{"id":13420,"date":"2017-02-01T16:44:31","date_gmt":"2017-02-01T19:44:31","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13420"},"modified":"2017-02-15T13:53:43","modified_gmt":"2017-02-15T16:53:43","slug":"a-pedagogia-no-socialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13420","title":{"rendered":"A PEDAGOGIA NO SOCIALISMO"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-PqlUZAJTDdA\/UGfHuCA5N3I\/AAAAAAAAAI0\/WtgfdaV5Txk\/s1600\/13-6-1.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>Oneider Vargas*<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 preciso mostrar aos alunos que o trabalho e a vida deles s\u00e3o parte do trabalho e da vida do pa\u00eds&#8221; (Anton Makarenko)<!--more--><\/p>\n<p>Anton Semionovich Makarenko nasceu em 1888 na Ucr\u00e2nia, filho de um oper\u00e1rio ferrovi\u00e1rio e de uma dona de casa. Aprendeu a ler e escrever com a m\u00e3e, como a maioria das crian\u00e7as da \u00e9poca, e logo depois foi matriculado numa escola prim\u00e1ria. L\u00e1 teve acesso \u00e0s disciplinas de l\u00edngua russa, aritm\u00e9tica, geografia, hist\u00f3ria, ci\u00eancias naturais, f\u00edsica, desenho, canto, gin\u00e1stica e catecismo, mas n\u00e3o p\u00f4de estudar sua l\u00edngua materna, a ucraniana, proibida pelo imp\u00e9rio czarista na R\u00fassia, nem l\u00f3gica e filosofia, exclusivas da elite. Aos 17 anos, Makarenko concluiu o curso de magist\u00e9rio e entrou em contato com as ideias revolucion\u00e1rias de L\u00eanin e M\u00e1ximo Gorki, que influenciaram sua vis\u00e3o de mundo e de educa\u00e7\u00e3o. Sua primeira experi\u00eancia em sala de aula ocorreu em 1906, na Escola Prim\u00e1ria das Oficinas Ferrovi\u00e1rias, onde lecionou por oito anos. Em seguida, assumiu a dire\u00e7\u00e3o de uma escola secund\u00e1ria. Mais consciente do modelo de educa\u00e7\u00e3o que queria aplicar, ampliou o espa\u00e7o cultural e mudou o curr\u00edculo com a ajuda de pais e professores. E estabeleceu o ensino da l\u00edngua ucraniana. Sua mais marcante experi\u00eancia deu-se de 1920 a 1928, na dire\u00e7\u00e3o da Col\u00f4nia Gorki, institui\u00e7\u00e3o rural que atendia crian\u00e7as e jovens \u00f3rf\u00e3os que haviam vivido na marginalidade. L\u00e1 ele p\u00f4s em pr\u00e1tica um ensino que privilegiava a vida em comunidade, a participa\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a na organiza\u00e7\u00e3o da escola, o trabalho e a disciplina. Publicou novelas, pe\u00e7as de teatro e livros sobre educa\u00e7\u00e3o, sendo Poema Pedag\u00f3gico o mais importante. Morreu de ataque card\u00edaco durante uma viagem de trem em 1939, ano que ficaria marcado pelo in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Imagine um educador que tem como miss\u00e3o dirigir um col\u00e9gio interno (na zona rural) cheio de crian\u00e7as e jovens infratores, muitos \u00f3rf\u00e3os, que mal sabiam ler e escrever, numa \u00e9poca em que o modelo de escola e de sociedade estavam em xeque. Como educar? Por onde come\u00e7ar? Anton Semionovich Makarenko, professor na Ucr\u00e2nia, pa\u00eds do leste europeu que era parte da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica na \u00e9poca, foi um dos homens que ajudaram a responder a essas quest\u00f5es e a repensar o papel da escola e da fam\u00edlia na rec\u00e9m-criada sociedade socialista, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20. Sua pedagogia tornou-se conhecida por transformar centenas de crian\u00e7as e adolescentes marginalizados em cidad\u00e3os. O m\u00e9todo criado por ele era uma novidade porque organizava a escola como coletividade e levava em conta os sentimentos dos alunos na busca pela felicidade &#8211; ali\u00e1s, um conceito que s\u00f3 teria sentido se fosse para todos. O que importava eram os interesses da comunidade e a crian\u00e7a tinha direitos impens\u00e1veis na \u00e9poca, como opinar e discutir suas necessidades no universo escolar. &#8220;Foi a primeira vez que a inf\u00e2ncia foi encarada com respeito e direitos&#8221;, diz Cec\u00edlia da Silveira Luedemann, educadora e autora do livro Anton Makarenko, Vida e Obra &#8211; A Pedagogia na Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais que educar, com rigidez e disciplina, ele quis formar personalidades, criar pessoas conscientes de seu papel pol\u00edtico, cultas, sadias e que se tornassem trabalhadores preocupados com o bem-estar do grupo, ou seja, solid\u00e1rios. Na sociedade de ent\u00e3o, organizada pelos comunistas, o trabalho era considerado essencial para a forma\u00e7\u00e3o do homem, n\u00e3o apenas um valor econ\u00f4mico. Makarenko aprendeu tudo na pr\u00e1tica, na base de acertos e erros, primeiro na escola da Col\u00f4nia Gorki e, em seguida, na Comuna Dzerjinski. Cada etapa de suas experi\u00eancias foi registrada em relat\u00f3rios, textos e livros. As dificuldades e os desafios t\u00eam muitos paralelos com os dos professores de hoje. A sa\u00edda encontrada h\u00e1 quase um s\u00e9culo correspondia \u00e0s necessidades da \u00e9poca, mas servem de reflex\u00e3o para buscar solu\u00e7\u00f5es atuais e entender a educa\u00e7\u00e3o no mundo. A ideia do coletivo surge como respeito a cada aluno, oposta \u00e0 vis\u00e3o de massifica\u00e7\u00e3o que despersonaliza a crian\u00e7a. O grupo estimula o desenvolvimento individual. Como a institui\u00e7\u00e3o familiar (e tudo o mais na ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica) estava em crise, essa foi a alternativa encontrada pelo educador para proteger a inf\u00e2ncia de seu pa\u00eds. O sentimento de grupo n\u00e3o era uma ideia abstrata. Tinha ra\u00edzes nos ideais revolucion\u00e1rios e Makarenko soube como transform\u00e1-la em algo concreto. A col\u00f4nia era autossuficiente e a sobreviv\u00eancia de cada um dependia do trabalho de todos. Caso contr\u00e1rio, n\u00e3o haveria comida nem condi\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o aceit\u00e1veis. Para que a vida em comunidade desse certo era essencial que cada aluno tivesse claras suas responsabilidades. &#8220;Nunca mais ladr\u00f5es nem mendigos: somos os dirigentes.&#8221; Makarenko era conhecido como um educador aberto, mas r\u00edgido e duro. Ele acreditava que o planejamento e o cumprimento das metas estabelecidas por todos s\u00f3 se concretizariam com uma dire\u00e7\u00e3o muito firme. Por isso, os alunos tinham consci\u00eancia de que a disciplina n\u00e3o era um fim, mas um meio para o sucesso da vida na escola. O descumprimento de uma norma podia ser punido severamente, desde que alunos e professores assim o desejassem, depois de muita discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Makarenko publicou, em 1938, incompleto, o Livro dos Pais. O objetivo era mostrar a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia na escola e como educar as crian\u00e7as em tempos dif\u00edceis. Alguns estudantes moravam nas escolas dirigidas por ele. O educador ucraniano fazia quest\u00e3o da presen\u00e7a dos pais, que eram estimulados a participar de atividades culturais e recreativas. A escola tinha o papel de orientar a fam\u00edlia, que deveria encar\u00e1-la como um \u00f3rg\u00e3o normativo. Pais muito &#8220;melosos&#8221; ou ausentes seriam incapazes de educar uma pessoa forte, madura e inteligente. &#8220;O carinho, como o jogo e a comida, exige certa dosagem&#8221;, dizia. Makarenko queria formar crian\u00e7as capazes de dirigir a pr\u00f3pria vida no presente e a vida do pa\u00eds no futuro. Exerc\u00edcios f\u00edsicos, trabalhos manuais, recrea\u00e7\u00e3o, excurs\u00f5es, aulas de m\u00fasica e idas ao teatro faziam parte da rotina. A escola tinha que permitir o contato com a sociedade e com a natureza, ou seja, ser um lugar para o jovem viver a realidade concreta e participar das decis\u00f5es sociais. O estudo do meio j\u00e1 era comum na escola de Makarenko, ainda que sem esse nome. Na Col\u00f4nia Gorki, meninos e meninas eram divididos em grupos de dez, de diferentes faixas et\u00e1rias. Um representante de cada turma participava de assembleias e reuni\u00f5es em que se discutiam as situa\u00e7\u00f5es da escola: um objeto roubado, a melhoria do pr\u00e9dio, a compra de materiais, a limpeza dos banheiros, os problemas particulares. Sexo e namoro tamb\u00e9m tinham espa\u00e7o nas reuni\u00f5es. Normas e decis\u00f5es n\u00e3o podiam ser predeterminadas. O primeiro e o \u00faltimo voto eram sempre dos alunos. Makarenko talvez tenha sido o educador que levou \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias mais radicais as quest\u00f5es do esp\u00edrito de grupo e do trabalho coletivo. Tudo era discutido entre alunos, professores e a dire\u00e7\u00e3o da Col\u00f4nia Gorki e da Comuna Dzerjinski. Por essa raz\u00e3o, embora tenha vivido numa \u00e9poca e num contexto totalmente diferentes dos atuais, vale a pena conhecer suas ideias e pensar sobre elas. Mas ser\u00e1 que as crian\u00e7as e os jovens atuais conhecem de fato o significado de grupo? Ou a ideia de coletivo \u00e9 abstrata? Os jovens se sentem respons\u00e1veis pela escola e pelo bem-estar de seus colegas? &#8220;Precisamos pensar se estamos formando pessoas cada vez mais individualistas ou coletivas&#8221;, diz a educadora Cec\u00edlia da Silveira Luedemann. Estamos realmente educando para a colabora\u00e7\u00e3o e a solidariedade? A obra de Makarenko provoca ainda uma reflex\u00e3o sobre a disciplina. Estamos sendo permissivos demais? Como atingir o equil\u00edbrio entre limites e liberdade? Makarenko d\u00e1 algumas respostas. Podemos n\u00e3o concordar totalmente com elas, mas \u00e9 ineg\u00e1vel que seu trabalho produziu resultados positivos num momento de grandes dificuldades sociais. N\u00e3o estaremos n\u00f3s em momento equivalente?<\/p>\n<p>Fontes de Refer\u00eancia<\/p>\n<p>Cec\u00edlia da Silveira Luedemann, educadora e autora do livro Anton Makarenko, Vida e Obra \u2013 A Pedagogia na Revolu\u00e7\u00e3o. Editora Express\u00e3o Popular, 2002.<\/p>\n<p>Anton Makarenko, Las bandeiras en las torres. Editorial Progresso, 1981.<\/p>\n<p>*Membro do CC-PCB e Conselheiro Regional do Cpers<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Oneider Vargas* &#8220;\u00c9 preciso mostrar aos alunos que o trabalho e a vida deles s\u00e3o parte do trabalho e da vida do pa\u00eds&#8221; \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13420\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-13420","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3us","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13420","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13420"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13420\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13420"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13420"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13420"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}