{"id":13443,"date":"2017-02-03T13:40:10","date_gmt":"2017-02-03T16:40:10","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13443"},"modified":"2017-02-15T13:54:06","modified_gmt":"2017-02-15T16:54:06","slug":"siria-a-revolucao-e-a-esquerda-latino-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13443","title":{"rendered":"S\u00edria, a Revolu\u00e7\u00e3o e a Esquerda Latino Americana"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-CSe-oFrkVBs\/WGrWS8kPPQI\/AAAAAAAAM5U\/uUEgGr4JxfcNr3An18qHfw4h4W-XaMEtACLcB\/s1600\/ALEPPO-despu%25C3%25A9s.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><strong>Resposta a San Tiago Alba Rico*<\/strong><\/p>\n<p>Por Atilio Bor\u00f3n (Cientista Pol\u00edtico Argentino)<\/p>\n<p>Na sua r\u00e9plica ao meu artigo, Santiago Alba Rico, aprofunda seus argumentos originais [1]. <!--more-->Eu vejo duas dimens\u00f5es axiais em seu argumento. 1) irrompeu no cen\u00e1rio internacional uma luta entre pot\u00eancias imperialistas, travada em cen\u00e1rios muito diversos, como o M\u00e9dio Oriente e a Ucr\u00e2nia. 2) as revolu\u00e7\u00f5es no mundo \u00e1rabe falharam, porque n\u00e3o tinham apoio internacional dos governos europeus de esquerda, e dos governos progressistas e de esquerda da Am\u00e9rica Latina. Eu, humildemente, para al\u00e9m da opini\u00e3o de Alba Rico, acredito que algumas quest\u00f5es devem ser tratadas de forma diferente.<\/p>\n<p>Primeiro, estamos, no essencial, de acordo no que tange ao in\u00edcio do decl\u00ednio global do imp\u00e9rio estadunidense e o fato disso ser irrevers\u00edvel. Infelizmente, na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, essa tese \u00e9 compartilhada por setores minorit\u00e1rios da nossa sociedade, os quais, todavia, acreditam na eternidade e no car\u00e1ter inexpugn\u00e1vel do imp\u00e9rio americano, como se fosse uma maldi\u00e7\u00e3o b\u00edblica de realiza\u00e7\u00e3o inexor\u00e1vel. No entanto, ainda que compartilhasse dessa vis\u00e3o geral, n\u00e3o consigo entender como uma pessoa educada e perspicaz como ele subestima ou parece ignorar o papel que Washington teve na promo\u00e7\u00e3o de algumas das &#8220;Primaveras \u00c1rabes&#8221;. N\u00e3o em todas as revolu\u00e7\u00f5es no mundo \u00e1rabe, \u00e9 claro, mas na L\u00edbia, onde, segundo a sua an\u00e1lise, Barack Obama foi &#8220;desajeitado e inabilidoso&#8221;, at\u00e9 mesmo no youtube se poderia ver como este e sua secret\u00e1ria de Estado, Hillary Clinton, seguiam minuto a minuto o progresso dos &#8220;rebeldes&#8221; em Benghazi. Fabricavam, com a cumplicidade dos meios de comunica\u00e7\u00e3o &#8220;democr\u00e1ticos&#8221;, um bombardeio a\u00e9reo que nunca existiu, contra os supostos lutadores da liberdade, como atestou um correspondente no site da Telesur e depois foi divulgado em outros meios; e realizavam o t\u00e3o feroz e exultante linchamento de Muammar Gadaffi.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero dizer, com isso, que em todos os casos se reproduziu a sinistra conspira\u00e7\u00e3o iniciada na L\u00edbia, mas dever\u00edamos questionar mais a fundo. Especialmente, tendo em vista os antecedentes das famosas &#8220;Revolu\u00e7\u00f5es Coloridas&#8221; ou &#8220;de Veludo&#8221;, que proliferaram na Europa Oriental durante a desintegra\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, ou a conduta seguida pela Casa Branca na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, contra os governos hostis aos interesses estadunidenses. Havia diversas e leg\u00edtimas raz\u00f5es para a rebeli\u00e3o no caso que nos ocupa? Sim, sem d\u00favida. No entanto, ignorar o fato de que uma das dezesseis ag\u00eancias de intelig\u00eancia dos EUA pode ter tomado algumas medidas sobre o assunto, revela uma falha na an\u00e1lise. Obviamente, para que os agentes norte-americanos atuem em campo, deve existir um protesto real, surgido desde os de \u201cbaixo\u201d. Eles n\u00e3o podem inventar os protestos. Essa gente \u00e9 muito profissional. E os que t\u00eam d\u00favidas, consultem a obra de Gene Sharp, \u201cDa Ditadura \u00e0 Democracia\u201d, na qual ele apresenta um roteiro com tudo que se deve fazer para derrubar governos desp\u00f3ticos, invariavelmente, todos vinculados, de uma maneira ou outra, \u00e0 esquerda. Ou seja, Obama n\u00e3o esteve nem lento, nem desajeitado na quest\u00e3o l\u00edbia.<\/p>\n<p>Sim, ele ficou surpreso com o ocorrido na Tun\u00edsia e no Egito, mas, rapidamente, colocou seus meninos para trabalhar. Em rela\u00e7\u00e3o a esse assunto, tamb\u00e9m surpreende a aus\u00eancia de qualquer refer\u00eancia ao caso do Egito na an\u00e1lise de Alba Rico. Ali, a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi cooptada pelo Imp\u00e9rio, porque a for\u00e7a da Irmandade Mul\u00e7umana era muito grande. Tanto foi assim que, quando foram convocadas as elei\u00e7\u00f5es gerais, prevalecerau e projetou-se nas urnas um dos membros da Irmandade Mul\u00e7umana, Mohamed Morsi, para a presid\u00eancia. Durou pouco mais de um ano, at\u00e9 que um militar, formado e educado nos Estados Unidos, o Comandante Chefe do Ex\u00e9rcito, Abdul Fatah Al-Sisi, o dep\u00f4s e o enviou para a pris\u00e3o. Um tribunal condenou Morsi \u00e0 pena capital, o acusando pelas mortes e destro\u00e7os durante a revolu\u00e7\u00e3o, a senten\u00e7a foi apelada e, finalmente, o condenaram a vinte anos de c\u00e1rcere.<\/p>\n<p>Isso me leva a rever o que se afirma sobre o papel dos governos progressistas na Am\u00e9rica Latina. Come\u00e7o a questionar se o \u201cCiclo progressista latino-americano\u201d foi filho, tamb\u00e9m, da derrota sovi\u00e9tica. Mais correto seria afirmar que foi filho do j\u00e1 apontado decl\u00ednio da domina\u00e7\u00e3o norte-americana, da subestima\u00e7\u00e3o da Casa Branca em rela\u00e7\u00e3o ao impacto regional do chavismo, da certeza de que tinham os mandarins imperiais, de que a Am\u00e9rica Latina e o Caribe jamais se emancipariam da tutela norte-americana, da concentra\u00e7\u00e3o dos seus recursos na \u201cguerra contra o terrorismo\u201d e na guerra do Iraque. No entanto, se n\u00e3o ocorresse a derrota sovi\u00e9tica, seguramente, a evolu\u00e7\u00e3o destes governos progressistas seria ainda mais favor\u00e1vel. O caso de Cuba, irrefutavelmente, comprova isso. A desintegra\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica privou a ilha de um quadro de coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, diante das condi\u00e7\u00f5es draconianas impostas pelo bloqueio estadunidense, imp\u00f4s a esse pa\u00eds mergulhar no chamado \u201cper\u00edodo especial\u201d, que s\u00f3 o hero\u00edsmo e os sacrif\u00edcios de seu povo e a extraordin\u00e1ria lideran\u00e7a de Fidel conseguiram superar. Apesar de todos os horrores, sobreviveram \u00e0 morte de L\u00eanin e a degenera\u00e7\u00e3o final da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, quando a maior revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria da hist\u00f3ria sucumbiu, sem disparar um \u00fanico tiro nas m\u00e3os de uma m\u00e1fia local articulada com o capital internacional. Apesar disso tudo, reafirmo, mais uma vez, sem a presen\u00e7a da URSS no tabuleiro da geopol\u00edtica mundial, a derrota americana no Vietn\u00e3 seria impens\u00e1vel, assim como, a Revolu\u00e7\u00e3o Chinesa em 1949 e a sobreviv\u00eancia de Cuba desde o in\u00edcio da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dito isso tudo, creio tamb\u00e9m que \u00e9 um grave erro dizer que as revolu\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas do mundo \u00e1rabe foram \u201ccombatidas\u201d ou \u201cfreadas\u201d pelos governos de esquerda na Am\u00e9rica Latina e, mais que isso, tais inf\u00e2mias foram produzidas em nome da teoria dos tr\u00eas c\u00edrculos &#8220;feita por At\u00edlio Boron&#8221;. Nenhuma genu\u00edna revolu\u00e7\u00e3o pode ser interrompida a partir do exterior. As que eclodiram na R\u00fassia, China e Vietn\u00e3 triunfaram, apesar de violentos contra-ataques das pot\u00eancias regionais e, no caso das duas \u00faltimas, do imperialismo norte-americano. Na Am\u00e9rica Latina, a Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana prevaleceu, apesar da agressiva resposta dos Estados Unidos, e o mesmo cabe dizer sobre as revolu\u00e7\u00f5es em Cuba e Nicar\u00e1gua. Alguns governos latino-americanos e caribenhos, que viam com simpatia as revolu\u00e7\u00f5es no mundo \u00e1rabe, manifestaram, atrav\u00e9s de algumas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e for\u00e7as aliadas, um discurso de apoio. Como poderiam Havana, Caracas, Quito ou La Paz saltarem para o ringue e apoiar explicitamente processos revolucion\u00e1rios contra governos com os quais mantinham rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, econ\u00f4micas e pol\u00edticas? Consta-me que nenhum dos seus governantes simpatizava, por exemplo, com o regime de Hosni Mubarak, no Egito, ou de Muammar El Gadaffi, ou de Al Assad na S\u00edria. Da\u00ed para apoiar politicamente ou com armas insurgentes, h\u00e1 um longo caminho que s\u00f3 podem percorrer os governos que gozam da prote\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, o que lhes permite violar os padr\u00f5es internacionais com a impunidade. Al\u00e9m disso, dizer que esses governos de esquerda latino-americanos se abstiveram de colaborar com essas revolu\u00e7\u00f5es por causa da &#8220;teoria dos tr\u00eas c\u00edrculos&#8221; &#8211; que nem sequer tinha sido formulada nesse momento &#8211; me parece um absurdo.<\/p>\n<p>N\u00e3o vou insistir no tema do Imperialismo, porque acredito que tenha ficado claro na minha interven\u00e7\u00e3o anterior. Basta afirmar que o Imperialismo contempor\u00e2neo s\u00f3 pode ser preservado atrav\u00e9s do formid\u00e1vel poderio militar, econ\u00f4mica, cultural e pol\u00edtico dos Estados Unidos. E que, uma vez desgastados estes fundamentos do poder imperial, veremos amanhecer num novo sistema internacional, n\u00e3o necessariamente mais justo e humanit\u00e1rio. Provavelmente, algo mais parecido com as antecipa\u00e7\u00f5es sombrias de Thomas Hobbes sobre o Estado de Natureza e a guerra de todos contra todos, que a paz perp\u00e9tua e harmonia universal, profetizadas por Immanuel Kant. No entanto, isso n\u00e3o deve inibir a nossa condena\u00e7\u00e3o absoluta aos crimes cometidos pelo imp\u00e9rio dos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial e que, sem d\u00favida, est\u00e3o levando este planeta para sua pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de acreditar que a multipolaridade \u00e9 intrinsecamente virtuosa e que Alba Rico est\u00e1 certo sobre o risco de um &#8220;multidespotismo&#8221;, tampouco, cair em um \u201cantiamericanismo\u201d barato &#8211; coisa que detesto. Fidel nos ensinou que nosso problema n\u00e3o \u00e9 com o povo estadunidense, t\u00e3o oprimido, explorado e embrutecido como os demais &#8211; ainda que com m\u00e9todos mais sutis, amparados por uma fenomenal maquinaria propagand\u00edstica -, mas com a classe dominante dos Estados Unidos e seu \u201cplano de domina\u00e7\u00e3o mundial\u201d, tantas vezes denunciado por Noam Chomsky.<\/p>\n<p>Mas, se n\u00e3o desejamos cair num &#8220;antiamericanismo&#8221; de barricada, n\u00e3o podemos ocultar que \u00e9 esse o pa\u00eds, e nenhum outro, o principal e indispens\u00e1vel ator na sustenta\u00e7\u00e3o de um sistema criminal que est\u00e1 devastando o planeta e destruindo sociedades (Iraque, Afeganist\u00e3o, L\u00edbia e, agora, S\u00edria), com o \u00fanico prop\u00f3sito de se apropriar das riquezas e recursos dos pa\u00edses da periferia. \u00c0 luz desta an\u00e1lise, a compra massiva de terras na \u00c1frica, por parte da China, pode ser um ato conden\u00e1vel em termos morais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos, mas \u00e9 dif\u00edcil classific\u00e1-lo como pr\u00e1tica imperialista nos marcos da concep\u00e7\u00e3o marxista do Imperialismo. Podemos qualificar a R\u00fassia como imperialista, porque ela resiste que fechem toda a sua fronteira, do B\u00e1ltico ao Mar Negro, e ao cerco militar da OTAN, coisa que havia sido solenemente prometida pelos l\u00edderes ocidentais no in\u00edcio dos anos de 1990, quando asseguraram a Moscou que &#8220;a OTAN n\u00e3o se moveria um cent\u00edmetro sequer em dire\u00e7\u00e3o ao Leste&#8221;? A crise ucraniana \u00e9 a express\u00e3o da fraude pol\u00edtica perpetrada pelas boas almas democr\u00e1ticas do Ocidente. Mas, espere: Quem estava distribuindo garrafas de \u00e1gua e lanches para as bandas de neonazistas sitiando o pr\u00e9dio do governo em Kiev, exigindo a ren\u00fancia do Viktor Yanukovych? N\u00e3o era outra, sen\u00e3o a mesm\u00edssima Victoria Nuland, secret\u00e1ria-assistente de Estado dos Neg\u00f3cios Euroasi\u00e1ticos, cumprindo uma miss\u00e3o a mando do seu chefe, o Premio Nobel da Paz, Barack Obama. Qual era o seu papel? Derrubar Yanukovich a qualquer pre\u00e7o e com qualquer aliado, incluindo os neonazistas. R\u00fassia \u00e9 a inimiga n\u00famero um dos Estados Unidos, e n\u00e3o h\u00e1 escr\u00fapulo moral algum que deva interferir nesse fato. O embaixador dos EUA, na Ucr\u00e2nia, comentou com Nuland que a sua interfer\u00eancia excessiva e muito divulgada nos assuntos internos da Ucr\u00e2nia poderia ser imprudente, j\u00e1 que a crise deveria ser resolvida pelos dirigentes ucranianos e, talvez, refor\u00e7ar o papel de negocia\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia, enfraquecida pela lideran\u00e7a dos Estados Unidos. A resposta oficial da Secret\u00e1ria de Estado norte americana foi contundente: &#8220;Foda-se a Europa&#8221; [3]. Definitivamente, esses fatos n\u00e3o podem ser colocados na mesma categoria da compra chinesa de terrenos na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Estas diverg\u00eancias com Santiago Alba me preocupam, ainda mais, quando ele afirmou que estamos piores do que em 1914, &#8220;porque a tradi\u00e7\u00e3o marxista tem sido invalidada pela experi\u00eancia sovi\u00e9tica e n\u00e3o foi substitu\u00edda por qualquer outra pr\u00e1xis libertadora&#8221;. Para respond\u00ea-lo, telegraficamente, assim como os horrores do nazismo n\u00e3o desqualificam o conte\u00fado libertador do cristianismo como uma religi\u00e3o de escravos, a falida experi\u00eancia sovi\u00e9tica n\u00e3o inviabiliza a tradi\u00e7\u00e3o marxista. Acudo-o com a ajuda de Jos\u00e9 Saramago, nos Cadernos de Lanzarote, o autor diz que &#8220;N\u00e3o devemos aceitar que a justa acusa\u00e7\u00e3o e as justas den\u00fancias dos inumer\u00e1veis erros e crimes cometidos, em nome do socialismo, nos intimidem: nossa escolha n\u00e3o tem por que ser feita entre socialismos que foram pervertidos e capitalismos perversos de origem, mas entre a humanidade que o socialismo poder ser e a desumanidade que o capitalismo sempre tem sido. Aquele capitalismo com rosto humano, do qual tanto se falou nas d\u00e9cadas anteriores, n\u00e3o passava de uma m\u00e1scara hip\u00f3crita. Por sua vez, o \u2018capitalismo de Estado\u2019, perniciosa pr\u00e1tica dos chamados pa\u00edses do \u2018socialismo real\u2019, foi uma caricatura tr\u00e1gica do ideal socialista. Mas, esse ideal, apesar de t\u00e3o pisoteado e ridicularizado, n\u00e3o morreu, perdura e continua resistindo. Talvez por ser, simplesmente, ainda que n\u00e3o venha mencionado nos dicion\u00e1rios, um sin\u00f4nimo de esperan\u00e7a [4]\u201d. N\u00e3o tenho mais nada para acrescentar \u00e0s s\u00e1bias palavras do grande escritor portugu\u00eas. A S\u00edria merece uma reflex\u00e3o final. Primeiro, para dizer que esse pa\u00eds n\u00e3o tem sido o t\u00famulo das revolu\u00e7\u00f5es \u00e1rabes. Antes, ter\u00edamos que abordar extensamente sobre o Egito, o que Alba Rico n\u00e3o o faz, e n\u00e3o entendo as raz\u00f5es dessa aus\u00eancia. Em todo caso, foi ali, e n\u00e3o na S\u00edria, onde se frustraram essas revolu\u00e7\u00f5es, e onde o imperialismo imp\u00f4s uma li\u00e7\u00e3o brutal aos rebeldes. O recha\u00e7o \u00e0 Irmandade Mu\u00e7ulmana e ao fundamentalismo religioso n\u00e3o deveria ocultar esta realidade.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a essas revolu\u00e7\u00f5es frustradas, eu falaria, tamb\u00e9m, mais que mortes e tumbas, foram eclipses transit\u00f3rios. Recordar o que Ch\u00e1vez disse quando fracassou a insurrei\u00e7\u00e3o de 4 de fevereiro de 1992: &#8220;Por enquanto&#8221;. Ser\u00e1 quest\u00e3o de tempo para que o impulso revolucion\u00e1rio no mundo \u00e1rabe ressurja com novo vigor, porque se nutre de uma larga hist\u00f3ria de opress\u00e3o, descrimina\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o. Meu cr\u00edtico desqualifica a serventia do testemunho de uma freira que entre 2011 e 2015 viveu em Aleppo, cidade onde acredito que Alba Rico n\u00e3o tenha vivido nesses anos. O que ela disse \u00e9 determinante: \u00c9 uma guerra introduzida de fora, n\u00e3o porque o regime de Assad era um modelo virtuoso, foi um governo desp\u00f3tico e repressivo, como praticamente todos daquela parte do mundo. Cabe alguma d\u00favida? Por isso, vamos validar o papel de Washington como guardi\u00e3o mundial, que recorra pelo planeta &#8220;semeando democracia e direitos humanos&#8221;? N\u00e3o nos esque\u00e7amos dos &#8220;ensinamentos&#8221; de Franklin D. Roosevelt. Quando alguns congressistas democratas o visitaram na Casa Branca para expressar suas preocupa\u00e7\u00f5es pela ajuda que ele estava cedendo ao regime brutal de Anast\u00e1sio Somoza na Nicar\u00e1gua, o presidente respondeu: &#8220;Sim, ele (Somoza) \u00e9 um filho da puta. Mas \u00e9 o nosso filho da puta&#8221;. Washington manteve-se fiel a essa pol\u00edtica de Roosevelt de proteger &#8220;seus bastardos&#8221; e assediar os governos ind\u00f3ceis, n\u00e3o necessariamente anticapitalistas ou anti-imperialistas. Tolerar que os EUA fa\u00e7am o que querem, em qualquer pa\u00eds do mundo, seria suic\u00eddio, ainda que o regime a ser deposto seja uma ditadura. Em vez de desprezar o que a irm\u00e3 Guadalupe Rodrigo disse, seria melhor Alba Rico estudar seriamente o que ela disse. Na linha do que foi dito pela freira, \u00e9 a an\u00e1lise de um especialista sobre o Oriente M\u00e9dio, Robert Fisk, que tem denunciado sistematicamente o apoio que os EUA e seus aliados de &#8220;segundo escal\u00e3o&#8221; t\u00eam oferecido \u00e0s bandas dos &#8220;corta cabe\u00e7as&#8221; [5]. Na mesma nota, Fisk inclui uma entrevista com Yassin Al-Haj Saleh, um dos l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o ao regime de Assad, que se lamenta por Obama n\u00e3o ter adotado uma postura mais ativa sobre a crise s\u00edria. Confesso que fiquei desapontado ao ler isso.<\/p>\n<p>O informe anterior de Al-Haj Saleh contrasta com o que me informara um membro da Miss\u00e3o de Paz, que visitou Damasco em 2013 e entrevistou, tanto o chefe de Estado, como os principais l\u00edderes da oposi\u00e7\u00e3o. Inclusive, os mais amargamente cr\u00edticos de Al Assad reconheceram que as poss\u00edveis alternativas ao regime eram ainda piores: uma ditadura jihadista que decapitaria, por igual, comunistas, crist\u00e3os e todos os infi\u00e9is. Concordavam que era necess\u00e1ria uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e que o regime havia dado um primeiro passo ao libert\u00e1-los de suas injustas pris\u00f5es, mas as for\u00e7as que se opunham ao acordo eram extremamente poderosas, dentro da S\u00edria (ex\u00e9rcito e pol\u00edcia, principalmente) e fora, sobretudo os Estados Unidos e seus aliados de &#8220;segundo escal\u00e3o&#8221; europeus, que impuseram, como exig\u00eancia pr\u00e9via para qualquer negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a ren\u00fancia de Assad. At\u00e9 mesmo as comunidades crist\u00e3s, cr\u00edticas ao regime, reconheceram que a separa\u00e7\u00e3o entre Estado e religi\u00e3o era uma conquista em uma regi\u00e3o como o Oriente M\u00e9dio, onde tal coisa era uma not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o. Foi ap\u00f3s esse sistem\u00e1tico fracasso de di\u00e1logo pol\u00edtico que a R\u00fassia entrou em cena, para, depois de varrer os jihadistas em Aleppo, estabelecer as fr\u00e1geis bases de uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que o imperialismo sabotou tenazmente durante anos, deixando que a S\u00edria sangrasse (\u201cE que se dane a S\u00edria!\u201d, poderia dizer Nuland) e criando um problema insol\u00favel para a Uni\u00e3o Europeia. Isso se transformou em uma crise sem fim, e se abriram as portas do esgoto na pol\u00edtica europeia. \u00c9 certo que a avia\u00e7\u00e3o russa bombardeou Aleppo. Mas qual alternativa havia? Algu\u00e9m acredita que se pode combater o Estado Isl\u00e2mico com sete ave-marias ou com uma cita\u00e7\u00e3o do Cor\u00e3o? Por outra parte, o que fizeram os Aliados na Segunda Guerra Mundial? Os Estados Unidos lan\u00e7aram bombas at\u00f4micas no Jap\u00e3o, e sua avia\u00e7\u00e3o arrasou gratuitamente Dresde e muitas outras cidades alem\u00e3s, quando o ex\u00e9rcito nazista estava praticamente destru\u00eddo. Isto \u00e9 uma &#8220;luta por liberdade&#8221;, enquanto expulsar os jihadistas de Aleppo \u00e9 um ato de barb\u00e1rie ou uma mostra do &#8220;imperialismo&#8221; russo?<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o haver\u00e1 final feliz nessa hist\u00f3ria. Alba Rico tem raz\u00e3o quando diz que vivemos em uma \u00e9poca de enorme densidade hist\u00f3rica. A paulatina, mas inexor\u00e1vel decomposi\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio norte-americano causa todo tipo de fen\u00f4menos atrozes e bizarros, como assinala Ant\u00f4nio Gramsci em suas an\u00e1lises das crises org\u00e2nicas. Contudo, a lenta agonia do Imp\u00e9rio, em si mesma, \u00e9 uma boa not\u00edcia. A Hist\u00f3ria come\u00e7a a se abrir, e pelas suas portas entram todo tipo de personagens em luta, muitas vezes de maneira selvagem, para construir outro mundo. Que seja melhor ou pior, depender\u00e1 da autoconsci\u00eancia, capacidade organizativa e intelig\u00eancia pol\u00edtica com que atuem as for\u00e7as que, guiadas pela tradi\u00e7\u00e3o marxista, queiram construir um mundo melhor. N\u00e3o se pode prever o resultado. No entanto, podemos assegurar que nada de bom sair\u00e1 da alian\u00e7a entre esses atores da rebeldia com o imperialismo, seja com o n\u00facleo duro norte americano seja com o \u201csegundo escal\u00e3o\u201d europeu. Conv\u00e9m, ainda que em terras t\u00e3o distantes, recordar o que dissera Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui sobre o futuro da Nossa Am\u00e9rica: a revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o heroica de nossos povos, que dever\u00e1 ser levada ao fim sem contar com a benevol\u00eancia do Imp\u00e9rio. A tr\u00e1gica experi\u00eancia da Europa Oriental diante da desintegra\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica deveria servir como uma li\u00e7\u00e3o de sobriedade para os revolucion\u00e1rios do mundo \u00e1rabe que ainda confiam em seus &#8220;amigos&#8221; ocidentais. O monumento em homenagem a Ronald Reagan inaugurado no centro de Budapeste pelo Primeiro Ministro Viktor Orban \u00e9 uma triste recorda\u00e7\u00e3o do ingl\u00f3rio fim das &#8220;Revolu\u00e7\u00f5es Coloridas&#8221; aben\u00e7oadas pelo imperialismo.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>*Santiago Alba Rico \u00e9 um influente escritor e fil\u00f3sofo espanhol. Nas elei\u00e7\u00f5es de 2015, na Espanha, foi candidato a senador pelo PODEMOS. No Brasil, tem sido lido e divulgado por organiza\u00e7\u00f5es com refer\u00eancia trotskista a auto intituladas de &#8220;nova esquerda&#8221; (Nota do Tradutor).<br \/>\n1] \u201cImperialismo, imperialismos, Siria\u201d, Rebeli\u00f3n, 28 Dezembro 2016.<br \/>\n[2] <a href=\"http:\/\/www.aeinstein.org\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/DelaDict.pdf\" target=\"_blank\">http:\/\/www.aeinstein.org\/wp-<wbr \/>content\/uploads\/2013\/09\/<wbr \/>DelaDict.pdf<\/a><br \/>\n[3] O di\u00e1logo pode se escutar em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=CL_GShyGv3o\" target=\"_blank\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?<wbr \/>v=CL_GShyGv3o<\/a><br \/>\nA doce express\u00e3o de Nuland se encontra no segundo 37 da grava\u00e7\u00e3o.<br \/>\n[4] Nota do dia 7 de Dezembro nos Cadernos de Lanzarote, I.<br \/>\n[5] \u201cHay m\u00e1s de una verdad que contar sobre Alepo\u201d, en <a href=\"http:\/\/www.sinpermiso.info\/textos\/hay-mas-de-una-verdad-que-contar-sobre-alepo\" target=\"_blank\">http:\/\/www.sinpermiso.info\/<wbr \/>textos\/hay-mas-de-una-verdad-<wbr \/>que-contar-sobre-alepo<\/a><\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Imagens de destrui\u00e7\u00e3o na cidade de Alepo<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lu\u00eds Eduardo Fernandes (PCB)<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.atilioboron.com.ar\/2017\/01\/siria-la-revolucion-y-la-izquierda.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.atilioboron.com.ar\/<wbr \/>2017\/01\/siria-la-revolucion-y-<wbr \/>la-izquierda.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Resposta a San Tiago Alba Rico* Por Atilio Bor\u00f3n (Cientista Pol\u00edtico Argentino) Na sua r\u00e9plica ao meu artigo, Santiago Alba Rico, aprofunda seus \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13443\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-13443","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3uP","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13443","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13443"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13443\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13443"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}