grande preocupa\u00e7\u00e3o foi sempre a de incutir-lhes o amor ao trabalho e o sentimento do dever c\u00edvico. Procurou sempre mostrar-lhes os aspectos negativos da vida, ensinando-lhes a enfrentar com altivez a viol\u00eancia e as arbitrariedades dos poderosos e a jamais curvar-se ante as injusti\u00e7as. Dotada de grande sensibilidade art\u00edstica, procurou sempre transmitir aos filhos o seu amor \u00e0 natureza e a sua admira\u00e7\u00e3o por tudo que \u00e9 belo e elevado. Uma sonata de Beethoven ou um belo poema, um p\u00f4r do sol ou o desabrochar de uma flor, a emocionavam igual-mente.<\/p>\n<p>A \u00e1rdua luta pela sobreviv\u00eancia n\u00e3o fez diminuir seu interesse pelo que ocorria na sociedade e no mundo. Mesmo nos momentos mais dif\u00edceis, em sua casa podia faltar p\u00e3o, mas nunca faltou pelo menos um jornal di\u00e1rio, para acompanhar os acontecimentos pol\u00edticos, que discutia e comentava com os filhos. Assim, em 1910, empolgou-se com a Campanha Civilista de Rui Barbosa e fazia quest\u00e3o de comparecer aos com\u00edcios, levando consigo o filho mais velho, Luiz Carlos, que contava apenas doze anos de idade, para que ouvisse a prega\u00e7\u00e3o c\u00edvica do mestre baiano.<\/p>\n<p>Por isso mesmo, em 1922, quando seu filho Luiz Carlos, j\u00e1 oficial do Ex\u00e9rcito, come\u00e7a a participar da pol\u00edtica, atuando na prepara\u00e7\u00e3o (do primeiro Cinco de Julho), ela lhe deu todo o apoio, incentivando-o inclusive a continuar a luta, ap\u00f3s a derrota do movimento.<\/p>\n<p>Em 29 de outubro de 1924, ocorreu o levante de Santo \u00c2ngelo, liderado por Luiz Carlos Prestes, dando in\u00edcio \u00e0 grande marcha atrav\u00e9s do Brasil que duraria at\u00e9 fevereiro de 1927. Foram anos muito duros para as fam\u00edlias dos participantes da Coluna. As \u00fanicas not\u00edcias que recebiam eram as fornecidas pelo governo, sempre as piores poss\u00edveis: a Coluna teria sido dizimada, seus chefes exterminados&#8230; Mais de uma vez os jornais do Rio abriram manchetes escandalosas anunciando a morte de Prestes e de seus companheiros.<\/p>\n<p>Leoc\u00e1dia Prestes, mesmo sabendo que a vida do filho corria permanente perigo, nunca perdeu a coragem e a confian\u00e7a no filho. Jamais algu\u00e9m a viu chorar. Para que n\u00e3o houvesse d\u00favidas sobre o seu apoio integral \u00e0s id\u00e9ias do filho, ela trazia sempre ao peito, bem vis\u00edvel, um grande medalh\u00e3o com o retrato dele. Sua firmeza impressionava a todos que a conheciam. Em pouco tempo, sua casa tornou-se a Meca das fam\u00edlias dos outros revolucion\u00e1rios, que a procuravam em busca de alento e consolo.<\/p>\n<p>Com a suspens\u00e3o da censura \u00e0 imprensa, em 1927, os feitos her\u00f3icos da Coluna tornaram-se conhecidos do povo brasileiro, comovendo o pa\u00eds. Luiz Carlos Prestes passou a ser considerado her\u00f3i nacional \u2013 o Cavaleiro da Esperan\u00e7a \u2013 e Leoc\u00e1dia Prestes era a M\u00e3e de todos os brasileiros. Sua modesta casa de sub\u00farbio fervilhava de amigos, admiradores e pol\u00edticos de todos os matizes.<\/p>\n<p>Em 1930, um grupo de pol\u00edticos, encabe\u00e7ado por Get\u00falio Vargas, aproveitando o prest\u00edgio de Luiz Carlos Prestes e do movimento Tenentista, organizou um golpe de Estado. Os tenentes, antigos participantes da Coluna, deixaram-se iludir e aderiram em massa ao Movimento de 30. Luiz Carlos Prestes, convidado, recusou-se a participar, por considerar que o Movimento n\u00e3o traria nenhum benef\u00edcio ao povo brasileiro. Em maio de 1930, lan\u00e7ou um manifesto, denunciando o golpe que se preparava e pregando uma revolu\u00e7\u00e3o verdadeiramente popular, agr\u00e1ria e antiimperialista. O manifesto, qualificado de comunista, caiu no Brasil como uma bomba. Como num passe de m\u00e1gica, todos os admiradores e pol\u00edticos abandonaram a casa de Leoc\u00e1dia Prestes. Em p\u00fablico, viravam-lhe as costas. Ela reagia com altivez, reiterando a sua solidariedade ao filho querido.<\/p>\n<p>Meses mais tarde, convencida de que o filho n\u00e3o poderia retornar ao Brasil t\u00e3o cedo, ela, mais uma vez, demonstrou toda sua coragem: licenciou-se do emprego, liquidou a casa e, acompanhada das quatro filhas, partiu para a Argentina, para ficar ao lado do filho. Iniciava-se, ent\u00e3o, um longo ex\u00edlio do qual ela n\u00e3o retornaria \u00e0 p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Em Buenos Aires, onde se radicaram, a vida foi extremamente dif\u00edcil. Com a crise dos anos 30, era imposs\u00edvel conseguir trabalho. Poucos dias ap\u00f3s a chegada da fam\u00edlia, Prestes foi preso, amea\u00e7ado pela pol\u00edcia argentina, sendo obrigado a asilar-se em Montevid\u00e9u. Com isso, perdeu o emprego. Leoc\u00e1dia Prestes permaneceu em Buenos Aires, com as filhas, lutando como podiam para sobreviverem. Foi nesse per\u00edodo que elas e as filhas se aproximam do marxismo.<\/p>\n<p>Em 1931, Luiz Carlos Prestes foi convidado pelo governo sovi\u00e9tico para trabalhar como engenheiro no Primeiro Plano Q\u00fcinq\u00fcenal. Sua fam\u00edlia, mais uma vez, n\u00e3o vacilou em acompanh\u00e1-lo, decidindo seguir com ele para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. \u00c0s pessoas que se surpreenderiam com a sua decis\u00e3o, Leoc\u00e1dia Prestes dizia: \u201cse meu filho seguiu este caminho, este \u00e9 o caminho certo\u201d.<\/p>\n<p>Contudo, seu primeiro contato com a sociedade socialista n\u00e3o foi f\u00e1cil. Arrasada por duas guerras, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica atravessava enormes dificuldades. Faltava tudo. Para uma senhora de quase sessenta anos, de origem aristocr\u00e1tica e que havia passado toda a sua vida sob outro regime, a realidade sovi\u00e9tica suscitava muitas d\u00favidas. Seu esp\u00edrito de justi\u00e7a, por\u00e9m, ajudou-a a superar as incompreens\u00f5es. Pouco a pouco, ela foi compreendendo a causa das dificuldades e a grandeza da luta e dos sacrif\u00edcios do povo sovi\u00e9tico. O entusiasmo do povo a contagiava. Muito contribuiu tamb\u00e9m para a sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica o processo de Leipzig, em 1934, contra o revolucion\u00e1rio b\u00falgaro George Dimitrov, cuja firmeza revolucion\u00e1ria perante o tribunal nazista a impressionou profundamente. Aos sessenta anos de idade, ela aderia, conscientemente, \u00e0s id\u00e9ias marxistas.<\/p>\n<p>Em agosto de 1934, Luiz Carlos Prestes foi finalmente aceito no Partido Comunista, terminando assim sua longa e penosa trajet\u00f3ria do tenentismo ao marxismo. E, a 29 de dezembro do mesmo ano, partia para o Brasil, para a luta clandestina.<\/p>\n<p>Iniciou-se, ent\u00e3o, para Leoc\u00e1dia Prestes, um longo per\u00edodo de grande sofrimento. Se, por um lado, apoiava integralmente o caminho seguido pelo filho, por outro lado, s\u00f3 a id\u00e9ia de perd\u00ea-lo a fazia sofrer intensamente. Ela n\u00e3o duvidava de que, se o filho fosse preso, seria morto. Contudo, procurava manter-se firme. Foi nessa \u00e9poca que, buscando uma forma de participar da luta, resolveu aprender datilografia a fim de ajudar na c\u00f3pia e tradu\u00e7\u00e3o de documentos.<\/p>\n<p>Em 5 de mar\u00e7o de 1936, Luiz Carlos Prestes foi preso no Rio de Janeiro, junto com sua companheira Olga Ben\u00e1rio. Gra\u00e7as \u00e0 coragem de Olga, que o protegeu com seu corpo, n\u00e3o conseguiram mat\u00e1-lo no ato da pris\u00e3o. Mas a sua vida corria perigo iminente. A qualquer momento, poderiam \u201csuicid\u00e1-lo\u201d na pris\u00e3o, como era costume na \u00e9poca. Foi decidido, ent\u00e3o, levantar uma campanha internacional em defesa da vida de Prestes e de todos os presos no Brasil. E Leoc\u00e1dia Prestes foi escolhida para encabe\u00e7ar essa campanha.<\/p>\n<p>Aquela foi a sua primeira miss\u00e3o pol\u00edtica. Tarefa dif\u00edcil para uma senhora de sessenta e dois anos que havia sido, at\u00e9 ent\u00e3o, apenas m\u00e3e de fam\u00edlia e, quando muito, professora de sub\u00farbio. Contudo, ela n\u00e3o desanimou. Acompanhada de sua filha Lygia, partiu de Moscou, em fins de mar\u00e7o de 1936, dando in\u00edcio \u00e0 campanha.<\/p>\n<p>Foram v\u00e1rios anos de \u00e1rduo trabalho. Eram com\u00edcios, confer\u00eancias de imprensa, visitas a jornais e sindicatos, a partidos pol\u00edticos, parlamentos ou a chefes de governos. Viagens freq\u00fcentes e demoradas. Era um trabalho extenuante para uma pessoa de sua idade.<\/p>\n<p>Com sua filha, ela percorreu os principais pa\u00edses europeus, denunciando o terror desencadeado no Brasil, o perigo de morte para os presos pol\u00edticos e pedindo solidariedade e apoio para a sua luta. Em pouco tempo, a campanha se estendeu aos outros continentes. Comit\u00eas de defesa de Prestes foram criados nos Estados Unidos, na Am\u00e9rica Latina, na Austr\u00e1lia e na Nova Zel\u00e2ndia. Do mundo inteiro, o governo brasileiro era bombardeado com milhares de cartas, telegramas de protesto, manifestos de toda a sorte, exigindo a liberta\u00e7\u00e3o de Prestes e de seus companheiros ou, pelo menos, o respeito \u00e0s suas vidas.<\/p>\n<p>Em fins de 1936, com a extradi\u00e7\u00e3o de Olga Ben\u00e1rio para a Alemanha nazista, a campanha se duplica. Surge uma campanha paralela, destinada a salvar a vida de Olga e do beb\u00ea que estava para nascer. Leoc\u00e1dia Prestes e sua filha v\u00e3o a Genebra pedir a ajuda da Sociedade das Na\u00e7\u00f5es e da Cruz Vermelha Internacional. Gra\u00e7as \u00e0s gest\u00f5es, foi poss\u00edvel receber, j\u00e1 em 1937, algumas not\u00edcias de Olga e de sua filhinha, Anita Leoc\u00e1dia, nascida em 27 de novembro de 1936.<\/p>\n<p>Tr\u00eas vezes Leoc\u00e1dia Prestes foi com sua filha \u00e0 Alemanha, enfrentar a Gestapo e exigir a liberta\u00e7\u00e3o de Olga e da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Delega\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios pa\u00edses foram tamb\u00e9m a Berlim, com o mesmo objetivo. Malgrado todos os esfor\u00e7os, n\u00e3o foi poss\u00edvel salvar Olga. O mais que se obteve foi a liberta\u00e7\u00e3o da pequena Anita Leoc\u00e1dia, em janeiro de 1938, e a vaga promessa da Gestapo de que Olga seria libertada um pouco mais adiante. Ao contr\u00e1rio disso, Olga foi enviada a um campo de concentra\u00e7\u00e3o, em Ravensbr\u00fcck, e assassinada em abril de 1942.<\/p>\n<p>Ante a imin\u00eancia da guerra, Leoc\u00e1dia Prestes v\u00ea-se for\u00e7ada a deixar a Europa. Com a filha e a neta, parte para o M\u00e9xico, cujo presidente, General L\u00e1zaro C\u00e1rdenas, concedera-lhes asilo. Foi um golpe muito duro, pois ela bem compreendia que a mudan\u00e7a para o M\u00e9xico tornaria muito mais dif\u00edcil qualquer ajuda \u00e0 nora querida.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, a campanha prosseguiu, j\u00e1 ent\u00e3o limitada \u00e0s Am\u00e9ricas, pois o resto do mundo estava convulsionado pela guerra. Com a guerra, Leoc\u00e1dia Prestes perde o contato com Olga e tamb\u00e9m com as outras filhas que haviam ficado em Moscou. Al\u00e9m da sorte do filho, na pris\u00e3o, preocupa-a agora tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o dos seus outros entes queridos, amea\u00e7ados pelas bombas nazistas. Contudo, a coragem e a f\u00e9 na vit\u00f3ria final n\u00e3o a abandonaram jamais. Quando as hordas nazistas avan\u00e7avam pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, ela costumava dizer aos amigos assustados: \u201cVoc\u00eas n\u00e3o conhecem aquele povo! Quem passou tantas priva\u00e7\u00f5es e sofrimentos para construir o socialismo em seu pa\u00eds, n\u00e3o vai fraquejar agora. Eles s\u00e3o invenc\u00edveis!\u201d<\/p>\n<p>Leoc\u00e1dia Prestes n\u00e3o teve a alegria de assistir \u00e0 vit\u00f3ria final dos povos sobre o nazismo nem a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos, no Brasil, em 1945. Ap\u00f3s longa e penosa enfermidade, ela veio a falecer no M\u00e9xico, no dia 14 de junho de 1943.<\/p>\n<p>Sua morte comoveu o povo mexicano, que a admirava muito. Ao vel\u00f3rio, no sal\u00e3o nobre do Sindicato dos Empregados em Hot\u00e9is, no centro da cidade do M\u00e9xico, compareceram milhares de pessoas, inclusive numerosos estrangeiros, fugidos do nazismo e tamb\u00e9m asilados no M\u00e9xico. Todos os ministros de Estado estiveram presentes, com seus auxiliares , a come\u00e7ar pelo general C\u00e1rdenas, na \u00e9poca Ministro da Defesa, no Governo de \u00c1vila Camacho. O general C\u00e1rdenas tomou a iniciativa de dirigir-se pessoalmente a Get\u00falio Vargas, pedindo-lhe que permitisse a Prestes vir ao M\u00e9xico despedir-se de sua m\u00e3e. Propunha enviar um avi\u00e3o militar mexicano para trazer o prisioneiro e oferecia-se, inclusive, como ref\u00e9m, como garantia de que Prestes voltaria \u00e0 pris\u00e3o. Get\u00falio sequer respondeu. Quatro dias e quatro noites o povo aguardou a resposta, em respeitosa vig\u00edlia.<\/p>\n<p>No dia 18 de junho de 1943, realizou-se o enterro, que se transformou em uma verdadeira manifesta\u00e7\u00e3o popular. O cortejo atravessou toda a cidade a p\u00e9, at\u00e9 as colinas de Tacubaya, onde ficava o cemit\u00e9rio. O caix\u00e3o, coberto pela bandeira brasileira, foi levado em ombros e cercado por uma guarda de honra que levava as bandeiras de todas as Na\u00e7\u00f5es Unidas que, naquele momento, travavam a luta contra o nazismo. \u00c0 beira da sepultura, v\u00e1rios oradores se fizeram ouvir, inclusive representantes de outros pa\u00edses latino-americanos, como Cuba, Uruguai, Chile e, tamb\u00e9m, de pa\u00edses europeus, principalmente alem\u00e3es e espanh\u00f3is. O grande poeta chileno Pablo Neruda leu o seu Poema Dura Elegia, escrito especialmente para aquele triste momento, no qual ele define a import\u00e2ncia da vida de Leoc\u00e1dia Prestes com estas singelas palavras: \u201cSe\u00f1ora, hiciste grande, m\u00e1s grande, a nuestra Am\u00e9rica&#8230;\u201d.<\/p>\n<p><strong>Extra\u00eddo de:<\/strong><\/p>\n<p><strong> PCB: 80 anos de luta. H. ROEDEL, AQUINO, F. VIEIRA, L. B. NAEGELI, L. MARTINS. Rio de Janeiro, Funda\u00e7\u00e3o Dinarco Reis, 2002.<\/strong><\/p>\n<p>Fonte: Brasil de Fato<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Brasil de Fato\n\n\n\n\n\n\n\n\nBrasil de Fato\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1261\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-1261","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-kl","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1261","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1261"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1261\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}