{"id":12833,"date":"2016-12-04T11:28:45","date_gmt":"2016-12-04T14:28:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12833"},"modified":"2016-12-18T02:23:39","modified_gmt":"2016-12-18T05:23:39","slug":"como-nos-tempos-do-declinio-de-roma-entrevista-com-o-economista-marxista-jorge-beinstein","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12833","title":{"rendered":"&#8220;Como nos tempos do decl\u00ednio de Roma&#8230;&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/\/images\/ihu\/2016\/11\/09_11_roma_ruangan_rafael_wikipedia.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><strong>Entrevista com o economista marxista Jorge Beinstein<\/strong><\/p>\n<p>Pot\u00eancias ocidentais destroem na\u00e7\u00f5es e estabelecem apenas o caos. Parasitismo financeiro e desigualdade in\u00e9dita sufocam economia global. Vem a\u00ed um grande retrocesso civilizat\u00f3rio?<!--more--><\/p>\n<p>Renomado economista marxista, especialista em previs\u00e3o da economia global, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/554000-america-latina-em-tempos-de-lumpencapitalismo-ilusoes-progressistas-devoradas-pela-crise-\" target=\"_blank\">Jorge Beinstein<\/a> \u00e9 doutor em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas pela Universidade de Franche Comt\u00e9-Besan\u00e7on, Fran\u00e7a, e, atualmente, Professor Em\u00e9rito da Universidad Nacional de La Plata, <strong>Argentina<\/strong>, de onde dirige o Centro Internacional de Informa\u00e7\u00f5es Estrat\u00e9gicas e Estudos Prospectivos (<strong>CIIEP<\/strong>). Tem lecionado em importantes universidades na <strong>Europa<\/strong> e na <strong>Am\u00e9rica<\/strong> <strong>Latina<\/strong>, onde tamb\u00e9m dirigiu relevantes projetos de pesquisa. Seus livros mais recentes incluem: Comunismo o Nada, La Ilusi\u00f3n del Metacontrol Imperial del Caos: La Mutaci\u00f3n del Sistema Militar de los EUA, Capitalismo del Siglo XXI, e Cr\u00f3nica de la Decadencia: Econom\u00eda Global 1999-2009.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 de <strong>Arnaldo<\/strong> <strong>Perez Guerra,<\/strong> publicada por <strong>Outras<\/strong> <strong>Palavras<\/strong>, 08-11-2016. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de <strong>Marisa<\/strong> <strong>Choguill<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O que acontece na Argentina, ap\u00f3s a chegada de Macri no governo, e como voc\u00ea caracteriza suas decis\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Significou uma virada violenta para a <strong>extrema-direita<\/strong> do arco pol\u00edtico argentino. Em poucos dias, fizeram-se transfer\u00eancias de renda para as elites econ\u00f4micas que por sua magnitude e velocidade s\u00e3o sem precedentes na hist\u00f3ria econ\u00f4mica da <strong>Argentina<\/strong>. Isso est\u00e1 causado uma forte contra\u00e7\u00e3o do mercado interno e, portanto, a chegada da recess\u00e3o. O <strong>FMI<\/strong> previu no in\u00edcio do ano uma queda real do Produto Interno Bruto em 2016 na ordem de 1%, apesar de, vendo o que j\u00e1 acontecia no primeiro trimestre, pode-se falar de queda superior a 3%, muito al\u00e9m do que o governo anuncia para o futuro a partir de cifras manipuladas. Desde a chegada de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/556096-os-primeiros-seis-meses-do-governo-macri-a-maneira-de-berlusconi-ou-de-trump-entrevista-com-o-teologo-e-jornalista-anibal-sicardi\" target=\"_blank\">Macri<\/a>, houve um apag\u00e3o estat\u00edstico. Cifras oficiais de desemprego, infla\u00e7\u00e3o e outros indicadores n\u00e3o mais existem. N\u00e3o excluo a possibilidade de um tipo de hiper-recess\u00e3o se o governo n\u00e3o conseguir controlar a <strong>din\u00e2mica<\/strong> <strong>depressiva<\/strong> que gerou.<\/p>\n<p>Entre os especialistas, discutiu-se nos primeiros meses o que era realmente o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/556857-argentina-crise-economica-interna-e-flerte-com-o-capital-estrangeiro-entrevista-especial-com-washington-uranga\" target=\"_blank\">modelo econ\u00f4mico macrista<\/a>. As decis\u00f5es econ\u00f4micas t\u00eam sido t\u00e3o selvagens, as contradi\u00e7\u00f5es t\u00e3o evidentes, o desastre t\u00e3o grande que n\u00e3o podemos pensar que temos um plano estrat\u00e9gico coerente, apontando para uma <strong>reestrutura\u00e7\u00e3o<\/strong> <strong>capitalista<\/strong> de longo prazo, embora olig\u00e1rquica, mas sim que enfrentamos um saque onde cada grupo dominante leva sua fatia sem se importar com o que vai acontecer no futuro. N\u00f3s marchamos para uma <strong>crise<\/strong> <strong>de governan\u00e7a,<\/strong> impulsionada por for\u00e7as entr\u00f3picas que se desencadearam com o colapso do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/549652-depois-do-kirchnerismo\" target=\"_blank\">kirchnerismo<\/a>. As classes dominantes argentinas operam como uma esp\u00e9cie de <strong>lumpenburguesia<\/strong>, de burguesia predat\u00f3ria altamente destrutiva. O fen\u00f4meno \u00e9 parte de um processo global do mesmo tipo.<\/p>\n<p><strong>Vamos falar da \u201clumpenburguesia global dominante\u201d\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Ter\u00edamos que voltar \u00e0 d\u00e9cada de 70 quando, a partir da estagfla\u00e7\u00e3o, a recupera\u00e7\u00e3o ocorreu com taxas de crescimento econ\u00f4mico global declinantes. Essa tend\u00eancia de longo prazo foi acompanhada por uma expans\u00e3o dos neg\u00f3cios financeiros que acabou financeirizar o sistema mundial de tal forma que, desde 2008, a massa financeira mundo representa cerca de vinte vezes o Produto Bruto Global (<strong>PBG<\/strong>). Somente os derivados financeiros ascenderam a cerca de 11 vezes o PBG. O fen\u00f4meno \u00e9 parte de um processo mais amplo de ascens\u00e3o do parasitismo como componente hegem\u00f4nico do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/170-noticias-2014\/533025-capitalismo-violencia-e-decadencia-sistemica\" target=\"_blank\">sistema capitalista mundial<\/a> que, claro, tamb\u00e9m inclui a hipertrofia militar, a narco-economia, o consumo consp\u00edcuo das elites globais, sua plataforma produtivo-comunicacional, etc. \u00c9 um fen\u00f4meno originado quase meio s\u00e9culo atr\u00e1s mas que, no s\u00e9culo 21, se manifesta como uma muta\u00e7\u00e3o integral do sistema, como a transforma\u00e7\u00e3o de seu n\u00facleo central dominante em uma casta parasita. Neste sentido, \u00e9 poss\u00edvel estabelecer paralelos com outros <strong>decl\u00ednios<\/strong> <strong>civilizat\u00f3rios<\/strong> como por exemplo o do Imp\u00e9rio Romano, a fase superior e final da chamada civiliza\u00e7\u00e3o greco-romana.<\/p>\n<p>A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/?id=554853:origen-y-auge-de-las-lumpenburguesias-latinoamericanas-ihuadital\" target=\"_blank\">lumpenburguesia <\/a>\u2013 hoje dominante globalmente e tendo como centro o imp\u00e9rio estadunidense \u2013, ou seja, uma burguesia degenerada, parasit\u00e1ria, marca um salto qualitativo na trajet\u00f3ria universal do capitalismo, bem como a aristocracia militar-consumista durante a decad\u00eancia imperial foi resultado da muta\u00e7\u00e3o terminal de Roma.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea aponta para uma crise da financeiriza\u00e7\u00e3o da economia mundial e para o fato de que o imperialismo apresenta como \u00faltimo recurso a \u201d Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o\u201d: destruir as sociedades perif\u00e9ricas para convert\u00ea-las em \u00e1reas de saque. Voc\u00ea pode explicar isso e expandir a sua vis\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/551683-licoes-da-crise-de-2008-e-2009\" target=\"_blank\">crise de 2008<\/a> marcou o fim da expans\u00e3o acelerada da trama global financeira \u2013 era um tipo de droga que permitiu o endividamento de Estados, empresas e consumidores do capitalismo central; mas, esse ciclo de endividamento impune atingiu o limite, o estouro da <strong>mega-bolha imobili\u00e1ria<\/strong> foi o ponto de virada do sistema.<br \/>\nEnt\u00e3o, os Estados imperialistas fizeram enormes transfer\u00eancias de fundos para os grupos financeiros evitando, com sucesso, seu colapso. Mas, isso n\u00e3o foi mais do que um remendo, n\u00e3o a supera\u00e7\u00e3o da crise.<\/p>\n<p>Em 2001, por exemplo, os neg\u00f3cios com produtos financeiros derivados, a espinha dorsal da rede global especulativa, acumularam uns 95 trilh\u00f5es de d\u00f3lares, equivalente a 2,8 vezes o <strong>PBG<\/strong>. Em 2005, chegaram a aproximadamente 280 trilh\u00f5es (cerca de 6 vezes o PBG). E, em meados de 2008, pouco antes da crise, atingiram aproximadamente 680 trilh\u00f5es (11 vezes o PBG). Foi um crescimento exponencial; mas, a partir desse momento, essa massa especulativa deixou de se expandir, tornou-se inst\u00e1vel, e desde 2014 come\u00e7ou a desinflar rapidamente. Entre o final de dezembro de 2013 e o final de dezembro de 2015, a contra\u00e7\u00e3o foi da ordem de 30%. Em 24 meses, desvaneceram-se cerca de 220 trilh\u00f5es de dolares, equivalente a quase tr\u00eas vezes o PBG!<\/p>\n<p>At\u00e9 a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/16984-o-efeito-domino-da-crise-financeira-internacional-entrevista-especial-com-marcio-pochmann\" target=\"_blank\">crise de 2008<\/a>, a expans\u00e3o financeira operou como uma esp\u00e9cie de <strong>impulsor<\/strong> <strong>inflacion\u00e1rio<\/strong> da economia mundial. Mas, a partir de 2014, a contra\u00e7\u00e3o financeira funciona como um motor deflacion\u00e1rio que empurra para baixo a economia. Dito de outra forma: numa primeira fase, desenrolou-se um c\u00edrculo aparentemente virtuoso (na verdade, perverso), onde o aumento das d\u00edvidas e os ganhos especulativos inflaram o consumo dos pa\u00edses ricos, seus gastos estatais (especialmente os gastos militares), suas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, suas atividades produtivas, o que por sua vez alimentou a especula\u00e7\u00e3o financeira. Mas, o funcionamento de tal mecanismo produziu finalmente um c\u00edrculo vicioso depressivo onde a <strong>sobrecarga<\/strong> <strong>financeira<\/strong> comprime a economia que, por sua vez, prejudica e desinfla a especula\u00e7\u00e3o. Estamos perante o decl\u00ednio turbulento de um ciclo parasita, a mais grave crise da hist\u00f3ria do capitalismo.<\/p>\n<p>Se olharmos para o que aconteceu com outras civiliza\u00e7\u00f5es, volto ao caso romano, verificaremos que, quando a perda da din\u00e2mica atinge um determinado ponto, a elite governante tenta aproveitar ao m\u00e1ximo seu \u00faltimo recurso: a for\u00e7a militar. Em nossa <strong>civiliza\u00e7\u00e3o<\/strong> <strong>burguesa<\/strong>, o Imp\u00e9rio \u2013 <strong>EUA<\/strong> e seus aliados vassalos ocidentais \u2013 tenta saquear o resto do mundo para adiar sua queda. O objetivo \u00e9 apoderar-se e esgotar os recursos naturais da periferia, marginalizar completamente seus habitantes ou super-explor\u00e1-los, conforme o caso. Trata-se de um megaprojeto estrat\u00e9gico tendente a reduzir drasticamente seus custos perif\u00e9ricos (m\u00e3o de obra, insumos agr\u00edcolas e de minera\u00e7\u00e3o, etc.). <strong>L\u00edbia<\/strong>, <strong>Iraque<\/strong>, <strong>Ucr\u00e2nia<\/strong>, <strong>Afeganist\u00e3o<\/strong> e <strong>S\u00edria<\/strong>\u2026 nos mostrem o <strong>Imp\u00e9rio destruindo sociedades<\/strong> mas sem ser capaz de substituir o que foi destru\u00eddo por uma nova ordem colonial,. O que se instala \u00e9 o caos porque o que emerge n\u00e3o \u00e9 uma nova divis\u00e3o internacional do trabalho mas, sim, a decad\u00eancia global. A crise do Imp\u00e9rio enfatizou sua loucura belicista que, por sua vez, agrava a crise.<\/p>\n<p><strong>Os \u201cprogressismos\u201d da Am\u00e9rica Latina parecem desgastados. Qual a sua opini\u00e3o sobre o que est\u00e1 acontecendo em Honduras, Paraguai, Bol\u00edvia, Equador e Venezuela, a queda do kirchnerismo, as negocia\u00e7\u00f5es para a paz na Col\u00f4mbia, e \u201cnormaliza\u00e7\u00e3o\u201d das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre Cuba e os Estados Unidos?<\/strong><\/p>\n<p>Os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/559926-governos-progressistas-na-america-latina-notas-sobre-o-fim-de-um-ciclo\" target=\"_blank\">progressismos latino-americanos<\/a> \u2013 desde suas vers\u00f5es mais conservadoras como a <strong>Frente Ampla do Uruguai<\/strong> at\u00e9 a mais radical como a da <strong>Venezuela<\/strong> \u2013 tentaram <strong>reformar o sistema capitalista<\/strong> existente, em alguns casos para humaniz\u00e1-lo, melhor\u00e1-lo socialmente, e em outros para super\u00e1-lo gradualmente \u2013, n\u00e3o deram origem a revolu\u00e7\u00f5es sen\u00e3o a reformas mais ou menos audazes. Essas experi\u00eancias puderam se aproveitar da melhora ef\u00eamera do com\u00e9rcio internacional de mat\u00e9rias-primas, combinando-as quase sempre com a expans\u00e3o dos mercados internos, especialmente a expans\u00e3o do consumo popular. Eles tamb\u00e9m aproveitaram o retrocesso geopol\u00edtico do Imp\u00e9rio para construir pol\u00edticas relativamente aut\u00f4nomas. Mas, isso se foi <strong>esgotando<\/strong> com o aprofundamento da <strong>crise global de 2008<\/strong> e especialmente desde 2014, quando os pre\u00e7os das mat\u00e9rias primas ca\u00edram, \u00e0 qual foi adicionada uma ofensiva muito forte dos EUA, retomando seu quintal latino-americano. Isso come\u00e7ou desde a chegada de <strong>Obama<\/strong> \u00e0 Casa Branca com a implanta\u00e7\u00e3o de uma complexa e flex\u00edvel gama de interven\u00e7\u00f5es, de \u2018choques suaves\u2019 como no <strong>Brasil<\/strong>, <strong>Honduras<\/strong>, <strong>Paraguai<\/strong> e <strong>Argentina<\/strong>, at\u00e9 a\u00e7\u00f5es desestabilizadoras como ocorre na <strong>Venezuela<\/strong>, passando pelo \u2018abra\u00e7o de urso\u2019 em <strong>Cuba<\/strong> e seguindo o plano de desarmamento da guerrilha colombiana. Neste \u00faltimo caso, os <strong>EUA<\/strong> tentam alcan\u00e7ar a rendi\u00e7\u00e3o negociada da insurg\u00eancia atrav\u00e9s de uma sofisticada trama envolvente de press\u00f5es diretas e indiretas, armadilhas sedutoras e golpes baixos. \u00c9 um jogo t\u00edpico da chamada <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/554675-na-guerra-de-quarta-geracao-o-inimigo-somos-nos\" target=\"_blank\">Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o <\/a>destinada a submeter a insurg\u00eancia a din\u00e2mica aparentemente de assimila\u00e7\u00e3o ao sistema, mas, na verdade, de destrui\u00e7\u00e3o, come\u00e7ando pelos seus fundamentos ideol\u00f3gicos revolucion\u00e1rios at\u00e9 sua extin\u00e7\u00e3o estrutural.<\/p>\n<p>Em sua ofensiva contra o progressismo, os <strong>EUA<\/strong> contam com a colabora\u00e7\u00e3o das burguesias latino americanas plenamente transnacionalizadas. <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/554000-america-latina-em-tempos-de-lumpencapitalismo-ilusoes-progressistas-devoradas-pela-crise-\" target=\"_blank\">Lumpenburguesias <\/a>perif\u00e9ricas arrastando segmentos importantes das camadas m\u00e9dias.<\/p>\n<p><strong>As classes m\u00e9dias latino-americanas est\u00e3o se tornando de direita? Neo-fascismo? Contra-revolu\u00e7\u00e3o? O que tem contribu\u00eddo para que esse fen\u00f4meno ocorra?<\/strong><\/p>\n<p>O que pa\u00edses como <strong>Brasil<\/strong>, <strong>Argentina<\/strong>, <strong>Bol\u00edvia<\/strong> e <strong>Venezuela<\/strong> mostram, em sua primeira fase pr\u00f3spera, \u00e9 que a prosperidade e a governan\u00e7a do sistema n\u00e3o s\u00f3 ressuscitou a voracidade das elites locais, mas tamb\u00e9m \u2018<strong>aburguesou<\/strong>\u2019 as camadas m\u00e9dias ascendentes, ajudou sua integra\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica com a camada logo acima, predat\u00f3ria, <strong>lumpenburguesa<\/strong> do capitalismo, buscando ao mesmo tempo diferenciar-se das classes mais baixas, tamb\u00e9m ascendentes. A m\u00eddia [meios de comunica\u00e7\u00e3o] concentrada desempenhou um papel decisivo nesse processo injetando \u00f3dio social em um espa\u00e7o f\u00e9rtil para isso, associando a justi\u00e7a social com consumo, democratiza\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico com corrup\u00e7\u00e3o, etc. Este surto de irracionalidade pequeno-burguesa \u00e9 parte de um fen\u00f4meno mais amplo, global de fascistiza\u00e7\u00e3o, que abrange a <strong>Europa<\/strong> e inclui fen\u00f4menos tais como do chamado \u201c<strong>Estado Isl\u00e2mico<\/strong>\u201d no <strong>Oriente<\/strong> <strong>M\u00e9dio<\/strong>. Os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/542853-so-crise-economica-nao-explica-ascensao-da-extrema-direita-na-europa\" target=\"_blank\">neofascismos <\/a>centrais e perif\u00e9ricos aparecem como respostas reacion\u00e1rias \u00e0 crise, \u00e0s vezes produzindo contrarrevolu\u00e7\u00f5es \u2013 n\u00e3o porque tenha havido tentativas revolucion\u00e1rias reais; mas, precisamente, por causa da aus\u00eancia de revolu\u00e7\u00f5es antissistema capazes de superar a <strong>degrada\u00e7\u00e3o<\/strong> <strong>capitalista<\/strong>.<\/p>\n<p>Enfim, a instala\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/549815-america-do-sul-uma-guinada-a-direita-entrevista-especial-com-andre-bojikian-calixtre-\" target=\"_blank\">regimes reacion\u00e1rios<\/a>\u00a0n\u00e3o significa o in\u00edcio de uma nova governan\u00e7a de tipo colonial e elitista, mas a instala\u00e7\u00e3o de mecanismos de saque que aprofundam a crise. \u00c9 o que vemos em casos como os da <strong>Argentina<\/strong>, <strong>Brasil<\/strong> e <strong>Paraguai<\/strong> e no que poderia vir a ser uma vit\u00f3ria neofascista na <strong>Venezuela<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Os EUA ir\u00e3o atacar os BRICS?<\/strong><\/p>\n<p>Evidentemente que sim, e acabam de obter seu primeiro sucesso no <strong>Brasil<\/strong>. Mas, sua mega-estrat\u00e9gia global aponta contra a <strong>China<\/strong> e a <strong>R\u00fassia<\/strong>. Ambas as pot\u00eancias formaram uma parceria estrat\u00e9gica de longo alcance que est\u00e1 deslocando os <strong>EUA<\/strong> da <strong>\u00c1sia<\/strong>, estabelecendo pontes importantes com a <strong>\u00c1frica<\/strong> e a <strong>Am\u00e9rica<\/strong> <strong>Latina<\/strong>. A interven\u00e7\u00e3o da <strong>OTAN<\/strong> na <strong>L\u00edbia<\/strong> e no resto da \u00c1frica, bem como a ofensiva imperialista na Am\u00e9rica Latina pretendem, entre outras coisas, frear a crescente influ\u00eancia da China e da R\u00fassia. O problema do Imp\u00e9rio \u00e9 que ele n\u00e3o tem o que oferecer em troca do mercado chin\u00eas para pa\u00edses como Brasil ou Argentina; oferece apenas promessas de \u201cinvestimentos\u201d enquanto realiza ou procura realizar saques.<\/p>\n<p><strong>Os EUA est\u00e3o tentando apoderar-se das reservas mundiais de petr\u00f3leo e de g\u00e1s do Afeganist\u00e3o, Iraque, S\u00edria, L\u00edbia, Ucr\u00e2nia, I\u00eamen\u2026 e Venezuela?<\/strong><\/p>\n<p>Um dos temas-chave da disputa geopol\u00edtica da <strong>Eur\u00e1sia<\/strong> \u00e9 o da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/553038-o-brasil-no-epicentro-da-guerra-hibrida\" target=\"_blank\">guerra energ\u00e9tica<\/a> onde as reservas de petr\u00f3leo e g\u00e1s ocupam uma posi\u00e7\u00e3o central; o controle dessas reservas mas tamb\u00e9m de seu transporte: gasodutos e oleodutos, canais, estreitos e outras posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas. Por exemplo, na <strong>\u00c1sia<\/strong> e especialmente na \u00e1rea do <strong>Golfo<\/strong> <strong>P\u00e9rsico<\/strong> e da bacia do mar <strong>C\u00e1spio<\/strong>, localizam-se mais de 65% das reservas de petr\u00f3leo globais. Essa luta estende-se desde a <strong>\u00c1frica<\/strong>, na <strong>Nig\u00e9ria<\/strong> e em <strong>Angola<\/strong>, at\u00e9 a <strong>Am\u00e9rica<\/strong> <strong>Latina<\/strong>, onde a <strong>Venezuela<\/strong> ocupa um lugar crucial com 20% das reservas mundiais de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Embora o pre\u00e7o do petr\u00f3leo esteja hoje muito baixo, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a produ\u00e7\u00e3o global de petr\u00f3leo convencional est\u00e1 estagnada h\u00e1 quase uma d\u00e9cada. O surgimento do petr\u00f3leo de xisto betuminoso nos <strong>EUA<\/strong> expandiu o volume extra\u00eddo; mas, trata-se de recursos limitados que em poucos anos \u2013 no in\u00edcio da pr\u00f3xima d\u00e9cada \u2013 v\u00e3o atingir seu pico e come\u00e7ar a declinar. Obviamente, o dom\u00ednio das principais fontes de energia permitiriam aos EUA colocar um p\u00e9 no pesco\u00e7o da <strong>China<\/strong> e outro na <strong>Europa<\/strong> e fazer o jogo do gato e do rato com o concorrente russo, levantando e baixando os pre\u00e7os segundo a sua vontade. Mas os EUA n\u00e3o est\u00e3o ganhando essa guerra: n\u00e3o puderam subjugar a <strong>Ir\u00e3<\/strong>, grande exportador de energia, n\u00e3o puderam desestabilizar a <strong>R\u00fassia<\/strong>, outro grande produtor, dando origem \u00e0 converg\u00eancia russo-chinesa, e at\u00e9 agora n\u00e3o conseguiram subjugar a <strong>Venezuela<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea acha que acontecer\u00e1 com a China e a R\u00fassia nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas?<\/strong><\/p>\n<p>Tanto a <strong>China<\/strong> quanto a <strong>R\u00fassia<\/strong> poderiam emergir como grandes pot\u00eancias, aproveitando-se do \u00faltimo grande boom da economia capitalista global. A R\u00fassia como pot\u00eancia militar-energ\u00e9tica e a China como pot\u00eancia industrial. Em ambos os casos, as exporta\u00e7\u00f5es para os pa\u00edses ricos foram os motores da prosperidade. Mas, esta fase global est\u00e1 acabada. Os mercados desenvolvidos est\u00e3o se comprimindo e os <strong>EUA<\/strong> \u2013 liderando a <strong>OTAN<\/strong> \u2013 perseguem essas na\u00e7\u00f5es emergentes. Tentam capturar grandes reservas de mat\u00e9rias-primas e quebrar o poder militar, no caso russo, e no caso chin\u00eas tentando escravizar a maior <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/560234-escravos-do-sistema-o-lucrativo-negocio-de-exportacao-de-trabalhadores-na-coreia-do-norte\" target=\"_blank\">classe trabalhadora<\/a> industrial do planeta \u2013 250 milh\u00f5es de trabalhadores \u2013 e subordinar t\u00e3o tem\u00edvel concorrente financeiro e industrial, mas, tamb\u00e9m, tecnol\u00f3gico, e com cada vez maior capacidade militar. Liquidar a parceria estrat\u00e9gica russo-chinesa \u00e9 o grande objetivo do Ocidente.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, os <strong>capitalismos russo e chin\u00eas<\/strong> n\u00e3o est\u00e3o fora da crise mundial; eles fazem parte da mesma, s\u00e3o afetados pela sua turbul\u00eancia, suas contra\u00e7\u00f5es comerciais. Eles est\u00e3o procurando se desapegar parcialmente do decl\u00ednio global entrincheirando-se no espa\u00e7o euroasi\u00e1tico. O projeto da Nova Rota da Seda, uma gigantesca rede de transporte mar\u00edtimo e terrestre unindo os pa\u00edses da regi\u00e3o, constitui-se em uma de suas maiores esperan\u00e7as. O que mostra a realidade \u00e9 que eles n\u00e3o podem escapar da desordem global. Apesar de essas duas na\u00e7\u00f5es terem encenado, no s\u00e9culo 20, as duas maiores tentativas de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/550516-para-superar-o-capitalismo-sistema-de-morte-i\" target=\"_blank\">superar o capitalismo<\/a>. A inviabilidade hist\u00f3rica do nacionalismo burgu\u00eas na era do capitalismo globalizado, ainda que se trate de grandes pa\u00edses, abre a possibilidade de se tentar novamente tomar o c\u00e9u de assalto [ao analisar a Comuna de Paris (1871), <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/507558-marx-esta-mais-vivo-e-atual-do-que-nunca\" target=\"_blank\">Marx <\/a>escreveu que os insurgentes, pela ousadia e determina\u00e7\u00e3o de seus objetivos e a\u00e7\u00f5es, teriam \u201ctomado o c\u00e9u de assalto\u201d \u2013 NT]<\/p>\n<p><strong>Qual a sua opini\u00e3o sobre o Chile? Vivemos a doutrina do choque imposta pela ditadura, pelo neoliberalismo selvagem, pelo extrativismo e endividamento, pela despolitiza\u00e7\u00e3o\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Acho que o <strong>Chile<\/strong> nunca foi capaz de superar a trag\u00e9dia de 11 de setembro [de 1973, quando um golpe de Estado sangrento derrubou <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/559962-relembre-como-foi-o-ultimo-discurso-de-salvador-allende\" target=\"_blank\">Salvador Allende<\/a>]. A ditadura remodelou a sociedade chilena. N\u00e3o \u00e9 o \u00fanico caso; tamb\u00e9m na Argentina, a ditadura militar instalada em 1976 produziu degrada\u00e7\u00f5es culturais e estruturais que sobreviveram at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Depois de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/560942-pinochet-o-governante-mais-violento-e-criminoso-da-historia-do-chile\" target=\"_blank\">Pinochet<\/a>, voc\u00eas se tornaram uma esp\u00e9cie de democracia limitada, comprimida pelo <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/553606-o-impeachment-e-o-realinhamento-neoliberal-na-america-latina\" target=\"_blank\">modelo neoliberal<\/a> que pode ser instalado e jogado como parte de uma divis\u00e3o (colonial) internacional do trabalho, de uma economia global hegemonizada pelos <strong>Estados<\/strong> <strong>Unidos<\/strong>, mas que agora est\u00e1 se deteriorando rapidamente. Caem os pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas sem perspectivas de recupera\u00e7\u00e3o significativa e duradoura, afetando decisivamente o modelo neoliberal chileno.<\/p>\n<p>A <strong>burguesia chilena<\/strong> acreditava que aquele massacre pinochetista e suas extens\u00f5es econ\u00f4micas e culturais \u201cdemocr\u00e1ticas\u201d extirpariam completamente a mem\u00f3ria hist\u00f3rica popular, bloqueariam para sempre o surgimento de alternativas antissistema. Essa \u00e9 a a eterna ilus\u00e3o dos <strong>contrarrevolucion\u00e1rios<\/strong>, sempre desmentida pela realidade. A <strong>Am\u00e9rica<\/strong> <strong>Latina<\/strong> est\u00e1 atualmente vivendo uma <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/554518-em-epoca-de-trevas-censura-ressurge-e-volta-a-ameacar-o-pais\" target=\"_blank\">\u00e9poca de trevas<\/a>, de investidas da direita; mas, tamb\u00e9m da decad\u00eancia capitalista. O que ent\u00e3o parecia imposs\u00edvel \u2013 as aspira\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias \u2013, pode reaparecer. As lat\u00eancias [\u2018rea\u00e7\u00f5es\u2019 que est\u00e3o latentes, veladas, reprimidas \u2013 NT], as mem\u00f3rias subterr\u00e2neas que se reproduzem invisivelmente podem convergir com novas formas de cr\u00edtica te\u00f3rica e luta pr\u00e1tica at\u00e9 formar uma avalanche social. Tal possibilidade n\u00e3o deve ser descartada, mas bastante encorajada. A evolu\u00e7\u00e3o da crise global e regional abre esta perspectiva\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/562144-como-nos-tempos-do-declinio-de-roma<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Entrevista com o economista marxista Jorge Beinstein Pot\u00eancias ocidentais destroem na\u00e7\u00f5es e estabelecem apenas o caos. 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