{"id":13004,"date":"2016-12-23T12:21:10","date_gmt":"2016-12-23T15:21:10","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13004"},"modified":"2017-01-05T09:45:09","modified_gmt":"2017-01-05T12:45:09","slug":"google-trump-e-o-futuro-da-propaganda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13004","title":{"rendered":"Google, Trump e o futuro da propaganda*"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/DonaldTrumpeoGoogle600x336.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Ant\u00f3nio Santos<\/p>\n<p>Muita gente interroga-se como foi poss\u00edvel o \u00eaxito de Trump, se teve contra si todos os grandes media. Foi na Internet e n\u00e3o na televis\u00e3o que Trump fez propaganda. Com o estratega neofascista Steve Bannon e a sua equipa de f\u00edsicos e engenheiros da Analytica, a campanha de Trump desenvolveu 50 mil perfis individuais de eleitor, permitindo aquilo a que se pode chamar micro-propaganda.<!--more--><\/p>\n<p>Quando, h\u00e1 cerca de um m\u00eas, Donald Trump venceu as presidenciais estado-unidenses, a maioria dos \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social do planeta constataram que n\u00e3o tinham uma \u00fanica boa explica\u00e7\u00e3o para o sucedido. Ent\u00e3o, num espect\u00e1culo de leitura constrangedora, milhares de comentadores, colunistas e \u00abespecialistas\u00bb fizeram o que sabiam: perguntaram \u00e0 Internet uma qualquer variante de \u00abpor que venceu Trump?\u00bb e deixaram que o Google desse a resposta. O resultado foi uma avalanche de not\u00edcias falsas e explica\u00e7\u00f5es desprovidas de base cient\u00edfica: n\u00e3o, n\u00e3o foram os oper\u00e1rios do Cintur\u00e3o da Ferrugem quem deu a Casa Branca a Trump; \u00e9 mentira que os trabalhadores mais pobres se tenham virado para o Partido Republicano e todas estat\u00edsticas que atribuem o \u00f3nus \u00e0 cor da pele, ao sexo ou \u00e0 habilita\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria esquecem-se de que Mitt Romney perdeu as elei\u00e7\u00f5es de 2012 com mais votos do que Trump e um eleitorado id\u00eantico. Mas, com este p\u00e9ssimo exemplo de informa\u00e7\u00e3o desinformada, a comunica\u00e7\u00e3o social da classe dominante conseguiu, acidentalmente, revelar um dos segredos da vit\u00f3ria de Trump: a Internet como arma de desinforma\u00e7\u00e3o individualizada.<\/p>\n<p>Num excelente trabalho de investiga\u00e7\u00e3o do The Guardian, publicado na semana passada, a jornalista Carole Cadwalladr constata que o Google parece querer conduzir-nos para sites de neofascistas, portais de not\u00edcias falsas e organiza\u00e7\u00f5es de direita. O Google \u00e9, hoje em dia, sin\u00f3nimo de Internet. Um gigante que, em menos de vinte anos, conquistou o monop\u00f3lio da gest\u00e3o do conhecimento digital do mundo, controlando, a 63 mil pesquisas por segundo, a hierarquia das nossas fontes e, consequentemente, a nossa percep\u00e7\u00e3o sobre o que \u00e9 verdadeiro e o que \u00e9 falso. Quando, por exemplo, escrevemos no Google (em ingl\u00eas) \u00abpor que \u00e9 que os comunistas\u2026\u00bb, o motor de busca sugere que completemos a pergunta com: \u00abpor que \u00e9 que os comunistas s\u00e3o maus?\u00bb, \u00abpor que \u00e9 que os comunistas s\u00e3o odiados\u00bb, etc. apresentando de imediato dezenas de sites ligados \u00e0 extrema-direita dedicados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas. No contexto portugu\u00eas, se perguntarmos \u00abem que partido votar\u00bb, o Google conduz-nos para as pe\u00e7as mais proselitistas do Observador e a \u00abtestes\u00bb que, mesmo respondendo com as posi\u00e7\u00f5es do PCP, insistem que devemos votar no Bloco de Esquerda.<\/p>\n<p><strong>Micro-propaganda<\/strong><\/p>\n<p>O Google, \u00e0 semelhan\u00e7a do Facebook, do Twitter e de outros gigantes da Internet, n\u00e3o revela a mec\u00e2nica do seu algoritmo, pelo que \u00e9 imposs\u00edvel saber ao certo por que raz\u00e3o nos conduz para uma p\u00e1gina e n\u00e3o para outra, mas a campanha de Trump demonstrou que o futuro da propaganda passa por compreender o nebuloso funcionamento da Internet.<\/p>\n<p>Foi na Internet, e n\u00e3o na televis\u00e3o, que Trump fez propaganda. Com o estratega neofascista Steve Bannon e a sua equipa de f\u00edsicos e engenheiros da Analytica, a campanha de Trump desenvolveu 50 mil perfis individuais de eleitor, permitindo aquilo a que se pode chamar micro-propaganda: an\u00fancios personalizados em fun\u00e7\u00e3o do que o Google, o Facebook e o Twitter sabem sobre n\u00f3s. E estas empresas garantem saber quem n\u00f3s somos. Da mesma forma que a Internet \u00e0s vezes parece saber de que produtos ou marcas gostamos, a campanha de Trump sabia, com um grau de certeza sem precedente hist\u00f3rico, quem estava desempregado, quem era oper\u00e1rio, quem era negro, quem estava gr\u00e1vida, quem tinha um seguro de sa\u00fade dispendioso, etc.<\/p>\n<p>Outra inova\u00e7\u00e3o da micro-propaganda digital \u00e9 a sua natureza din\u00e2mica. Ao bombardear os eleitores com propaganda personalizada, \u00e9 poss\u00edvel gerar n\u00edveis de interac\u00e7\u00e3o que alteram o nosso perfil na Internet, convencendo o Google de que \u00abgostamos\u00bb dessa op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Um dos feitos mais impressionantes da campanha de Trump foi gerar uma nuvem de centenas de sites de propaganda, not\u00edcias falsas e dep\u00f3sitos de \u00abconte\u00fados\u00bb sem qualquer credibilidade capazes, no entanto, de competir de igual para igual com gigantes como a CNN. O segredo destes sites consiste precisamente em surgir primeiro nos motores de busca explorando o que a Internet pensa que somos.<\/p>\n<p>De uma pris\u00e3o fascista, Ant\u00f3nio Gramsci parecia ver a lonjura dos nossos tempos: \u00abo velho mundo est\u00e1 a morrer e o novo luta por nascer: este \u00e9 o tempo dos monstros\u00bb, escreveu. Os efeitos cognitivos e ideol\u00f3gicos da apropria\u00e7\u00e3o capitalista da Internet, ainda na inf\u00e2ncia hist\u00f3rica, t\u00eam o potencial de multiplicar os monstros e reduzir o que n\u00f3s somos ao que a Internet pensa que somos.<\/p>\n<p><strong><em>*Este artigo foi publicado no \u201cAvante!\u201d n\u00ba 2246, 15.12.2016<\/em><\/strong><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/google-trump-e-o-futuro-da\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ant\u00f3nio Santos Muita gente interroga-se como foi poss\u00edvel o \u00eaxito de Trump, se teve contra si todos os grandes media. 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