{"id":13129,"date":"2017-01-06T23:37:09","date_gmt":"2017-01-07T02:37:09","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13129"},"modified":"2017-01-23T18:54:13","modified_gmt":"2017-01-23T21:54:13","slug":"siria-a-ultima-guerra-de-obama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13129","title":{"rendered":"S\u00cdRIA: A \u00daLTIMA GUERRA DE OBAMA*"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/ItpCdwF7HQQC6h9CCOKCc7RiJ-IZme8Nnl0LsECDLui75TtUNfWj3I058OpRTtlZmfDFU5dQPz_jx98uwSNgp1PnckL-yZaDGsxMFm3i0-rpwI9pNOb2K6vRhnDdrA=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.jubileusul.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/crian%C3%A7a.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Por Miguel Borba de S\u00e1, integrante da rede Jubileu Sul Brasil e do PACS<\/p>\n<p>Barack Hussein Obama est\u00e1 prestes a se tornar o primeiro presidente dos Estados Unidos da Am\u00e9rica (EUA) a completar seus oito anos \u00e0 frente da Casa Branca como comandante-em-chefe de um pa\u00eds em guerra. Desde o primeiro at\u00e9 seu \u00faltimo dia de mandato, ser\u00e3o 2.923 dias autorizando assassinatos por drones e outros meios, por um lado, e assinando cartas de condol\u00eancias \u00e0s fam\u00edlias de seus pr\u00f3prios soldados, de outro[1]. Mesmo tendo recebido o Pr\u00eamio Nobel da Paz antes de assumir o cargo[2], <!--more-->Obama inaugura um precedente que deve tornar-se padr\u00e3o \u2013 em vez de exce\u00e7\u00e3o \u2013 para os governantes norte-americanos que o sucederem neste s\u00e9culo XXI. N\u00e3o \u00e9 o caso, portanto, de culp\u00e1-lo pessoalmente apenas. \u00c9 preciso analisar historicamente os padr\u00f5es da pol\u00edtica externa dos EUA que podem explicar como chegou-se a este ponto.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que o senso-comum costuma propagar, o fim da <em>Guerra Fria<\/em> em 1989\/1991 n\u00e3o alterou por completo a totalidade das pol\u00edticas estrat\u00e9gicas dos EUA, chegando a aprofundar certas tend\u00eancias j\u00e1 em opera\u00e7\u00e3o.<u>[3]<\/u> Nas rela\u00e7\u00f5es com o chamado 3\u00ba Mundo, os tomadores-de-decis\u00e3o em Washington seguiram operando sem grandes modifica\u00e7\u00f5es em seus modelos anal\u00edticos internacionais. Neste tipo de an\u00e1lise, os \u201cinteresses americanos\u201d<u>[4]<\/u> na \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina s\u00e3o apresentados como \u201cuniversais\u201d, tornando sua persecu\u00e7\u00e3o por meios diplom\u00e1ticos, b\u00e9licos ou secretos \u2013 isto \u00e9, legais ou ilegais \u2013 uma obriga\u00e7\u00e3o justificada de antem\u00e3o. A era das interven\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias aberta pela <em>Nova Ordem Mundial<\/em> dos anos 1990 n\u00e3o escapou a este padr\u00e3o. E hoje analistas de diferentes origens denunciam-na, providos de farta documenta\u00e7\u00e3o, como uma era de \u2018imperialismo humanit\u00e1rio\u201d (BRICMONT, 2006; CHOMSKY, 2008; EVANS, 2001).<\/p>\n<p>De fato, vistas em retrospecto, \u00e9 dif\u00edcil negar que o intervencionismo das tropas da OTAN na S\u00e9rvia (1998), Iraque (2003), Haiti (2004) e L\u00edbia (2009), sempre narrado como a\u00e7\u00e3o <em>em defesa da humanidade,<\/em> tenha servido mais para avan\u00e7ar a determinados interesses geopol\u00edticos e econ\u00f4micos emanados das capitais ocidentais, do que realmente a salvar vidas ou melhorar a qualidade delas nas partes do mundo que as receberam. Mas o discurso da \u201cresponsabilidade de proteger\u201d (R2P<u>[5]<\/u>) se imp\u00f4s, conforme atestado pelo r\u00e1pido sucesso editorial de defensores da doutrina do intervencionismo ocidental, como Samantha Power (2001; 2002). Como esquecer das alus\u00f5es feitas entre a B\u00f3snia e o Kosovo com os campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas da 2\u00ba Guerra Mundial; das \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o em massa\u201d que supostamente Saddam Hussein usaria contra civis inocentes, tese defendida com fotografias de sat\u00e9lite por Colin Powell em pleno Conselho de Seguran\u00e7a da ONU e ratificada por editoriais do <em>Washington Post<\/em> e outros grandes meios; da \u201ccat\u00e1strofe humanit\u00e1ria\u201d no Haiti de Aristide<u>[6]<\/u>; e das \u201catrocidades cometidas por Kadafi contra seu pr\u00f3prio povo\u201d, que supostamente se rebelara pedindo democracia na cidade de Benghazi?<u>[7]<\/u> Al\u00e9m de assinalar a seletividade eticamente duvidosa frente \u00e0 calamidades de igual urg\u00eancia e gravidade, \u00e9 preciso perguntar com insist\u00eancia e cobrar respostas dos respons\u00e1veis e defensores do intervencionismo ocidental: qual \u00e9 o resultado concreto, para a \u201cpopula\u00e7\u00e3o comum\u201d, do Iraque, da L\u00edbia e, atualmente, da S\u00edria, das opera\u00e7\u00f5es de remo\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos \u201cditadores\u201d de seus pa\u00edses?<\/p>\n<p>Diante das ru\u00ednas, dos mortos e da destrui\u00e7\u00e3o de sociedades inteiras, seria de se esperar que a narrativa mudasse. Mas ela se aprofunda. Samantha Power torna-se a atual embaixadora dos EUA nas Na\u00e7\u00f5es Unidas<u>[8]<\/u> e a doutrina avan\u00e7a. No caso atual da guerra contra a S\u00edria, a estrat\u00e9gia conhecida de troca de regime \u201cn\u00e3o-cooperativo\u201d no Terceiro Mundo (HINKELAMMERT, 1979, pp. 86-114) novamente ganha a roupagem discursiva de uma \u201ccrise humanit\u00e1ria\u201d causada por um \u201cditador cruel\u201d, que precisaria deixar o poder imediatamente para que vidas fossem salvas e os direitos humanos respeitados. Aleppo aparece sendo a nova Benghazi. O objetivo ocidental passou a ser revelado explicitamente a partir de 2012, em un\u00edssono, nas entrevistas coletivas de autoridades norte-americanas e brit\u00e2nicas sobre o tema: <em>Assad must go<strong><u>[9]<\/u><\/strong>. <\/em>Nem que fosse por meio de extremistas isl\u00e2micos armados pelo ocidente e seus estados-cliente no Oriente M\u00e9dio, faltou-lhes acrescentar.<\/p>\n<p>Os desastres fabricados no Iraque, Haiti e L\u00edbia no s\u00e9culo atual deveriam servir de alerta contra este tipo de opera\u00e7\u00e3o militar-discursiva e, no m\u00ednimo, exigir-nos desconfian\u00e7a quando as mesmas fontes (CNN, GLOBO) que antes alertavam o mundo contra as armas de Saddam (que nunca existiram) hoje nos apavoram acerca dos arsenais qu\u00edmicos de Assad (que ele mesmo j\u00e1 destruiu, sob supervis\u00e3o internacional)<u>[10]<\/u>. Qual \u00e9, portanto, a verdade sobre a <em>guerra contra a S\u00edria<\/em>? O \u00fanico modo de descobri-la \u00e9 perguntar-se sobre quem \u00e9 visto como o principal inimigo dos \u201cinteresses americanos\u201d na \u00f3tica dos estrategistas <em>yankees<\/em> para o Oriente M\u00e9dio. A resposta n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de encontrar: trata-se dos nacionalismos \u00e1rabes e de determinados tipos \u201cn\u00e3o-cooperativos\u201d de pan-arabismo<u>[11]<\/u>.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que a id\u00e9ia de uma <em>Guerra ao Terror<\/em> leva a supor, desde os tempos da <em>Guerra Fria<\/em> a maior amea\u00e7a, na avalia\u00e7\u00e3o de influentes estrategistas, aos \u201cinteresses norte-americanos\u201d no mundo \u00e1rabe, n\u00e3o prov\u00e9m de grupos isl\u00e2micos extremistas como a <em>Al Qaida<\/em> e o <em>Daesh\/ISIS (<\/em>Estado Isl\u00e2mico), mas de regimes estatais nacionalistas fora da \u00f3rbita imediata da <em>Pax Americana<strong><u>[12]<\/u><\/strong><\/em>. N\u00e3o se sabe se tal estado-centrismo \u00e9 excesso de realismo ou falta dele. Mas tais regimes \u201cn\u00e3o cooperativos\u201d s\u00e3o considerados especialmente amea\u00e7adores se conseguirem unir-se pol\u00edtica e economicamente uns aos outros e, mais ainda, se estiverem localizados em rotas comerciais importantes (Egito, S\u00edria) ou possu\u00edrem fontes abundantes de mat\u00e9rias-primas estrat\u00e9gicas como o petr\u00f3leo e g\u00e1s natural (L\u00edbia, Iraque, Ir\u00e3).<\/p>\n<p>Desde que os EUA emergiram como pot\u00eancia hegem\u00f4nica no ocidente ap\u00f3s a 2\u00aa Guerra Mundial, uma hist\u00f3ria de eventos comprova esta percep\u00e7\u00e3o de amea\u00e7a. O golpe (hoje admitido<u>[13]<\/u>) da CIA contra o governo democr\u00e1tico do premi\u00ea iraniano Mohamed Mosaddegh em 1953<u>[14]<\/u>, que nacionalizara a ind\u00fastria petroleira; a luta contra o pan-arabismo <em>nasserista<\/em>, que ousou nacionalizar o canal de Suez em 1956 e experimentar a fus\u00e3o de dois estados soberanos, Egito e S\u00edria, na <em>Rep\u00fablica \u00c1rabe Unida<\/em> (RAU) entre 1958 e 1961; a (tentativa de) coordena\u00e7\u00e3o dos regimes nacionalistas \u00e1rabes nas guerras contra Israel em 1948, 1967 e 1973; a presen\u00e7a de um partido bi-nacional como o BAATH, na S\u00edria e Iraque, cuja ideologia original girava em torno de um socialismo pan-\u00e1rabe; o alarme provocado pela Revolu\u00e7\u00e3o Iraniana, que gerou mais um regime \u201cn\u00e3o-cooperativo\u201d a partir de 1979; tudo isso gerava enorme preocupa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica em Washington e Londres \u2013 e sempre foi combatido. Por fim, a exist\u00eancia de movimentos como dos Pa\u00edses N\u00e3o-Alinhados\/Conferencia de Bandung (1955) e a cria\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es como a OPEP que, em 1973, logrou dar seu \u201cchoque do Petr\u00f3leo\u201d nas corpora\u00e7\u00f5es e economias de seus estados-sede, servem at\u00e9 hoje como paradigmas do risco que a atua\u00e7\u00e3o conjunta de pa\u00edses do 3\u00ba Mundo pode alcan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Correta ou n\u00e3o, esta vis\u00e3o prevalece na pol\u00edtica externa dos EUA h\u00e1 d\u00e9cadas. E tamb\u00e9m na de seu aliado preferencial na regi\u00e3o, Israel, que prefere vizinhos imersos em guerras civis do que Estados \u00e1rabes fortes e aliados contra si. Al\u00e9m deles, hoje h\u00e1 mais atores interessados em mudar o mapa geopol\u00edtico do Oriente M\u00e9dio. A produ\u00e7\u00e3o do caos terrorista isl\u00e2mico onde antes havia regimes est\u00e1veis, seculares e fora da \u00f3rbita de controle ocidental (Iraque, L\u00edbia e S\u00edria) atualmente tamb\u00e9m encaixa bem nas vis\u00f5es estrat\u00e9gicas do governo da Turquia sob o AKP<u>[15]<\/u>, que v\u00ea na destrui\u00e7\u00e3o do arranjo geopol\u00edtico anterior um poss\u00edvel risco mas tamb\u00e9m uma grande oportunidade para afirmar-se como pot\u00eancia regional e consolidar seu objetivo supremo, que \u00e9 impedir a forma\u00e7\u00e3o de um Estado nacional curdo (ou Curdist\u00e3o), levando o pa\u00eds \u2013 \u00fanico membro isl\u00e2mico da OTAN \u2013 a adotar uma pol\u00edtica pendular no que tange ao conflito na S\u00edria. Por fim, completando o realinhamento de for\u00e7as imperialistas e subimperialistas na regi\u00e3o, temos as monarquias do golfo p\u00e9rsico (Catar, Bahrein, Om\u00e3, Kuwait) que, lideradas pelo regime saudita, exportam armas, guerrilheiros e capital, al\u00e9m de uma ideologia militante, o <em>wahabismo<\/em>, para os grupos terroristas isl\u00e2micos que promovem a desestabiliza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do Iraque e S\u00edria, com destaque para o Ex\u00e9rcito Isl\u00e2mico (<em>Daesh\/ISIS)<\/em> e para a <em>Jabhat Al-Nursa<\/em>, ex-afiliada da <em>Al-Qaida<\/em> e atualmente rebatizada como <em>Jabhat Fatah Al-Sham<\/em>, desde que anunciou seu desligamento, em Julho de 2016, da rede fundada por Osama Bin Laden<u>[16]<\/u>.<\/p>\n<p>Do outro lado, em oposi\u00e7\u00e3o a este realinhamento das for\u00e7as imperialistas e seus clientes regionais, estatais e n\u00e3o-estatais, formou-se outra coaliza\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m re\u00fane atores pol\u00edticos e militares de diferentes naturezas. Trata-se do eixo formado pelos governos estatais da S\u00edria, Ir\u00e3 e R\u00fassia, somados ao \u201cPartido de Deus\u201d liban\u00eas Hezbollah, que possui forte bra\u00e7o armado. Eventualmente, recebem o apoio de setores iraquianos xiitas ligados ao atual governo do primeiro-ministro Heider al-Abadi, tamb\u00e9m empenhado em conter o extremismo isl\u00e2mico sunita (<em>DAESH\/ISIS<\/em>, em especial) em seu pr\u00f3prio pa\u00eds. Completando o quadro, existe a atua\u00e7\u00e3o n\u00e3o-unificada das for\u00e7as curdas na S\u00edria e no Iraque que ora recebem apoio norte-americano, ora s\u00e3o fustigadas pela for\u00e7a a\u00e9rea turca (da OTAN, portanto), ora estabelecem t\u00e1ticas conjuntas por\u00e9m tempor\u00e1rias com a oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria, Damasco ou Bagd\u00e1 a fim de combater o terrorismo isl\u00e2mico. Com efeito, durante meia d\u00e9cada de conflito em solo s\u00edrio, as Unidades Populares de Prote\u00e7\u00e3o (YPG) curdas<u>[17]<\/u>, com seu ex\u00e9rcito de mulheres (YPJ) \u00e0 frente, foram as \u00fanicas que pareceram ser capazes de deter o avan\u00e7o do <em>Estado Isl\u00e2mico<\/em> em v\u00e1rios momentos cr\u00edticos. O mapa abaixo mostra essa configura\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, traduzido pelo diagrama que o segue<u>[18]<\/u>:<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/proxy\/_EJdvP7UqyUfAaQ9rYNV8Ll8L2sHvyc4edn8Om9FML_VTD_-Y6SVmITSY9Ph9EREElGwc-JR9pn765YYfmOjI2UQt9xuell6m7f9pi3e3CRysBUOaDPG_99Y4DE-4cHpIg=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.jubileusul.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/mapa-siria-fig1.png\" alt=\"mapa-siria-fig1\" \/><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" src=\"https:\/\/ci4.googleusercontent.com\/proxy\/C9_oJgLAE8IKFglIXgkPo2mkFJ21P4LefMh3AzcLaH4mAWgN0S0C1EXOcmY_5ayIRDKFYqEecLPcli9n7zh4Fbn0QXcZtxDlB1Zdfb5n3Tn8r0y8HpCtpVrUGU3VWkw=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.jubileusul.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/bandeira-fig2.jpg\" alt=\"bandeira-fig2\" \/><\/p>\n<p>Esta configura\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as \u00e9 inst\u00e1vel, por certo, mas segue enquadrando conflitos pol\u00edticos em outros teatros de opera\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, como no I\u00eamen, onde o governante, sunita e n\u00e3o-eleito, preferido pelos sauditas foi expulso do pa\u00eds por um levante armado dos \u2018rebeldes\u2019 <em>Houthis<\/em>, xiitas, apoiados pelo Ir\u00e3. A retalia\u00e7\u00e3o saudita, com armamento brit\u00e2nico e norte-americano, tem sido genocida. Assim como na S\u00edria, a guerra no I\u00eamen \u2013 que mata uma crian\u00e7a a cada 10 minutos, segundo a UNICEF<u>[19]<\/u> \u2013 tamb\u00e9m trata-se de uma <em>proxy war <\/em>(\u201cGuerra por Procura\u00e7\u00e3o\u201d) entre pot\u00eancias regionais com projetos hegem\u00f4nicos em choque e apoiados por aliados long\u00ednquos, mas poderosos.<\/p>\n<p>Ela ajuda a entender porque n\u00e3o falta espa\u00e7o na grande m\u00eddia norte-americana e publica\u00e7\u00f5es de <em>think-tanks<\/em> de Washington alertando contra a expans\u00e3o de um \u201cImp\u00e9rio Iraniano\u201d<u>[20]<\/u> no Oriente M\u00e9dio ou transmitindo uma imagem macabra do \u201cregime dos aiatol\u00e1s\u201d<u>[21]<\/u>, de Bashar al Assad e outros governantes \u201cn\u00e3o-cooperativos\u201d do 3\u00ba Mundo. No entanto, \u00e9 bem raro encontrar narrativas com igual olhar cr\u00edtico sobre o regime saudita e as demais monarquias do golfo, todos aliadas dos EUA e brutalmente violadores dos direitos humanos de seus cidad\u00e3os, em especial das mulheres. Jamais ouviu-se um chamado sobre a \u201cresponsabilidade de proteger\u201d inocentes oprimidos\/as em Cizre, Sanaa, Riad ou no Bahrein<u>[22]<\/u>.<\/p>\n<p>N\u00f3s, da Am\u00e9rica Latina, j\u00e1 conhecemos essa dupla moral do imperialismo norte-americano (e seus associados locais), criada na <em>Guerra Fria<\/em> e sustentada at\u00e9 os dias de hoje por um imenso aparato midi\u00e1tico globalizado e cada vez mais monopolizado<u>[23]<\/u>. Antes, nos anos 1960 e 1970, diziam ser preciso acabar com a \u201cditadura marxista\u201d de Salvador Allende no Chile e com \u201cRep\u00fablica Sindicalista\u201d de Jo\u00e3o Goulart no Brasil, impedir a \u201csubvers\u00e3o comunista\u201d na Guatemala em 1954 ou na Rep\u00fablica Dominicana em 1965. Mas os regimes ditatoriais e genocidas estabelecidos, mediante golpes de Estado, para salvar o \u201cmundo livre\u201d destas amea\u00e7as n\u00e3o receberam tanto escrut\u00ednio assim. Serviram para garantir os interesses das grandes corpora\u00e7\u00f5es sob o discurso de \u201clivre-mercado\u201d, por isso n\u00e3o foram demonizadas como s\u00e3o os p\u00e1rias que \u201cn\u00e3o cooperam\u201d no 3\u00ba Mundo desde ent\u00e3o. Hoje, o mesmo padr\u00e3o se repete no notici\u00e1rio sobre a Venezuela bolivariana, repleto de fabrica\u00e7\u00f5es e omiss\u00f5es grosseiras, ao passo que nada \u2013 NADA! \u2013 \u00e9 dito sobre a dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria, a pobreza extrema e o cotidiano de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica vivido na vizinha Col\u00f4mbia, no Panam\u00e1 ou na Honduras p\u00f3s-golpe de 2009<u>[24]<\/u>.<\/p>\n<p>\u00c9 de se lembrar que o \u201ceixo do mal\u201d do presidente George W. Bush, inicialmente composto por Ir\u00e3, Iraque e Cor\u00e9ia do Norte, no famoso discurso do <em>Estado da Uni\u00e3o<\/em> de Janeiro de 2002, passou a incluir, em maio do mesmo ano, L\u00edbia, S\u00edria e Cuba<u>[25]<\/u> (sim, Cuba!), como estados patrocinadores do terrorismo e perseguidores de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa. N\u00f3s conhecemos a imagem negativa e o boicote ativo que sempre tentaram fazer pesar sobre a Cuba socialista desde a revolu\u00e7\u00e3o de 1959. O que nos leva tamb\u00e9m a jamais esquecer que na vers\u00e3o dominante nos EUA a Guerra do Vietn\u00e3 foi travada em nome da defesa do Vietn\u00e3 do Sul contra um \u201cregime opressor\u201d do Norte e seus \u201cinfiltrados subversivos\u201d do <em>Viet Cong<\/em>, cuja vit\u00f3ria levaria a um terr\u00edvel \u2018efeito domin\u00f3\u2019 sobre todo o sudeste asi\u00e1tico e deveria ser evitada a todo custo, em nome do bem-estar do \u2018mundo livre\u2019 \u2013 isto \u00e9, o mundo capitalista sob sua hegemonia.<\/p>\n<p>Diante deste hist\u00f3rico, deve-se sempre estar alerta quando toda a grande m\u00eddia corporativa se junta para difundir narrativas e imagens sobre \u201cimp\u00e9rios do mal\u201d ou \u201cditadores\u201d do sul global. Os imperialistas foram sempre os maiores patrocinadores de ditadores mundo afora, n\u00e3o nos enganemos. Tais constru\u00e7\u00f5es discursivas servem apenas para justificar a intromiss\u00e3o em algum conflito pol\u00edtico local, promovendo ou apoiando golpes de Estado e \u2018trocas de regimes\u2019, mesmo que isso leve \u00e0 guerra ou ao caos. N\u00e3o \u00e9 preciso ser leitor de Clausewitz (como todos s\u00e3o no Pent\u00e1gono) para saber que a guerra \u00e9 continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios. Mas, n\u00f3s, da tradi\u00e7\u00e3o de esquerda, devemos ao menos recordar das li\u00e7\u00f5es deixadas por Nicos Poulantzas (1976), que insistia que o imperialismo tem sempre um lado preferido \u2013 ou v\u00e1rios, numa escala hier\u00e1rquica de prefer\u00eancia \u2013 e joga sempre um papel ativo nas pol\u00edticas dom\u00e9sticas de pa\u00edses da periferia do capitalismo global<u>[26]<\/u>.<\/p>\n<p>Sem isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender o pr\u00f3prio surgimento da <em>al-Qaida<\/em>, de Osama Bin Laden, no Afeganist\u00e3o dos anos 1980, nutrida pelo apoio direto de Washington para fustigar o regime secular afeg\u00e3o apoiado pelos sovi\u00e9ticos. E sem isso nunca se compreender\u00e1 a ascens\u00e3o fulminante do <em>Estado Isl\u00e2mico<\/em> na d\u00e9cada de 2010, que surgiu das ru\u00ednas produzidas no Iraque em decorr\u00eancia da invas\u00e3o norte-americana e brit\u00e2nica de 2003. Mesmo que os \u201cregimes nacionalistas\u201d de Kadafi, Assad e Saddam Hussein j\u00e1 n\u00e3o almejassem questionar com vigor a hegemonia dos EUA e seus aliados do golfo no mundo \u00e1rabe, a simples exist\u00eancia degenerada de estados laicos \u201cn\u00e3o-cooperativos\u201d em uma regi\u00e3o t\u00e3o estrat\u00e9gica como o Oriente M\u00e9dio j\u00e1 \u00e9 motivo para se usar todo tipo de t\u00e1tica \u2013 incluindo a \u201ct\u00e1tica suja\u201d de armar terroristas \u2013 para minar a estabilidade pol\u00edtica e social que pa\u00edses como L\u00edbia, Iraque, S\u00edria desfrutavam. A esquerda radical \u00e1rabe nunca logrou enfrentar tais regimes com sucesso; mas a direita ultra-conservadora isl\u00e2mica, com apoio imperial, est\u00e1 riscando-os do mapa, um a um.<\/p>\n<p>Deste modo, acreditar como valor de face na vers\u00e3o dominante de que h\u00e1 uma guerra civil na S\u00edria iniciada exclusivamente pela brutalidade de um ditador que tenta conter violentamente uma vers\u00e3o local da \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d \u00e9 simplesmente inaceit\u00e1vel. Nem mesmo os <em>briefings<\/em> do Departamento de Estado sustentam essa vers\u00e3o atualmente. Se no come\u00e7o houve uma breve apari\u00e7\u00e3o de for\u00e7as populares e de esquerda questionando o regime de Assad, rapidamente elas foram suplantadas pela enchente de <em>jihadistas<\/em> advindos de todas as partes do mundo \u00e1rabe, com a coniv\u00eancia, financiamento e o armamento das pot\u00eancias regionais envolvidas na coaliz\u00e3o (sub)imperialista que tenta derrubar o governo em Damasco e por fim ao estado nacional s\u00edrio como um todo.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o se trata de uma guerra civil, mas de uma invas\u00e3o terrorista transnacional sustentada por regimes hostis (Turquia e Ar\u00e1bia Saudita \u00e0 frente), que inunda permanentemente o territ\u00f3rio s\u00edrio (e iraquianode combatentes mercen\u00e1rios e fan\u00e1ticos religiosos nada \u201cmoderados\u201d, advindos de toda parte do mundo \u00e1rabe \u2013 que exporta parte de seu descontentamento social dom\u00e9stico para a S\u00edria \u2013 e tamb\u00e9m de pa\u00edses asi\u00e1ticos e at\u00e9 mesmo europeus:<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem100a\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/proxy\/qJb8QtS1LPhayudoYRMZ6qTSFTQdvGxJMPXNNI7LC6SNjfQwEB3bEr98iIjln15h-8PNMhGXCZPxaiby0VVMtbKQMnAYMAw1g-XHFpYbprz4ix0l1_I=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.jubileusul.org.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/bola.png\" alt=\"bola\" \/><\/p>\n<p>O mapa acima ilustra a origem eminentemente estrangeira da chamada \u201coposi\u00e7\u00e3o s\u00edria\u201d realmente existente hoje. Sob pretexto de apoiar \u201crebeldes moderados\u201d, como o <em>Ex\u00e9rcito Livre da S\u00edria<\/em>, EUA e Gr\u00e3-Bretanha seguem contribuindo para o influxo massivo de armas pesadas que aumentam a letalidade das batalhas e a dura\u00e7\u00e3o deste conflito. \u00c9 sabido, mediante oitivas no pr\u00f3prio Congresso norte-americano<u>[27]<\/u>, que tais armas invariavelmente acabam nas m\u00e3os dos extremistas dos <em>Estado Isl\u00e2mico<\/em> e <em>Al-Qaida\/Al-Nusra, <\/em><wbr \/>uma vez que a oposi\u00e7\u00e3o armada \u201cdemocr\u00e1tica e moderada\u201d j\u00e1 deixou de existir ou \u00e9 muito fraca. A t\u00e1tica insurrecional, neste momento, n\u00e3o prov\u00e9m da esquerda, mas do pior tipo de direita.<\/p>\n<p>Caso ca\u00edsse, Assad seria substitu\u00eddo por um \u201cregime\u201d muito mais violador dos direitos humanos que o seu, especialmente o das mulheres: a <em>Lei da Sharia <\/em>isl\u00e2mica, conforme entendida e praticada pelo <em>wahabismo<\/em>. Basta ver o que acontece nos territ\u00f3rios dominados pelo Estado Isl\u00e2mico: decapita\u00e7\u00f5es, mercados de mulheres, exterm\u00ednio dos crist\u00e3os, crian\u00e7as-soldado<u>[28]<\/u>\u2026 Aleppo foi invadida por essa barb\u00e1rie e por isso agora est\u00e1 sendo <em>liberada<\/em> pelas tropas de Damasco, com apoio russo \u2013 devemos comemorar este fato: \u00e9 o come\u00e7o do fim da dor de seus residentes. Ningu\u00e9m nesta cidade, ou em Palmira, sentir\u00e1 saudades dos <em>jihadistas<\/em>; quase todos os que sobraram hoje apegam-se ao \u201cregime de Assad\u201d mais fortemente do que antes deste lament\u00e1vel conflito imperialista se iniciar. O governo desfruta de maior legitimidade interna a cada vez que o projeto imperial de destruir e repartir a S\u00edria fica mais n\u00edtido. Ao reconhecer isto pode-se acessar a verdadeira natureza da guerra na S\u00edria: trata-se, na realidade, de uma <em>guerra<\/em> <em>contra a<\/em> <em>S\u00edria<\/em><u>[29]<\/u>.<\/p>\n<p>Atualmente as perspectivas permanecem incertas. O futuro da <em>guerra<\/em> <em>contra a S\u00edria<\/em> depender\u00e1 da movimenta\u00e7\u00e3o final de for\u00e7as sociais e estados imersos em contradi\u00e7\u00f5es de m\u00faltiplas escalas. O governo turco sob Recep Tayyip Erdogan \u00e9 um deles. Inicialmente fotografado em 2010 apertando as m\u00e3os de Assad, o l\u00edder turco hoje ordena a invas\u00e3o peri\u00f3dica do territ\u00f3rio de S\u00edria e Iraque pelas for\u00e7as armadas turcas, al\u00e9m de permitir que seu pa\u00eds se torne a principal rota de contrabando de petr\u00f3leo iraquiano e s\u00edrio exportado ilegalmente pelo <em>Ex\u00e9rcito Isl\u00e2mico<\/em>. Tamb\u00e9m vendeu armas para que os <em>jihadistas<\/em> combatessem tanto ao governo quanto aos curdos, que ficaram espremidos entre for\u00e7as hostis vindas do Sul e Norte, cujo ponto mais dram\u00e1tico foi o s\u00edtio da cidade fronteiri\u00e7a de Kobane do ataque terrorista e da viol\u00eancia estatal simultaneamente, entre Setembro de 2014 e Abril de 2015. A Turquia tornou-se, assim, o maior suporte geopol\u00edtico, econ\u00f4mico e militar dos terroristas que lutam para depor Assad. Mas o apoio dos EUA aos curdos do YPG contra o avan\u00e7o do <em>ISIS<\/em>\/<em>Daesh<\/em> gera irrita\u00e7\u00e3o e fissuras na coaliz\u00e3o imperialista, fazendo com que a Ankara tamb\u00e9m estabele\u00e7a di\u00e1logos cooperativos eventuais com Teer\u00e3, Damasco e Moscou que, caso bem sucedidos, poderiam por fim ao conflito (as monarquias do golfo n\u00e3o conseguiram sustentar sozinhas os combatentes na S\u00edria). Atualmente um destes momentos de di\u00e1logo, fruto da pol\u00edtica pendular turca, est\u00e1 em andamento. Um cessar-fogo promissor foi obtido (sem participa\u00e7\u00e3o dos EUA, como nos anteriores) <u>[30]<\/u>. O al\u00edvio humano j\u00e1 come\u00e7a a fazer-se sentir. Mas \u00e9 dif\u00edcil acreditar que ao fim a alian\u00e7a com a OTAN deixe de prevalecer e que n\u00e3o jogue o p\u00eandulo turco de volta para seu lado<u>[31]<\/u>.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o dos curdos \u00e9 a mais delicada. A situa\u00e7\u00e3o do movimento nacionalista curdo \u00e9 distinta em cada um dos pa\u00edses onde sua presen\u00e7a pol\u00edtica \u00e9 relevante. Mas algo \u00e9 poss\u00edvel de ser vislumbrado desde j\u00e1: a alian\u00e7a com os norte-americanos na S\u00edria \u00e9 arriscada demais e deve ser manejada com consider\u00e1vel cuidado. A trai\u00e7\u00e3o de Washington n\u00e3o tardar\u00e1 em vir e sem d\u00favida o objetivo da forma\u00e7\u00e3o de um estado nacional curdo em qualquer parte do \u201cCurdist\u00e3o Hist\u00f3rico\u201d ser\u00e1 bloqueada pelos EUA quando aliados preferenciais fizerem sentir seus interesses com mais for\u00e7a (como tem sido feito por Erdogan, periodicamente). Se as doutrinas oriundas da <em>Guerra Fria <\/em>que ainda dominam a pol\u00edtica exterior dos EUA consideram o nacionalismo \u00e1rabe e o pan-arabismo secular e laico como inimigos estrat\u00e9gicos, imagine-se qual postura que adotar\u00e3o para com um experimento nacional curdo anti-capitalista como <em>Rojava<\/em>, em que democracia participativa, despatriarcaliza\u00e7\u00e3o e autogest\u00e3o s\u00e3o as marcas registradas? Ser\u00e1 brutal<u>[32]<\/u>.<\/p>\n<p>Por fim, quem desempenhar\u00e1 o papel-chave no destino da guerra contra a S\u00edria \u00e9 o poder do Estado (no sentido ampliado) norte-americano e, claro, Israel, <em>primus inter pares<\/em> dentre os aliados de Washington na regi\u00e3o. At\u00e9 o momento, os israelenses n\u00e3o utilizaram a presen\u00e7a do Hezbollah para tomar parte direta no conflito com tropas pr\u00f3prias, limitando-se a fornecer apoio log\u00edstico e hospitalar a combatentes isl\u00e2micos que tentam derrubar Assad. Se isto acontecer, os iranianos, por sua vez poder\u00e3o usar a presen\u00e7a israelense como motivo para enviar suas pr\u00f3prias tropas tamb\u00e9m, o que significaria uma escalada b\u00e9lica em espiral cujos efeitos s\u00e3o imprevis\u00edveis.<\/p>\n<p>Mas os EUA podem impedir que isto aconte\u00e7a, caso ocorra uma revis\u00e3o nas premissas de sua estrat\u00e9gia de seguran\u00e7a global. Hoje, os grupos terroristas est\u00e3o em quinto lugar na lista oficial de amea\u00e7as \u00e0 seguran\u00e7a nacional dos EUA, atr\u00e1s de R\u00fassia, China, Ir\u00e3 e Cor\u00e9ia do Norte<u>[33]<\/u>. A mesma lista, n\u00e3o surpreendentemente, se repete em pesquisa de opini\u00e3o popular nos EUA, realizada pelo Instituto Gallup, em Fevereiro de 2016<u>[34]<\/u>. N\u00e3o se sabe de nenhum cidad\u00e3o ou soldado ocidental assassinado por tais Estados em d\u00e9cadas. Mas o quinto colocado desta lista comete atentados constantes e letais, como o 11 de Setembro de Nova Iorque, a maratona de Boston ou, mais recente, em San Bernardino, Calif\u00f3rnia, sem contar a onda de terrorismo que assola a Europa, cujos mortos e feridos n\u00e3o param de se repetir (Madri, Londres, Paris, Nice, Bruxelas, Berlim..). \u00c9 preciso, portanto, que os governantes norte-americanos rompam com a ambiguidade operacional que esta vis\u00e3o acarreta, a qual os obriga a pol\u00edticas contradit\u00f3rias: ora uma ca\u00e7ada at\u00e9 a morte por Osama Bin Laden no Paquist\u00e3o, ora um suporte t\u00e1cito e material para a mesma <em>al-Qaida<\/em> atrav\u00e9s da <em>al-Nursa <\/em>na S\u00edria; ora combate o <em>Ex\u00e9rcito Isl\u00e2mico<\/em> no Iraque enquanto, paralelamente, soma esfor\u00e7os com esta mesma organiza\u00e7\u00e3o na vizinha S\u00edria para derrubar o presidente Assad; vende armas de guerra para a Turquia ao passo em que manda soldados <em>yankees<\/em> para lutar junto aos curdos do YPG, alvos destas mesmas armas.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel entender o que est\u00e1 em jogo na atual <em>guerra contra a S\u00edria<\/em> sem destacar o papel jogado pelo capitalismo anglo-americano na regi\u00e3o. Qualquer an\u00e1lise que n\u00e3o coloque os \u201cinteresses americanos\u201d no centro da explica\u00e7\u00e3o do conflito est\u00e3o fadadas a focar demasiadamente nas \u00e1rvores e perder de vista a floresta que as rodeia<u>[35]<\/u>. Da mesma forma, anseios pacifistas devem ser direcionados para o lado certo: n\u00e3o \u00e9 somente Vladimir Putin ou Hassan Rouhani que precisam ser convencidos a por fim ao drama humanit\u00e1rio na S\u00edria. Primordialmente, nossas campanhas pacifistas devem ser voltadas para aqueles que podem encerr\u00e1-lo definitivamente, como Theresa May, Barack Obama e, a partir de 21 de Janeiro de 2017, Donald Trump e demais l\u00edderes da OTAN. Pois seguir com a pol\u00edtica de tentar remover Assad do poder \u00e0 for\u00e7a (imposs\u00edvel, com o apoio russo \u00e0 Damasco) s\u00f3 vai manter esta guerra acesa por tempo indeterminado. Gerando fluxos de refugiados, morte, destrui\u00e7\u00e3o<u>[36]<\/u>. N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil terminar o conflito sem que os EUA mudem de estrat\u00e9gia e atuem decisivamente para promover seu fim, em vez de fomentar seu prolongamento, como t\u00eam feito at\u00e9 agora. Ignorar isto \u00e9 permanecer na confus\u00e3o interpretativa e no escapismo imediato que os \u201ctemas internacionais\u201d proporcionam.<\/p>\n<p>A <em>Guerra contra a S\u00edria<\/em> n\u00e3o acontece num v\u00e1cuo hist\u00f3rico e contextual. Sem a <em>Guerra contra o Iraque<\/em>, iniciada em 2003, ela n\u00e3o aconteceria. De certa forma, \u00e9 uma continua\u00e7\u00e3o daquele conflito, uma vez que o discurso imperial \u00e9 o mesmo e seu principal ator, o Ex\u00e9rcito Isl\u00e2mico, surgiu dos escombros produzidos pela aventura de Bush e Blair contra um \u201cditador\u201d perigoso em Bagd\u00e1. Crer que o sofrimento humano em Aleppo \u00e9 causado por mais um \u201ceixo do mal\u201d nomeado pelos poderes imperialistas \u00e9 capitular frente \u00e0s representa\u00e7\u00f5es dominantes sobre o \u201cOriente\u201d. Elas est\u00e3o vivas, lembra-nos Gayatri Spivak (1988). E, por isso, o <em>Orientalismo<\/em> segue como a chave-de-leitura dominante no \u201cocidente\u201d sobre o que pode ser sabido e o que \u00e9 proibido <em>poder\/saber<\/em> sobre a guerra atual. O palestino Edward Said (2003) j\u00e1 descrevia as engrenagens deste tipo de poder que hoje est\u00e1 por tr\u00e1s dos eventos na S\u00edria:<\/p>\n<p>I come to the third meaning of Orientalism, which is something more historically and materially defined than either of the two. Taking the late eighteenth century as a very roughly defined starting point Orientalism can be discussed and analyzed as the corporate institution for dealing with the Orient \u2013 dealing with it by making statements about it, authorizing views of it, describing it, by teaching it, settling it, ruling over it: in short, Orientalism as a Western style for dominating, restructuring, and having authority over the Orient (SAID, 2003, p. 4)<u>[37]<\/u>.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que o mesmo Edward Said que se propunha a analisar o <em>Orientalismo<\/em> \u201ccomo discurso\u201d afirmava que a guerra contra Saddam Hussein certamente n\u00e3o teria acontecido caso o Iraque fosse \u201co maior exportador mundial de bananas ou laranjas\u201d, em vez de petr\u00f3leo (SAID, 2003, p. xvi). As representa\u00e7\u00f5es e suas consequ\u00eancias materiais andam sempre juntas, da\u00ed o t\u00edtulo cuidadoso de seu livro posterior, \u201cCultura &amp; Imperialismo\u201d (SAID, 1994). N\u00e3o podemos jamais esquecer disto. Talvez a <em>guerra contra a S\u00edria<\/em> hoje tenha mais a ver com o tra\u00e7ado de gasodutos estrat\u00e9gicos do que gostar\u00edamos de admitir<u>[38]<\/u>. Mas ela n\u00e3o ocorreria sem a roupagem ideol\u00f3gica humanit\u00e1ria, portanto c\u00ednica, com que s\u00f3 as disputas imperialistas s\u00e3o capazes de vestir-se. Acreditar hoje na defesa da democracia e direitos humanos praticada por uma coaliza\u00e7\u00e3o em que se destacam Ar\u00e1bia Saudita, Catar e Turquia \u00e9 semelhante a acreditar, nas v\u00e9speras da 1\u00aa Guerra Mundial nas justificativas do <em>Reich<\/em> alem\u00e3o ou do <em>czarismo<\/em> russo que usavam, com igual hipocrisia, do autoritarismo alheio como motivo para entrar na guerra imperialista.<\/p>\n<p>Como fase superior do capitalismo (LENIN, 2011), o imperialismo tem uma l\u00f3gica pr\u00f3pria. Na era dos \u201cmonop\u00f3lios generalizados\u201d (Amin, 2013, p. 15-45) a procura intermin\u00e1vel por mat\u00e9rias-primas, mercados consumidores e projetos absorvedores de capital exportado pelo centro da economia mundial tende a aumentar, sem fim \u00e0 vista. E acirram-se assim as competi\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es do imperialismo, sua permanente \u201ccrise\u201d, levando tamb\u00e9m ao atual estado permanente de guerra contra os povos do 3\u00ba Mundo e a pilhagem de suas riquezas naturais. A <em>guerra contra a S\u00edria<\/em> ser\u00e1 a \u00faltima guerra de Obama, mas certamente n\u00e3o dos EUA no Oriente M\u00e9dio num futuro previs\u00edvel, onde seguir\u00e3o promovendo sua vis\u00e3o como universal \u2013 \u00e0 for\u00e7a, se necess\u00e1rio. Amaldi\u00e7oada por seus recursos naturais e rotas estrat\u00e9gicas, esta regi\u00e3o deve continuar palco das tr\u00e1gicas consequ\u00eancias que a civiliza\u00e7\u00e3o capitalista tem para lhe oferecer: um permanente choque de interesses, de classes, fra\u00e7\u00f5es, religi\u00f5es, pot\u00eancias mundiais e regionais. Economicamente, n\u00e3o existe centro sem periferia. E, discursivamente, sem o caos no Oriente (M\u00e9dio ou Extremo) o Ocidente n\u00e3o possui seu <em>Outro<strong><u>[39]<\/u><\/strong><\/em>. N\u00e3o reconhece a si mesmo, nem pode existir.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, 29 de Dezembro de 2016<\/p>\n<p><em>*Miguel Borba de S\u00e1 \u00e9 doutorando em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na PUC-Rio e membro do Laborat\u00f3rio Interdisciplinar de Estudos Internacionais da UFRRJ, do Instituto PACS e da Rede Jubileu Sul; tamb\u00e9m \u00e9 filiado ao PSOL-RJ, desde 2010.<\/em><\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>Amin, S. (org.) <em>A crise do imperialismo<\/em>. Rio de Janeiro: Graal, 1977.<\/p>\n<p>___________ . <em>The implosion of contemporary capitalism<\/em>. New York: Monthly Review Press, 2013.<\/p>\n<p>ASSMAN, H (org). <em>Trilateral<\/em>: a nova fase do capitalismo. Petr\u00f3polis: Vozes, 1979.<\/p>\n<p>BRICMONT, J. <em>Humanitarian Imperialism<\/em>: Using Human Rights to Sell War. New York: Monthly Review Press, 2006.<\/p>\n<p>CHOMSKY, N. 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Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/harman\/1994\/xx\/islam.htm\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=https:\/\/www.marxists.org\/archive\/harman\/1994\/xx\/islam.htm&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957536000&amp;usg=AFQjCNGaxyGyGghsigD42lGG4SF4xlK3Zg\"><u>https:\/\/www.marxists.org\/<wbr \/>archive\/harman\/1994\/xx\/islam.<wbr \/>htm<\/u><\/a><\/p>\n<p>HINKELAMMERT, F. \u201cO credo econ\u00f4mico da Comiss\u00e3o Trilateral\u201d. In: ASSMAN, H (org). <em>Trilateral<\/em>: a nova fase do capitalismo. Petr\u00f3polis: Vozes, 1979.<\/p>\n<p>LENIN, V. <em>Imperialismo: etapa superior do capitalismo<\/em>. Campinas: FE UNICAMP, 2011.<\/p>\n<p>POULANTZAS, N. <em>A crise das<\/em> <em>ditaduras<\/em>: Portugal, Gr\u00e9cia, Espanha. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.<\/p>\n<p>POWER, S. Bystandards to genocide: why the United States let the Rwandan tragedy happen. <em>The Atlantic Monthly<\/em>, Sept. 2001.<\/p>\n<p>________ .\u201c<em>A problem from hell\u201d<\/em>: America and the age of genocide. New York: Basic Books, 2002.<\/p>\n<p>SPIVAK, G. \u201cCan the subaltern speak?\u201d. In: CARY, N. (Ed.). <em>Marxism and the interpretation of culture<\/em>. Basingtoke: Macmillian Education, 1988.<\/p>\n<p>SAID, E. <em>Culture and Imperialism<\/em>. London: Vintage Books, 1994.<\/p>\n<p>______. <em>Orientalism<\/em>. London: Penguin Classics, 2003.<\/p>\n<p><strong><u>Notas:<\/u><\/strong><\/p>\n<p><u>[1]<\/u> Ver, a respeito, mat\u00e9ria deste ano do NY Times:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2016\/05\/15\/us\/politics\/obama-as-wartime-president-has-wrestled-with-protecting-nation-and-troops.html\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/www.nytimes.com\/2016\/05\/15\/us\/politics\/obama-as-wartime-president-has-wrestled-with-protecting-nation-and-troops.html&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957536000&amp;usg=AFQjCNErS9_Kzfk73eCv-Bzh2sOkug_vog\"><u>http:\/\/www.nytimes.com\/2016\/<wbr \/>05\/15\/us\/politics\/obama-as-<wbr \/>wartime-president-has-<wbr \/>wrestled-with-protecting-<wbr \/>nation-and-troops.html<\/u><\/a><\/p>\n<p><u>[2]<\/u> Para mais sobre a hist\u00f3ria de Alfred Nobel e os motivos que fazem do pr\u00eamio que leva seu nome algo nada confort\u00e1vel para a paz mundial, ver:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/internacional.estadao.com.br\/blogs\/dois-dedos-de-historia\/o-mercador-da-morte\/\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/internacional.estadao.com.br\/blogs\/dois-dedos-de-historia\/o-mercador-da-morte\/&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957536000&amp;usg=AFQjCNGUCEZNbvJGOy2WbDW2yaKb3G9fww\"><u>http:\/\/internacional.estadao.<wbr \/>com.br\/blogs\/dois-dedos-de-<wbr \/>historia\/o-mercador-da-morte\/<\/u><\/a><\/p>\n<p><u>[3]<\/u> Sobre as estrat\u00e9gias norte-americanas para o 3\u00ba Mundo a partir dos anos 1970, ver Assman (1978, pp.7-15).<\/p>\n<p><u>[4]<\/u> \u201cInteresses americanos\u201d n\u00e3o significam , naturalmente, nada objetivo em si mesmo, muito menos coerente. Trata-se, antes de tudo, de um modo de exerc\u00edcio do poder que confere grande vantagem a quem consegue imprimir sua agenda pol\u00edtica sob este r\u00f3tulo. Em termos <em>gramscianos<\/em>, trata-se de uma forma de poder hegem\u00f4nico, uma vez que transmite como universais (nacionais, mundiais) interesses que s\u00e3o, na verdade, de classes ou fra\u00e7\u00f5es de classe particulares. De todo modo, ser considerado como um obst\u00e1culo ao que em dado momento prevalece como entendimento hegem\u00f4nico do que s\u00e3o \u201cinteresses americanos\u201d \u00e9 algo que gera sempre ansiedade em todo o sul global.<\/p>\n<p><u>[5]<\/u> Para a vers\u00e3o oficial da doutrina de \u201cResponsabilidade de Proteger\u201d, ver:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.un.org\/en\/preventgenocide\/adviser\/responsibility.shtml\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/www.un.org\/en\/preventgenocide\/adviser\/responsibility.shtml&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957536000&amp;usg=AFQjCNEF4kh7f0WozDcgSygkHgRifW70sg\"><u>http:\/\/www.un.org\/en\/<wbr \/>preventgenocide\/adviser\/<wbr \/>responsibility.shtml<\/u><\/a><\/p>\n<p><u>[6]<\/u> A \u201cren\u00fancia\u201d e \u201cabandono de seu pa\u00eds\u201d por de Jean-Bertrand Aristide (sequestrado e extraditado em um avi\u00e3o militar norte-americano) em Fevereiro de 2004 foi assim descrita pelo ent\u00e3o presidente dos EUA George W. Bush, ao anunciar para a imprensa o envio imediato de <em>marines<\/em> para \u201cajudar a trazer ordem e estabilidade para o Haiti\u201d, que estaria come\u00e7ando \u201cum novo cap\u00edtulo de sua hist\u00f3ria\u201d (\u2026) \u201cquebrando com seu passado\u201d, podem (merecem) ser vistos em:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QMqvXVossB8\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=https:\/\/www.youtube.com\/watch?v%3DQMqvXVossB8&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957536000&amp;usg=AFQjCNH5OTP-QGU8TFHL7-8G_O9BQvuuew\"><u>https:\/\/www.youtube.com\/watch?<wbr \/>v=QMqvXVossB8<\/u><\/a><\/p>\n<p><u>[7]<\/u> Para se ter uma sensa\u00e7\u00e3o do clima euf\u00f3rico em que tal constru\u00e7\u00e3o discursiva midi\u00e1tico-governamental foi transmitida, ver o \u201cdiscurso da vit\u00f3ria\u201d (imperialista) de David Cameron e Nicolas Sarkozy, em plena Benghazi, no dia 15 de Setembro de 2011. Dispon\u00edvel em [veja mesmo!]:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=wkaqzTfR-BU\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=https:\/\/www.youtube.com\/watch?v%3DwkaqzTfR-BU&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957536000&amp;usg=AFQjCNFEBdlS5Iejtrm-ieVaqNmGqbJQJQ\"><u>https:\/\/www.youtube.com\/watch?<wbr \/>v=wkaqzTfR-BU<\/u><\/a><\/p>\n<p><u>[8]<\/u> Digno de nota, uma vez que ela sequer \u00e9 nascida nos EUA (\u00e9 natural de Dublin, Irlanda) e tampouco possu\u00eda carreira diplom\u00e1tica anterior: amostra do tamanho da for\u00e7a pol\u00edtica que a doutrina (R2P) adquiriu e pela qual ficou famosa por defender. Para uma cr\u00edtica dos \u201cfalc\u00f5es humanit\u00e1rios\u201d dirigida \u00e0 sia figura, ver \u2018Samatha Power goes to war\u2019, de Tom Hayden, publicado no <em>The Nation<\/em> em 30 de Mar\u00e7o de 2011, e dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.thenation.com\/article\/samantha-power-goes-war\/\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=https:\/\/www.thenation.com\/article\/samantha-power-goes-war\/&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957536000&amp;usg=AFQjCNHyysBcY3EWqonijoFx9uM_Zea5bg\"><u>https:\/\/www.thenation.com\/<wbr \/>article\/samantha-power-goes-<wbr \/>war\/<\/u><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.jubileusul.org.br\/wp-admin\/post-new.php#_ednref9\" target=\"_blank\" name=\"m_7608801561882478020__edn9\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/www.jubileusul.org.br\/wp-admin\/post-new.php%23_ednref9&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957536000&amp;usg=AFQjCNFNNeuyogcdaW8XVa-TjbKrafN0FA\"><u>[9]<\/u><\/a> A frase \u201cAssad tem que sair\u201d (tradu\u00e7\u00e3o livre) passou a ser repetida pelas lideran\u00e7as pol\u00edticas nos EUA a partir de 2012. Ver o clipping de declara\u00e7\u00f5es em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=SSBRk10E5R8\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=https:\/\/www.youtube.com\/watch?v%3DSSBRk10E5R8&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957537000&amp;usg=AFQjCNGfn6oZKytfeBe1svbH7Be2lY87-g\"><u>https:\/\/www.youtube.com\/<wbr \/>watch?v=SSBRk10E5R8<\/u><\/a><\/p>\n<p><u>[10]<\/u> Assim como Saddam Hussein, Assad tamb\u00e9m tentou colaborar quando a \u201ccomunidade internacional\u201d exigiu inspe\u00e7\u00f5es e, no caso s\u00edrio, a destrui\u00e7\u00e3o dos seus estoques qu\u00edmicos. A destrui\u00e7\u00e3o foi monitorada internacionalmente e considerada uma vit\u00f3ria da diplomacia \u00e0 \u00e9poca at\u00e9 mesmo pela CNN e demais meios corporativos ocidentais. Ver:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/edition.cnn.com\/2016\/01\/05\/middleeast\/syria-chemical-weapons\/\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/edition.cnn.com\/2016\/01\/05\/middleeast\/syria-chemical-weapons\/&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957537000&amp;usg=AFQjCNF7tmd1Wy3zjgbBDKE_CbqgHv1CpA\"><u>http:\/\/edition.cnn.com\/2016\/<wbr \/>01\/05\/middleeast\/syria-<wbr \/>chemical-weapons\/<\/u><\/a><\/p>\n<p>Para a \u00edntegra do discurso de Powell na ONU em 2003, ver:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2003\/feb\/05\/iraq.usa\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2003\/feb\/05\/iraq.usa&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957537000&amp;usg=AFQjCNH8ruvr1S6ijVhGj24ljVWkuksxtA\"><u>https:\/\/www.theguardian.com\/<wbr \/>world\/2003\/feb\/05\/iraq.usa<\/u><\/a> .<\/p>\n<p>Para seu arrependimento atual sobre aquele epis\u00f3dio, ver sua entrevista recente em: <a href=\"http:\/\/www.pbs.org\/wgbh\/frontline\/article\/colin-powell-u-n-speech-was-a-great-intelligence-failure\/\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/www.pbs.org\/wgbh\/frontline\/article\/colin-powell-u-n-speech-was-a-great-intelligence-failure\/&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957537000&amp;usg=AFQjCNHigke8j_niK6G22mVzo7uYNj5pYA\"><u>http:\/\/www.pbs.org\/wgbh\/<wbr \/>frontline\/article\/colin-<wbr \/>powell-u-n-speech-was-a-great-<wbr \/>intelligence-failure\/<\/u><\/a><\/p>\n<p><u>[11]<\/u> Para a percep\u00e7\u00e3o dos obst\u00e1culos e das amea\u00e7as terceiro-mundistas sob a \u00f3tica do imperialismo norte-americano, h\u00e1 uma s\u00e9rie de estudos de qualidade na literatura cr\u00edtica e \/ou de esquerda, em diferentes vers\u00f5es, que n\u00e3o necessariamente convergem em suas percep\u00e7\u00f5es t\u00e1ticas, mas que oferecem todas entradas seguras na discuss\u00e3o de modo a evitar cair nas armadilhas ideol\u00f3gico-midi\u00e1ticas dominantes. Ver: Amin (1977; 2013); Assman (1979); Escobar (2007) e Harman (1994).<\/p>\n<p><u>[12]<\/u> Ver as listas, oficial e a popular, de amea\u00e7as aos EUA em 2016 nos <em>links<\/em> das notas 31 e 32, abaixo.<\/p>\n<p><u>[13]<\/u> Ver, a respeito: <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2013\/aug\/19\/cia-admits-role-1953-iranian-coup\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2013\/aug\/19\/cia-admits-role-1953-iranian-coup&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957537000&amp;usg=AFQjCNFjOmvfEp7CN5Fa7w16hExrbRHKyQ\"><u>https:\/\/www.<wbr \/>theguardian.com\/world\/2013\/<wbr \/>aug\/19\/cia-admits-role-1953-<wbr \/>iranian-coup<\/u><\/a><\/p>\n<p><u>[14]<\/u> Ver tamb\u00e9m:<a href=\"http:\/\/www.dw.com\/pt-br\/h%C3%A1-60-anos-golpe-derrubava-premi%C3%AA-iraniano-mohamed-mossadegh\/a-17023074\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/www.dw.com\/pt-br\/h%25C3%25A1-60-anos-golpe-derrubava-premi%25C3%25AA-iraniano-mohamed-mossadegh\/a-17023074&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957537000&amp;usg=AFQjCNE9UUPxagnA49gRSLzqI6jx6WC0dA\"><u>http:\/\/www.dw.com\/pt-<wbr \/>br\/h%C3%A1-60-anos-golpe-<wbr \/>derrubava-premi%C3%AA-<wbr \/>iraniano-mohamed-mossadegh\/a-<wbr \/>17023074<\/u><\/a><\/p>\n<p><u>[15]<\/u> O Partido Justi\u00e7a e Desenvolvimento (AKP, em turco) chegou ao poder no in\u00edcio dos anos 2000, logo ap\u00f3s ser fundado. \u00c9 um partido conservador e religioso (mu\u00e7ulmano), adepto do livre-mercado e outras pol\u00edticas de corte neoliberal, que conseguiu desbancar a hegemonia de d\u00e9cadas do <em>kemalismo <\/em>na pol\u00edtica nacional do pa\u00eds. O perfil autorit\u00e1rio tem prevalecido na condu\u00e7\u00e3o do Estado turco, que atualmente fecha jornais cr\u00edticos do governo, persegue jornalistas, processa parlamentares da oposi\u00e7\u00e3o e reprime movimentos populares, al\u00e9m de promover uma ofensiva militar devastadora (genocida) sobre regi\u00f5es de popula\u00e7\u00e3o curda, dentro e fora da Turquia, sob pretexto de luta contra o que denomina \u201cterrorismo\u201d do Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK). Vale lembrar que ao alimentar grupos armados na S\u00edria e estar no controle da principal fronteira de fuga do pa\u00eds, o presidente Erdogan exerce poder tanto sobre a produ\u00e7\u00e3o quanto sobre a vaz\u00e3o do fluxo de refugiados sobre a Europa, o que lhe confere imenso poder de barganha e certa carta branca para violar os direitos humanos (curdos, em especial) de forma brutal em seu pa\u00eds e tamb\u00e9m nos vizinhos Iraque e S\u00edria. Ver, a respeito:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.jacobinmag.com\/2016\/05\/turkey-erdogan-pkk-hdp-ocalan-suruc-rojava-syria\/\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=https:\/\/www.jacobinmag.com\/2016\/05\/turkey-erdogan-pkk-hdp-ocalan-suruc-rojava-syria\/&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957537000&amp;usg=AFQjCNEeuMVGEj7AixKsCvm4fLRwb78Snw\"><u>https:\/\/www.jacobinmag.com\/<wbr \/>2016\/05\/turkey-erdogan-pkk-<wbr \/>hdp-ocalan-suruc-rojava-syria\/<\/u><\/a><\/p>\n<p>Ver tamb\u00e9m:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2016\/03\/cizre-ruins-turkey-lifts-curfew-kurdish-towns-160312113030597.html\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/www.aljazeera.com\/news\/2016\/03\/cizre-ruins-turkey-lifts-curfew-kurdish-towns-160312113030597.html&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957537000&amp;usg=AFQjCNGT1ttJGwM4sRp8J4Mrun44PjkV-g\"><u>http:\/\/www.aljazeera.com\/news\/<wbr \/>2016\/03\/cizre-ruins-turkey-<wbr \/>lifts-curfew-kurdish-towns-<wbr \/>160312113030597.html<\/u><\/a>;<\/p>\n<p>Ver tamb\u00e9m, sobre a atua\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio iraquiano, sem autoriza\u00e7\u00e3o do governo:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.independent.co.uk\/news\/world\/middle-east\/kurdish-villagers-under-fire-in-pkk-controlled-iraq-say-turkey-is-no-different-from-isis-10433995.html\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/www.independent.co.uk\/news\/world\/middle-east\/kurdish-villagers-under-fire-in-pkk-controlled-iraq-say-turkey-is-no-different-from-isis-10433995.html&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957537000&amp;usg=AFQjCNFD1LdMqfeFCecfmK8_pKvrak6VRg\"><u>http:\/\/www.independent.co.uk\/<wbr \/>news\/world\/middle-east\/<wbr \/>kurdish-villagers-under-fire-<wbr \/>in-pkk-controlled-iraq-say-<wbr \/>turkey-is-no-different-from-<wbr \/>isis-10433995.html<\/u><\/a><\/p>\n<p><u>[16]<\/u> Ver, a respeito: <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2016\/jul\/28\/al-qaida-syria-nusra-split-terror-network\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2016\/jul\/28\/al-qaida-syria-nusra-split-terror-network&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957537000&amp;usg=AFQjCNF6DD9_LTOrT9MmW2dyzsoXAbIoEw\"><u>https:\/\/www.<wbr \/>theguardian.com\/world\/2016\/<wbr \/>jul\/28\/al-qaida-syria-nusra-<wbr \/>split-terror-network<\/u><\/a><\/p>\n<p><u>[17]<\/u> Para mais sobre o YPG e o YPJ, outras for\u00e7as paramilitares e sobre a quest\u00e3o curda em geral, ver: http:\/\/www.jubileusul.org.br\/nota\/4164<\/p>\n<p>Ilistra\u00e7\u00e3o principal: <em>Uma crian\u00e7a morre a cada 10 minutos no I\u00eamen por causa da guerra, afirma a UNICEF. Foto: <\/em><a href=\"http:\/\/www.aljazeera.com\/\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/www.aljazeera.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1483811957535000&amp;usg=AFQjCNGpuubW5B-JyQ1wVF-UoEqP5EKOpg\"><em><u>www.aljazeera.com<\/u><\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Miguel Borba de S\u00e1, integrante da rede Jubileu Sul Brasil e do PACS Barack Hussein Obama est\u00e1 prestes a se tornar o \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13129\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-13129","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3pL","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13129","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13129"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13129\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13129"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13129"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13129"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}