{"id":1290,"date":"2011-03-18T16:27:08","date_gmt":"2011-03-18T16:27:08","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1290"},"modified":"2011-03-18T16:27:08","modified_gmt":"2011-03-18T16:27:08","slug":"demarcando-territorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1290","title":{"rendered":"Demarcando territ\u00f3rio"},"content":{"rendered":"\n<p>Yuri Martins Fontes*<\/p>\n<p>Em tempos de desespero que prenunciam o aprofundamento da crise capitalista iniciada em 2008, o famoso Pr\u00eamio Nobel de 2010 foi a grande cartada ideol\u00f3gica em defesa do abatido neoliberalismo, que cambaleia mundo afora, \u00e0 medida que a crise se aprofunda \u2013 em revoltas que v\u00e3o da Gr\u00e9cia aos pa\u00edses \u00e1rabes. A jogada midi\u00e1tica da Academia Sueca \u2013 que causou constrangimento e pol\u00eamica \u2013veio desta vez pelos seus dois principais flancos: o pr\u00eamio \u201cda Paz\u201d e o \u201cda Literatura\u201d. O primeiro foi para o chin\u00eas dissidente Liu Xiaobo \u2013 ex-professor da Universidade de Columbia (Nova Iorque) e defensor da implanta\u00e7\u00e3o do capitalismo na China segundo os moldes norteamericanos. Nada mais pertinente, visto a press\u00e3o das pot\u00eancias ocidentais para que a China arque com parte do preju\u00edzo da crise, encarecendo seu yuan \u2013 no que vem sendo chamado de Guerra Cambial. Contudo, neste ano os ide\u00f3logos do pensamento \u00fanico surpreenderam a opini\u00e3o p\u00fablica com seu pr\u00eamio liter\u00e1rio, concedido ao escritor e pol\u00edtico fundamentalista neoliberal, Mario Vargas Llosa, peruano naturalizado espanhol \u2013 e que coincidentemente (ou n\u00e3o) tamb\u00e9m vive em Nova Iorque, onde leciona na Universidade de Princeton.<\/p>\n<p>Como \u00e9 sabido, tradicionalmente o \u201cNobel da Paz\u201d tem seu cunho ideol\u00f3gico bastante expl\u00edcito \u2013 agraciando em geral l\u00edderes e ativistas ligados aos interesses das grandes pot\u00eancias. E por vezes os premiados t\u00eam bastante sangue no curr\u00edculo, como \u00e9 o caso de Theodore Roosevelt (Pr\u00eamio de 1906), para quem \u201co bom \u00edndio \u00e9 aquele morto\u201d; tamb\u00e9m do sionista Shimon Peres (1994), articulador do projeto de militariza\u00e7\u00e3o de Israel \u2013 e que mais tarde se tornaria um genocida, ao liderar o imenso bombardeio do L\u00edbano; j\u00e1 em 2009, foi a vez de Barack Obama, quem aumentou o contingente militar no Afeganist\u00e3o \u2013 mesmo ap\u00f3s den\u00fancias de crimes desta guerra virem a p\u00fablico.<\/p>\n<p>J\u00e1 o hist\u00f3rico do Nobel de Literatura, desde os fins da Guerra Fria n\u00e3o era t\u00e3o abertamente direitista \u2013 quando em 1987, foi premiado o desconhecido dissidente sovi\u00e9tico exilado nos EUA, Joseph Brodski. De todo modo, a pr\u00e1tica de altern\u00e2ncia entre escritores, ora conservadores, ora progressistas, sempre funcionou como adorno de \u201cimparcialidade\u201d para a Academia Sueca \u2013 jogo que J-P. Sartre se recusou a participar, quando declinou da premia\u00e7\u00e3o em 1964, e mesmo Albert Camus, que em 1957 s\u00f3 aceitou o pr\u00eamio por amea\u00e7as de seu editor.<\/p>\n<p><strong>Guerra comercial contra a China<\/strong><\/p>\n<p>O caso chin\u00eas \u2013 num momento em que muitas na\u00e7\u00f5es apostam no com\u00e9rcio com a pot\u00eancia asi\u00e1tica para voltar a crescer, foi o que mais deu a falar. Ou melhor, a \u201ccalar\u201d. Apesar da China n\u00e3o promover guerras e n\u00e3o ter bases militares no estrangeiro, o pa\u00eds jamais recebeu um Nobel que agraciasse sua pr\u00e1tica pac\u00edfica e cultura milenar. Em 1989, o pr\u00eamio \u201cda Paz\u201d foi dado ao Dalai-lama, l\u00edder espiritual e ex-ditador da aristocracia que ent\u00e3o vigorava no Tibete, hoje exilado na \u00cdndia. Em 2000 foi a vez do escritor neoliberal dissidente Gao Xingjian, exilado na Fran\u00e7a, receber o de literatura. Agora, dada a necessidade de acirramento da guerra comercial-cambial liderada pelos EUA, a Academia se lembra novamente dos orientais. Excetuando-se os grandes inimigos chineses, Jap\u00e3o e EUA (e alguns de seus aliados), a grande parte do mundo preferiu n\u00e3o se pronunciar. Foi o caso do presidente franc\u00eas, Nicolas Sarkozy, que em outubro, pouco antes da reuni\u00e3o do G-20, recebeu seu colega chin\u00eas Hu Jintao para discutir neg\u00f3cios bilaterais, e n\u00e3o tocou no assunto do pr\u00eamio da Paz. Embora tenha sofrido press\u00e3o interna e externa para faz\u00ea-lo, Sarzozy preferiu n\u00e3o cutucar o segundo maior cliente dos produtos europeus, e a na\u00e7\u00e3o que mais vende \u00e0 UE \u2013 preservando assim transa\u00e7\u00f5es valiosas, como as vendas de cem avi\u00f5es Airbus e de dois reatores nucleares de nova gera\u00e7\u00e3o. O com\u00e9rcio entre China e UE deve ultrapassar neste ano a casa dos 400 bilh\u00f5es de d\u00f3lares \u2013 um crescimento de 34%.<\/p>\n<p>Diante da m\u00e1 repercuss\u00e3o na China, Sarkosy, ao menos desta vez, parece ter feito a escolha correta. \u201cXiaobo foi considerado culpado de um crime \u2013 conceder-lhe o Nobel equivale a promover o crime\u201d \u2013 afirmou o porta-voz chin\u00eas Ma Zhaoxo. Logo ap\u00f3s a premia\u00e7\u00e3o, a China cancelou acordos comerciais relativos \u00e0 pesca com a Noruega (o Comit\u00ea para a Paz \u00e9 a\u00ed sediado em homenagem \u00e0 antiga na\u00e7\u00e3o sueco-norueguesa), uma das mais importantes fontes de renda dos escandinavos. Conseq\u00fc\u00eancia esperada, pois antes da premia\u00e7\u00e3o, o governo chin\u00eas j\u00e1 havia tentado dissuadir os noruegueses: &#8220;O Pr\u00eamio deveria ser concedido \u00e0queles que trabalham para promover a harmonia \u00e9tnica, a amizade internacional \u2013 eram os desejos de Alfred Nobel&#8221;, declarou na \u00e9poca o minist\u00e9rio chin\u00eas do Exterior.<\/p>\n<p>J\u00e1 o governo do Paquist\u00e3o \u2013 importante aliado ocidental na regi\u00e3o \u2013 foi mais longe que o franc\u00eas, manifestando seu \u201cespanto\u201d com a concess\u00e3o \u2013 que segundo seu comunicado, \u201cn\u00e3o condiz com o prest\u00edgio do pr\u00eamio\u201d, ressaltando a sua \u201cpolitiza\u00e7\u00e3o\u201d, com o \u201cintuito de interferir em assuntos dom\u00e9sticos dos Estados\u201d. A declara\u00e7\u00e3o diz ainda que Xiaobo \u201cfoi sentenciado pelo judici\u00e1rio e n\u00e3o fez nada que o pudesse qualificar para o Nobel\u201d, o que agrava a tens\u00e3o, especialmente num momento em que a China \u201cd\u00e1 passos em dire\u00e7\u00e3o ao respeito dos princ\u00edpios internacionais, no \u00e2mbito legal e humanit\u00e1rio\u201d. Para a imprensa chinesa, o que vem ocorrendo \u00e9 uma \u201cguerra ideol\u00f3gica\u201d contra Pequim. O editorial do <em>Global Times<\/em> (jornal chin\u00eas em l\u00edngua inglesa) analisa: \u201cO Nobel da Paz n\u00e3o \u00e9 uma via isolada, mas faz parte de um concerto lan\u00e7ado por diversas ONG\u2019s e entidades econ\u00f4micas internacionais, orquestradas pelos pa\u00edses desenvolvidos\u201d. Para o jornal, o que as pot\u00eancias ocidentais esperam \u00e9 que \u201ca China se afundar\u00e1 sob o efeito desta cruzada \u2013 o que no entanto est\u00e1 longe de acontecer\u201d \u2013 e completa: \u201cParece que no planeta, a \u00fanica via que os povos t\u00eam a permiss\u00e3o de adotar, \u00e9 a via do Ocidente, com suas atitudes ocidentais e crist\u00e3s\u201d.<\/p>\n<p>Xiaobo, agora aclamado como <em>defensor dos direitos humanos<\/em>, foi condenado em 2009 a onze anos de cadeia por \u201ctentativas de subvers\u00e3o do Estado\u201d. A condena\u00e7\u00e3o foi divulgada pela m\u00eddia ocidental como um gesto injusto e intolerante \u201chostil aos valores universais\u201d. Contudo, segundo artigo da <em>Global Research<\/em> \u2013 ag\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o do Quebeque \u2013 o que os meios ocidentais \u201cn\u00e3o mencionam\u201d \u00e9 que o que causou sua pris\u00e3o foi a assinatura da <em>Carta 08<\/em> (manifesto em ocasi\u00e3o do 60\u00ba anivers\u00e1rio da <em>Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Homem e das Liberdades<\/em>). Tal documento se trata \u201cn\u00e3o apenas de uma demanda por liberdades pol\u00edticas e civis, mas antes de um projeto para tornar a China uma r\u00e9plica da sociedade dos EUA, e eliminar assim os \u00faltimos resqu\u00edcios de socialismo no pa\u00eds\u201d. Xiaobo defende que a China deve se tornar um mercado livre sem nenhuma regulamenta\u00e7\u00e3o do Estado \u2013 em tempos que mesmo o Estado norte-americano intervem, e muito, em sua pr\u00f3pria economia. E embora a grande imprensa evite comentar, a <em>Declara\u00e7\u00e3o Universal<\/em> endossa tamb\u00e9m direitos econ\u00f4micos, como o direito ao trabalho e a um padr\u00e3o de vida adequado para a sa\u00fade e o bem-estar familiar, inclusive citando a alimenta\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o, cuidados m\u00e9dicos e os servi\u00e7os sociais indispens\u00e1veis, como o direito \u00e0 seguridade em caso de desemprego. E \u00e9 reconhecido pela pr\u00f3prio Banco Mundial que o socialismo chin\u00eas retirou da mis\u00e9ria 400 milh\u00f5es de pessoas, em menos de uma gera\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, o Minist\u00e9rio da Agricultura dos EUA apontou recentemente que o n\u00famero de famintos em seu pa\u00eds cresceu, atingindo hoje quase 50 milh\u00f5es de cidad\u00e3os \u2013 um sexto da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio da Global Research rememora ainda o fato de Xiaobo ter se aproximado \u00e0 CIA nos anos 90, ao defender o Dalai Lama \u2013 o que, conforme a ag\u00eancia, foi contradit\u00f3rio a qualquer no\u00e7\u00e3o de direito humano, pois que o Lama era \u201co l\u00edder de uma aristocracia feudal que possuia escravos e vivia suntuosamente nas costas de servos tibetanos, antes de o Ex\u00e9rcito Popular p\u00f4r fim ao seu governo opressivo\u201d. Importante notarmos que n\u00e3o se defende aqui o dom\u00ednio chin\u00eas sobre o Tibete, assim como n\u00e3o se defende o imp\u00e9rio dos EUA sobre Porto Rico e etc, e nem o franc\u00eas sobre a Guiana-Caiena ou o espanhol sobre os bascos e o franco-espanhol sobre os catal\u00e3es \u2013 mas se trata sim de expor que o \u201cvenerado\u201d Dalai-lama era de fato um endeusado senhor feudal.<\/p>\n<p>Diante de tal impertin\u00eancia, o pr\u00eamio \u201cda <em>Paz<\/em>\u201d foi criticado mesmo pelos colegas de Xiaobo, que lutam contra o regime. Na opini\u00e3o do l\u00edder opositor Wei Jingsheng \u2013 sete vezes candidato ao Nobel \u2013, haveria diversos outros militantes mais engajados que deveriam receber o pr\u00eamio antes dele. H\u00e1 muitos anos, Xiaobo j\u00e1 demonstra publicamente sua \u201cocidentaliza\u00e7\u00e3o\u201d, chegando a afirmar que: \u201cN\u00f3s chineses somos um povo bruto\u201d. Xiaobo, de 54 anos, at\u00e9 1989 vivia bem nos EUA. Foi apenas durante os \u00faltimos dias das manifesta\u00e7\u00f5es da Pra\u00e7a da Paz Celestial, que ele regressou \u00e0 China, recolocando-se como intelectual em evid\u00eancia. E frisemos tamb\u00e9m que embora o Nobel tenha por lema premiar \u201cmanifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas\u201d, certamente o epis\u00f3dio da Pra\u00e7a da Paz n\u00e3o se pretendia pac\u00edfico \u2013 o que fica evidente quando, ap\u00f3s a institui\u00e7\u00e3o do estado de s\u00edtio, os l\u00edderes do protesto montam barricadas e enfrentam ativamente o ex\u00e9rcito, o que culminaria em v\u00e1rias mortes, inclusive de militares. Tampouco Xiabo pode ser encaixado no quesito de \u201cpromover a fraternidade entre as na\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 argumento que foi o primeiro a ser usado pelo governo chin\u00eas contra a premia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, o professor chin\u00eas veio a cumprir o estrat\u00e9gico papel de apoio ao governo de Obama, diante da press\u00e3o dos conservadores republicanos e da guerra cambial que quer fazer com que a China arque com uma parte maior dos preju\u00edzos da crise advinda da libertinagem financeira. E veio num momento estrat\u00e9gico, pouco antes da plen\u00e1ria do XVII Comit\u00ea Central do Partido Comunista, em que se come\u00e7ou a discutir a sucess\u00e3o de Hu Jintao, a ocorrer em 2012.<\/p>\n<p><strong>Llosa, <\/strong><strong>o anticoletivista anti-ind\u00edgena <\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 no caso do pr\u00eamio de Llosa, aos 74 anos, a surpreza foi ampla, da direita \u00e0 esquerda \u2013 a ponto de ele pr\u00f3prio reagir com ironia, o que acabou por expor certa desconfian\u00e7a que era generalizada: \u201cTinha certeza de que n\u00e3o receberia o pr\u00eamio \u2013 espero que tenha sido pela minha obra liter\u00e1ria e n\u00e3o pelas minhas opini\u00f5es pol\u00edticas\u201d. Isto porque o autor \u00e9 hoje declaradamente um defensor do liberalismo \u2013 o que vem a servir como um garoto-propaganda \u201cnativo\u201d. Sua premia\u00e7\u00e3o \u2013 voz neoliberal e latino-americana \u2013 vem a calhar com a busca dos EUA pela retomada de sua hegemonia perdida dos anos 1990.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que hoje, em vista das frustradas tentativas de golpe de Estado na \u00faltima d\u00e9cada (Venezuela em 2002, Bol\u00edvia em 2008 e Equador em 2010) \u2013 apesar do bem-sucedido golpe de Estado em Honduras \u2013, os EUA n\u00e3o t\u00eam mais o mesmo poder de interven\u00e7\u00e3o em seu antigo \u201cquintal\u201d, o que se deve em parte \u00e0s graves limita\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas conjunturais, agravadas pelas duas caras guerras que Obama herdou na \u00c1sia. Assim, Llosa, com suas posi\u00e7\u00f5es extremistas contra qualquer pa\u00eds perif\u00e9rico que se pretenda aut\u00f4nomo, serve aos interesses neocoloniais como um auto-falante fomentador de uma t\u00e3o ap\u00e1tica rea\u00e7\u00e3o \u201clatina\u201d. Em seus freq\u00fcentes discursos, ainda defende as privatiza\u00e7\u00f5es por parte de empresas estrangeiras, inclusive a das reservas naturais estrat\u00e9gicas de seu pa\u00eds \u2013 sendo ferrenho cr\u00edtico dos governos progressistas que v\u00eam ocupando espa\u00e7os na Am\u00e9rica Latina e levantando sua autoestima na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>De fato, ap\u00f3s o decl\u00ednio da Alca, em 2004, os EUA tentaram \u201cimpor\u201d tratados bilaterais, o que s\u00f3 foi aceito por tr\u00eas pa\u00edses \u2013 Peru, Chile e Col\u00f4mbia. \u00c9 o que nos lembra o pesquisador Paulo Batista Jr, representante no FMI de um grupo de nove pa\u00edses americanos (inclusive o Brasil), em estudo publicado na <em>Revista de Economia Pol\u00edtica<\/em>: \u201cNesta \u00e9poca quase todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica eram governados por pol\u00edticos alinhados aos EUA em maior ou menor grau, como Menem, FHC, Fujimori e outros, que serviam de instrumentos de seu poder\u201d. Para ele, \u201co quadro atual \u00e9 muito diferente\u201d, pois os resultados \u201cn\u00e3o foram positivos, o que j\u00e1 se poderia prever\u201d \u2013 pois \u201cgovernado de fora pra dentro, nenhum pa\u00eds pode ser bem-sucedido. Da\u00ed a import\u00e2ncia de se investir na popularidade de Llosa \u2013 para quem os anos 1990 foram mesmo o \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Para que se tenha uma ideia de suas posi\u00e7\u00f5es, ele defende, para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais do Peru (2011), que um \u201ccen\u00e1rio positivo\u201d seria a vit\u00f3ria de um candidato do que chama de \u201ccentro\u201d \u2013 e cita os nomes dos candidatos de plataforma mais submissa, Luis Casta\u00f1eda e Lourdes Flores. J\u00e1 a respeito do candidato mais nacionalista Ollanta Humala, de centro-esquerda, dispara: \u201c\u00c9 um grande perigo apoiado por Ch\u00e1vez, o que \u00e9 incompat\u00edvel com a democracia\u201d. Quanto a ele mesmo, afirma n\u00e3o querer ser \u201cpol\u00edtico profissional\u201d, mas diz que continuar\u00e1 atuando por \u201ccertas causas\u201d. Em 1990, quando os marxistas do Sendero Luminoso ainda disputavam o poder, Llosa concorreu \u00e0 presid\u00eancia do pa\u00eds \u2013 segundo a <em>Reuters<\/em>, como um \u201ccandidato reformista de centro-direita\u201d. Em sua plataforma privatizante \u2013 segundo ele inspirada em Margareth Thatcher, \u201cmulher que mudou o rumo da hist\u00f3ria\u201d \u2013 prop\u00f5e o corte or\u00e7ament\u00e1rio e a defesa do mercado livre, o que \u201calarmou os pobres e trouxe apoio dos conservadores ricos\u201d. Perdeu a elei\u00e7\u00e3o para Fujimori e abandonou o pa\u00eds para viver na Espanha.<\/p>\n<p><strong>Llosa: da esquerda \u00e0 direita<\/strong><\/p>\n<p>Nos anos 60 e 70, simpatizante do comunismo, Llosa foi um dos protagonistas do chamado &#8220;<em>boom<\/em>&#8221; da literatura latino-americana. Em 1973 escreveu \u201cPantale\u00e3o e as visitadores\u201d, uma de suas principais obras, e desde ent\u00e3o seu ritmo liter\u00e1rio se arrifeceria dando espa\u00e7o ao Llosa pol\u00edtico, numa escalada que o levaria da esquerda liter\u00e1ria, para a direita ativista, nos anos 80. Em 1983, o novo Llosa aparece ao mundo como \u201co direitista latino-americano\u201d em meio a onda centro-esquerdista da \u00e9poca. Encarregado pelo ent\u00e3o presidente peruano Fernando Bala\u00fande de investigar assassinatos de jornalistas por parte das For\u00e7as Armadas, Llosa defende a absolvi\u00e7\u00e3o dos assassinos \u2013 mais tarde condenados em nova investiga\u00e7\u00e3o. Em 1987, op\u00f5e-se \u00e0 nacionaliza\u00e7\u00e3o de bancos peruanos, reforma proposta pelo ent\u00e3o presidente Alan Garc\u00eda.<\/p>\n<p>Formado em Direito e Literatura, atuou como jornalista da <em>France-Presse<\/em>, em Paris, e em 1963 publicou seu primeiro romance, \u201cLa ciudad de los perros\u201d \u2013 o qual provocaria cr\u00edticas dos militares de seu pa\u00eds. Em uma de suas precoces biografias, em 1967, Llosa escreve: \u201cSe Fidel Castro chamasse elei\u00e7\u00f5es hoje, a esmagadora maioria votaria por ele, mas nada nos garante que os que o sucederiam seriam t\u00e3o honestos, patriotas ou l\u00facidos\u201d. Questionado em entrevista pelo soci\u00f3logo alem\u00e3o Heinz Dieterich Steffan acerca da afirma\u00e7\u00e3o, Llosa nega ter escrito o texto \u2013 tal qual o nosso neoliberal FHC. Em outra declara\u00e7\u00e3o da \u00e9poca, hoje refutada, o escritor afirma que o \u201cPeru \u00e9 um pa\u00eds onde as estruturas sociais est\u00e3o baseadas em uma esp\u00e9cie de injusti\u00e7a total que abarca todas as manifesta\u00e7\u00f5es da vida\u201d, e ainda: \u201co preconceito contra o \u00edndio e o negro se expressa de mil maneiras dissimuladas\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, com sua concep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica invertida, ele n\u00e3o perdoa nem mesmo as ricas tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas de seu pa\u00eds \u2013 as quais ele tanto defendeu na juventude. Prega que os \u201c\u00edndios\u201d formam apenas uma \u201c\u00ednfima minoria\u201d, e que devem portanto submeter-se ao que ele chama de \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cO desenvolvimento e a civiliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o incompat\u00edveis com certos fen\u00f4menos sociais, como \u00e9 o caso do coletivismo\u201d \u2013 afirmou em 2009, <em>esquecendo-se<\/em> que foi justamente a no\u00e7\u00e3o de coletividade que levou ao topo o imp\u00e9rio inca. J\u00e1 quanto ao \u201cfen\u00f4meno\u201d de movimentos de defesa dos direitos ind\u00edgenas \u2013 uma refer\u00eancia \u00e0 ascens\u00e3o de Evo Morales e Rafael Correa \u2013, o autor afirma serem \u201cofensivos\u201d e \u201cdissimulados\u201d: \u201cNenhuma sociedade coletivista ou impregnada com esta cultura se desenvolve\u201d. Mas seu alvo preferido costuma ser o presidente reeleito da Venezuela, Hugo Ch\u00e1vez. E nem mesmo seu colega (pr\u00eamio Nobel), o consagrado Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rques, escapa de suas farpas. Conforme o <em>Los Angeles Times, <\/em>o desafeto entre ambos se iniciou em 1976, num incidente no M\u00e9xico, quando Llosa \u201cfurou os olhos de seu ex-amigo Garc\u00eda M\u00e1rques, devido a disputas pol\u00edticas\u201d.<\/p>\n<p>Dentre as v\u00e1rias cr\u00edticas \u00e0 premia\u00e7\u00e3o de Llosa feitas por seus pr\u00f3prios pares, destaca-se a s\u00edntese do escritor brasileiro Alberto Manguel, expressa durante o Festival Liter\u00e1rio Internacional de Pernambuco. Perguntado sobre a quest\u00e3o, afirmou lac\u00f4nico: &#8220;Que o pr\u00eamio seja destinado a um ser humano imundo, n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o seja um grande escritor&#8221;. J\u00e1 na opini\u00e3o de M. H. Lagarde \u2013 da conservadora <em>Associated Press <\/em>!!<em> \u2013<\/em>, o peruano deveria ter recebido o pr\u00eamio por sua obra \u201ch\u00e1 muitos anos, quando era um escritor, n\u00e3o um pol\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p><strong>E o Nobel n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3: pr\u00eamio europeu<\/strong><strong> novamente ataca Cuba<\/strong><\/p>\n<p>E o pr\u00eamio Nobel n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 na cruzada neoliberal. O parlamento da Uni\u00e3o Europeia concedeu em outubro o pr\u00eamio de direitos humanos <em>Sakharov<\/em>, ofertado a \u201cindiv\u00edduos excepcionais que combatem a intoler\u00e2ncia, o fanatismo e a opress\u00e3o\u201d, ao psic\u00f3logo e jornalista Guillermo Fari\u00f1as. Sua trajet\u00f3ria pelos ditos \u201c<em>direitos humanos<\/em>\u201d, inicia-se em Cuba no ano de 1989, quando se desliga da Juventude Comunista e parte em defesa do general Arnaldo Ochoa, ligado \u00e0 m\u00e1fia de Miami e condenado \u00e0 morte em 1989 por narcotr\u00e1fico. Ap\u00f3s suas 23 midi\u00e1ticas greves de fome \u2013 a \u00faltima encerrada em julho passado \u2013 o governo cubano acabou por ceder, numa demonstra\u00e7\u00e3o de boa vontade para negociar o fim do embargo econ\u00f4mico imposto pelos EUA, e decidiu libertar 52 prisioneiros. A Espanha defende o fim das san\u00e7\u00f5es, mas a majorit\u00e1ria direita europeia se op\u00f5e. O mais curioso \u00e9 que concorria com o cubano, uma ONG israelense, cr\u00edtica dos massacres contra palestinos \u2013 fato que foi considerado <em>menos relevante<\/em>. E com o agravante de que \u00e9 a terceira vez que um opositor ao regime socialista cubano recebe o <em>Sakharov<\/em>.<\/p>\n<p>*Yuri M. Fontes \u00e9 jornalista e fil\u00f3sofo<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.brasildefato.com.br\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Gurupionline\n\n\n\n\n\n\n\n\nA agenda do Pr\u00eamio Nobel e a ideologia dominante\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1290\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1290","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-kO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1290","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1290"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1290\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1290"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1290"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1290"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}