{"id":13120,"date":"2017-01-04T09:02:02","date_gmt":"2017-01-04T12:02:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13120"},"modified":"2017-01-16T11:34:36","modified_gmt":"2017-01-16T14:34:36","slug":"thales-fleury-de-godoy-o-goiano-que-comandou-a-marinha-mercante-da-cuba-de-fidel-castro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13120","title":{"rendered":"Thales Fleury de Godoy: o goiano que comandou a Marinha Mercante da Cuba de Fidel Castro"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/dialogosdosul.files.wordpress.com\/2013\/07\/thales1.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Jornal Op\u00e7\u00e3o, Edi\u00e7\u00e3o 1981 de 23 a 29 de junho de 2013<\/p>\n<p><strong>Vilaboense resgatou ref\u00e9ns do transatl\u00e2ntico portugu\u00eas Santa Maria e salvou cargueiro cubano de aprisionamento no Chile de Augusto Pinochet<\/strong><!--more--><\/p>\n<p>Frederico Vitor<\/p>\n<p>Goi\u00e1s sempre produziu personagens que tiveram vidas instigantes e repletas de aventuras. Uma dessas personalidades \u00e9 o capit\u00e3o-de-fragata da Marinha do Brasil Thales Fleury de Godoy, que durante os seus 81 anos de vida passou por situa\u00e7\u00f5es e fatos que seriam dignas de roteiro de filme. Nascido h\u00e1 mais de mil quil\u00f4metros do litoral, tornou-se num verdadeiro mestre dos mares.<\/p>\n<p>Aceito em Cuba em 1965, Thales e a mulher, a professora Josina Godoy, residiram inicialmente em um hotel cinco estrelas a beira mar que pertencia a empres\u00e1rios norte-americanos antes da revolu\u00e7\u00e3o. Josina conta que, da janela da su\u00edte, era poss\u00edvel visualizar embarca\u00e7\u00f5es de guerra dos Estados Unidos, que navegavam no limite das \u00e1guas territoriais cubanas realizando manobras em tom de provoca\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00f3s t\u00ednhamos de tudo do melhor e come\u00e7amos a nos preocupar, j\u00e1 que n\u00e3o era digno ficarmos l\u00e1 sem retribui\u00e7\u00e3o\u201d, disse Josina. Inicialmente o goiano trabalhou como reparador de aparelhos de televis\u00e3o e r\u00e1dio.<\/p>\n<p>Como na hospedaria se concentravam dezenas de estrangeiros asilados, as autoridades cubanas descobriram que Thales era um oficial de Marinha, cujo conhecimento estaria sendo desperdi\u00e7ado em outra ocupa\u00e7\u00e3o. Procurado pelo governo revolucion\u00e1rio, o goiano recebeu a proposta de ser imediato de comandante de navios mercadores, sendo o segundo estrangeiro \u2014 al\u00e9m de um espanhol \u2014 a pertencer aos quadros da Marinha Mercante de Cuba \u2014 a Marinha de Guerra n\u00e3o admitia estrangeiros. Para tal ele precisaria de um passaporte, e como o original foi deixado no Brasil, os cubanos confeccionaram um novo com o nome de Julio Lopez Gonz\u00e1lez, uma nova identidade que Thales teria que assumir a partir dali.<\/p>\n<p>Em 1966, Thales entrou para a Marinha Mercante cubana como imediato de um comandante que lhe ensinaria as t\u00e9cnicas e a vida em uma embarca\u00e7\u00e3o comercial, que \u00e9 completamente diferente dos navios de guerra no quais o goiano era acostumado. \u201cEle foi orientado para ser mais brando ao disciplinar os marinheiros, pois os marujos cubanos eram esquentados e o risco de acontecer um motim era grande\u201d, relata Josina.<\/p>\n<p>Thales, ou Julio Gonz\u00e1lez, logo foi promovido a comandante. Por sete anos ele capitaneava navios da frota cubana que iam aos pa\u00edses asi\u00e1ticos como Jap\u00e3o, China, Coreia e Vietn\u00e3. Durante a Guerra do Vietn\u00e3 se destacou por realizar arriscadas miss\u00f5es de abastecimento, levando alimentos e materiais essenciais para o esfor\u00e7o de guerra. Por diversas vezes rompeu o bloqueio da Marinha americana e enfrentou o perigo das minas aqu\u00e1ticas para atracar no porto de Haiphong. Mas o grande feito de Thales ainda estava por vir.<\/p>\n<p><strong>Fuga do Chile<\/strong><\/p>\n<p>Em 11 de setembro de 1973, o comandante goiano estava no comando do graneleiro \u2014 navio especializado no transporte de mercadorias a granel \u2014 Playa Larga, o maior navio da frota mercante de Cuba, que na ocasi\u00e3o estava atracado no porto chileno de Valparaiso. Ao desfechar-se o golpe liderado pelo general Augusto Jos\u00e9 Ram\u00f3n Pinochet Ugarte contra o presidente socialista Salvador Allende, militares chilenos, sob o pretexto de que a embarca\u00e7\u00e3o cubana trazia armas para resistir ao golpe camufladas no carregamento de a\u00e7\u00facar, intentaram capturar o navio. Ao abordarem o comandante e os demais tripulantes, os chilenos avisaram que no dia seguinte retornariam para confiscar a carga. Determinado em n\u00e3o render-se aos soldados de Pinochet, Thales tra\u00e7ou um plano de fuga, que executou durante a noite. Aos poucos, a nau foi se afastando do porto e, aproveitando da silhueta robusta de um imenso cargueiro americano, o comandante goiano fugiu das vistas dos chilenos por tr\u00e1s do navio ianque.<\/p>\n<p>Quando perceberam que a embarca\u00e7\u00e3o estava saindo da ba\u00eda de Valparaiso, as autoridades portu\u00e1rias chilenas avisaram Pinochet. Enfurecido, o general, que estava no controle do Pa\u00eds h\u00e1 dois dias, ordenou que toda a flotilha chilena e os avi\u00f5es ca\u00e7as das bases a\u00e9reas pr\u00f3ximas fossem ao encal\u00e7o do graneleiro Playa Larga. Adotando uma t\u00e1tica de guerra psicol\u00f3gica, os chilenos deixaram o r\u00e1dio ligado propositalmente e vazaram todas as decis\u00f5es de ataque ao navio cubano. Aproveitando da situa\u00e7\u00e3o, Thales, que foi forjado na Escola Naval da Marinha brasileira e tinha no curr\u00edculo opera\u00e7\u00f5es reais em guerra naval, come\u00e7ou a navegar em ziguezague a fim de dificultar aos chilenos o estabelecimento de uma coordenada acertada para empreender bombardeio ao navio.<\/p>\n<p>A persegui\u00e7\u00e3o chilena ao Playa Larga foi implac\u00e1vel e s\u00f3 teve fim quando o graneleiro cubano adentrou \u00e1guas territoriais do Peru, presidido naquele ano pelo nacionalista Juan Velasco Alvarado, amigo de Cuba, que acolheu a nau e garantiu os reparos devidos para que os cubanos seguissem viagem de volta \u00e0 ilha. Com as avarias reparadas, o Playa Larga voltou a navegar e teria que atravessar o Canal do Panam\u00e1, ent\u00e3o sob controle americano. Durante a travessia, os guardas ianques desconfiaram do sotaque de Thales ao estabelecerem di\u00e1logo. \u201cEles acharam estranho o espanhol de Thales e, naquela situa\u00e7\u00e3o, teve que dizer que era um galego, j\u00e1 que na Gal\u00edcia o castelhano falado \u00e9 parecido com o portugu\u00eas\u201d, lembra Josina. Ao chegar em Cuba, Thales e os demais tripulantes foram recebidos como her\u00f3is. Em solenidade que reuniu as principais autoridades cubanas, inclusive o presidente Osvaldo Dortic\u00f3s Torrado, o goiano recebeu das m\u00e3os do ent\u00e3o primeiro-ministro Fidel Castro a mais alta comenda do Pa\u00eds. No discurso, o comandante da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana disse que a fa\u00e7anha que salvou os marinheiros e o carregamento de a\u00e7\u00facar foi um ato que estava acima dos sentimentos de nacionalidade. \u201cTiveram coragem n\u00e3o por serem cubanos, mas sim por serem revolucion\u00e1rios\u201d, proferiu Fidel Castro.<\/p>\n<p>O feito ganhou fama em toda ilha e Thales virou personagem de hist\u00f3ria em quadrinhos, tornando-se o super-her\u00f3i das crian\u00e7as da ilha caribenha. Mesmo passado alguns meses, os chilenos acionaram Cuba em um tribunal internacional, e o comandante teve que explicar o fato em uma corte na Inglaterra, por\u00e9m sem maiores desfechos relevantes.<\/p>\n<p><strong>Da aristocracia vilaboense ao PCB<\/strong><\/p>\n<p>O Jornal Op\u00e7\u00e3o entrevistou a vi\u00fava do marinheiro, a professora Josina Godoy, de 83 anos de idade, que reside em uma ch\u00e1cara em Caldas Novas, em Goi\u00e1s. Na casa, ela guarda um grande acervo de fotos, documentos, livros e rel\u00edquias do militar. Thales nasceu no dia 13 de junho de 1925 na Cidade de Goi\u00e1s, que, naquela \u00e9poca, ainda detinha o status de capital do Estado. Filho do advogado, procurador da Rep\u00fablica e deputado federal constituinte de 1946 Albat\u00eanio de Caiado Godoy, nunca escondeu a vontade de ser marinheiro e desbravar os sete mares. Sua voca\u00e7\u00e3o havia sido despertada depois que assistiu a um filme que retratava a vida de marujos.<\/p>\n<p>De fam\u00edlia conservadora e tradicional na sociedade goiana \u2014 Thales \u00e9 descendente do marechal Joaquim Xavier Curado, idealizador do Ex\u00e9rcito brasileiro \u2014, o pai reprovava a ideia de o filho ir para Marinha Mercante, a qual considerava um \u201cantro de degenerados\u201d, e somente o apoiaria se decidisse ingressar na Marinha de Guerra. Sem op\u00e7\u00f5es, aceitou a imposi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e em 1940, com 15 anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro, com o objetivo de ingressar na conceituada Escola Naval, academia respons\u00e1vel por forjar os futuros oficiais da Marinha brasileira \u2014 \u00e9 a mais antiga institui\u00e7\u00e3o de ensino superior do Brasil com origens que remotam \u00e0 m\u00edtica Escola de Sagres, que condicionou os portugueses a desbravar os mares durante o per\u00edodo das grandes navega\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 capital fluminense, o futuro oficial da Marinha se hospedou na casa do tio-av\u00f4 e deputado federal M\u00e1rio de Alencastro Caiado, \u2014 ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, quando a fam\u00edlia Caiado foi despoto do poder em Goi\u00e1s, ele quase foi interventor no lugar de Pedro Ludovico Teixeira. S\u00f3 n\u00e3o foi porque o presidente Get\u00falio Vargas considerava que \u201cn\u00e3o se podia substituir um Caiado por outro Caiado\u201d. Foi durante o per\u00edodo de estadia na resid\u00eancia do parlamentar goiano que o estudante teve contato com as ideias marxistas que mudariam para sempre o curso de sua vida. Ele ficou fascinado pelo comunismo ao ler o livro \u201cUm Engenheiro Brasileiro na R\u00fassia\u201d, de John R. Cotrim.<\/p>\n<p>Estudioso e aluno aplicado, foi aprovado no rigoroso exame de admiss\u00e3o da Escola Naval em meados da d\u00e9cada de 40. J\u00e1 cadete e morando na academia, Thales participou assiduamente do gr\u00eamio que tinha a fun\u00e7\u00e3o de proporcionar momentos de lazer aos futuros oficiais. Na realidade, o c\u00edrculo era o local em que efervesciam v\u00e1rias correntes ideol\u00f3gicas. Em um epis\u00f3dio marcado por agita\u00e7\u00f5es que culminaram em tumultos, v\u00e1rios cadetes foram presos e posteriormente expulsos da Marinha. Thales conseguiu se safar por ter completado o curso de oficiais e j\u00e1 ocupava o posto de guarda-marinha, equivalente a aspirante no Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Promovido a capit\u00e3o-tenente, na d\u00e9cada de 50, Thales era s\u00f3cio do Clube Militar, entidade fundada pelo Ex\u00e9rcito que tamb\u00e9m acolhia s\u00f3cios da For\u00e7a A\u00e9rea e da Ma-rinha. Como se tratava de um clube pol\u00edtico, os debates se acirravam, principalmente pela quest\u00e3o da nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo brasileiro, que ficou por muito tempo em voga. Nesta \u00e9poca, integrava o bra\u00e7o militar do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o que lhe renderia s\u00e9rios problemas, e numa tarde de 1952, durante o curso de artilharia, ele n\u00e3o retornaria para casa.<\/p>\n<p>Josina relata que soube da pris\u00e3o do marido por um soldado do Ex\u00e9rcito que trabalhava na vila militar no Rio de Janeiro, bairro em que residia a fam\u00edlia de Thales e dos demais militares. O recruta confidenciou que o oficial estava preso em uma guarni\u00e7\u00e3o da For\u00e7a Terrestre. Ao saber do fato, Josina recorreu ao pai de Thales, que se encontrava no Rio, pois tinha sido eleito deputado federal constituinte em 1946. Ao chegar \u00e0 Marinha junto com Albat\u00eanio Godoy, ambos foram informados por um almirante que Thales estava preso para \u201caverigua\u00e7\u00f5es\u201d devido sua ficha \u201cvermelha\u201d, e que ficaria preso durante 50 dias. Durante este tempo n\u00e3o se comunicou com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ao sair da pris\u00e3o, o militar expressou sua indigna\u00e7\u00e3o ao escrever um artigo que foi encaminhado ao Jornal Di\u00e1rio de Not\u00edcias, que o publicou \u00e0s v\u00e9speras do dia 7 de setembro. Nele o ent\u00e3o capit\u00e3o-tenente reclamou da forma em que foi tratado no c\u00e1rcere \u2014 ao contr\u00e1rio dos marinheiros, os oficiais n\u00e3o sofriam torturas f\u00edsicas, mas sim psicol\u00f3gicas \u2014 al\u00e9m de criticar duramente os superiores. Thales aproveitou o espa\u00e7o para discursar em favor da nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo brasileiro e de recha\u00e7ar a ideia de internacionaliza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Naquela \u00e9poca havia correntes que advogavam pela causa.<\/p>\n<p>Por causa do ato considerado de indisciplina, a Marinha abriu um processo contra Thales na tentativa de expuls\u00e1-lo da institui\u00e7\u00e3o pela infra\u00e7\u00e3o de cr\u00edtica a autoridade. Mais uma vez o oficial amargou um per\u00edodo no c\u00e1rcere, mas desta vez na pris\u00e3o militar da Ilha das Cobras, uma fortifica\u00e7\u00e3o encravada em meio a rochedos. Ap\u00f3s sair da cadeia o oficial permaneceu um ano afastado de suas atividades, e ao voltar \u00e0 vida na caserna foi transferido para Bel\u00e9m do Par\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Salvamento, guerra contra franceses e resgate de ref\u00e9ns<\/strong><\/p>\n<p>Na capital paraense, Thales comandou uma corveta \u2014 navio-patrulha de m\u00e9dio porte \u2014 nos rios da Amaz\u00f4nia e na costa mar\u00edtima da regi\u00e3o Norte do Brasil. Em um epis\u00f3dio ele ganharia notoriedade e respeito do oficialato: no comando de uma embarca\u00e7\u00e3o de guerra, atirou-se \u00e0 \u00e1gua para salvar do afogamento dois marinheiros que tiveram a canoa virada durante a pororoca \u2014 fen\u00f4meno natural produzido pelo encontro das correntes fluviais com as \u00e1guas oce\u00e2nicas.<\/p>\n<p>\u201cAo ver os dois sujeitos se afogando, ele perguntou aos outros tripulantes quem iria salv\u00e1-los. \u00d3timo nadador e campe\u00e3o de remo na Escola Naval, ao notar que ningu\u00e9m estava disposto a pular, ele pr\u00f3prio se atirou ao rio seguido por um sargento\u201d, relata Josina Godoy. Pelo ato heroico que resultou no salvamento de duas vidas, Thales recebeu a primeira condecora\u00e7\u00e3o por ato de bravura. Nesta ocasi\u00e3o, foi distinguido com a Medalha de Distin\u00e7\u00e3o de 1\u00ba Classe de Ordem Humanit\u00e1ria, concedida pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas antes, depois de um per\u00edodo no Par\u00e1, Thales retornou ao Rio de Janeiro, e por suposta persegui\u00e7\u00e3o da Marinha, por ter sido integrante do PCB, trabalhou em servi\u00e7os burocr\u00e1ticos, longe do mar. Mesmo monitorado pelo servi\u00e7o de intelig\u00eancia naval, o oficial continuou com sua vida pol\u00edtica, e em 1959 foi novamente transferido, e desta vez o destino era Recife. Subordinado ao almirante Dias Fernandes, que tinha conhecimento de sua vida pregressa de luta partid\u00e1ria de esquerda, foi colocado na fun\u00e7\u00e3o de chefe de servi\u00e7os gerais, longe do mar e dos navios.<\/p>\n<p>Em 22 de janeiro de 1961, o navio transatl\u00e2ntico portugu\u00eas Santa Maria foi sequestrado na Venezuela por um grupo de portugueses e espanh\u00f3is que integravam a Dire\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria Ib\u00e9rica de Liberta\u00e7\u00e3o (DRIL), que ent\u00e3o fazia oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aos governos ditatoriais de Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar em Portugal e de Francisco Franco na Espanha \u2014 foi o primeiro sequestro pol\u00edtico de um transatl\u00e2ntico na hist\u00f3ria contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Durante a a\u00e7\u00e3o liderada pelo capit\u00e3o portugu\u00eas Henrique Galv\u00e3o, o tripulante Jo\u00e3o Jos\u00e9 Nascimento Costa foi morto e seu corpo encontrado dentro de uma geladeira. O plano inicial dos equestradores era levar a embarca\u00e7\u00e3o para Angola, que naquele tempo era uma col\u00f4nia portuguesa. Contudo, o navio seguiu para a costa brasileira e aportou em Recife. O presidente J\u00e2nio Quadros ordenou que a embarca\u00e7\u00e3o fosse ocupada militarmente e que os ref\u00e9ns fossem libertados. Diante da ordem do presidente, o almirante Dias Fernandes delegou a Thales a tarefa de liderar os fuzileiros navais na invas\u00e3o do transatl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o foi um sucesso e n\u00e3o houve combates. No dia seguinte, a maioria dos jornais brasileiros e portugueses estampou nas primeiras p\u00e1ginas a foto em que o oficial goiano prestava contin\u00eancia ao capit\u00e3o guerrilheiro Galv\u00e3o. Terminado o entrevero com os portugueses e espanh\u00f3is, Thales esteve metido em outra situa\u00e7\u00e3o que envolvia quest\u00f5es diplom\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>No comando<\/strong><\/p>\n<p>Ainda em 1961, embarca\u00e7\u00f5es lagosteiras francesas pescavam ilegalmente em mar territorial brasileiro, e sabendo da destreza militar do oficial goiano, o almirante Dias Fernandes o convocou para comandar uma corveta que teria como miss\u00e3o interceptar um dos navios gauleses na costa do Cear\u00e1. Na a\u00e7\u00e3o, a nau foi detida e levada para a capital pernambucana. Em resposta, o presidente da Fran\u00e7a, Charles de Gaulle, determinou o deslocamento de um contingente naval para uma \u00e1rea pr\u00f3xima \u00e0 costa brasileira. No Brasil, a opini\u00e3o p\u00fablica percebeu a situa\u00e7\u00e3o como uma agress\u00e3o dos europeus aos direitos de soberania nacional.<\/p>\n<p>O presidente Jo\u00e3o Goulart, ap\u00f3s reuni\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a Nacional, determinou o deslocamento para a regi\u00e3o de consider\u00e1vel contingente da Esquadra, apoiado pela For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira. O problema diplom\u00e1tico ficou conhecido como Guerra da Lagosta, e Thales foi enviado ao encontro das belonaves francesas a bordo de um cruzador \u2014 navio de grande porte dotado de armas. O lit\u00edgio terminou sem nenhum tiro disparado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s este per\u00edodo em Recife, Thales, que j\u00e1 era pai de dois filhos (Igor e Ivan), retornou ao Rio de Janeiro em 1963. De volta \u00e0 capital fluminense, serviu a bordo do cruzador Barroso, a maior e mais poderosa belonave da Marinha. Posteriormente, ainda supostamente sofrendo persegui\u00e7\u00f5es por conta de suas inclina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, foi removido para os servi\u00e7os burocr\u00e1tico no Minist\u00e9rio da Marinha. O Pa\u00eds governado por Jo\u00e3o Goulart passava por momentos de agita\u00e7\u00f5es, e em 1\u00ba de abril de 1964 veio o golpe militar que dep\u00f4s o presidente constitucional.<\/p>\n<p>Diante da situa\u00e7\u00e3o que o poderia deixar em perigo devido a sua vida de partid\u00e1rio do PCB, Thales foge para a embaixada do M\u00e9xico tr\u00eas meses depois do golpe. O oficial pede asilo pol\u00edtico e \u00e9 conduzido para a capital do pa\u00eds. Dias depois chegariam ao M\u00e9xico a mulher e os filhos. Em um primeiro momento, a Marinha o considerou desertor, para mais adiante classific\u00e1-lo como desaparecido e morto. Na nova vida em solo estrangeiro, o goiano conseguiu trabalho como instalador de radares em navios mercantes no porto de Veracruz. Passado algum tempo, ele decidiu ir para Cuba com a fam\u00edlia, pois desejava colaborar com a revolu\u00e7\u00e3o socialista liderada pelos irm\u00e3os Castros e pelo guerrilheiro argentino Ernesto Che Guevara.<\/p>\n<p><strong>Portugal denuncia \u201cpirata brasileiro\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Em 1978, o comandante goiano juntamente com uma delega\u00e7\u00e3o cubana, teria a miss\u00e3o de estabelecer uma Marinha Mercante em Mo\u00e7ambique, na \u00c1frica, al\u00e9m de fundar a Escola Naval da jovem na\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s a queda do dom\u00ednio portugu\u00eas, os lusitanos regressaram para Europa sem deixar nenhuma embarca\u00e7\u00e3o aos ex-colonos. A miss\u00e3o cubana teria que come\u00e7ar tudo do zero. Thales foi convocado pelo governo mo\u00e7ambicano para mais uma vez entrar em a\u00e7\u00e3o em uma de suas especialidades: interceptar e ocupar navios.<\/p>\n<p>Uma embarca\u00e7\u00e3o portuguesa estava a caminho de Maputo, capital mo\u00e7ambicana, e, como o Pa\u00eds africano considerava o navio uma propriedade do Estado rec\u00e9m independente, resolveram nacionalizar a nau. O comandante goiano, com um imediato cubano e uma d\u00fazia de recrutas mo\u00e7ambicanos, tomou o navio. A tripula\u00e7\u00e3o portuguesa foi conduzida para um hotel na capital e, mais uma vez em Portugal, Thales estaria na primeira p\u00e1gina dos jornais lusitanos e de Mo\u00e7ambique.<\/p>\n<p><strong>O retorno<\/strong><\/p>\n<p>Em 1979, o governo militar no Brasil passava por per\u00edodo de abertura e decidiu aprovar a Lei de Anistia. Thales retornou ao Brasil em agosto daquele ano. Ao regressar tentou voltar \u00e0 Marinha de Guerra, contudo n\u00e3o obteve \u00eaxito. Ele foi reformado no posto de capit\u00e3o-de-fragata e trabalhou durante 15 anos na Marinha Mercante brasileira, comandando um cargueiro que fazia a linha entre Brasil, Estados Unidos e Canad\u00e1. No Brasil o comandante goiano se estabeleceu no Rio de Janeiro, Bras\u00edlia e por \u00faltimo em Caldas Novas, para onde se mudou em 1984. At\u00e9 hoje Josina reside na \u201ccapital das \u00e1guas termais\u201d, e guarda um imenso acervo de fotos, objetos, documentos e grava\u00e7\u00f5es. Thales deu o seu \u00faltimo suspiro aos 81 anos de idade no dia 2 de dezembro de 2006, em Goi\u00e2nia. Faleceu em decorr\u00eancia de problemas no intestino. O filho mais velho, Ivan, \u00e9 jornalista e trabalha na R\u00e1dio do Senado Federal, em Bras\u00edlia. Igor, que se formou em Engenharia em Cuba, hoje tamb\u00e9m \u00e9 jornalista e mora em Havana.<\/p>\n<p>Quase desconhecido entre os brasileiros e goianos, Thales Fleury de Godoy \u00e9 mais uma daqueles personagens que entraram para a posteridade pelos feitos e proezas. Quem quiser saber sobre ele procure a professora Josina, em Caldas Novas. Aos 83 anos, ela est\u00e1 l\u00facida e disposta a contar com detalhes a fascinante hist\u00f3ria de seu marido, um her\u00f3i dos mares, um filho de poseidon que nasceu em Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Thalels Godoy com a tripula\u00e7\u00e3o do cargueiro Playa Larga, da Marinha Cubana, recepcionados pelo comandante Fidel Castro<\/p>\n<p>http:\/\/www.jornalopcao.com.br\/posts\/reportagens\/o-goiano-que-comandou-a-marinha-mercante-da-cuba-de-fidel-castro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jornal Op\u00e7\u00e3o, Edi\u00e7\u00e3o 1981 de 23 a 29 de junho de 2013 Vilaboense resgatou ref\u00e9ns do transatl\u00e2ntico portugu\u00eas Santa Maria e salvou cargueiro \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13120\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-13120","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3pC","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13120"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13120\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}