{"id":12644,"date":"2016-11-17T23:42:08","date_gmt":"2016-11-18T02:42:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12644"},"modified":"2016-12-02T21:39:17","modified_gmt":"2016-12-03T00:39:17","slug":"a-uberizacao-leva-a-intensificacao-do-trabalho-e-da-competicao-entre-os-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12644","title":{"rendered":"&#8220;A uberiza\u00e7\u00e3o leva \u00e0 intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho e da competi\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/gz.diarioliberdade.org\/media\/k2\/items\/cache\/7d728ae666333da6493ba691d27a197d_L.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><strong>Revista ihu on-line<\/strong><\/p>\n<p><strong>Entrevista com M\u00e1rcio Pochmann, <\/strong>pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) e professor titular no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas. Tem 49 livros publicados na condi\u00e7\u00e3o de autor e coautor nas \u00e1reas de economia, sociedade e pol\u00edticas p\u00fablicas em diversas editoras.<!--more--><\/p>\n<p>Quer se unir ao <strong>Uber<\/strong>? A resposta a essa pergunta tem implica\u00e7\u00f5es mais s\u00e9rias do que parece \u00e0 primeira vista.<\/p>\n<p>Para pesquisadores, o aplicativo tornou-se uma chave para analisar as transforma\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas do mundo do trabalho, como aponta o economista <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/547577-o-modelo-desenvolvimentista-e-um-projeto-inconcluso-entrevista-especial-com-marcio-pochmann\" target=\"_blank\">Marcio Pochmann<\/a>, professor do <strong>Instituto de Economia<\/strong> da <strong>Universidade Estadual de Campinas<\/strong> (<strong>Unicamp<\/strong>) nesta entrevista. Segundo ele, o aplicativo \u00e9 apenas a \u2018ponta do iceberg\u2019 de um processo que caracterize <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/560504-associo-terceirizacao-ao-processo-de-uberizacao-do-trabalho\" target=\"_blank\">uberiza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho<\/a>: a generaliza\u00e7\u00e3o, para in\u00fameros setores de atividade econ\u00f4mica, de formas de contrata\u00e7\u00e3o nos moldes que o <strong>Uber<\/strong> popularizou no ramo dos transportes. Processo que caminha a passos largos em alguns pa\u00edses, com resultados catastr\u00f3ficos: reportagem recente do jornal brit\u00e2nico <strong>The Guardian<\/strong> apontou que o chamado <em>self-employment<\/em>, ou auto-emprego, cresceu 45% desde 2002 no <strong>Reino Unido<\/strong>, mas que esses trabalhadores ganham hoje, em m\u00e9dia, menos do que em 1995. Ante a escalada do desemprego, e seduzidos pelo discurso neoliberal do empreendedorismo, que vende a ideia de que o esfor\u00e7o pessoal \u00e9 a chave do sucesso financeiro, cada vez mais trabalhadores se submetem aos contratos prec\u00e1rios, longas jornadas de trabalho e aus\u00eancia de garantias trabalhistas que essa modalidade de contrata\u00e7\u00e3o implica.<\/p>\n<p><strong>Pochmann<\/strong> acredita que esse \u00e9 o cen\u00e1rio que se desenha com a aprova\u00e7\u00e3o do projeto que amplia a <strong>terceiriza\u00e7\u00e3o<\/strong> no Brasil, em tramita\u00e7\u00e3o no <strong>Senado<\/strong>, e com a <strong>reforma trabalhista<\/strong> que o governo pretende apresentar no segundo semestre de 2017. Ele alerta: conquistas hist\u00f3ricas dos trabalhadores est\u00e3o em jogo nesta disputa.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 de <strong>Andr\u00e9 Antunes<\/strong>, publicada por <strong>Di\u00e1rio Liberdade<\/strong>, 10-11-2016.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Economistas e cientistas sociais t\u00eam falado em uberiza\u00e7\u00e3o para abordar as transforma\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Quais as mudan\u00e7as que esse processo implica?<\/strong><\/p>\n<p>Uberiza\u00e7\u00e3o \u00e9 o nome que estamos dando para a emerg\u00eancia de um novo padr\u00e3o de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Para dar uma vis\u00e3o hist\u00f3rica, podemos separar, na chamada sociedade urbana industrial, tr\u00eas formas de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho: a primeira ganhou relev\u00e2ncia a partir de 1910, o chamado fordismo, que representou a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho em grandes plantas industriais. Isso dizia respeito \u00e0 exist\u00eancia de um empregador com quantidades grandes de trabalhadores vinculados \u00e0quela empresa, em linhas de montagem que produziam do parafuso ao autom\u00f3vel. Nesse sentido, h\u00e1 certa homogeneiza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e das lutas dos trabalhadores, porque eles passavam a se encontrar sob o mesmo teto, submetidos \u00e0s mesmas condi\u00e7\u00f5es de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Isso vai gerar um tipo de sindicalismo, que representa todos os trabalhadores, que vai construir os contratos coletivos de trabalho. Esses sindicatos v\u00e3o construir tamb\u00e9m partidos pol\u00edticos que levar\u00e3o aos legislativos as conquistas anteriormente estabelecidas no contrato de trabalho: o piso salarial estabelecido em contrato de trabalho vai se tornar posteriormente o sal\u00e1rio m\u00ednimo na forma de lei para todos os trabalhadores, por exemplo.<\/p>\n<p>A partir da d\u00e9cada de 1970 temos um esgotamento do fordismo e o avan\u00e7o do toyotismo, que tamb\u00e9m tem como refer\u00eancia a montagem de um autom\u00f3vel. A empresa vai se fragmentando no interior do processo produtivo de tal forma que no mesmo local de trabalho voc\u00ea passa a ter diferentes contratos de trabalho, reunindo empresas especializadas nessa parcializa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o. O importante, do ponto de vista das consequ\u00eancias para o trabalho, \u00e9 que agora h\u00e1 uma preval\u00eancia da heterogeneidade, desigualdades das condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Uma realidade s\u00e3o os trabalhadores contratados pela montadora, outra \u00e9 a realidade dos que s\u00e3o contratados por empresas cujos sindicatos s\u00e3o menores, n\u00e3o t\u00eam a mesma capacidade de press\u00e3o e luta, como \u00e9 o caso dos vigilantes, da limpeza, da seguran\u00e7a e outras partes constitutivas das pe\u00e7as [automotivas]. A partir da d\u00e9cada de 1970, esse se torna um modelo hegem\u00f4nico de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Isto \u00e9 verificado nos servi\u00e7os tamb\u00e9m. Um hospital que anteriormente contratava todos os trabalhadores de diferentes categorias cada vez mais passa a trabalhar com a terceiriza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a fragmenta\u00e7\u00e3o dos contratos: uma coisa s\u00e3o os contratados diretamente pelo hospital, outro s\u00e3o os prestadores de servi\u00e7o. O que estamos denominando de uberiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma nova fase, que \u00e9 praticamente a autonomiza\u00e7\u00e3o dos contratos de trabalho. \u00c9 o trabalhador negociando individualmente com o empregador a sua remunera\u00e7\u00e3o, seu tempo de trabalho, arcando com os custos do seu trabalho.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 um processo que na sua opini\u00e3o representa uma transforma\u00e7\u00e3o no mesmo patamar do que foi o fordismo e o toyotismo, em termos hist\u00f3ricos?<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que sim. O tempo vai dizer se isso se confirma, porque tamb\u00e9m depende das rea\u00e7\u00f5es dos partidos, dos movimentos sociais. \u00c9 mais a emerg\u00eancia do que o padr\u00e3o de fato. Vem de uma empresa de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os que se coloca com sucesso em um per\u00edodo muito curto de tempo com a substitui\u00e7\u00e3o da antiga forma de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho no transporte individual, que \u00e9 o t\u00e1xi. No meu modo de ver isso \u00e9 apenas a ponta do iceberg, mas h\u00e1 uma grande possibilidade de se generalizar para todos os demais setores de atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p><strong>Isso se v\u00ea mais claramente em alguns pa\u00edses, n\u00e3o? Na Inglaterra, por exemplo, h\u00e1 at\u00e9 pilotos de aeronaves que trabalham sob esse tipo de contrato&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Na Inglaterra tem o chamado contrato a zero hora, que diz que voc\u00ea tem que ficar dispon\u00edvel 24 horas para a empresa, que pode usar nada, mas voc\u00ea tem que estar dispon\u00edvel para ela e sua remunera\u00e7\u00e3o depende da sua disponibilidade. No transporte \u00e9 isso: voc\u00ea tem um contrato com a <strong>Uber<\/strong> e fica l\u00e1, dispon\u00edvel, porque quando surgir um chamado voc\u00ea se apresenta disputando com outros motoristas. Nesse contrato a zero hora eu posso ser piloto de avi\u00e3o e, se surge a possibilidade de viajar, n\u00e3o est\u00e1 garantido que serei eu, tem outros que s\u00e3o concorrentes, dependendo da localidade. Na Inglaterra existem esp\u00e9cies de ag\u00eancias de contrata\u00e7\u00e3o onde as pessoas se inscrevem a partir das suas qualidades ocupacionais e ficam aguardando demandas que aparecem pela internet. Por exemplo: eu sou economista especializado em or\u00e7amento p\u00fablico. De repente h\u00e1 uma demanda de uma defini\u00e7\u00e3o comparativa de or\u00e7amento e eu me apresento e negocio as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e remunera\u00e7\u00e3o para um determinado momento. Ou seja, o trabalhador passa a estar dispon\u00edvel para o exerc\u00edcio do trabalho sem mais a garantia que havia no fordismo, em que o sal\u00e1rio independia das vendas da empresa. Quando a empresa contrata o trabalhador, independentemente de ela produzir o autom\u00f3vel e vend\u00ea-lo, decorrendo 30 dias o trabalhador tem direito a receber aquela remunera\u00e7\u00e3o. O toyotismo j\u00e1 \u00e9 outra circunst\u00e2ncia em que o trabalhador vai se tornando associado ao ritmo de produ\u00e7\u00e3o e venda, e sua remunera\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es de trabalho dependem da produ\u00e7\u00e3o e da venda. Se a empresa produziu menos, a sua remunera\u00e7\u00e3o \u00e9 menor.<\/p>\n<p><strong>E com a uberiza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Neste caso n\u00e3o h\u00e1 garantia alguma. Se houver trabalho, voc\u00ea ter\u00e1 uma parte daquilo que voc\u00ea veio a realizar. \u00c9 uma total instabilidade, que n\u00e3o vai permitir ao trabalhador contribuir com o sistema de prote\u00e7\u00e3o social como no passado foi poss\u00edvel pelo fordismo e em grande medida ainda pelo toyotismo. Agora ele n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de garantir o pagamento da previd\u00eancia se n\u00e3o sabe nem se vai receber sal\u00e1rio. Est\u00e1 exposto a um contrato de zero hora que pode ter uma hora, duas horas, dez horas, sem garantia alguma. Isso est\u00e1 ganhando uma dimens\u00e3o crescente nos servi\u00e7os, mas n\u00e3o deve ficar circunscrito a eles.<\/p>\n<p><strong>Como esse processo se relaciona com as mudan\u00e7as que est\u00e3o sendo propostas no bojo da reforma trabalhista atualmente no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acredito que o projeto de regulamenta\u00e7\u00e3o da terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 a grande porta no Brasil para que se tenha a possibilidade de aquilo que hoje est\u00e1 quase circunscrito ao transporte individual ganhar maior espa\u00e7o nas atividades como um todo. O projeto que est\u00e1 no <strong>Senado<\/strong> generaliza a terceiriza\u00e7\u00e3o e, portanto, desobriga as empresas a contratarem da forma como conhecemos, que \u00e9 o regime <strong>CLT<\/strong>. A ideia do fordismo \u00e9 a ideia de que o sal\u00e1rio se transforma num custo fixo, o trabalhador, exercendo ou n\u00e3o, tem direito \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o. Com a uberiza\u00e7\u00e3o, o sal\u00e1rio se torna um custo vari\u00e1vel, ele s\u00f3 existe se de fato houver a realiza\u00e7\u00e3o daquele trabalho.<\/p>\n<p><strong>Em setembro o ministro do trabalho, Ronaldo Nogueira, anunciou que o governo pretende incluir na proposta de reforma trabalhista a amplia\u00e7\u00e3o das modalidades permitidas de contrato de trabalho pela CLT, com a cria\u00e7\u00e3o dos contratos por produtividade e por tempo. Como a proposta se encaixa nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o mesmo padr\u00e3o da flexibiliza\u00e7\u00e3o dos contratos de trabalho que n\u00f3s tivemos nos anos 1980 e anos 1990. Tivemos na gest\u00e3o do <strong>Fernando Henrique Cardoso<\/strong> algumas experi\u00eancias de flexibiliza\u00e7\u00e3o da jornada, do tempo de trabalho. Agora \u00e9 uma sofistica\u00e7\u00e3o, \u00e9 um novo patamar da flexibiliza\u00e7\u00e3o em que voc\u00ea n\u00e3o estabelece mais a jornada de trabalho, mas sim crit\u00e9rios espec\u00edficos, como \u00e9 o caso da produtividade. Se n\u00e3o consegue atingir aquele determinado patamar estabelecido previamente, voc\u00ea n\u00e3o faz jus ao valor completo, ganha uma parte dele.<\/p>\n<p><strong>Que consequ\u00eancias isso traz para a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores?<\/strong><\/p>\n<p>Ela leva a uma intensifica\u00e7\u00e3o do trabalho e a um acirramento da competi\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores. \u00c9 um processo que vem se dando ao longo do tempo com as transforma\u00e7\u00f5es que o capitalismo opera. Uma f\u00e1brica de margarina, por exemplo: no fordismo, em linhas gerais, havia uma esteira que ia passando e enchendo os potes com a margarina e os trabalhadores ficavam do lado, pegavam os potes e colocavam nas caixas. Havia supervisores que iam avaliando o trabalho de cada um. Se algu\u00e9m precisa ir ao banheiro, o supervisor autorizava, ele ia, voltava e pronto. Com o toyotismo, essa produ\u00e7\u00e3o passa a ser dividida em equipes de quatro ou cinco trabalhadores que concorriam entre si: as que enchiam mais caixas ao final de um per\u00edodo eram beneficiadas. Com isso, deixou-se de ter a necessidade de um supervisor \u2013 portanto o custo de algu\u00e9m supervisionar \u2013 porque uma equipe concorria com outra. Se voc\u00ea est\u00e1 numa equipe e come\u00e7a a ir muito ao banheiro, a sua equipe vai ter menos efici\u00eancia do que as outras com as quais ela est\u00e1 competindo. A equipe vai sugerir que voc\u00ea seja demitido e que seja trazido algu\u00e9m que tenha condi\u00e7\u00f5es de trabalhar no mesmo ritmo. Com a uberiza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma competi\u00e7\u00e3o ainda maior entre os trabalhadores e quem estabelece ou avalia a sua continuidade nesse tipo de trabalho \u00e9 o cliente, o comprador. Ao inv\u00e9s da uni\u00e3o buscando o acordo coletivo, o trabalhador est\u00e1 orientado para o acordo individual, a competi\u00e7\u00e3o com seus pares. Obviamente isso torna ainda mais fracos os trabalhadores diante daqueles que os contratam. Esse rebaixamento n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m moral e \u00e9tico.<\/p>\n<p><strong>Em que sentido?<\/strong><\/p>\n<p>No fordismo e at\u00e9 mesmo no toyotismo havia uma concep\u00e7\u00e3o de classe trabalhadora, a consci\u00eancia de que, quer seja eu um m\u00e9dico, um oper\u00e1rio, um jornalista ou um professor, sou antes de tudo um trabalhador. O que n\u00f3s passamos a ter na verdade \u00e9 uma transi\u00e7\u00e3o para esta ideia n\u00e3o mais de trabalhador, mas de empreendedor. Voc\u00ea pode ganhar como trabalhador, mas tem os anseios de classe m\u00e9dia consumista. \u00c9 uma disputa ideol\u00f3gica. Se voc\u00ea n\u00e3o admite ser trabalhador, as lutas dos trabalhadores v\u00e3o se perdendo. Voc\u00ea \u00e9 da classe m\u00e9dia e \u00e9 o seu esfor\u00e7o que vai fazer com que voc\u00ea alcance os resultados. A propaganda ideol\u00f3gica mostra que alguns de fato ficar\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o melhor, mas ser\u00e3o uma exce\u00e7\u00e3o num conjunto grande, legitimando um grau de desigualdade ainda mais intenso. Mesmo sob o fordismo, a \u00e9tica da meritocracia leva a uma legitima\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios diferenciados apenas porque alguns t\u00eam anos de estudo a mais do que outros. Agora, a legitima\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 porque voc\u00ea estudou mais do que eu, mas porque voc\u00ea se esfor\u00e7a mais. No passado, o rebaixamento das condi\u00e7\u00f5es de trabalho levou a uma rea\u00e7\u00e3o, um estranhamento dos trabalhadores. Com esta dimens\u00e3o individual de hoje, o resultado n\u00e3o \u00e9 a rebeldia, mas a depress\u00e3o que vai se acomodando nessa profunda precariza\u00e7\u00e3o. Isso termina n\u00e3o levando a uma luta organizada, salvo por explos\u00f5es de car\u00e1ter an\u00e1rquico. Essa explos\u00e3o de manifesta\u00e7\u00f5es que se deram de forma coletiva na primeira metade dessa d\u00e9cada no Brasil, no Oriente M\u00e9dio, nos Estados Unidos, na Espanha surge espontaneamente, de uma profunda insatisfa\u00e7\u00e3o, mas do ponto de vista organizativo n\u00e3o resulta em nada, n\u00e3o encaminha esta insatisfa\u00e7\u00e3o para alguma solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Quais as possibilidades de espa\u00e7os de representa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores neste cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista hist\u00f3rico, eu vejo com dificuldade as institui\u00e7\u00f5es que temos hoje \u2013 partidos pol\u00edticos, sindicatos, associa\u00e7\u00f5es de maneira geral, institui\u00e7\u00f5es do nascimento da sociedade urbana industrial \u2013 responderem a essa nova forma de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Hoje temos quase que uma oligarquia sindical. H\u00e1 uma elite, que s\u00e3o os trabalhadores sindicalizados de grandes empresas, que reproduzem, guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, o tra\u00e7o do fordismo do passado. S\u00e3o institui\u00e7\u00f5es importantes, que t\u00eam instrumentos de mobiliza\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o t\u00eam massa a mobilizar. Chegamos a ter at\u00e9 o final dos anos 1980 quase um milh\u00e3o de trabalhadores banc\u00e1rios e t\u00ednhamos algo em torno de 200 mil trabalhadores terceirizados que serviam aos bancos. Hoje temos ao redor de 400 mil banc\u00e1rios e 1,6 milh\u00e3o de trabalhadores terceirizados. Quem est\u00e1 organizado s\u00e3o os banc\u00e1rios, que fazem greves, mas \u00e9 algo que ocorre sem a capacidade de envolver o conjunto de todos os trabalhadores que est\u00e3o vinculados aos servi\u00e7os financeiros e banc\u00e1rios. \u00c9 uma parcela muito pequena. Um exemplo aqui de Campinas: a cidade tem dez shoppings centers que re\u00fanem 21% da for\u00e7a de trabalho, 170 mil pessoas. Esses 21% n\u00e3o t\u00eam nenhuma forma de organiza\u00e7\u00e3o e est\u00e3o reunidos no mesmo espa\u00e7o, com n\u00e3o sei quantos contratos diferentes. Isso n\u00e3o d\u00e1 organiza\u00e7\u00e3o porque s\u00e3o contratos individuais praticamente. Esses trabalhadores est\u00e3o submetidos a um regime de profunda intensifica\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o do trabalho, est\u00e3o trabalhando mais e de forma mais intensa. Eles t\u00eam uma s\u00e9rie de anseios, doen\u00e7as profissionais, e isso n\u00e3o faz parte da pauta das institui\u00e7\u00f5es tradicionais de representa\u00e7\u00e3o de interesses. Por isso n\u00e3o tem di\u00e1logo e por isso a dificuldade de represent\u00e1-los. Este me parece que \u00e9 o principal desafio. Quem conseguir encontrar a f\u00f3rmula que vai permitir chegar a esses trabalhadores ter\u00e1 a chave de um patamar muito superior de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Tendo em vista os resultados das elei\u00e7\u00f5es municipais, que favoreceram partidos como o PMDB e o PSDB, bem como a ampla maioria obtida pelo governo na recente aprova\u00e7\u00e3o da PEC 241 na C\u00e2mara dos Deputados, que proje\u00e7\u00e3o voc\u00ea faz para a possibilidade de mobiliza\u00e7\u00e3o contra a reforma trabalhista que o governo Temer pretende apresentar no segundo semestre de 2017?<\/strong><\/p>\n<p>A esquerda no Brasil certamente sofreu uma derrota, percebida pelos fatos do pr\u00f3prio impedimento da <strong>Dilma<\/strong> [<strong>Rousseff<\/strong>] e os resultados das elei\u00e7\u00f5es de 2016. Mas essa derrota n\u00e3o \u00e9 o fim da historia, \u00e9 um cap\u00edtulo. Essa derrota poder\u00e1 ser permanente ou apenas pontual dependendo de como a esquerda ter\u00e1 a capacidade de entender esse movimento e responder a ele. A resist\u00eancia a essa nova direita que se estabelece no Brasil se dar\u00e1 de forma muito desigual e por isso acredito que, mais do que a resist\u00eancia, cabe \u00e0 esquerda a constitui\u00e7\u00e3o de um receitu\u00e1rio diferente do que esse governo representa, que \u00e9 o neoliberalismo. Um programa econ\u00f4mico que diga n\u00e3o \u00e0 recess\u00e3o, que estabele\u00e7a o mais imediato poss\u00edvel retorno ao crescimento econ\u00f4mico. O impedimento da <strong>Dilma<\/strong> em 2016 representou o encerramento de um ciclo pol\u00edtico da <strong>Nova Rep\u00fablica<\/strong>, marcado basicamente por governos de concilia\u00e7\u00e3o de classe, uns mais do que outros. A imagem que eu tenho do governo <strong>Temer<\/strong> \u00e9 o estabelecimento de uma forma de governo classista, com pouco apelo a conciliar com mais classes. Mas sua pr\u00f3pria for\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m sua fraqueza porque os resultados que ele busca atingir dificilmente se apresentar\u00e3o na segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo 21. N\u00e3o h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de o pa\u00eds voltar a crescer com essas op\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo feitas.<\/p>\n<p><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>O tempo vem confirmando as teses que avaliavam previamente os equ\u00edvocos da ortodoxia. De certa maneira j\u00e1 foi chamada aten\u00e7\u00e3o em dezembro de 2014 que a op\u00e7\u00e3o pela recess\u00e3o n\u00e3o levaria ao equil\u00edbrio das contas p\u00fablicas. Pelo contr\u00e1rio: o que temos visto \u00e9 um aprofundamento desse quadro. O governo <strong>Temer<\/strong> n\u00e3o abandonou a pol\u00edtica que j\u00e1 vem do governo <strong>Dilma<\/strong> e aposta numa piora, porque a aprova\u00e7\u00e3o da <strong>PEC 241<\/strong> n\u00e3o levar\u00e1 a uma recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, mas possivelmente a uma depress\u00e3o. Ao cortar o custeio e o investimento p\u00fablico, especialmente o gasto social, teremos uma redu\u00e7\u00e3o no dinamismo da economia brasileira. Hoje, a cada quatro reais que circulam na economia, um real prov\u00e9m do gasto social. O gasto social se traduz em consumo: algu\u00e9m que ganha <strong>Bolsa Fam\u00edlia<\/strong>, previd\u00eancia social, termina transferindo essa renda para o consumo. Podemos dizer que quase 50% hoje do dinamismo da economia brasileira prov\u00eam do gasto social. Na medida em que voc\u00ea corta o gasto social, vai reduzindo esse componente de dinamismo da economia brasileira, a menos que se coloque outro para ocupar esse espa\u00e7o. Mas qual seria o outro? Seria o setor externo? Ser\u00e1 que as exporta\u00e7\u00f5es t\u00eam um horizonte de expans\u00e3o no mundo? N\u00e3o \u00e9 verdade. No capitalismo as empresas n\u00e3o investem porque o custo \u00e9 baixo. Elas compram se h\u00e1 possibilidade de fazer girar aquele investimento, se vai ter consumo, demanda. As empresas v\u00e3o contratar mais trabalhadores se tiver demanda para os seus servi\u00e7os, se tiver gente querendo comprar. A empresa n\u00e3o vai contratar mais apenas porque o trabalho ficou mais barato. Isso \u00e9 confirmado pela pr\u00f3pria realidade. Basta ver o que foram os anos 1990, quando a terceiriza\u00e7\u00e3o e a defesa da flexibiliza\u00e7\u00e3o do mercado de trabalho ganharam impulso, houve as privatiza\u00e7\u00f5es, a <strong>Reforma da Previd\u00eancia<\/strong>. Essas mudan\u00e7as n\u00e3o foram acompanhadas de crescimento econ\u00f4mico e gera\u00e7\u00e3o de emprego, pelo contr\u00e1rio: elas aprofundaram o desemprego e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho. O papel da esquerda n\u00e3o \u00e9 apenas reagir e resistir, mas fundamentalmente dizer o que pode e deve ser feito de forma alternativa. Porque \u00e9 isso, no meu modo de ver, que vai dar maior capacidade de galvanizar for\u00e7as pol\u00edticas contra esse projeto que est\u00e1 em curso no Brasil.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562224-a-uberizacao-leva-a-intensificacao-do-trabalho-e-da-competicao-entre-os-trabalhadores-entrevista-com-marcio-pochmann<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Revista ihu on-line Entrevista com M\u00e1rcio Pochmann, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) e professor titular no \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12644\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-12644","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3hW","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12644","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12644"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12644\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}