{"id":12941,"date":"2016-12-15T22:22:25","date_gmt":"2016-12-16T01:22:25","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12941"},"modified":"2016-12-29T19:39:29","modified_gmt":"2016-12-29T22:39:29","slug":"a-policia-que-quer-uma-nova-policia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12941","title":{"rendered":"A pol\u00edcia que quer uma nova pol\u00edcia"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"498\" width=\"747\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasileiros.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/forma----o-policiais-militares-rio-de-janeiro20140117_0005-1024x683.jpg?resize=747%2C498\" alt=\"imagem\" \/>Na contram\u00e3o do discurso que predomina nas corpora\u00e7\u00f5es, grupos progressistas de policiais militares e civis, guardas municipais e agentes dialogam pelas redes sociais e tentam repensar a seguran\u00e7a p\u00fablica<\/p>\n<p>Manuela Azenha<!--more--><\/p>\n<p>O caso Amarildo transformou o de\u00adle\u00adgado Orlando Zaccone em um \u201cpolicial que incomoda\u201d, como ele mesmo se define. O carioca da Tijuca j\u00e1 defendia publicamente quest\u00f5es controversas, ainda mais nesse meio, como a legaliza\u00e7\u00e3o de todas as drogas e a desmilitariza\u00e7\u00e3o do modelo de seguran\u00e7a. Al\u00e9m disso, o delegado tem uma trajet\u00f3ria incomum: antes de entrar para a pol\u00edcia, foi rep\u00f3rter do jornal O Globo durante um ano, ainda na juventude, desistiu e virou monge hare krishna, \u201cestava com alguns questionamentos existenciais\u201d, e depois foi cursar Direito.<\/p>\n<p>Mas nada disso o estigmatizou tanto quanto o papel que desempenhou ao rejeitar a tese de que o assistente de pedreiro, levado \u00e0 interrogat\u00f3rio na Unidade da Pol\u00edcia Pacificadora na Favela da Rocinha, Rio de Janeiro, e desaparecido desde ent\u00e3o, tinha liga\u00e7\u00f5es com o tr\u00e1fico: \u201cFui obrigado a realizar na pr\u00e1tica aquilo que sempre defendi. N\u00e3o podia deixar que se constru\u00edsse a imagem de Amarildo e de sua mulher como traficantes pelo simples fato de morarem na favela do lado da boca de fumo. No Brasil, o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 a viol\u00eancia policial, mas contra quem essa viol\u00eancia \u00e9 exercida. Se o Estado n\u00e3o consegue transformar o pedreiro em traficante, o policial vai preso. Se consegue, ganha medalha\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s seis meses de buscas pelo corpo do pedreiro, a Justi\u00e7a decretou a morte presumida de Amarildo. Em fevereiro deste ano, 12 dos 25 policiais militares denunciados pelo desaparecimento e morte de Amarildo, crime ocorrido em julho de 2013, foram condenados por tortura seguida de morte, oculta\u00e7\u00e3o de cad\u00e1ver e fraude processual.<\/p>\n<p>Depois do caso c\u00e9lebre, Zaccone saiu dos holofotes. Foi afastado da titularidade e transferido para uma delegacia de acervo de cart\u00f3rio, no qual trabalhava com inqu\u00e9ritos antigos, sem fazer atendimento ao p\u00fablico nem investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ainda que minorit\u00e1rio, \u00e9 crescente o n\u00famero de policiais adeptos ao discurso cr\u00edtico com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a p\u00fablica, que dialogam nacionalmente pela internet e se dedicam cada vez mais a forma\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas.<\/p>\n<p>Secret\u00e1rio-geral da Leap Brasil (Associa\u00e7\u00e3o dos Agentes da Lei contra a Proibi\u00e7\u00e3o), mestre em Ci\u00eancias Penais e doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica, Zaccone \u00e9 um dos 2.288 membros da p\u00e1gina de Facebook \u201cPoliciais Antifascismo\u201d. \u201cNa contram\u00e3o do pensamento hegem\u00f4nico de uma pol\u00edcia a servi\u00e7o do Estado brasileiro, policiais civis, militares e guardas municipais se re\u00fanem para construir uma pol\u00edcia mais pr\u00f3xima do povo\u201d, diz o texto de apresenta\u00e7\u00e3o do grupo.<\/p>\n<p>A seguran\u00e7a militarizada, segundo Zaccone, \u00e9 antidemocr\u00e1tica porque constr\u00f3i a figura de um inimigo dentro do Estado e o despe de todos os direitos de cidadania. \u201cIsso come\u00e7a com o traficante, mas pode ser o black block, o manifestante do MST. Temos duas quest\u00f5es: uma \u00e9 a exist\u00eancia de uma for\u00e7a policial militar, com um regimento militar e os trabalhadores que s\u00e3o constru\u00eddos n\u00e3o como trabalhadores, mas como soldados. A atua\u00e7\u00e3o militarizada da seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 outra quest\u00e3o. O fim da PM n\u00e3o resolve esse problema\u201d, diz o delegado.<\/p>\n<p>Para Zaccone, a discuss\u00e3o sobre um novo modelo de seguran\u00e7a p\u00fablica precisa passar por uma guinada e come\u00e7ar a envolver policiais: \u201cTem que falar com pra\u00e7a, com escriv\u00e3o. Se perguntar para oficial e delegado, eles v\u00e3o dizer que est\u00e1 tudo \u00f3timo. Esses modelos de seguran\u00e7a s\u00e3o pensados para garantir privil\u00e9gios. Deixar com que policiais participem disso pode ser um problema. Um policial que se identifica como trabalhador pode n\u00e3o querer jogar bomba e cassetete contra professor, porque a luta \u00e9 a mesma. Eles querem o policial como c\u00e3o de guarda\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m o que defende o tenente Anderson Duarte, da Pol\u00edcia Militar do Cear\u00e1, criador da p\u00e1gina de Facebook \u201cPolicial Pensador\u201d, com 3.813 membros. \u201cCriei a p\u00e1gina em 2014, quando percebi a falta de vozes dissonantes no debate da seguran\u00e7a p\u00fablica. Ou se fazia um debate conservador, militarista, de refor\u00e7o \u00e0 guerra, ou, por outro lado, um debate \u2018de esquerda\u2019 que n\u00e3o se preocupava em ouvir policiais progressistas, que via na pol\u00edcia algo apenas ruim e n\u00e3o buscava compreender o policial como um trabalhador\u201d.<\/p>\n<p>O antrop\u00f3logo Luiz Eduardo Soares, estudioso de seguran\u00e7a p\u00fablica h\u00e1 20 anos e um dos autores da PEC 51, que prop\u00f5e uma reforma na arquitetura institucional, diz que os policiais foram exclu\u00eddos do debate por uma soma de fatores: repress\u00e3o pol\u00edtica, proibi\u00e7\u00e3o de sindicaliza\u00e7\u00e3o de policiais militares e um discurso da categoria em sua maior parte exclusivamente corporativista, que n\u00e3o mobiliza o resto da sociedade por n\u00e3o discutir uma pol\u00edtica mais ampla de seguran\u00e7a p\u00fablica. \u201cEsta reportagem n\u00e3o poderia ser escrita h\u00e1 dez anos. \u00c9 algo absolutamente novo essa intelectualidade org\u00e2nica na pol\u00edcia e nos d\u00e1 muita esperan\u00e7a porque as mudan\u00e7as s\u00f3 acontecer\u00e3o se os policiais fizerem parte. Eles s\u00e3o os protagonistas\u201d, diz Soares.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca estudante universit\u00e1rio de Geografia, Duarte entrou para a pol\u00edcia \u201csem a menor no\u00e7\u00e3o\u201d dos problemas da seguran\u00e7a p\u00fablica brasileira \u2013 segundo ele, um modelo falido. A oportunidade de se aprofundar no assunto aconteceu especialmente em cursos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Durante o governo do ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, foi criada a Renaesp (Rede Nacional de Altos Estudos em Seguran\u00e7a P\u00fablica), programa nacional de estudo gratuito para agentes de seguran\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cOs mais de 50 mil homic\u00eddios ao ano, junto \u00e0 crescente taxa de encarceramento, demonstram como nosso sistema \u00e9 falido. Nossos policiais s\u00e3o mal remunerados, desvalorizados, matam e morrem muito, inclusive h\u00e1 altas taxas de suic\u00eddio. A democracia ainda n\u00e3o chegou plenamente aos quart\u00e9is, como mostram as pris\u00f5es disciplinares, que colocam os policiais militares em condi\u00e7\u00f5es de cidad\u00e3os de segunda categoria. Isso s\u00f3 se explica numa situa\u00e7\u00e3o de guerra, de exce\u00e7\u00e3o. A guerra que temos \u00e9 a \u2018guerra \u00e0s drogas\u2019, que subverte o trabalho da pol\u00edcia, fazendo com que ela deixe o seu papel de media\u00e7\u00e3o de conflitos, fundamental para qualquer democracia, e se dedique majoritariamente \u00e0 apreens\u00e3o de drogas, que n\u00e3o \u00e9 um problema de pol\u00edcia, mas de sa\u00fade p\u00fablica e de economia, j\u00e1 que h\u00e1 uma demanda e uma oferta que precisam ser regulamentadas. Como resultado do abandono do Estado nesse campo, mortes e pris\u00f5es dos mais pobres, sem qualquer diminui\u00e7\u00e3o da sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso desmilitarizar a pol\u00edtica\u201d, diz Duarte.<\/p>\n<p>Dados do 10\u00ba Anu\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica mostram que nove pessoas s\u00e3o mortas por policiais por dia no Brasil e ao menos um policial \u00e9 morto, em sua maioria em hor\u00e1rio de folga. De 2014 a 2015, houve uma estabiliza\u00e7\u00e3o do n\u00famero de mortes violentas no Pa\u00eds, mas as decorrentes de a\u00e7\u00f5es policiais cresceram 6,3%, chegando a 3.345. O n\u00famero de policiais mortos caiu 3,9%, para 393.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"1024\" width=\"507\" decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasileiros.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Dados_Policia_01-507x1024.jpg?resize=507%2C1024\" alt=\"imagem\" \/><\/p>\n<p>Apesar de seu ativismo, Duarte nunca foi preso administrativamente. Segundo ele, no entanto, h\u00e1 formas de puni\u00e7\u00e3o veladas, como transfer\u00eancias n\u00e3o motivadas e a n\u00e3o promo\u00e7\u00e3o. Em 2015, Duarte foi selecionado pela Secretaria Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica para compor uma equipe de cinco policiais que trabalhariam no Pacto Nacional pela Redu\u00e7\u00e3o de Homic\u00eddios. A Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Cear\u00e1, no entanto, n\u00e3o o liberou para ir.<\/p>\n<p>Abusos cometidos pela pol\u00edcia n\u00e3o s\u00e3o um desvio de fun\u00e7\u00e3o da corpora\u00e7\u00e3o \u2013 pelo contr\u00e1rio. Desde sua origem, o sistema de seguran\u00e7a p\u00fablica no Brasil existe para servir ao Estado e \u00e0 elite, e n\u00e3o \u00e0 sociedade como um todo. \u00c9 o que diz Elisandro Lotin, cabo da Pol\u00edcia Militar de Santa Catarina: \u201cN\u00f3s temos um Estado altamente concentrador e idealizado a partir de uma l\u00f3gica econ\u00f4mica excludente e elitista. A pol\u00edcia tem por fun\u00e7\u00e3o manter o controle social de 95% da popula\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 fora de qualquer discuss\u00e3o pol\u00edtico-econ\u00f4mica, quando necess\u00e1rio, com a utiliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia.\u00a0A grande quest\u00e3o \u00e9 que o policial n\u00e3o se d\u00e1 conta de que faz parte desses 95% de exclu\u00eddos\u201d.<\/p>\n<p>Em outubro, a Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo havia determinado, com base em A\u00e7\u00e3o P\u00fablica Civil movida pela Defensoria P\u00fablica, que o Estado pagasse R$ 8 milh\u00f5es de indeniza\u00e7\u00e3o por danos morais coletivos em fun\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia policial ocorrida nas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013, que a PM elaborasse um protocolo de uso da for\u00e7a em protestos no prazo de 30 dias e cada soldado que atuasse nesse tipo de evento portasse identifica\u00e7\u00e3o vis\u00edvel com o nome e o posto na hierarquia. A senten\u00e7a dizia tamb\u00e9m que armas menos letais, como balas de borracha, bombas de efeito moral e g\u00e1s lacrimog\u00eaneo, s\u00f3 poderiam ser usadas em \u201csitua\u00e7\u00e3o excepcional\u00edssima\u201d, cabendo \u00e0 PM, em caso do emprego do armamento, \u201cinformar ao p\u00fablico em geral que circunst\u00e2ncias justificaram sua a\u00e7\u00e3o e qual o nome do policial militar que determinou a repress\u00e3o\u201d. Menos de um m\u00eas depois da decis\u00e3o em primeira inst\u00e2ncia, o Tribunal de Justi\u00e7a suspendeu, em 7 de novembro, a liminar que limitava a atua\u00e7\u00e3o da PM em manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia contra manifestantes se repetiu nos diversos protestos contra o governo de Michel Temer neste ano. No primeiro dia de Presid\u00eancia definitiva do peemedebista, uma jovem perdeu a vis\u00e3o de um olho ao ser atingida por uma bala de borracha durante um ato em S\u00e3o Paulo. Profissionais da imprensa, ainda que identificados, tamb\u00e9m foram v\u00edtimas de agress\u00f5es da pol\u00edcia enquanto cobriam manifesta\u00e7\u00f5es. Caso da rep\u00f3rter fotogr\u00e1fica Marlene Bergamo, da <em>Folha de S.Paulo<\/em>, que foi atingida por uma bala de borracha no dia 2 de novembro, durante a desocupa\u00e7\u00e3o de um pr\u00e9dio na regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Lotin \u00e9 presidente da Anaspra (Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Pra\u00e7as), membro da diretoria da Aprasc (Associa\u00e7\u00e3o dos Pra\u00e7as de Santa Catarina), do Conasp (Conselho Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica) e do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Foi tamb\u00e9m candidato a deputado estadual pelo PSOL em 2014. \u00a0Pelo C\u00f3digo Penal Militar e pelos regulamentos vigentes, ele n\u00e3o poderia sequer conceder esta entrevista: \u201cFui punido v\u00e1rias vezes, inclusive com pris\u00e3o administrativa. Voc\u00ea consegue imaginar um m\u00e9dico que n\u00e3o possa falar de sa\u00fade? Pois \u00e9, os policiais da base n\u00e3o podem falar sobre seguran\u00e7a p\u00fablica. Mas, cada vez mais, nosso pessoal questiona e se mobiliza contra isso\u201d.<br \/>\n<img data-recalc-dims=\"1\" height=\"1024\" width=\"507\" decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasileiros.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Dados_Policia_02-507x1024.jpg?resize=507%2C1024\" alt=\"Dados_Policia_02\" \/><\/p>\n<p>A Anaspra defende a desmilitariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia como forma de desvincular a corpora\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito, inserir esses profissionais no \u00e2mbito dos direitos trabalhistas e humanizar as rela\u00e7\u00f5es dentro dos quart\u00e9is. Para Lotin, defender os direitos dos policiais \u00e9 o primeiro passo para combater a viol\u00eancia cometida pelo Estado brasileiro, uma das mais altas do mundo, e repensar um novo modelo de seguran\u00e7a p\u00fablica: \u201cSe o policial \u00e9 aviltado em seus direitos mais b\u00e1sicos enquanto trabalhador e cidad\u00e3o, ele vai respeitar os direitos dos outros?\u201d.<\/p>\n<p>Segundo o cabo, o n\u00famero de den\u00fancias de tortura e maus-tratos nos quart\u00e9is \u00e9 crescente, o que n\u00e3o significa necessariamente aumento dos casos de abuso, mas das den\u00fancias em si. Para ele, isso se deve principalmente ao uso das redes sociais. \u201cEssa \u00e9 a minha percep\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem nenhum levantamento das den\u00fancias, nem dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a, que tentam esconder, nem dos \u00f3rg\u00e3os de pesquisa, que n\u00e3o t\u00eam acesso a esses dados.\u201d<\/p>\n<p>Soares conta que a promotora Glaucia Santana, do Rio de Janeiro, apresentou um termo de ajuste de conduta ao Estado em dezembro de 2015, ap\u00f3s receber den\u00fancias an\u00f4nimas de policiais de UPPs: \u201cOriginalmente, o relat\u00f3rio dela come\u00e7ava assim: \u2018Eu encontrei os policiais trabalhando em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 da escravid\u00e3o\u2019. Fizemos reuni\u00f5es com tr\u00eas coron\u00e9is da PM para apresentar esse documento. Os tr\u00eas disseram, de forma un\u00e2nime, que isso acontece porque os policiais s\u00e3o militares. Se eles reclamarem, denunciarem, se recusarem a cumprir essas jornadas, eles s\u00e3o presos administrativamente e correm o risco de perder as suas carreiras. Eles n\u00e3o t\u00eam direito \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o, desobedi\u00eancia, sindicatos. Isso \u00e9 muito \u00fatil para os governos, que podem exigir que eles trabalhem em turnos dobrados, submetidos a todo tipo de press\u00e3o. \u00c9 evidente que a luta corporativa necess\u00e1ria e leg\u00edtima se encontra naturalmente com uma luta pol\u00edtica muito maior, que \u00e9 a desmilitariza\u00e7\u00e3o. Outra bandeira coincidente \u00e9 pela carreira \u00fanica, acabando com essa fronteira que faz com que pra\u00e7as nunca cheguem a oficiais, os n\u00e3o delegados jamais virem delegados\u201d.<\/p>\n<p><strong>Treinamento<\/strong><\/p>\n<p>O \u00edndice de ass\u00e9dios moral e sexual de mulheres nos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a p\u00fablica chega a quase 40%, segundo dados do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. \u201cTem imagens na internet, qualquer um pode ver, de policial em treinamento e comendo a mesma comida que um cachorro, na mesma gamela. Tortura psicol\u00f3gica, isso \u00e9 regra. As amea\u00e7as. Tivemos casos de policiais fazendo flex\u00e3o no asfalto quente \u00e0s 15h, num sol de 40 graus. O filme <em>Tropa de Elite<\/em> mostra aquela cena dos caras comendo comida no ch\u00e3o. Aquilo acontece\u201d, diz Lotin. Em 2013, um policial militar teve morte cerebral dias ap\u00f3s passar mal durante um treinamento no qual fazia exerc\u00edcios no ch\u00e3o quente.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"420\" width=\"747\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-203502\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasileiros.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Tropa-De-Elite-2007-5.1-CH-Dublado-1080p-By-LuanHarper.01_15_31_17.Still006-1024x576.jpg?resize=747%2C420\" alt=\"imagem\" \/><\/p>\n<p class=\"wp-caption-text\">HUMILHA\u00c7\u00c3O \u2013 Cena do filme \u201cTropa de Elite\u201d \u2013 No treinamento, policiais comem comida no ch\u00e3o. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A primeira dificuldade de mobiliza\u00e7\u00e3o acontece entre os pr\u00f3prios PMs, segundo Lotin: \u201cPara come\u00e7ar, a Constitui\u00e7\u00e3o nos pro\u00edbe de ter sindicato, temos uma associa\u00e7\u00e3o. Primeiro voc\u00ea tem que vencer barreiras internas, nosso pr\u00f3prio pessoal tem dificuldade em aceitar que tem direitos pelos quais deve lutar. Quando ouve falar em manifesta\u00e7\u00e3o, o cara fica com um ponto de interroga\u00e7\u00e3o: n\u00e3o sabe se \u00e9 trabalhador, policial ou militar, se \u00e9 cidad\u00e3o, se n\u00e3o \u00e9. Ele \u00e9 condicionado ao longo da sua vida para n\u00e3o pensar nisso\u201d. Lotin diz que n\u00e3o existe um movimento organizado desses policiais, tampouco uma agenda de mobiliza\u00e7\u00e3o em comum. Segundo ele, foi algo que surgiu \u201cespontaneamente\u201d em diversos lugares do Brasil.<\/p>\n<p>Em setembro deste ano, a Anaspra se reuniu com o secret\u00e1rio Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica, Celso Perioli, e com o ministro da Justi\u00e7a, Alexandre de Moraes, para discutir as demandas da categoria, como o fim das pris\u00f5es administrativas, a rearticula\u00e7\u00e3o de um grupo de discuss\u00e3o sobre ass\u00e9dio moral e sexual dentro dos quart\u00e9is e a quest\u00e3o previdenci\u00e1ria.<br \/>\nO projeto de lei 148, que extingue as pris\u00f5es administrativas, foi aprovado na C\u00e2mara em agosto e agora tramita no Senado. \u201cEssa pris\u00e3o \u00e9 discricion\u00e1ria, ou seja, depende de o comandante ir com a sua cara ou n\u00e3o. N\u00e3o tem um regulamento claro e que esteja de acordo com os ditames da Constitui\u00e7\u00e3o. Se eu me envolver em uma ocorr\u00eancia e acabar tirando a vida de algu\u00e9m, \u00e9 bem prov\u00e1vel que eu responda em liberdade. Mas se tiver sem chap\u00e9u, posso ir preso\u201d, diz Lotin. A pris\u00e3o administrativa segue um rito mais r\u00e1pido do que a comum e \u00e9 determinada por um comandante, via de regra por quest\u00f5es internas, como vestir uma bota suja, chegar atrasado ou dar uma declara\u00e7\u00e3o para a imprensa.<\/p>\n<p>O sargento Luciano Galesco, da Pol\u00edcia Militar de S\u00e3o Paulo, ficou preso administrativamente por dois dias ap\u00f3s reclamar em sua p\u00e1gina de Facebook do lanche oferecido no quartel. Segundo seu advogado, Raul Marcolino, o deputado estadual Coronel Telhada (PSDB-SP) alegou ter se sentido ofendido com a publica\u00e7\u00e3o e comunicou o fato ao comandante-geral da PM, que determinou a pris\u00e3o.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasileiros.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Dados_Policia_03.jpg?w=747\" alt=\"Dados_Policia_03\" \/><\/p>\n<p>Marcolino foi policial militar por 12 anos, per\u00edodo no qual se formou em Direito. Em 2014, pediu exonera\u00e7\u00e3o para ser advogado e defender policiais v\u00edtimas de abuso: \u201cPresenciei casos e fui v\u00edtima de outros. Fui preso injustamente diversas vezes, processado administrativamente e sempre consegui me defender, por isso fui ser advogado. Sendo policial, n\u00e3o conseguia ajudar ningu\u00e9m, agora posso ajudar policiais\u201d.<\/p>\n<p>Marcolino recorrentemente recebe amea\u00e7as veladas por causa de sua atua\u00e7\u00e3o profissional e diz que precisa andar de carro blindado. O advogado conta que seus clientes costumam sofrer repress\u00f5es no quartel depois de serem defendidos por ele. Ainda assim, \u00e9 cada vez maior o n\u00famero de policiais que o procuram.<\/p>\n<p>Lotin defende que o fortalecimento do movimento de policiais questionadores acompanhou a cria\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, que completa dez anos: \u201cEssas pesquisas referendaram aquilo que a gente sabia empiricamente. Saber que 74% dos policiais militares entrevistados defendem a desmilitariza\u00e7\u00e3o como forma de humaniza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica nos d\u00e1 um sentido maior e nos diz que temos que mudar o modelo\u201d.<\/p>\n<p>Ainda assim, as ideologias de direita e extrema-direita predominam dentro das institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. Em um encontro de policiais trabalhando nos Jogos Ol\u00edmpicos no Rio de Janeiro, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), conhecido por defender a pena de morte e a\u00e7\u00f5es violentas da pol\u00edcia contra criminosos, foi ovacionado e recebido com flex\u00f5es. \u201cBolsonaro \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u00edcone entre os policiais, e \u00e9 estranho isso porque ele nunca defendeu a categoria. Ali\u00e1s, recentemente, votou a favor da PEC 241, que poder\u00e1 congelar sal\u00e1rios e at\u00e9 promo\u00e7\u00f5es. Acho que o pessoal est\u00e1 come\u00e7ando a acordar para a demagogia do mito\u201d, diz Lotin.<\/p>\n<p>Zaccone enxerga a atual crise econ\u00f4mica como oportunidade de conscientiza\u00e7\u00e3o: \u201cDo ponto de vista pol\u00edtico, \u00e9 um momento maravilhoso porque os policiais est\u00e3o vendo que todo o exerc\u00edcio do modelo que interessa ao poder pol\u00edtico e jur\u00eddico n\u00e3o traz nenhum retorno para eles enquanto trabalhadores. Com a crise financeira dos estados, os policiais est\u00e3o sem sal\u00e1rio. Nesse momento cai a ficha de que s\u00e3o trabalhadores\u201d.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: ALINHAMENTO \u2013 Policiais militares em solenidade de formatura no Rio de Janeiro \u2013 Foto: Clarice Castro\/Fotos P\u00fablicas<\/p>\n<p>Link curto: http:\/\/brasileiros.com.br\/llHuk<\/p>\n<p>http:\/\/brasileiros.com.br\/2016\/12\/policia-que-quer-uma-nova-policia\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Na contram\u00e3o do discurso que predomina nas corpora\u00e7\u00f5es, grupos progressistas de policiais militares e civis, guardas municipais e agentes dialogam pelas redes sociais \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12941\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-12941","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3mJ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12941","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12941"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12941\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12941"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12941"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12941"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}