{"id":13150,"date":"2017-01-08T12:20:50","date_gmt":"2017-01-08T15:20:50","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13150"},"modified":"2017-01-23T18:54:42","modified_gmt":"2017-01-23T21:54:42","slug":"libia-sepultada-no-crime-e-no-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13150","title":{"rendered":"L\u00edbia, sepultada no crime e no sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/higiniopolo_03.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Higino Polo<\/p>\n<p>Passam em mar\u00e7o pr\u00f3ximo 6 anos sobre o in\u00edcio da agress\u00e3o \u00e0 L\u00edbia pela OTAN. O pa\u00eds foi destru\u00eddo. O povo l\u00edbio vive no inferno. Mas deixou de ser assunto para a grande m\u00eddia internacional, at\u00e9 porque opera\u00e7\u00f5es semelhantes prosseguem noutros lugares, nomeadamente na S\u00edria. Enquanto Obama se despede da presid\u00eancia dos EUA, <!--more-->\u00e9 indispens\u00e1vel n\u00e3o deixar esquecer nenhuma pe\u00e7a do seu criminoso curr\u00edculo. O imperialismo, do qual os EUA constituem a mais agressiva pot\u00eancia, \u00e9 o pior inimigo de toda a humanidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos quantas pessoas morreram na L\u00edbia em consequ\u00eancia da brutal interven\u00e7\u00e3o da OTAN em 2011. Algumas fontes falam de uns trinta mil mortos; outras aumentam esse n\u00famero. A Cruz Vermelha, por seu lado, calcula uns cento e vinte mil mortos, mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que essa guerra que a OTAN iniciou destruiu o pa\u00eds e afundou os seus seis milh\u00f5es de habitantes num pesadelo sinistro.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o pr\u00f3ximo passam seis anos sobre o in\u00edcio da matan\u00e7a: os EUA, Fran\u00e7a e Gr\u00e3-Bretanha lan\u00e7aram a partir de navios e avi\u00f5es um dil\u00favio de bombas e de misseis de cruzeiro. Justificaram a guerra e a carni\u00e7aria com a resolu\u00e7\u00e3o 1973 do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, que apenas falava de utilizar as \u201cmedidas necess\u00e1rias\u201d para proteger a popula\u00e7\u00e3o civil que \u201cestivesse amea\u00e7ada\u201d, e que autorizou uma zona de exclus\u00e3o a\u00e9rea, mas n\u00e3o a invas\u00e3o do pa\u00eds. N\u00e3o havia autoriza\u00e7\u00e3o alguma para iniciar uma interven\u00e7\u00e3o militar, nem muito menos um ataque para derrubar o governo. China e R\u00fassia, bem como a India e a Alemanha, abstiveram-se naquela vota\u00e7\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a e, posteriormente, perante a guerra imposta, tanto Moscou como Pequim denunciaram a abusiva interpreta\u00e7\u00e3o que Washington, os seus aliados europeus e a OTAN tinham feito da resolu\u00e7\u00e3o do Conselho. A \u00c1frica do Sul, que tamb\u00e9m tinha votado a favor da resolu\u00e7\u00e3o, denunciou depois o uso desmesurado do acordo para for\u00e7ar uma \u201cmudan\u00e7a de regime e a ocupa\u00e7\u00e3o militar do pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Foi tal a hipocrisia de Washington, Londres e Paris, que os seus avi\u00f5es chegaram a bombardear a popula\u00e7\u00e3o civil em Bengasi e Misrata, entre outras cidades l\u00edbias, matando centenas de pessoas, apesar de supostamente intervirem em sua defesa. Previamente, as \u201cfor\u00e7as rebeldes\u201d foram treinadas por instrutores militares norte-americanos e de outros pa\u00edses da OTAN, ao mesmo tempo que lhes forneceram armamento sofisticado e informa\u00e7\u00e3o, e o Departamento de Estado norte-americano trabalhou para criar um<em> Conselho Nacional de Transi\u00e7\u00e3o<\/em> para o impor como novo governo ap\u00f3s a derrota de Kadhafi. De fato, desde antes do in\u00edcio da agress\u00e3o militar, comandos militares brit\u00e2nicos e norte-americanos (em opera\u00e7\u00f5es aprovadas por Cameron e Obama, violando a legalidade internacional) tinham-se infiltrado na L\u00edbia e levavam a cabo a\u00e7\u00f5es de sabotagem e assass\u00ednios seletivos. Os militares ocidentais chegaram ao extremo de utilizar vestimenta similar aos milicianos do bando rebelde, para camuflar a sua interven\u00e7\u00e3o ante as institui\u00e7\u00f5es internacionais: eram militares da OTAN, mas nunca reconheceram a sua condi\u00e7\u00e3o, e treinaram os rebeldes e lutaram junto a eles.<\/p>\n<p>Durante o ver\u00e3o de 2011, a OTAN lan\u00e7ou milhares de miss\u00f5es de combate, e enviou comandos de \u201copera\u00e7\u00f5es especiais\u201d para refor\u00e7ar os ataques dos rebeldes, armados e apoiados pela alian\u00e7a ocidental. Em 20 de outubro, sem for\u00e7as para resistir, Kadhafi fugiu de Sirte, a coluna em que se deslocava foi atacada por avi\u00f5es norte-americanos e franceses e, finalmente, foi detido por destacamentos rebeldes, ajudados por esses \u201ccomandos de opera\u00e7\u00f5es especiais\u201d norte-americanos. Depois assassinaram-no a sangue frio. Cinco dias antes do assass\u00ednio de Kadhafi o primeiro-ministro brit\u00e2nico, Cameron, e o presidente franc\u00eas, Sarkozy, voaram at\u00e9 \u00e0 L\u00edbia, para a zona controlada pelos rebeldes, enquanto as equipas da CIA norte-americana trabalhavam para localizar Kadhafi e assassin\u00e1-lo. A sua morte foi celebrada por Obama, Cameron e Sarkozy.<br \/>\nViolando a resolu\u00e7\u00e3o da ONU, utilizando de novo a guerra como instrumento da sua pol\u00edtica externa, os EUA e seus aliados alcan\u00e7aram os seus prop\u00f3sitos. Os bombardeamentos da OTAN destru\u00edram aeroportos, infraestruturas e portos do pa\u00eds, instala\u00e7\u00f5es oficiais, quart\u00e9is, estradas e, segundo estimativas da ONU, centenas de milhares de pessoas foram for\u00e7adas a fugir, convertendo-se em refugiados na sua pr\u00f3pria terra. As reservas e recursos do pa\u00eds no estrangeiro foram objeto de interven\u00e7\u00e3o pelos governos ocidentais. Hoje, a economia do pa\u00eds \u00e9 apenas um ter\u00e7o parte do que era antes da interven\u00e7\u00e3o da OTAN em 2011. Depois, estalou a luta de bandos entre os diferentes grupos armados (como sucedeu no Afeganist\u00e3o ap\u00f3s o triunfo dos \u201csenhores da guerra\u201d, apoiados tamb\u00e9m pelos EUA); chegaram ao pa\u00eds o caos, a devasta\u00e7\u00e3o, os milicianos fan\u00e1ticos e bandidos armados que se apoderaram de tudo. A L\u00edbia passou a ser um pesadelo, onde os sequestros, os centros clandestinos de tortura, os assass\u00ednios, as viola\u00e7\u00f5es de mulheres tomaram conta da vida cotidiana no inferno; e onde inclusivamente faltam alimentos e rem\u00e9dio, ao ponto de em muitas cidades, como em Bengasi, os habitantes se verem obrigados a comer alimentos podres e ratos.<\/p>\n<p>A essa paisagem de inferno une-se a destrui\u00e7\u00e3o de centros p\u00fablicos, de pra\u00e7as, parques e lugares onde a popula\u00e7\u00e3o acorria antes da guerra; junta-se o roubo de propriedades, os fuzilamentos e decapita\u00e7\u00f5es p\u00fablicas organizadas pelos grupos<em> jihadistas<\/em>, que passaram a ser moeda corrente da nova L\u00edbia. Fontes independentes falam de centenas de pessoas, talvez milhares, decapitadas pelos destacamentos armados de fan\u00e1ticos milicianos religiosos. Grupos<em> salafistas e jihadistas <\/em>continuam a controlar importantes \u00e1reas do territ\u00f3rio e, embora Washington tenha tentado erguer um cen\u00e1rio democr\u00e1tico, nas elei\u00e7\u00f5es de junho de 2014, sobre um censo de tr\u00eas milh\u00f5es e meio de personas, apenas votou 18 % da popula\u00e7\u00e3o. Muitas cidades ficaram convertidas em ruinas, e as minas antipessoal s\u00e3o um perigo mortal para os sobreviventes.<\/p>\n<p>V\u00e1rias centenas de grupos armados, enfrentados entre si, pugnam pelo controlo do territ\u00f3rio e da riqueza do pa\u00eds, juntamente com as mafias que traficam pessoas, que condenam emigrantes a trabalhos for\u00e7ados, que matam com total impunidade, enquanto dois governos e dois \u201cparlamentos\u201d, em Tr\u00edpoli e em Tobruk, (este, apoiado ent\u00e3o pela OTAN), tentavam derrotar o advers\u00e1rio e obter o reconhecimento exterior. Para sair do caos, os governos ocidentais impulsionaram o chamado \u201cgoverno de unidade nacional\u201d, criado em Marrocos em dezembro de 2015, presidido por Fayez al-Sarraj, embora este continue sem estabelecer sua autoridade em todo el pa\u00eds, e seja inclusivamente incapaz de controlar Tr\u00edpoli, onde existem varias dezenas de mil\u00edcias armadas cuja agenda se centra em apoderar-se do petr\u00f3leo para o exportar, em extors\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, aos imigrantes, e em traficar pessoas. Em outras importantes cidades l\u00edbias, como Sirte, Misrata, Tobruk, sucede o mesmo. Por seu lado, o general Jalifa Haftar controla agora Tobruk, com ajuda militar e financeira do Egipto e Emiratos \u00c1rabes Unidos. Haftar \u00e9 um militar l\u00edbio que, ap\u00f3s romper com Kadhafi, foi transferido pela CIA para os EUA nos anos noventa, para, posteriormente, encabe\u00e7ar a mil\u00edcia armada que a ag\u00eancia norte-americana financiou. A estes h\u00e1 que acrescentar as for\u00e7as controladas pelo Daesh, o autodenominado Estado Isl\u00e2mico, que conta com importantes coniv\u00eancias nas monarquias do golfo P\u00e9rsico.<\/p>\n<p>Nesse caos infernal, Washington continua enviando \u201cgrupos de opera\u00e7\u00f5es especiais\u201d (como o que chegou em dezembro de 2015 \u00e0 base militar de Al-Watiya, no distrito de An Nuqat al Khams, junto \u00e0 fronteira tunisina, comando que foi bloqueado por grupos armados e obrigado depois a sair do pa\u00eds), e utiliza a sua avia\u00e7\u00e3o para bombardear mil\u00edcias que n\u00e3o s\u00e3o do seu agrado, enquanto apoia o governo de Fayez al-Sarraj, embora continue a contar com o trunfo de Haftar, velho empregado da CIA. Na pr\u00e1tica, as diferentes mil\u00edcias bloqueiam-se entre si, e o caos \u00e9 tal que n\u00e3o existe um bando capaz de se impor aos demais. Os EUA tentam estabilizar a situa\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do governo de Fayez al-Sarraj, embora n\u00e3o desdenhassem apoiar um governo de Haftar se este conseguisse impor-se na maior parte do pa\u00eds: querem contar com um governo cliente que assegure os seus interesses, e o Departamento de Estado \u00e9 capaz de tornar apresent\u00e1vel qualquer governo de bandidos.<\/p>\n<p>Os EUA e seus aliados europeus (Gr\u00e3 Bretanha, Fran\u00e7a) respons\u00e1veis pela tragedia do pa\u00eds, est\u00e3o interessados em quest\u00f5es diferentes: Bruxelas tenta conter a chegada de emigrantes vindos da L\u00edbia, que algumas fontes calculam em 150.000 anuais, assunto que preocupa especialmente a Alemanha; Washington pretende controlar o<em> Daesh <\/em>(com quem contemporiza na S\u00edria onde, de fato, \u00e9 visto como um aliado na guerra para derrubar o governo de Damasco), desativar as centenas de mil\u00edcias, e recuperar a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. Por seu lado, o enviado especial da ONU para a L\u00edbia, Martin Kobler, tenta, sem sucesso, mediar no meio do caos.<\/p>\n<p>Entretanto, as televis\u00f5es e a grande imprensa internacional h\u00e1 tempo que deixaram de mostrar interesse pela L\u00edbia, seguindo um gui\u00e3o utilizado com \u00eaxito muitas vezes. A L\u00edbia, convertida num estado falhado, com presen\u00e7a do <em>Daesh <\/em>(que acaba de perder Sirte), onde todos os grupos e mil\u00edcias cometem crimes de guerra ante a indiferen\u00e7a ocidental, \u00e9 hoje um pa\u00eds pelo qual nenhuma pot\u00eancia da OTAN assume responsabilidade, embora uma ter\u00e7a parte da popula\u00e7\u00e3o necessite de ajuda alimentar urgente, embora os l\u00edbios tenham que comer ratos e beber \u00e1guas pestilentas, embora se vejam obrigados a contemplar constantes assass\u00ednios e decapita\u00e7\u00f5es, embora ali a vida n\u00e3o valha nada, e os governos dessas pot\u00eancias sejam conscientes de que os l\u00edbios foram condenados a viver num inferno.<\/p>\n<p>Texto completo em: <a href=\"http:\/\/www.lahaine.org\/libia-sepultada-en-el-crimen\" target=\"_blank\">http:\/\/www.lahaine.org\/<wbr \/>libia-sepultada-en-el-crimen<\/a><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/libia-sepultada-no-crime-e-no\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Higino Polo Passam em mar\u00e7o pr\u00f3ximo 6 anos sobre o in\u00edcio da agress\u00e3o \u00e0 L\u00edbia pela OTAN. 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