{"id":12629,"date":"2016-11-16T20:38:29","date_gmt":"2016-11-16T23:38:29","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12629"},"modified":"2016-12-02T21:38:43","modified_gmt":"2016-12-03T00:38:43","slug":"aticar-o-fogo-o-escudo-antimisseis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12629","title":{"rendered":"Ati\u00e7ar o fogo: o escudo antim\u00edsseis"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/AUTORESHIGINOPOLO1.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Obama chegou \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos com a promessa de abandonar os esquemas de confronto da guerra fria, mas o certo \u00e9 que tanto o seu pa\u00eds como a NATO continuaram a aproximar o seu dispositivo militar das fronteiras russas, refor\u00e7aram a beliger\u00e2ncia polaca e de outros antigos aliados de Moscovo, criaram novos quarteis generais no B\u00e1ltico, na Polonia, e na Rom\u00e9nia e Bulg\u00e1ria, e o Pent\u00e1gono orientou boa parte das suas for\u00e7as para o Oceano Pac\u00edfico, com a China como objectivo. Resultado: desencadeou uma nova corrida aos armamentos.<!--more--><\/p>\n<p>Na reuni\u00e3o da NATO em Lisboa celebrada em 2010 os pa\u00edses membros da alian\u00e7a militar decidiram aprovar o projecto de um \u201csistema bal\u00edstico de misseis de defesa\u201d, o escudo antim\u00edsseis norte-americano que seria progressivamente instalado na Europa. Pa\u00edses como Espanha, Polonia, Rom\u00e9nia e Turquia aceitaram que componentes do escudo fossem instalados no seu territ\u00f3rio. A retirada norte-americana do Tratado sobre Misseis antibal\u00edsticos, ABM, em 2002, para come\u00e7ar a construir o escudo, pressup\u00f4s por parte de Washington o perigoso in\u00edcio do desrespeito pelos acordos sobre armamento nuclear e o abandono do conceito de dissuas\u00e3o entre as pot\u00eancias at\u00f3micas.<\/p>\n<p>Assim, por exemplo em 2011, o presidente do governo espanhol Rodr\u00edguez Zapatero anunciava que a Espanha faria parte do escudo antim\u00edsseis norte-americano. Em finais de 2012, o ministro da Defensa Moren\u00e9s assinava com Leon Panetta, secret\u00e1rio da Defesa norte-americano, o conv\u00e9nio para iniciar a instala\u00e7\u00e3o. Em princ\u00edpios de 2014 chegava a Rota o USS Donald Cook, primeiro dos quatro destroyers norte-americanos do sistema antim\u00edsseis. Depois chegou o USS Ross e, em Abril de 2015, o destroyer USS Porter, da marinha de guerra norte-americana, segundo informava o pr\u00f3prio comando da Sexta Frota (U.S. Naval Forces Europe-Africa\/U.S. 6th Fleet). Os destroyers, que contam com o sistema Aegis, completavam finalmente com o USS Carney a instala\u00e7\u00e3o na base naval de Rota como uma parte do escudo antim\u00edsseis. Elaine Bunn, conselheira para a pol\u00edtica de defesa nuclear e de misseis do secret\u00e1rio da Defesa norte-americano, viajou a Espanha para a ocasi\u00e3o e supervisou a operacionaliza\u00e7\u00e3o do sistema.<\/p>\n<p>A justifica\u00e7\u00e3o norte-americana para instalar na Europa o escudo antim\u00edsseis havia sido a necessidade de se proteger contra um hipot\u00e9tico ataque iraniano: foi essa a desculpa esgrimida durante anos ante as chancelarias e nos organismos internacionais. Nos termos da argumenta\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica de Washington n\u00e3o era relevante que o Ir\u00e3o n\u00e3o dispusesse de armamento at\u00f3mico (nem ent\u00e3o, nem agora), uma vez que, periodicamente, se lan\u00e7avam alarmes sobre a sua suposta capacidade para conseguir fabricar bombas nucleares que, por vezes, situavam no prazo iminente de um ano e, nos c\u00edrculos mais alarmistas habitualmente ligados \u00e0 ind\u00fastria armamentista e ao Pent\u00e1gono e Tsahal, de seis meses. Ante os constantes protestos de Moscovo &#8211; que argumentava que o escudo antim\u00edsseis norte-americano estaria, na realidade, orientado para as suas for\u00e7as nucleares, fazendo notar a incongru\u00eancia de que se o inimigo a vigiar era o Ir\u00e3o, o escudo fosse instalado na Europa e n\u00e3o na Turquia &#8211; os Estados Unidos oferecia garantias verbais, sem se comprometer a assumir essas garantias num tratado diplom\u00e1tico. As retic\u00eancias mostradas por alguns aliados na NATO, como a Alemanha, eram simplesmente ignoradas. A outra justifica\u00e7\u00e3o norte-americana para instalar o escudo era a Coreia do Norte, embora a sua dist\u00e2ncia do teatro europeu e a sua evidente debilidade nuclear, apesar de algumas opera\u00e7\u00f5es propagand\u00edsticas organizadas por Pyongyang, a convertessem num argumento d\u00e9bil e ineficaz.<\/p>\n<p>Em Junho de 2015 Ashton Carter, secret\u00e1rio da Defesa norte-americano, visitava a Alemanha durante uma viagem por diversos pa\u00edses europeus, enquanto o Pent\u00e1gono fazia chegar ao governo alem\u00e3o a possibilidade de instalar novo armamento nuclear na Europa. O governo de Merkel (que tinha entre os seus objectivos nesse momento desactivar a \u201ccrise ucraniana\u201d, atrav\u00e9s do processo de Minsk, e conseguir que Washington retirasse o armamento nuclear que ainda mant\u00e9m desde a guerra fria na regi\u00e3o da Ren\u00e2nia-Palatinado) assistia impotente \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos da guerra na Ucr\u00e2nia, no Donbass, como argumento para refor\u00e7ar o dispositivo norte-americano e da NATO em todo o leste da Europa, apesar da evidencia de que a tens\u00e3o afectava exclusivamente a Ucr\u00e2nia, que n\u00e3o \u00e9 membro da NATO, e n\u00e3o os pa\u00edses b\u00e1lticos nem a Polonia, como filtrava o Pent\u00e1gono na constru\u00e7\u00e3o propagand\u00edstica do novo \u201cperigo russo\u201d. Por sua parte John A. Heffern, subsecret\u00e1rio de Estado norte-americano para Europa, apesar de reconhecer que, ap\u00f3s o acordo com Teer\u00e3o, os misseis iranianos n\u00e3o poderiam transportar cargas nucleares (que, al\u00e9m do mais, o Ir\u00e3o n\u00e3o possui), anunciou que os Estados Unidos come\u00e7ariam a construir na Polonia, em 2016, uma rampa de lan\u00e7amento do escudo antim\u00edsseis. O repetido esquema das retic\u00eancias europeias ante os prop\u00f3sitos norte-americanos e de, depois de rodear nos bastidores as diverg\u00eancias, os Estados Unidos finalmente imporem as suas decis\u00f5es na NATO cumpria-se de novo. A evid\u00eancia de que esse escudo antim\u00edsseis viola os acordos subscritos entre Washington e Moscovo sobre a limita\u00e7\u00e3o da defesa antim\u00edsseis dos dois pa\u00edses, era ocultada sob o manto dos \u201cnovos perigos\u201d, as guerras abertas (embora tivessem sido os Estados Unidos a inici\u00e1-las!), e uma esmagadora desinforma\u00e7\u00e3o nos grandes media jornal\u00edsticos e na televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto quando, em Julho de 2015, se alcan\u00e7ou um acordo entre o Ir\u00e3o e o chamado Grupo 5+1 (as potencias com direito de veto no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, Estados Unidos, R\u00fassia, China, Fran\u00e7a, e Gr\u00e3 Bretanha; mais a Alemanha) que superou o bloqueio inicial do senado norte-americano em Setembro e entrou em vigor em Janeiro de 2016 as justifica\u00e7\u00f5es norte-americanas perderam fundamento. Apesar disso, os porta-vozes da NATO insistiram em que o acordo com o Ir\u00e3o n\u00e3o alterava a situa\u00e7\u00e3o. Putin, em Outubro de 2015, interrogava-se publicamente em Sochi acerca das raz\u00f5es de Washington para continuar a desenvolver o seu sistema antim\u00edsseis, afirmando que se a \u201camea\u00e7a\u201d iraniana fora desactivada gra\u00e7as ao acordo sobre o seu programa nuclear, e o escudo antim\u00edsseis estava, segundo os Estados Unidos, dirigido contra o Ir\u00e3o, ent\u00e3o as pe\u00e7as n\u00e3o encaixavam.<\/p>\n<p>A engrenagem atlantista p\u00f4s-se a trabalhar freneticamente. Oana Lungescu, porta-voz da NATO, insistia em que o escudo n\u00e3o era dirigido contra a R\u00fassia e assegurava, sem oferecer provas, que estava a aumentar no mundo a prolifera\u00e7\u00e3o de misseis bal\u00edsticos, apostando no equ\u00edvoco de, sem o dizer, os equiparar a armas nucleares e, tamb\u00e9m, aumentado as amea\u00e7as para os pa\u00edses da NATO; declara\u00e7\u00f5es que foram contestadas por Serguei Lavrov e o governo russo e, de forma contundente, por Alexei Pushkov, presidente da Comiss\u00e3o de Assuntos Internacionais do parlamento russo, a Duma, assegurando que \u201cas explica\u00e7\u00f5es norte-americanas sobre amea\u00e7as de Ir\u00e3o e Coreia do Norte s\u00e3o f\u00e1bulas para idiotas\u201d. Por sua parte, o vice-primeiro-ministro russo, Dmitri Rogozin, considerava que o acordo com Teer\u00e3o n\u00e3o faria os Estados Unidos abandonar o projecto de cria\u00e7\u00e3o na Europa do sistema de escudo antim\u00edsseis pela simples raz\u00e3o de que \u201cn\u00e3o \u00e9 instalado por amea\u00e7a do Ir\u00e3o\u201d. Era evidente que, descartada a hipot\u00e9tica \u201camea\u00e7a iraniana\u201d, ca\u00eda a justifica\u00e7\u00e3o norte-americana mas, num mundo de mentiras e fic\u00e7\u00f5es aceites pela maioria dos aliados europeus, a argumenta\u00e7\u00e3o do Pent\u00e1gono e da NATO seguia o seu curso nas chancelarias do mundo e nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, os m\u00e1s agressivos membros europeus da NATO (Polonia, os pa\u00edses b\u00e1lticos), estimulados pelo Pent\u00e1gono pelo quartel general de Bruxelas, exigiam publicamente duras medidas contra a \u201cagressividade russa\u201d e a \u201cpol\u00edtica expansionista\u201d de Putin. Por sua parte, Israel, que tinha criticado com dureza o acordo nuclear assinado pelo grupo 5+1 com o Ir\u00e3o, considerando que \u00e9 um \u201cerro hist\u00f3rico\u201d, adaptava-se ao novo cen\u00e1rio, preparando-se para a nova fase de refor\u00e7o militar norte-americano: assim, em Fevereiro de 2016, desenvolveu, juntamente com for\u00e7as norte-americanas, exerc\u00edcios militares conjuntos sobre defesa de misseis bal\u00edsticos. Para culminar a campanha, os Estados Unidos levantaram algumas san\u00e7\u00f5es ao Ir\u00e3o depois da assinatura do acordo sobre o programa nuclear, mas voltaram a impor outras san\u00e7\u00f5es relacionadas agora com o programa iraniano de misseis bal\u00edsticos.<\/p>\n<p>Em Dezembro de 2015 os Estados Unidos completavam a instala\u00e7\u00e3o do sistema antim\u00edsseis Aegis Ashore na Rom\u00e9nia, na base de Deveselu (criada pelo ex\u00e9rcito norte-americano pr\u00f3ximo de Caracal, a duzentos quil\u00f3metros de Bucareste), ap\u00f3s mais de dois anos de trabalhos: um dispositivo composto por um avan\u00e7ado radar e sistemas de comunica\u00e7\u00f5es, al\u00e9m dos equipamentos Standard-3 para interceptar misseis bal\u00edsticos. No in\u00edcio de 2016 estava fazendo ensaios para ficar plenamente operativo em meados do ano. O sistema tinha j\u00e1 sido posto \u00e0 prova em Novembro de 2014 e conseguiu interceptar um m\u00edssil de curto alcance e dois misseis de cruzeiro. Era outra evidente viola\u00e7\u00e3o do Tratado sobre Misseis de m\u00e9dio alcance (INF, na sigla inglesa; Intermediate-Range Nuclear Forces). Em Fevereiro de 2016, na Conferencia de Seguran\u00e7a de Munique, o secret\u00e1rio-geral da NATO, Jens Stoltenberg, anunciou que a alian\u00e7a militar ocidental n\u00e3o ia renunciar ao escudo antim\u00edsseis na Europa, numa altura em que a alian\u00e7a militar aumentava as suas tropas na proximidade das fronteiras russas, alcan\u00e7ando um n\u00edvel sem precedentes desde os anos da guerra fria. Sem temor da evidente contradi\u00e7\u00e3o, Stoltenberg manteve, de novo, que o escudo n\u00e3o est\u00e1 dirigido contra a R\u00fassia e que o acordo sobre o programa nuclear do Ir\u00e3o t\u00e3o pouco \u00e9 raz\u00e3o para deter a sua instala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto isso ocorria no teatro europeu nas zonas do M\u00e9dio Oriente, outras pe\u00e7as do novo dispositivo militar global norte-americano moviam-se na Asia. Em Maio de 2015, o vice-ministro da Defesa russo, Anatoli Ant\u00f3nov, denunciou que os Estados Unidos estava a deslocar navios com sistemas antim\u00edsseis na proximidade das costas russas do oceano Pac\u00edfico, com as consequ\u00eancias que isso podia ter sobre a seguran\u00e7a na zona e sobre as defesas russas. Os navios norte-americanos deslocados para a zona, equipados com o sistema Aegis , podem interceptar misseis bal\u00edsticos, alterando dessa forma o equil\u00edbrio estabelecido nos tratados nucleares. Os Estados Unidos tinham tamb\u00e9m previsto destinar dois navios \u00e0 zona: em 2015, o USS Benfold e, em 2017, o USS Milius, que fazem parte do dispositivo do escudo antim\u00edsseis, a base naval de Yokosuka (na prefeitura japonesa de Kanagawa, mesmo \u00e0 entrada da grande ba\u00eda de T\u00f3quio). Na mesma base, os Estados Unidos dispor\u00e3o do porta-avi\u00f5es nuclear USS George Washington, para al\u00e9m das for\u00e7as acantonadas na Coreia do Sul. N\u00e3o \u00e9 alheio a tudo isto que a Frota do Pac\u00edfico russa incorporasse, em princ\u00edpios de 2016, o sistema de misseis costeiros Basti\u00e3o, que pode proteger sec\u00e7\u00f5es de seiscentos quil\u00f3metros de costa, e que est\u00e1 equipado com 36 misseis Yajont, destinado ao territ\u00f3rio de Primorie (regi\u00e3o cuja capital \u00e9 Vladivostok), ante as costas do Jap\u00e3o. O Pent\u00e1gono tinha anteriormente anunciado a sua inten\u00e7\u00e3o de destinar ao Pac\u00edfico e ao \u00cdndico sessenta por cento das suas for\u00e7as navais, com navios dotados do sistema Aegis para configurar o \u201cescudo\u201d, cuja instala\u00e7\u00e3o era, de forma paralela ao pretexto iraniano para o escudo na Europa, justificada com o \u201cperigo\u201d da Coreia do Norte. A nenhuma chancelaria escapava que o prop\u00f3sito do escudo asi\u00e1tico n\u00e3o era a Coreia do Norte mas a China e a Sib\u00e9ria russa. Ante o protesto oficial de Pequim, que considera que essa instala\u00e7\u00e3o afecta as suas for\u00e7as de dissuas\u00e3o estrat\u00e9gicas, os Estados Unidos continuaram a insistir em que o escudo est\u00e1 dirigido contra a Coreia do Norte e o Ir\u00e3o.<\/p>\n<p>Dessa forma, em Fevereiro de 2016, Estados Unidos e Coreia do Sul anunciaram o prop\u00f3sito de instalar na pen\u00ednsula coreana o escudo antim\u00edsseis THAAD (acr\u00f3nimo do ingl\u00eas Terminal High Altitude Aereal Defense), dotado do radar terra-ar maior do mundo, que j\u00e1 est\u00e1 operacional na ilha de Guam, no leste das Filipinas, orientado para as costas chinesas. O sistema \u00e9 similar ao Aegis instalado em navios norte-americanos, e pode controlar os c\u00e9us n\u00e3o s\u00f3 da Coreia do Norte como tamb\u00e9m da China e de uma parte da Sib\u00e9ria russa. A justifica\u00e7\u00e3o para a sua instala\u00e7\u00e3o foi o lan\u00e7amento de foguet\u00f5es por parte da Coreia do Norte. Na Asia, Washington v\u00ea-se obrigado a tecer um complicado equil\u00edbrio entre a rejei\u00e7\u00e3o chinesa e russa a esse respeito, a aceita\u00e7\u00e3o do governo japon\u00eas de Abe, lan\u00e7ado no refor\u00e7o militar e numa ret\u00f3rica nacionalista que levanta suspeitas em Pequim mas tamb\u00e9m em Seul; e nas diverg\u00eancias entre os seus aliados coreano e japon\u00eas.<\/p>\n<p>O governo de Seul, dirigido pela presidente Park Geun-hye, que mant\u00e9m boas rela\u00e7\u00f5es e importantes projectos de coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica com Pequim, tinha resistido at\u00e9 agora a dar novos passos na constru\u00e7\u00e3o do escudo antim\u00edsseis, mas n\u00e3o pode resistir \u00e0 press\u00e3o norte-americana que utiliza o hipot\u00e9tico perigo de Pyongyang para for\u00e7ar a sua instala\u00e7\u00e3o. Park Geun-hye (filha do ditador Park Chung-hee, que foi assassinado pelo NIS, a CIA sul-coreana) mant\u00e9m uma pol\u00edtica pragm\u00e1tica, que procura um equil\u00edbrio entre os seus dois grandes vizinhos, China e Jap\u00e3o, desconfia de T\u00f3quio por raz\u00f5es hist\u00f3ricas, e est\u00e1 imersa nos problemas da rela\u00e7\u00e3o com o norte da Coreia (para quem pede mais san\u00e7\u00f5es internacionais pelo seu programa nuclear) e das paralisadas negocia\u00e7\u00f5es sobre a hipot\u00e9tica desnucleariza\u00e7\u00e3o da pen\u00ednsula coreana. Como era previs\u00edvel, Park Geun-hye n\u00e3o se atreveu a resistir \u00e0s press\u00f5es do general Thomas S. Vandal, um veterano do Iraque, hoje comandante das tropas norte-americanas destacadas na Coreia do Sul, para instalar o escudo. Tanto Pequim como Moscovo consideram que a sua instala\u00e7\u00e3o aumenta a tens\u00e3o na zona, e pode desencadear uma nova corrida aos armamentos. A resposta do governo chin\u00eas n\u00e3o se fez esperar: o ministro de assuntos exteriores, Wang Yi, que destacou o grande alcance do sistema norte-americano, capaz de monitorizar grande parte de Asia, declarou que o escudo antim\u00edsseis na Coreia do Sul, supostamente destinado a proteger o sul da pen\u00ednsula, era na realidade uma \u201camea\u00e7a para a China\u201d. A cautelosa atitude de Pequim, que quer desactivar os motivos de confronto com os Estados Unidos, embora esteja consciente da gravidade da decis\u00e3o norte-americana, levou-o a votar na ONU as san\u00e7\u00f5es contra a Coreia do Norte pelo lan\u00e7amento de um m\u00edssil, e pretende assim inutilizar o argumento do \u201cperigo norte-coreano\u201d para for\u00e7ar a Estados Unidos a rever os seus planos de instala\u00e7\u00e3o do escudo. Ao mesmo tempo, Pequim mantem o principio de avan\u00e7ar no sentido da completa desnucleariza\u00e7\u00e3o da pen\u00ednsula coreana, embora as negocia\u00e7\u00f5es estejam paralisadas. A prova da relev\u00e2ncia que Pequim outorga a este assunto \u00e9 que Wang Yi transmitiu a posi\u00e7\u00e3o do seu pa\u00eds no decurso da sua viagem aos Estados Unidos, em finais de Fevereiro de 2016, onde se reuniu com Obama e com Susan Rice, conselheira de Seguran\u00e7a Nacional.<\/p>\n<p>Tal como os analistas tinham previsto, os prop\u00f3sitos norte-americanos iam desencadear uma nova corrida aos armamentos: a R\u00fassia n\u00e3o ia aceitar passivamente os riscos que o escudo pressup\u00f5e para as suas for\u00e7as de dissuas\u00e3o nuclear, e est\u00e1 a preparar a sua resposta. O plano russo face \u00e0 instala\u00e7\u00e3o do escudo antim\u00edsseis norte-americano contempla o estabelecimento de misseis Iskander-M (que podem transportar ogivas nucleares t\u00e1cticas) na regi\u00e3o de Kaliningrado, m\u00edsseis que poderiam inutilizar a instala\u00e7\u00e3o do escudo previsto pelos Estados Unidos para 2018 na Polonia. Em finais de Fevereiro de 2016, os militares russos realizaram os primeiros exerc\u00edcios com os sistemas de misseis t\u00e1cticos Iskander-M na regi\u00e3o de Buriatia, na Sib\u00e9ria. Para al\u00e9m disso, a R\u00fassia poderia cobrir at\u00e9 dois mil quil\u00f3metros na Europa com os seus misseis de cruzeiro. Moscovo est\u00e1 tamb\u00e9m a modernizar o seu arsenal de misseis bal\u00edsticos intercontinentais: os Topol-M e os Yars , cada um dos quais poderia transportar tr\u00eas ogivas nucleares. Tamb\u00e9m desenvolve o Sarmar que substituir\u00e1 o R-36M (Satan\u00e1s, no jarg\u00e3o da NATO).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Moscovo trabalha no desenvolvimento de novos comboios Barguz\u00edn capazes de transportar cada um seis misseis bal\u00edsticos intercontinentais RS-24 Yars e de percorrer diariamente mil quil\u00f3metros, convertidos de facto em plataformas m\u00f3veis de lan\u00e7amento, capacidade que lhes outorga uma grande ductilidade. Moscovo destruiu o seu sistema anterior de misseis bal\u00edsticos em comboios Molodets na aplica\u00e7\u00e3o do tratado START II, assinado por Bush e Yeltsin em 1993. O tratado START III, assinado por Obama e Medvedev em 2010, e que limita o arsenal nuclear de ambas potencias a 1.550 ogivas nucleares, permite desenvolver novos comboios dotados de misseis bal\u00edsticos, pelo que Moscovo n\u00e3o rompe nenhum acordo. As For\u00e7as de Misseis Estrat\u00e9gicos russas t\u00eam previsto completar o novo sistema Barguz\u00edn em 2018. Quanto aos misseis de m\u00e9dio alcance, Moscovo conta com o m\u00edssil bal\u00edstico intercontinental Rubezh, capaz de atingir at\u00e9 5.500 quil\u00f3metros. Tamb\u00e9m desenvolveu uma vers\u00e3o do m\u00edssil Sarmat que pode ser colocado em \u00f3rbita sobre a Terra, com o que a R\u00fassia poderia atingir objectivos em qualquer lugar. Os acordos subscritos entre Washington e Moscovo pro\u00edbem a instala\u00e7\u00e3o de armas nucleares no espa\u00e7o, mas a agressividade norte-americana na instala\u00e7\u00e3o do seu escudo e a ruptura dos acordos que permitiam o equil\u00edbrio estrat\u00e9gico abrem a inquietante possibilidade de uma corrida armamentista no espa\u00e7o. O vice-primeiro-ministro, Dmitri Rogozin, encarregado da industria de defesa, advertiu que em 2020 a R\u00fassia ter\u00e1 modernizado por completo as suas For\u00e7as Nucleares Estrat\u00e9gicas. Por sua parte, a China pretende refor\u00e7ar as suas for\u00e7as navais, conta com o m\u00edssil bal\u00edstico DF-21D, de m\u00e9dio alcance, para atacar navios em movimento, e moderniza as suas for\u00e7as nucleares e o seu arsenal de misseis bal\u00edsticos de m\u00e9dio alcance e intercontinentais.<\/p>\n<p>Obama chegou \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos com a promessa de abandonar os esquemas de confronto da guerra fria, mas o certo \u00e9 que tanto o seu pa\u00eds como a NATO continuaram a aproximar o seu dispositivo militar das fronteiras russas, refor\u00e7aram a beliger\u00e2ncia polaca e de outros antigos aliados de Moscovo, criaram novos quarteis generais no B\u00e1ltico, na Polonia, e na Rom\u00e9nia e Bulg\u00e1ria, e o Pent\u00e1gono orientou boa parte das suas for\u00e7as para o Oceano Pac\u00edfico, com a China como objectivo. Esses passos s\u00f3 podem despertar inquieta\u00e7\u00e3o em Moscovo e em Pequim e, perseguindo o predom\u00ednio planet\u00e1rio, Washington s\u00f3 consegue desencadear uma nova corrida aos armamentos: perante a resposta de R\u00fassia e China, em princ\u00edpios de Fevereiro de 2016, o secret\u00e1rio da Defesa norte-americano, Ashton Carter, reclamou que para 2017 Estados Unidos deviam quadruplicar o or\u00e7amento das tropas norte-americanas na Europa para responder \u00e0 \u201cagress\u00e3o russa\u201d.<\/p>\n<p>Angela Merkel j\u00e1 tinha advertido, em 2007, sobre os perigos que suporia instalar na Polonia sistemas antim\u00edsseis norte-americanos, e sugeria que a opini\u00e3o de Moscovo fosse tida em conta. N\u00e3o foi ouvida em Washington. O governo dos Estados Unidos n\u00e3o analisou com rigor nem previu a resposta de Moscovo e Pequim \u00e0 sua perigosa decis\u00e3o de instalar os escudos antim\u00edsseis: prisioneiro da soberba imperial que, com Clinton e Bush, dirigiu a sua pol\u00edtica na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XX e nos primeiros anos do s\u00e9culo XXI, acreditou que, ainda que muito contrariadas, China e R\u00fassia acabariam por aceitar a instala\u00e7\u00e3o dos escudos. N\u00e3o foi assim e, tal como tinham advertido os peritos e os pa\u00edses contr\u00e1rios \u00e0 sua instala\u00e7\u00e3o, a sua cria\u00e7\u00e3o trouxe como consequ\u00eancia a moderniza\u00e7\u00e3o dos arsenais e dos sistemas de defesa russo e chin\u00eas.<\/p>\n<p>Hoje, os riscos mais graves para a paz e a estabilidade internacional s\u00e3o a possibilidade de um confronto na Europa oriental, depois do golpe de Estado impulsionado pelos Estados Unidos na Ucr\u00e2nia, que deu lugar a uma guerra civil, e do refor\u00e7o da NATO na proximidade das fronteiras russas; a situa\u00e7\u00e3o no Mar da China meridional, onde Estados Unidos e China se vigiam mutuamente; a evolu\u00e7\u00e3o na pen\u00ednsula da Coreia, e a hipot\u00e9tica perda do controlo da situa\u00e7\u00e3o no M\u00e9dio Oriente, onde as guerras norte-americanas e a actua\u00e7\u00e3o de Israel, frequentemente imprevis\u00edvel, criaram uma situa\u00e7\u00e3o que pode degenerar num confronto entre as grandes potencias. Para al\u00e9m disso, a altivez imperial turva a vista de Washington e ati\u00e7a o fogo da desconfian\u00e7a e os confrontos, porque n\u00e3o h\u00e1 duvida de que os escudos antim\u00edsseis e o risco de uma nova corrida armamentista, se os Estados Unidos continuam empenhados em conseguir vantagens nucleares estrat\u00e9gicas sobre China e R\u00fassia, s\u00e3o um dos perigos mais graves que o mundo tem de enfrentar.<\/p>\n<p><strong>An\u00e1lise norte-americana: http:\/\/www.defense.gov\/News\/Special-Reports\/BMDR<br \/>\nRebeli\u00f3n publicou este artigo com autoriza\u00e7\u00e3o do autor mediante licen\u00e7a de Creative Commons, respeitando a sua liberdade para o publicar em outras fontes.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/aticar-o-fogo-o-escudo-antimisseis\/\">http:\/\/www.odiario.info\/aticar-o-fogo-o-escudo-antimisseis\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Obama chegou \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos com a promessa de abandonar os esquemas de confronto da guerra fria, mas o certo \u00e9 \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12629\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-12629","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3hH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12629","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12629"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12629\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12629"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12629"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12629"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}