{"id":1267,"date":"2011-03-07T18:36:40","date_gmt":"2011-03-07T18:36:40","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1267"},"modified":"2011-03-07T18:36:40","modified_gmt":"2011-03-07T18:36:40","slug":"a-classe-operaria-vai-ao-paraiso-o-trabalhador-industrial-entre-o-ceu-e-o-inferno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1267","title":{"rendered":"A classe oper\u00e1ria vai ao para\u00edso \u2013 o trabalhador industrial entre o c\u00e9u e o inferno"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cEu sou uma m\u00e1quina, eu sou uma roldana, eu sou uma rosca,<\/em><\/p>\n<p> <em> eu sou um parafuso, eu sou uma correia de transmiss\u00e3o,<\/em><\/p>\n<p> <em> eu sou uma bomba, ali\u00e1s, a bomba est\u00e1 estragada,<\/em><\/p>\n<p> <em> n\u00e3o funciona mais, e agora n\u00e3o pode mais ser reparada\u201d.<\/em><\/p>\n<p> <em> (Lulu Massa)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cOs pobres ficam loucos porque tem pouco,<\/em><\/p>\n<p> <em> e os ricos ficam loucos porque tem demais\u201d<\/em><\/p>\n<p> <em> (Militina)<\/em><\/p>\n<p>A It\u00e1lia saiu da Segunda Guerra Mundial com uma grave crise econ\u00f4mica, e em fun\u00e7\u00e3o disso, deparou-se com um profundo avan\u00e7o da esquerda. J\u00e1 em 1948 uma greve geral mobilizou mais de 7 milh\u00f5es de trabalhadores por tr\u00eas dias, os partidos de esquerda, atingiram a soma de 10 milh\u00f5es de votos nos anos 50, perdendo apenas para a democracia crist\u00e3<sup><sup>2<\/sup><\/sup>. O Partido Comunista Italiano (PCI) fundado por Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti teve um papel de destaque no avan\u00e7o da esquerda italiana, muito devido a ativa participa\u00e7\u00e3o dos comunistas na resist\u00eancia anti-fascista. Mas foi sob o comando do secret\u00e1rio-geral Enrico Berlinguer, que o PCI chega ao seu auge de influ\u00eancia pol\u00edtica nos anos 70, sendo considerado o maior partido comunista do ocidente, com 1,7 milh\u00f5es de filiados e tendo atingido nas elei\u00e7\u00f5es de 1976, 34,4 milh\u00f5es de votos.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 70 seria, no entanto, um per\u00edodo de profundas transforma\u00e7\u00f5es no capitalismo do mundo todo, em que se inclui a It\u00e1lia. Depois de um per\u00edodo de conquistas para a classe trabalhadora, o padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o taylorista-fordista entra em plena decad\u00eancia. O resultado seria que muitos dos direitos conquistados seriam postos em xeque pelas burguesias da \u00e9poca, que objetivando diminuir os custos introduzem inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas poupadoras de for\u00e7a de trabalho. Seria o predom\u00ednio pleno da subsun\u00e7\u00e3o real sobre a formal<sup><sup>3<\/sup><\/sup>, da mais-valia relativa sobre a absoluta, que j\u00e1 vinha desde a eclos\u00e3o da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. O homem cada vez mais se torna um ap\u00eandice da m\u00e1quina, n\u00e3o \u00e9 mais a ferramenta que \u00e9 constru\u00edda para adaptar-se a m\u00e3o do homem, \u00e9 o homem que tem de adaptar-se \u00e0 m\u00e1quina. O papel do trabalhador na gera\u00e7\u00e3o de riqueza passa a ser questionado, a crise capitalista faz com que a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores se depare com o aumento do desemprego, a carestia e a conviv\u00eancia com a reestrutura\u00e7\u00e3o do trabalho na f\u00e1brica.<\/p>\n<p>A partir de todas estas transforma\u00e7\u00f5es que o mundo do trabalho vivenciava, uma pergunta ecoava na cabe\u00e7a da esquerda da \u00e9poca: para onde estar\u00e1 indo a classe trabalhadora? O filme \u201cA classe oper\u00e1ria vai ao para\u00edso\u201d de 1971 com dire\u00e7\u00e3o de \u00c9lio Petri busca responder a essa pergunta: vai depender da pr\u00f3pria classe trabalhadora, do despertar ou n\u00e3o de sua consci\u00eancia de classe. Por esse motivo, esse \u00e9 talvez o mais representativo dos filmes pol\u00edticos italianos dos anos 70<sup><sup>4<\/sup><\/sup>. O engajamento passa pelo pr\u00f3prio diretor, militante por muitos anos do PCI, sendo que mesmo depois de sair do partido continuou colaborando na se\u00e7\u00e3o de cinema do jornal oficial dos comunistas italianos, o \u201cL\u2019Unit\u00e1\u201d. O ator principal do filme, Gian Maria Volont\u00e9 por toda a vida foi militante do PCI, sendo protagonista de in\u00fameros filmes pol\u00edticos italianos entre os anos 60 e 80<sup><sup>5<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>O filme tem como cen\u00e1rio principal a BAN, uma f\u00e1brica que produz pe\u00e7as para motores. Ela utiliza o sistema de metas de produ\u00e7\u00e3o, sendo que o desenvolvimento tecnol\u00f3gico que leva ao aumento da produtividade do trabalho n\u00e3o tem sido acompanhado do acr\u00e9scimo salarial. Como diz o discurso de um l\u00edder sindical: \u201cquando faziam 1000 pe\u00e7as por dia ganhavam 300 liras de sal\u00e1rio, agora produzem 3000 pe\u00e7as e o sal\u00e1rio \u00e9 o mesmo\u201d. A postura que os oper\u00e1rios devem manter no trabalho \u00e9 sempre em p\u00e9, nunca sentados, o que faz com que um oper\u00e1rio veterano com problemas de pr\u00f3stata tenha incontin\u00eancia urin\u00e1ria. Ao mesmo tempo, numa \u00e9poca em que a moda era os homens usarem cabelos compridos, estes s\u00e3o for\u00e7ados a usarem toucas como as da for\u00e7a de trabalho feminina, o que seria caracterizado hoje como uma atitude t\u00edpica de ass\u00e9dio moral.<\/p>\n<p>Os oper\u00e1rios iniciam sua jornada de trabalho ao som de um alto-falante que busca incentiv\u00e1-los ao bom desempenho no trabalho, alertando para que cuidem da manuten\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina, e mais do que isso, no mais puro exemplo de rela\u00e7\u00e3o fetichista entre homem e m\u00e1quina, pede aos trabalhadores que tratem esta com amor o que n\u00e3o \u00e9 seguido ao menos pelos mais politizados, que chegam a cuspir na m\u00e1quina em atitude de desabafo.<\/p>\n<p>Nem todos os trabalhadores, no entanto, tem esta atitude de revolta. Lulu Massa (Gian Maria Volont\u00e9) \u00e9 o que no Brasil comumente se chamaria de \u201coper\u00e1rio-padr\u00e3o\u201d<sup><sup>6<\/sup><\/sup>, um oper\u00e1rio bra\u00e7al que devido a sua alta produtividade passa a ser o par\u00e2metro para todos os demais trabalhadores da f\u00e1brica BAN. \u00c9 Lulu que com sua grande destreza e impressionante poder de concentra\u00e7\u00e3o dita o ritmo de trabalho para os demais oper\u00e1rios, estabelecendo as metas a serem atingidas pelos colegas.<\/p>\n<p>A postura de Lulu no trabalho, de carrasco para os outros oper\u00e1rios e de subservi\u00eancia ao patronato, traz uma s\u00e9rie de contradi\u00e7\u00f5es que ele vivencia em boa parte do filme. Os colegas no trabalho o chamam de \u201cpuxa-saco\u201d do patr\u00e3o, e ele incomodado com a acusa\u00e7\u00e3o pergunta em casa \u00e0 sua mulher: \u201cAcha que sou um puxa-saco?\u201d ao que ela responde: \u201cComigo n\u00e3o\u201d. Lulu t\u00eam uma atitude de submiss\u00e3o ao patr\u00e3o, ao capital, a quem lhe paga o suado sal\u00e1rio. Aos colegas que questionam as altas metas que s\u00e3o exigidas e que ele deveria se empenhar em ao inv\u00e9s de aument\u00e1-las, diminu\u00ed-las, responde t\u00e3o somente: \u201cn\u00e3o inventei o sistema\u201d.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos demais oper\u00e1rios, sua postura \u00e9 de desprezo, considera-os uns pregui\u00e7osos por n\u00e3o serem iguais a ele. Evita dirigir-lhes a palavra quando trabalha, acha que conversar conduz \u00e0 distra\u00e7\u00e3o e o faz perder dinheiro: \u201cEntre uma fala e outra s\u00e3o 30 liras a menos\u201d, diz a um novato que se apresenta a ele. Ao mesmo tempo, Lulu tem consci\u00eancia de que o seu trabalho n\u00e3o exige qualquer atributo intelectual mais desenvolvido, ao mesmo novato ao ensinar uma tarefa diz: \u201cEsta fun\u00e7\u00e3o at\u00e9 um macaco pode fazer, portanto, voc\u00ea tamb\u00e9m pode\u201d. Em outro momento do filme, quando visita no hosp\u00edcio um velho oper\u00e1rio politizado, por\u00e9m, enlouquecido, Militina, este comenta com Lulu lendo uma not\u00edcia de jornal, que os cientistas haviam descoberto um macaco que acreditava ser humano, \u201cum engenheiro\u201d, afirma Militina, \u201cpobre macaco\u201d, responde Lulu. A afirma\u00e7\u00e3o de Lulu de que o trabalho \u00e9 simples e que at\u00e9 um macaco pode faz\u00ea-lo \u00e9 express\u00e3o da separa\u00e7\u00e3o entre a concep\u00e7\u00e3o e a execu\u00e7\u00e3o do trabalho. Um grupo de trabalhadores qualificados de n\u00edvel superior, dita aos oper\u00e1rios o que fazer e como fazer<sup><sup>7<\/sup><\/sup>, ironicamente, o macaco da not\u00edcia de jornal pensava ser engenheiro, um trabalhador que concebe para os demais executarem. Lulu afirma aos colegas: \u201cTenho for\u00e7a e trabalho, s\u00f3 isso\u201d. Isto \u00e9 tudo que a f\u00e1brica exige dele, ele n\u00e3o precisa mais do que isto.<\/p>\n<p>Apesar do desprezo que quer demonstrar pelos demais oper\u00e1rios, ele sofre com o conflito dentro da f\u00e1brica. Sente-se injusti\u00e7ado pelos colegas: \u201cMe atacam, cospem, me contestam, sou tratado como um c\u00e3o\u201d desabafa \u00e0 mulher. \u00c9 a partir da rela\u00e7\u00e3o com a mulher que Lulu apresenta outra ordem de conflitos, de ordem familiar. A mulher reclama da falta de libido de Lulu: \u201cUm dia \u00e9 a \u00falcera, no outro, dor de cabe\u00e7a, em outro, dor nas costas\u201d. Lulu tenta jogar a culpa pela falta de desejo sexual na pr\u00f3pria mulher, uma \u201ccarne de conserva\u201d, como ele afirma, em que tudo era posti\u00e7o: \u201cCabelo posti\u00e7o, tetas posti\u00e7as, unhas posti\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>O local de trabalho \u00e9 visto por Lulu como uma competi\u00e7\u00e3o em que ele \u00e9 o campe\u00e3o, e \u00e9 nesta disputa que ele deposita toda sua energia. Assim, o trabalho \u00e9 quase uma atividade sexual, ou na verdade, substitui a sua vida sexual real. \u00c9 pensando no traseiro de sua colega, Adalgisa (que como ele faz quest\u00e3o de ressaltar, \u00e9 virgem) que est\u00e1 o segredo de sua concentra\u00e7\u00e3o. A defini\u00e7\u00e3o de para\u00edso para Lulu \u00e9 o que Adalgisa tem entre as pernas, ao menos \u00e9 o que diz a ela. Lulu raramente consegue ter rela\u00e7\u00f5es sexuais com sua mulher, e quando acontece ele concentra-se como se estivesse operando a m\u00e1quina da f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Lulu sonha com a f\u00e1brica, quando dorme mexe com o dedo como se ainda estivesse trabalhando. O som do despertador (ele tem quatro em casa) o acorda como se fosse o som da sirene da f\u00e1brica. Tem 31 anos e est\u00e1 envelhecendo precocemente<sup><sup>8<\/sup><\/sup>, trabalha na BAN h\u00e1 15 anos, tem \u00falcera, o que faz com que no hor\u00e1rio de almo\u00e7o n\u00e3o coma nada, fuma compulsivamente, e no passado quando trabalhava em uma f\u00e1brica de tintas, teve duas intoxica\u00e7\u00f5es por tinta.<\/p>\n<p>Os conflitos familiares de Lulu ocorrem tamb\u00e9m com seu filho Armando, que chama de pai o atual marido de sua ex-mulher, um colega de trabalho ligado ao sindicato. Em rela\u00e7\u00e3o ao seu enteado, filho de sua atual mulher, Lulu demonstra certo grau de afeto, trata-o como se fosse seu filho, apesar da rivalidade futebol\u00edstica entre os dois, e mesmo com alguns tapas que lhe d\u00e1 esporadicamente (para Lulu, isto \u00e9 normal). Enche o enteado de presentes que ocupam boa parte do pequeno apartamento em que os tr\u00eas moram, ali\u00e1s, o consumismo \u00e9 outro aspecto importante do filme. Lulu gasta o dinheiro que ganha na f\u00e1brica em sup\u00e9rfluos, na verdade, trabalha demais, e o resultado de seu trabalho \u00e9 utilizado para satisfazer os desejos consumistas de sua mulher. Tem uma sala de visitas na casa de Lulu em que ele \u00e9 proibido de ver televis\u00e3o ou mesmo frequentar, sob o argumento de que ele \u201cvai desarrumar\u201d.<\/p>\n<p>Um aspecto que chama a aten\u00e7\u00e3o no comportamento de Lulu \u00e9 sua obsess\u00e3o com a ordem das coisas. Massa insiste, por exemplo, em alinhar perfeitamente os talheres em cima da mesa, o vidro de pimenta tem estar sempre de p\u00e9, etc. Quando Lulu visita Militina no hosp\u00edcio, pergunta a este como foi que ele percebeu que estava ficando louco, para desespero de Lulu, os primeiros sintomas de loucura de Militina eram iguais aos seus, talheres alinhados \u201ccomo soldados\u201d. Quando Militina estava na mesa, achava que ainda estava na f\u00e1brica, assim como Lulu que a todo instante age como se ainda estivesse trabalhando, se algo de novo n\u00e3o acontecer na sua vida, Lulu ter\u00e1 o mesmo fim de Militina, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que este se despede de Lulu desejando boa perman\u00eancia, como se o louco fosse o visitante, e ele, Militina, fosse embora do hosp\u00edcio.<\/p>\n<p>O momento mais impressionante do filme \u00e9 quando Lulu pergunta a Militina porque o internaram. Militina fez a pergunta que muitos trabalhadores gostariam de fazer: \u201cO que produzimos na f\u00e1brica?\u201d, ao ver que Lulu tem dificuldade em responder o que passa anos de sua vida a produzir, Militina afirma: \u201cUm homem tem o direito de saber o que fabrica, para que serve. Sim ou n\u00e3o?\u201d. A partir da\u00ed ficamos sabendo que Militina foi internado porque tentou estrangular o diretor da empresa que n\u00e3o respondeu a sua pegunta<sup><sup>9<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Militina questiona a f\u00e1brica, a sociedade moderna, o pr\u00f3prio capitalismo, para ele, tudo isto \u00e9 um inferno, assim como o hosp\u00edcio. A loucura seria uma decorr\u00eancia natural da sociedade moderna, em que o indiv\u00edduo acaba sendo destru\u00eddo f\u00edsica e mentalmente, \u00e9 assim que o velho oper\u00e1rio descreve a loucura: \u201co c\u00e9rebro, aos poucos some, faz greve\u201d. Afinal, quem est\u00e1 mais fora da realidade, o alienado Lulu ou o louco Militina?<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a na vida de Lulu, que talvez seja a respons\u00e1vel por afast\u00e1-lo da loucura \u00e9 um acidente de trabalho. Para ele, parar a m\u00e1quina para retirar a pe\u00e7a pronta era perda de tempo e de dinheiro, pegando as pe\u00e7as em movimento se pouparia 3 segundos por pe\u00e7a. Ao discutir com um colega ao mesmo tempo em que trabalha se desconcentra e a m\u00e1quina decepa um dedo de sua m\u00e3o. A perda do dedo d\u00e1 uma virada na vida de Lulu. Os conflitos entre as duas for\u00e7as pol\u00edticas que disputam o operariado da BAN, os sindicalistas e os estudantes, refletem as diverg\u00eancias no seio da esquerda italiana da \u00e9poca.<\/p>\n<p>O discurso ultra-esquerdista dos estudantes, filhos de classe m\u00e9dia sem v\u00ednculo formal algum com o mundo do trabalho, assume ares de \u201crevolu\u00e7\u00e3o j\u00e1!\u201d com a palavra de ordem: \u201ctudo hoje e nada amanh\u00e3\u201d. Defendem os chamados \u201ccomit\u00eas unit\u00e1rios de base\u201d, que formaria a \u201calian\u00e7a revolucion\u00e1ria entre oper\u00e1rios e estudantes\u201d. Os estudantes consideram que os oper\u00e1rios devem ignorar os sindicatos, considerados reformistas, acham que os trabalhadores n\u00e3o devem fazer acordo algum e sim abolir de vez o sistema de metas de produ\u00e7\u00e3o: \u201ca f\u00e1brica \u00e9 uma pris\u00e3o, deve-se fugir dela ou arrebentar tudo\u201d<sup><sup>10<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>O grupo dos sindicalistas (s\u00e3o tr\u00eas sindicatos que comp\u00f5e a base da BAN, atuando em relativa unidade sob a hegemonia dos comunistas), tidos como reformistas pelos estudantes. Defendem a negocia\u00e7\u00e3o do sistema de metas, j\u00e1 que sua simples exclus\u00e3o seria imposs\u00edvel, e acima de tudo, buscam a unidade sindical dos trabalhadores. Os sindicalistas op\u00f5e-se aos estudantes por verem neles um grupo divisionista que defende a \u201cquebra da unidade\u201d dos sindicalistas. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que um deles a todo instante pergunta: \u201cQuem \u00e9 que paga esses caras?\u201d, \u201cquem mandou esses a\u00ed?\u201d.<\/p>\n<p>O acidente com o dedo de Lulu \u00e9 mais uma centelha no conflito contra os patr\u00f5es e entre sindicalistas e estudantes. O acidente \u00e9 atribu\u00eddo ao ritmo de trabalho fora do normal em que os trabalhadores da f\u00e1brica eram submetidos, em que \u201cos patr\u00f5es cortam o tempo livre dos oper\u00e1rios e este cortam os dedos\u201d. A revolta dos colegas ocorre no momento do acidente, resultando da suspens\u00e3o de seis oper\u00e1rios. Quanto a esta revolta os sindicalistas dizem: \u201cSe os patr\u00f5es n\u00e3o sustarem a suspens\u00e3o dos seis oper\u00e1rios, os sindicatos devem decretar a greve. N\u00e3o aceitem provoca\u00e7\u00f5es\u201d. Em resposta os estudantes dizem: \u201c\u00c0 viol\u00eancia patronal se responde com a viol\u00eancia do operariado\u201d.<\/p>\n<p>Lulu, como \u201ccrist\u00e3o novo\u201d no meio dos conflitos de classe, assume o lado mais esquerdista, o dos estudantes. Participa de uma assembleia pela primeira vez, e repetindo o discurso dos estudantes, afirma que os oper\u00e1rios chegam \u00e0 f\u00e1brica antes do sol nascer e saem depois do sol se por: \u201cIsso \u00e9 vida? Podemos ficar trabalhando at\u00e9 a morte, sem parar, e assim, deste inferno passamos para o outro, que \u00e9 a mesma coisa\u201d.<\/p>\n<p>A assembleia decide que os oper\u00e1rios diminuam em duas horas por dia a jornada em protesto, Lulu passa por cima da decis\u00e3o da assembleia e prop\u00f5e \u201cgreve j\u00e1!\u201d. A unidade do movimento est\u00e1 quebrada, o ultra-esquerdismo falou mais alto. Os estudantes com a proposta de greve imediata for\u00e7am um conflito violento com a pol\u00edcia, em que Lulu, at\u00e9 ent\u00e3o um fura-greve, tem uma atua\u00e7\u00e3o decisiva, inclusive se jogando em cima do carro de um dirigente da BAN. A repress\u00e3o da pol\u00edcia \u00e9 brutal, e Lulu leva seus novos amigos, os estudantes, para sua casa.<\/p>\n<p>O conflito com a mulher estando a casa recheada de estudantes esquerdistas era iminente. A faceta consumista da mulher de Lulu entra logo em choque com o seu discurso atual bem como dos seus novos companheiros. De forma hil\u00e1ria ela afirma ser contra o comunismo e que um dia vai ter um casaco de peles. A mulher vai embora levando o enteado, e os estudantes com medo que ela chamasse a pol\u00edcia tamb\u00e9m desaparecem.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o que Lulu paga por sua nova faceta politizada \u00e9 alto. \u00c9 demitido da f\u00e1brica. Procura os estudantes para perguntar o que fazer, no entanto, para eles a f\u00e1brica \u00e9 coisa do passado. Mudaram o foco de atua\u00e7\u00e3o da porta da f\u00e1brica para a ocupa\u00e7\u00e3o de uma universidade onde temporariamente \u201cassumiram o poder\u201d e residem. Lulu se d\u00e1 conta que o apoio aos estudantes foi um erro, mostra finalmente um sinal de amadurecimento pol\u00edtico quando percebe que os estudantes n\u00e3o devem dizer aos oper\u00e1rios o que eles devem fazer: \u201cum oper\u00e1rio tem de pensar por si\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Depois de todo o conflito, Lulu \u00e9 outra pessoa. Finalmente ele acordou para a realidade do mundo que o cerca, e brilhantemente, o filme de Petri remete \u00e0 teoria do valor-trabalho de Marx<sup><sup>11<\/sup><\/sup> em seu final, quando Lulu ao analisar as mercadorias in\u00fateis que comprou por muitos anos de trabalho faz a conta de quantas horas de trabalho dedicou a cada objeto: \u201cEst\u00e1tua, 2 dias de trabalho; mesinha dourada, 30 horas de trabalho; quadro de palha\u00e7o, 10 horas de trabalho, se pego quem teve a ideia de fazer essas coisas\u2026\u201d.<\/p>\n<p>Se o divisionismo proposto pelos estudantes resultou t\u00e3o somente no desemprego de Lulu, os sindicalistas invadem sua casa dizendo que o sindicato conseguiu negociar sua readmiss\u00e3o na empresa e finalmente regulamentar o sistema de metas de produ\u00e7\u00e3o. Enfim, uma dupla vit\u00f3ria dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A \u00faltima cena mostra Lulu conversando com seus colegas durante o trabalho, ele n\u00e3o \u00e9 mais um homem-m\u00e1quina, se humanizou, canta, conversa, brinca, trabalha, dorme e sonha. Compartilha com os demais o sonho que teve em que um dia os oper\u00e1rios derrubar\u00e3o o muro que os aprisiona na BAN, a f\u00e1brica que na verdade produz muito mais do que pe\u00e7as que eles na verdade n\u00e3o sabem sua serventia, produz acima de tudo, trabalho alienado. A queda do muro da f\u00e1brica possibilita a todos trabalhadores sair do inferno capitalista e construir o para\u00edso. Assim como Lulu e tantos outros, continuamos sonhando com este dia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>BIBLOGRAFIA CONSULTADA<\/p>\n<p>BOFFI, Antonio. A quem o terrorismo favorece. <em>Problemas<\/em> \u2013 Publica\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e informativa, S\u00e3o Paulo, n\u00ba 2, jul\/ago\/set 1982, p. 107-113.<\/p>\n<p>BRAVERMAN, Harry. <em>Trabalho e capital monopolista <\/em>\u2013 a degrada\u00e7\u00e3o do trabalho no s\u00e9culo XX. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. 379 p.<\/p>\n<p>DEL ROIO, Jos\u00e9 Luiz. <em>Enrico Berlinguer e a evolu\u00e7\u00e3o do PCI<\/em>. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Novos Rumos, 1986. 113 p.<\/p>\n<p>ENGELS, Friedrich. Sobre o papel do trabalho na transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. <em>Obras Escolhidas<\/em> \u2013 vol. 2. S\u00e3o Paulo: Alfa-Omega, s\/d. p. 267-280.<\/p>\n<p>GUBER, A. A. (org.). <em>Historia universal<\/em> \u2013 vol. II. Mosc\u00fa: Editorial Progreso, 1976. 449 p.<\/p>\n<p>MARX, Karl. <em>O capital<\/em> \u2013 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica \u2013 vol. I, tomo 2. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1984. 306 p.<\/p>\n<p>MARX, Karl. <em>O capital<\/em> \u2013 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica \u2013 vol. I, tomo 1. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983. 301 p.<\/p>\n<p>MARX, Karl. <em>Cap\u00edtulo VI in\u00e9dito de O capital<\/em> \u2013 resultados do processo de produ\u00e7\u00e3o imediata. S\u00e3o Paulo: Moraes, 1985. 169 p.<\/p>\n<p>1. Professor Associado do Departamento de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFSM, Doutor em Economia Social e do Trabalho pela Unicamp.<\/p>\n<p>2. Guber (1976, p. 369).<\/p>\n<p>3. Sobre os conceitos de subsun\u00e7\u00e3o formal e subsun\u00e7\u00e3o real, ver Marx (1985) em \u201cCap\u00edtulo VI in\u00e9dito\u201d, sobre a rela\u00e7\u00e3o do homem com a m\u00e1quina, ver Marx (1984) e Braverman (1987).<\/p>\n<p>4. O filme recebeu a Palme de Ouro em Cannes em 1972.<\/p>\n<p>5. Entre os quais podem ser destacados \u201cInvestiga\u00e7\u00e3o sobre um cidad\u00e3o acima de qualquer suspeita\u201d (1970), \u201cSacco e Vanzetti\u201d (1971), \u201cGiordano Gruno\u201d (1973), \u201cO caso Aldo Moro\u201d (1988).<\/p>\n<p>6. Na \u00e9poca da ditadura militar no Brasil era anualmente distribu\u00eddo o pr\u00eamio \u201coper\u00e1rio-padr\u00e3o\u201d pelas entidades patronais ao trabalhador mais ass\u00edduo, que n\u00e3o fazia greve e que n\u00e3o reivindicava melhores sal\u00e1rios, ou seja, o \u201coper\u00e1rio-padr\u00e3o\u201d era o trabalhador dos sonhos de todo patr\u00e3o, o exemplo que deveria ser seguido por todos os demais. Sobre esta tem\u00e1tica, o filme brasileiro \u201cO homem que virou suco\u201d de Jo\u00e3o Batista de Andrade de 1979, com muita sensibilidade aborda os reais sentimentos de \u00f3dio que um \u201coper\u00e1rio-padr\u00e3o\u201d nutria por seu patr\u00e3o, em que na cerim\u00f4nia de sua premia\u00e7\u00e3o aproveita para assassin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>7. Para Engels (s\/d), o que diferencia as atividades do homem da dos animais \u00e9 exatamente que o homem n\u00e3o age instintivamente como os animais. Os homens projetam inicialmente, no seu c\u00e9rebro o que v\u00e3o executar. O ir\u00f4nico \u00e9 que com o aumento da divis\u00e3o do trabalho e da mecaniza\u00e7\u00e3o, cada vez mais o trabalho fica desprovido de atributos intelectuais, aos poucos as atividades v\u00e3o tornando-se t\u00e3o simplificadas que os oper\u00e1rios agem quase mecanicamente.<\/p>\n<p>8. O ator Gian Maria Volont\u00e9 que na \u00e9poca do filme beirava os 40 anos, coincidentemente morreu em 1994 de uma doen\u00e7a degenerativa que o envelheceu precocemente.<\/p>\n<p>9. Na sociedade capitalista, os of\u00edcios s\u00e3o destru\u00eddos, onde antes um indiv\u00edduo produzia toda uma mercadoria, agora ele somente produz uma parte, o oper\u00e1rio perde a vis\u00e3o do todo, n\u00e3o tem no\u00e7\u00e3o do quanto seu trabalho vale, nem tampouco do que produz: \u201cDo produto individual de um art\u00edfice aut\u00f4nomo, que faz muitas coisas, a mercadoria transforma-se no produto social de uma uni\u00e3o de art\u00edfices, cada um dos quais realiza ininterruptamente uma mesma tarefa parcial (Marx, 1983, p. 268).<\/p>\n<p>10. Muitos militantes italianos acabaram enveredando para o grupo ultra-esquerdista \u201cBrigadas Vermelhas\u201d nos anos 70, respons\u00e1vel pelo assassinato mesmo de militantes sindicais e comunistas, taxados de \u201cinimigos do povo\u201d (Boffi, 1982, p. 108). O PCI que ser\u00e1 um dos mentores juntamente com o Partido Comunista Franc\u00eas (PCF) e do Partido Comunista Espanhol (PCE) do chamado \u201ceurocomunismo\u201d, opunha-se firmemente ao chamado \u201cterrorismo vermelho\u201d das Brigadas Vermelhas, vendo-os como obst\u00e1culos ao desenvolvimento da democracia e do pr\u00f3prio potencial revolucion\u00e1rio da luta da classe oper\u00e1ria (Del Roio, 1986, p. 81).<\/p>\n<p>11. A teoria do valor de Marx consiste de que as mercadorias possuem valor porque s\u00e3o produto de trabalho, e o seu valor \u00e9 determinado pelo tempo de trabalho despendido em sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: t0.gstatic.com\n\n\n\n\n\n\n\n\nS\u00e9rgio Prieb1\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1267\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1267","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-kr","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1267","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1267"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1267\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}