{"id":12963,"date":"2016-12-19T10:52:48","date_gmt":"2016-12-19T13:52:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12963"},"modified":"2016-12-29T19:40:05","modified_gmt":"2016-12-29T22:40:05","slug":"trump-na-casa-branca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12963","title":{"rendered":"Trump na Casa Branca"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/AUTORESNOAMCHOMSKY2_0201_01.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>C. J. Polychroniou* &#8211; Truthout<\/p>\n<p>\u00abUm dos grandes sucessos do discurso hegem\u00f3nico foi desviar a indigna\u00e7\u00e3o, da classe empresarial para o governo que implementa os programas que os empres\u00e1rios planifica. Com todas as suas falhas, o governo est\u00e1 em certa medida sob o controle e influ\u00eancia do povo, ao contr\u00e1rio do sector empresarial. \u00c9 muito vantajoso para o mundo dos neg\u00f3cios fomentar o \u00f3dio aos burocratas pedantes do governo e afastar das pessoas a ideia subversiva de que o governo poderia transformar-se num instrumento da vontade popular, um governo de, por e para o povo.\u00bb<!--more--><\/p>\n<p><strong>A 8 de Novembro de 2016, Donald Trump conseguiu a maior surpresa na hist\u00f3ria pol\u00edtica dos Estados Unidos, aproveitando-se com \u00eaxito do mal-estar dos votantes brancos e recorrendo \u00e0s inclina\u00e7\u00f5es mais baixas das pessoas, de um modo que provavelmente teria impressionado o propagandista Joseph Goebbels.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Mas que significa exactamente a vit\u00f3ria de Trump? Que podemos esperar deste megal\u00f3mano quando tomar as r\u00e9deas do poder a 20 de Janeiro de 2017? Qual \u00e9 \u2014 caso a tenha \u2014 a ideologia politica de Trump? O trumpismo \u00e9 um movimento? A pol\u00edtica externa do governo de Trump ser\u00e1 diferente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>O intelectual Noam Chomsky avisou h\u00e1 anos que o clima pol\u00edtico nos Estados Unidos estava a propiciar a subida de uma figura autorit\u00e1ria. Agora compartilha as suas reflex\u00f5es sobre as consequ\u00eancias desta elei\u00e7\u00e3o, o estado ag\u00f3nico do sistema pol\u00edtico norte-americano e porque Trump constitui uma amea\u00e7a real para o mundo e para o planeta em geral.<\/strong><\/p>\n<p><strong>C.J. Polychroniou para Truthout: Noam, aconteceu o impens\u00e1vel. Desafiando todos os progn\u00f3sticos, Donald Trump conseguiu uma vitoria decisiva sobre Hillary Clinton e o homem que Michael Moore descreveu como \u00abum miser\u00e1vel, ignorante, perigoso palha\u00e7o a tempo parcial e sociopata a tempo inteiro\u00bb ser\u00e1 o pr\u00f3ximo presidente dos Est\u00e1dios Unidos. Na sua opini\u00e3o, quais foram os factos decisivos que levaram os votantes norte-americanos a causar a maior surpresa na hist\u00f3ria pol\u00edtica dos pais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Noam Chomsky:<\/strong> Antes de me referir a este assunto, creio que \u00e9 importante dedicar um momento a pensar no que se passou a 8 de Novembro, uma data que talvez se torne numa das mais transcendentes da hist\u00f3ria humana, dependendo de qual seja a nossa reac\u00e7\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 um exagero.<\/p>\n<p>A not\u00edcia mais importante de 8 de Novembro passou quase desapercebida, um facto j\u00e1 de si significativo.<br \/>\nNesse dia a Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial (OMM) apresentou uma informa\u00e7\u00e3o na confer\u00eancia internacional sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica de Marrocos (COP22) que foi solicitada para fazer avan\u00e7ar o acordo de Paris da COP21. A OMM informou que os \u00faltimos cinco anos foram os mais quentes de que h\u00e1 registo. Apresentou a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar, que vai continuar a aumentar devido \u00e0 inesperada rapidez do derretimento da capa de gelo polar, principalmente dos enormes glaciares ant\u00e1rcticos. J\u00e1 neste momento o gelo do Oceano \u00c1rctico dos \u00faltimos cinco anos \u00e9 28% inferior \u00e0 m\u00e9dia dos 29 anos anteriores, o que n\u00e3o s\u00f3 eleva o n\u00edvel do mar, mas reduz tamb\u00e9m o efeito de esfriamento que produz o reflexo na calota polar dos raios do sol, o que acelera os efeitos nefastos do aquecimento global. A OMM assinalou ainda que as temperaturas se aproximam perigosamente da meta estabelecida pela COP 21, juntamente com outras informa\u00e7\u00f5es e progn\u00f3sticos alarmantes.<\/p>\n<p>Outro acontecimento ocorreu a 8 de Novembro, que tamb\u00e9m pode chegar a ter uma inusitada import\u00e2ncia hist\u00f3rica por raz\u00f5es que por sua vez passaram quase inadvertidas.<\/p>\n<p>A 8 de Novembro no pa\u00eds mais poderoso da hist\u00f3ria houve uma elei\u00e7\u00e3o que deixar\u00e1 a sua marca no futuro. O resultado outorgou o controlo total do governo \u2014 o Executivo, o Congresso e a Corte Suprema \u2014 em m\u00e3os do Partido Republicano, que se transformou na organiza\u00e7\u00e3o mais perigosa da hist\u00f3ria mundial.<br \/>\nDeixando de lado a \u00faltima parte, o resto n\u00e3o est\u00e1 em discuss\u00e3o. Esta \u00faltima parte pode ser um disparate, at\u00e9 escandalosa. Mas ser\u00e1? Os factos sugerem o contr\u00e1rio. O partido est\u00e1 dedicado a apressar a destrui\u00e7\u00e3o da vida humana organizada. N\u00e3o existem precedentes hist\u00f3ricos para essa postura.<br \/>\n\u00c9 um exagero? Vejamos o que presenciamos.<\/p>\n<p>Durante as primarias republicanas todos os candidatos negaram que se passaria o que passou, com excep\u00e7\u00e3o de sensatos moderados como Jeb Bush, que disse que h\u00e1 problemas mas que n\u00e3o devemos fazer nada porque estamos a produzir mais g\u00e1s natural gra\u00e7as ao fracking. Ou como John Kasich, que concordou que o aquecimento global \u00e9 uma realidade, mas acrescentou que \u00abvamos queimar carbono em Ohio e n\u00e3o vamos pedir desculpas por isso\u00bb.<\/p>\n<p>O candidato vencedor, agora presidente eleito, pediu para aumentar rapidamente o uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis, incluindo o carbono; eliminar leis, retirar a ajuda a pa\u00edses em desenvolvimento que procurem gerar energias sustent\u00e1veis e, em geral, correr a toda a pressa para o precip\u00edcio.<\/p>\n<p>Trump j\u00e1 tomou medidas para desmantelar a Agencia de Protec\u00e7\u00e3o Ambiental (EPA) ao colocar para a transi\u00e7\u00e3o um consp\u00edcuo (e orgulhoso) negacionista da altera\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, Myron Ebell. O principal assessor de Trump na energia, o multimilion\u00e1rio executivo do petr\u00f3leo Harold Hamm, anunciou as suas previs\u00edveis expectativas: elimina\u00e7\u00e3o de leis, cortes fiscais para a ind\u00fastria (e para os ricos e o sector empresarial em geral), maior produ\u00e7\u00e3o de hidrocarbonetos, levantamento do veto tempor\u00e1rio de Obama ao oleoduto do Dakota. O mercado reagiu com rapidez. As ac\u00e7\u00f5es das empresas de energia dispararam, incluindo a maior mineira carbon\u00edfera do mundo, PeabodyEnergy, que se havia declarado em quebra, mas que depois da vit\u00f3ria de Trump registou uma subida de 50%.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias do negacionismo republicano j\u00e1 se tinham feito sentir. Havia esperan\u00e7as de que o acordo de Paris da COP21 levasse a um tratado verific\u00e1vel, mas foram abandonadas porque o Congresso republicano n\u00e3o aceitaria qualquer compromisso vinculador, por isso apenas surgiu um acordo volunt\u00e1rio, evidentemente muito mais d\u00e9bil.<\/p>\n<p>Essas consequ\u00eancias poder\u00e3o come\u00e7ar a viver-se em breve. S\u00f3 no Bangladesh espera-se que dezenas de milh\u00f5es de pessoas se vejam for\u00e7adas a escapar das terras baixas nos pr\u00f3ximos anos devido \u00e0 subida do novel do mar e a condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas mais graves, o que vai gerar uma crise migrat\u00f3ria que far\u00e1 empalidecer a actual. Com bastante justi\u00e7a o climat\u00f3logo mais destacado de Bangladesh disse que \u00abestes migrantes deviam ter o direito de mudar-se para os pa\u00edses de onde prov\u00eam as emiss\u00f5es de gases. Milh\u00f5es deviam poder ir para os Estados Unidos\u00bb. E para as outras na\u00e7\u00f5es que aumentaram as suas riquezas enquanto originavam uma nova era geol\u00f3gica, o Antropoceno, caracterizada por uma transforma\u00e7\u00e3o radical do meio ambiente feita pelo ser humano. Estas consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas s\u00f3 ir\u00e3o aumentar, n\u00e3o s\u00f3 no Bangladesh mas tamb\u00e9m em todo o sul da \u00c1sia, \u00e0 medida que as temperaturas j\u00e1 por si intoler\u00e1veis para os pobres aumentem inexoravelmente e derretam os glaciares himalaios, o que por\u00e1 em perigo todas as reservas de \u00e1gua. Neste momento na \u00cdndia 300 milh\u00f5es de pessoas carecem de acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel. E as repercuss\u00f5es ter\u00e3o um alcance muito maior.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil encontrar as palavras que d\u00e3o uma dimens\u00e3o exacta ao facto de os seres humanos estarem a enfrentar a pergunta mais importante da sua hist\u00f3ria, que \u00e9 se a vida humana organizada sobreviver\u00e1 como a conhecemos, quando a resposta \u00e9 acelerar a corrida para o desastre.<\/p>\n<p>Observa\u00e7\u00f5es semelhantes podem fazer-se em outros grandes temas recorrentes \u00e0 sobreviv\u00eancia humana: a amea\u00e7a da destrui\u00e7\u00e3o nuclear, presente desde os anos 70 e que agora est\u00e1 a aumentar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 menos dif\u00edcil encontrar palavras para explicar o facto t\u00e3o surpreendente de que na enorme cobertura informativa do grande espect\u00e1culo eleitoral nada disto tenha recebido mais do que simples men\u00e7\u00f5es. Pelo menos para mim, \u00e9 dif\u00edcil encontra as palavras adequadas.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 pergunta formulada, para ser preciso, parece que Hillary Clinton obteve uma leve maioria de votos. A vit\u00f3ria evidente e categ\u00f3rica relaciona-se com aspectos curiosos da pol\u00edtica norte americana. Entre outros factores, o Col\u00e9gio Eleitoral, uma reminisc\u00eancia da funda\u00e7\u00e3o do pa\u00eds como alian\u00e7a entre v\u00e1rios estados; o sistema \u00abtudo para o vencedor\u00bb em cada estado; a manipula\u00e7\u00e3o dos distritos eleitorais para dar maior peso aos votos rurais (em elei\u00e7\u00f5es anteriores e talvez tamb\u00e9m nesta, os democratas tinham conseguido uma vantagem c\u00f3moda no voto popular para a C\u00e2mara dos Representantes, mas uma minoria de eleitos; a taxa elevada de absten\u00e7\u00e3o (em geral cerca da metade em elei\u00e7\u00f5es presidenciais, esta inclu\u00edda). Tem certa import\u00e2ncia para o futuro que no escal\u00e3o dos 18 a 25 anos Clinton ganhou com facilidade e que Sanders teve at\u00e9 um n\u00edvel maior de apoio. Do interesse de tudo isto depender\u00e1 o futuro que a humanidade vir\u00e1 a enfrentar.<\/p>\n<p>Segundo a informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel, Trump bateu todos os recordes em apoio recebido de votantes brancos, classe trabalhadora e classe m\u00e9dia baixa, principalmente na taxa de sal\u00e1rios de 50 000 a 90 000 d\u00f3lares, rural e suburbano, sobretudo dos que n\u00e3o tem educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. Estes grupos partilham o rep\u00fadio que circula em todo o Ocidente pela classe dominante, como revela o voto imprevisto pelo brexit e o colapso dos partidos de centro na Europa continental. Muitos dos ressentidos e revoltados s\u00e3o v\u00edtimas das pol\u00edticas neoliberais da gera\u00e7\u00e3o anterior, politicas descritas em testemunho perante o Congresso pelo presidente da Reserva Federal Alan Greenspan, o \u00abSan Alan\u00bb, como lhe chamavam com respeito economistas e outros admiradores, at\u00e9 que a economia milagrosa que ele dirigia caiu em 2007-2008 amea\u00e7ando derrubar a economia mundial com ela. Tal como explicava Greenspan durante os seus dias de gl\u00f3ria, o \u00eaxito no tratamento da economia estava essencialmente baseado na \u00abinseguran\u00e7a crescente dos trabalhadores\u00bb. Os trabalhadores atemorizados n\u00e3o pediriam aumentos salariais, benef\u00edcios ou seguran\u00e7a, mas ficariam satisfeitos com os sal\u00e1rios congelados e menores benef\u00edcios que s\u00e3o as regras necess\u00e1rias para uma economia saud\u00e1vel de acordo com as bandeiras neoliberais.<\/p>\n<p>Os trabalhadores, sujeitos a estas experi\u00eancias de teoria econ\u00f3mica, n\u00e3o est\u00e3o demasiado contentes com o resultado. Por exemplo, n\u00e3o est\u00e3o cheios de alegria pelo facto de em 2007, no melhor momento do milagre neoliberal, o sal\u00e1rio real dos trabalhadores ser mais baixo que nos anos anteriores ou que o sal\u00e1rio real dos trabalhadores masculinos estar ao n\u00edvel de 1960, enquanto os lucros espectaculares foram para os bolsos de uns poucos l\u00e1 em cima, uma frac\u00e7\u00e3o de 1%. N\u00e3o como resultado das leis do mercado, de merecimentos ou de sucessos, mas na raiz de decis\u00f5es pol\u00edticas concretas, assunto estudado em pormenor pelo economista Dean Baker num trabalho recentemente publicado.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo mostra o que se est\u00e1 a passar. Durante o per\u00edodo de crescimento alto e igualit\u00e1rio dos anos cinquenta e sessenta, o sal\u00e1rio m\u00ednimo \u2014 que estabelece um patamar para os outros sal\u00e1rios \u2014 acompanhou a produtividade. Isso acabou com a chegada da doutrina neoliberal. Desde ent\u00e3o, o sal\u00e1rio m\u00ednimo estagnou (em valores reais). Se tivesse continuado como dantes, estaria agora a cerca de 20 d\u00f3lares \u00e0 hora. Hoje \u00e9 considerado uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que se eleve a 15 d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Com tudo o que se diz sobre o quase pleno emprego actual, a participa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a laboral encontra-se abaixo do que era a norma. E, para os trabalhadores, existe uma grande diferen\u00e7a entre um trabalho est\u00e1vel na ind\u00fastria com sal\u00e1rios fixados pelo sindicato mais benef\u00edcios, como acontecia em anos anteriores, e um trabalho tempor\u00e1rio com escassa seguran\u00e7a laboral no sector de servi\u00e7os. Al\u00e9m dos sal\u00e1rios, benef\u00edcios e seguran\u00e7a h\u00e1 uma perda de dignidade, de esperan\u00e7a no futuro, de um sentido de perten\u00e7a ao mundo e no qual se desempenha um papel valioso.<\/p>\n<p>O impacto est\u00e1 bem delineado no trabalho de Artie Hochshild, um retrato sens\u00edvel e esclarecedor de um reduto de Trump na Luisiana, onde viveu e trabalhou durante muitos anos. Ela utiliza a imagem de uma fila em que as pessoas est\u00e3o paradas, esperando avan\u00e7ar a passo firme enquanto trabalham com empenho e se ate\u00eam a todos os valores tradicionais. Mas a sua posi\u00e7\u00e3o na fila parou. \u00c0 sua frente v\u00eaem que muita gente avan\u00e7a, mas isso n\u00e3o os aflige muito porque essa \u00e9 a maneira como o estilo norte americano recompensa o (suposto) m\u00e9rito. O que lhes causa uma verdadeira ang\u00fastia \u00e9 o que acontece atr\u00e1s deles. Acham que as pessoas indignas, que n\u00e3o cumprem as regras lhes passam \u00e0 frente devido aos programas do governo federal, que equivocadamente julgam destinados a beneficiar os afro-americanos, emigrantes e outros que rejeitam com desprezo. Tudo isso \u00e9 exacerbado pelas fic\u00e7\u00f5es racistas de Reagan sobre os \u00abaproveitadores da Assist\u00eancia Social\u00bb que roubam aos brancos o dinheiro que tanto lhes custou a ganhar e outras fantasias.<\/p>\n<p>Por vezes a falta de explica\u00e7\u00f5es, uma forma de desprezo em si mesma, joga um papel ao fomentar o \u00f3dio ao governo. Uma vez conheci um pintor de casas em B\u00f3ston, que se tinha tornado um opositor feroz do \u00abdiab\u00f3lico\u00bb governo depois que um burocrata de Washington que nada sabia sobre pintura ter organizado uma reuni\u00e3o de pintores a contrato para os informar de que j\u00e1 n\u00e3o podiam usar tinta com chumbo \u2014 \u00aba \u00fanica que funciona\u00bb \u2014 como eles o faziam, mas o tipo de fato n\u00e3o o entendeu. Isso destruiu a sua pequena empresa, for\u00e7ando-o a pintar casas por sua conta com elementos de m\u00e1 qualidade que as leis governamentais lhe impuseram.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes existem algumas raz\u00f5es reais para estas atitudes contra as burocracias estatais. Hochschild descreve um homem cuja fam\u00edlia e amigos sofrem amargamente os efeitos letais da contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica mas que despreza o governo e as elites liberais porque para ele a EPA \u00e9 um tipo ignorante que lhe diz que n\u00e3o pode pescar, mas nada faz contra as f\u00e1bricas qu\u00edmicas.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o amostras das vidas reais dos seguidores de Trump, a quem fizeram acreditar que Trump far\u00e1 alguma coisa para remediar a sua situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, embora um simples olhar sobre as suas propostas fiscais e de outro tipo mostrem o contr\u00e1rio e coloquem um desafio aos activistas que querem afastar o pior e avan\u00e7ar para mudan\u00e7as desesperadamente necess\u00e1rias. Sondagens \u00e0 boca das urnas revelaram que o apoio apaixonado a Trump era essencialmente inspirado na ideia de que ele representava a mudan\u00e7a, enquanto Clinton era entendida como a candidata que perpetuaria o seu desamparo. A \u00abmudan\u00e7a\u00bb que Trump provavelmente traz ser\u00e1 prejudicial ou pior, mas \u00e9 compreens\u00edvel que as consequ\u00eancias n\u00e3o estejam claras para pessoas isoladas numa sociedade atomizada que carece do tipo de associa\u00e7\u00f5es (como os sindicatos) que possam educ\u00e1-la e organiz\u00e1-la. Essa \u00e9 uma diferen\u00e7a crucial entre o desespero actual e as atitudes em geral optimistas de muitos trabalhadores perante a pen\u00faria econ\u00f3mica muito pior durante a Grande Depress\u00e3o dos anos trinta.<\/p>\n<p>Existem outras raz\u00f5es para o \u00eaxito de Trump. Estudos comparativos mostram que a doutrina da supremacia branca calou mais fundo na cultura norte-americana do que na sul-africana e n\u00e3o \u00e9 segredo que a popula\u00e7\u00e3o branca est\u00e1 em decl\u00ednio. Em uma ou duas d\u00e9cadas calcula-se que os brancos ser\u00e3o minoria dentro da for\u00e7a laboral e logo depois uma minoria da popula\u00e7\u00e3o. A cultura conservadora tradicional tamb\u00e9m \u00e9 entendida sob ataque por causa do triunfo das politicas identit\u00e1rias, consideradas algo secund\u00e1rio pelas elites que s\u00f3 t\u00eam desprezo pelos \u00abamericanos trabalhadores, patriotas, religiosos e com verdadeiros valores familiares\u00bb que v\u00eaem como o pa\u00eds que conhecem se desvanece diante dos seus olhos.<\/p>\n<p>Uma das dificuldades de aumentar a sensibilidade p\u00fablica perante as graves amea\u00e7as do aquecimento global \u00e9 que 40% da popula\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos n\u00e3o percebe que isso seja um problema, j\u00e1 que Jesus Cristo regressar\u00e1 em poucas d\u00e9cadas. Uma percentagem semelhante cr\u00ea que o mundo foi criado h\u00e1 uns milhares de anos. Se a ci\u00eancia entra em conflito com a B\u00edblia, tanto pior para a ci\u00eancia. Seria dif\u00edcil encontrar algo compar\u00e1vel noutras sociedades.<\/p>\n<p>O Partido Democrata abandonou quaisquer preocupa\u00e7\u00f5es reais pelos trabalhadores nos anos setenta e assim foram arrastados para as filas dos seus mais ac\u00e9rrimos inimigos de classe, que pelo menos simulam falar o mesmo idioma: o estilo campon\u00eas de Reagan a fazer caretas e a comer doces, a imagem cuidadosamente cultivada de George W. Bush como um tipo comum que qualquer um pode encontrar num bar, a quem encantava cortar as ervas daninhas no seu rancho com 40 graus de calor e os seus erros de pronuncia mais que fingidos (impens\u00e1vel que falasse assim em Yale) e agora Trump, o porta-voz de pessoas com queixas legitimas, que n\u00e3o s\u00f3 perderam o seu trabalho, mas tamb\u00e9m um sentido de auto-estima pessoal, e que denunciam um governo que percebem que destruiu as suas vidas (n\u00e3o sem raz\u00e3o).<\/p>\n<p>Um dos grandes sucessos do discurso hegem\u00f3nico foi desviar a f\u00faria da classe empresarial para o governo que implementa os programas que os empres\u00e1rios planificam, como os acordos de protec\u00e7\u00e3o dos direitos de investidores e empresas que de modo constante e err\u00f3neo s\u00e3o chamados \u00abacordos de livre com\u00e9rcio\u00bb pelos jornais e comentaristas. Com todas as suas falhas, o governo est\u00e1 em certa medida sob o controle e influ\u00eancia do povo, ao contr\u00e1rio do sector empresarial. \u00c9 muito vantajoso para o mundo dos neg\u00f3cios fomentar o \u00f3dio aos burocratas pedantes do governo e afastar das pessoas a ideia subversiva de que o governo poderia transformar-se num instrumento da vontade popular, um governo de, por e para o povo.<\/p>\n<p><strong>Trump \u00e9 o representante de um novo movimento na pol\u00edtica norte americana ou esta elei\u00e7\u00e3o foi resultado da recusa de alguns votantes em aceitar Hillary Clinton, j\u00e1 que odeiam os Clinton e est\u00e3o fartos da \u00abpol\u00edtica de sempre\u00bb?<\/strong><\/p>\n<p>De forma nenhuma \u00e9 nada novo. Os dois partidos pol\u00edticos correram para a direita durante o per\u00edodo neoliberal. Os novos Democratas de hoje s\u00e3o bastante parecidos com os que costumava chamar-se \u00abrepublicanos moderados\u00bb. A \u00abrevolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u00bb que Bernie Sanders exigiu com justa raz\u00e3o n\u00e3o teria surpreendido muito Dwight Eisenhower. Os republicanos dedicaram-se tanto aos ricos e ao sector empresarial que n\u00e3o podem esperar conseguir votos baseados no seu programa verdadeiro e optaram por mobilizar sectores da popula\u00e7\u00e3o que estiveram sempre presentes, mas n\u00e3o como for\u00e7as politicas organizadas: evangelistas, nacionalistas, racistas e as v\u00edtimas das formas de globaliza\u00e7\u00e3o desenhadas para fazer competir os trabalhadores do mundo entre si, enquanto protegem os privilegiados e debilitam as medidas legais e de outro tipo que davam aos trabalhadores algum tipo de protec\u00e7\u00e3o, e com os meios de influenciar na tomada de decis\u00f5es nos sectores p\u00fablicos e privados de estreita rela\u00e7\u00e3o, especialmente em rela\u00e7\u00e3o a uns sindicatos de trabalhadores eficazes.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias foram evidentes nas recentes prim\u00e1rias republicanas. Cada candidatura vinda das bases \u2014 como Michele Bachman, [Herman] Cain ou [Rick] Santorum \u2014 tinha sido t\u00e3o extremista que o establishment republicano teve de utilizar os seus vastos recursos para os derrotar. A diferen\u00e7a em 2016 \u00e9 que o establishment falhou, muito a seu pesar, como temos visto.<\/p>\n<p>Merecidamente ou n\u00e3o Clinton representava umas pol\u00edticas temidas e odiadas, enquanto Trump era visto como o s\u00edmbolo da \u00abmudan\u00e7a\u00bb, embora a natureza dessa mudan\u00e7a requeira um estudo cuidadoso das suas propostas reais, algo que em grande parte faltou no que chegou ao p\u00fablico. A campanha em si mesma foi not\u00e1vel, em como se esquivou a certos temas e os media foram condescendentes atendo-se ao conceito de que a verdadeira \u00abobjectividade\u00bb significa informar fielmente o que acontece nos \u00abc\u00edrculos de poder\u00bb, mas sem ir mais adiante.<\/p>\n<p><strong>Trump afirmou depois da elei\u00e7\u00e3o que representar\u00e1 todos os americanos\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>Como o far\u00e1 quando o pa\u00eds est\u00e1 t\u00e3o dividido e tendo j\u00e1 expressado um \u00f3dio profundo por tantos grupos dos Estados Unidos, incluindo mulheres e minorias? Observa algum paralelo entre o brexit e a vit\u00f3ria de Donald Trump?<\/p>\n<p>Existem semelhan\u00e7as claras com o brexit e tamb\u00e9m com a subida de partidos ultranacionalistas de extrema-direita na Europa cujos lideres se apressaram a felicitar Trump pela sua vit\u00f3ria considerando-o um dos seus. [Nigel] Farage, [Marine] Le Pen, [Viktor] Orban e outros semelhantes. E estes acontecimentos tornam-se muito aterradores. Olhar para as elei\u00e7\u00f5es na \u00c1ustria e na Alemanha \u2014 \u00c1ustria e Alemanha \u2014 s\u00f3 nos traz \u00e0 mem\u00f3ria recorda\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis para os que sabem o que se passou nos anos trinta, muito mais para os que o viveram, como eu em crian\u00e7a. Lembro-me de ouvir os discursos de Hitler, sem entender as palavras, embora o seu tom e a resposta do seu p\u00fablico fizessem bastante medo. O primeiro artigo que me lembro de ter escrito foi em Fevereiro de 1939, depois da queda de Barcelona, e a propaga\u00e7\u00e3o aparentemente inexor\u00e1vel da praga fascista. E por uma estranha coincid\u00eancia foi em Barcelona onde eu e minha mulher vimos os resultados da elei\u00e7\u00e3o presidencial americana de 2016.<\/p>\n<p>Sobre como Trump vai usar o que promoveu \u2014 n\u00e3o criou, s\u00f3 promoveu \u2014 n\u00e3o podemos opinar: Talvez a sua caracter\u00edstica mais not\u00e1vel seja a sua imprevisibilidade. Muito depender\u00e1 das reac\u00e7\u00f5es dos que se horrorizarem com a sua actua\u00e7\u00e3o e das vis\u00f5es do futuro que projectou.<\/p>\n<p><strong>Trump n\u00e3o conta com uma ideologia politica cred\u00edvel que guie as suas posi\u00e7\u00f5es em assuntos econ\u00f3micos, sociais e pol\u00edticos embora tenha tend\u00eancias autorit\u00e1rias claras no seu comportamento. Assim cr\u00ea que seja valida a pretens\u00e3o de que Trump possa representar o aparecimento de um \u00abfascismo de rosto amig\u00e1vel\u00bb nos Estados Unidos?<\/strong><\/p>\n<p>Durante muitos anos escrevi e falei sobre o aparecimento de um ide\u00f3logo carism\u00e1tico e honesto nos Estados Unidos, algu\u00e9m que pudesse aproveitar o medo e a indigna\u00e7\u00e3o que vem tomando posse da sociedade e que poderia desvi\u00e1-la dos verdadeiros causadores desse mal-estar para destinat\u00e1rios vulner\u00e1veis. Isso, com efeito, poderia levar ao que o soci\u00f3logo Bertam Gross denominou \u00abfascismo amistoso\u00bb numa an\u00e1lise reveladora de h\u00e1 35 anos. Mas isso requer um ide\u00f3logo sincero, tipo Hitler, n\u00e3o algu\u00e9m cuja \u00fanica ideologia \u00e9 o seu pr\u00f3prio eu. Mas o perigo tem sido autentico durante muitos anos, embora ainda mais agora \u00e0 luz das for\u00e7as que Trump desencadeou.<\/p>\n<p><strong>Com os republicanos na Casa Branca, mas tamb\u00e9m a controlar as duas C\u00e2maras e a configura\u00e7\u00e3o futura do Tribunal Supremo, como ser\u00e3o os Estados Unidos, nos pr\u00f3ximos (no m\u00ednimo) quatro anos?<\/strong><\/p>\n<p>Muito depende das suas nomea\u00e7\u00f5es e do seu c\u00edrculo de assessores. Os primeiros ind\u00edcios s\u00e3o pouco atraentes, para n\u00e3o dizer pior.<\/p>\n<p>O Tribunal Supremo estar\u00e1 em m\u00e3os de reaccion\u00e1rios por muitos anos, com consequ\u00eancias previs\u00edveis. Se Trump cumprir o seu programa fiscal ao estilo Paul Ryan, haver\u00e1 benef\u00edcios enormes para os mais ricos, calculados pelo Tax Policy Center (Centro de Politica Fiscal) numa redu\u00e7\u00e3o de impostos de cerca de 4% para o 0,1% mais rico e uma redu\u00e7\u00e3o substancial generalizada para o extremo superior da escala de rendimentos, mas com quase nenhum al\u00edvio fiscal para os demais, que de resto dever\u00e3o suportar novos e maiores encargos. O respeitado correspondente econ\u00f3mico do Financial Times, Martin Wolf, escreve que \u00abas propostas fiscais fariam derramar enormes benef\u00edcios para os j\u00e1 muito ricos como o Sr. Trump\u00bb enquanto deixariam os outros em apuros., incluindo claro os seus eleitores. A reac\u00e7\u00e3o imediata no mundo empresarial revela que as grandes farmac\u00eauticas, Wall Street, a ind\u00fastria militar, as ind\u00fastrias da energia e outras institui\u00e7\u00f5es maravilhosas desse tipo aguardam um futuro brilhante.<\/p>\n<p>Um avan\u00e7o positivo poderia ser o programa de infra-estrutura que Trump prometeu, embora (juntamente com outras informa\u00e7\u00f5es e coment\u00e1rios) esconda o facto de que se trata no essencial do programa de est\u00edmulo de Obama, que teria trazido grandes benef\u00edcios \u00e0 economia e \u00e0 sociedade em geral, mas que foi eliminado pelo Congresso republicano com o pretexto de que faria estourar o d\u00e9fice. Embora a acusa\u00e7\u00e3o fosse falsa nesse momento, dadas as taxas de juro muito baixas, aplica-se em grande medida no programa de Trump, agora acompanhado por redu\u00e7\u00f5es fiscais extremas para os ricos e o sector empresarial, e o crescimento de gastos do Pent\u00e1gono.Mas existe uma sa\u00edda proporcionada por Dick Cheney quando a explicou a Paul O\u2019Neill, Secret\u00e1rio do Tesouro de Bush, que \u00abReagan demonstrou que o d\u00e9fice n\u00e3o importa\u00bb, referindo-se ao d\u00e9fice que os republicanos geram para conseguir apoio popular, deixando aos outros, de prefer\u00eancia os democratas, o trabalho de aplainar o desastre. Essa t\u00e9cnica poderia funcionar, pelo menos por um tempo.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m muitas perguntas sobre as consequ\u00eancias na pol\u00edtica externa, a maioria sem resposta.<\/p>\n<p><strong>Existe uma admira\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre Trump e Putin. Assim, que possibilidades h\u00e1 de podermos presenciar uma nova era nas rela\u00e7\u00f5es entre os Estados Unidos e a R\u00fassia?<\/strong><\/p>\n<p>Uma perspectiva animadora \u00e9 que poderia haver uma redu\u00e7\u00e3o na perigosa tens\u00e3o na fronteira russa: digo bem, na fronteira russa n\u00e3o na fronteira mexicana. H\u00e1 ali uma hist\u00f3ria de que n\u00e3o cabe falar agora. \u00c9 poss\u00edvel tamb\u00e9m que a Europa possa distanciar-se dos Estados Unidos de Trump, como j\u00e1 deu a entender Merkel e outros lideres europeus e pela voz brit\u00e2nica do poder norte-americano, depois do brexit. Isso poderia levar possivelmente a uma iniciativa europeia para mitigar as tens\u00f5es e talvez at\u00e9 algo parecido com a vis\u00e3o de Mikail Gorbatchov de um sistema integrado de seguran\u00e7a na Eur\u00e1sia sem alian\u00e7as militares, recusado pelos Estados Unidos a favor da OTAN, uma vis\u00e3o revivida h\u00e1 pouco por Putin, embora n\u00e3o saibamos com que seriedade, uma vez que esse gesto foi desvalorizado.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que a politica externa do governo de Trump seja mais ou menos belicista do que a do governo de Obama ou at\u00e9 no de George W. Bush?<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que se possa responder com seguran\u00e7a. Trump \u00e9 imprevis\u00edvel. H\u00e1 demasiadas perguntas em aberto. O que podemos dizer \u00e9 que o activismo e a mobiliza\u00e7\u00e3o popular bem organizados e dirigidos podem ser muito importantes.<\/p>\n<p>E dever\u00edamos ter em mente que \u00e9 muito o que est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p><em>*C.J. Polychroniu \u00e9 um economista pol\u00edtico e polit\u00f3logo que leccionou e trabalhou em universidades e centros de investiga\u00e7\u00e3o na Europa e nos Estados Unidos. As suas principais linhas de investiga\u00e7\u00e3o s\u00e3o a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica europeia, a globaliza\u00e7\u00e3o, a politica econ\u00f3mica dos Estados Unidos e a des-constru\u00e7\u00e3odo projecto pol\u00edtico-econ\u00f3mico do neoliberalismo. \u00c9 colaborador ass\u00edduo de Truthout e membro do Truthout Public Intelectual Project. Publicou v\u00e1rios livros e os seus artigos apareceram em muitas revistas, di\u00e1rios e sites de not\u00edcias. Muitas das suas publica\u00e7\u00f5es est\u00e3o traduzidas em, diversos idiomas, croata, franc\u00eas, grego, italiano, portugu\u00eas, espanhol e turco.<\/em><\/p>\n<p>Esta entrevista faz parte do livro a aparecer em breve: Noam Chomsky e XC. J,. Polychroniou, O Optimismo vence o Desespero: sobre o capitalismo, Imp\u00e9rio e Mudan\u00e7a Social, Haymarket Books,<br \/>\nhttps:\/\/www.haymarketbooks.org\/bboks\/997-optimism-over-despair<\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Manuela Antunes<\/em><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/trump-na-casa-branca-2\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"C. J. 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