{"id":13237,"date":"2017-01-16T10:48:48","date_gmt":"2017-01-16T13:48:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13237"},"modified":"2017-01-29T15:08:23","modified_gmt":"2017-01-29T18:08:23","slug":"o-pensamento-de-rosa-luxemburgo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13237","title":{"rendered":"O pensamento de Rosa Luxemburgo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/gz.diarioliberdade.org\/images\/images_thumbs\/a2d7f5779b1b316fa0cb932f282768e4.jpeg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>Artigo publicado originalmente na revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda, com o t\u00edtulo, &#8220;A centelha se acende na a\u00e7\u00e3o: a filosofia da pr\u00e1xis no pensamento de Rosa Luxemburgo&#8221;.<\/p>\n<p>Algumas palavras pessoais, a t\u00edtulo de introdu\u00e7\u00e3o.<!--more--> Descobri Rosa Luxemburgo por volta de 1955, aos 17 anos, gra\u00e7as ao amigo Paulo Singer. Paulo me explicou longamente a teoria do imperialismo, mas o que me atraiu mesmo foram os textos pol\u00edticos que ele me passou, a cr\u00edtica do centralismo, a vis\u00e3o revolucion\u00e1ria e democr\u00e1tica de Rosa Luxemburgo. Aderimos juntos a uma pequena organiza\u00e7\u00e3o \u201cluxemburguista\u201d, a Liga Socialista Independente, da qual tamb\u00e9m faziam parte Maur\u00edcio Tragtenberg, Herm\u00ednio Sacchetta e, alguns anos depois, os irm\u00e3os Sader. T\u00ednhamos um local de reuni\u00f5es no centro de S\u00e3o Paulo que media 2 x 5 metros e cuja \u00fanica ornamenta\u00e7\u00e3o era um quadro com um desenho que representava Rosa Luxemburgo. Nessa \u00e9poca, recebi de minha m\u00e3e um exemplar das cartas de pris\u00e3o[1] que ela havia trazido de Viena quando emigrou para o Brasil, o que me permitiu apreciar melhor a dimens\u00e3o humana e generosa da revolucion\u00e1ria intransigente. Anos mais tarde, escrevi, sob a orienta\u00e7\u00e3o de Lucien Goldmann, uma <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/a-teoria-da-revolucao-no-jovem-marx\" target=\"_blank\">tese sobre o jovem Marx<\/a>, apresentada na Sorbonne em 1964[2], toda inspirada no marxismo de Rosa Luxemburgo. \u00c9 uma paix\u00e3o que dura at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>Marxismo e filosofia da pr\u00e1xis<\/strong><\/p>\n<p>Quando publicou as <em>Teses sobre Feuerbach<\/em> [Em <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/a-ideologia-alema\" target=\"_blank\"><em>A ideologia alem\u00e3<\/em><\/a>, Boitempo 2007] de Marx, em 1888, Engels qualificou-as de \u201cprimeiro documento em que est\u00e1 depositado o germe genial de uma nova concep\u00e7\u00e3o do mundo\u201d. Com efeito, nesse texto Marx supera dialeticamente \u2013 a famosa <em>Aufhebung<\/em>, nega\u00e7\u00e3o\/conserva\u00e7\u00e3o\/supera\u00e7\u00e3o \u2013 o materialismo e o idealismo anteriores e formula uma nova teoria, que se poderia designar como <em>filosofia da pr\u00e1xis<\/em>. Enquanto os materialistas franceses insistiam que \u00e9 necess\u00e1rio mudar as circunst\u00e2ncias para que os seres humanos se transformem, os idealistas alem\u00e3es acreditavam que, ao promover uma nova consci\u00eancia nos indiv\u00edduos, modifica-se em seguida a sociedade. Contra essas duas percep\u00e7\u00f5es unilaterais, que conduziam ao impasse \u2013 e \u00e0 busca de um \u201cGrande Educador\u201d ou Salvador Supremo \u2013 Marx afirma na Tese III: \u201cA coincid\u00eancia da mudan\u00e7a das circunst\u00e2ncias e da atividade humana, ou mudan\u00e7a de si mesmo [<em>Selbstver\u00e4nderung<\/em>], pode ser apreendida e racionalmente compreendida apenas enquanto <em>pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria<\/em>\u201d. Em outros termos: na pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria, na a\u00e7\u00e3o coletiva emancipadora, o sujeito hist\u00f3rico \u2013 as classes oprimidas \u2013 transforma ao mesmo tempo as circunst\u00e2ncias materiais e sua pr\u00f3pria consci\u00eancia. Marx volta a essa problem\u00e1tica na <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/a-ideologia-alema\" target=\"_blank\"><em>Ideologia alem\u00e3<\/em><\/a>, na qual escreve:<\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas necess\u00e1ria porque n\u00e3o h\u00e1 outro meio de derrubar a classe dominante, mas porque a classe subversiva [<em>st\u00fcrzende<\/em>] pode ter \u00eaxito apenas por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o para livrar-se de toda a velha merda [<em>Dreck<\/em>] e tornar-se assim capaz de efetuar uma nova funda\u00e7\u00e3o da sociedade.\u201d[3]<\/p>\n<p>Isso significa que a autoemancipa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria \u00e9 a \u00fanica forma poss\u00edvel de liberta\u00e7\u00e3o: \u00e9 s\u00f3 por sua pr\u00f3pria pr\u00e1xis, por sua experi\u00eancia na a\u00e7\u00e3o, que as classes oprimidas podem transformar sua consci\u00eancia, ao mesmo tempo que subvertem o poder do capital. \u00c9 verdade que em textos posteriores, como, por exemplo, no famoso pref\u00e1cio de 1857 \u00e0 <em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica <\/em>[em <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/as-armas-da-critica\" target=\"_blank\"><em>As armas da cr\u00edtica<\/em><\/a>, Boitempo, 2012], encontramos uma vers\u00e3o muito mais determinista, que v\u00ea a revolu\u00e7\u00e3o como resultado inevit\u00e1vel da contradi\u00e7\u00e3o entre for\u00e7as e rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, mas o princ\u00edpio da autoemancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores continua a inspirar o pensamento pol\u00edtico de Marx.<\/p>\n<p>\u00c9 Antonio Gramsci, nos <em>Cadernos do c\u00e1rcere <\/em>[em <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/as-armas-da-critica\" target=\"_blank\"><em>As armas da cr\u00edtica<\/em><\/a>, Boitempo, 2012], que vai utilizar pela primeira vez a express\u00e3o \u201cfilosofia da pr\u00e1xis\u201d para referir-se ao marxismo. Pretendem alguns que isso seria apenas uma ast\u00facia para enganar seus carcereiros fascistas, que poderiam desconfiar de qualquer refer\u00eancia a Marx; mas esse argumento n\u00e3o explica porque ele n\u00e3o usou outra f\u00f3rmula, como \u201cdial\u00e9tica racional\u201d ou \u201cfilosofia cr\u00edtica\u201d. Na verdade, com essa express\u00e3o, ele define de modo preciso e coerente o que distingue o marxismo como vis\u00e3o de mundo espec\u00edfica e distancia-se radicalmente das leituras positivistas e evolucionistas do materialismo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p><strong>A filosofia da pr\u00e1xis no pensamento de Rosa Luxemburgo<\/strong><\/p>\n<p>Poucos marxistas do s\u00e9culo XX estiveram t\u00e3o pr\u00f3ximos do esp\u00edrito dessa filosofia marxista da pr\u00e1xis como Rosa Luxemburgo. Claro, ela n\u00e3o escrevia textos filos\u00f3ficos nem elaborava teorias sistem\u00e1ticas \u2013 como observa com raz\u00e3o Isabel Loureiro: \u201csuas ideias, esparsas em artigos de jornal, brochuras, discursos, cartas [\u2026] s\u00e3o muito mais respostas imediatas \u00e0 conjuntura do que uma teoria l\u00f3gica e internamente coerente\u201d[4]. Ainda assim, a filosofia da pr\u00e1xis, que ela interpreta de maneira original e criativa, \u00e9 o fio condutor \u2013 no sentido el\u00e9trico da palavra \u2013 de sua obra e de sua a\u00e7\u00e3o como revolucion\u00e1ria. Mas seu pensamento est\u00e1 longe de ser est\u00e1tico: \u00e9 uma reflex\u00e3o em movimento, que se enriquece com a experi\u00eancia hist\u00f3rica. Tentaremos reconstituir a evolu\u00e7\u00e3o de seu pensamento por meio de alguns exemplos.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que seus escritos s\u00e3o atravessados por uma tens\u00e3o entre o determinismo hist\u00f3rico \u2013 a inevitabilidade da derrocada do capitalismo \u2013 e o voluntarismo da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Isso se aplica em particular a seus primeiros trabalhos, anteriores a 1914; <em>Reforma ou revolu\u00e7\u00e3o?<\/em>, de 1899, obra com que Rosa Luxemburgo se tornou conhecida no movimento oper\u00e1rio alem\u00e3o e internacional, \u00e9 um exemplo claro dessa ambival\u00eancia. Contra Bernstein, insiste que a evolu\u00e7\u00e3o do capitalismo se orienta no sentido de um desmoronamento (<em>Zusammenbruch<\/em>) e que esse desmoronamento \u00e9 \u201ca via hist\u00f3rica que conduz \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da sociedade socialista\u201d. Trata-se, em \u00faltima an\u00e1lise, de uma variante socialista da ideologia do progresso linear e inevit\u00e1vel que dominou o pensamento ocidental desde a Filosofia da Ilustra\u00e7\u00e3o. O que salva seu argumento de um economicismo fatalista \u00e9 a pedagogia revolucion\u00e1ria da a\u00e7\u00e3o: \u201cSomente no curso [\u2026] de lutas demoradas e tenazes, poder\u00e1 o proletariado chegar ao grau de maturidade pol\u00edtica que lhe permita obter a vit\u00f3ria definitiva da revolu\u00e7\u00e3o\u201d[5].<\/p>\n<p>Essa pedagogia dial\u00e9tica da luta \u00e9 tamb\u00e9m um dos principais eixos da pol\u00eamica com Lenin, em 1904:<\/p>\n<p>\u00c9 somente no curso da luta que o ex\u00e9rcito do proletariado se recruta e que ele toma consci\u00eancia dos fins dessa luta. A organiza\u00e7\u00e3o, a conscientiza\u00e7\u00e3o [<em>Aufkl\u00e4rung<\/em>] e o combate n\u00e3o s\u00e3o fases distintas, mecanicamente separadas no tempo [\u2026] mas apenas aspectos diversos de um \u00fanico e mesmo processo.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a classe pode se equivocar no curso desse combate, mas, em \u00faltima an\u00e1lise, \u201cos erros cometidos por um movimento realmente revolucion\u00e1rio s\u00e3o hist\u00f3rica e infinitamente mais fecundos e valiosos que a infalibilidade do melhor \u2018Comit\u00ea Central\u2019\u201d.<\/p>\n<p>A autoemancipa\u00e7\u00e3o dos oprimidos implica a autotransforma\u00e7\u00e3o da classe revolucion\u00e1ria por sua experi\u00eancia pr\u00e1tica; esta, por sua vez, produz n\u00e3o s\u00f3 a consci\u00eancia \u2013 tema cl\u00e1ssico do marxismo \u2013, mas tamb\u00e9m a <em>vontade<\/em>:<\/p>\n<p>O movimento hist\u00f3rico-universal [<em>Weltgeschichtlich<\/em>] do proletariado at\u00e9 sua vit\u00f3ria \u00e9 um processo cuja particularidade reside no fato de que aqui, pela primeira vez na hist\u00f3ria, as pr\u00f3prias massas populares imp\u00f5em sua vontade contra as classes dominantes [\u2026]. Entretanto, as massas n\u00e3o podem conquistar essa vontade sen\u00e3o na luta quotidiana com a ordem estabelecida, isto \u00e9, no quadro dessa ordem.[6]<\/p>\n<p>Poder\u00edamos comparar a vis\u00e3o de Lenin com a de Rosa Luxemburgo na seguinte imagem: para Vladimir Ilitch, redator do jornal <em>Iskra<\/em>, a centelha revolucion\u00e1ria \u00e9 trazida pela vanguarda pol\u00edtica organizada, de fora para dentro das lutas espont\u00e2neas do proletariado; para a revolucion\u00e1ria judeu-polaca, <em>a centelha da consci\u00eancia e da vontade revolucion\u00e1ria se acende no combate, na a\u00e7\u00e3o de massas<\/em>. \u00c9 verdade que sua vis\u00e3o de partido como express\u00e3o org\u00e2nica da classe correspondia mais \u00e0 situa\u00e7\u00e3o na Alemanha do que na R\u00fassia ou na Pol\u00f4nia, onde j\u00e1 se colocava a quest\u00e3o da diversidade de partidos em rela\u00e7\u00e3o ao socialismo.<\/p>\n<p>Os eventos revolucion\u00e1rios de 1905 no Imp\u00e9rio Russo czarista v\u00e3o amplamente confirmar Rosa Luxemburgo em sua convic\u00e7\u00e3o de que o processo de tomada de consci\u00eancia das massas oper\u00e1rias resulta menos da atividade \u201cesclarecedora\u201d do partido do que da experi\u00eancia de a\u00e7\u00e3o direta e aut\u00f4noma dos trabalhadores:<\/p>\n<p>\u00c9 o proletariado que vai derrubar o absolutismo na R\u00fassia. Mas o proletariado necessita para isso de um alto grau de educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, de consci\u00eancia de classe e de organiza\u00e7\u00e3o. Todas essas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem surgir da leitura de panfletos e brochuras, mas somente na escola da luta e na luta pol\u00edtica viva, no curso da revolu\u00e7\u00e3o em marcha. [\u2026] O s\u00fabito levantamento geral [<em>Generalerhebung<\/em>] do proletariado em janeiro, sob a forte impuls\u00e3o dos acontecimentos de S\u00e3o Petersburgo, foi, em sua a\u00e7\u00e3o dirigida para o exterior, um ato pol\u00edtico de declara\u00e7\u00e3o de guerra revolucion\u00e1ria ao absolutismo. Mas essa primeira a\u00e7\u00e3o geral direta da classe teve um impacto ainda maior numa dire\u00e7\u00e3o interna, despertando pela primeira vez, como que por um choque el\u00e9trico [<em>einen elektrischen Schlag<\/em>], o sentimento e a consci\u00eancia de classe em milh\u00f5es e milh\u00f5es de indiv\u00edduos.[7]<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a f\u00f3rmula pol\u00eamica sobre \u201cpanfletos e brochuras\u201d parece subestimar a import\u00e2ncia da teoria revolucion\u00e1ria nesse processo; por outro lado, a atividade pol\u00edtica de Rosa Luxemburgo, que consistia em grande parte na reda\u00e7\u00e3o de artigos de jornais e de brochuras \u2013 sem falar de suas obras te\u00f3ricas no campo da economia pol\u00edtica \u2013 demonstra, sem dar margem a d\u00favidas, o significado decisivo que ela atribu\u00eda ao trabalho te\u00f3rico e \u00e0 pol\u00eamica pol\u00edtica no processo de prepara\u00e7\u00e3o da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na famosa brochura de 1906 sobre a greve de massas [publicado em <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/as-armas-da-critica\" target=\"_blank\"><em>As armas da cr\u00edtica<\/em><\/a>, Boitempo 2012], Rosa Luxemburgo ainda utiliza os argumentos deterministas tradicionais: a revolu\u00e7\u00e3o ocorrera \u201ccom a necessidade de uma lei da natureza\u201d. Mas sua vis\u00e3o concreta do processo revolucion\u00e1rio coincide com a teoria da revolu\u00e7\u00e3o de Marx, tal como ele a desenvolve na <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/titles\/view\/a-ideologia-alema\" target=\"_blank\"><em>Ideologia alem\u00e3<\/em><\/a>, obra que ela n\u00e3o conhecia, j\u00e1 que s\u00f3 foi publicada depois de sua morte: a consci\u00eancia revolucion\u00e1ria n\u00e3o pode se generalizar sen\u00e3o no curso de um movimento \u201cpr\u00e1tico\u201d, a transforma\u00e7\u00e3o \u201cmaci\u00e7a\u201d dos oprimidos s\u00f3 pode se generalizar no curso da pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o. A categoria da <em>pr\u00e1xis<\/em> \u2013 que, para ela e para Marx, \u00e9 a unidade dial\u00e9tica entre o objetivo e o subjetivo, a <em>media\u00e7\u00e3o<\/em> pela qual a classe <em>em si<\/em> torna-se <em>para si<\/em> \u2013 permite superar o dilema paralisante e metaf\u00edsico da social-democracia alem\u00e3, entre o moralismo abstrato de Bernstein e o economicismo mec\u00e2nico de Kautsky: enquanto, para o primeiro, a mudan\u00e7a \u201csubjetiva\u201d, moral e espiritual dos \u201chomens\u201d \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do advento da justi\u00e7a social, para o segundo \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica objetiva que leva \u201cfatalmente\u201d ao socialismo. Isso permite entender melhor por que Rosa Luxemburgo se opunha n\u00e3o s\u00f3 aos revisionistas neokantianos, mas tamb\u00e9m, a partir de 1905, \u00e0 estrat\u00e9gia de \u201catentismo\u201d passivo defendida pelo assim chamado \u201ccentro ortodoxo\u201d do partido.<\/p>\n<p>Essa mesma vis\u00e3o dial\u00e9tica da pr\u00e1xis \u00e9 que lhe permite superar o tradicional dualismo encarnado no Programa de Erfurt do Partido Social-Democrata Alem\u00e3o entre as reformas (ou o \u201cprograma m\u00ednimo\u201d) e a revolu\u00e7\u00e3o (ou o \u201cobjetivo final\u201d). Pela estrat\u00e9gia da greve de massas que ela prop\u00f5e em 1906 \u2013 contra a burocracia sindical \u2013 e em 1910 \u2013 contra Kautsky \u2013, Rosa Luxemburgo encontra precisamente o caminho capaz de transformar as lutas econ\u00f4micas ou o combate pelo sufr\u00e1gio universal num movimento revolucion\u00e1rio geral.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Lenin, que distingue a \u201cconsci\u00eancia sindical\u201d (trade-unionista) da \u201cconsci\u00eancia social-democrata\u201d, ela sugere uma distin\u00e7\u00e3o entre a consci\u00eancia <em>te\u00f3rica latente<\/em>, caracter\u00edstica do movimento oper\u00e1rio no per\u00edodo de domina\u00e7\u00e3o do parlamentarismo burgu\u00eas, e a consci\u00eancia <em>pr\u00e1tica e ativa<\/em>, que surge no processo revolucion\u00e1rio, quando as pr\u00f3prias massas, e n\u00e3o apenas os deputados e dirigentes do partido, aparecem na cena pol\u00edtica, cristalizando sua \u201ceduca\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica\u201d diretamente na <em>pr\u00e1xis<\/em>; \u00e9 gra\u00e7as a essa consci\u00eancia pr\u00e1tico-ativa que as camadas menos organizadas e mais atrasadas podem se tornar, em per\u00edodo de luta revolucion\u00e1ria, o elemento mais radical. Dessa premissa decorre sua cr\u00edtica \u00e0queles que baseiam sua estrat\u00e9gia pol\u00edtica numa superestima\u00e7\u00e3o do papel da organiza\u00e7\u00e3o na luta de classes \u2013 que se acompanha em geral da subestima\u00e7\u00e3o do proletariado n\u00e3o organizado \u2013, esquecendo a a\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da luta revolucion\u00e1ria: \u201cSeis meses de revolu\u00e7\u00e3o far\u00e3o mais para a educa\u00e7\u00e3o das massas atualmente n\u00e3o organizadas do que dez anos de reuni\u00f5es p\u00fablicas e distribui\u00e7\u00e3o de panfletos\u201d[8].<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Rosa Luxemburgo \u00e9 espontane\u00edsta? N\u00e3o \u00e9 bem assim. Nessa brochura sobre <em>Greve de massas, partido e sindicatos<\/em> (1906) [em <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/as-armas-da-critica\" target=\"_blank\"><em>As armas da cr\u00edtica<\/em><\/a>, Boitempo, 2012], ela insiste que o papel da \u201cvanguarda consciente\u201d n\u00e3o \u00e9 esperar \u201ccom fatalismo\u201d que o movimento popular espont\u00e2neo \u201ccaia do c\u00e9u\u201d. Ao contr\u00e1rio, seu papel \u00e9 precisamente \u201c<em>preceder<\/em> [<em>vorauseilen<\/em>] a evolu\u00e7\u00e3o das coisas e tentar <em>aceler\u00e1-la<\/em>\u201d. Ela reconhece que o partido socialista deve tomar \u201ca dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d da greve de massas, o que consiste em \u201cdar \u00e0 batalha sua palavra de ordem, sua tend\u00eancia, assim como a t\u00e1tica da luta pol\u00edtica\u201d; chega a afirmar que a organiza\u00e7\u00e3o socialista \u00e9 \u201ca vanguarda [<em>Vorhut<\/em>] dirigente de todo o povo trabalhador\u201d e que \u201ca clareza pol\u00edtica, a for\u00e7a, a unidade do movimento resultam precisamente dessa organiza\u00e7\u00e3o\u201d[9].<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar que a organiza\u00e7\u00e3o polonesa dirigida por Rosa Luxemburgo e Leo Jogiches, o Partido Social-Democrata do Reino da Pol\u00f4nia e Litu\u00e2nia (SDKPiL), clandestina e revolucion\u00e1ria, tinha mais semelhan\u00e7as com o partido bolchevique do que com a social-democracia alem\u00e3. Deve-se tamb\u00e9m levar em conta, na discuss\u00e3o das concep\u00e7\u00f5es organizacionais de Rosa Luxemburgo, suas teses sobre a Internacional como <em>partido mundial centralizado e disciplinado<\/em>, propostas num documento redigido em 1914, ap\u00f3s o colapso da Segunda Internacional. Por uma ironia da hist\u00f3ria, Karl Liebknecht, numa carta \u00e0 amiga Rosa Luxemburgo, tacha essa concep\u00e7\u00e3o da nova Internacional como \u201cdemasiadamente centralista e mec\u00e2nica\u201d, com \u201c\u2018disciplina\u2019 em excesso e muito pouca espontaneidade\u201d, considerando as massas \u201cdemasiados instrumentos da a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o portadoras de vontade; mais como instrumentos da a\u00e7\u00e3o desejados e decididos pela Internacional, e menos desejados e decididos por elas mesmas\u201d[10].<\/p>\n<p>O otimismo determinista (econ\u00f4mico) da teoria do <em>Zusammenbruch<\/em>, a derrocada do capitalismo como v\u00edtima de suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o desaparece de seus escritos, mas, ao contr\u00e1rio, encontra-se no centro de sua grande obra econ\u00f4mica <em>A acumula\u00e7\u00e3o do capital <\/em>[trecho em <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/as-armas-da-critica\" target=\"_blank\"><em>As armas da cr\u00edtica<\/em><\/a>, Boitempo, 2012], de 1911. O texto que vai superar essa vis\u00e3o tradicional do movimento socialista do come\u00e7o do s\u00e9culo \u00e9 a brochura <em>A crise da social-democracia<\/em>, escrita na pris\u00e3o em 1915, publicada na Su\u00ed\u00e7a em janeiro de 1916 e assinada com o pseud\u00f4nimo \u201cJunius\u201d. Esse documento, gra\u00e7as \u00e0 palavra de ordem \u201csocialismo ou barb\u00e1rie\u201d, \u00e9 um marco na hist\u00f3ria do pensamento marxista. Curiosamente, o argumento de Rosa Luxemburgo come\u00e7a referindo-se \u00e0s \u201cleis inalter\u00e1veis da hist\u00f3ria\u201d; ela observa que a a\u00e7\u00e3o do proletariado \u201ccontribui para determinar a hist\u00f3ria\u201d, mas parece acreditar que se trata apenas de \u201cacelerar ou retardar\u201d o processo hist\u00f3rico. At\u00e9 aqui, nada de novo!<\/p>\n<p>Logo em seguida, por\u00e9m, ela compara a vit\u00f3ria do proletariado a \u201cum salto da humanidade do reino animal para o reino da liberdade\u201d, acrescentando: esse salto n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel \u201cse a fa\u00edsca incendi\u00e1ria [<em>z\u00fcndende Funke<\/em>] da vontade consciente das massas n\u00e3o surgir das circunst\u00e2ncias materiais que s\u00e3o fruto do desenvolvimento anterior\u201d. Aqui aparece ent\u00e3o a famosa <em>Iskra<\/em>, essa centelha da vontade revolucion\u00e1ria que \u00e9 capaz de fazer explodir a p\u00f3lvora seca das condi\u00e7\u00f5es materiais. Mas o que produz essa <em>z\u00fcndende Funke<\/em>? \u00c9 gra\u00e7as a uma \u201cgrande cadeia de poderosas lutas\u201d que \u201co proletariado internacional far\u00e1 seu aprendizado sob a dire\u00e7\u00e3o da social-democracia e tentar\u00e1 tomar em suas m\u00e3os sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria [<em>seine Geschichte<\/em>]\u201d[11]. Em outras palavras:<em> \u00e9 na experi\u00eancia pr\u00e1tica da luta que se acende a centelha da consci\u00eancia revolucion\u00e1ria dos oprimidos e explorados<\/em>.<\/p>\n<p>Ao introduzir a express\u00e3o \u201csocialismo ou barb\u00e1rie\u201d, Junius refere-se \u00e0 autoridade de Engels num escrito de \u201cquarenta anos atr\u00e1s\u201d (o <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/anti-d%C3%BChring\" target=\"_blank\"><em>Anti-D\u00fchring<\/em><\/a>): \u201cFriedrich Engels disse certa vez: \u2018A sociedade burguesa acha-se num dilema: avan\u00e7o ao socialismo ou regress\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie\u2019\u201d[12]. Na verdade, o que disse Engels \u00e9 bastante diferente:<\/p>\n<p>As for\u00e7as produtivas engendradas pelo modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista moderno, assim como o sistema de reparti\u00e7\u00e3o dos bens que ele criou, entraram em contradi\u00e7\u00e3o flagrante com o modo de produ\u00e7\u00e3o mesmo, e isso a tal grau que se torna necess\u00e1ria uma mudan\u00e7a do modo de produ\u00e7\u00e3o e de reparti\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o quisermos ver toda a sociedade moderna perecer.[13]<\/p>\n<p>O argumento de Engels \u2013 essencialmente econ\u00f4mico e n\u00e3o pol\u00edtico, como o de Junius \u2013 \u00e9 bem mais ret\u00f3rico, uma esp\u00e9cie de demonstra\u00e7\u00e3o por absurdo da necessidade do socialismo, sen\u00e3o a sociedade moderna vai \u201cperecer\u201d \u2013 f\u00f3rmula vaga que n\u00e3o se sabe bem a que se refere. Na verdade, foi Rosa Luxemburgo quem <em>inventou<\/em>, no sentido pleno da palavra, a express\u00e3o \u201csocialismo ou barb\u00e1rie\u201d, que teria tanto impacto no curso do s\u00e9culo XX. Se se refere a Engels, \u00e9 talvez para tentar dar legitimidade maior a uma tese bastante heterodoxa. Evidentemente, foi a guerra \u2013 e o desmoronamento do movimento oper\u00e1rio internacional, em agosto de 1914 \u2013 que terminou abalando sua convic\u00e7\u00e3o na vit\u00f3ria inevit\u00e1vel do socialismo. Nos par\u00e1grafos seguintes, Junius desenvolve seu ponto de vista inovador:<\/p>\n<p>N\u00f3s nos encontramos hoje, tal como profetizou Engels h\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o, diante da terr\u00edvel op\u00e7\u00e3o: ou triunfa o imperialismo, provocando a destrui\u00e7\u00e3o de toda a cultura e, como na Roma Antiga, o despovoamento, a desola\u00e7\u00e3o, a degenera\u00e7\u00e3o, um imenso cemit\u00e9rio, ou triunfa o socialismo, ou seja, a luta consciente do proletariado internacional contra o imperialismo, seus m\u00e9todos, suas guerras. Tal \u00e9 o dilema da hist\u00f3ria universal, sua alternativa de ferro, sua balan\u00e7a oscilando no ponto de equil\u00edbrio, aguardando a decis\u00e3o do proletariado.<\/p>\n<p>Pode-se discutir o significado do conceito de \u201cbarb\u00e1rie\u201d: trata-se, sem d\u00favida, de uma barb\u00e1rie moderna, \u201ccivilizada\u201d, portanto a compara\u00e7\u00e3o com a Roma Antiga \u00e9 pouco \u00fatil e, nesse caso, a afirma\u00e7\u00e3o da brochura Junius revela-se prof\u00e9tica: o fascismo alem\u00e3o, manifesta\u00e7\u00e3o suprema da barb\u00e1rie moderna, resultou da derrota do socialismo. Contudo, o mais importante na f\u00f3rmula \u201csocialismo ou barb\u00e1rie\u201d \u00e9 a palavra \u201cou\u201d: trata-se do princ\u00edpio de uma <em>hist\u00f3ria aberta, de uma alternativa ainda n\u00e3o decidida<\/em> (pelas \u201cleis da hist\u00f3ria\u201d ou da economia), que depende, em \u00faltima an\u00e1lise, de fatores \u201csubjetivos\u201d: a consci\u00eancia, a decis\u00e3o, a vontade, a iniciativa, a a\u00e7\u00e3o, a pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria. N\u00e3o insisto mais porque escrevi j\u00e1 h\u00e1 muitos anos um artigo sobre essa quest\u00e3o[14]. Como aponta Isabel Loureiro em seu belo livro, \u00e9 verdade que mesmo na brochura Junius, assim como em textos posteriores de Rosa Luxemburgo, ainda encontramos refer\u00eancias ao colapso inevit\u00e1vel do capitalismo, \u00e0 \u201cdial\u00e9tica da hist\u00f3ria\u201d e \u00e0 \u201cnecessidade hist\u00f3rica do socialismo\u201d[15]. Mas de alguma maneira, com a f\u00f3rmula \u201csocialismo ou barb\u00e1rie\u201d, colocavam-se as bases de uma outra concep\u00e7\u00e3o da \u201cdial\u00e9tica da hist\u00f3ria\u201d, distinta do determinismo econ\u00f4mico e da ideologia iluminista do progresso inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Voltamos a encontrar a filosofia da pr\u00e1xis no centro da pol\u00eamica de 1918 sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Russa \u2013 outro texto capital redigido atr\u00e1s das grades da pris\u00e3o. O teor desse documento \u00e9 conhecido: de um lado, o apoio aos bolcheviques, que, com Lenin e Trotsky \u00e0 frente, salvaram a honra do socialismo internacional, ousando a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro; de outro, um conjunto de cr\u00edticas, algumas bastante discut\u00edveis, como as quest\u00f5es agr\u00e1ria e nacional, e outras, como o cap\u00edtulo da democracia, que aparecem como prof\u00e9ticas. O que preocupa a revolucion\u00e1ria judeu-polaco-alem\u00e3 \u00e9, acima de tudo, a supress\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas pelos bolcheviques: liberdade de imprensa, de associa\u00e7\u00e3o e de reuni\u00e3o, que s\u00e3o precisamente a garantia da \u201catividade pol\u00edtica das massas oper\u00e1rias\u201d; sem elas, \u201c\u00e9 inconceb\u00edvel a domina\u00e7\u00e3o das grandes massas populares\u201d. As tarefas gigantescas da transi\u00e7\u00e3o ao socialismo \u2013 \u201c\u00e0s quais os bolcheviques se apegaram com coragem e resolu\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 n\u00e3o podem ser realizadas sem \u201cuma intensa educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das massas e uma acumula\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias\u201d, imposs\u00edveis sem liberdades democr\u00e1ticas. A constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade \u00e9 uma \u201cterra virgem\u201d, que levanta \u201cproblemas para mil\u00eanios\u201d; ora, \u201cs\u00f3 a experi\u00eancia \u00e9 capaz de trazer as corre\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias e abrir novos caminhos\u201d. O socialismo \u00e9 um produto hist\u00f3rico \u201cnascido da pr\u00f3pria escola da experi\u00eancia\u201d: o conjunto das massas populares (<em>Volksmassen<\/em>) deve participar dessa experi\u00eancia, de outro modo \u201co socialismo \u00e9 decretado, outorgado, por uma dezena de intelectuais reunidos em torno de um pano verde\u201d. Para os inevit\u00e1veis erros do processo, \u201co \u00fanico sol curativo e purificador \u00e9 a pr\u00f3pria revolu\u00e7\u00e3o e seu princ\u00edpio renovador, a vida espiritual, a atividade e a autorresponsabilidade [<em>Selbstverantwortung<\/em>] das massas que surgem com ela e formam-se na mais ampla liberdade pol\u00edtica\u201d[16].<\/p>\n<p>Esse argumento \u00e9 muito mais importante do que o debate sobre a Assembleia Constituinte, no qual se concentraram as obje\u00e7\u00f5es \u201cleninistas\u201d ao texto de 1918. Sem liberdades democr\u00e1ticas \u00e9 imposs\u00edvel a pr\u00e1xis revolucion\u00e1ria das massas, a autoeduca\u00e7\u00e3o popular pela experi\u00eancia pr\u00e1tica, a autoemancipa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria dos oprimidos e o pr\u00f3prio exerc\u00edcio do poder pela classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Georg Luk\u00e1cs, em seu importante ensaio \u201cRosa Luxemburgo marxista\u201d, de janeiro de 1921, mostra com grande agudeza como, gra\u00e7as \u00e0 unidade da teoria e da pr\u00e1xis (formulada \u201cpor Marx em suas <em>Teses<\/em><em> sobre Feuerbach<\/em>\u201d), Rosa Luxemburgo conseguiu superar o dilema da impot\u00eancia dos movimentos social-democratas, \u201co dilema do fatalismo das leis puras e da \u00e9tica das puras inten\u00e7\u00f5es\u201d. O que significa essa unidade dial\u00e9tica?<\/p>\n<p>Da mesma forma que o proletariado como classe n\u00e3o pode conquistar e guardar sua consci\u00eancia de classe, elevar-se ao n\u00edvel de sua tarefa hist\u00f3rica (objetivamente dada) sen\u00e3o no combate e na a\u00e7\u00e3o, o partido e o militante individual n\u00e3o podem apropriar-se realmente de sua teoria sen\u00e3o ao passar essa unidade em sua pr\u00e1xis.[17]<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 surpreendente que, apenas um ano mais tarde, em janeiro de 1922, Luk\u00e1cs redija o ensaio \u201cComent\u00e1rios cr\u00edticos sobre a cr\u00edtica da Revolu\u00e7\u00e3o Russa em Rosa Luxemburgo\u201d, que tamb\u00e9m vai figurar em <em>Historia e consci\u00eancia de classe<\/em> e em que ele rejeita em bloco o conjunto dos coment\u00e1rios dissidentes da fundadora da Liga Esp\u00e1rtaco, afirmando, ainda por cima, que ela \u201cse representa a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria nas formas estruturais das revolu\u00e7\u00f5es burguesas\u201d[18] \u2013 uma acusa\u00e7\u00e3o pouco cr\u00edvel, como mostra Isabel Loureiro[19]. Como explicar a diferen\u00e7a, no tom e no conte\u00fado, entre o ensaio de janeiro de 1921 e o de janeiro de 1922? Uma convers\u00e3o r\u00e1pida ao leninismo ortodoxo? Possivelmente, mas tamb\u00e9m entra em jogo a posi\u00e7\u00e3o de Luk\u00e1cs em rela\u00e7\u00e3o aos debates do comunismo alem\u00e3o. Paul Levi, principal dirigente do Partido Comunista Alem\u00e3o, havia se oposto \u00e0 \u201cA\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o de 1921\u201d, uma tentativa fracassada de levante comunista na Alemanha, que teve o apoio entusiasmado de Luk\u00e1cs, mas foi criticada por Lenin. Exclu\u00eddo do partido, Paul Levi decide publicar em 1922 o manuscrito sobre a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, que Rosa Luxemburgo havia lhe confiado em 1918. A pol\u00eamica de Luk\u00e1cs com respeito a esse documento \u00e9 tamb\u00e9m, indiretamente, um acerto de contas com Paul Levi.<\/p>\n<p>Na verdade, o cap\u00edtulo sobre democracia desse folheto de Rosa Luxemburgo \u00e9 um dos textos mais importantes do marxismo, do comunismo, da teoria cr\u00edtica e do pensamento revolucion\u00e1rio no s\u00e9culo XX. E dif\u00edcil imaginar uma refunda\u00e7\u00e3o do socialismo no s\u00e9culo XXI que n\u00e3o leve em conta os argumentos desenvolvidos nessas p\u00e1ginas febris. Os representantes mais inteligentes do leninismo e do trotskismo, como Ernest Mandel, reconheciam que essa cr\u00edtica de 1918 ao bolchevismo, no que concerne \u00e0 quest\u00e3o das liberdades democr\u00e1ticas, era, em \u00faltima an\u00e1lise, justificada. \u00c9 \u00f3bvio que a democracia \u00e0 que se refere Rosa Luxemburgo \u00e9 a exercida pelos trabalhadores num processo revolucion\u00e1rio, e n\u00e3o a \u201cdemocracia de baixa intensidade\u201d do parlamentarismo burgu\u00eas, na qual as decis\u00f5es importantes s\u00e3o tomadas por banqueiros, empres\u00e1rios, militares e tecnocratas.<\/p>\n<p>A <em>z\u00fcndende Funke<\/em>, a centelha incendi\u00e1ria de Rosa Luxemburgo, brilhou uma \u00faltima vez em dezembro de 1918, na confer\u00eancia diante do congresso de funda\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Alem\u00e3o (Liga Esp\u00e1rtaco). Ainda encontramos nesse texto refer\u00eancias \u00e0 \u201clei do desenvolvimento objetivo e necess\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o socialista\u201d, mas trata-se, na realidade, da \u201camarga experi\u00eancia\u201d que v\u00e1rias for\u00e7as do movimento oper\u00e1rio t\u00eam de fazer antes de encontrar o caminho revolucion\u00e1rio. As \u00faltimas palavras dessa memor\u00e1vel confer\u00eancia s\u00e3o diretamente inspiradas pela perspectiva da pr\u00e1xis autoemancipadora dos oprimidos:<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00f3 exercendo o poder que a massa aprende a exercer o poder. N\u00e3o h\u00e1 outra maneira de ensinar-lhe. N\u00f3s j\u00e1 superamos, felizmente, o tempo em que se pretendia ensinar o socialismo ao proletariado. Aparentemente esse tempo ainda n\u00e3o passou para os marxistas da escola de Kautsky. Educar as massas queria dizer: fazer-lhes discursos, difundir panfletos e brochuras. N\u00e3o, a escola socialista dos prolet\u00e1rios n\u00e3o necessita de nada disso. Sua educa\u00e7\u00e3o se faz quando eles passam \u00e0 a\u00e7\u00e3o [<em>zur Tat greifen<\/em>].<\/p>\n<p>Aqui Rosa Luxemburgo vai se referir a uma famosa frase de Goethe: <em>Am Anfang war die Tat<\/em>! No come\u00e7o de tudo n\u00e3o se encontra o Verbo, mas a A\u00e7\u00e3o! Nas palavras da revolucion\u00e1ria marxista: \u201cNo come\u00e7o era a A\u00e7\u00e3o, tal \u00e9 aqui nossa divisa; e a a\u00e7\u00e3o \u00e9 quando os conselhos de oper\u00e1rios e de soldados se sentem chamados a tornar-se a \u00fanica for\u00e7a p\u00fablica do pa\u00eds e aprendem a s\u00ea-lo\u201d[20]. Poucos dias depois, ela seria assassinada pelos paramilitares (<em>Freikorps<\/em>) mobilizados pelo governo social-democrata contra o levante dos oper\u00e1rios espartaquistas de Berlim.<\/p>\n<p>Rosa Luxemburgo n\u00e3o era infal\u00edvel, cometeu erros como qualquer ser humano e qualquer militante, e suas ideias n\u00e3o constituem um sistema te\u00f3rico fechado, uma doutrina dogm\u00e1tica para ser aplicada em qualquer lugar e em qualquer \u00e9poca. Mas, sem d\u00favida, seu pensamento \u00e9 uma caixa de ferramentas preciosa para tentar desmontar a m\u00e1quina capitalista que nos tritura. N\u00e3o \u00e9 por acaso que ela se tornou nos \u00faltimos anos, em particular na Am\u00e9rica Latina, uma das refer\u00eancias mais importantes do debate acerca de um socialismo do s\u00e9culo XXI, capaz de superar os impasses das experi\u00eancias reivindicando o socialismo do s\u00e9culo passado, seja a social-democracia, seja o stalinismo. Sua oposi\u00e7\u00e3o irreconcili\u00e1vel ao capitalismo e ao imperialismo, sua concep\u00e7\u00e3o de um socialismo revolucion\u00e1rio e ao mesmo tempo democr\u00e1tico, baseado na pr\u00e1xis autoemancipadora dos trabalhadores, na autoeduca\u00e7\u00e3o pela experi\u00eancia e pela a\u00e7\u00e3o das grandes massas populares, \u00e9 de uma impressionante atualidade, sobretudo aqui, no Brasil e na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Dizem os jornais que recentemente, noventa anos ap\u00f3s sua morte, seu corpo teria sido encontrado. Haver\u00e1 um novo enterro de Rosa Luxemburgo? Por mais que a enterrem uma e outra vez, n\u00e3o conseguir\u00e3o libertar-se de seu espectro. A centelha incendi\u00e1ria de suas ideias ningu\u00e9m conseguir\u00e1 apagar.<\/p>\n<p><em>* Artigo originalmente publicado no n\u00famero 15 da revista semestral <\/em><strong>Margem Esquerda \u2013 Ensaios Marxistas<\/strong><em> da Boitempo, com o t\u00edtulo, \u201cA centelha se acende na a\u00e7\u00e3o: a filosofia da pr\u00e1xis no pensamento de Rosa Luxemburgo\u201d, e recuperado aqui, no <\/em>Blog da Boitempo<em>, no contexto do especial \u201cDia da mulher, dia da luta feminista\u201d, no anivers\u00e1rio de 144 anos de nascimento da revolucion\u00e1ria e te\u00f3rica marxista.<\/em><\/p>\n<p><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>[1]<\/strong> Rosa Luxemburgo, <em>Briefe <\/em>(Berlim, Verlag der Jugend-Internationale, 1927).<br \/>\n<strong>[2]<\/strong> Essa tese est\u00e1 dispon\u00edvel no Brasil com o t\u00edtulo <em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/a-teoria-da-revolucao-no-jovem-marx\" target=\"_blank\">A teoria da revolu\u00e7\u00e3o do jovem Marx<\/a><\/em> (Boitempo, 2013).<br \/>\n<strong>[3]<\/strong> Karl Marx e Friedrich Engels, <em>L\u2019id\u00e9ologie allemande<\/em> (Paris, \u00c9ditions Sociales, 1968), VI, p. 243. [Ed. bras.: <a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/a-ideologia-alema\" target=\"_blank\"><em>A ideologia alem\u00e3<\/em><\/a>, S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2007.]<br \/>\n<strong>[4]<\/strong> Isabel Loureiro, <em>Rosa Luxemburgo: os dilemas da a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria <\/em>(S\u00e3o Paulo, Unesp, 1995), p. 23.<br \/>\n<strong>[5]<\/strong> Rosa Luxemburgo, <em>Reforma ou revolu\u00e7\u00e3o?<\/em> (S\u00e3o Paulo, Express\u00e3o Popular, 1999), p. 24, 41 e 105. Cito a tradu\u00e7\u00e3o brasileira, de L\u00edvio Xavier, bela figura de militante e intelectual que ainda cheguei a conhecer.<br \/>\n<strong>[6]<\/strong> Idem, \u201cOrganisationsfragen der russischen Sozialdemokratie\u201d (1904), em <em>Die Russische Revolution<\/em> (Frankfurt, Europ\u00e4ische Verlagsanstalt, 1963), p. 27-8, 42 e 44. [Ed. bras.: <em>A Revolu\u00e7\u00e3o Russa<\/em>, Petr\u00f3polis, Vozes, 1991.]<br \/>\n<strong>[7]<\/strong> Idem, \u201cMassenstreik, Partei und Gewerkschaften\u201d, em <em>Gewerkschaftskampf und Massenstreik<\/em> (Berlim, Vereinigung Internationaler Verlagsanstalten, 1928, p. 426-7) [ed. bras.: <em>Greve de massas, partido e sindicatos, <\/em>S\u00e3o Paulo, Kayros, 1979]. Trata-se de uma colet\u00e2nea de ensaios de Rosa Luxemburgo sobre a greve de massas, organizada por seu excelente disc\u00edpulo e bi\u00f3grafo Paul Fr\u00f6lich, exclu\u00eddo nos anos 20 do Partido Comunista. Consegui esse livro num sebo em Tel-Aviv; o exemplar tinha o carimbo do Kibutz Ein Harod, \u201cSemin\u00e1rio de Ideias, Biblioteca Central\u201d. O propriet\u00e1rio do livro era, sem d\u00favida, um esquerdista judeu-alem\u00e3o que emigrou para a Palestina em 1933 e entregou sua biblioteca ao kibutz onde se instalou. Com a morte dos velhos militantes do kibutz, e como a nova gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o l\u00ea alem\u00e3o, a biblioteca vendeu ao sebo seu estoque de livros na l\u00edngua de Marx.<br \/>\n<strong>[8]<\/strong> Ibidem, p. 455-7.<br \/>\n<strong>[9]<\/strong> Ibidem, p. 445 e 457.<br \/>\n<strong>[10]<\/strong> Ver Karl Liebknecht, \u201c\u00c0 Rosa Luxemburg: remarques \u00e0 propos de son projet de th\u00e8ses pour le groupe \u2018Internationale\u2019\u201d, Partisans, n. 45, jan. 1969, p. 113.<br \/>\n<strong>[11]<\/strong> Rosa Luxemburgo, <em>Brochura Junius<\/em>, em <em>Rosa, a vermelha<\/em> (2. ed., S\u00e3o Paulo, Busca Vida, 1988), p. 114-5, corrigido pelo original alem\u00e3o <em>Die Krise der Sozialdemokratie von Junius<\/em> (Bern, Unionsdruckerei, 1916), p. 11. Essa c\u00f3pia da edi\u00e7\u00e3o original pertenceu a meu professor e orientador Lucien Goldmann; recebi-a recentemente de sua vi\u00fava, Annie Goldmann.<br \/>\n<strong>[12]<\/strong> Ibidem, p. 115.<br \/>\n<strong>[13]<\/strong> Friedrich Engels, <em><a href=\"http:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/v3\/Titulos\/visualizar\/anti-d%C3%BChring\" target=\"_blank\">Anti-D\u00fchring<\/a> <\/em>(Boitempo, 2015).<br \/>\n<strong>[14]<\/strong> Michael L\u00f6wy, \u201cO significado metodol\u00f3gico da f\u00f3rmula \u2018socialismo ou barb\u00e1rie\u2019\u201d, em <em>M\u00e9todo dial\u00e9tico e teoria pol\u00edtica<\/em> (3. ed., S\u00e3o Paulo, Paz e Terra, 1985).<br \/>\n<strong>[15]<\/strong> Isabel Loureiro, <em>Rosa Luxemburg<\/em>, cit., p. 123.<br \/>\n<strong>[16]<\/strong> Rosa Luxemburgo, \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o Russa\u201d, em <em>Rosa, a vermelha<\/em>, cit., p. 217-22, corrigido pelo original alem\u00e3o, <em>Die Russische Revolution<\/em>, cit., p. 73-6.<br \/>\n<strong>[17]<\/strong> Georg Luk\u00e1cs, \u201cRosa Luxemburg, marxiste\u201d, em <em>Histoire et conscience de classe<\/em> (Paris, Minuit, 1960), p. 65. [Ed. bras.: <em>Hist\u00f3ria e consci\u00eancia de classe<\/em>, S\u00e3o Paulo, Martins Fontes, 2003.]<br \/>\n<strong>[18]<\/strong> Ibidem, p. 321.<br \/>\n<strong>[19]<\/strong> Isabel Loureiro, <em>Rosa Luxemburg<\/em>, cit., p. 85-8.<br \/>\n<strong>[20]<\/strong> Rosa Luxemburgo, \u201cRede zum Programm der KPD (Spartakusbund)\u201d, em <em>Ausgew\u00e4hlten Reden<\/em><em> und Schriften <\/em>(Berlim, Dietz Verlag, 1953), Band II, p. 687. A edi\u00e7\u00e3o que estou utilizando aqui tem uma hist\u00f3ria curiosa: trata-se de uma colet\u00e2nea de ensaios de Rosa Luxemburgo editada pelo \u201cMarx-Engels-Lenin-Stalin Institut beim ZK der SED\u201d, com pref\u00e1cio de Wilhelm Pieck, dirigente stalinista da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica Alem\u00e3, e introdu\u00e7\u00f5es de Lenin e Stalin, com cr\u00edticas aos \u201cerros\u201d da autora. Comprei esse exemplar num sebo e descobri que trazia uma dedicat\u00f3ria em ingl\u00eas, datada de 1957, assinada por \u201cTamara e Isaac\u201d \u2013 sem d\u00favida, Tamara e Isaac Deutscher \u2013, em que pediam desculpas por n\u00e3o terem encontrado uma edi\u00e7\u00e3o sem todas essas sup\u00e9rfluas \u201cintrodu\u00e7\u00f5es\u201d!<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2015\/03\/05\/michael-lowy-o-pensamento-de-rosa-luxemburgo-2\/\" target=\"_blank\">Blog da Boitempo<\/a><\/p>\n<p>https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/opiniom\/item\/121190-o-pensamento-de-rosa-luxemburgo.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Artigo publicado originalmente na revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda, com o t\u00edtulo, &#8220;A centelha se acende na a\u00e7\u00e3o: a filosofia da \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13237\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-13237","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3rv","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13237","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13237"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13237\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13237"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13237"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13237"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}