{"id":13232,"date":"2017-01-15T17:25:19","date_gmt":"2017-01-15T20:25:19","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13232"},"modified":"2017-01-29T15:08:20","modified_gmt":"2017-01-29T18:08:20","slug":"uma-saudacao-aos-bravos-que-ousaram-lutar-46-anos-do-voo-da-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13232","title":{"rendered":"Uma sauda\u00e7\u00e3o aos bravos que ousaram lutar: 46 anos do v\u00f4o da liberdade"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/P0MPVONBxopGQQHxg4-JpLvDlh6IyLBGF1lX4BraQ-5JgAtgZjw0b2MsgldFI2gph2seOIFnUquktD9nPLtI5Nh9L6bt23lbV8koPkJ2mYXKET27K40XjVPEDr8CsaaOZYfdRTXmiMhFQZExL2uihD4K2DCoOW5xhAkwi7J8zpFDB1P2nxqKpR0USwp7KyeLSRWD3_mAnxQOMrlN05PQsf-PbatHU7t-Sh10Gf_xuuGWBBpB8BPpj2nKF-mDl6hV0dd3u104CGtH5Ey5Ai7qfjYhJYcuxkSw4qUi3eNM2NVk9cYN4ZXE4wiiI1Ls2YLFqGeFzpn6JrYVapnbi-SRSZJIiC-7JPJ2uy-l0RbhpnkV8qUrmP5iBSYpc4QZi1NzO1leHmExqEuz8v2GK-cAblX8Y6eJy3lkahPQR7-lUdkdxdXYrr9T9ZfMTdbCCNOSeb5WirGSXQ-3otorW40z0rdK3ng13deocuMlwd6Oc9jyIH5BWVOYZSeFLIirDq3S5ktSBSXMnAMnl_nUMyyzgC2ZKCGjo75tzrwrjapzszVgLJ9ajfY8txtG0y7pCbdCqNjSSPmWWfVc7YjRBZfaGixyvW0imfEhq-cufrR_AkP3cYtIr3Of=w349-h224-no\" alt=\"imagem\" \/>Aluizio Ferreira Palmar<\/p>\n<p>Ao completar 46 anos do Voo da Liberdade, fa\u00e7o minha homenagem aos companheiros que arriscaram suas vidas para nos libertar dos centros de tortura da ditadura militar.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>Minha eterna gratid\u00e3o aos companheiros, Carlos Lamarca, In\u00eas Etiienne, Ivan Motta Lima e Herbert Daniel (in memorian). Alex Polari, Tereza \u00c2ngelo, Zenaide Machado, Gerson Teodoro, Adair Gon\u00e7alves, Jos\u00e9 Carlos Mendes, Alfredo Sirkis e tantos outros her\u00f3is an\u00f4nimos que deram cobertura \u00e0 a\u00e7\u00e3o libertadora.<\/p>\n<p>LEGENDA DA FOTO: Grupo dos setenta presos pol\u00edticos resgatados dos centros de tortura. Na fileira dos agachados eu sou o sexto da esquerda para a direita (a menina que est\u00e1 me olhando \u00e9 uma das filhas de Bruno e Geni Piolla.<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o dos 40 anos do Voo da Liberdade, meu velho amigo Umberto Trigueiros Lima escreveu esse texto antol\u00f3gico.<\/p>\n<p>&#8220;Fazia um calor insuport\u00e1vel no Rio, naqueles dias de janeiro de 1971, 40\u00ba \u00e0 sombra. Lembro que no dia 13, fomos levados para a Base A\u00e9rea do Gale\u00e3o, espremidos em 2 ou 3 cambur\u00f5es pequenos, desde o quartel do Batalh\u00e3o de Guardas, no bairro de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, onde est\u00e1vamos recolhidos aguardando o desenlace das negocia\u00e7\u00f5es do sequestro. \u00c9ramos: eu (Umberto), Antonio Rog\u00e9rio, Alu\u00edzio Palmar, Pedro Alves, Marc\u00e3o, Ubiratan Vatutin, Irani Costa, Afonso, Afonso Celso Lana, Bretas, Julinho, Mara, Carmela, Dora e Concei\u00e7\u00e3o. Fazia sol a pino e os caras pararam os cambur\u00f5es em algum p\u00e1tio descampado da Base e deixaram a gente l\u00e1 torrando dentro daqueles verdadeiros fornos e de puro sadismo e sacanagem riam e gritavam uns para os outros, &#8216;&#8230;olha a\u00ed cara, os rapazes est\u00e3o com calor, voc\u00ea esqueceu de ligar o ar, eles v\u00e3o ficar suadinhos&#8230;&#8217;. Um outro dizia, &#8216;&#8230;deixa esses filhos da puta esturricarem a\u00ed dentro, pode ser que algum deles v\u00e1 logo para o inferno&#8230;&#8217;. A viagem ao inferno n\u00e3o era poss\u00edvel, pois j\u00e1 est\u00e1vamos nele, ou seja nos c\u00e1rceres da ditadura, h\u00e1 algum tempo. A temperatura dentro dos carros era alt\u00edssima, mal consegu\u00edamos respirar pelas poucas frestas de ventila\u00e7\u00e3o, os miolos pareciam que iam estourar. Foi um<br \/>\nhorror!<\/p>\n<p>Ficamos na Base durante todo o dia 13, onde j\u00e1 estavam muitos outros companheiros vindos de outras pris\u00f5es e de outros estados e l\u00e1 nos mantiveram o tempo todo algemados em duplas. Nos deram comida podre, tiraram mais impress\u00f5es digitais, nos obrigaram a tirar fotos nus em diferentes posi\u00e7\u00f5es. Alguns deles diziam que era para o futuro reconhecimento dos cad\u00e1veres&#8230; Perto da meia noite nos levaram para o embarque, nos agruparam do lado do avi\u00e3o, frente a um batalh\u00e3o de fot\u00f3grafos postados h\u00e1 uns 50 metros de dist\u00e2ncia, atr\u00e1s de uma corda. \u00c9ramos 70, mais as filhas do Bruno e da Geny Piola, as menininhas Tatiana, K\u00e1tia e Bruna. Os flashes espocavam e muitos de n\u00f3s levantamos os punhos, outros fizeram o V da vit\u00f3ria, enquanto os caras da aeron\u00e1utica por tr\u00e1s davam socos nas costas de alguns companheiros. Nosso voo da liberdade para o Chile decolou aos 2 minutos de 14 de janeiro. Durante o voo, \u00edamos algemados e os policiais da escolta nos provocavam. &#8216;&#8230;Olha a\u00ed malandro, se voltar vai virar presunto, nome de rua&#8230;.&#8217;. A tripula\u00e7\u00e3o da Varig, mesmo discreta, foi simp\u00e1tica e af\u00e1vel conosco e quando chegamos a Santiago um comiss\u00e1rio de bordo veio correndo me contar que havia uma faixa na sacada do aeroporto que dizia &#8216;Marighella Presente&#8217;.<\/p>\n<p>Foram 2 longos dias, cheios de tens\u00e3o, de expectativa, de esperan\u00e7a, todos os sentidos em aten\u00e7\u00e3o. Talvez, alguns dos mais longos dias das nossas vidas. Tenho a certeza de que nenhum de n\u00f3s jamais se esquecer\u00e1 daqueles momentos. Nas \u00faltimas horas da madrugada do dia 14 chegamos ao Chile. Depois de 38 dias de negocia\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis, de risco extremo, mas com muita firmeza e equil\u00edbrio por parte do Comandante Carlos Lamarca e dos companheiros da VPR que realizaram a opera\u00e7\u00e3o de captura do embaixador su\u00ed\u00e7o, aquela que seria a \u00faltima grande a\u00e7\u00e3o armada da guerrilha urbana brasileira terminava vitoriosa. Come\u00e7ava um novo tempo nas nossas vidas.<\/p>\n<p>Fomos descendo do avi\u00e3o, j\u00e1 sem algemas (os policiais brasileiros da escolta foram impedidos de desembarcar), nos abra\u00e7ando emocionados, rindo, chorando, cantando a Internacional, acenando para os companheiros brasileiros e chilenos que faziam uma carinhosa manifesta\u00e7\u00e3o para nos recepcionar.<\/p>\n<p>Um general de Carabineros nos reuniu no sagu\u00e3o do aeroporto e fez uma prele\u00e7\u00e3o sobre tudo que est\u00e1vamos proibidos de fazer no pa\u00eds. Logo em seguida, funcion\u00e1rios do governo da UP e companheiros dos v\u00e1rios partidos da coaliz\u00e3o nos disseram ali mesmo para n\u00e3o levar a s\u00e9rio nada do discurso do tal general. Era o Chile de Salvador Allende que \u00edamos viver e conhecer t\u00e3o intensamente.<\/p>\n<p>Amanhecia o dia 14 de janeiro de 1971 quando sa\u00edmos do aeroporto de Pudahuel em \u00f4nibus, escoltados por Carabineros. Amanhecia tamb\u00e9m aquele novo tempo das nossas vidas e amanhecia o Chile da Unidade Popular, da imensa liberdade, das grandes mobiliza\u00e7\u00f5es populares, da luta de classes ao vivo e a cores saltando diante dos nossos olhos todos os dias. Pelas ruas de Santiago, a caminho do Parque Cousi\u00f1o onde ficar\u00edamos alojados, os oper\u00e1rios que trabalhavam nas obras do Metr\u00f4 acenavam para a gente, outros aplaudiam, alguns levantavam os punhos cerrados. Imagens que ficariam para sempre na mem\u00f3ria, fotografias de um tempo.<\/p>\n<p>Aquele dia parecia infindo, ningu\u00e9m conseguia pregar um olho, foi um dia enorme, cheio de encontros, de descobertas, de luz. Est\u00e1vamos b\u00eabados de liberdade e ao mesmo tempo ainda marcados pela sombra da pris\u00e3o, pelas tristes not\u00edcias de mais companheiros covardemente assassinados pelos c\u00e3es da ditadura. Na nossa primeira refei\u00e7\u00e3o no Hogar Pedro Aguirre Cerda a maioria deixou os garfos e facas sobre a mesa e comeu de colher, como faz\u00edamos na pris\u00e3o. Quando \u00edamos para os quartos de alojamento, alguns cometiam o ato falho de dizer &#8216;&#8230;vou para a cela&#8230;&#8217;. Na nossa primeira sa\u00edda, um grupo se perdeu na cidade e voltou para o Hogar de carona num cambur\u00e3o dos Carabineros, motivo de goza\u00e7\u00e3o geral. Lembro da imensa solidariedade e carinho com que fomos recebidos pelos companheiros chilenos e tamb\u00e9m por estudantes, intelectuais, artistas, oper\u00e1rios, pessoas do povo enfim que iam nos visitar, que fizeram coletas para nos arranjar algum dinheiro e roupas, que nos queriam levar para suas casas.<\/p>\n<p>Nas semanas e meses seguintes, pouco a pouco fomos nos dispersando, construindo nossas op\u00e7\u00f5es de milit\u00e2ncia, de vida.<\/p>\n<p>Viver\u00edamos intensamente aquele processo chileno e tamb\u00e9m nossos v\u00ednculos com a luta no Brasil. Nos encharcar\u00edamos com o aprendizado daquela magistral aula de hist\u00f3ria e de pol\u00edtica &#8216;em carne viva&#8217;. Paix\u00f5es, alegrias, nostalgias, saudade, amores, amizade, solidariedade, companheirismo, tudo junto, ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Muitos de n\u00f3s estivemos no Chile at\u00e9 o fim, vivendo e testemunhando os horrores do golpe de 11 de setembro de 1973. Em muitos casos, mais uma vez, escapando por pouco, por muito pouco.<\/p>\n<p>Outros companheiros, por diferentes raz\u00f5es de milit\u00e2ncia e pessoais foram viver em outros pa\u00edses. Alguns trataram de organizar suas voltas clandestinas ao Brasil, na esperan\u00e7a de continuar a luta armada. Uns poucos conseguiram manter-se, mas infelizmente, nessa empreitada de luta, v\u00e1rios companheiros foram assassinados. Honro as suas mem\u00f3rias e me orgulho de termos compartido aqueles momentos t\u00e3o significativos das nossas vidas.<\/p>\n<p>Foi o tempo que nos tocou viver. Era um tempo de guerra, mas tamb\u00e9m de uma enorme esperan\u00e7a..<\/p>\n<p>Na passagem dos 40 anos da nossa liberta\u00e7\u00e3o, acho que dever\u00edamos dedicar a mem\u00f3ria desse encontro fraterno, em primeiro lugar aos companheiros do nosso grupo chacinados pelas ditaduras brasileira e chilena, como tamb\u00e9m aqueles que marcados por sequelas e feridas psicol\u00f3gicas insuport\u00e1veis n\u00e3o conseguiram continuar suas vidas: Daniel Jos\u00e9 de Carvalho, Edmur P\u00e9ricles Camargo, Jo\u00e3o Batista Rita, Joel Jos\u00e9 de Carvalho, W\u00e2nio Jos\u00e9 de Matos, Tito de Alencar Lima, Maria Auxiliadora Lara Barcelos, Gustavo Buarque Schiller. Em segundo lugar, com saudade, a todos os companheiros daquela viagem para a liberdade de 14 de janeiro de 1971, que j\u00e1 nos deixaram. Com eterna gratid\u00e3o e reconhecimento ao Comandante Carlos Lamarca e aos combatentes da VPR que realizaram aquela a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria audaz e vitoriosa. E tamb\u00e9m a todos os brasileiros da nossa gera\u00e7\u00e3o (e aqui n\u00e3o falo em idade, que pode ter ido dos 12 aos 80) que n\u00e3o se acovardaram, que foram capazes de enfrentar aqueles duros e dif\u00edceis tempos, quando dizer n\u00e3o poderia significar a morte, &#8216;&#8230;quando falar em \u00e1rvores era quase um crime&#8230;&#8217;.<\/p>\n<p>Enfim, a todos os que OUSARAM LUTAR&#8230;!<\/p>\n<div class=\"fb-post\" data-href=\"https:\/\/www.facebook.com\/aluiziopalmar\/posts\/10154942020044530\" data-width=\"552\" style=\"background-color: #fff; display: inline-block;\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Aluizio Ferreira Palmar Ao completar 46 anos do Voo da Liberdade, fa\u00e7o minha homenagem aos companheiros que arriscaram suas vidas para nos libertar \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13232\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-13232","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3rq","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13232","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13232"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13232\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13232"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13232"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13232"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}