{"id":12902,"date":"2016-12-13T00:12:36","date_gmt":"2016-12-13T03:12:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12902"},"modified":"2016-12-29T19:36:32","modified_gmt":"2016-12-29T22:36:32","slug":"o-meu-retrato-de-fidel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12902","title":{"rendered":"O meu retrato de Fidel"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/AlfredoDuarteCosta_Fidel.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Alfredo Duarte Costa*<\/p>\n<p><b>N\u00e3o seria necess\u00e1rio partilhar o ide\u00e1rio e a perspectiva pol\u00edtica de Fidel para admirar o homem excepcional que era. Bastava, como o mostra este not\u00e1vel testemunho de um ex. embaixador em Cuba, ser um homem \u00edntegro e intelectualmente honesto.<\/b><!--more--><\/p>\n<p>Durante os meus estudos na Universidade de Bruxelas, escrevi dois trabalhos sobre Cuba e a sua Revolu\u00e7\u00e3o. Passadas v\u00e1rias d\u00e9cadas, quis o destino que eu fosse nomeado embaixador de Portugal em Havana, onde fiquei cinco anos. Neste per\u00edodo de tempo, tive a oportunidade de ter um relacionamento pr\u00f3ximo com Fidel Castro, com a sua mulher e com alguns dos seus filhos. A natureza deste relacionamento permitiu-me ser uma testemunha privilegiada de alguns epis\u00f3dios com ele relacionados e de tra\u00e7os da sua personalidade.<\/p>\n<p>Poucos dias ap\u00f3s a minha chegada a Cuba, jantei com Fidel Castro, na companhia do ent\u00e3o ministro da Economia, Pina Moura, e do empres\u00e1rio Am\u00e9rico Amorim. Iniciada \u00e0s 21.30, a refei\u00e7\u00e3o terminou perto das seis da manh\u00e3, quando o ministro teve de recordar a Fidel que tinha de tomar um avi\u00e3o para o M\u00e9xico dentro de tr\u00eas horas. As largas horas passadas com Fidel revelaram-me um Homem inteligente e perspicaz, am\u00e1vel, grande conversador, demonstrando um conhecimento profundo sobre todos os assuntos abordados. O Fidel que eu come\u00e7ava a descobrir pouco se ajustava ao que tinha lido ou ouvido sobre ele.<\/p>\n<p>Fidel possu\u00eda um enorme carisma e um grande poder de sedu\u00e7\u00e3o, ao qual era dif\u00edcil resistir. Presenciei a visita a Cuba de numerosas personalidades portuguesas, representando v\u00e1rios quadrantes pol\u00edticos. Todos sem excep\u00e7\u00e3o pretendiam ser recebidos por Fidel Castro e quando o ambicionado momento chegava, n\u00e3o resistiam a pedir-lhe para tirar uma fotografia a seu lado.<\/p>\n<p>Em 1999, no seguimento do massacre do cemit\u00e9rio de Santa Cruz, em Timor Leste, o representante de Cuba nas Na\u00e7\u00f5es Unidas fez uma interven\u00e7\u00e3o no Conselho de Seguran\u00e7a, apoiando a Indon\u00e9sia. O Governo portugu\u00eas, naturalmente, reagiu muito mal a esta tomada de posi\u00e7\u00e3o, tendo o ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, Jaime Gama, cancelado a visita do seu hom\u00f3logo cubano a Lisboa, prevista para alguns dias depois. Encontrava-me numa recep\u00e7\u00e3o na Embaixada do M\u00e9xico, quando o chefe do Protocolo cubano me chamou \u00e0 parte para me dizer que Fidel Castro me convidava para jantar nessa mesma noite. Perante o inesperado convite, perguntei ao meu interlocutor qual era raz\u00e3o deste e quem eram os outros convivas. Respondeu-me apenas que eu era o \u00fanico convidado.<\/p>\n<p>Quando cheguei ao Pal\u00e1cio da Revolu\u00e7\u00e3o, onde reinava um profundo sil\u00eancio, estavam apenas presentes um funcion\u00e1rio que me conduziu ao gabinete de Fidel e uma empregada que serviu o jantar. Fidel foi directo ao assunto que o levara a convidar-me, dizendo-me ter conhecimento de que o Governo portugu\u00eas n\u00e3o tinha apreciado a interven\u00e7\u00e3o do embaixador cubano e que cancelara a visita do chefe da diplomacia cubana a Lisboa. Confirmei o que me disse e com respeito, disse-lhe que Cuba lamentavelmente estava do lado errado, ao apoiar um regime que oprimia o Povo de Timor Leste. Fidel Castro, depois de me dizer que Portugal era o \u00faltimo pa\u00eds do mundo com quem Cuba desejava ter um contencioso, perguntou-me como poder\u00edamos encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para o problema. Ap\u00f3s sucessivas conversas telef\u00f3nicas com o gabinete de Jaime Gama e com o ministro cubano, que se encontrava em Madrid, propus a Fidel que o seu Governo divulgasse um comunicado afirmando que a posi\u00e7\u00e3o cubana tinha sido mal interpretada e que Havana n\u00e3o apoiava a Indon\u00e9sia. Fidel come\u00e7ou imediatamente a redigir ele pr\u00f3prio o texto e ao terminar, leu-mo. Eram duas da manh\u00e3 quando me despedi de Fidel e no dia seguinte, o comunicado estava em todos os jornais. O convite de Fidel, o modo como me recebeu e o respeito com que me ouviu, parecia contradizer a imagem que alguns lhe atribu\u00edam de ser um dirigente autorit\u00e1rio e intransigente.<\/p>\n<p>Fidel Castro era uma pessoa espartana e desapegado dos bens materiais. Interrogado sobre os bens que possu\u00eda, respondeu que quando morresse, teria a gl\u00f3ria de n\u00e3o ter um \u00fanico d\u00f3lar numa conta banc\u00e1ria ou uma propriedade em seu nome. Fidel vivia nos arredores de Havana numa moradia modesta de um s\u00f3 piso. Utilizava um Mercedes preto dos anos setenta e o avi\u00e3o em que viajava era um velho Iliuchine. Quando um dia lhe chamaram a aten\u00e7\u00e3o para o perigo de utilizar um avi\u00e3o com tantos anos, respondeu que n\u00e3o se podiam gastar milh\u00f5es de d\u00f3lares na compra de uma nova aeronave, quando esse dinheiro poderia ser utilizado em hospitais e em escolas. Ap\u00f3s cessar fun\u00e7\u00f5es, Fidel entregou \u00e0 cidade de Havana os 17.000 presentes que recebeu enquanto foi Chefe de Estado, afirmando: \u201cN\u00e3o pensem aqueles que me ofereceram os presentes que eu n\u00e3o os apreciei. Pelo contr\u00e1rio, foi por apreci\u00e1-los que os entreguei ao acervo de Havana\u201d.<\/p>\n<p>Apesar do papel desempenhado por Fidel Castro durante v\u00e1rias d\u00e9cadas, n\u00e3o h\u00e1 em Cuba o culto da sua personalidade. N\u00e3o existem est\u00e1tuas, nem ruas ou pra\u00e7as com o seu nome. A sua ef\u00edgie n\u00e3o aparece em moedas ou em selos, e sempre recusou que lhe fosse atribu\u00edda qualquer condecora\u00e7\u00e3o. Estas homenagens est\u00e3o reservadas aos her\u00f3is j\u00e1 desaparecidos, como Jos\u00e9 Marti, Camilo Cienfuegos e Che Guevara.<\/p>\n<p>Fidel Castro foi numerosas vezes acusado de reprimir a liberdade religiosa. No entanto, fui convidado por ele para assistir \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o de uma igreja ortodoxa no centro de Havana. O terreno para a igreja tinha sido oferecido pelo Estado cubano e a sua constru\u00e7\u00e3o paga com contributos de cidad\u00e3os norte-americanos de origem grega, no seguimento de uma iniciativa do ex-rei Constantino, que esteve presente, ao lado de Fidel Castro, na cerim\u00f3nia. Tive, ainda, a oportunidade de assistir \u00e0 inaugura\u00e7\u00e3o por Fidel, de um convento destinado \u00e0 Ordem das irm\u00e3s brigiditinas, num edif\u00edcio que o Estado cubano disponibilizou e restaurou.<\/p>\n<p>Fidel tinha um sentido de humor acutilante. Durante a visita de uma delega\u00e7\u00e3o parlamentar portuguesa, presidida por Almeida Santos, o dirigente cubano ofereceu-lhe um almo\u00e7o. Perante o facto de Fidel falar com profundo conhecimento sobre todos os assuntos abordados, o Presidente da Assembleia da Rep\u00fablica perguntou-lhe se havia alguma coisa que ele n\u00e3o soubesse. Resposta de Fidel: \u201cH\u00e1 uma coisa que eu n\u00e3o sei: \u00e9 estar calado\u201d. Quando o almo\u00e7o j\u00e1 se prolongava h\u00e1 mais de cinco horas, Almeida Santos recordou a Fidel que tinha conhecimento de que ele viajava naquela mesma noite para a Venezuela, a convite de Hugo Ch\u00e1vez, e que a delega\u00e7\u00e3o n\u00e3o queria tomar-lhe mais tempo. Fidel respondeu-lhe: \u201cJ\u00e1 compreendi. Est\u00e1s cansado de me ouvir\u201d.<\/p>\n<p>Fidel Castro apreciava a companhia da fam\u00edlia. Reunia regularmente para almo\u00e7ar os cinco filhos que tinha com D\u00e1lia Sotto del Valle, que conheceu em 1961, e os numerosos netos. D\u00e1lia era uma senhora distinta e am\u00e1vel, que nunca aparecia em p\u00fablico e, de ser t\u00e3o discreta, apenas o c\u00edrculo mais pr\u00f3ximo do Presidente sabia da sua exist\u00eancia. Os filhos do casal n\u00e3o tinham qualquer cargo pol\u00edtico ou no aparelho de Estado. Exerciam as profiss\u00f5es de m\u00e9dico, f\u00edsico nuclear, engenheiro inform\u00e1tico, e um deles era operador de c\u00e2mara na televis\u00e3o cubana. D\u00e1lia disse-me que Fidel sempre fez quest\u00e3o de proteger a fam\u00edlia e de a manter afastada da vida p\u00fablica e dos olhos do mundo.<\/p>\n<p>Penso que Fidel era admirado e respeitado por uma grande parte do Povo cubano. A este prop\u00f3sito, recordo o que Almeida Santos escreveu ap\u00f3s uma visita a Cuba: \u201cFalei com muita gente. Como se imagina, j\u00e1 n\u00e3o sou facilmente ludibri\u00e1vel. Pois bem, regressei convencido de que continua elevado o grau de popularidade de Fidel\u201d. As centenas de milhar de pessoas que vimos desfilar nos \u00faltimos dias na Pra\u00e7a da Revolu\u00e7\u00e3o e ao longo da estrada que liga Havana a Santiago de Cuba, para lhe prestar uma derradeira homenagem, parecem prov\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Passaram apenas alguns dias sobre a morte de Fidel Castro. Em todos os cantos do mundo, assiste-se a coment\u00e1rios e debates nas televis\u00f5es, \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de artigos e a declara\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas sobre a sua personalidade. Isto demonstra, independentemente da opini\u00e3o que cada um possa ter a seu respeito, que Fidel \u00e9, al\u00e9m de uma lenda, uma das personalidades mais conhecidas e marcantes da segunda metade do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Nestes dias, testemunhei comportamentos distintos em rela\u00e7\u00e3o a Fidel Castro. Na televis\u00e3o, vi com alguma incredulidade um grupo de cubanos residentes em Miami cantar e dan\u00e7ar para celebrar a sua morte. Quando me desloquei \u00e0 Embaixada de Cuba para assinar o livro de condol\u00eancias, e contrastando com a cena de Miami, vi chegar cerca de vinte africanos com T-shirts com a ef\u00edgie de Fidel. De origem modesta, tinham chegado a Cuba para estudar, quando eram jovens adolescentes, idos dos seus pa\u00edses, onde a vida pouco ou nada lhes reservava. Eram m\u00e9dicos, engenheiros, investigadores e professores que, com discursos emocionados e chorando a morte de Fidel, como de um familiar se tratasse, tinham vindo prestar-lhe uma \u00faltima homenagem e expressar-lhe e a Cuba, a gratid\u00e3o por eles lhes terem dado os meios para serem cidad\u00e3os respons\u00e1veis e destacados profissionais.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil e precipitado fazer neste momento um julgamento isento sobre Fidel Castro e sobre o papel que foi o seu. Por outro lado, qualquer aprecia\u00e7\u00e3o que possa ser feita depender\u00e1 muito do posicionamento ideol\u00f3gico de quem a faz. O passar do tempo, que concede serenidade e faz esbater paix\u00f5es e \u00f3dios, permitir\u00e1 um dia \u00e0 Hist\u00f3ria julg\u00e1-lo, sendo ent\u00e3o poss\u00edvel verificar se esta, como Fidel disse um dia, o absolver\u00e1. Poder-se-\u00e1, ent\u00e3o, saber se a mem\u00f3ria que permanece de Fidel, \u00e9 a de um l\u00edder autorit\u00e1rio ou a de um homem not\u00e1vel e profundamente patriota, que dedicou toda a sua exist\u00eancia ao combate por uma Cuba independente e soberana. Perante as cr\u00edticas que alguns fazem \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o cubana, Fidel disse um dia: \u201cMeditem como este pequeno pa\u00eds p\u00f4de, durante quase meio s\u00e9culo, resistir \u00e0s investidas da mais poderosa pot\u00eancia. Isto s\u00f3 foi poss\u00edvel com base nos princ\u00edpios, nas ideias e na \u00e9tica\u201d.<\/p>\n<p><em>*Alfredo Duarte Costa foi Embaixador de Portugal em Cuba de 1999 a 2004<\/em><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/<wbr \/>?p=4236<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Alfredo Duarte Costa* N\u00e3o seria necess\u00e1rio partilhar o ide\u00e1rio e a perspectiva pol\u00edtica de Fidel para admirar o homem excepcional que era. 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