{"id":12978,"date":"2016-12-20T19:08:28","date_gmt":"2016-12-20T22:08:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12978"},"modified":"2017-01-05T09:38:16","modified_gmt":"2017-01-05T12:38:16","slug":"a-derrota-da-urss-e-o-revisionismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12978","title":{"rendered":"A derrota da URSS e o revisionismo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci4.googleusercontent.com\/proxy\/z6_sBUkOKEVzibhjBcie8O_cqvfz9Mux0YooIoU3OBbOXMaORICrCqgo-yQI2LGPM-_LK84F-pTxugNvd2IRlkEDFjBgM5K_BSMo=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.odiario.info\/b2-img\/Lenin_revisionismo.jpg\" \/>Artigo de <u><strong>Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o<\/strong><\/u>, editor de <strong>ODiario.info<\/strong>, s\u00edtio coordenado por comunistas portugueses<\/p>\n<p>Permanece da maior atualidade a reflex\u00e3o sobre a estrat\u00e9gia e a t\u00e1tica dos partidos comunistas, no poder e fora dele. Sobre a sua fidelidade ao marxismo-leninismo, sobre as suas formas de funcionamento interno, sobre o papel e a<!--more--> responsabilidade das suas direc\u00e7\u00f5es e dos seus militantes. Sobre a sua capacidade de resistir \u00e0 multiforme e incessante ofensiva do inimigo de classe. Se devidamente analisada, a j\u00e1 secular hist\u00f3ria do movimento comunista tem muito a ensinar nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Formada durante a II Guerra Mundial, a CIA sucedeu \u00e0 Ag\u00eancia de Servi\u00e7os Estrat\u00e9gicos (OSS na sigla em ingl\u00eas) com o objetivo confessado de coordenar as atividades de espionagem dentro das For\u00e7as Armadas dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mal terminou a guerra, a rec\u00e9m-formada CIA come\u00e7ou \u00aba partir de 1947, a construir um \u201ccons\u00f3rcio\u201d cuja tarefa era vacinar o mundo contra o cont\u00e1gio do comunismo\u2026\u00bb. Mas os primeiros resultados palp\u00e1veis s\u00f3 vieram, a partir de 1950, com a prepara\u00e7\u00e3o para \u00ab\u2026o Congresso pela Liberdade Cultural [que] teve escrit\u00f3rios em 35 pa\u00edses, contou com dezenas de pessoas contratadas, publicou artigos em mais de vinte revistas de prest\u00edgio, organizou exposi\u00e7\u00f5es de arte, contava com o seu pr\u00f3prio servi\u00e7o de not\u00edcias e de artigos de opini\u00e3o, organizou confer\u00eancias internacionais ao mais alto n\u00edvel e recompensou m\u00fasicos e outros artistas com pr\u00e9mios e atua\u00e7\u00f5es p\u00fablicas\u00bb.<\/p>\n<p>O objetivo deste enorme investimento foi \u00ab\u2026 afastar a intelectualidade da Europa ocidental do seu prolongado fasc\u00ednio pelo marxismo e o comunismo, em benef\u00edcio de uma forma de ver o mundo mais de acordo com o \u201cconceito americano\u201d\u00bb [1].<\/p>\n<p>Poucos anos antes da derrota da URSS, politica e historicamente consumada em agosto de 1991, teve in\u00edcio um per\u00edodo de euf\u00f3rica histeria reacion\u00e1ria, sem paralelo nos anteriores 70 anos, cujo objetivo era a desmoraliza\u00e7\u00e3o e desmobiliza\u00e7\u00e3o de militantes e partidos comunistas que mantinham com firmeza os princ\u00edpios de marxismo-leninismo. O sucesso da campanha est\u00e1 \u00e0 vista, particularmente na Europa capitalista, onde os tr\u00eas maiores partidos \u2013 italiano, franc\u00eas e espanhol \u2013 definhavam em movimento acelerado com a escolha do chamado eurocomunismo, que as dire\u00e7\u00f5es daqueles partidos tinham imposto aos seus militantes, em nome do aperfei\u00e7oamento do caminho para a constru\u00e7\u00e3o do socialismo, que j\u00e1 apresentavam o comunismo como \u00abhorizonte long\u00ednquo\u00bb.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria do capital imperialista sobre a URSS foi tamb\u00e9m uma vit\u00f3ria econ\u00f4mica que teve por base uma desenfreada corrida armamentista, e Jean Sal\u00e9m nota muito justamente que na alturaz<i> \u00ab\u2026ningu\u00e9m ou quase ningu\u00e9m referiu que um dos objetivos expl\u00edcitos da \u201cIniciativa de Defesa Estrat\u00e9gica\u201d, lan\u00e7ada em 1983 pela equipa de Reagan, era \u201cp\u00f4r de joelhos a pot\u00eancia sovi\u00e9tica\u201d, abal\u00e1-la e depois arruin\u00e1-la por meio de um lan\u00e7amento desenfreado da corrida aos armamentos\u00bb. <\/i><\/p>\n<p>Mas foi principalmente uma vit\u00f3ria ideol\u00f3gica devido ao revisionismo oportunista que se manifestou em crescendo desde meados da d\u00e9cada de 50 do s\u00e9culo passado, na URSS e nos pa\u00edses europeus que se reclamavam da constru\u00e7\u00e3o do socialismo, mas tamb\u00e9m nos partidos comunistas dos pa\u00edses capitalistas, com particular gravidade nos tr\u00eas maiores partidos comunistas da Europa capitalista \u2013 italiano (desapareceu), franc\u00eas e espanhol, hoje reduzidos a inexpressivas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Se o combate \u00e0 URSS foi uma preocupa\u00e7\u00e3o permanente do capital at\u00e9 \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o da derrota da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e dos restantes pa\u00edses que se reclamavam da constru\u00e7\u00e3o do socialismo, \u00e9 necess\u00e1rio sublinhar que sem os erros, o oportunismo e a revis\u00e3o de teses centrais do pensamento marxista-leninista, esse objetivo do imperialismo muito dificilmente teria sido atingido.<\/p>\n<p>Foi uma derrota provocada pela a\u00e7\u00e3o convergente do imperialismo, dos revisionistas na URSS e nos restantes pa\u00edses que se reclamavam da constru\u00e7\u00e3o do socialismo e pelas dire\u00e7\u00f5es de muitos partidos comunistas dos pa\u00edses capitalistas.<\/p>\n<p>Recorrendo a uma poderos\u00edssima campanha de propaganda nos meios de comunica\u00e7\u00e3o j\u00e1 globalizados, domesticados e rendidos \u00e0 onda neoliberal, o imperialismo difundiu com sucesso a ideia da supremacia do capitalismo sobre o socialismo, que a derrota da URSS e do movimento oper\u00e1rio e sindical de classe era um facto previs\u00edvel, ao mesmo tempo que negava o papel de vanguarda da classe oper\u00e1ria e da luta de classes no avan\u00e7o da Hist\u00f3ria, procurando inculcar a ideia da impossibilidade a revers\u00e3o do caminho.<\/p>\n<p>Esta intensa campanha de propaganda nos <i>media<\/i> foi acompanhada da edi\u00e7\u00e3o de obras que reafirmavam teoricamente a supremacia do capitalismo sobre o marxismo-leninismo, de que O Fim da Hist\u00f3ria e o \u00daltimo Homem, de Francis Fukuyama, funcion\u00e1rio do Departamento de Estado dos EUA, foi apenas a mais propalada. Datar o marxismo-leninismo, diz\u00ea-lo ultrapassado, fora do tempo, um tempo que dizem ser de liberdade e empreendedorismo como nunca o sistema capitalista tinha proporcionado.<\/p>\n<p>Foi o in\u00edcio de uma cruzada mundial de <i>\u00abcriminaliza\u00e7\u00e3o do ideal comunista, que induziu uma aut\u00eantica coloniza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia hist\u00f3rica dos pr\u00f3prios comunistas\u00bb <\/i>[Salem, Lisboa 2006], que poucos na altura se atreveram contrariar e da qual, apenas com a intensifica\u00e7\u00e3o da crise estrutural do sistema do capital se come\u00e7ou agora, lentamente, a sair.<\/p>\n<p><b>O longo caminho para a derrota da URSS<\/b><\/p>\n<p>Antes da I Guerra Mundial, a R\u00fassia era um imenso territ\u00f3rio, atrasado e rural, com cerca de 175 milh\u00f5es de habitantes, predominantemente rurais, com cerca de 15 milh\u00f5es de trabalhadores, dos quais 4 milh\u00f5es eram oper\u00e1rios industriais e dos caminhos-de-ferro, e cerca de 56% dos trabalhadores industriais estavam concentrados em ind\u00fastrias com mais de 500 oper\u00e1rios. Foi nesta R\u00fassia atrasada, faminta e devastada por uma longa guerra que o POSDR (b) dirigiu a primeira revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria vitoriosa da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quem ler, mesmo que apressadamente, as atas do Comit\u00ea Central do Partido Oper\u00e1rio Social-Democrata Russo (b) sa\u00eddo do VI Congresso entre agosto de 1917 e 24 de fevereiro de 1918 compreender\u00e1 porque s\u00f3 podia ser aquele partido, e n\u00e3o um qualquer outro, a dirigir a primeira revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria vitoriosa da Hist\u00f3ria. E compreende tamb\u00e9m, ao ler as frontais e ardentes discuss\u00f5es no Comit\u00e9 Central, por que raz\u00e3o n\u00e3o teve Lenine nenhum cargo individual, nem no partido nem no governo. Foi membro de coletivos partid\u00e1rios e comiss\u00e1rio do Povo, nunca foi presidente, coordenador ou outro qualquer cargo individual. Imp\u00f4s-se sempre pela for\u00e7a das suas ideias e nunca imp\u00f4s a suas ideias pela for\u00e7a, raz\u00f5es que lhe granjearam o ascendente natural que ganhou interpares.<\/p>\n<p>O prematuro desaparecimento de Lenine, em 21 de janeiro de 1924, foi uma dura perda para a R\u00fassia, para o partido e para o movimento revolucion\u00e1rio mundial.<\/p>\n<p>Apesar da falta de Lenine, dos desvios, erros e crimes que se verificaram nos 21 anos que medeiam entre o XIII Congresso (23-31 de maio de 1924) e o fim da Segunda Guerra Mundial (1945), de o seu imenso territ\u00f3rio ter sido arrasado, dos mais de 20 milh\u00f5es de mortos, a URSS surge, sob a dire\u00e7\u00e3o do Partido Comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (PCUS), como a segunda pot\u00eancia mundial e o pa\u00eds que maior e decisivo contributo deu para a vit\u00f3ria aliada sobre o nazi-fascismo.<\/p>\n<p>Se tivermos em conta que no XVIII Congresso (mar\u00e7o de 1939), o PCUS tinha 1.588.000 membros e 888.814 candidatos a membros do partido e que durante a II Guerra Mundial o PCUS perdeu 3 milh\u00f5es de militantes, mas que no XIX Congresso (5 a 14 de outubro de 1952) era j\u00e1 de 6.013.259 o n\u00famero de militantes e 868.886 os candidatos a membros do Partido, ficamos com uma ideia da contribui\u00e7\u00e3o do PCUS para a vit\u00f3ria na II Guerra Mundial, mas tamb\u00e9m de como o PCUS se debilitou ideologicamente, como ficou mais exposto e vulner\u00e1vel a ataques externos e internos.<br \/>\nO XX Congresso da Partido Comunista da URSS (PCUS), que t\u00e3o profundas e negativas consequ\u00eancias teve no PCUS e no movimento comunista internacional, n\u00e3o foi o alfa e o \u00f4mega de uma s\u00e9ria e profunda autocr\u00edtica, por parte dos antigos companheiros de Estaline (1878-1953) na dire\u00e7\u00e3o do PCUS e da URSS.<\/p>\n<p>Embora seja apresentado como o Congresso da desestaliniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi da reposi\u00e7\u00e3o da democracia interna do partido, nem da correta reposi\u00e7\u00e3o do centralismo democr\u00e1tico ou do refor\u00e7o do caminho para a Associa\u00e7\u00e3o Livre de Trabalhadores que o XX Congresso tratou. E n\u00e3o tratou de nenhum destes temas apesar de o PCUS ter estado 5 anos sem reunir o Comit\u00e9 Central e 13 anos e meio sem reunir o Congresso (21 de mar\u00e7o de 1939 a 5 de outubro de 1952), de o sistema do capital permanecer na sociedade sovi\u00e9tica, embora sem apropria\u00e7\u00e3o individual, e das principais responsabilidades da dire\u00e7\u00e3o das empresas continuar entregue a delegados do Estado ou do Partido.<\/p>\n<p>O que verdadeiramente caraterizou o XX Congresso foi a aprova\u00e7\u00e3o da utopia que o imperialismo aceitaria a \u00abcoexist\u00eancia pac\u00edfica\u00bb com os pa\u00edses socialistas. Foi a revis\u00e3o da conce\u00e7\u00e3o marxista-leninista de Estado (uma \u00abquest\u00e3o central de cada revolu\u00e7\u00e3o\u00bb como n\u00f3s portugueses bem sabemos) e a URSS deixou de ser um Estado de oper\u00e1rios e camponeses, para passar a ser um \u00abEstado de todo o povo\u00bb, o que pressupunha a inexist\u00eancia de classes, o que era evidente n\u00e3o ser verdade.<\/p>\n<p>O XX Congresso exerceu, naturalmente, uma nefasta influ\u00eancia no movimento comunista internacional e, saber o que o inimigo pensa \u00e9, pelo car\u00e1ter antag\u00f3nico das posi\u00e7\u00f5es, uma forma correta de iluminar a armadilha que se esconde numa cuidada e vistosa apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E \u00e0 luz deste ensinamento temos que concluir que, seguramente, n\u00e3o foi por acaso que em 11 de julho de 1956, 5 meses ap\u00f3s o XX Congresso do PCUS, o secret\u00e1rio de Estado de Eisenhower, John Foster Dulles declarou que \u00ab\u2026 as for\u00e7as da liberdade que agora atuam atr\u00e1s da \u00abcortina de ferro\u00bb, s\u00e3o irresist\u00edveis e podem modificar a cena internacional at\u00e9 1965. A campanha anti-Estaline e o seu programa liberalizador provocaram uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia, que a longo prazo n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel parar\u00bb [2].<\/p>\n<p><b>O revisionismo crescente <\/b><\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel a profunda crise porque passa o movimento comunista internacional em que, em nome da independ\u00eancia do partido e da especificidade da sua situa\u00e7\u00e3o nacional, uma boa parte dos partidos comunistas defende ser da compet\u00eancia e autonomia de cada partido definir a orienta\u00e7\u00e3o adequada para o seu pa\u00eds. O problema, como \u00e9 evidente, n\u00e3o est\u00e1 na aceita\u00e7\u00e3o deste princ\u00edpio que, como qualquer evid\u00eancia, n\u00e3o carece de explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 quando essa independ\u00eancia e autonomia s\u00e3o usadas para contrariar e abandonar princ\u00edpios fundamentais do marxismo-leninismo e da independ\u00eancia de classe em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ideologia burguesa.<br \/>\nA quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova e, se procurarmos bem, ela vem desde muito antes do XX Congresso do PCUS.<\/p>\n<p>Na verdade, pouco depois da vit\u00f3ria das for\u00e7as aliadas regulares e da resist\u00eancia sobre o nazi-fascismo, em 18 de novembro de 1946, em entrevista com o jornal The Times, o Secret\u00e1rio-geral do PCF, e Vice-presidente do Conselho de Ministros, Maurice Thorez, dizia:<br \/>\n\u00abO progresso da democracia no mundo \u2013 apesar de raras exce\u00e7\u00f5es, que confirmam a regra \u2013 permite divisar outros caminhos na marcha para o socialismo, al\u00e9m do seguido pelos comunistas russos. (\u2026) \u00c9 poss\u00edvel tomar \u00aboutros caminhos, al\u00e9m do seguido pelos comunistas russos\u00bb. (\u2026) \u00c9 ao povo franc\u00eas que cabe encontrar \u00aba sua via para mais democracia, progresso e justi\u00e7a social\u00bb. E mais \u00e0 frente acrescentava que \u00abo Partido oper\u00e1rio franc\u00eas que nos propomos criar com a fus\u00e3o dos partidos comunista e socialista ser\u00e1 o guia da nossa democracia nova e popular\u00bb[3].<\/p>\n<p>J\u00e1 com Waldeck Rochet como Secret\u00e1rio-geral (1964-1972), o Comit\u00e9 Central do Partido Comunista Franc\u00eas, em reuni\u00e3o realizada nos dias 5 e 6 de Dezembro de 1968 aprova o documento \u00abPor uma democracia avan\u00e7ada por uma Fran\u00e7a Socialista\u00bb que substitui programaticamente o Programa do Partido aprovado anteriormente.<\/p>\n<p>Foi a primeira e bem estruturada pe\u00e7a te\u00f3rica de um longo processo reformista, cujo objetivo era a chegada do partido ao governo atrav\u00e9s das estruturas da democracia burguesa sem destruir o aparelho de Estado que servia o capital monopolista. Desde logo conhecido como o \u00abManifesto Champigny\u00bb, nele se defende <i>\u00aba substitui\u00e7\u00e3o do poder gaulista dos monop\u00f3lios por uma democracia pol\u00edtica e econ\u00f3mica avan\u00e7ada, que abra a via do socialismo\u00bb.<\/i> Tudo isto sem uma \u00fanica palavra para a necessidade de destruir o Estado burgu\u00eas e criar um novo Estado.<\/p>\n<p>Se no \u00abManifesto de Champigny\u00bb, em 1968, se lan\u00e7avam em Fran\u00e7a algumas das bases te\u00f3ricas do que mais tarde veio a chamar-se eurocomunismo, em It\u00e1lia, onde as vota\u00e7\u00f5es no PCI chegaram a ultrapassar os 30% depois da formula\u00e7\u00e3o da \u00abdemocracia progressiva\u00bb no p\u00f3s-guerra, sucedeu o per\u00edodo de \u00abaggiornamento\u00bb para se passar \u00e0 tentativa de um \u00abcompromisso hist\u00f3rico\u00bb de gest\u00e3o do capitalismo com a Democracia Crist\u00e3, num quadro de imutabilidade do aparelho de Estado dominado pelo grande capital monopolista, onde a m\u00e1fia detinha uma posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o desdenh\u00e1vel. Logo no seu in\u00edcio ficou claro o que se pretendia com esta deriva ideol\u00f3gica:<br \/>\n<i>\u00abDemocracia progressiva significa profunda altera\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais, ou seja, das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 o princ\u00edpio da propriedade que est\u00e1 em causa; n\u00e3o se colocam hoje quest\u00f5es de classe, n\u00e3o se fala hoje de alian\u00e7as de classe; hoje fala-se da fraternidade do povo, luta-se por todo o povo; fora com a clique capitalista, fora com a clique monopolista e da grande ind\u00fastria. \u00c9 o povo quem deve estar no comando, s\u00e3o o campon\u00eas e o pequeno propriet\u00e1rio de terra quem deve receber os lucros do seu trabalho, s\u00e3o o prolet\u00e1rio e o pequeno propriet\u00e1rio industrial quem deve tomar o lugar do monopolista\u00bb.<br \/>\nO \u00abMemorando de Yalta\u00bb, escrito por Palmiro Togliatti em 1964: \u00ab\u2026 uma reflex\u00e3o mais profunda sobre o tema da possibilidade de uma via pac\u00edfica de acesso ao socialismo leva-nos a precisar o que \u00e9 que n\u00f3s entendemos por democracia num Estado burgu\u00eas, como se podem alargar os limites da liberdade e das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e quais s\u00e3o as formas mais eficazes de participa\u00e7\u00e3o das massas oper\u00e1rias e trabalhadoras na vida econ\u00f4mica e pol\u00edtica. Surge assim a quest\u00e3o da possibilidade de conquistar posi\u00e7\u00f5es de poder, por parte das classes trabalhadoras, no \u00e2mbito de um Estado que n\u00e3o mudou a sua natureza de Estado burgu\u00eas e, portanto, a de se \u00e9 poss\u00edvel a luta por uma progressiva transforma\u00e7\u00e3o, a partir do interior dessa natureza\u00bb<\/i><br \/>\nNas suas f\u00e9rias em Yalta onde morreu em agosto de 1964, Togliatti escrevia o texto inacabado a que deram o t\u00edtulo \u00abMemorando sobre quest\u00f5es do movimento oper\u00e1rio internacional e a sua unidade\u00bb, um documento carregado de taticismos e abandono de princ\u00edpios fundamentais do marxismo-leninismo ou, como nele diz, <i>\u00ab\u2026 uma reflex\u00e3o mais profunda sobre o tema da possibilidade de uma via pac\u00edfica de acesso ao socialismo\u2026\u00bb<\/i><\/p>\n<p>Dele respigamos esta cita\u00e7\u00e3o, um reposit\u00f3rio condensado de abandono de princ\u00edpios fundamentais do marxismo-leninismo:<\/p>\n<p>\u00abNa generalidade, para a elabora\u00e7\u00e3o da nossa pol\u00edtica, n\u00f3s partimos e sempre estivemos convencidos que se deve partir das posi\u00e7\u00f5es do XX Congresso [do PCUS]. Tamb\u00e9m estas posi\u00e7\u00f5es, no entanto, precisam hoje de ser estudadas e desenvolvidas. Por exemplo, uma reflex\u00e3o mais profunda sobre a possibilidade de uma via pac\u00edfica de passagem ao socialismo leva-nos a esclarecer o que entendemos por democracia num Estado burgu\u00eas, como se podem alargar os limites da liberdade e das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, e quais s\u00e3o as formas mais eficazes de participa\u00e7\u00e3o das massas oper\u00e1rias e trabalhadores na vida econ\u00f3mica e pol\u00edtica\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abSurge assim a quest\u00e3o da possibilidade de conquista de posi\u00e7\u00f5es de poder pelas classes trabalhadoras no \u00e2mbito de um Estado que n\u00e3o mudou a sua natureza de Estado burgu\u00eas e assim, a possibilidade de lutar por uma transforma\u00e7\u00e3o progressiva dessa natureza a partir de dentro. Em pa\u00edses onde o movimento comunista se tornou forte como o nosso (e a Fran\u00e7a), esta \u00e9 a quest\u00e3o de fundo que hoje surge na luta pol\u00edtica. Isso comporta, naturalmente, uma radicaliza\u00e7\u00e3o dessa luta e disso dependem as futuras perspetivas\u00bb.<\/p>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o \u00e9 longa, mas necess\u00e1ria pela clareza colocada na ren\u00fancia a princ\u00edpios fundamentais do marxismo-leninismo.<\/p>\n<p>Em Espanha, \u00e0 semelhan\u00e7a da <i>\u00abvia italiana para o socialismo\u00bb<\/i>, Santiago Carrillo elabora a \u00abpol\u00edtica de reconcilia\u00e7\u00e3o nacional\u00bb que, mais tarde, conduziu \u00e0 assinatura pelo PCE do vergonhoso \u00abPacto de Moncloa\u00bb, o reconhecimento pelo PCE da vontade suserana de Franco de restaurar a monarquia e escolher o rei.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>H\u00e1 quatro d\u00e9cadas eram os tr\u00eas maiores partidos da Europa capitalista, o PCE que nos \u00faltimos anos de clandestinidade dizia vender, clandestinamente, 200.000 exemplares do Mundo Obrero, hoje dilui-se numa Esquerda Unida cada vez mais inexpressiva; o PCF renunciou a s\u00edmbolos do Partido e arrasta-se numa coliga\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios pequenos partidos e o PCI desapareceu, depois de uma penosa agonia em que at\u00e9 mudou de nome. Como foi poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Agora que come\u00e7\u00e1mos a sair da situa\u00e7\u00e3o de <i>\u00abcriminaliza\u00e7\u00e3o do ideal comunista, que induziu uma aut\u00eantica coloniza\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia hist\u00f3rica dos pr\u00f3prios comunistas\u00bb,<\/i> \u00e9 natural que nos interroguemos: Como foi poss\u00edvel?<\/p>\n<p>A responsabilidade \u00e9 sempre atribu\u00edda aos dirigentes e nunca falamos dos milhares de delegados que aprovaram.<\/p>\n<p>No caso do XX Congresso, se hoje h\u00e1 not\u00edcia de que houve alguns dirigentes que tentaram opor-se \u00e0s decis\u00f5es propostas, mesmo publicamente no decorrer do Congresso, nada sabemos dos milhares de militantes que aprovaram as propostas e dos delegados que as votaram. N\u00e3o h\u00e1 not\u00edcia de significativos votos contra.<\/p>\n<p>E n\u00e3o havia naqueles milhares de delegados, trabalhadores, oper\u00e1rios, intelectuais que compreendessem o rumo que se propunha e procurassem contrariar e impedir as decis\u00f5es?<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e3o t\u00e3o ou mais respons\u00e1veis os que n\u00e3o quiseram sair da sua zona de conforto e fingiram que n\u00e3o compreendiam o que se propunha?<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>[1] Frances Stonor Saunders, Who Paid the Piper? The Cia and the Cultural Cold War, editado originalmente por Granta Books, Reino Unido, 1999 e em castelhano, La CIA y la Guerra Fria Cultural, Editorial Debate, Madrid 2001.<\/p>\n<p>[2] Archiv der Gegenwart [Arquivos da atualidade], citado por Kurt Gossweiller. John Foster Dulles era irm\u00e3o de Allen Dulles, diretor da CIA desde a sua cria\u00e7\u00e3o at\u00e9 ser demitido por John Kennedy, em 1961, ap\u00f3s a derrota da invas\u00e3o de Cuba na zona da Ba\u00eda dos Porcos.<br \/>\n[3] St\u00e9phane Sirot: Paris, 2000.<\/p>\n<p>Lisboa, 27 de Novembro de 2016.<\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/a-derrota-da-urss-e-o\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Artigo de Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o, editor de ODiario.info, s\u00edtio coordenado por comunistas portugueses Permanece da maior atualidade a reflex\u00e3o sobre a estrat\u00e9gia e \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12978\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[74],"tags":[],"class_list":["post-12978","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c87-revolucao-russa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3nk","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12978","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12978"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12978\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12978"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12978"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12978"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}