{"id":13200,"date":"2017-01-12T10:05:12","date_gmt":"2017-01-12T13:05:12","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13200"},"modified":"2017-01-23T18:58:49","modified_gmt":"2017-01-23T21:58:49","slug":"a-aberracao-toma-conta-dos-saloes-ou-a-etnografia-da-cena-cotidiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13200","title":{"rendered":"A aberra\u00e7\u00e3o toma conta dos sal\u00f5es ou a etnografia da cena cotidiana?"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2016\/12\/flavio-aguiar-ciclos.jpg?w=747&#038;h=620&#038;fit=620%2C620\" alt=\"imagem\" \/><em>Por Milton Pinheiro.<\/em><\/p>\n<p>O Brasil talvez seja um dos lugares mais in\u00f3spitos do mundo para se viver nesse momento t\u00e3o complexo, quando os interesses das classes dominantes est\u00e3o pautando a vida social atrav\u00e9s da m\u00eddia, no <!--more-->comportamento celerado do congresso nacional, no judici\u00e1rio, nas a\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia e at\u00e9 nas ruas.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo debater nesse pequeno texto o car\u00e1ter da conjuntura pol\u00edtica. N\u00e3o entrarei no m\u00e9rito dos desenlaces premeditados pelo lumpesinato da pol\u00edtica no balc\u00e3o do congresso nacional. N\u00e3o est\u00e1 no escopo deste artigo examinar as artimanhas das fra\u00e7\u00f5es da burguesia, e a suas a\u00e7\u00f5es, na fermenta\u00e7\u00e3o de PECs e MPs para proteger os interesses do rentismo e de outros setores no cons\u00f3rcio que saqueiam o fundo p\u00fablico.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero discorrer sobre a rela\u00e7\u00e3o do governo usurpador, e seu mordomo ileg\u00edtimo, com a forma\u00e7\u00e3o de quadrilha que opera a divis\u00e3o do er\u00e1rio p\u00fablico identificado pelas dela\u00e7\u00f5es premiadas\u2026 N\u00e3o debaterei a sanha \u201c\u00e9tica\u201d e \u201cmoral\u201d desses segmentos m\u00e9dios da popula\u00e7\u00e3o brasileira, que em desespero pol\u00edtico, brada em defesa de um golpe militar, esquecendo o que foi a corrup\u00e7\u00e3o e os servi\u00e7os p\u00fablicos durante o per\u00edodo burgo-militar de 1964-1985\u2026 N\u00e3o, n\u00e3o vou analisar o papel dos comerciantes da f\u00e9 que fizeram do templo um balc\u00e3o de neg\u00f3cios. Por fim, embora muito importante, n\u00e3o examinarei o combate aberto que setores relevantes dos trabalhadores e da juventude estudantil realizam nas ruas, nas escolas e universidades ocupadas, nas f\u00e1bricas e no campo.<\/p>\n<p>Contudo, depois de muitos \u201cn\u00e3os\u201d, quero dizer que temos alguns \u201csins\u201d para examinar sem muitas pretens\u00f5es uma determinada forma de contamina\u00e7\u00e3o nacional: sim, temos a manifesta\u00e7\u00e3o de bizarrices que tem tomado conta dos sal\u00f5es\u2026 Sim, temos a constru\u00e7\u00e3o acelerada do obscurantismo\u2026 Sim, o reacionarismo contaminou o pragmatismo de setores m\u00e9dios da sociedade\u2026 Sim, est\u00e1 sendo constru\u00eddo um profundo \u00f3dio contra os pobres em nosso pa\u00eds\u2026 Sim, a ignor\u00e2ncia e a farsa t\u00eam sido o prato di\u00e1rio dessa manada m\u00e9dia da popula\u00e7\u00e3o nacional\u2026 Sim, eu acuso, a burguesia retr\u00f3grada e a classe m\u00e9dia pragm\u00e1tica \u2013 a partir dos seus extratos superiores \u2013 alimentam com farto combust\u00edvel o fascismo cotidiano.<\/p>\n<p>Mas a forma como se apresenta essa \u00f3pera bufa, de triste e refut\u00e1vel qualidade, no espa\u00e7o social do Brasil colonizado, tem um perfil est\u00e9tico que se manifesta como guerra de posi\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio da vida cotidiana. Ser\u00e1 que poder\u00edamos discorrer sobre esse levante est\u00e9tico bizarro para tentar compreender a manada que toma conta dos sal\u00f5es?<\/p>\n<p>Creio que, sem nenhum preconceito, mas apenas por interesse antropol\u00f3gico, podemos entrar no campo da etnografia para descrever a manifesta\u00e7\u00e3o do lixo \u201csocial\u201d que infecta com a sua presen\u00e7a viral os espa\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Ao adentrarmos o espa\u00e7o comum dos aeroportos encontramos sempre a galinhada verde em animado papo sobre o Brasil. Trata-se da sua n\u00e1usea em morar entre n\u00f3s e a manifesta\u00e7\u00e3o da prefer\u00eancia por Miami, sempre de forma comparativa.<\/p>\n<p>De repente um jovem mental, mais velho do que a no\u00e7\u00e3o de que a mulher tem que casar virgem, invade sua p\u00e1gina nas redes de cont\u00e1gio e diz \u2013 muito irritado \u2013 que o PT \u00e9 comunista e que o escroque do Olavo de Carvalho est\u00e1 certo.<\/p>\n<p>Nos defrontamos com mo\u00e7as e senhoras, daqueles extratos superiores da manada m\u00e9dia, com enormes rel\u00f3gios dourados, cord\u00f5es e pulseiras de igual colora\u00e7\u00e3o, envolvida por roupas e bolsas de tecido de oncinha e adornado de lantejoulas. Sem falar nos famosos \u00f3culos, estilo \u201cmulher\u201d de prefeito do interior, que em situa\u00e7\u00e3o de comicidade deveria ser usado para evitar tempestades de areia em algum deserto\u2026 Em situa\u00e7\u00e3o de bizarria similar, senhores e playboys demonstram os mesmos <em>habitus<\/em>. \u00c9 a presen\u00e7a indefect\u00edvel da cafonice e da ostenta\u00e7\u00e3o que invade o conv\u00edvio social e vulgariza a est\u00e9tica.<\/p>\n<p>Agora, em propor\u00e7\u00e3o tr\u00e1gica, para essa turma obsoleta \u2013 com prazo de validade vencido \u2013 encontra-se a manifesta\u00e7\u00e3o do comunismo em tudo: at\u00e9 na bandeira do Jap\u00e3o\u2026 Manifesta\u00e7\u00e3o mais que segura da obtusidade que anima a interpreta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica daqueles que s\u00e3o, e ficar\u00e3o, conhecidos na hist\u00f3ria do tempo presente como coxinhas.<\/p>\n<p>Sempre podemos ter algo mais \u201ccomplexo\u201d para identificar a desraz\u00e3o. Vejamos, tem algumas manifesta\u00e7\u00f5es da forma est\u00e9tica, sem conhecimento do conte\u00fado, que ficam apenas na apresenta\u00e7\u00e3o do inv\u00f3lucro: usa barba de \u00e1rabe, mas \u00e9 islamof\u00f3bico. Veste-se como a juventude questionadora dos anos 1980, mas seu sonho n\u00e3o passa da tentativa de ser gerente de alguma \u2018firma\u201d e para tal o perfil mais adequado \u00e9 o rapaz vazio do trivago. O perfil ecol\u00f3gico dessa esc\u00f3ria se resume \u00e0 est\u00e9tica do hippie de boutique, ou coxinha sustent\u00e1vel, que prefere hospital para cachorro do que recurso para o SUS. Todos s\u00e3o iguaizinhos, pensando que s\u00e3o \u00fanicos e diferentes.<\/p>\n<p>Outra cena bizarra que invade o cotidiano \u00e9 ver manadas de coxinhas manifestando-se por diversos sal\u00f5es do Brasil contra a corrup\u00e7\u00e3o vestidos com a camisas da CBF, entidade de car\u00e1ter \u201cfeudal\u201d com largo hist\u00f3rico de corrup\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 aberra\u00e7\u00e3o ou decomposi\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter dessa gente, em seus extratos superiores?<\/p>\n<p>Mas, eis que de repente, surge algo curioso. O pobre, mesmo impactado pela indig\u00eancia, mostra-se \u00e1gil na interpreta\u00e7\u00e3o do cotidiano. Ele tem suas t\u00e1ticas de sobreviv\u00eancia: observo na Avenida Paulista \u2013 onde a aberra\u00e7\u00e3o tomou conta do sal\u00e3o \u2013 a manifesta\u00e7\u00e3o dessas estrat\u00e9gias inovadoras. O mendigo j\u00e1 efetivou a companhia de um cachorrinho para solicitar a esmola: \u201ccontribua para que possa comprar a ra\u00e7\u00e3o do cachorro e, se poss\u00edvel, uma marmitex para mim\u201d. Para al\u00e9m da genialidade do pobre, podemos identificar a desumanidade da \u201cclasse\u201d m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Outras alegorias que podem nos ajudar a entender essa vis\u00e3o do inferno, como instrumento para explicar essa pretensa etnografia das aberra\u00e7\u00f5es, pode ser a bizarria que se aproxima do bar intergal\u00e1ctico do filme <em>Blade Runner<\/em>, de Ridley Scott, quando pessoas de extratos inferiores na pir\u00e2mide da manada m\u00e9dia participam de manifesta\u00e7\u00f5es, com n\u00edtido car\u00e1ter de colonizado, e que essas pessoas por sua \u201ccor\u201d, classe social, condi\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica sempre sofreram a a\u00e7\u00e3o violenta dos opressores. E elas manifestam-se, vindo da zona leste de S\u00e3o Paulo, defendendo a candidatura de Donald Trump no sal\u00e3o da Paulista; quando candidatos negros e homossexuais, nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es posicionaram-se contra as pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o e combate as opress\u00f5es; ou quando esteticamente se agrupam na polariza\u00e7\u00e3o das camisas, usando a marca Tommy Hilfiger, cujo dono afirmou que no Brasil sua marca tem que ser cara para impedir que pobres a usassem.<\/p>\n<p>Essa quadra hist\u00f3rica, quando tudo pode se transformar no seu contr\u00e1rio, \u00e9 perturbadora para a ideia de progresso social e civilizat\u00f3rio. O governo do ileg\u00edtimo Michel Temer, a partir da amplia\u00e7\u00e3o das balizas da autocracia burguesa, est\u00e1 criando um Estado de Exce\u00e7\u00e3o, alimentando com seu (des) governo a trag\u00e9dia social.<\/p>\n<p>N\u00e3o iria muito longe do ponto de vista ideol\u00f3gico para sugerir uma resposta pol\u00edtica dos de baixo neste momento hist\u00f3rico, afinal, como afirmava um pensador social alem\u00e3o, a humanidade s\u00f3 se prop\u00f5e aquilo que ela possa realizar. Portanto, ficaria apenas em um bom debate feito sobre a introdu\u00e7\u00e3o de um determinado artigo na atual constitui\u00e7\u00e3o italiana que nos remete a um cl\u00e1ssico direito social: \u201cQuando os poderes p\u00fablicos violam as liberdades fundamentais e os direitos garantidos pela Constitui\u00e7\u00e3o, a resist\u00eancia \u00e0 opress\u00e3o \u00e9 um direito e um dever do cidad\u00e3o\u201d. Portanto, \u00e9 mais que imperioso entendermos que \u201ca tradi\u00e7\u00e3o dos oprimidos nos ensina que o estado de exce\u00e7\u00e3o em que vivemos \u00e9 na verdade regra geral. Precisamos construir um conceito de hist\u00f3ria que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa \u00e9 criar um verdadeiro estado de emerg\u00eancia\u201d (Walter Benjamin, <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/walter-benjamin-aviso-de-incendio\" target=\"_blank\"><em>Teses \u201cSobre o conceito de hist\u00f3ria\u201d<\/em><\/a>).<\/p>\n<p>Trabalhadores, \u00e0s barricadas!<\/p>\n<p><strong>Milton Pinheiro<\/strong> \u00e9 cientista pol\u00edtico e pesquisador da \u00e1rea de hist\u00f3ria pol\u00edtica. Professor do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria, cultura e pr\u00e1ticas sociais da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Tem v\u00e1rios livros publicados, entre eles, <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/o-novo-tempo-do-mundo\" target=\"_blank\"><em>Ditadura: o que resta da transi\u00e7\u00e3o<\/em><\/a> (Boitempo, S\u00e3o Paulo, 2014). Colabora com o <strong>Blog da Boitempo<\/strong> esporadicamente.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2017\/01\/09\/a-aberracao-toma-conta-dos-saloes-ou-a-etnografia-da-cena-cotidiana\/\">A aberra\u00e7\u00e3o toma conta dos sal\u00f5es ou a etnografia da cena&nbsp;cotidiana?<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Milton Pinheiro. 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