{"id":12654,"date":"2016-11-18T13:25:39","date_gmt":"2016-11-18T16:25:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12654"},"modified":"2016-12-02T21:39:45","modified_gmt":"2016-12-03T00:39:45","slug":"as-eleicoes-municipais-a-grande-derrota-do-pt-e-os-proximos-passos-da-luta-de-classes-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12654","title":{"rendered":"As elei\u00e7\u00f5es municipais, a grande derrota do PT e os pr\u00f3ximos passos da luta de classes no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/dDzxZKfUmCu3lgH4tCkezhObJnzSlRTAIA235JWgQGWV9LZCqHA38Sxy9MbKo83-ATKOZZv2vr3lI3b8VT2V0ilDinS2Pr3ooLmwb5UV3_9xwL0R6OkprGnVRjg1yBFFJmmrQA1r61rqNu5w05U0t91Wp9Lqkuwv3NEUVbzclFDLmLT2UBTKw87DeEEP2w_Gd6lL5nvoggEFVIalQ-yg7jpUS5S753aWS1yqqfnjnZ3FO-MI5c0UR7i6df1DLM4okSH4ntUjc5-ET-7kCJZvW1-mY5H0pqMF18gSNlP45h2B93OmuI_j5afE_CKt_ImX4pnLRF3atXP1-sjUlczBt71EsxtfC-DshkhH9XuPOCVbyxDz0xAFwXrnDGseptfmMjIOYvvtmSN6eW_1F8sVSkwjYTR_fIqIoCii2kuvuiznTFiqgIz-qanw-Fnse_r9o57ngDZPcGsDeRZJ1XfkSCGcENfjsdFmTKPDFGWr0acyeJUSPwPS1p39F4Esc6jNJF3mvkFLUbs8dTHMcY-RiETVm7EfcF6oHa11AgvZD9FF5VEcFZ7TJo3nYFfbZRG7bL8mPYYExip2plvpyKBRfdiArj4n1Ws3h-PHMuVHKPAYb5k3=w1089-h579-no\" alt=\"imagem\" \/><b>Edmilson Costa*<\/b><\/p>\n<p>Os mais de 144 milh\u00f5es de eleitores foram \u00e0s urnas nos dois turnos no Brasil para eleger prefeitos e vereadores de 5.568 munic\u00edpios. Pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais, com 8,5 milh\u00f5es de Km<sup>2<\/sup> e mais de 200 milh\u00f5es de habitantes, com enorme diversidade em termos econ\u00f4micos, sociais e regionais, as elei\u00e7\u00f5es municipais representam um momento importante da luta pol\u00edtica no Pa\u00eds e um term\u00f4metro para se avaliar o estado de \u00e2nimo da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica tradicional, muito embora essas elei\u00e7\u00f5es, por suas especificidades locais e pela conjuntura de crise, n\u00e3o tenham refletido exatamente a realidade da luta de classes no Pa\u00eds. Isso porque essas elei\u00e7\u00f5es ocorreram logo ap\u00f3s as olimp\u00edadas, ao processo de <!--more-->impeachment da presidenta Dilma Roussef, \u00e0s den\u00fancias seletivas da Opera\u00e7\u00e3o Lava a Jato, \u00e0 avassaladora campanha midi\u00e1tica de demoniza\u00e7\u00e3o do PT e de seus dirigentes, al\u00e9m da assimetria econ\u00f4mica e midi\u00e1tica entre as candidaturas.<\/p>\n<p>Ressalte-se ainda que essas elei\u00e7\u00f5es foram realizadas em meio \u00e0 mais grave crise econ\u00f4mica, social e pol\u00edtica do \u00faltimo meio s\u00e9culo, processo que se combinou com o fim de um longo ciclo de lutas sociais no Brasil, que se iniciou no final da d\u00e9cada de 70 com as graves do ABC e que est\u00e1 se encerrando dramaticamente tanto com o impeachment da presidente Dilma Rousself quanto com a derrota do PT nestas elei\u00e7\u00f5es municipais. Al\u00e9m disso, em meio \u00e0 crise est\u00e1 tamb\u00e9m se desenvolvendo, muito embora ainda de maneira embrion\u00e1ria, um novo ciclo de lutas que come\u00e7ou com as extraordin\u00e1rias jornadas de junho de 2013 e que segue seu curso em busca de consolida\u00e7\u00e3o na conjuntura social e pol\u00edtica. Portanto, esse conjunto de fen\u00f4menos, aliados \u00e0 reforma pol\u00edtica que reduziu o tempo de televis\u00e3o dos partidos de esquerda e a redu\u00e7\u00e3o do tempo de campanha eleitoral, contribu\u00edram para ofuscar a disputa pol\u00edtica eleitoral e tornaram as elei\u00e7\u00f5es municipais meio mornas.<\/p>\n<p>Mesmo assim as elei\u00e7\u00f5es constitu\u00edram-se em importante posto de observa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico para se aferir os principais elementos da conjuntura e avan\u00e7ar na compreens\u00e3o sobre os pr\u00f3ximos passos da luta social e pol\u00edtica no Brasil. A partir dessas considera\u00e7\u00f5es, pode-se dizer que dessas elei\u00e7\u00f5es emergem quatro vari\u00e1veis fundamentais da conjuntura pol\u00edtica brasileira: a) a grande derrota do Partido dos Trabalhadores e seus sat\u00e9lites, bem como da pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes; b) a vit\u00f3ria das for\u00e7as conservadoras, especialmente do PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira) nas grandes cidades, especialmente nas capitais; c) o elevado n\u00famero de votos nulos, brancos e absten\u00e7\u00f5es, que no geral foram maiores do que os votos dados a muitos dos candidatos vitoriosos no primeiro turno; d) a emerg\u00eancia bipolar da luta pol\u00edtica nas duas principais capitais do Pa\u00eds, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, nas quais emergiram vitoriosos o PSDB em S\u00e3o Paulo e a coliga\u00e7\u00e3o PSOL-PCB, que venceu no primeiro turno no Rio de Janeiro e perdeu no segundo;<\/p>\n<p><strong>A derrota anunciada do PT<\/strong><\/p>\n<p>A derrota do Partido dos Trabalhadores j\u00e1 era esperada pela grande maioria das for\u00e7as pol\u00edticas brasileiras. O que surpreendeu foi a profundidade do tombo, a extens\u00e3o do fracasso e a qualidade do desastre \u2013 no segundo turno perdeu em todas as cidades em que disputou. Em 2012, \u00faltima elei\u00e7\u00e3o municipal, o PT dirigia 630 prefeituras, onde obteve um universo de 17,2 milh\u00f5es de votos, sendo parcela expressiva destes em grandes cidades. Em 2016 o PT elegeu apenas 256 prefeitos (queda de 59,4%), correspondente a 6,9 milh\u00f5es de votos. Desse conjunto de prefeituras, 57,4% s\u00e3o cidades com menos de 10 mil habitantes. O PT era o terceiro partido com o maior n\u00famero de prefeituras, caiu para 10\u00ba. lugar. Das 93 cidades com mais de 250 mil habitantes, o PT dirigia 14 delas em 2012. Nestas elei\u00e7\u00f5es, elegeu apenas um prefeito, no primeiro turno, na cidade de Rio Branco, capital do Acre, \u00fanico Estado em que era governo e elegeu o prefeito. Perdeu as elei\u00e7\u00f5es em Belo Horizonte, Fortaleza e Salvador, onde governava o Estado, e em todas as cidades do ABC, ber\u00e7o do PT.<\/p>\n<p>Mas o fracasso maior do PT n\u00e3o \u00e9 quantitativo: \u00e9 qualitativo. No Estado de S\u00e3o Paulo, o mais industrializado do Brasil, o PT possu\u00eda 72 prefeituras em 2012. Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es ganhou apenas em oito, todas elas min\u00fasculas cidades, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de Araraquara, de porte m\u00e9dio. Das 39 cidades da Grande S\u00e3o Paulo, onde se encontra o cintur\u00e3o industrial do Grande ABC, o PT ganhou apenas em apenas uma pequena cidade. Mas o fracasso maior foi na capital de S\u00e3o Paulo, maior cidade do Pa\u00eds, dirigida pelo prefeito do PT, Fernando Hadad. Nesta capital, o candidato do PSDB ganhou as elei\u00e7\u00f5es no primeiro turno, um fen\u00f4meno muito raro pelo menos nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. A derrota em S\u00e3o Paulo teve um sabor amargo adicional, uma vez que o candidato do PT perdeu em todas as zonas eleitorais da cidade, inclusive nos tradicionais basti\u00f5es da periferia, que sempre deram a vit\u00f3ria \u00e0 legenda de Lula da Silva.<\/p>\n<p><strong>A vit\u00f3ria dos conservadores<\/strong><\/p>\n<p>As for\u00e7as conservadoras, especialmente aquelas ligadas aos usurpadores atualmente no poder, foram amplamente vitoriosas nessas elei\u00e7\u00f5es municipais. Souberam captar o sentimento da popula\u00e7\u00e3o contra a corrup\u00e7\u00e3o, a avers\u00e3o aos pol\u00edticos e \u00e0 pol\u00edtica em geral e, especialmente, o sentimento anti-PT de largas parcelas da popula\u00e7\u00e3o, inclusive nos bairros populares, estimulados evidentemente pela m\u00eddia corporativa, pela <i>Opera\u00e7\u00e3o Lava a Jato <\/i>e pelas pris\u00f5es midi\u00e1ticas de v\u00e1rios dirigentes dessa organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Independentemente das manipula\u00e7\u00f5es da m\u00eddia, os conservadores aparentemente poderiam se considerar legitimados nas elei\u00e7\u00f5es, uma vez que a esquerda socialista n\u00e3o teve condi\u00e7\u00f5es de captar esse sentimento da popula\u00e7\u00e3o, devido \u00e0 falta de recursos financeiros e aus\u00eancia de tempo de televis\u00e3o, que os conservadores tiveram de sobra, e certa dist\u00e2ncia do proletariado.<\/p>\n<p>Mas o avan\u00e7o das for\u00e7as conservadoras n\u00e3o significa que n\u00e3o haja contradi\u00e7\u00f5es profundas entre as v\u00e1rias fra\u00e7\u00f5es das classes dominantes. Entre esses conservadores, o grande vitorioso foi o PSDB, possivelmente por ser o partido mais ideol\u00f3gico e mais program\u00e1tico da direita brasileira, seguido pelo PMDB e outras legendas menores. O PSDB ganhou em 806 cidades e em sete grandes capitais, inclusive na principal delas que \u00e9 a capital de S\u00e3o Paulo e o PT em uma somente. Nas 351 cidades m\u00e9dias, entre 50 mil e 200 mil habitantes, o PSDB novamente foi o grande vitorioso: ganhou em 70 delas, enquanto o PMDB elegeu 53 prefeitos e o PT apenas 13.<\/p>\n<p>Esses dados demonstram a predomin\u00e2ncia do PSDB nas m\u00e9dias e grandes cidades do Pa\u00eds, onde se concentra o grosso do proletariado brasileiro, o que tamb\u00e9m reflete a enorme eros\u00e3o que o PT sofreu entre os trabalhadores dos centros urbanos. Mas esse resultado, ao contr\u00e1rio de levar tranquilidade \u00e0s hostes da direita no poder, gera uma enorme contradi\u00e7\u00e3o, tanto no interior do pr\u00f3prio PSDB quanto junto ao segundo maior partido que \u00e9 o PMDB. A vit\u00f3ria na capital paulista fortaleceu o atual governador e pretendente a candidato a presidente em 2018, Geraldo Alckmin, que conseguiu eleger prefeito um ilustre desconhecido. Se fortaleceu na disputa interna que ir\u00e1 realizar com A\u00e9cio Neves e Jos\u00e9 Serra, outros dois pretendentes a candidato a presidente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o PSDB ganhou um protagonismo muito grande junto ao atual governo e praticamente deixou o PMDB sem op\u00e7\u00f5es reais para a disputa em 2018, podendo contentar-se novamente apenas com a figura de vice na chapa conservadora. O PSDB, pressionar\u00e1 o atual governo para acelerar a pol\u00edtica neoliberal e o ajuste fiscal, pol\u00edtica que entrar\u00e1 em choque com interesses longamente consolidados, inclusive das oligarquias regionais e caciques locais, que necessitam dar algum tipo de resposta \u00e0s demandas da popula\u00e7\u00e3o, at\u00e9 mesmo por necessidade de sobreviv\u00eancia pol\u00edtica. Com o aprofundamento da crise, a radicalidade do ajuste fiscal e os protestos da popula\u00e7\u00e3o estas contradi\u00e7\u00f5es v\u00e3o aprofundar as divis\u00f5es entre as fra\u00e7\u00f5es burguesas.<\/p>\n<p><strong>O significado dos nulos, brancos e absten\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Um dado curioso nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras e, especialmente nestas elei\u00e7\u00f5es, foi o aumento de votos nulos, brancos e absten\u00e7\u00f5es observados nas elei\u00e7\u00f5es municipais. Mesmo relativizando-se que as absten\u00e7\u00f5es n\u00e3o sejam exatamente uma atitude de protesto, pois muitos podem estar fora de seus domic\u00edlios eleitorais ou impossibilitados de votar, grande parte dessa aus\u00eancia significa um desleixo ou desprezo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. No entanto, os votos nulos e brancos, na sua maioria absoluta, s\u00e3o votos de protesto contra a ordem ou mesmo porque esses eleitores n\u00e3o se sentem representados pela atual institucionalidade e creem que nada ser\u00e1 mudado com o processo eleitoral. Se o voto n\u00e3o fosse obrigat\u00f3rio, as absten\u00e7\u00f5es, nulos e brancos seriam muito maiores.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia da extens\u00e3o de ausentes, nulos e brancos vale dizer que esses votos superam os votos dos primeiros colocados no primeiro turno em 10 capitais do Pa\u00eds, S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte (nesses dois \u00faltimos munic\u00edpios a soma superou o primeiro e o segundo colocados juntos), Curitiba, Porto Alegre, Bel\u00e9m Porto Velho, Campo Grande, Cuiab\u00e1 e Aracaju. Em outras 11 capitais, a soma de absten\u00e7\u00f5es, nulos e brancos foi maior que o segundo colocado nas elei\u00e7\u00f5es. Essa rejei\u00e7\u00e3o, principalmente pelo segmento mais jovem do eleitorado, significa uma s\u00e9rie crise de representa\u00e7\u00e3o, uma vez que largas parcelas da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sentem representadas pela atual institucionalidade pol\u00edtica e expressam seu desapontamento dessa forma.<\/p>\n<p>Outro indicador do desencanto com a institucionalidade ou com a podrid\u00e3o da pol\u00edtica brasileira, com os processos de corrup\u00e7\u00e3o e o balc\u00e3o de neg\u00f3cios em que se transformou o Parlamento e o Executivo brasileiro, \u00e9 a desist\u00eancia de milh\u00f5es de jovens de se alistarem (solicitar o t\u00edtulo de eleitor) para as elei\u00e7\u00f5es. Entre 2012 e 2016 ocorreu uma queda de cerca de 9% na emiss\u00e3o de t\u00edtulos para jovens entre 16 e 17 anos. Nos primeiros seis meses de 2016 (\u00faltimo dado do TSE) apenas cerca de 40% de jovens dessa faixa et\u00e1ria foram aos tribunais eleitorais solicitar o t\u00edtulo de eleitor, o que demonstra o desprezo da juventude pelo processo eleitoral brasileiro.<\/p>\n<p><strong>A bipolaridade dial\u00e9tica<\/strong><\/p>\n<p>Com todas as ressalvas poss\u00edveis, o resultado das elei\u00e7\u00f5es, especialmente nas duas principais cidades do Pa\u00eds, S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro, demonstrou tamb\u00e9m uma bipolaridade dial\u00e9tica em perspectiva, ou seja, condensaram em seus resultados as contradi\u00e7\u00f5es e perspectivas da luta pol\u00edtica no Brasil. Em S\u00e3o Paulo, o PSDB teve uma vit\u00f3ria acachapante no primeiro turno, um fato in\u00e9dito pelo menos nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. O PSDB, por ser o mais program\u00e1tico da direita brasileira, expressou o poder das v\u00e1rias fra\u00e7\u00f5es da burguesia, uma vez que \u00e9 em S\u00e3o Paulo que est\u00e1, tanto f\u00edsica quanto economicamente, o seu Comit\u00ea Central, mais precisamente situado na Avenida Paulista.<\/p>\n<p>Paralelamente, o Rio de Janeiro tamb\u00e9m expressou o polo oposto da disputa pol\u00edtica nestas elei\u00e7\u00f5es. A coliga\u00e7\u00e3o PSOL-PCB, aliada aos movimentos sociais, \u00e0 juventude e \u00e0 intelectualidade progressista, com a candidatura de Marcelo Freixo, do PSOL, conseguiu derrotar os candidatos do atual prefeito carioca, do governo do Estado e do governo federal e passar para o segundo turno, num processo no qual as condi\u00e7\u00f5es da disputa eram as mais adversas poss\u00edveis. O candidato Marcelo Freixo n\u00e3o tinha os recursos financeiros que os outros candidatos possu\u00edam, n\u00e3o tinha tempo de televis\u00e3o (apenas 11 segundos), enquanto os outros candidatos apareciam diariamente na TV. Mas Freixo possu\u00eda uma ferramenta que os outros n\u00e3o tinham, que era a milit\u00e2ncia guerreira que ao longo da campanha disputou nas ruas e de casa em casa o voto popular e conseguiu resultado que poucos acreditavam que ocorreria.<\/p>\n<p>No entanto, no segundo turno, Freixo cometeu um grave erro pol\u00edtico: ap\u00f3s reuni\u00e3o com empres\u00e1rios, fez uma carta \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, a exemplo do que fez Lula em 2002, se comprometendo a respeitar os contratos estabelecidos pela Prefeitura, n\u00e3o aceitar indica\u00e7\u00e3o de partidos pol\u00edticos e nomear apenas t\u00e9cnicos para o seu secretariado. Uma atitude inteiramente contradit\u00f3ria a toda a campanha realizada no primeiro turno. N\u00e3o conseguiu o apoio daqueles que n\u00e3o votarem nele no primeiro turno e desarmou e desestimulou a milit\u00e2ncia que foi o eixo central de sua campanha no primeiro turno. O resultado dessa virada de \u00faltima hora foi a derrota para um candidato obscurantista, ligado \u00e0 Igreja Universal do Reino de Deus.<\/p>\n<p>De qualquer forma, como S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro representam os dois polos principais da luta pol\u00edtica no Brasil, mesmo com a derrota de Freixo, h\u00e1 elementos que possibilitam indicar as perspectivas da luta de classes no Pa\u00eds. Em S\u00e3o Paulo, firmou-se a burguesia, agora dominando tanto o governo estadual quanto o municipal. V\u00e3o exercitar a pol\u00edtica neoliberal pura, sem tergiversa\u00e7\u00e3o, com a criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais e a repress\u00e3o contra os trabalhadores e as manifesta\u00e7\u00f5es de rua, que dever\u00e3o aumentar \u00e0 medida em que o governo for anunciando o saco de maldades contra os trabalhadores e a juventude para privilegiar o grande capital, especialmente os rentistas. Na capital paulista est\u00e1 o grande basti\u00e3o burgu\u00eas e todo seu aparato para enfrentar o pr\u00f3ximo per\u00edodo da luta de classes.<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro, por sua vez, aponta em outra dire\u00e7\u00e3o, independentemente do resultado do segundo turno. A coliga\u00e7\u00e3o vitoriosa da esquerda no primeiro turno foi justamente aquela que n\u00e3o abriu m\u00e3o de seus princ\u00edpios e buscou o apoio na esquerda socialista, nos movimentos sociais e na juventude. N\u00e3o se rendeu \u00e0s conveni\u00eancias da velha pol\u00edtica nem aos acordos com os inimigos de classe. Buscou sua energia e vitalidade nos trabalhadores e na juventude e assim demonstrou que \u00e9 poss\u00edvel, mesmo dentro das restritivas regras burguesas, abrir caminhos para um terceiro campo, aquele que rejeita a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classe e enfrenta a burguesia confiando nas for\u00e7as da transforma\u00e7\u00e3o social. Por isso, a derrota de Freixo no segundo turno mais uma vez prova que no atual momento da luta de classes no Pa\u00eds n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a concilia\u00e7\u00e3o de classe. Quem quiser se colocar \u00e0 altura da luta de classes e buscar solu\u00e7\u00f5es para uma alternativa anticapitalista e classista para o Brasil ter\u00e1 que manter coer\u00eancia no discurso e na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Os novos caminhos da luta de classes<\/strong><\/p>\n<p>Passada as elei\u00e7\u00f5es, a luta de classe segue seu curso, muito vezes por caminhos tortuosos que as pr\u00f3prias classes em disputa n\u00e3o conseguem vislumbrar plenamente. As elei\u00e7\u00f5es foram apenas uma imagem distorcida no espelho da realidade brasileira. A verdadeira disputa vai se dar a partir agora. Embriagados pelo resultado das urnas, os conservadores v\u00e3o avan\u00e7ar com mais trucul\u00eancia pela senda da barb\u00e1rie social, com medidas cada vez mais impopulares, como o ajuste fiscal por 20 anos (a ironia \u00e9 que at\u00e9 l\u00e1 quase todos eles estar\u00e3o mortos, mas isso mostra seu instinto de classe), a reforma da previd\u00eancia, a reforma trabalhista, e reforma educacional, entrega do petr\u00f3leo do pr\u00e9-sal para as multinacionais, imaginando que o resultado das urnas legitimaram os interesses da burguesia e dos rentistas perante a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esquecem-se, todavia, que em toda luta h\u00e1 um contraponto dial\u00e9tico. No caso brasileiro, esse contraponto \u00e9 o proletariado urbano, a juventude das grandes metr\u00f3poles e o povo pobre dos bairros, justamente os setores que mais sofrer\u00e3o com as medidas antipopulares do governo. Tamb\u00e9m se esqueceram de que j\u00e1 h\u00e1 uma indigna\u00e7\u00e3o generalizada na sociedade contra esse governo (n\u00e3o refletida nas urnas, em fun\u00e7\u00e3o das distor\u00e7\u00f5es da campanha eleitoral), que se manifesta nas ocupa\u00e7\u00f5es que at\u00e9 agora j\u00e1 atingem mais de 1.200 escolas, universidades e institutos federais de ensino, nas manifesta\u00e7\u00f5es de rua, nos est\u00e1dios de futebol, nos espet\u00e1culos musicais e teatrais, al\u00e9m de outros locais p\u00fablicos, e at\u00e9 nos aeroportos quando as pessoas encontram figur\u00f5es do governo e os escracham publicamente.<\/p>\n<p>Essa indigna\u00e7\u00e3o ainda difusa em algum momento ir\u00e1 buscar refer\u00eancias organizativas, como j\u00e1 se ensaiou embrionariamente na recente passeata da <i>Frente Povo Sem Medo<\/i>, que reuniu cerca de 100 mil pessoas em S\u00e3o Paulo. N\u00e3o se pode esquecer que o Brasil \u00e9 um Pa\u00eds \u00e0 beira de um ataque de nervos, com uma sociedade cansada do caos urbano, em fun\u00e7\u00e3o da prec\u00e1ria mobilidade social; das terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es da sa\u00fade p\u00fablica; da viol\u00eancia e o assassinato de jovens pretos e pobres da periferia das grandes cidades; do desemprego que atinge atualmente mais de 12 milh\u00f5es de trabalhadores e suas fam\u00edlias; e da indigna\u00e7\u00e3o contra a corrup\u00e7\u00e3o e a velha pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Todo esse caldeir\u00e3o social em ebuli\u00e7\u00e3o vai esquentar ainda mais \u00e0 medida em que os trabalhadores, aposentados, a juventude e o povo pobre dos bairros forem tomando consci\u00eancia da profundidade dos ataques da burguesia contra seus direitos e garantias. Nesse momento a luta de classes vai alcan\u00e7ar um novo patamar. Nenhum governo pode dirigir um Pa\u00eds por muito tempo sem legitimidade social. Mais de 60% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e3o contra esse governo. A hora em que o proletariado indignado com o desemprego, o corte de sal\u00e1rios, redu\u00e7\u00e3o das aposentadorias, as privatiza\u00e7\u00f5es, tudo isso sendo feito para transferir recursos p\u00fablicos para saciar o apetite voraz de uma elite parasit\u00e1ria rentista e do grande capital, ent\u00e3o teremos a disputa real nas ruas, nos locais de trabalho, estudo e moradia. N\u00e3o est\u00e1 descartado um levante social contra o governo usurpador. Esse momento poder\u00e1 chegar muito antes do que imaginam os pessimistas.<\/p>\n<p><strong>Edmilson Costa \u00e9 secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Edmilson Costa* Os mais de 144 milh\u00f5es de eleitores foram \u00e0s urnas nos dois turnos no Brasil para eleger prefeitos e vereadores de \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12654\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-12654","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3i6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12654","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12654"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12654\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}