{"id":1287,"date":"2011-03-15T19:34:31","date_gmt":"2011-03-15T19:34:31","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1287"},"modified":"2011-03-15T19:34:31","modified_gmt":"2011-03-15T19:34:31","slug":"carta-aberta-de-roger-waters-sobre-o-muro-do-apartheid-israelita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1287","title":{"rendered":"Carta aberta de Roger Waters sobre o muro do apartheid israelita"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 1980, uma can\u00e7\u00e3o que escrevi, &#8220;Another Brick in the Wall Part 2&#8221;, foi proibida pelo governo da \u00c1frica do Sul porque estava a ser usada por crian\u00e7as negras sul-africanas para reivindicar o seu direito a uma educa\u00e7\u00e3o igual. Esse governo de apartheid imp\u00f4s um bloqueio cultural, por assim dizer, sobre algumas can\u00e7\u00f5es, incluindo a minha.<\/p>\n<p>Vinte e cinco anos mais tarde, em 2005, crian\u00e7as palestinianas que participavam num festival na Cisjord\u00e2nia usaram a can\u00e7\u00e3o para protestar contra o muro do apartheid israelita. Elas cantavam: &#8220;N\u00e3o precisamos da ocupa\u00e7\u00e3o! N\u00e3o precisamos do muro racista!&#8221; Nessa altura, eu n\u00e3o tinha ainda visto com os meus olhos aquilo sobre o que elas estavam a cantar.<\/p>\n<p>Um ano mais tarde, em 2006, fui contratado para actuar em Telavive.<\/p>\n<p>Palestinianos do movimento de boicote acad\u00e9mico e cultural a Israel exortaram-me a reconsiderar. Eu j\u00e1 me tinha manifestado contra o muro, mas n\u00e3o tinha a certeza de que um boicote cultural fosse a via certa. Os defensores palestinianos de um boicote pediram-me que visitasse o territ\u00f3rio palestiniano ocupado para ver o muro com os meus olhos antes de tomar uma decis\u00e3o. Eu concordei.<\/p>\n<p>Sob a protec\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, visitei Jerusal\u00e9m e Bel\u00e9m. Nada podia ter-me preparado para aquilo que vi nesse dia. O muro \u00e9 um edif\u00edcio revoltante. Ele \u00e9 policiado por jovens soldados israelitas que me trataram, observador casual de um outro mundo, com uma agress\u00e3o cheia de desprezo. Se foi assim comigo, um estrangeiro, imaginem o que deve ser com os palestinianos, com os subprolet\u00e1rios, com os portadores de autoriza\u00e7\u00f5es. Soube ent\u00e3o que a minha consci\u00eancia n\u00e3o me permitiria afastar-me desse muro, do destino dos palestinianos que conheci, pessoas cujas vidas s\u00e3o esmagadas diariamente de mil e uma maneiras pela ocupa\u00e7\u00e3o de Israel. Em solidariedade, e de alguma forma por impot\u00eancia, escrevi no muro, naquele dia: &#8220;N\u00e3o precisamos do controlo das ideias&#8221;.<\/p>\n<p>Realizando nesse momento que a minha presen\u00e7a num palco de Telavive iria legitimar involuntariamente a opress\u00e3o que eu estava a testemunhar, cancelei o meu concerto no est\u00e1dio de futebol de Telavive e mudei-o para Neve Shalom, uma comunidade agr\u00edcola dedicada a criar pintainhos e tamb\u00e9m, admiravelmente, \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o entre pessoas de cren\u00e7as diferentes, onde mu\u00e7ulmanos, crist\u00e3os e judeus vivem e trabalham lado a lado em harmonia.<\/p>\n<p>Contra todas as expectativas, ele tornou-se no maior evento musical da curta hist\u00f3ria de Israel. 60.000 f\u00e3s lutaram contra engarrafamentos de tr\u00e2nsito para assistir. Foi extraordinariamente comovente para mim e para a minha banda e, no fim do concerto, fui levado a exortar os jovens que ali estavam agrupados a exigirem ao seu governo que tentasse chegar \u00e0 paz com os seus vizinhos e que respeitasse os direitos civis dos palestinianos que vivem em Israel.<\/p>\n<p>Infelizmente, nos anos que se seguiram, o governo israelita n\u00e3o fez nenhuma tentativa para implementar legisla\u00e7\u00e3o que garanta aos \u00e1rabes israelitas direitos civis iguais aos que t\u00eam os judeus israelitas, e o muro cresceu, inexoravelmente, anexando cada vez mais da faixa ocidental.<\/p>\n<p>Aprendi nesse dia de 2006 em Bel\u00e9m alguma coisa do que significa viver sob ocupa\u00e7\u00e3o, encarcerado por tr\u00e1s de um muro. Significa que um agricultor palestiniano tem de ver oliveiras centen\u00e1rias ser arrancadas. Significa que um estudante palestiniano n\u00e3o pode ir para a escola porque o checkpoint est\u00e1 fechado. Significa que uma mulher pode dar \u00e0 luz num carro, porque o soldado n\u00e3o a deixar\u00e1 passar at\u00e9 ao hospital que est\u00e1 a dez minutos de estrada. Significa que um artista palestiniano n\u00e3o pode viajar ao estrangeiro para exibir o seu trabalho ou para mostrar um filme num festival internacional.<\/p>\n<p>Para a popula\u00e7\u00e3o de Gaza, fechada numa pris\u00e3o virtual por tr\u00e1s do muro do bloqueio ilegal de Israel, significa outra s\u00e9rie de injusti\u00e7as. Significa que as crian\u00e7as v\u00e3o para a cama com fome, muitas delas malnutridas cronicamente. Significa que pais e m\u00e3es, impedidos de trabalhar numa economia dizimada, n\u00e3o t\u00eam meios de sustentar as suas fam\u00edlias. Significa que estudantes universit\u00e1rios com bolsas para estudar no estrangeiro t\u00eam de ver uma oportunidade escapar porque n\u00e3o s\u00e3o autorizados a viajar.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, o controlo repugnante e draconiano que Israel exerce sobre os palestinianos de Gaza cercados e os palestinianos da Cisjord\u00e2nia ocupada (incluindo Jerusal\u00e9m oriental), assim como a sua nega\u00e7\u00e3o dos direitos dos refugiados de regressar \u00e0s suas casas em Israel, exige que as pessoas com sentido de justi\u00e7a em todo o mundo apoiem os palestinianos na sua resist\u00eancia civil, n\u00e3o violenta.<\/p>\n<p>Onde os governos se recusam a actuar, as pessoas devem faz\u00ea-lo, com os meios pac\u00edficos que tiverem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. Para alguns, isto significou juntar-se \u00e0 Marcha da Liberdade de Gaza; para outros, isto significou juntar-se \u00e0 flotilha humanit\u00e1ria que tentou levar at\u00e9 Gaza a muito necessitada ajuda humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Para mim, isso significa declarar a minha inten\u00e7\u00e3o de me manter solid\u00e1rio, n\u00e3o s\u00f3 com o povo da Palestina, mas tamb\u00e9m com os muitos milhares de israelitas que discordam das pol\u00edticas racistas e coloniais dos seus governos, juntando-me \u00e0 campanha de Boicote, Desinvestimento e San\u00e7\u00f5es (BDS) contra Israel, at\u00e9 que este satisfa\u00e7a tr\u00eas direitos humanos b\u00e1sicos exigidos na lei internacional.<\/p>\n<p>1. Pondo fim \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o e \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o de todas as terras \u00e1rabes [ocupadas desde 1967] e desmantelando o muro;<\/p>\n<p>2. Reconhecendo os direitos fundamentais dos cidad\u00e3os \u00e1rabo-palestinianos de Israel em plena igualdade; e<\/p>\n<p>3. Respeitando, protegendo e promovendo os direitos dos refugiados palestinianos de regressar \u00e0s suas casas e propriedades como estipulado na resolu\u00e7\u00e3o 194 das NU.<\/p>\n<p>A minha convic\u00e7\u00e3o nasceu da ideia de que todas as pessoas merecem direitos humanos b\u00e1sicos. A minha posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 antisemita. Isto n\u00e3o \u00e9 um ataque ao povo de Israel. Isto \u00e9, no entanto, um apelo aos meus colegas da ind\u00fastria da m\u00fasica e tamb\u00e9m a artistas de outras \u00e1reas para que se juntem ao boicote cultural.<\/p>\n<p>Os artistas tiveram raz\u00e3o de recusar-se a actuar na esta\u00e7\u00e3o de Sun City na \u00c1frica do Sul at\u00e9 que o apartheid ca\u00edsse e que brancos e negros gozassem dos mesmos direitos. E n\u00f3s temos raz\u00e3o de recusar actuar em Israel at\u00e9 que venha o dia \u2013 e esse dia vir\u00e1 seguramente \u2013 em que o muro da ocupa\u00e7\u00e3o caia e os palestinianos vivam ao lado dos israelitas em paz, liberdade, justi\u00e7a e dignidade, que todos eles merecem.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/diarioliberdade.org\/\" target=\"_blank\">Di\u00e1rio Liberdade<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Di\u00e1rio Liberdade\n\n\n\n\n\n\n\n\nRoger Waters\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1287\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-1287","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-kL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1287","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1287"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1287\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1287"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1287"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}