{"id":12996,"date":"2016-12-21T23:54:07","date_gmt":"2016-12-22T02:54:07","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=12996"},"modified":"2017-01-05T09:40:17","modified_gmt":"2017-01-05T12:40:17","slug":"mais-um-aviao-caiu-somos-todos-chape-rafael-braga-nao-e-ninguem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/12996","title":{"rendered":"Mais um avi\u00e3o caiu: somos todos Chape, Rafael Braga n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2016\/12\/rafaelbraga.jpg?w=747&#038;h=620&#038;fit=620%2C620\" alt=\"imagem\" \/>Por Mauro Luis Iasi<em>.<\/em><\/p>\n<p>Publicado originalmente em 21\/12\/2016 no Blog da Boitempo<\/p>\n<p>(Para Rafael Braga, porque \u00e9 sobre ele, e para Rafinha, porque a ideia \u00e9 dela)<!--more--><\/p>\n<p>Lamentamos informar que neste terr\u00edvel ano que parece n\u00e3o acabar nunca, tivemos a not\u00edcia de mais um terr\u00edvel acidente envolvendo uma aeronave. As informa\u00e7\u00f5es ainda s\u00e3o muito desencontradas uma vez que grandes redes de televis\u00e3o insistem em dizer que o acidente n\u00e3o ocorreu, distorcem e ocultam os fatos, prejudicando muito a compreens\u00e3o do ocorrido.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o sabemos ao certo o n\u00famero de v\u00edtimas e sobreviventes. O avi\u00e3o caiu em um lugar de dif\u00edcil acesso. As equipes de salvamento tiveram que pegar v\u00e1rios \u00f4nibus, fazer baldea\u00e7\u00e3o para pegar o trem e se demoram a chegar ao local que ainda sofre, nesta \u00e9poca do ano, com inunda\u00e7\u00f5es frequentes.<\/p>\n<p>Sabe-se, entretanto, que a maioria das vitimas \u00e9 jovem e negra. As causas da morte s\u00e3o estranhamente bizarras: muitos morreram porque foram atingidos por balas perdidas, outros t\u00eam marcas de tiro pelas costas ou na nuca, numa evid\u00eancia de que pode ter havido execu\u00e7\u00f5es. Uma mulher parece ter sido arrastada ao ser presa no compartimento de bagagem quando ainda estava viva. Muitos corpos est\u00e3o desaparecidos e outros aparecem com claros sinais de tortura.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia que investiga o estranho ocorrido afirma que h\u00e1 fortes ind\u00edcios de que todas as vitimas resistiram ao acidente, o que acabou levando-as \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Outro aspecto que nos chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a quantidade de mulheres entre as v\u00edtimas. Apesar de serem um pouco mais da metade do n\u00famero de passageiros, foram elas que ficaram mais machucadas com a viol\u00eancia da queda. Apresentam hematomas, bra\u00e7os quebrados, marcas de queimadura pelo corpo e, em muitos casos, a alma partida e o cora\u00e7\u00e3o despeda\u00e7ado. Estranhamente, entre as sobreviventes, muitas negam que tenham se machucado no acidente, alegando que ca\u00edram da escada ou outro motivo improv\u00e1vel.<\/p>\n<p>Para agravar ainda mais este terr\u00edvel sinistro, o avi\u00e3o parece ter ca\u00eddo em v\u00e1rias escolas e hospitais. As autoridades alegam que n\u00e3o poder\u00e3o investir recursos para a reconstru\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os nos pr\u00f3ximos vinte anos, uma vez que o dinheiro est\u00e1 comprometido com o pagamento dos juros da d\u00edvida p\u00fablica, com altos sal\u00e1rios do judici\u00e1rio, subs\u00eddios vultuosos para empres\u00e1rios, o perd\u00e3o da d\u00edvida do agroneg\u00f3cio e para um suntuoso jantar que o presidente vai dar em homenagem a si mesmo no final do ano.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da evidente dor das fam\u00edlias com a perda de seus entes queridos, h\u00e1 muita preocupa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, entre os sobreviventes e seus familiares. As vi\u00favas n\u00e3o receber\u00e3o mais sua pens\u00f5es integrais e s\u00f3 as ter\u00e3o por um tempo bem menor. Sobreviventes, por vezes mutilados pelo acidente, ter\u00e3o que continuar trabalhando at\u00e9 a idade m\u00ednima de 65 anos e contribuir por 49 anos, o que, em muitos casos, os for\u00e7ar\u00e1 a trabalhar at\u00e9 depois dos 70 anos.<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico investiga as den\u00fancias de que alguns setores se beneficiaram com o acidente e que esperam ganhar fortunas com o ocorrido. As suspeitas recaem n\u00e3o apenas sobre a companhia a\u00e9rea, mas nos fornecedores, bancos, empresas de seguro e uma infinidade de pol\u00edticos. As investiga\u00e7\u00f5es v\u00e3o durar anos at\u00e9 que se apure tudo, mas a pol\u00edcia j\u00e1 prendeu uma pessoa que passava pelo local do acidente portando um recipiente pl\u00e1stico contento um suspeito produto de limpeza. Apesar de n\u00e3o haver nenhuma rela\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel entre o desinfetante l\u00edquido e a queda do avi\u00e3o, o mo\u00e7o negro e pobre foi condenado e j\u00e1 se encontra preso.<\/p>\n<p>Diferente de um recente acidente a\u00e9reo envolvendo uma equipe de futebol, a respeito do qual nos solidarizamos com as v\u00edtimas e seus familiares, este parece ter provocado rea\u00e7\u00f5es d\u00edspares. Ao contr\u00e1rio daquele que motivou uma intensa solidariedade e consterna\u00e7\u00e3o geral, levando a atos inusitados de equipes abrindo m\u00e3o de t\u00edtulos, advers\u00e1rios emprestando jogadores e recursos, cartolas fazendo de conta que se preocupam com jogadores, este acidente n\u00e3o gerou uma empatia un\u00e2nime.<\/p>\n<p>Muitos foram \u00e0s ruas protestar e demonstrar seu inconformismo com tudo isso, mas outros, estranhamente, festejam a cat\u00e1strofe. Alguns dos passageiros, mesmo entre os mortos destro\u00e7ados por partes do avi\u00e3o que lhe atravessavam o corpo, vestem camisas da sele\u00e7\u00e3o brasileira e batem panelas afirmando que, apesar da dureza da queda, alguma coisa precisava ser feita. O avi\u00e3o n\u00e3o podia continuar voando daquele jeito, alegam, pois poderia acabar pousando na Bol\u00edvia, na Venezuela ou, pior ainda, em Cuba.<\/p>\n<p>Com raz\u00e3o, ficamos abalados com o acidente que vitimou toda uma equipe de jovens esportistas que, saindo das divis\u00f5es inferiores, estavam bem perto de um titulo in\u00e9dito. Mas, por que esta indiferen\u00e7a com as v\u00edtimas desta cat\u00e1strofe que se abate cotidianamente sobre n\u00f3s? Talvez porque sejam pessoas que nunca sairiam das divis\u00f5es inferiores, porque s\u00e3o muitas, porque s\u00e3o pobres, porque s\u00e3o negros, porque nunca iriam ganhar nada mesmo. Sei l\u00e1.<\/p>\n<p>Quem se importa com esta gente, se \u00e9 que \u00e9 gente mesmo isso a\u00ed? Quem se importa com um filho de marceneiro, com uma m\u00e3e doida que est\u00e1 gr\u00e1vida e acha que \u00e9 virgem? Quem se importa com uma fam\u00edlia perdida no deserto ou \u00e0 deriva num mar de indiferen\u00e7a, fugindo de governos que matam crian\u00e7as? Quem se importa? Que morram\u2026<\/p>\n<p>Os sobreviventes tentam racionalizar com aquelas coisas de costume, dizendo que se atrasaram para aquele v\u00f4o, podiam estar mortos, mas escaparam. Outros falam de sua sorte porque estavam na \u00fanica cadeira de toda uma fila que foi dizimada, ou porque entraram na regra de transi\u00e7\u00e3o e v\u00e3o se aposentar assim mesmo, ou porque n\u00e3o s\u00e3o l\u00edbios, nem s\u00edrios, n\u00e3o moram em Mariana nem na baixada fluminense. Conversamos a respeito deste comportamento com Mario Benedetti, que escapou de um acidente similar no Uruguai, porque os poetas nunca morrem, e ele nos disse o seguinte:<\/p>\n<blockquote><p>\u201ccuando en un accidente<br \/>\nuna explosi\u00f3n<br \/>\nun terremoto<br \/>\nun atentado<br \/>\nse salvan cuatro o cinco<br \/>\ncreemos<br \/>\ninsensatos<br \/>\nque derrotamos a la muerte<br \/>\npero la muerte nunca<br \/>\nse impacienta<br \/>\nseguramente<br \/>\nporque<br \/>\nsabe<br \/>\nmejor que nadie<br \/>\nque los sobrevivientes<br \/>\ntambi\u00e9n mueren.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>***<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi <\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/48#.Ul8Kh1Csh8E\" target=\"_blank\"><em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em><\/a> (Boitempo, 2002) e colabora com os livros <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/cidades-rebeldes\" target=\"_blank\"><em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em><\/a> e <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/gy%C3%B6rgy-lukacs-e-a-emancipacao-humana\" target=\"_blank\"><em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em><\/a> (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o <strong>Blog da Boitempo <\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2016\/12\/21\/mais-um-aviao-caiu-somos-todos-chape-rafael-braga-nao-e-ninguem\/\">Mais um avi\u00e3o caiu: somos todos Chape, Rafael Braga n\u00e3o \u00e9&nbsp;ningu\u00e9m<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Mauro Luis Iasi. 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