{"id":12625,"date":"2016-11-16T20:29:08","date_gmt":"2016-11-16T23:29:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12625"},"modified":"2016-12-02T21:38:34","modified_gmt":"2016-12-03T00:38:34","slug":"o-capitalismo-pede-as-mulheres-trabalhadoras-mais-170-anos-de-paciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12625","title":{"rendered":"O capitalismo pede \u00e0s mulheres trabalhadoras mais 170 anos de paci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/bloglavrapalavra.files.wordpress.com\/2016\/10\/mulheres-greve.jpeg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><strong>Por <\/strong><strong>Fl\u00e1via Benetti Castro e Gabriel Landi Fazzio<\/strong><\/p>\n<p><em>A den\u00fancia da desigualdade salarial entre homens e mulheres \u00e9 admitida at\u00e9 mesmo pelo ponto de vista liberal, mas apenas as lutas travadas pelas trabalhadoras e dos trabalhadores podem mudar essa situa\u00e7\u00e3o, enfrentando a pr\u00f3pria escravid\u00e3o salarial. Se apenas questionarmos as consequ\u00eancias culturais, mas n\u00e3o os fundamentos pol\u00edtico-econ\u00f4micos das desigualdades salariais, nos restar\u00e1, t\u00e3o somente, esperar que o mercado traga a igualdade \u201cnaturalmente\u201d \u2013 o que a hist\u00f3ria j\u00e1 nos mostra que \u00e9 imposs\u00edvel, vez que s\u00f3 a luta organizada \u00e9 capaz de mudar a realidade das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o.<\/em><!--more--><\/p>\n<hr \/>\n<p>O F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial \u2013 FEM <a href=\"http:\/\/america.aljazeera.com\/articles\/2015\/11\/19\/gender-pay-inequality-so-wide-will-take-118-years-to-reach-parity-globally.html\">anunciou<\/a>, em 2015, que a desigualdade salarial entre homens e mulheres levaria ainda 118 anos para ser eliminada. Por\u00e9m, menos de um ano depois, o F\u00f3rum anunciou a <a href=\"http:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2016\/10\/index-gender-wage-gap-close-170-years-161026071909666.html\">revis\u00e3o de tal previs\u00e3o<\/a>: o fim da desigualdade salarial entre os g\u00eaneros dever\u00e1 demorar mais 170 anos para ocorrer! Repita-se: s\u00e3o necess\u00e1rios quase dois s\u00e9culos para a justa equipara\u00e7\u00e3o salarial entre o trabalho realizado por um homem e o por uma mulher \u2013 sem que falarmos, ainda, das discrep\u00e2ncias de tratamento, ass\u00e9dio moral e sexual, bem como dos estigmas sociais das profiss\u00f5es ditas \u201cfemininas\u201d Segundo a organiza\u00e7\u00e3o, em todo o mundo, 54% das mulheres em idade laboral participam da economia formal, em compara\u00e7\u00e3o com um percentual masculino de 81%. Em geral, as mulheres s\u00e3o remuneradas com sal\u00e1rios que representam apenas 59% dos sal\u00e1rios destinados aos homens, uma diferen\u00e7a de quase metade pela mesma atividade desempenhada.<\/p>\n<p>Aqueles que n\u00e3o conhecem o FEM, talvez conhe\u00e7am, por outro lado, a reuni\u00e3o que a organiza\u00e7\u00e3o capitalista prepara anualmente em Davos entre os CEOs das 1.000 empresas que comp\u00f5em o F\u00f3rum, contando com a presen\u00e7a de pol\u00edticos e intelectuais burgueses. Ap\u00f3s evidenciados os interesses materiais que lastreiam o F\u00f3rum, algumas perguntas podem ser levantadas sobre o significado de tal revis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Os limites do progressismo liberal<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 pertinente questionar: mas como se calcula esse prazo, ou seja, como se chegou \u00e0 estimativa de 170 anos? Segundo a institui\u00e7\u00e3o, a resposta \u00e9 \u201cconforme o ritmo atual\u201d [1]. Isto \u00e9, a revis\u00e3o seria causada porque \u201co progresso desacelerou, paralisou ou se reverteu em na\u00e7\u00f5es ao redor do mundo\u201d. Assim, segundo o ponto de vista liberal do FEM, \u00e9 sup\u00e9rfluo investigar os motivos de tais ritmos distintos na redu\u00e7\u00e3o ou no aumento da desigualdade; \u00e9 desagrad\u00e1vel apontar que tais ou quais pol\u00edticas s\u00e3o mais ou menos efetivas \u2013 basta, ent\u00e3o, estabelecer uma m\u00e9dia ponderada entre os distintos ritmos nacionais de redu\u00e7\u00e3o ou aumento da desigualdade, como se houvesse uma tal coisa como uma \u201credu\u00e7\u00e3o mundial\u201d na diferen\u00e7a salarial. A revis\u00e3o do dado, evidentemente, p\u00f5e por terra a pr\u00f3pria metodologia, marcada por um otimismo progressista liberal, que apenas celebra e prega: \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Laissez-faire\">deixai fazer<\/a>\u201d, estamos no caminho certo! \u00c9 por isso mesmo que, diante das mudan\u00e7as pol\u00edticas internacionais dos \u00faltimos anos, o FEM nada mais pode apontar sen\u00e3o um tempo de espera maior. Mesmo os reformistas \u201cde esquerda\u201d da OIT s\u00e3o incapazes de propor algo diferente dessa espera prolongada \u2013 nesse ponto espec\u00edfico (mas tamb\u00e9m em outros) s\u00e3o mais \u201cde esquerda\u201d que os economistas do FEM apenas porque <em>imploram mais desesperadamente<\/em> aos patr\u00f5es por uma pol\u00edtica salarial <em>menos discriminat\u00f3ria <\/em>e prop\u00f5e uma espera de <em>apenas 70 anos<\/em>, <a href=\"http:\/\/economia.uol.com.br\/empregos-e-carreiras\/noticias\/redacao\/2016\/03\/07\/oit-paridade-salarial-entre-mulheres-e-homens-vai-levar-mais-de-70-anos.htm\">um s\u00e9culo a menos<\/a>! E, entretanto, ambos organismos internacionais se omitem, significativamente, quanto \u00e0 pr\u00f3pria mobiliza\u00e7\u00e3o organizada das trabalhadoras e dos trabalhadores para for\u00e7ar mudan\u00e7as nas pol\u00edticas remunerat\u00f3rias. Omitem, n\u00e3o \u00e0 toa, <a href=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/2016\/03\/08\/o-outro-8-de-marco-lembrar-e-resistir-3\/\">a verdadeira hist\u00f3ria acerca do 8 de mar\u00e7o<\/a>, fantasiando, mistificando e mercantilizando uma data cuja origem est\u00e1 marcada por um car\u00e1ter socialista e prolet\u00e1rio. Omitem a greve das trabalhadoras da Ford, em <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Made_in_Dagenham\">Dagenham<\/a>, em 1968, estopim para os movimentos pelo \u201cEqual Pay Act\u201d de dois anos depois. Omitem <a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2015\/11\/151102_islandia_feminismo_hb\">a colossal greve geral das trabalhadoras islandesas<\/a>, de 1975, e seus resultados. Enfim, omitem o fundamental no que diz respeito a qualquer quest\u00e3o salarial: a luta de classes.<\/p>\n<p>Nesses termos, como resolver, ent\u00e3o, a quest\u00e3o da desigualdade salarial entre os g\u00eaneros? \u201cExatamente como se resolve <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1873\/habita\/cap01.htm\">qualquer outra quest\u00e3o social<\/a> na sociedade de hoje: pelo equil\u00edbrio econ\u00f4mico gradual entre procura e oferta, solu\u00e7\u00e3o que reproduz constantemente a quest\u00e3o e que, portanto, n\u00e3o \u00e9 solu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A esse respeito, valeria \u00e0 pena lembrar a reflex\u00e3o fat\u00eddica de <a href=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/2015\/10\/02\/walter-benjamin-teses-sobre-o-conceito-de-historia\/\">Walter Benjamin<\/a> sobre a ideia de progresso que consola os reformadores sociais:<\/p>\n<p><strong>\u201c<\/strong>A teoria e, mais ainda, a pr\u00e1tica da social-democracia foram determinadas por um conceito dogm\u00e1tico de progresso sem qualquer v\u00ednculo com a realidade. Segundo os socialdemocratas, o progresso era, em primeiro lugar, um progresso da humanidade em si, e n\u00e3o das suas capacidades e conhecimentos. Em segundo lugar, era um processo sem limites, ideia correspondente \u00e0 da perfectibilidade infinita do g\u00eanero humano. Em terceiro lugar, <em>era um processo essencialmente autom\u00e1tico<\/em>, percorrendo, irresist\u00edvel, uma trajet\u00f3ria em flecha ou em espiral. Cada um desses atributos \u00e9 controvertido e poderia ser criticado. Mas, para ser rigorosa, a cr\u00edtica precisa ir al\u00e9m deles e concentrar-se no que lhes \u00e9 comum. A ideia de um progresso da humanidade na hist\u00f3ria \u00e9 insepar\u00e1vel da ideia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homog\u00eaneo. A cr\u00edtica da ideia do progresso tem como pressuposto a cr\u00edtica da ideia dessa marcha.<\/p>\n<p>[\u2026] Nosso ponto de partida \u00e9 a ideia de que a obtusa f\u00e9 no progresso desses pol\u00edticos, sua confian\u00e7a no \u201capoio das massas\u201d e, finalmente, sua subordina\u00e7\u00e3o servil a um aparelho incontrol\u00e1vel s\u00e3o tr\u00eas aspectos da mesma realidade. [\u2026]<\/p>\n<p><em>A tradi\u00e7\u00e3o dos oprimidos nos ensina que o \u201cestado de exce\u00e7\u00e3o\u201d em que vivemos \u00e9 na verdade a regra geral<\/em>. Precisamos construir um conceito de hist\u00f3ria que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que <em>nossa tarefa \u00e9 originar um verdadeiro estado de exce\u00e7\u00e3o; <\/em>com isso, nossa posi\u00e7\u00e3o ficar\u00e1 mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da circunst\u00e2ncia de que seus advers\u00e1rios o enfrentam em nome do progresso, considerado como uma norma hist\u00f3rica. <em>O assombro com o fato de que os epis\u00f3dios que vivemos no s\u00e9culos XX \u201cainda\u201d sejam poss\u00edveis, n\u00e3o \u00e9 um assombro filos\u00f3fico<\/em>. Ele n\u00e3o gera nenhum conhecimento, a n\u00e3o ser o conhecimento de que a concep\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria da qual emana semelhante assombro \u00e9 insustent\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>Considerada a reflex\u00e3o de Benjamin e a pr\u00f3pria revis\u00e3o do prazo dado pelo FEM, o que restar\u00e1 que d\u00ea consist\u00eancia ao otimismo progressista? A desigualdade salarial entre mulheres e homens n\u00e3o s\u00f3 <em>ainda<\/em> \u00e9 poss\u00edvel \u201cem pleno s\u00e9culo XXI\u201d, como \u00e9 a cada ano <em>mais <\/em>poss\u00edvel. Caindo totalmente por terra a tese de uma \u201cprogressiva evolu\u00e7\u00e3o geral da humanidade\u201d no plano da moral, dos valores e da cultura, n\u00e3o seria o caso de p\u00f4r abaixo, tamb\u00e9m e principalmente, a explica\u00e7\u00e3o puramente <em>cultural <\/em>da desigualdade de g\u00eanero no \u00e2mbito dos sal\u00e1rios?<\/p>\n<p><strong>A desigualdade salarial e a crise capitalista<\/strong><\/p>\n<p>Quando criticamos uma explica\u00e7\u00e3o \u201cpuramente cultural\u201d, n\u00e3o pretendemos oferecer em alternativa uma explica\u00e7\u00e3o \u201cpuramente econ\u00f4mica\u201d.<\/p>\n<p>Sem a pretens\u00e3o aprofundar um tema j\u00e1 amplamente debatido e pesquisado, apenas salientamos que qualquer causa ideol\u00f3gica que esteja por tr\u00e1s de tal ou qual desigualdade \u00e9, por sua vez, inexistente sem um motivo econ\u00f4mico. \u201cA opress\u00e3o na sociedade \u00e9 sempre o resultado da explora\u00e7\u00e3o imposta\u201d, <a href=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/2016\/09\/28\/os-fundamentos-da-alienacao-da-mulher\/\">afirmava<\/a> Samora Machel. Em s\u00edntese: para enriquecer, a classe dominante lan\u00e7a m\u00e3o de todo o tipo de opress\u00e3o \u2013 e n\u00e3o ao contr\u00e1rio, como se <em>por mero costume<\/em> reproduzisse a opress\u00e3o (cuja origem remontaria alguma maldade arbitr\u00e1ria ou uma gen\u00e9tica essencialmente maldosa) e <em>por ing\u00eanuo acidente<\/em> lucrasse com essa reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ignorando o pr\u00f3prio fundamento da acumula\u00e7\u00e3o de riquezas no capitalismo \u2013 a mais-valia, ou seja, a parcela do trabalho efetivamente realizado, mas n\u00e3o pago \u00e0 trabalhadora e ao trabalhador \u2013 \u00e9 poss\u00edvel de se surpreender que, diante de uma das maiores crises da hist\u00f3ria recente, a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades salariais seja revertida.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o s\u00f3 isso: em S\u00e3o Paulo, na contram\u00e3o da tend\u00eancia geral, a desigualdade salarial entre os g\u00eaneros caiu nos \u00faltimos meses! O motivo? <a href=\"http:\/\/economia.ig.com.br\/2016-03-08\/diferenca-salarial-entre-homens-e-mulheres-cai-em-sao-paulo-devemos-comemorar.html\">Segundo uma economista<\/a>: \u201cH\u00e1 aproxima\u00e7\u00f5es de n\u00fameros, como no contingente de desempregados, que foi de quase 50% mulheres e 50% homens; historicamente, as mulheres sempre foram maior alvo do desemprego. Agora, ficou mais pr\u00f3ximo, assim como o rendimento m\u00e9dio. No entanto, n\u00e3o foram por causas virtuosas, pois 2015 foi um ano de crise, que atingiu mais homens que mulheres. Ou seja, foi porque homens tiveram piora na situa\u00e7\u00e3o que elas chegaram mais pr\u00f3ximo\u201d.<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o: como regra geral, temos que os capitalistas salvar\u00e3o seus lucros \u00e0s custas da intensifica\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o e da opress\u00e3o das prolet\u00e1rias; como exce\u00e7\u00e3o, temos que as trabalhadoras podem ser menos penalizadas nos lugares onde os homens prolet\u00e1rios forem duramente vitimados pelo desemprego em massa. N\u00e3o \u00e9 pouco significativo lembrar, a esse respeito, que em muitos pa\u00edses a inser\u00e7\u00e3o massiva das mulheres no mercado de trabalho surgiu como necessidade de explora\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra barata quando os homens trabalhadores sa\u00edam \u00e0s guerras imperialistas \u2013 ou seja, algo bastante distante da id\u00edlica \u201cconquista do trabalho feminino\u201d descrita pelos liberais. Segundo essa narrativa, as mulheres n\u00e3o deveria se revoltar contra sua explora\u00e7\u00e3o pelos capitalistas, e sim agradec\u00ea-los por retir\u00e1-las ao embrutecimento do lar e da fam\u00edlia tradicional, inserindo-as benevolentemente na esfera da vida p\u00fablica!<\/p>\n<p>Verdade seja dita que, desde o princ\u00edpio, os economistas do FEM sempre falaram em <em>reduzir a desigualdade salarial<\/em>; mas nunca em <em>aumentar os sal\u00e1rios<\/em>, logo, abordam a tem\u00e1tica sob um vi\u00e9s estritamente liberal que n\u00e3o contempla as reivindica\u00e7\u00f5es das trabalhadoras enquanto classe. Este discurso incompleto e insatisfat\u00f3rio vem, apenas, para preservar a desigualdade estrutural entre as classes propriet\u00e1rias e as classes despossu\u00eddas. No capitalismo, para que algu\u00e9m avance \u00e9 preciso que algu\u00e9m retroceda, e as classes dominantes n\u00e3o pretendem sofrer regress\u00f5es em nenhum de seus privil\u00e9gios, o que as leva a difundir um discurso naturalizante e conformador. Mas n\u00e3o \u00e9 bem este o rumo da classe trabalhadora.<\/p>\n<p><strong>Apenas junto com as trabalhadoras o socialismo ser\u00e1 vitorioso<\/strong><\/p>\n<p>De maneira absolutamente pioneira, a comunista Clara Zetkin j\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/zetkin\/1896\/10\/16.htm\">apontava<\/a> para as diverg\u00eancias classistas no pr\u00f3prio bojo das lutas das mulheres contra sua opress\u00e3o. Para a pequena-burguesia, importa \u201cconquistar a igualdade econ\u00f4mica com os homens e elas s\u00f3 poder\u00e3o faz\u00ea-lo com duas demandas: a demanda por igualdade na qualifica\u00e7\u00e3o profissional e por iguais oportunidades de trabalho para ambos os sexos. Em termos econ\u00f4micos, isso significa nada menos que o livre acesso a todos os empregos e a concorr\u00eancia sem entraves entre homens e mulheres\u201d. Mas \u201cno que se refere \u00e0 mulher prolet\u00e1ria, <em>foi a necessidade do capitalismo explorar e procurar incessantemente uma for\u00e7a de trabalho mais barata que criou a quest\u00e3o da mulher<\/em>. \u00c9 por essa raz\u00e3o, tamb\u00e9m, que a mulher prolet\u00e1ria foi envolvida no mecanismo da vida econ\u00f4mica\u201d. Assim, \u201ca luta de liberta\u00e7\u00e3o da mulher prolet\u00e1ria n\u00e3o pode ser similar \u00e0 luta que a mulher burguesa trava contra o homem de sua classe. Pelo contr\u00e1rio, ela tem de ser uma luta conjunta com o homem de sua classe contra a classe dos capitalistas em conjunto.\u201d<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa, de modo algum, que a reivindica\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios iguais entre mulheres e homens seja secund\u00e1ria. Ao contr\u00e1rio: significa, em primeiro lugar, que os homens trabalhadores n\u00e3o podem se isentar na solidariedade classista a tal luta das mulheres trabalhadores \u2013 <u>de modo a juntar-se em seus processos de luta, em seus espa\u00e7os de organiza\u00e7\u00e3o e na divis\u00e3o das tarefas reprodutivas e no cuidados dos filhos, a fim de que as mulheres n\u00e3o se ausentem dos ambientes pol\u00edticos, sendo tal divis\u00e3o concebida n\u00e3o de acordo com os par\u00e2metros \u201cnaturais\u201d do g\u00eanero, mas coletivamente e racionalmente decidida<\/u>; e, em segundo lugar, significa compreender que essa reivindica\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente irrealiz\u00e1vel sob o capitalismo, que n\u00e3o pode manter-se operando sen\u00e3o buscando incessantemente modos de intensificar a extra\u00e7\u00e3o de mais-valia. Neste sentido, em sua obra \u201c<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/0B9g8GQf1_oXmWjJtVHlyTllLaXM\/view\">G\u00eanero, Patriarcado e Viol\u00eancia<\/a>\u201d, detalha a soci\u00f3loga marxista Heleieth Saffioti:<\/p>\n<p>\u201cAcrescente-se o tradicional menor acesso das mulheres \u00e0 educa\u00e7\u00e3o adequada \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de um posto de trabalho prestigioso e bem remunerado. Este fen\u00f4meno marginalizou-as de muitas posi\u00e7\u00f5es no mercado de trabalho. A explora\u00e7\u00e3o chega ao ponto de os sal\u00e1rios m\u00e9dios das trabalhadoras brasileiras serem cerca de 64% (IBGE) dos rendimentos m\u00e9dios dos trabalhadores brasileiros, embora, nos dias atuais, o grau de escolaridade das primeiras seja bem superior ao dos segundos. A domina\u00e7\u00e3o-explora\u00e7\u00e3o constitui um \u00fanico fen\u00f4meno, apresentando duas faces. Desta sorte, a base econ\u00f4mica do patriarcado n\u00e3o consiste apenas na intensa discrimina\u00e7\u00e3o salarial das trabalhadoras, em sua segrega\u00e7\u00e3o ocupacional e em sua marginaliza\u00e7\u00e3o de importantes pap\u00e9is econ\u00f4micos e pol\u00edtico-deliberativos, mas tamb\u00e9m no controle de sua sexualidade e, por conseguinte, de sua capacidade reprodutiva. Seja para induzir as mulheres a ter grande n\u00famero de filhos, seja para convenc\u00ea-las a controlar a quantidade de nascimentos e o espa\u00e7o de tempo entre os filhos, o controle est\u00e1 sempre em m\u00e3os masculinas, embora elementos femininos possam intermediar e mesmo implementar estes projetos [\u2026] Isto \u00e9, a preserva\u00e7\u00e3o do status quo consulta os interesses dos homens, ao passo que transforma\u00e7\u00f5es no sentido da igualdade social entre homens e mulheres respondem \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es femininas. N\u00e3o h\u00e1, pois, possibilidade de se considerarem os interesses das duas categorias como apenas conflitantes. S\u00e3o, com efeito, contradit\u00f3rios. N\u00e3o basta ampliar o campo de atua\u00e7\u00e3o das mulheres. Em outras palavras, n\u00e3o basta que uma parte das mulheres ocupe posi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, pol\u00edticas, religiosas etc., tradicionalmente reservadas aos homens. Como j\u00e1 se afirmou, qualquer que seja a profundidade da domina\u00e7\u00e3o-explora\u00e7\u00e3o da categoria mulheres pela dos homens, a natureza do patriarcado continua a mesma. A contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o encontra solu\u00e7\u00e3o neste regime. Ela admite a supera\u00e7\u00e3o, o que exige transforma\u00e7\u00f5es radicais no sentido da preserva\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as e da elimina\u00e7\u00e3o das desigualdades, pelas quais \u00e9 respons\u00e1vel a sociedade. J\u00e1 em uma ordem n\u00e3o-patriarcal de g\u00eanero a contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 presente. Conflitos podem existir e para este tipo de fen\u00f4meno h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es sociais de g\u00eanero isentas de hierarquias, sem mudan\u00e7as cruciais nas rela\u00e7\u00f5es sociais mais amplas\u201d.<\/p>\n<p>No mesmo caminho apontam as reflex\u00f5es de <a href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12504\">I\u00f1aki Gil de San Vicente<\/a>:<\/p>\n<p>\u201cAs estruturas econ\u00f4micas e culturais de explora\u00e7\u00e3o de sexo-g\u00eanero funcionam em duas \u00e1reas diferentes, por\u00e9m unidas na pr\u00e1tica: a da explora\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho sexo-econ\u00f4mica da mulher pelo homem, e a da domina\u00e7\u00e3o cultural, afetiva, emocional, amorosa, sexual, pol\u00edtica, etc., do patriarcado. A uni\u00e3o pr\u00e1tica entre explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o produz a opress\u00e3o capitalista de sexo-g\u00eanero. O sistema patriarcal \u00e9 anterior ao capitalismo, por\u00e9m este \u00e9 integrado, submetido a sua l\u00f3gica, convertendo-se em uma pe\u00e7a chave de sua exist\u00eancia, pe\u00e7a que demonstra especialmente sua efic\u00e1cia em duas circunst\u00e2ncias decisivas. Durante as crises, o patriarcado refor\u00e7a a opress\u00e3o da mulher em todos os sentidos para aumentar os benef\u00edcios capitalistas em todas suas express\u00f5es; durante as lutas revolucion\u00e1rias, o patriarcado tenta convencer as mulheres de que n\u00e3o lutem, que sejam passivas e, sobretudo, que se oponham \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Assim sendo, a reivindica\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios iguais para iguais atividades, sem distin\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, deve ser erguida n\u00e3o com a inten\u00e7\u00e3o de iludir as trabalhadoras sobre sua viabilidade no regime de escravid\u00e3o assalariada, mas pelo contr\u00e1rio, de modo a ampliar a consci\u00eancia da necessidade de derrubar o capitalismo e erguer novas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, baseadas nos pr\u00f3prios interesses da classe trabalhadora. Enquanto os meios de produ\u00e7\u00e3o sejam prioridade privada e o trabalho seja apenas uma mercadoria que comp\u00f5e a <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1867\/capital\/livro1\/cap06\/01.htm\">parcela vari\u00e1vel do capital<\/a>, qualquer reivindica\u00e7\u00e3o de tal tipo apenas pode exprimir a inten\u00e7\u00e3o de ver os meios de produ\u00e7\u00e3o subordinados aos interesses do trabalho.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/revistas.pucsp.br\/index.php\/ls\/article\/view\/18733\/13926\">Apenas em uma sociedade socialista \u00e9 poss\u00edvel realizar a igualdade salarial<\/a>, bem como as demais rela\u00e7\u00f5es igualit\u00e1rias no mundo do trabalho quanto \u00e0 forma de tratamento, o rompimento dos pr\u00e9-conceitos e a erradica\u00e7\u00e3o de estigmas entre mulheres e homens, abrindo as portas para toda uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es na pr\u00f3pria divis\u00e3o sexual do trabalho em escala ampliada e coletiva. Ao contr\u00e1rio do que pede o FEM, as trabalhadoras n\u00e3o precisam esperar pacientemente que a livre-concorr\u00eancia lhes presenteie com a igualdade: ao contr\u00e1rio, contando com a consci\u00eancia solid\u00e1ria de seus camaradas na subdivis\u00e3o de tarefas e na forma\u00e7\u00e3o de quadros pol\u00edticos (sem a sobrecarga de tarefas secretariais, mas sim entendidas como parcela ativa e de vanguarda na atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe), precisam dedicar todos seus esfor\u00e7os e prioridades \u00e0 sua organiza\u00e7\u00e3o enquanto classe, e arrancar a igualdade aos capitalistas pela luta, instituindo o poder da classe trabalhadora sobre as decis\u00f5es econ\u00f4micas.<\/p>\n<hr \/>\n<p>[1] A n\u00edvel global, a diferen\u00e7a diminuiu apenas 0,6% entre 1995 e 2015, segundo a OIT.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/lavrapalavra.com\/2016\/11\/11\/o-capitalismo-pede-as-mulheres-trabalhadoras-mais-170-anos-de-paciencia\/\">O capitalismo pede \u00e0s mulheres trabalhadoras mais 170 anos de&nbsp;paci\u00eancia<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Fl\u00e1via Benetti Castro e Gabriel Landi Fazzio A den\u00fancia da desigualdade salarial entre homens e mulheres \u00e9 admitida at\u00e9 mesmo pelo ponto \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12625\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-12625","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s6-movimentos"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3hD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12625","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12625"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12625\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12625"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12625"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12625"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}