{"id":12881,"date":"2016-12-09T19:49:43","date_gmt":"2016-12-09T22:49:43","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12881"},"modified":"2016-12-29T19:35:37","modified_gmt":"2016-12-29T22:35:37","slug":"em-tese-de-doutorado-pesquisadora-denuncia-a-farsa-da-crise-da-previdencia-no-brasil-forjada-pelo-governo-com-apoio-da-imprensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12881","title":{"rendered":"Em tese de doutorado, pesquisadora denuncia a farsa da crise da Previd\u00eancia no Brasil forjada pelo governo com apoio da imprensa"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ocafezinho.com\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/Denise-Gentil-e1468889305246.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>Com argumentos insofism\u00e1veis, <strong>Denise Gentil<\/strong> destro\u00e7a os mitos oficiais que encobrem a realidade da Previd\u00eancia Social no Brasil. Em primeiro lugar, uma gigantesca farsa cont\u00e1bil transforma em d\u00e9ficit o super\u00e1vit do sistema previdenci\u00e1rio, que atingiu a cifra de R$ 1,2 bilh\u00f5es em 2006, segundo a economista.<!--more--><\/p>\n<p>O super\u00e1vit da Seguridade Social \u2013 que abrange a Sa\u00fade, a Assist\u00eancia Social e a Previd\u00eancia \u2013 foi significativamente maior: R$ 72,2 bilh\u00f5es. No entanto, boa parte desse excedente vem sendo desviada para cobrir outras despesas, especialmente de ordem financeira \u2013 condena a professora e pesquisadora do Instituto de Economia da UFRJ, pelo qual concluiu sua tese de doutorado \u201c<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/uc?export=download&amp;id=0B8uQD54Gv87oTy11TkhIY0hRbm8\" target=\"_blank\">A falsa crise da Seguridade Social no Brasil: uma an\u00e1lise financeira do per\u00edodo 1990 \u2013 2005<\/a>\u201d (clique e leia a tese na \u00edntegra \u2013 livre de v\u00edrus).<\/p>\n<p>Nesta entrevista ao Jornal da UFRJ, ela ainda explica por que considera insuficiente o novo c\u00e1lculo para o sistema proposto pelo governo e mostra que, subjacente ao debate sobre a Previd\u00eancia, se desenrola um combate entre concep\u00e7\u00f5es distintas de desenvolvimento econ\u00f4mico-social.<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> A ideia de crise do sistema previdenci\u00e1rio faz parte do pensamento econ\u00f4mico hegem\u00f4nico desde as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado. Como essa concep\u00e7\u00e3o se difundiu e quais as suas origens?<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> A ideia de fal\u00eancia dos sistemas previdenci\u00e1rios p\u00fablicos e os ataques \u00e0s institui\u00e7\u00f5es do welfarestate (Estado de Bem- Estar Social) tornaram-se dominantes em meados dos anos 1970 e foram refor\u00e7adas com a crise econ\u00f4mica dos anos 1980. O pensamento liberal-conservador ganhou terreno no meio pol\u00edtico e no meio acad\u00eamico. A quest\u00e3o central para as sociedades ocidentais deixou de ser o desenvolvimento econ\u00f4mico e a distribui\u00e7\u00e3o da renda, proporcionados pela interven\u00e7\u00e3o do Estado, para se converter no combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o e na defesa da ampla soberania dos mercados e dos interesses individuais sobre os interesses coletivos. Um sistema de seguridade social que fosse universal, solid\u00e1rio e baseado em princ\u00edpios redistributivistas conflitava com essa nova vis\u00e3o de mundo. O principal argumento para modificar a arquitetura dos sistemas estatais de prote\u00e7\u00e3o social, constru\u00eddos num per\u00edodo de crescimento do p\u00f3s-guerra, foi o dos custos crescentes dos sistemas previdenci\u00e1rios, os quais decorreriam, principalmente, de uma dram\u00e1tica trajet\u00f3ria demogr\u00e1fica de envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o. A partir de ent\u00e3o, um problema que \u00e9 puramente de origem s\u00f3cio-econ\u00f4mica foi reduzido a um mero problema demogr\u00e1fico, diante do qual n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel a n\u00e3o ser o corte de direitos, redu\u00e7\u00e3o do valor dos benef\u00edcios e eleva\u00e7\u00e3o de impostos. Essas id\u00e9ias foram amplamente difundidas para a periferia do capitalismo e reformas privatizantes foram implantadas em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> No Brasil, a concep\u00e7\u00e3o de crise financeira da Previd\u00eancia vem sendo propagada insistentemente h\u00e1 mais de 15 anos. Os dados que voc\u00ea levantou em suas pesquisas contradizem as estat\u00edsticas do governo. Primeiramente, explique o artif\u00edcio cont\u00e1bil que distorce os c\u00e1lculos oficiais.<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> Tenho defendido a id\u00e9ia de que o c\u00e1lculo do d\u00e9ficit previdenci\u00e1rio n\u00e3o est\u00e1 correto, porque n\u00e3o se baseia nos preceitos da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, que estabelece o arcabou\u00e7o jur\u00eddico do sistema de Seguridade Social. O c\u00e1lculo do resultado previdenci\u00e1rio leva em considera\u00e7\u00e3o apenas a receita de contribui\u00e7\u00e3o ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) que incide sobre a folha de pagamento, diminuindo dessa receita o valor dos benef\u00edcios pagos aos trabalhadores. O resultado d\u00e1 em d\u00e9ficit. Essa, no entanto, \u00e9 uma equa\u00e7\u00e3o simplificadora da quest\u00e3o. H\u00e1 outras fontes de receita da Previd\u00eancia que n\u00e3o s\u00e3o computadas nesse c\u00e1lculo, como a Cofins (Contribui\u00e7\u00e3o para o Financiamento da Seguridade Social), a CSLL (Contribui\u00e7\u00e3o Social sobre o Lucro L\u00edquido), a CPMF (Contribui\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria sobre Movimenta\u00e7\u00e3o Financeira) e a receita de concursos de progn\u00f3sticos. Isso est\u00e1 expressamente garantido no artigo 195 da Constitui\u00e7\u00e3o e acintosamente n\u00e3o \u00e9 levado em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> A que n\u00fameros voc\u00ea chegou em sua pesquisa?<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> Fiz um levantamento da situa\u00e7\u00e3o financeira do per\u00edodo 1990-2006. De acordo com o fluxo de caixa do INSS, h\u00e1 super\u00e1vit operacional ao longo de v\u00e1rios anos. Em 2006, para citar o ano mais recente, esse super\u00e1vit foi de R$ 1,2 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>O super\u00e1vit da Seguridade Social, que abrange o conjunto da Sa\u00fade, da Assist\u00eancia Social e da Previd\u00eancia, \u00e9 muito maior. Em 2006, o excedente de recursos do or\u00e7amento da Seguridade alcan\u00e7ou a cifra de R$ 72,2 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma parte desses recursos, cerca de R$ 38 bilh\u00f5es, foi desvinculada da Seguridade para al\u00e9m do limite de 20% permitido pela DRU (Desvincula\u00e7\u00e3o das Receitas da Uni\u00e3o).<\/p>\n<p>H\u00e1 um grande excedente de recursos no or\u00e7amento da Seguridade Social que \u00e9 desviado para outros gastos. Esse tema \u00e9 pol\u00eamico e tem sido muito debatido ultimamente. H\u00e1 uma vertente, a mais veiculada na m\u00eddia, de interpreta\u00e7\u00e3o desses dados que ignora a exist\u00eancia de um or\u00e7amento da Seguridade Social e trata o or\u00e7amento p\u00fablico como uma equa\u00e7\u00e3o que envolve apenas receita, despesa e super\u00e1vit prim\u00e1rio. N\u00e3o haveria, assim, a menor diferen\u00e7a se os recursos do super\u00e1vit v\u00eam do or\u00e7amento da Seguridade Social ou de outra fonte qualquer do or\u00e7amento.<\/p>\n<p>Interessa apenas o resultado fiscal, isto \u00e9, o quanto foi economizado para pagar despesas financeiras com juros e amortiza\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Por isso o debate torna-se acirrado. De um lado, est\u00e3o os que advogam a redu\u00e7\u00e3o dos gastos financeiros, via redu\u00e7\u00e3o mais acelerada da taxa de juros, para liberar recursos para a realiza\u00e7\u00e3o do investimento p\u00fablico necess\u00e1rio ao crescimento. Do outro, est\u00e3o os defensores do corte lento e milim\u00e9trico da taxa de juros e de reformas para reduzir gastos com benef\u00edcios previdenci\u00e1rios e assistenciais. Na verdade, o que est\u00e1 em debate s\u00e3o as diferentes vis\u00f5es de sociedade, de desenvolvimento econ\u00f4mico e de valores sociais.<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> H\u00e1 uma confus\u00e3o entre as no\u00e7\u00f5es de Previd\u00eancia e de Seguridade Social que dificulta a compreens\u00e3o dessa quest\u00e3o. Isso \u00e9 proposital?<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> H\u00e1 uma grande dose de desconhecimento no debate, mas h\u00e1 tamb\u00e9m os que propositadamente buscam a interpreta\u00e7\u00e3o mais conveniente. A Previd\u00eancia \u00e9 parte integrante do sistema mais amplo de Seguridade Social.<\/p>\n<p>\u00c9 parte fundamental do sistema de prote\u00e7\u00e3o social erguido pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, um dos maiores avan\u00e7os na conquista da cidadania, ao dar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o acesso a servi\u00e7os p\u00fablicos essenciais. Esse conjunto de pol\u00edticas sociais se transformou no mais importante esfor\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade menos desigual, associado \u00e0 pol\u00edtica de eleva\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo. A vis\u00e3o dominante do debate dos dias de hoje, entretanto, frequentemente isola a Previd\u00eancia do conjunto das pol\u00edticas sociais, reduzindo-a a um problema fiscal localizado cujo suposto d\u00e9ficit desestabiliza o or\u00e7amento geral. Conforme argumentei antes, esse d\u00e9ficit n\u00e3o existe, contabilmente \u00e9 uma farsa ou, no m\u00ednimo, um erro de interpreta\u00e7\u00e3o dos dispositivos constitucionais.<\/p>\n<p>Entretanto, ainda que tal d\u00e9ficit existisse, a sociedade, atrav\u00e9s do Estado, decidiu amparar as pessoas na velhice, no desemprego, na doen\u00e7a, na invalidez por acidente de trabalho, na maternidade, enfim, cabe ao Estado proteger aqueles que est\u00e3o inviabilizados, definitiva ou temporariamente, para o trabalho e que perdem a possibilidade de obter renda. S\u00e3o direitos conferidos aos cidad\u00e3os de uma sociedade mais evolu\u00edda, que entendeu que o mercado excluir\u00e1 a todos nessas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> E s\u00e3o recursos que retornam para a economia?<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> \u00c9 da mais alta relev\u00e2ncia entender que a Previd\u00eancia \u00e9 muito mais que uma transfer\u00eancia de renda a necessitados. Ela \u00e9 um gasto aut\u00f4nomo, quer dizer, \u00e9 uma transfer\u00eancia que se converte integralmente em consumo de alimentos, de servi\u00e7os, de produtos essenciais e que, portanto, retorna das m\u00e3os dos benefici\u00e1rios para o mercado, dinamizando a produ\u00e7\u00e3o, estimulando o emprego e multiplicando a renda. Os benef\u00edcios previdenci\u00e1rios t\u00eam um papel important\u00edssimo para alavancar a economia. O baixo crescimento econ\u00f4mico de menos de 3% do PIB (Produto Interno Bruto), do ano de 2006, seria ainda menor se n\u00e3o fossem as exporta\u00e7\u00f5es e os gastos do governo, principalmente com Previd\u00eancia, que isoladamente representa quase 8% do PIB.<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> De acordo com a Constitui\u00e7\u00e3o, quais s\u00e3o exatamente as fontes que devem financiar a Seguridade Social?<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> A seguridade \u00e9 financiada por contribui\u00e7\u00f5es ao INSS de trabalhadores empregados, aut\u00f4nomos e dos empregadores; pela Cofins, que incide sobre o faturamento das empresas; pela CSLL, pela CPMF (que ficou conhecida como o imposto sobre o cheque) e pela receita de loterias. O sistema de seguridade possui uma diversificada fonte de financiamento. \u00c9 exatamente por isso que se tornou um sistema financeiramente sustent\u00e1vel, inclusive nos momentos de baixo crescimento, porque al\u00e9m da massa salarial, o lucro e o faturamento s\u00e3o tamb\u00e9m fontes de arrecada\u00e7\u00e3o de receitas. Com isso, o sistema se tornou menos vulner\u00e1vel ao ciclo econ\u00f4mico. Por outro lado, a diversifica\u00e7\u00e3o de receitas, com a inclus\u00e3o da taxa\u00e7\u00e3o do lucro e do faturamento, permitiu maior progressividade na tributa\u00e7\u00e3o, transferindo renda de pessoas com mais alto poder aquisitivo para as de menor.<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> Al\u00e9m dessas contribui\u00e7\u00f5es, o governo pode lan\u00e7ar m\u00e3o do or\u00e7amento da Uni\u00e3o para cobrir necessidades da Seguridade Social?<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> \u00c9 exatamente isso que diz a Constitui\u00e7\u00e3o. As contribui\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o s\u00e3o a \u00fanica fonte de custeio da Seguridade. Se for necess\u00e1rio, os recursos tamb\u00e9m vir\u00e3o de dota\u00e7\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias da Uni\u00e3o. Ironicamente tem ocorrido o inverso. O or\u00e7amento da Seguridade \u00e9 que tem custeado o or\u00e7amento fiscal.<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> O governo n\u00e3o executa o or\u00e7amento \u00e0 parte para a Seguridade Social, como prev\u00ea a Constitui\u00e7\u00e3o, incorporando-a ao or\u00e7amento geral da Uni\u00e3o. Essa \u00e9 uma forma de desviar recursos da \u00e1rea social para pagar outras despesas?<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> A Constitui\u00e7\u00e3o determina que sejam elaborados tr\u00eas or\u00e7amentos: o or\u00e7amento fiscal, o or\u00e7amento da Seguridade Social e o or\u00e7amento de investimentos das estatais. O que ocorre \u00e9 que, na pr\u00e1tica da execu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria, o governo apresenta n\u00e3o tr\u00eas, mas um \u00fanico or\u00e7amento chamando de \u201cOr\u00e7amento Fiscal e da Seguridade Social\u201d, no qual consolida todas as receitas e despesas, unificando o resultado. Com isso, fica dif\u00edcil perceber a transfer\u00eancia de receitas do or\u00e7amento da Seguridade Social para financiar gastos do or\u00e7amento fiscal. Esse \u00e9 o mecanismo de gera\u00e7\u00e3o de super\u00e1vit prim\u00e1rio no or\u00e7amento geral da Uni\u00e3o. E, por fim, para tornar o quadro ainda mais confuso, isola-se o resultado previdenci\u00e1rio do resto do or\u00e7amento geral para, com esse artif\u00edcio cont\u00e1bil, mostrar que \u00e9 necess\u00e1rio transferir cada vez mais recursos para cobrir o \u201crombo\u201d da Previd\u00eancia. Como a sociedade pode entender o que realmente se passa?<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> Agora, o governo pretende mudar a metodologia impr\u00f3pria de c\u00e1lculo que vinha usando. Essa mudan\u00e7a atender\u00e1 completamente ao que prev\u00ea a Constitui\u00e7\u00e3o, incluindo um or\u00e7amento \u00e0 parte para a Seguridade Social?<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> N\u00e3o atender\u00e1 o que diz a Constitui\u00e7\u00e3o, porque continuar\u00e1 a haver um isolamento da Previd\u00eancia do resto da Seguridade Social. O governo n\u00e3o pretende fazer um or\u00e7amento da Seguridade. Est\u00e1 propondo um novo c\u00e1lculo para o resultado fiscal da Previd\u00eancia. Mas, aceitar que \u00e9 preciso mudar o c\u00e1lculo da Previd\u00eancia j\u00e1 \u00e9 um grande avan\u00e7o. Incluir a CPMF entre as receitas da seguridade \u00e9 um reconhecimento importante, embora muito modesto. Retirar o efeito dos incentivos fiscais sobre as receitas tamb\u00e9m ajuda a deixar mais transparente o que se faz com a pol\u00edtica previdenci\u00e1ria. O que me parece inadequado, entretanto, \u00e9 retirar a aposentadoria rural da despesa com previd\u00eancia porque pode, futuramente, resultar em perdas para o trabalhador do campo, se passar a ser tratada como assist\u00eancia social, talvez como uma esp\u00e9cie de bolsa. Esse \u00e9 um campo onde os benef\u00edcios t\u00eam menor valor e os direitos sociais ainda n\u00e3o est\u00e3o suficientemente consolidados.<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> Como voc\u00ea analisa essa mudan\u00e7a de postura do Governo Federal em rela\u00e7\u00e3o ao c\u00e1lculo do d\u00e9ficit? Por que isso aconteceu?<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> Acho que ainda n\u00e3o h\u00e1 uma posi\u00e7\u00e3o consolidada do governo sobre esse assunto. H\u00e1 interpreta\u00e7\u00f5es diferentes sobre o tema do d\u00e9ficit da Previd\u00eancia e da necessidade de reformas. Em alguns segmentos do governo fala-se apenas em choque de gest\u00e3o, mas em outras \u00e1reas, a reforma da previd\u00eancia \u00e9 tratada como inevit\u00e1vel. Depois que o F\u00f3rum da Previd\u00eancia for instalado, v\u00e3o come\u00e7ar os debates, as disputas, a atua\u00e7\u00e3o dos lobbies e \u00e9 imposs\u00edvel prever qual o grau de controle que o governo vai conseguir sobre seus rumos. Se os movimentos sociais n\u00e3o estiverem bem organizados para pressionarem na defesa de seus interesses pode haver mais perdas de prote\u00e7\u00e3o social, como ocorreu em reformas anteriores.<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> A previd\u00eancia p\u00fablica no Brasil, com seu grau de cobertura e garantia de renda m\u00ednima para a popula\u00e7\u00e3o, tem papel importante como instrumento de redu\u00e7\u00e3o dos desequil\u00edbrios sociais?<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> Prefiro n\u00e3o superestimar os efeitos da Previd\u00eancia sobre os desequil\u00edbrios sociais. De certa forma, tem-se que admitir que v\u00e1rios estudos mostram o papel dos gastos previdenci\u00e1rios e assistenciais como mecanismos de redu\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria e de atenua\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais nos \u00faltimos quatro anos. Os avan\u00e7os em termos de grau de cobertura e de garantia de renda m\u00ednimapara a popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o significativos. Pela PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios), cerca de 36,4 milh\u00f5es de pessoas ou 43% da popula\u00e7\u00e3o ocupada s\u00e3o contribuintes do sistema previdenci\u00e1rio. Esse contingente cresceu de forma consider\u00e1vel nos \u00faltimos anos, embora muito ainda necessita ser feito para ampliar a cobertura e evita que, no futuro, a pobreza na velhice se torne um problema dos mais graves. O fato, por\u00e9m, de a popula\u00e7\u00e3o ter assegurado o piso b\u00e1sico de um sal\u00e1rio m\u00ednimo para os benef\u00edcios previdenci\u00e1rios \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia porque, muito embora o valor do sal\u00e1rio m\u00ednimo esteja ainda distante de proporcionar condi\u00e7\u00f5es dignas de sobreviv\u00eancia, a pol\u00edtica social de corre\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo acima da infla\u00e7\u00e3o tem permitido redu\u00e7\u00e3o da pobreza e atenuado a desigualdade da renda.<\/p>\n<p>Cerca de dois milh\u00f5es de idosos e deficientes f\u00edsicos recebem benef\u00edcios assistenciais e 524 mil s\u00e3o benefici\u00e1rios do programa de renda mensal vital\u00edcia. Essas pessoas t\u00eam direito a receber um sal\u00e1rio m\u00ednimo por m\u00eas de forma permanente.<\/p>\n<p>Evidentemente que tudo isso ainda \u00e9 muito pouco para superar nossa incapacidade hist\u00f3rica de combater as desigualdades sociais. Pol\u00edticas muito mais profundas e abrangentes teriam que ser colocadas em pr\u00e1tica, j\u00e1 que a pobreza deriva de uma estrutura produtiva heterog\u00eanea e socialmente fragmentada que precisa ser transformada para que a dist\u00e2ncia entre ricos e pobres efetivamente diminua. Al\u00e9m disso, o crescimento econ\u00f4mico \u00e9 condi\u00e7\u00e3o fundamental para a redu\u00e7\u00e3o da pobreza e, nesse quesito, temos andado muito mal. Mas a realidade \u00e9 que a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais recebeu um pouco mais de prioridade nos \u00faltimos anos do que em governos anteriores e alguma evolu\u00e7\u00e3o pode ser captada atrav\u00e9s de certos indicadores.<\/p>\n<p><strong>Jornal da UFRJ:<\/strong> Apesar do super\u00e1vit que o governo esconde, o sistema previdenci\u00e1rio vem perdendo capacidade de arrecada\u00e7\u00e3o. Isso se deve a fatores demogr\u00e1ficos, como dizem alguns, ou tem rela\u00e7\u00e3o mais direta com a pol\u00edtica econ\u00f4mica dos \u00faltimos anos?<\/p>\n<p><strong>Denise Gentil:<\/strong> A quest\u00e3o fundamental para dar sustentabilidade para um sistema previdenci\u00e1rio \u00e9 o crescimento econ\u00f4mico, porque as vari\u00e1veis mais importantes de sua equa\u00e7\u00e3o financeira s\u00e3o emprego formal e sal\u00e1rios. Para que n\u00e3o haja risco do sistema previdenci\u00e1rio ter um colapso de financiamento \u00e9 preciso que o pa\u00eds cres\u00e7a, aumente o n\u00edvel de ocupa\u00e7\u00e3o formal e eleve a renda m\u00e9dia no mercado de trabalho para que haja mobilidade social. Portanto, a pol\u00edtica econ\u00f4mica \u00e9 o principal elemento que tem que entrar no debate sobre \u201ccrise\u201d da Previd\u00eancia. N\u00e3o temos um problema demogr\u00e1fico a enfrentar, mas de pol\u00edtica econ\u00f4mica inadequada para promover o crescimento ou a acelera\u00e7\u00e3o do crescimento.<\/p>\n<p><em>no <a href=\"http:\/\/www.intersindicalcentral.com.br\/em-tese-de-doutorado-pesquisadora-denuncia-a-farsa-da-crise-da-previdencia-no-brasil-forjada-pelo-governo-com-apoio-da-imprensa\/\">Intersindical Central<\/a><\/em><\/p>\n<p>Foto: Jornal da UFRJ<\/p>\n<blockquote data-secret=\"jycu3Q5nWY\" class=\"wp-embedded-content\"><p><a href=\"http:\/\/www.ocafezinho.com\/2016\/07\/18\/em-tese-de-doutorado-pesquisadora-denuncia-a-farsa-da-crise-da-previdencia-no-brasil-forjada-pelo-governo-com-apoio-da-imprensa\/\">Em tese de doutorado, pesquisadora denuncia a farsa da crise da Previd\u00eancia no Brasil forjada pelo governo com apoio da imprensa<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"http:\/\/www.ocafezinho.com\/2016\/07\/18\/em-tese-de-doutorado-pesquisadora-denuncia-a-farsa-da-crise-da-previdencia-no-brasil-forjada-pelo-governo-com-apoio-da-imprensa\/embed\/#?secret=jycu3Q5nWY\" data-secret=\"jycu3Q5nWY\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Em tese de doutorado, pesquisadora denuncia a farsa da crise da Previd\u00eancia no Brasil forjada pelo governo com apoio da imprensa&#8221; &#8212; O Cafezinho\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com argumentos insofism\u00e1veis, Denise Gentil destro\u00e7a os mitos oficiais que encobrem a realidade da Previd\u00eancia Social no Brasil. 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