{"id":1300,"date":"2021-07-23T19:58:12","date_gmt":"2021-07-23T22:58:12","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1300"},"modified":"2021-07-23T22:53:22","modified_gmt":"2021-07-24T01:53:22","slug":"fome-e-inseguranca-alimentar-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1300","title":{"rendered":"Fome e inseguran\u00e7a alimentar no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/midias.agazeta.com.br\/2021\/03\/16\/710x388\/pessoa-passando-fome-439328.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Foto: reprodu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u201cOssinhos\u201d da fome: fam\u00e9licos e inseguran\u00e7a alimentar na pandemia de COVID-19 no Brasil<\/p>\n<p>Por Lucas Gama Lima[1]<\/p>\n<p>Atualmente, um dos temas mais comentados \u00e9 o crescimento avultado de v\u00edtimas da fome durante a pandemia de COVID-19 no Brasil. Certamente, uma das mais graves crises de inseguran\u00e7a alimentar das \u00faltimas duas d\u00e9cadas. S\u00e3o vinte milh\u00f5es de pessoas, aproximadamente, sem ter o que comer e mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira sofrendo diferentes n\u00edveis de inseguran\u00e7a alimentar[2].<\/p>\n<p>Dois dos epis\u00f3dios mais recentes dessa grave crise vieram \u00e0 tona na \u00faltima semana. Imagens de prateleiras de um supermercado, em Cuiab\u00e1\/MT, amplamente divulgadas nas redes sociais, mostravam a venda de fragmentos de arroz e de bandinha de feij\u00e3o para consumo humano. S\u00e3o produtos que, anteriormente, eram destinados \u00e0 ra\u00e7\u00e3o animal e\/ou descartados. Tamb\u00e9m provenientes da capital mato-grossense, circularam v\u00eddeos e imagens de pessoas numa enorme fila, \u00e0 espera da doa\u00e7\u00e3o de ossos bovinos por parte de um a\u00e7ougue. A frase do propriet\u00e1rio do estabelecimento, em uma determinada entrevista[3], \u00e9 bem ilustrativa do que ora descrevemos:<\/p>\n<p>At\u00e9 o ano passado, vinham em busca da doa\u00e7\u00e3o cerca de 30 a 40 pessoas. Atualmente, \u00e0s vezes h\u00e1 mais de 200 pessoas na porta. O fato \u00e9 que o n\u00famero aumentou dessa forma devido \u00e0 fome. N\u00f3s doamos alguns ossinhos, o que n\u00e3o \u00e9 muita coisa, mas fazem muita diferen\u00e7a no dia-a-dia deles.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode afirmar que o aumento do n\u00famero de fam\u00e9licos no Brasil, durante a pandemia de COVID-19, \u00e9 um evento inesperado ou acidental. V\u00e1rios foram os estudos e as publica\u00e7\u00f5es que advertiram sobre essa possibilidade, a exemplo de artigo escrito por mim, em meados de abril de 2020, sob o t\u00edtulo \u201cSe esperarmos o agroneg\u00f3cio, morreremos de fome: popula\u00e7\u00e3o em quarentena quer alimentos e n\u00e3o commodities\u201d[4]. Lamentavelmente, o desenrolar dos acontecimentos confirmou o tem\u00edvel progn\u00f3stico.<\/p>\n<p>As determina\u00e7\u00f5es essenciais do fen\u00f4meno da fome no Brasil permanecem inc\u00f3lumes. As pol\u00edticas p\u00fablicas de seguran\u00e7a alimentar e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) foram desmontadas ou fragilizadas, especialmente, entre 2019 e 2020, na primeira metade do mandato presidencial de Bolsonaro. O agroneg\u00f3cio continua ocupando amplas faixas de terra, dotadas de boa disponibilidade h\u00eddrica e pr\u00f3ximas \u00e0s grandes concentra\u00e7\u00f5es populacionais e \u00e0s principais rodovias. Al\u00e9m disso, canaliza generosos subs\u00eddios estatais para a produ\u00e7\u00e3o de commodities que integram as cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o de valor, como a circula\u00e7\u00e3o de alimentos, energia e celulose.<\/p>\n<p>A despeito das not\u00edcias do aumento da fome e do encarecimento de pre\u00e7os dos itens da cesta b\u00e1sica[5] \u2013 que t\u00eam escandalizado o pa\u00eds desde o segundo semestre de 2020[6] \u2013 a exporta\u00e7\u00e3o de commodities pelos operadores do agroneg\u00f3cio n\u00e3o para de bater recordes na pandemia de COVID-19. De janeiro a abril de 2021 a exporta\u00e7\u00e3o de soja alcan\u00e7ou algo pr\u00f3ximo de 34 milh\u00f5es de toneladas, quantidade superior \u00e0 recordista marca de 31,9 milh\u00f5es de toneladas, registradas no mesmo per\u00edodo de 2020. A exporta\u00e7\u00e3o de milho, acreditem, registrou alta de 1.854% em abril de 2021, estimulada pela especula\u00e7\u00e3o do gr\u00e3o na Bolsa de Chicago[7]. O arroz com casca e o arroz sem casca e parboilizado atingiram a segunda e a terceira maior marca de exporta\u00e7\u00e3o, respectivamente, dos \u00faltimos onze anos[8] (2010-2020).<\/p>\n<p>Os lucros ostentados pelos operadores do agroneg\u00f3cio, no \u00e2mbito da pandemia de COVID-19, falam por si s\u00f3. A JBS, uma das maiores processadoras de prote\u00edna animal do mundo e dona da marca Friboi, encerrou o \u00faltimo trimestre de 2020 com lucro l\u00edquido de R$ 4 bilh\u00f5es, o que representa um crescimento de 65% em rela\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2019[9]. A BRF, controladora das marcas Sadia e Perdig\u00e3o, anunciou um lucro l\u00edquido anual de R$ 1,4 bilh\u00e3o, eleva\u00e7\u00e3o de 14,6% em rela\u00e7\u00e3o ao ano de 2019[10]. A norteamericana BUNGE, trading global, com v\u00e1rias opera\u00e7\u00f5es no territ\u00f3rio brasileiro, anunciou um lucro l\u00edquido de 551 milh\u00f5es de d\u00f3lares, no quarto trimestre de 2020[11], e j\u00e1 celebra o fato de ter mais que triplicado seus ganhos no primeiro trimestre de 2021, quando comparados ao mesmo intervalo de tempo do ano anterior[12].<\/p>\n<p>Em resumo, o agroneg\u00f3cio n\u00e3o interrompeu sua marcha e nem mesmo o desespero de quem aguarda numa fila por um \u201cossinho\u201d mostrou-se capaz de sensibilizar seus operadores. Por sinal, n\u00e3o nos parece coincid\u00eancia que os casos de comercializa\u00e7\u00e3o de fragmentos de arroz e bandinha de feij\u00e3o, bem como a doa\u00e7\u00e3o de ossos bovinos tenham ocorrido em Cuiab\u00e1. A capital mato-grossense est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio brasileiro, onde circundam os hectares a perder de vista dos monocultivos agr\u00edcolas, as ind\u00fastrias processadoras de gr\u00e3os e prote\u00edna animal e os dep\u00f3sitos das tradings. \u00c9, portanto, territ\u00f3rio da riqueza e da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Se o agroneg\u00f3cio prosseguir ditando a din\u00e2mica do uso da terra, o destino da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e se apropriando de parcelas importantes do fundo p\u00fablico, n\u00e3o ser\u00e3o poucos os epis\u00f3dios de filas por \u201cossinhos\u201d, venda de ra\u00e7\u00e3o animal como alimento humano, etc, etc. E n\u00e3o adianta alavancar o encarceramento de pessoas por furto de comida[13] \u2013 como tem ocorrido durante a pandemia de COVID-19 no Brasil \u2013 em a\u00e7\u00f5es que nos fazem recordar a comovente hist\u00f3ria de Jean Valjean, personagem do genial Victor Hugo, igualmente condenado por crime fam\u00e9lico na Fran\u00e7a do s\u00e9culo XVIII[14]. Que possamos, logo, encerrar essa barb\u00e1rie!<\/p>\n<p>[1] Professor do Curso de Geografia do Campus do Sert\u00e3o da UFAL e membro do Comit\u00ea Central do PCB.<\/p>\n<p>[2] http:\/\/olheparaafome.com.br\/<\/p>\n<p>[3] https:\/\/www.pnbonline.com.br\/geral\/dono-de-aa-ougue-em-cuiaba-que-faz-doaa-a-o-de-ossinhos-diz-que-procura-a-assustadora\/78523<\/p>\n<p>[4] Dispon\u00edvel em: http:\/\/anpocs.org\/index.php\/publicacoes-sp-2056165036\/boletim-cientistas-sociais\/2341-boletim-n-27-cientistas-sociais-e-o-coronavirus. Tamb\u00e9m dispon\u00edvel em: https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/25298\/se-depender-do-agronegocio-morremos-de-fome\/<\/p>\n<p>[5] https:\/\/g1.globo.com\/jornal-nacional\/noticia\/2021\/03\/11\/brasil-e-o-pais-onde-precos-dos-alimentos-subiram-mais-depressa-na-pandemia-diz-estudo.ghtml<\/p>\n<p>[6] https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/10\/14\/alta-dos-alimentos-atinge-populacao-desempregada-nao-tenho-condicoes-de-comprar<\/p>\n<p>[7] https:\/\/www.canalrural.com.br\/projeto-soja-brasil\/soja-recorde-exportacao\/<\/p>\n<p>[8] http:\/\/comexstat.mdic.gov.br\/pt\/home<\/p>\n<p>[9] https:\/\/www.poder360.com.br\/economia\/lucro-da-jbs-atinge-r-4-bilhoes-no-4o-trimestre-de-2020\/<\/p>\n<p>[10] https:\/\/www.infomoney.com.br\/mercados\/lucro-da-brf-sobe-308-e-vai-a-r-902-milhoes-no-4o-trimestre-de-2020\/<\/p>\n<p>[11] https:\/\/valor.globo.com\/agronegocios\/noticia\/2021\/02\/10\/bunge-registrou-lucro-liquido-de-us-551-milhoes-no-4o-trimestre-de-2020.ghtml<\/p>\n<p>[12] https:\/\/forbes.com.br\/forbes-money\/2021\/05\/bunge-mais-que-triplica-lucro-no-1o-trimetre\/<\/p>\n<p>[13] https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-57477601<\/p>\n<p>[14] HUGO, Victor. Os Miser\u00e1veis. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\u00a0\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1300\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[219],"class_list":["post-1300","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-kY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1300","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1300"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1300\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1300"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1300"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1300"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}