{"id":1331,"date":"2011-03-27T17:15:31","date_gmt":"2011-03-27T17:15:31","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1331"},"modified":"2011-03-27T17:15:31","modified_gmt":"2011-03-27T17:15:31","slug":"os-tempos-modernos-de-chaplin-trabalho-e-alienacao-na-revolucao-industrial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1331","title":{"rendered":"OS TEMPOS MODERNOS DE CHAPLIN: TRABALHO E ALIENA\u00c7\u00c3O NA REVOLU\u00c7\u00c3O INDUSTRIAL"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cN\u00e3o sois m\u00e1quina! Homens \u00e9 que sois!\u201d<\/p>\n<p>(Discurso de Charles Chaplin no final do filme \u201cO grande ditador\u201d)<\/p>\n<p>A origem da palavra trabalho tem sido comumente atribu\u00edda ao latim <em>tripalium<\/em>, instrumento de tortura utilizado para empalar prisioneiros de guerra e escravos fug\u00eddios. Assim, em sua pr\u00f3pria terminologia o trabalho carrega uma carga de esfor\u00e7o e desprazer, o que \u00e9 extremamente compreens\u00edvel em sociedades em que predominavam o trabalho for\u00e7ado em que atividades produtivas eram desprezadas e executadas t\u00e3o somente por escravos como na Gr\u00e9cia e Roma antigas, cabendo aos homens livres a execu\u00e7\u00e3o de atividades intelectuais ligadas \u00e0s ci\u00eancias e \u00e0s artes.<\/p>\n<p>Pode-se afirmar que o trabalho \u00e9 o ato que o homem executa visando transformar conscientemente a natureza, ou para citar Marx (1983, p. 149), \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o em que o homem media, regula e controla seu metabolismo com a natureza. A origem do trabalho encontra-se na necessidade de a humanidade satisfazer suas necessidades b\u00e1sicas, evoluindo para outros tipos de necessidades, mesmo sup\u00e9rfluas. Assim, trabalhar \u00e9 produzir riqueza, o que \u00e9 necess\u00e1rio em todos os modos de produ\u00e7\u00e3o, seja no comunal primitivo, no escravista, no feudal, no capitalista, e mesmo nas experi\u00eancias socialistas. O que muda \u00e9 a forma de produzir, a tecnologia utilizada, e a rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito que produziu e o que se apropria do que foi produzido, que varia de acordo com a forma de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade<sup><sup>1<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Uma sociedade n\u00e3o vive sem o trabalho, na verdade, pode-se dizer que o homem evoluiu de sua condi\u00e7\u00e3o animal at\u00e9 sua condi\u00e7\u00e3o atual devido ao seu trabalho<sup><sup>2<\/sup><\/sup>. Engels (s\/d, p. 270) afirma que o homem modifica sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza devido ao trabalho. Se na condi\u00e7\u00e3o animal ele tinha de submeter-se \u00e0s leis da natureza, atrav\u00e9s do trabalho ele busca dominar a natureza, transforma-a em proveito pr\u00f3prio. Passa de ser dominado a ser dominante devido ao desenvolvimento do trabalho.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio desenvolvimento do seu corpo, do c\u00e9rebro, da fala, e da rela\u00e7\u00e3o entre os homens origina-se do trabalho. Desta forma, Engels afirma que o trabalho criou o homem e o homem criou o trabalho, sendo esta uma a\u00e7\u00e3o exclusivamente humana, pois assume uma forma consciente, n\u00e3o intuitiva, pois antes de produzir um objeto \u00e9 necess\u00e1rio ao trabalhador elabor\u00e1-lo inicialmente em seu c\u00e9rebro para s\u00f3 ent\u00e3o partir para a execu\u00e7\u00e3o. J\u00e1 as atividades que os animais executam (a aranha e sua teia, o jo\u00e3o-de-barro e sua casa) s\u00e3o meramente intuitivas, da\u00ed trabalho ser uma atividade exclusiva da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>Para Marx, o \u00fanico bem que o trabalhador possui devido a n\u00e3o ser propriet\u00e1rio de meios de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 a sua for\u00e7a de trabalho, a sua capacidade de trabalhar, sendo por isso que o trabalhador \u00e9 obrigado a vender sua for\u00e7a de trabalho ao capital. Ao contr\u00e1rio de sociedades pr\u00e9-capitalistas como o feudalismo e a escravid\u00e3o, no capitalismo o trabalhador entrega sua capacidade de trabalhar por um tempo determinado atrav\u00e9s de um contrato de trabalho.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do estabelecimento de um contrato de assalariamento que regula as rela\u00e7\u00f5es capital-trabalho, algumas diferen\u00e7as podem ser encontradas no trabalho sob o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista em compara\u00e7\u00e3o com sociedades pr\u00e9-capitalistas. Como j\u00e1 visto, o trabalho era desprezado na Gr\u00e9cia e Roma antigas, fazendo com que a socializa\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos ocorresse fora do trabalho, enquanto na sociedade capitalista a socializa\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos ocorre exatamente nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Para esta mudan\u00e7a, a revolu\u00e7\u00e3o industrial dos s\u00e9culos XVIII e XIX teve um peso determinante<sup><sup>3<\/sup><\/sup>, com a forma\u00e7\u00e3o de ex\u00e9rcitos de trabalhadores que desprovidos de qualquer propriedade s\u00e3o obrigados a abandonar a vida do campo, sendo jogados nas cidades em busca de empregos assalariados junto \u00e0s nascentes ind\u00fastrias.<\/p>\n<p>O trabalho ent\u00e3o assumiria um novo car\u00e1ter, de atividade indigna no passado, passam a ser vistos como indignos aqueles que n\u00e3o trabalham, taxados como vagabundos os que n\u00e3o se submetem a trabalhar para o capital<sup><sup>4<\/sup><\/sup>, mesmo que o pr\u00f3prio capital n\u00e3o tenha interesse em absorver todo o trabalho posto \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. Assim, os capitalistas sempre encontram um grupo de trabalhadores \u00e0 margem do processo produtivo, mas sempre \u00e1vidos por incorporar-se a ele, a estes trabalhadores Marx denominou de \u201cex\u00e9rcito industrial de reserva\u201d.<\/p>\n<p>Em \u201cTempos modernos\u201d (\u201c<em>Modern times<\/em>\u201d), filme de Charles Chaplin<sup><sup>5<\/sup><\/sup> de 1936, o diretor mostra com maestria os efeitos que o desenvolvimento capitalista e seu processo de industrializa\u00e7\u00e3o trouxeram \u00e0 classe trabalhadora. Como diz o texto de introdu\u00e7\u00e3o do filme, \u201c\u2019Tempos modernos\u2019 \u00e9 uma hist\u00f3ria sobre a ind\u00fastria, a iniciativa privada e a humanidade em busca da felicidade\u201d<sup><sup>6<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>A tem\u00e1tica de \u201cTempos modernos\u201d custou a Chaplin uma s\u00e9rie de persegui\u00e7\u00f5es por parte da CIA, juntamente com a acusa\u00e7\u00e3o de simpatias comunistas<sup><sup>7<\/sup><\/sup>. Al\u00e9m disso, havia recusado naturalizar-se norte-americano argumentando ser um \u201ccidad\u00e3o do mundo\u201d o que agrava ainda mais sua situa\u00e7\u00e3o. Chaplin passa a constar na \u201clista negra\u201d de Hollywood durante a persegui\u00e7\u00e3o macarthista, o que torna sua situa\u00e7\u00e3o de trabalho nos EUA insustent\u00e1vel (seus filmes eram proibidos), levando-o a abandonar definitivamente os EUA em 1952.<\/p>\n<p>No filme, o vagabundo Carlitos, ironicamente, encontra-se na condi\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rio. \u00c9 ao auge do predom\u00ednio do padr\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o taylorista-fordista, em que os trabalhadores tem suas habilidades substitu\u00eddas por um trabalho rotineiro e alienado. \u00c9 o predom\u00ednio da esteira rolante de Ford, do cron\u00f4metro de Taylor<sup><sup>8<\/sup><\/sup>, do oper\u00e1rio-massa.<\/p>\n<p>A inadequa\u00e7\u00e3o de Carlitos com o trabalho alienado perpassa o tempo todo do filme. Na condi\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rio ele tenta se adaptar, se esfor\u00e7a para inserir-se naquele novo mundo de produ\u00e7\u00e3o em massa, m\u00e1quinas gigantescas, explora\u00e7\u00e3o do trabalho, mas tamb\u00e9m de greves e de organiza\u00e7\u00e3o sindical. Esta inadequa\u00e7\u00e3o fica presente logo no in\u00edcio do filme, quando um bando de ovelhas brancas \u00e9 mostrado e apenas uma delas tem a cor preta, certamente esta representa o pr\u00f3prio Carlitos. A cena do bando de ovelhas \u00e9 misturada com a cena dos oper\u00e1rios entrando na f\u00e1brica, como se fossem animais indo para o abate, s\u00f3 que, na verdade, v\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o na f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Como oper\u00e1rio da f\u00e1brica, Carlitos se depara com a esteira de produ\u00e7\u00e3o fordista que aumenta o ritmo de produ\u00e7\u00e3o a todo instante, tornando a rela\u00e7\u00e3o homem-m\u00e1quina extremamente conflituosa, at\u00e9 o ponto em que o pr\u00f3prio Carlitos \u00e9 engolido pela m\u00e1quina, saindo de l\u00e1 em uma condi\u00e7\u00e3o de insanidade, momento em que ele abandona a condi\u00e7\u00e3o de quase um aut\u00f4mato (repetindo um gesto mec\u00e2nico mesmo quando n\u00e3o est\u00e1 trabalhando, fruto da aliena\u00e7\u00e3o do trabalho) para uma situa\u00e7\u00e3o de confronto direto em que ele sabota a produ\u00e7\u00e3o, insurge-se contra o patr\u00e3o e \u00e9 internado como louco.<\/p>\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o capital-trabalho est\u00e1 presente de forma clara no filme. O patr\u00e3o fica numa sala armando quebra-cabe\u00e7as e lendo jornal, ao mesmo tempo em que de um monitor controla todos os movimentos dos oper\u00e1rios e dita o ritmo de produ\u00e7\u00e3o a ser executado<sup><sup>9<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Em outras passagens, a inadequa\u00e7\u00e3o de Carlitos com o trabalho alienado fica presente nas tantas tentativas de trabalhar que o personagem enfrenta. Quando arranja trabalho no ca\u00eds ap\u00f3s sair do hosp\u00edcio, consegue em um simples gesto lan\u00e7ar um navio ao mar. Quando o personagem vira vigia na loja de departamentos, al\u00e9m, de n\u00e3o conseguir impedir um assalto, consome produtos da loja, leva a amiga para o interior da loja, e dorme no servi\u00e7o. Trabalhando como auxiliar de mec\u00e2nico, Carlitos demonstra a todo instante sua inadequa\u00e7\u00e3o com a simples tarefa de ajudar o mec\u00e2nico chefe, fazendo com que este seja tamb\u00e9m engolido pela m\u00e1quina. Quando assume o papel de gar\u00e7om, tamb\u00e9m \u00e9 n\u00edtida a sua incapacidade de servir uma mesa.<\/p>\n<p>Na verdade, Carlitos s\u00f3 consegue mostrar sua identifica\u00e7\u00e3o com atividades nada alienantes e que fogem ao dom\u00ednio da m\u00e1quina sobre o trabalho. Quando ele est\u00e1 na loja de departamentos e mostra uma grande habilidade em patinar, e quando est\u00e1 no restaurante trabalhando como gar\u00e7om e que improvisa um n\u00famero musical c\u00f4mico. Neste momento percebe-se que em ao menos em uma atividade ele \u00e9 bom, em um tipo de trabalho que requeira criatividade e n\u00e3o uma mera execu\u00e7\u00e3o de tarefas formulada por terceiros. S\u00f3 ent\u00e3o, ele \u00e9 aplaudido por todos e inclusive, parabenizado pelo patr\u00e3o<sup><sup>10<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>A voz de Carlitos \u00e9 ouvida pela primeira vez no cinema quando ele canta. Chaplin opunha-se ao cinema falado, achando que este n\u00e3o duraria muito tempo. Na verdade, seu temor era com seu pr\u00f3prio personagem, adequado muito mais ao gestual do que a fala. Somente depois de 10 anos de exist\u00eancia, \u00e9 que em \u201cTempos modernos\u201d, Chaplin faria sua primeira experi\u00eancia com o cinema falado, ou no seu caso, \u201csemi-falado\u201d. Ouve-se o ru\u00eddo das m\u00e1quinas, o som mec\u00e2nico da \u201cm\u00e1quina de comer\u201d, do alto-falante em que o patr\u00e3o dirige-se aos funcion\u00e1rios, mas em nenhum momento um personagem fala, que n\u00e3o seja atrav\u00e9s de uma m\u00e1quina<sup><sup>11<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Mesmo quando Carlitos canta ele expressa uma cr\u00edtica ao cinema falado, quando esquece a letra, sua amiga<sup><sup>12<\/sup><\/sup> grita a ele: \u201cCante! Dane-se a letra!\u201d, e \u00e9 o que ele faz, mostra que mesmo sem palavras, ou no caso, usando palavras sem sentido, mas caprichando no gestual, faz com que todos consigam compreender uma hist\u00f3ria<sup><sup>13<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Outro aspecto que chama aten\u00e7\u00e3o no filme \u00e9 o predom\u00ednio completo do trabalho abstrato sobre o trabalho concreto<sup><sup>14<\/sup><\/sup>, ou seja, ao capital n\u00e3o interessa a forma como est\u00e1 sendo produzido ou que est\u00e1 sendo produzido, somente importa \u00e9 que est\u00e1 sendo criado valor. Da\u00ed n\u00e3o sabermos exatamente qual a mercadoria que Carlitos produz, e certamente, nem mesmo os oper\u00e1rios da f\u00e1brica o sabem. Assim, n\u00e3o existe qualquer identifica\u00e7\u00e3o do trabalhador com seu trabalho, nem com a mercadoria produzida por ele.<\/p>\n<p>Mesmo com toda a cr\u00edtica social que \u00e9 feita, a rea\u00e7\u00e3o do personagem Carlitos ao sistema \u00e9 feita de maneira individual e n\u00e3o coletiva. Quando eclode a Grande Depress\u00e3o de 1929, que coincide com a sa\u00edda do personagem do hosp\u00edcio, \u00e9 levado \u00e0 pris\u00e3o acusado de ser l\u00edder comunista por empunhar uma bandeira (pretensamente vermelha) em frente a um grupo de trabalhadores que fazia uma passeata na rua. Carlitos \u00e9 visto como o cidad\u00e3o comum, n\u00e3o politizado, mas que pelo simples gesto de buscar devolver a bandeira que tinha ca\u00eddo do caminh\u00e3o \u00e9 acusado de l\u00edder da revolta oper\u00e1ria. Em outro momento, quando eclode uma greve na f\u00e1brica em que trabalha, tamb\u00e9m por acidente \u00e9 acusado de agress\u00e3o a um policial que viria reprimir a greve.<\/p>\n<p>No final do filme, quando sua amiga indignada com a situa\u00e7\u00e3o de persegui\u00e7\u00e3o, mis\u00e9ria e desemprego pergunta: \u201cpara que tudo isso?\u201d ele responde: \u201clevante a cabe\u00e7a, nunca abandone a luta\u201d. No entanto, a rea\u00e7\u00e3o dos dois n\u00e3o \u00e9 o enfrentamento contra o capital, \u00e9 retirar-se da cidade, indo em dire\u00e7\u00e3o ao campo<sup><sup>15<\/sup><\/sup>.<\/p>\n<p>Ao som da bel\u00edssima \u201cSmile\u201d, de autoria de Chaplin, Carlitos d\u00e1 as costas para a para produ\u00e7\u00e3o em massa, para as gigantescas m\u00e1quinas que desempregam trabalhadores, para as suntuosas lojas com suas escadas rolantes, para o trabalho alienado. Seria o \u00faltimo filme mudo de Chaplin e tamb\u00e9m a despedida do personagem Carlitos, que havia se tornado obsoleto em um momento em que o cinema falado tomava conta dos cinemas do mundo todo. Era o sinal dos tempos. Os tais \u201ctempos modernos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>BRAVERMAN, Harry. <em>Trabalho e capital monopolista<\/em> \u2013 a degrada\u00e7\u00e3o do trabalho no s\u00e9culo XX. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.<\/p>\n<p>CHAU\u00cd, Marilena. Introdu\u00e7\u00e3o. In: LAFARGUE, Paul. <em>O direito \u00e0 pregui\u00e7a<\/em>. S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1999.<\/p>\n<p>CLARET, Martin. <em>Chaplin por ele mesmo<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 2004.<\/p>\n<p>ENGELS. Friedrich. Sobre o papel do trabalho na transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem. In: MARX, Karl. e ENGELS. Friedrich. <em>Obras escolhidas<\/em>, volume 2. S\u00e3o Paulo: Editora Alfa-Omega, s\/d.<\/p>\n<p>GOMES, Morgana. <em>A vida e os pensamentos de Charles Chaplin<\/em>. Rio de Janeiro: 4D Editora, s\/d.<\/p>\n<p>LEPROHON, Pierre. <em>Charles Chaplin<\/em> \u2013 o seu destino e a sua obra. Lisboa: Livros do Brasil, s\/d.<\/p>\n<p>MARX, Karl. <em>O capital<\/em> \u2013 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica \u2013 Vol. I, Tomo I. S\u00e3o Paulo: Abril Culural, 1983.<\/p>\n<p>PRIEB, S\u00e9rgio. <em>O trabalho \u00e0 beira do abismo<\/em> \u2013 uma cr\u00edtica marxista \u00e0 tese do fim da centralidade do trabalho. Iju\u00ed: Editora Uniju\u00ed, 2005.<\/p>\n<p>V\u00c1SQUEZ, Adolfo. <em>Filosofia da pr\u00e1xis<\/em>. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o popular\/CLACSO Livros, 2007.<\/p>\n<p>*Professor Adjunto do Departamento de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFSM. Doutor em Economia Social e do Trabalho pela Unicamp. Membro do Comit\u00ea Central do PCB.<\/p>\n<p>1. \u201cComo criador de valores de uso, como trabalho \u00fatil, \u00e9 o trabalho, por isso, uma condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia do homem, independente de todas as formas de sociedade, eterna necessidade natural de media\u00e7\u00e3o entre homem e natureza e, portanto, da vida humana\u201d (Marx, 1983, p. 50).<\/p>\n<p>2. Sobre o papel central do trabalho na sociedade capitalista contempor\u00e2nea, bem como uma cr\u00edtica aos autores que acreditam ter o trabalho perdido seu sentido na sociedade moderna, ver Prieb (2005).<\/p>\n<p>3. V\u00e1squez (2007, p. 47) afirma que mesmo que tenha ocorrido a partir da revolu\u00e7\u00e3o industrial uma valoriza\u00e7\u00e3o maior do trabalho e da t\u00e9cnica, n\u00e3o chega a despertar uma valoriza\u00e7\u00e3o do trabalhador e da significa\u00e7\u00e3o de sua atividade produtiva.<\/p>\n<p>4. \u201cNesse imagin\u00e1rio, \u2018a pregui\u00e7a \u00e9 a m\u00e3e de todos os v\u00edcios\u2019 e nele v\u00eam inscrever-se hoje, o nordestino pregui\u00e7oso, a crian\u00e7a de rua vadia (vadiagem, ali\u00e1s, o termo empregado para referir-se \u00e0s prostitutas), o mendigo \u2013 \u2018jovem, forte, saud\u00e1vel, que devia estar trabalhando em vez de vadiar\u2019\u201d (Chau\u00ed, 1999, p. 10).<\/p>\n<p>5. Charles Spencer Chaplin nasceu em 1889 em Londres, Inglaterra, e morreu em 1977 em Vevey, na Sui\u00e7a.<\/p>\n<p>6. \u201cO filme custou US$1.500.000 de d\u00f3lares (somente para fazer a grande m\u00e1quina que engole Chaplin e Chester Conklin foram gastos 500 mil), mas nos Estados Unidos rendeu apenas US$1.800.000. enquanto a It\u00e1lia e a Alemanha proibiram sua exibi\u00e7\u00e3o, em Londres, Paris e Moscou, ele alcan\u00e7ou um sucesso consider\u00e1vel durante o resto do ano\u201d (Gomes (s\/d, p. 67).,<\/p>\n<p>7. Chaplin no in\u00edcio dos anos 30 percorre o mundo divulgando \u201cLuzes da cidade\u201d. Ao retornar publica v\u00e1rios artigos em jornais falando de suas viagens pelo mundo, salientando as contradi\u00e7\u00f5es que estava encontrando na sociedade moderna, sendo estes artigos a inspira\u00e7\u00e3o para \u201cTempos modernos\u201d. Juntamente com suas id\u00e9ias sociais, Chaplin defendia que os EUA deveriam parar com a propaganda anti-comunista contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Mesmo assim, Chaplin nunca declarou-se comunista, sendo que em um telegrama endere\u00e7ado a Parnell Thomas, da Comiss\u00e3o de Atividades Antiamericanas escreveu: \u201cDizem que voc\u00ea quer perguntar se sou comunista. Deveria ter-me feito essa pergunta durante os dez dias em que permaneceu em Hollywood. Sobre o que quer saber, n\u00e3o sou comunista. Sou somente um fator da paz\u201d (Claret, 2004, p. 126).<\/p>\n<p>8. Taylor introduz o cron\u00f4metro das atividades produtivas na f\u00e1brica, cronometrando todas as fases do processo de produ\u00e7\u00e3o, buscando que os trabalhadores tornassem seu trabalho mais produtivo. Braverman (1987, p. 97) mostra que em uma experi\u00eancia de Taylor, ele conseguiu fazer com que um oper\u00e1rio aumentasse em 276% a produ\u00e7\u00e3o, com um simples incremento de 60,86% no sal\u00e1rio. O exemplo deveria ser disseminado para os demais oper\u00e1rios, mostrando, assim, que era poss\u00edvel aumentar as produtividade se os trabalhadores se empenhassem mais. Existem no filme v\u00e1rias refer\u00eancias \u00e0 medi\u00e7\u00e3o do tempo. A primeira imagem do filme \u00e9 exatamente do rel\u00f3gio da f\u00e1brica, que marca a hora da entrada, do almo\u00e7o, da troca de turno e da sa\u00edda do trabalho. A todo instante, Carlitos bate o ponto no rel\u00f3gio-ponto da f\u00e1brica, mesmo quando est\u00e1 fugindo da pol\u00edcia. Outras tantas refer\u00eancias ir\u00e3o aparecer no decorrer do filme, Carlitos perde a hora na loja de departamentos, quando dorme demais. Por acidente prensa o rel\u00f3gio de seu chefe imediato na f\u00e1brica, al\u00e9m disso, a \u201cm\u00e1quina de comer\u201d promete que vai \u201celiminar a pausa para o almo\u00e7o, aumentar a produ\u00e7\u00e3o e ultrapassar a concorr\u00eancia\u201d. A pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o do filme parecia insurgir-se contra o tempo moderno, sendo rodado de outubro de 1934 a agosto de 1935, um tempo bastante longo para os filme da \u00e9poca.<\/p>\n<p>9. Esta dissocia\u00e7\u00e3o entre o trabalho do oper\u00e1rio que simplesmente cumpre ordens e n\u00e3o tem qualquer inser\u00e7\u00e3o sobre a forma como produz, fica claro em Braverman (1987, p. 53): \u201cAssim, nos seres humanos, diferentemente dos animais, n\u00e3o \u00e9 inviol\u00e1vel a unidade entre a for\u00e7a motivadora do trabalho e o trabalho em si mesmo. A <em>unidade de concep\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o pode ser dissolvida<\/em>. A concep\u00e7\u00e3o pode ainda continuar e governar a execu\u00e7\u00e3o, mas a id\u00e9ia concebida por <em>uma pessoa<\/em> pode ser executada por outra.\u201d<\/p>\n<p>10. Esta inaptid\u00e3o para outros tipos de trabalho que n\u00e3o o art\u00edstico foi presente na vida do pr\u00f3prio Chaplin, que tendo trabalhado como entregador de mercearia, recepcionista de consult\u00f3rio m\u00e9dico, garoto de recados entregador de papelaria, tip\u00f3grafo, vendedor e assoprador de vidros, s\u00f3 conseguiu sucesso profissional ap\u00f3s tornar-se artista (Gomes, s\/d, 11-13).<\/p>\n<p>11. Em \u201cO capital\u201d Marx afirma que as formas de valor das mercadorias teriam uma \u201cfala pr\u00f3pria\u201d: \u201cV\u00ea-se, tudo que nos disse antes a an\u00e1lise do valor das mercadorias, diz-nos o linho logo que entra em rela\u00e7\u00e3o com outra mercadoria, o casaco. S\u00f3 que ele revela seu pensamento em sua linguagem exclusiva, a linguagem das mercadorias. [&#8230;] Diga-se de passagem que a linguagem das mercadorias, al\u00e9m do hebraico, possui tamb\u00e9m muitos outros idiomas mais ou menos corretos\u201d (Marx, 1983, p. 57). Marx quer dizer que o capital passa a assumir propriedades que n\u00e3o s\u00e3o suas, mas sim dos homens, ou seja, o capital domina o trabalho, o que \u00e9 derivado do trabalho passa a ser considerado m\u00e9rito do capital.<\/p>\n<p>12. A \u00f3rf\u00e3, amiga de Carlitos no filme, \u00e9 a atriz Paulette Goddard (1910-1990). Chaplin era 21 anos mais velho que Paulette e ficaria casado com ela de 1932 a 1940.<\/p>\n<p>13. \u201cAinda desta vez utiliza um subterf\u00fagio para demonstrar a inutilidade da palavra na sua arte. Mima esta can\u00e7\u00e3o e canta-a numa l\u00edngua imagin\u00e1ria de palavras feitas de sons diversos e onomatopaicos, de tal modo que esta l\u00edngua, gra\u00e7as unicamente \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o do ator (j\u00e1 que o texto \u00e9 inintel\u00edgevel, diverte, interessa e significa\u201d (Leprohon, s\/d, p. 205).<\/p>\n<p>14. Os conceitos de trabalho concreto e trabalho abstrato foram introduzidos por Marx no livro 1 de \u201cO capital\u201d (Marx, 1983). O trabalho concreto produz valores de uso, enquanto o trabalho abstrato produz simplesmente valor.<\/p>\n<p>15. Chaplin havia gravado outro final para o filme, em que a \u00f3rf\u00e3 teria virado freira e Carlitos como em filmes anteriores, terminaria sozinho. Preferiu o final mais otimista, em que os dois personagens ficam juntos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Blog do Dario\n\n\n\n\n\n\n\n\nS\u00e9rgio A. M. Prieb*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1331\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-1331","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-lt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1331","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1331"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1331\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1331"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1331"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1331"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}