{"id":1330,"date":"2011-03-27T17:09:27","date_gmt":"2011-03-27T17:09:27","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1330"},"modified":"2011-03-27T17:09:27","modified_gmt":"2011-03-27T17:09:27","slug":"o-lento-despertar-do-povo-marroquino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1330","title":{"rendered":"O LENTO DESPERTAR DO POVO MARROQUINO"},"content":{"rendered":"\n<p>A vaga de contesta\u00e7\u00e3o que fustiga o mundo \u00e1rabe chegou tarde a Marrocos.<\/p>\n<p>Foi somente a 20 Fevereiro que ali ocorreram as primeiras manifesta\u00e7\u00f5es de protesto contra o regime. Anunciadas com anteced\u00eancia, nelas participaram em Casablanca e Rabat umas 8 000 pessoas. A pol\u00edcia dissolveu-as com brutalidade.<\/p>\n<p>Os organizadores, intelectuais e sindicalistas, esclareceram na convocat\u00f3ria que a iniciativa era pacifica e n\u00e3o visava o derrubamento do regime. \u00abMenos poder para a monarquia\u00bb e \u00abo rei deve reinar e n\u00e3o governar\u00bb foram as t\u00edmidas palavras de ordem mais ouvidas.<\/p>\n<p>Transcorridas duas semanas, a 9 de Mar\u00e7o, o rei Mohamed VI pronunciou um discurso que foi saudado com entusiasmo pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Alguns jornais qualificaram a fala do monarca de \u00abrevolucion\u00e1ria\u00bb, base da \u00abnova monarquia\u00bb.<\/p>\n<p>Analistas ditos liberais viram no discurso um verdadeiro programa que fixava \u00abo rumo para a democracia\u00bb.<\/p>\n<p>Que disse ou prometeu, afinal, o jovem monarca para justificar tamanha euforia?<\/p>\n<p>Muito pouco, quase nada.<\/p>\n<p>Criou uma Comissao Consultiva para a Regionaliza\u00e7\u00e3o e incumbiu-a de elaborar uma revis\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o. Fez o elogio da sua obra governativa, mas esclareceu que, atento \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es do povo, se prop\u00f5e a encaminhar o regime para uma democracia parlamentar, delegando oportunamente poderes num primeiro-ministro. O presidente da Comiss\u00e3o, em confer\u00eancia de imprensa, informou que vai propor tr\u00eas emendas \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o: a revoga\u00e7\u00e3o da tutela dos governadores sobre os conselhos regionais, a atribui\u00e7\u00e3o de poderes legislativos aos presidentes das Regi\u00f5es e medidas em beneficio das mulheres.<\/p>\n<p>Os elogios ao rei, nos jornais, na TV e na R\u00e1dio, prosseguiram. Mas, transcorridos uns dias, os <em>media <\/em>deram voz \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o legal e houve quem definisse o regime como uma ditadura anacr\u00f3nica.<\/p>\n<p>Uma institui\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria promoveu em Casablanca uma mesa redonda sobre o tema \u00abA efervesc\u00eancia no Mahgreb: l\u00f3gicas e perspectivas geopol\u00edticas\u00bb. Os participantes assumiram posi\u00e7\u00f5es diferentes no tocante a uma quest\u00e3o colocada: ser\u00e1 Marrocos uma excep\u00e7\u00e3o no mundo \u00e1rabe?<\/p>\n<p>A maioria dos acad\u00e9micos optou pela ambiguidade nas respostas. El Houssain, professor de Rela\u00e7\u00f5es internacionais, recusa a tese da excepcionalidade, afirmando temer os efeitos crise econ\u00f3mica e um aumento do desemprego, declarou preferir o termo \u00abrevolu\u00e7\u00e3o\u00bb a \u00abefervesc\u00eancia\u00bb para caracterizar os acontecimentos.<\/p>\n<p>Brahim Fihri, presidente do Instituto Amadeus, declarou com pompa que Marrocos est\u00e1 a viver \u00aba revolu\u00e7\u00e3o do rei e do povo\u00bb, orientada para \u00abum novo contrato social\u00bb sem cor ideol\u00f3gica. Para ele o perigo vem exclusivamente do movimento islamita Al Adl Wal Ibsade, que estaria preparando uma \u00abemboscada\u00bb ao rei, porque \u00abo nacionalismo \u00e1rabe \u00e9 perverso\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve uma interven\u00e7\u00e3o de car\u00e1cter progressista durante essa mesa redonda.<\/p>\n<p>Pela linguagem e estilo o discurso pol\u00edtico em Marrocos das personalidades que ali falam de \u00abrevolu\u00e7\u00e3o\u00bb lembra o dos dirigentes do PS e do PSD quando reflectem sobre a crise portuguesa. Para eles a solu\u00e7\u00e3o para os problemas nacionais ser\u00e1 uma redistribui\u00e7\u00e3o equilibrada da riqueza nacional e a cria\u00e7\u00e3o de \u00abfundos contra pobreza\u00bb \u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o explicam obviamente o que fazer para redistribuir a riqueza numa sociedade com uma estrutura de classes semi feudal, marcada por desigualdades afrontosas da condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>No dia 13 de Mar\u00e7o a Policia dispersou em Casablanca uma manifesta\u00e7\u00e3o de centenas de pessoas. Houve numerosos feridos. O di\u00e1rio de l\u00edngua francesa \u00abLes Echos\u00bb dedicou ao assunto 16 linhas, acompanhadas de uma fotografia, sublinhando que a maioria dos participantes eram islamistas da Al Adl Wal Ibsade.<\/p>\n<p>Comerciantes com quem falei desvalorizaram o protesto. Mas para o dia 20 o Movimento Mudan\u00e7a 20 de Fevereiro \u2013 assim se intitula- convocou novas manifesta\u00e7\u00f5es. Segundo as ag\u00eancias noticiosas, dezenas de milhares de pessoas sa\u00edram \u00e0s ruas em 20 cidades. A pol\u00edcia n\u00e3o interveio desta vez e o n\u00famero de incidentes ter\u00e1 sido m\u00ednimo.<\/p>\n<p>As palavras de ordem eram novamente brandas. A maioria pedia ao rei que afaste os ministros envolvidos em negociatas. Alguns manifestantes exibiam cart\u00f5es amarelos (n\u00e3o vermelhos) numa advert\u00eancia ao monarca.<\/p>\n<p>A CRITICA DO DESPOTISMO<\/p>\n<p>Das muitas criticas ao regime que li nos jornais durante a minha perman\u00eancia em Marrakech, a mais dura foi a de Fouad Abdelmouni, um activista dos direitos humanos que, nos anos 80, passou anos na pris\u00e3o por preconizar a proclama\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Sem mastigar as palavras, afirmou numa entrevista que Marrocos est\u00e1 submetido a um regime de absolutismo mon\u00e1rquico, exercido na continuidade de uma teocracia califal.<\/p>\n<p>Numa critica frontal aos pol\u00edticos que defendem uma transi\u00e7\u00e3o na qual o rei, como pr\u00edncipe dos crentes, mantenha um controle firme do Estado como \u00e1rbitro, Abdelmouni, mostrou-se c\u00e9ptico. Recordou que Mohamed VI, quando sucedeu ao pai, anunciou no discurso do trono a cria\u00e7\u00e3o de um Estado moderno, democr\u00e1tico. Mas n\u00e3o cumpriu a promessa e governou como d\u00e9spota.<\/p>\n<p>Abdelmouni reivindica n\u00e3o a altera\u00e7\u00e3o de artigos da Constitui\u00e7\u00e3o vigente, mas a convoca\u00e7\u00e3o de uma Constituinte.<\/p>\n<p>Poderia concluir-se que este intelectual \u00e9 um revolucion\u00e1rio que sugere solu\u00e7\u00f5es radicais.<\/p>\n<p>Mas o seu projecto \u00e9 o de um reformismo in\u00f3cuo. Na sua opini\u00e3o, \u00aba monarquia parlamentar \u00e9 o \u00fanico projecto v\u00e1lido hoje\u00bb. Abdelmouni identifica-se com a posi\u00e7\u00e3o moderada do Movimento 20 de Fevereiro e de todos aqueles que contestam o absolutismo mon\u00e1rquico, \u00abdos islamistas aos comunistas\u00bb.<\/p>\n<p>Para se entender o que isso significa, cabe esclarecer que o antigo Partido Comunista Marroquino mudou de nome e programa duas vezes. Legalizado, renunciou ao marxismo. \u00c9 uma caricatura do partido revolucion\u00e1rio de Ben Barka, assassinado a mando do rei Hassan II com a cumplicidade do governo franc\u00eas. Encontrei dirigentes seus em Kabul numa Confer\u00eancia Internacional. Apoiavam a anexa\u00e7\u00e3o do Sahara Ocidental e elogiavam Mario Soares \u2026<\/p>\n<p>ABDELLATIF LA\u00c2BI E A HORA DA VERDADE<\/p>\n<p>Os intelectuais marroquinos que apoiam o Movimento 20 de Fevereiro afirmam desejar uma mudan\u00e7a profunda. Mas, com poucas excep\u00e7\u00f5es, o seu discurso \u00e9 enganador. Na realidade ambicionam apenas mudan\u00e7as que imponham uma fachada democr\u00e1tica ao regime mantendo quase intactas as econ\u00f3micas de uma sociedade que tem evolu\u00eddo no quadro de um capitalismo dependente e anacr\u00f3nico.<\/p>\n<p>Tal atitude aparece com clareza na posi\u00e7\u00e3o assumida por Abdellatif La\u00e2bi, um dos mais talentosos escritores do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Esse romancista franc\u00f3fono, galardoado com o Premio Goncourt, sa\u00fada a aspira\u00e7\u00e3o do povo \u00e0 liberdade, \u00e0 dignidade e \u00e0 justi\u00e7a social, condena a minoria de privilegiados que acumulou imensas riquezas, fustiga a sua arrog\u00e2ncia e manifesta solidariedade com os jovens e a massa dos exclu\u00eddos e explorados que vegeta na mis\u00e9ria. L\u00e2abi rejeita a tese da \u00abexcep\u00e7\u00e3o marroquina\u00bb defendida pelo rei e pelos seus ep\u00edgonos porque \u2013 sublinha &#8211; a democracia exige soberania popular.<\/p>\n<p>Mas, simultaneamente, elogia a lucidez do monarca e o seu esp\u00edrito reformista para concluir que \u00aba hora da verdade\u00bb soou em Marrocos e que a \u00fanica op\u00e7\u00e3o positiva ser\u00e1 \u00aba instala\u00e7\u00e3o da democracia sobre bases irrevers\u00edveis\u00bb.<\/p>\n<p>Que bases? Ele explica: \u00aba chave da mudan\u00e7a permanece, sejamos claros, nas m\u00e3os da monarquia\u00bb. Porque o rei \u00ab\u00e9 o arbitro, o garante da unidade nacional, da seguran\u00e7a do pais e dos cidad\u00e3os, das liberdades individuais e colectivas, e do pluralismo cultural e politico\u00bb. Somente assim, acredita, decretada uma amnistia geral e abolida a pena de morte, Marrocos poder\u00e1, seguir \u00abo exemplo de outros povos \u00e1rabes que tomaram o seu destino nas m\u00e3os e entraram na Hist\u00f3ria pela porta grande\u00bb.<\/p>\n<p>Abst\u00e9m-se de formular a mais leve critica \u00e0 pol\u00edtica de intima alian\u00e7a com os EUA que assume os contornos de vassalagem.<\/p>\n<p>O conceito de democracia de Abdellatif n\u00e3o \u00e9, registo, muito diferente do perfilhado por M\u00e1rio Soares, um politico profundamente conservador, mascarado de socialista.<\/p>\n<p>O respeito quase reverencial pela monarquia n\u00e3o \u00e9 identific\u00e1vel somente nos intelectuais. \u00c9 um sentimento compartilhado pela maioria da popula\u00e7\u00e3o, sobretudo nos meios rurais.<\/p>\n<p>Enquanto na Jord\u00e2nia, no Kuwait, no Bahrein, nos Emirados, na Ar\u00e1bia Saudita as manifesta\u00e7\u00f5es de protesto contra regimes autocr\u00e1ticos atinge directamente os descendentes desprestigiados de chefes tribais que a Inglaterra colocou no poder em estados artificiais, transformando-os em reis ou emires, isso n\u00e3o ocorre em Marrocos. A oposi\u00e7\u00e3o, limita-se a pedir a Mohamed VI que reforme um regime tir\u00e2nico, teocr\u00e1tico, \u00abque reine sem governar\u00bb, como sugerem os mais audazes.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 o monarca revelado a envergadura de um grande estadista? N\u00e3o. \u00c9 um jovem de intelig\u00eancia mediana, que assumiu o poder por direito heredit\u00e1rio. O pai, Hassan II, foi um d\u00e9spota que governou como os sult\u00f5es medievais.<\/p>\n<p>Os Alaouitas, diferentemente das dinastias anteriores, berberes, orgulham-se das suas origens \u00e1rabes. Mohamed VI, como o pai e o av\u00f4, afirma descender do Profeta Maom\u00e9 e, tal como o franc\u00eas Luis XIV e o prussiano Frederico II, proclama exercer o poder por direito divino.<\/p>\n<p>A monarquia marroquina \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XXI. Somente sobrevive pela aliena\u00e7\u00e3o das massas num pa\u00eds onde persistem estruturas sociais semi feudais.<\/p>\n<p>A tese da \u00abexcep\u00e7\u00e3o marroquina\u00bb, segundo a qual Marrocos n\u00e3o ser\u00e1 atingido pela grande vaga de contesta\u00e7\u00e3o popular que varre o mundo \u00e1rabe, \u00e9, por\u00e9m, um slogan que deforma a realidade, inventado pela classe dominante.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es de 20 de Fevereiro, repetidas em Mar\u00e7o, apesar de t\u00edmidas, assinalam o in\u00edcio de um processo de contesta\u00e7\u00e3o ao poder desp\u00f3tico que certamente vai prosseguir. O seu rumo e as formas que assumir\u00e1 a luta n\u00e3o s\u00e3o por ora previs\u00edveis, sobretudo pela aus\u00eancia de um partido revolucion\u00e1rio com implanta\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Mas o despertar do povo de Marrocos \u00e9 uma inevitabilidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia, 25 de Mar\u00e7o de 2011<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nMiguel Urbano Rodrigues\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1330\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[],"class_list":["post-1330","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-ls","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1330","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1330"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1330\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}