{"id":13017,"date":"2016-12-24T12:21:35","date_gmt":"2016-12-24T15:21:35","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13017"},"modified":"2017-01-05T09:46:12","modified_gmt":"2017-01-05T12:46:12","slug":"secundas-desobediencia-e-organizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13017","title":{"rendered":"&#8216;Secundas&#8217;: desobedi\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/9pveTFj4WSRF5gvb_b7n7tv0IB1rbKLKeU8bNnrSphAATQG7pyhCNQIZf_NtcwpRG9nLyc6Yu8xpxTisvEU7Y5xOeF7-PZEq-X7RO2ZS_q4SHdouHVudh9bjD0wPSZKJkV_yODm2-q9TahxroBPWSUcMbZ261nIbIXT0jNp103Z720Wdo8IN3l-889X_SL4=s0-d-e1-ft#http:\/\/cartamaior.com.br\/arquivosCartaMaior\/FOTO\/188\/CF0292448A5E22F99CBD516CCB59F818013693A3AD12DBE87DBF5DB4D62FF7E4.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Jean Tible &#8211; Teoria e Debate<\/p>\n<p>Duas imagens em movimento expressam novas subjetividades que tomam corpo no Brasil recente, isto \u00e9, na \u00faltima d\u00e9cada<!--more-->.<\/p>\n<p>A primeira, de novembro de 2015[2]. A secundarista Ana J\u00falia fala na tribuna da Assembleia Legislativa do Paran\u00e1 e pergunta a quem pertence a escola para defender a legitimidade e legalidade do movimento de ocupa\u00e7\u00e3o, essa presen\u00e7a intensa nos col\u00e9gios e universidades (cujo pico alcan\u00e7ou o n\u00famero de mil, pa\u00eds afora) que lhe teria mais ensinado sobre cidadania e pol\u00edtica que muitos anos de aula. Ana J\u00falia vai em seguida criticar v\u00e1rias iniciativas do governo golpista nas \u00faltimas semanas (a dita reforma do ensino m\u00e9dio e a PEC 241\/55) e tamb\u00e9m da extrema-direita emergente e sua escola sem partido. Tal projeto consistiria na promo\u00e7\u00e3o de uma escola homof\u00f3bica e racista, a cria\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito n\u00e3o pensante de jovens. A isso ela op\u00f5e o movimento de ocupa\u00e7\u00f5es que transformou adolescentes em cidad\u00e3os ativos. Ela interpela as for\u00e7as da ordem no sentido amplo: os deputados, primeiro, mas tamb\u00e9m o pa\u00eds como um todo.<\/p>\n<p>Os \u201csecundas\u201d executaram \u201cum dos gestos coletivos mais ousados na hist\u00f3ria recente (\u2026), esse movimento destampou a imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d. Desse modo, \u201cj\u00e1 n\u00e3o se tolera o que antes se tolerava, e passa-se a desejar o que antes era impens\u00e1vel. Isso significa que a fronteira entre o intoler\u00e1vel e o desej\u00e1vel se desloca \u2013 e sem que se entenda como nem por qu\u00ea, de pronto parece que tudo mudou: ningu\u00e9m aceita mais o que antes parecia inevit\u00e1vel (a escola disciplinadora, a hierarquia arbitr\u00e1ria, a degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de ensino), e todos exigem o que antes parecia inimagin\u00e1vel (a invers\u00e3o das prioridades entre o p\u00fablico e o privado, a primazia da voz dos estudantes, a possibilidade de imaginar uma outra escola, um outro ensino, uma outra juventude, inclusive uma outra sociedade!)\u201d[4]. Os \u201csecundas\u201d assustam.<\/p>\n<p><b>Desobedi\u00eancia<\/b><\/p>\n<p>A escola \u00e9 uma pris\u00e3o. No que poderia ser uma piada foucaultiana[6]. Dizer que a escola \u00e9 uma pris\u00e3o \u00e9 uma verdade (cadeados mil, hierarquias sem sentido, autoritarismos variados, diretores de escolas que agem como carcereiros), mas pode se ater a uma den\u00fancia importante, por\u00e9m impotente. Al\u00e9m disso, todos os setores pol\u00edticos e sociais no Brasil seriam a favor da educa\u00e7\u00e3o; a educa\u00e7\u00e3o como grande consenso nacional, ainda que um consenso oco. A for\u00e7a pragm\u00e1tica e a a\u00e7\u00e3o dos estudantes desestabilizaram isso tudo e abriram brechas para pensarmos e mudarmos essas quest\u00f5es pra valer.<\/p>\n<p>As escolas ocupadas mudam essa chave. Uma apropria\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e concreta8; a escola de luta como pr\u00e9-figura\u00e7\u00e3o de uma escola reinventada ou que nem escola seja mais. Cuidando de si e dos outros[10]. Podem-se compreender, nesse plano, as mudan\u00e7as menos como projetos de crescimento progressivo institucional (com demandas \u201cmais realistas\u201d, isto \u00e9, menos imaginativas e mais comportadas) e mais numa a\u00e7\u00e3o de romper a camisa de for\u00e7a da pol\u00edtica institucional via mobiliza\u00e7\u00e3o \u201cpor fora\u201d[12] e coloca a \u201cnecessidade de um cuidado das conex\u00f5es (\u2026), dos la\u00e7os que ligam movimentos de tipos diferentes, organizados a partir de interesses e problemas diversos\u201d[14]. Todo um ecossistema aut\u00f4nomo no sentido amplo (Movimento Passe Livre \u2013MPL e muitos outros coletivos e iniciativas como a Marcha da Maconha, ocupa\u00e7\u00f5es dos aparelhos culturais contra a extin\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio da Cultura, cryptorave, mulheres e LGBT contra a cultura do estupro, torcidas organizadas contra a Globo, Marcha do Orgulho Crespo) e os \u201csecundas\u201d abriram um novo imagin\u00e1rio radical. Num sentido talvez diferente do qual essa palavra \u00e9 em geral empregada, eles deram uma certa dire\u00e7\u00e3o para as esquerdas. Ningu\u00e9m luta mais (ou n\u00e3o deveria) sem levar em conta essas inven\u00e7\u00f5es, enfrentamentos e ousadias recentes \u2013 as a\u00e7\u00f5es diretas, atos, ocupa\u00e7\u00f5es de pra\u00e7as, aberturas e corpos em luta.<\/p>\n<p>Claro que o significado de \u201caprender\u201d com os \u201csecundas\u201d n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio e exige uma s\u00e9rie de exerc\u00edcios de cria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, assim como \u201chonrar\u201d os zapatistas, as curdas, junho de 2013 ou o petismo em seu tempo subversivo. Os \u201csecundas\u201d mesmo est\u00e3o vivendo e sofrendo as agruras de continuar, para al\u00e9m da explos\u00e3o e exuber\u00e2ncia das mobiliza\u00e7\u00f5es, e tendo que encarar uma pesada repress\u00e3o (durante as ocupa\u00e7\u00f5es e depois), as dificuldades de manter o comando das escolas ocupadas e suas articula\u00e7\u00f5es e o fato de n\u00e3o conseguirem constituir maiorias que os apoiem nas escolas. A cl\u00e1ssica quest\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o nesses novos tempos se coloca para as esquerdas, tanto as partid\u00e1rias quantos as aut\u00f4nomas, passando pelas h\u00edbridas. Como escapar da \u201clei de ferro das oligarquias partid\u00e1rias\u201d[16]? Como lutar e trabalhar produtivamente as tens\u00f5es e la\u00e7os entre \u201crevolta\u201d e \u201corganiza\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cespontaneidade\u201d e \u201cdia a dia\u201d, \u201chorizontalidade\u201d e \u201cestrutura\u201d. N\u00e3o podemos fazer desses pares um conjunto de alternativas infernais. Ao contr\u00e1rio, esse tensionamento permanente pode nos permitir pensar-fazer horizontalidades estruturadas, organiza\u00e7\u00f5es descentralizadas, pol\u00edtica distribu\u00edda, (con)federa\u00e7\u00e3o de lutas, redes de apoio m\u00fatuo, plataformas de colabora\u00e7\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o coletiva e produ\u00e7\u00e3o de novas rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o domesticar essas oposi\u00e7\u00f5es, mas experimentar sua coabita\u00e7\u00e3o e us\u00e1-la para a inven\u00e7\u00e3o de outras ecologias pol\u00edticas[17]. N\u00e3o por acaso, Rosa Luxemburgo volta a incendiar e inspirar pr\u00e1ticas e imagin\u00e1rios.<\/p>\n<p><b>Jean Tible <\/b>\u00e9 militante e professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica na Universidade de S\u00e3o Paulo. \u00c9 autor de <i>Marx Selvagem<\/i> (Annablume, 2013; 2. edi\u00e7\u00e3o, 2016) e co-organizador de <i>Junho: Pot\u00eancia das Ruas e das Redes<\/i> (Funda\u00e7\u00e3o Friedrich Ebert, 2014) e <i>Cartografias da Emerg\u00eancia: Novas Lutas no Brasil<\/i> (FES, 2015). Textos e livros dispon\u00edveis em: <a href=\"https:\/\/usp-br.academia.edu\/JeanTible\" target=\"_blank\">https:\/\/usp-br.academia.edu\/<wbr \/>JeanTible<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Educacao\/-Secundas-desobediencia-e-organizacao\/13\/37496\" target=\"_blank\">http:\/\/cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Educacao\/-Secundas-desobediencia-e-organizacao\/13\/37496<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jean Tible &#8211; Teoria e Debate Duas imagens em movimento expressam novas subjetividades que tomam corpo no Brasil recente, isto \u00e9, na \u00faltima \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13017\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[108],"tags":[],"class_list":["post-13017","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c121-estudantil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3nX","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13017","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13017"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13017\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13017"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13017"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13017"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}