{"id":13088,"date":"2017-01-02T07:31:36","date_gmt":"2017-01-02T10:31:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13088"},"modified":"2017-01-16T11:33:32","modified_gmt":"2017-01-16T14:33:32","slug":"os-povos-da-ex-urss","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13088","title":{"rendered":"Os povos da Ex-URSS"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.allrussias.com\/images\/nation_USSR%20nationalities%201979%20CIA_big.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Miguel Urbano Rodrigues<\/p>\n<p>30\/12\/2016<\/p>\n<p>O desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi uma trag\u00e9dia para a Humanidade. Foi acelerada pela trai\u00e7\u00e3o de Gorbatchov e pela guerra n\u00e3o declarada do imperialismo<!--more--> norte-americano, mas numerosos outros fatores contribu\u00edram para ela. Para a tentarmos entender, e tamb\u00e9m a para tentarmos entender a R\u00fassia contempor\u00e2nea \u00e9 imprescind\u00edvel, nomeadamente, um conhecimento m\u00ednimo da hist\u00f3ria dos povos que habitam o seu gigantesco territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 precedente hist\u00f3rico para o Estado multinacional que foi criado na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Russa de Outubro de 1917.<\/p>\n<p>Finda a guerra civil, povos de 126 nacionalidades conviveram durante muitas d\u00e9cadas, quase sempre pacificamente, no vast\u00edssimo espa\u00e7o euroasi\u00e1tico sovi\u00e9tico. Esses povos falavam 180 idiomas diferentes, de quatro fam\u00edlias lingu\u00edsticas.<br \/>\nComo foi poss\u00edvel?<\/p>\n<p>As tentativas de explica\u00e7\u00e3o desse desafio \u00e0 logica da Hist\u00f3ria s\u00e3o muitas e contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p>O gigantismo do pa\u00eds foi o desfecho de circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas que n\u00e3o eram previs\u00edveis quando em Kiev, na Ucr\u00e2nia, surgiu, no s\u00e9culo IX, o principado de Rus, ber\u00e7o do futuro estado, criado \u2013 segundo a maioria dos historiadores &#8211; pelos varegos, escandinavos que ali chegaram descendo grandes rios.<\/p>\n<p>A R\u00fassia medieval teve como refer\u00eancia cultural e religiosa Biz\u00e2ncio, a Roma do Oriente. Mas permaneceu um pa\u00eds atrasado no qual pequenos principados raramente se uniam para enfrentar os invasores estrangeiros. Estes vinham do Oriente, n\u00f4mades asi\u00e1ticos, e do Ocidente, sobretudo a avan\u00e7ada para leste de povos germ\u00e2nicos.<br \/>\nNo s\u00e9culo XIII, os mong\u00f3is de Batu Khan destru\u00edram as principais cidades, de Moscou a Kiev, numa orgia de barb\u00e1rie. Esse povo de n\u00f4mades chegou para ficar.<\/p>\n<p>Durante quase tr\u00eas seculos, os Kanatos dos pr\u00edncipes gengiskanidas dominaram grande parte da R\u00fassia, impondo pesados tributos \u00e0s popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o se fundiram com os russos. Na \u00c1sia, os mong\u00f3is e turcos da conquista dilu\u00edram-se, descaracterizaram-se no contato com grandes civiliza\u00e7\u00f5es. Na China sinizaram-se; na P\u00e9rsia tornaram-se mu\u00e7ulmanos. Na R\u00fassia atrasada, a cultura e a religi\u00e3o ortodoxa n\u00e3o os atra\u00edram; abra\u00e7aram o Isl\u00e3.<\/p>\n<p>Foi somente no seculo XVI que o czar Ivan IV, ao tomar Kazan, p\u00f4s fim ao senhorio da Horda de Ouro mongol.<\/p>\n<p>Mas a heran\u00e7a gen\u00e9tica dos invasores asi\u00e1ticos foi profunda. Milh\u00f5es de russos descendem de um prolongado processo de mesti\u00e7agem. Os av\u00f3s paternos do pr\u00f3prio Lenin eram calmucos, um povo turco mongol.<\/p>\n<p>Sem acesso ao B\u00e1ltico e ao Mar Negro, acossada a Ocidente pela Ordem Teut\u00f3nica, por polacos e lituanos, e mais tarde pelos suecos, a sul pela Turquia, a R\u00fassia iniciou a sua expans\u00e3o para leste.<\/p>\n<p>A imensid\u00e3o siberiana era um territ\u00f3rio praticamente despovoado. Na \u00e9poca em que os russos avan\u00e7aram para al\u00e9m dos Urales, o total de habitantes da Sib\u00e9ria, segundo os dem\u00f3grafos, rondaria os 300 000. A maioria, de origem turca, nomadizava. Eram tribos remanescentes das grandes invas\u00f5es que na Alta Idade M\u00e9dia tinham avan\u00e7ado para a Europa, sobretudo a partir do Altai.<\/p>\n<p>Os pioneiros russos, deslocando-se a p\u00e9, a cavalo, de barco ou de tren\u00f3 consoante a esta\u00e7\u00e3o, atingiram rapidamente o \u00c1rtico e em 1640 fundavam Irkutsk, e uma d\u00e9cada depois a galopada conquistadora desembocava no Pacifico.<\/p>\n<p>Mas o imperialismo russo somente assumiu contornos de politica de estado um s\u00e9culo depois, com Pedro I, cognominado o Grande. \u00c9 no reinado desse czar que a R\u00fassia expulsa os suecos de Riga e do golfo da Finl\u00e2ndia, onde funda S\u00e3o Petersburgo. As guerras com a Turquia abrem-lhe simultaneamente o acesso ao Mar de Azov e ao Mar Negro. A Ucr\u00e2nia, que estava quase toda sob ocupa\u00e7\u00e3o polaca, \u00e9 incorporada na R\u00fassia.<\/p>\n<p>A partir de meados do seculo XVIII, na \u00e9poca da czarina Catarina, a politica imperial altera-se profundamente.<\/p>\n<p>As conquistas no C\u00e1ucaso, ap\u00f3s guerras contra a Turquia e a P\u00e9rsia, e posteriormente \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o do Cazaquist\u00e3o em regime de protetorado, e a conquista dos emirados da Asia Central, densamente povoados por turcos e iranianos, motivaram atitudes diferenciadas. Na Arm\u00eania e na Ge\u00f3rgia, na\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, os russos foram recebidos como libertadores.<\/p>\n<p>Outra foi a atitude das popula\u00e7\u00f5es no Azerbaij\u00e3o, em pequenos estados do C\u00e1ucaso e nos emirados do Turquest\u00e3o onde o Isl\u00e3 estava enraizado h\u00e1 mais de um mil\u00eanio.<br \/>\nA administra\u00e7\u00e3o russa adotou a\u00ed pol\u00edticas de recorte colonial t\u00edpico. Os colonos russos n\u00e3o se misturaram com os aut\u00f3ctones; instalaram-se em bairros diferentes. Os governadores imperiais permitiram que as autoridades locais permanecessem em fun\u00e7\u00f5es e para os mu\u00e7ulmanos foram mantidas as leis isl\u00e2micas. Os emirados mantiveram uma autonomia fict\u00edcia at\u00e9 \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, que dep\u00f4s os pr\u00edncipes gengiskanidas.<\/p>\n<p>Na brutalidade da repress\u00e3o, o colonialismo russo na \u00c1sia Central apresentou semelhan\u00e7as com o dos ingleses, franceses e portugueses na Africa subsaariana. A continuidade geogr\u00e1fica dos territ\u00f3rios anexados imprimiu-lhe, por\u00e9m, caracter\u00edsticas peculiares, diferentes do europeu, marcado pelo afastamento das col\u00f3nias da metr\u00f3pole europeia. Na Asia Central n\u00e3o se registou, por\u00e9m, at\u00e9 ao final da II Guerra, uma pol\u00edtica de russifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A queda da autocracia czarista levantou uma vaga de esperan\u00e7a nas popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o russas do imp\u00e9rio. Mas, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro, as mudan\u00e7as foram m\u00ednimas, com poucas exce\u00e7\u00f5es. Na Europa as \u00e1reas ocidentais estavam ali\u00e1s parcialmente ocupadas pelos alem\u00e3es.<\/p>\n<p>O quadro somente mudou com a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p>O Decreto sobre a Paz, de 26 de Outubro de 1917, condenou todas as anex\u00f5es realizadas pelas grandes pot\u00eancias europeias. E, dias depois, a 2 de novembro, o Decreto sobre as nacionalidades definiu os princ\u00edpios que a jovem rep\u00fablica pretendia impor nas rela\u00e7\u00f5es com as popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o russas. Inclu\u00edam o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos que optassem pela independ\u00eancia. Contrariando influentes membros do Comit\u00e9 Central, Lenin n\u00e3o se op\u00f4s \u00e0 independ\u00eancia da Finl\u00e2ndia e \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o da Pol\u00f4nia como estados soberanos.<\/p>\n<p>Lenin via a URSS como uma uni\u00e3o de rep\u00fablicas iguais na qual a R\u00fassia teria os mesmos direitos que as outras. A sua preocupa\u00e7\u00e3o com a quest\u00e3o nacional era t\u00e3o grande que nos anos do exilio incumbiu Stalin de escrever um trabalho sobre o tema que foi posteriormente editado em livro*. Lenin elogiou o ensaio de Stalin, mas as ideias de ambos sobre a quest\u00e3o nacional n\u00e3o coincidiam.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses b\u00e1lticos a situa\u00e7\u00e3o era muito complexa. Surgiram tr\u00eas tend\u00eancias antag\u00f4nicas. A maiorit\u00e1ria pronunciou-se pela independ\u00eancia. Uma minoria revolucion\u00e1ria bateu-se pela integra\u00e7\u00e3o na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e um setor da burguesia agr\u00e1ria pela liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Alemanha. A interven\u00e7\u00e3o da esquadra brit\u00e2nica contribuiu decisivamente para a vit\u00f3ria dos partid\u00e1rios da independ\u00eancia. Nos tr\u00eas pa\u00edses, dois seculos de administra\u00e7\u00e3o russa n\u00e3o tinham abalado as superestruturas culturais. A Est\u00f4nia, fino-ugria, e a Let\u00f4nia e a Litu\u00e2nia, indo-europeias, mantinham os seus idiomas e o alfabeto latino.<\/p>\n<p>No C\u00e1ucaso e na Asia Central a integra\u00e7\u00e3o na R\u00fassia revolucion\u00e1ria n\u00e3o foi imediata.<br \/>\nNo Daguest\u00e3o, na Chech\u00eania, na Inguchia, terras mu\u00e7ulmanas, imperou o caos durante anos.<\/p>\n<p>Em 1918, ap\u00f3s a derrota da Turquia, tropas brit\u00e2nicas ocuparam o Azerbaij\u00e3o, a Ge\u00f3rgia e a Arm\u00eania e reprimiram as for\u00e7as revolucion\u00e1rias favor\u00e1veis \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro. Sob a prote\u00e7\u00e3o das baionetas inglesas, os pa\u00edses da Transcauc\u00e1sia proclamaram a independ\u00eancia. Mas, quando os brit\u00e2nicos se retiraram, os comunistas tomaram o poder no Azerbaij\u00e3o e em 1920 o pa\u00eds optou pela integra\u00e7\u00e3o na R\u00fassia sovi\u00e9tica. Na Ge\u00f3rgia a situa\u00e7\u00e3o permaneceu tensa durante o breve governo socialdemocrata que ali se instalou. Foi a interven\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito vermelho em 1921 que precedeu a ades\u00e3o \u00e0 Rep\u00fablica Russa.<\/p>\n<p>Na Arm\u00eania, onde o sentimento nacional era muito forte, refor\u00e7ado pelo genoc\u00eddio dos arm\u00eanios na Turquia, foi tamb\u00e9m a interven\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito vermelho em 1921 que permitiu a cria\u00e7\u00e3o de uma rep\u00fablica sovi\u00e9tica, pondo termo a uma prolongada guerra civil.<\/p>\n<p>Mas Lenin tornou p\u00fablico o seu desacordo da repress\u00e3o no C\u00e1ucaso, criticando com severidade os m\u00e9todos ali aplicados por Stalin.<\/p>\n<p>Na \u00c1sia Central as popula\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas festejaram a queda da autocracia czarista, mas em l918 a rep\u00fablica socialista sovi\u00e9tica do Turquest\u00e3o teve uma exist\u00eancia breve, tal como as rep\u00fablicas de Bukhara e do Korass\u00e3o.<\/p>\n<p>A guerra civil foi ali prolongada e o almirante Koltchak, l\u00edder da contrarrevolu\u00e7\u00e3o, chegou a controlar parte da \u00c1sia Central.<\/p>\n<p>Durante quase quatro anos imperou o caos na Regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Somente quando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi criada em Dezembro de 1922, as popula\u00e7\u00f5es do antigo Turquest\u00e3o voltaram a viver em paz.<\/p>\n<p>O processo de integra\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia na R\u00fassia sovi\u00e9tica foi talvez o mais traum\u00e1tico. Os nacionalistas de Petliura defenderam a cria\u00e7\u00e3o de um Estado independente contra a opini\u00e3o da minoria russ\u00f3fona do leste do pa\u00eds. Com a ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3, a confus\u00e3o aumentou. A Ucr\u00e2nia foi um dos principais cen\u00e1rios da guerra civil entre os brancos e as for\u00e7as revolucion\u00e1rias, mas os bolcheviques venceram.<\/p>\n<p>O RENASCIMENTO DOS NACIONALISMOS<\/p>\n<p>Sucessivos governos da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica afirmaram ap\u00f3s 1945 que a quest\u00e3o nacional tinha sido definitivamente resolvida.<\/p>\n<p>Simulavam ignorar a realidade.<\/p>\n<p>Durante a guerra, os alem\u00e3es foram bem recebidos por uma parcela importante das popula\u00e7\u00f5es b\u00e1lticas. O mesmo ocorreu inicialmente na Ucr\u00e2nia. Mais de 100 000 ucranianos lutaram contra a URSS, muitos nas SS nazis. E os guardas de muitos campos de concentra\u00e7\u00e3o alem\u00e3es eram ucranianos colaboracionistas.<br \/>\n\u00c9 um fato que na Europa e na \u00c1sia foi pac\u00edfico durante d\u00e9cadas o conv\u00edvio da maioria russa com as minorias nacionais. Mas a concep\u00e7\u00e3o de Lenin, incorporada na Constitui\u00e7\u00e3o da URSS, sobre a igualdade de direitos dos povos da Uni\u00e3o nunca foi respeitada. O que prevaleceu foi, na pr\u00e1tica, a conce\u00e7\u00e3o do federalismo internacionalista de Stalin, hegemonizado pela R\u00fassia.<\/p>\n<p>O homo sovi\u00e9ticus que deveria ser uma cria\u00e7\u00e3o do socialismo n\u00e3o passou de aspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No final da II guerra mundial, as feridas abertas por decis\u00f5es de Stalin, incompat\u00edveis com os princ\u00edpios que regulamentavam a quest\u00e3o nacional, n\u00e3o estavam cicatrizadas.<br \/>\nA expuls\u00e3o para a \u00c1sia Central dos T\u00e1rtaros da Crimeia, dos alem\u00e3es do Volga e de alguns povos de origem turca, e a deporta\u00e7\u00e3o para a Sib\u00e9ria de milhares de b\u00e1lticos deixou sequelas profundas nas minorias atingidas por essas medidas repressivas.<br \/>\nO renascimento do nacionalismo separatista no espa\u00e7o sovi\u00e9tico ficou transparente desde o in\u00edcio da perestroika. Contribuiu decisivamente para a desagrega\u00e7\u00e3o da URSS.<\/p>\n<p>Foi obviamente incentivado e, com frequ\u00eancia financiado pelos EUA, no \u00e2mbito de uma estrat\u00e9gia cuja meta era a destrui\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a transforma\u00e7\u00e3o da R\u00fassia numa sociedade capitalista.<\/p>\n<p>Mas o \u00eaxito dessa pol\u00edtica foi muito facilitado pela atmosfera anti russa que persistia, adormecida, nas popula\u00e7\u00f5es de muitas rep\u00fablicas.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses b\u00e1lticos, onde havia fortes minorias russas, foram os primeiros a romper, optando pela independ\u00eancia. Em visita \u00e0 Litu\u00e2nia e Let\u00f4nia no ver\u00e3o de 1989 chocou-me a vaga de anticomunismo. Funcion\u00e1rios dos Partidos locais elogiavam como \u00abher\u00f3is\u00bb os dirigentes de direita da Republica anterior \u00e0 II Guerra Mundial. Em Vilnius, Alguis Tchecuolis, um lituano que havia dirigido a Agencia Novosti em Lisboa, disse-me sem rodeios que era \u00abanti leninista\u00bb. \u00c0 porta das igrejas, jovens colavam nas paredes cartazes antissovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Tive a oportunidade de registar um grande mal-estar no C\u00e1ucaso e no Cazaquist\u00e3o em 1987 e 1989, quando o fracasso da perestroika j\u00e1 era identific\u00e1vel por visitantes comunistas como eu. Em Alma Ata, no Cazaquist\u00e3o, onde meses antes manifesta\u00e7\u00f5es anti russas tinham sido reprimidas pelas armas, um secret\u00e1rio do Partido minimizou em conversa comigo o significado dos protestos populares, atribuindo-os a <em>hooligans<\/em>, a marginais.<\/p>\n<p>Em visitas ao Uzbequist\u00e3o, impressionou-me a tenaz sobreviv\u00eancia da cultura isl\u00e2mica naquela rep\u00fablica. E surpreendeu-me a ignor\u00e2ncia de camaradas do Partido da hist\u00f3ria dos povos iranianos e turcos que ali tinham criado grandes civiliza\u00e7\u00f5es cuja heran\u00e7a \u00e9 identific\u00e1vel nas deslumbrantes mesquitas e medersas de Samarcanda, Khiva e Bukhara, patrim\u00f4nio da humanidade. Alguns manuais de hist\u00f3ria sovi\u00e9ticos ignoravam mesmo o chamado renascimento timurida, o fascinante per\u00edodo de esplendor cultural na literatura, nas artes, na astronomia e na arquitetura, tornado poss\u00edvel pelos descendentes do conquistador turco Tamerl\u00e3o.<\/p>\n<p>Em jornadas inesquec\u00edveis pelas prov\u00edncias do Norte do Afeganist\u00e3o e pelo Sul do Uzbequist\u00e3o tive a oportunidade de verificar que a fronteira que ali separa dois estados iluminava uma realidade que me transportou a diferentes idades da Humanidade.<br \/>\nDe ambos os lados daquela fronteira artificial, tra\u00e7ada no final do seculo XIX pelo Imperio Brit\u00e2nico e pelo Imp\u00e9rio Russo, vivem ainda povos irm\u00e3os que falam l\u00ednguas turcas e iranianas. Mas enquanto no Uzbequist\u00e3o me senti no s\u00e9culo XX, nos povoados mis\u00e9rrimos da B\u00e1ctria e no Bandaquistao afeg\u00e3os movimentei-me por vezes entre gentes que me transportavam pela imagina\u00e7\u00e3o ao s\u00e9culo X.<\/p>\n<p>Na outra margem do Amu Daria, n\u00e3o obstante as pol\u00edticas discriminat\u00f3rias de Stalin na \u00c1sia Central, a revolu\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica ergueu grandes cidades, ind\u00fastrias modernas, universidades de prest\u00edgio, e com a \u00e1gua dos grandes rios que descem do Pamir irrigou desertos, criando neles uma agricultura florescente.<\/p>\n<p>Mas bastava atravessar a ponte que separa a Termez uzbeque da Hairaton afeg\u00e3 para contemplar uma sociedade onde uma mulher valia menos do que um camelo.<br \/>\nN\u00e3o houve, insisto, pol\u00edtica permanente de russifica\u00e7\u00e3o na \u00c1sia Central sovi\u00e9tica. Era uma impossibilidade. Mas, apesar da fidelidade \u00e0 cultura e \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas, as Republicas da \u00c1sia Central foram as \u00faltimas a proclamar a independ\u00eancia. A rutura n\u00e3o foi ali\u00e1s conflituosa, ao contr\u00e1rio das b\u00e1lticas.<\/p>\n<p>Nesses pa\u00edses, os dirigentes do Estado e do Partido exerciam o poder de uma forma autocr\u00e1tica, com punho de ferro, e temiam a transi\u00e7\u00e3o para formas de governo de modelo ocidental. Muitos ali\u00e1s sobreviveram \u00e0 transi\u00e7\u00e3o para o capitalismo, nomeadamente no Cazaquist\u00e3o (Nursultan Nezarbayev continuou a governar o pa\u00eds) e no Turquemenist\u00e3o.<\/p>\n<p>UMA DERROTA DA HUMANIDADE<\/p>\n<p>Refletindo hoje sobre os acontecimentos da Ucr\u00e2nia e a torrente de disparates venenosos que os meios ocidentais divulgam sobre o que ali est\u00e1 a passar-se e os discursos anti russos de Obama e dos principais estadistas da Uni\u00e3o Europeia, sou levado \u00e0 conclus\u00e3o de que uma profunda ignor\u00e2ncia da historia da R\u00fassia e da URSS contribui para a aceita\u00e7\u00e3o pela maioria dos europeus e americanos das teses da propaganda anticomunista. Com poucas exce\u00e7\u00f5es, os soviet\u00f3logos ocidentais das grandes universidades continuam a apresentar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica como um estado monstruoso e o comunismo como uma aberra\u00e7\u00e3o. Insistem em ver em Stalin um ditador sanguin\u00e1rio e em estabelecer paralelos com Hitler. Mas Lenin tamb\u00e9m \u00e9 exorcizado.<\/p>\n<p>A maioria dos Partidos Comunistas reagiu mal \u00e0 desagrega\u00e7\u00e3o da URSS e \u00e0 instala\u00e7\u00e3o do capitalismo na R\u00fassia. Traumatizados pela derrota do \u00abmodelo\u00bb que haviam defendido durante d\u00e9cadas, n\u00e3o demonstraram capacidade para dar uma resposta ideol\u00f3gica adequada \u00e0 ofensiva dos inimigos da v\u00e9spera. Muitos dirigentes dos PCs europeus e americanos (o dos EUA \u00e9 hoje uma organiza\u00e7\u00e3o social-democrata) participaram inclusive das campanhas de descr\u00e9dito da URSS. Afirmam ainda lutar pelo socialismo, mas n\u00e3o convencem. Retomam velhas teses de Kautsky, Bauer e Bernstein. Adotando um conceito perverso de democracia, vulgarizado pelos sacerdotes do capital, chegam \u00e0 aberra\u00e7\u00e3o de admitir que um dia a humanidade chegar\u00e1 ao socialismo pela via parlamentar, atrav\u00e9s de reformas realizadas no \u00e2mbito das institui\u00e7\u00f5es criadas pela burguesia para lhe servirem os objetivos.<\/p>\n<p>Como comunista, n\u00e3o duvido de que a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro foi um dos maiores acontecimentos da Hist\u00f3ria, na continuidade da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789, assinalando o caminhar do nosso Planeta para um mundo que responda a aspira\u00e7\u00f5es eternas do homem.<\/p>\n<p>Creio tamb\u00e9m que os historiadores do futuro, superado o frenesi irracional do antissovietismo, refletir\u00e3o com serenidade sobre a interven\u00e7\u00e3o de Stalin na Hist\u00f3ria do seculo XX. A sua personalidade nunca me atraiu. Mas esse distanciamento do homem n\u00e3o me impede de qualificar de deturpadoras da Hist\u00f3ria as posi\u00e7\u00f5es antag\u00f4nicas daqueles que o condenam sem apelo como inimigo da Humanidade e dos que, numa perspetiva oposta, veem nele o genial estadista da Revolu\u00e7\u00e3o que mudou o mundo.<br \/>\nOs crimes e erros de Stalin foram enormes e a URSS pagou por eles um pre\u00e7o alt\u00edssimo. Mas sendo inquestion\u00e1vel que lhe cabem pesad\u00edssimas responsabilidades pelo rumo tomado pelo PCUS, e portanto pela derrota ali do socialismo, \u00e9 tamb\u00e9m para mim evidente que Stalin foi um revolucion\u00e1rio que desempenhou um papel decisivo no esmagamento do III Reich nazi.<\/p>\n<p>Para finalizar, reafirmo a convic\u00e7\u00e3o de que o desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi uma trag\u00e9dia para a Humanidade &#8211; acelerada pela trai\u00e7\u00e3o de Gorbatchov e pela guerra n\u00e3o declarada do imperialismo norte-americano &#8211; e que, para tentarmos entender a R\u00fassia contempor\u00e2nea, \u00e9 imprescind\u00edvel um conhecimento m\u00ednimo da hist\u00f3ria dos povos que habitam o seu gigantesco territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia e Serpa, mar\u00e7o de 2014 e dezembro de 2016<\/p>\n<p><strong><em>*JVStalin<\/em><\/strong><em>, Obras, II Tomo, paginas 278 a 348, Editorial Vit\u00f3ria, Rio de Janeiro,1952. O Ensaio de Stalin, intitulado \u00abO Marxismo e a Quest\u00e3o Nacional\u00bb, analisa sobretudo o tema a partir de opini\u00f5es dos austro marxistas Springer e Otto Bauer, de teses do Bund judaico, e dos problemas das nacionalidades do C\u00e1ucaso. \u00c9 confuso e mal estruturado. <\/em><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/os-povos-da-ex-urss\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Miguel Urbano Rodrigues 30\/12\/2016 O desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi uma trag\u00e9dia para a Humanidade. 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