{"id":1337,"date":"2011-03-28T03:34:32","date_gmt":"2011-03-28T03:34:32","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1337"},"modified":"2011-03-28T03:34:32","modified_gmt":"2011-03-28T03:34:32","slug":"nova-operacao-colonial-contra-a-libia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1337","title":{"rendered":"Nova opera\u00e7\u00e3o colonial contra a L\u00edbia"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o satisfeitos com o bloqueio solit\u00e1rio de uma resolu\u00e7\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU condenando o expansionismo de Israel na Palestina ocupada, os Estados Unidos v\u00eam hoje se apresentar novamente como os int\u00e9rpretes e campe\u00f5es da &#8220;comunidade internacional&#8221;. Convocaram o Conselho de Seguran\u00e7a, e n\u00e3o foi para condenar a interven\u00e7\u00e3o das tropas sauditas em Bahrein, mas sim para exigir e finalmente impor o lan\u00e7amento da &#8220;no-fly zone&#8221; e outras medidas guerreiras contra a L\u00edbia.<\/p>\n<p>Algumas medidas agressivas j\u00e1 eram tomadas unilateralmente por Washington e por alguns de seus aliados, como a aproxima\u00e7\u00e3o da frota militar americana das costas da L\u00edbia e o apelo ao instrumento cl\u00e1ssico da pol\u00edtica do canh\u00e3o. Mas Obama n\u00e3o parou por a\u00ed: nestes \u00faltimos dias vinha intimando Kadafi de modo amea\u00e7ador a abandonar o poder e pressionava o ex\u00e9rcito l\u00edbio a dar um golpe de Estado.<\/p>\n<p>Mais grave ainda, desde h\u00e1 algum tempo os agentes estadunidenses, juntos com os da Fran\u00e7a e Gr\u00e3-Bretanha, vinham deixando os funcion\u00e1rios l\u00edbios diante de um dilema: ou passar para o lado dos rebeldes ou serem processados perante o Tribunal Penal Internacional e passarem os restos das suas vidas encarcerados por &#8220;crimes contra a humanidade&#8221;.<\/p>\n<p>A fim de dar cobertura \u00e0 retomada das pr\u00e1ticas colonialistas mais infames, o gigantesco aparelho midi\u00e1tico de manipula\u00e7\u00e3o e desinforma\u00e7\u00e3o lan\u00e7ou sua campanha e, entretanto, basta ler com aten\u00e7\u00e3o a pr\u00f3pria imprensa burguesa para perceber o engodo. Por exemplo, diz-se h\u00e1 dias que a avia\u00e7\u00e3o de Kadafi bombardeia a popula\u00e7\u00e3o civil. Mas em 1\u00b0 de mar\u00e7o o jornal <em>La Stampa <\/em>escreve, pag. 6, e pela pena de Guido Ruotolo: &#8220;\u00c9 verdade, provavelmente n\u00e3o houve bombardeio&#8221;.<\/p>\n<p>Mudou radicalmente a situa\u00e7\u00e3o nos dias seguintes? Dia 16 de mar\u00e7o, Lorenzo Cremonesi escreve de Tobruk no <em>Corriere della Sera: <\/em>&#8220;Como j\u00e1 aconteceu nas outras localidades onde interveio a avia\u00e7\u00e3o, o que houve foram apenas raids de advert\u00eancia&#8221;. &#8220;Eles queriam assustar; muito barulho por nada&#8221;, disse-nos pelo telefone um dos porta-vozes do governo provis\u00f3rio. S\u00e3o, portanto, os pr\u00f3prios rebeldes que desmentem os &#8216;massacres&#8217; invocados para justificar a interven\u00e7\u00e3o &#8216;humanit\u00e1ria&#8217;.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito dos rebeldes. Eles s\u00e3o celebrados dia ap\u00f3s dia como os campe\u00f5es da democracia em toda a sua pureza, eis por\u00e9m a forma como foi relatada por Lorenzo Cremonesi, no <em>Corriere della Sera <\/em>de 12 de mar\u00e7o, sua retirada frente \u00e0 contra-ofensiva do ex\u00e9rcito l\u00edbio: &#8220;Na confus\u00e3o geral, acontecem tamb\u00e9m atos de pilhagem. O mais not\u00f3rio \u00e9 o do hotel El Fadeel, de onde levaram televisores, colch\u00f5es, cobertores, transformaram as cozinhas em lixeiras e os corredores em acampamentos imundos&#8221;. N\u00e3o parece ser o comportamento de um ex\u00e9rcito de libera\u00e7\u00e3o, e o m\u00ednimo que se pode dizer \u00e9 que a vis\u00e3o manique\u00edsta do conflito na L\u00edbia n\u00e3o tem o menor fundamento.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais. A cada dia denunciam as &#8220;atrocidades&#8221; da repress\u00e3o na L\u00edbia. Mas, falando de Bahrein, conta Nicholas D. Kristoff no <em>International Herald Tribune: <\/em>&#8220;No curso destas ultimas semanas, vi cad\u00e1veres de manifestantes, quase todos executados de perto por armas de fogo, vi uma mo\u00e7a retorcendo-se de dor ap\u00f3s ter sido espancada, vi o pessoal das ambul\u00e2ncias ser golpeado por tentar salvar manifestantes&#8221;.<\/p>\n<p>Um v\u00eddeo de Bahrein mostra o que parecem ser for\u00e7as de seguran\u00e7a atingir com uma bomba lacrimog\u00eanea um homem de meia-idade e desarmado, a poucos metros delas. O homem cai no ch\u00e3o e tenta levantar-se. Atiram ent\u00e3o nele, na cabe\u00e7a, outra bomba. Caso n\u00e3o seja suficiente, vale lembrar que &#8220;nestes \u00faltimos dias, as coisas v\u00e3o de mal a pior&#8221;. Antes mesmo da repress\u00e3o, \u00e9 na vida quotidiana que a viol\u00eancia se expressa; a maioria xiita \u00e9 submetida a um regime de &#8220;apartheid&#8221;.<\/p>\n<p>Para refor\u00e7ar o aparelho de repress\u00e3o, agem os &#8220;mercen\u00e1rios estrangeiros&#8221; com tanques de assalto, armas e g\u00e1s lacrimog\u00eaneo estadunidenses. O papel dos Estados Unidos \u00e9 decisivo, como o explica o jornalista do <em>International Herald Tribune, <\/em>ao contar um epis\u00f3dio por si esclarecedor: &#8220;Umas semanas atr\u00e1s, um colega meu do <em>New York Times, <\/em>Michael Slackman, foi capturado pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a de Bahrein. Ele me contou que chegaram a apontar-lhe armas. Receoso de algu\u00e9m atirar nele sem mais nem menos, ele pega seu passaporte e grita que \u00e9 jornalista dos Estados Unidos. A partir dali, o humor do grupo muda de repente. O chefe chega perto dele, aperta a sua m\u00e3o e muito animado, lhe diz &#8220;N\u00e3o se preocupe. N\u00f3s gostamos dos Estados Unidos!&#8221;.<\/p>\n<p>De fato, a Quinta Frota dos Estados Unidos tem base em Bahrein. In\u00fatil dizer que tem como dever defender ou impor a democracia: sempre que n\u00e3o seja em Bahrein ou mesmo no I\u00eamen, e sim\u2026 na L\u00edbia ou em algum outro pa\u00eds que, por sua vez, entre na mira de Washington.<\/p>\n<p>Por mais repugnante que seja a hipocrisia do imperialismo, n\u00e3o \u00e9 uma raz\u00e3o suficiente para esconder as responsabilidades de Kadafi. Embora tenha, historicamente, o m\u00e9rito de ter acabado com a domina\u00e7\u00e3o colonial e as bases militares que intimidavam seu pa\u00eds, ele n\u00e3o soube estabelecer uma camada dirigente bastante ampla. Al\u00e9m do mais, utilizou os lucros do petr\u00f3leo para construir improv\u00e1veis projetos &#8220;internacionalistas&#8221; sob a bandeira do &#8220;Livro Verde&#8221;, em vez de desenvolver uma economia nacional, moderna e independente. Perdeu-se assim uma oportunidade \u00fanica de p\u00f4r fim \u00e0 estrutura tribal da L\u00edbia e ao antigo dualismo entre Tripolit\u00e2nia e Ciren\u00e1ica, e de contrapor uma s\u00f3lida estrutura econ\u00f4mico-social diante das manobras renovadas e das press\u00f5es do imperialismo.<\/p>\n<p>E temos n\u00e3o obstante, de um lado, um l\u00edder do Terceiro Mundo que, de forma r\u00fastica, confusa, contradit\u00f3ria e bizarra, segue uma linha de independ\u00eancia nacional, enquanto, de outro lado, em Washington, um dirigente expressa de forma elegante, educada e sofisticada as raz\u00f5es do neocolonialismo e do imperialismo. Somente um surdo \u00e0 causa da emancipa\u00e7\u00e3o dos povos e da democracia nas rela\u00e7\u00f5es internacionais, ou ent\u00e3o quem se deixa conduzir antes pelo esteticismo que pelo racioc\u00ednio pol\u00edtico, pode alinhar-se com Obama, Cameron e Sarkozy!<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, ser\u00e1 t\u00e3o elegante assim este refinado Obama que, embora condecorado com o pr\u00eamio Nobel da Paz, n\u00e3o leva sequer por um instante em considera\u00e7\u00e3o a s\u00e1bia proposi\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses sul-americanos, ou seja, o convite de Ch\u00e1vez e outros dirigido \u00e0s duas partes em luta na L\u00edbia para que se esforcem por chegar a uma solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica do conflito, em benef\u00edcio da salva\u00e7\u00e3o e da integridade territorial do pa\u00eds?<\/p>\n<p>Imediatamente ap\u00f3s a vota\u00e7\u00e3o da ONU, e indo ainda al\u00e9m da proposi\u00e7\u00e3o que mal acabava de ser votada, o presidente dos Estados Unidos lan\u00e7ava um ultimato a Kadafi, que teve a pretens\u00e3o de a\u00e7\u00e3o em nome da &#8220;comunidade internacional&#8221;. Desde sempre, a ideologia dominante revela o seu racismo ao identificar a humanidade com o Ocidente; agora, desta vez, s\u00e3o exclu\u00eddos da &#8220;comunidade internacional&#8221; n\u00e3o apenas os dois pa\u00edses cuja popula\u00e7\u00e3o \u00e9 a mais numerosa, mas tamb\u00e9m um pa\u00eds chave da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. Quando se coloca como int\u00e9rprete da dita &#8220;comunidade internacional&#8221;, Obama demonstra uma arrog\u00e2ncia racista ainda pior do que aqueles que, no passado, reduziram os seus ancestrais \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 t\u00e3o elegante e refinado este Cameron que, para vencer em sua casa a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra, repete at\u00e9 a obsess\u00e3o que ela corresponde aos &#8220;interesses nacionais&#8221; da Gr\u00e3-Bretanha, como se o apetite em rela\u00e7\u00e3o ao petr\u00f3leo n\u00e3o fosse j\u00e1 bastante claro?<\/p>\n<p>E que dizer enfim de Sarkozy? Nos jornais, pode-se ler tranq\u00fcilamente que, mais do que no petr\u00f3leo, ele pensa nas elei\u00e7\u00f5es: quantos l\u00edbios o presidente franc\u00eas tem necessidade de matar para que sejam esquecidos os seus esc\u00e2ndalos, suas gafes e tenha maior possibilidade de ser reeleito?<\/p>\n<p>Os jornalistas e os intelectuais da corte gostam de pintar um Kadafi isolado, acuado por um povo unido. Por\u00e9m, para quem acompanha atentamente os acontecimentos, \u00e9 f\u00e1cil perceber o grotesco dessa representa\u00e7\u00e3o. O voto recente no Conselho de Seguran\u00e7a desmascarou outra manipula\u00e7\u00e3o: aquela que inventa a f\u00e1bula sobre uma &#8220;comunidade internacional&#8221; unida na luta contra a barb\u00e1rie. Na realidade, abstiveram-se e expressaram fortes reservas China, R\u00fassia, Brasil, \u00cdndia e Alemanha!<\/p>\n<p>Os dois primeiros pa\u00edses n\u00e3o foram al\u00e9m da absten\u00e7\u00e3o e n\u00e3o usaram o seu poder de veto por uma s\u00e9rie de motivos. Pois n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil sempre desafiar a superpot\u00eancia solit\u00e1ria. N\u00e3o se trata apenas disso e tanto China quanto R\u00fassia conseguiram em troca que n\u00e3o se enviem tropas de terra (e de ocupa\u00e7\u00e3o colonial); evitaram interven\u00e7\u00f5es militares unilaterais de Washington e de seus aliados mais pr\u00f3ximos, semelhantes \u00e0s interven\u00e7\u00f5es contra a Iugosl\u00e1via em 1999 e o Iraque em 2003; tentaram conter as manobras dos c\u00edrculos mais agressivos do imperialismo, que gostariam de deslegitimar a ONU e substitu\u00ed-la pela OTAN e a Alian\u00e7a das Democracias; enfim, apareceu uma contradi\u00e7\u00e3o no seio do imperialismo ocidental conduzido pelos EUA, como o mostra o voto da Alemanha.<\/p>\n<p>Ao fazer refer\u00eancia a um pa\u00eds como a China, dirigida por um partido comunista, deve-se observar que o compromisso que ela quis aceitar em nada engaja os povos do mundo. Mao Zedong explicou em seu tempo que as exig\u00eancias de pol\u00edtica internacional e os pr\u00f3prios compromissos dos pa\u00edses de orienta\u00e7\u00e3o socialista ou progressista s\u00e3o uma coisa; outra coisa, por sua vez, \u00e9 a linha pol\u00edtica de povos, classes sociais e partidos pol\u00edticos que n\u00e3o conquistaram o poder e por isso n\u00e3o est\u00e3o engajados na constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade.<\/p>\n<p>Fica claro ent\u00e3o que a agress\u00e3o \u00e0 L\u00edbia torna mais urgente que nunca o ressurgimento da luta contra a guerra e o imperialismo.<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o, de Ana Maria D\u00e1vila, encontra-se em <a href=\"http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/content\/view\/5648\/9\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\"><em>Correio da Cidadania<\/em><\/a><\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/losurdo\/libia_25mar11.html\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow\">http:\/\/resistir.info\/losurdo\/libia_25mar11.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nDomenico Losurdo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1337\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1337","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-lz","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1337","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1337"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1337\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1337"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1337"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1337"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}