{"id":13491,"date":"2017-02-08T10:27:21","date_gmt":"2017-02-08T13:27:21","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13491"},"modified":"2017-02-21T12:50:38","modified_gmt":"2017-02-21T15:50:38","slug":"o-nosso-encontro-com-o-socialismo-retomando-por-que-socialismo-de-albert-einstein","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13491","title":{"rendered":"O nosso encontro com o socialismo: retomando \u00abPor Que Socialismo?\u00bb de Albert Einstein"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.aporrea.org\/imagenes\/2016\/08\/chris_escuela.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/>Chris Gilbert*<\/p>\n<p>O ensaio que se segue faz parte de uma antologia publicada pelas editorias Boltxe (Euskal Herria) e Trinchera (Venezuela). Cada livro inclui diversas contribui\u00e7\u00f5es sobre a pergunta \u00ab<a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/por-que-socialismo\/\" target=\"_blank\">Por que socialismo?<\/a>\u00bb que Albert Einstein colocou no seu c\u00e9lebre artigo de 1949 assim intitulado, reativando assim um debate.<!--more--><\/p>\n<p>Por que optar pelo socialismo? \u00c9 comum alegar que o socialismo ser\u00e1 mais justo e equitativo que o capitalismo, mas isto n\u00e3o resolve o problema j\u00e1 que as pessoas nem sempre se sentem motivadas pela justi\u00e7a social. Por outro lado, h\u00e1 que considerar qu\u00e3o exigente e desafiante \u00e9 o projeto socialista: o objetivo \u00e9 mudar toda a sociedade! Em projetos de tal natureza as inten\u00e7\u00f5es e os impulsos operativos n\u00e3o s\u00e3o necessariamente racionais. Tamb\u00e9m h\u00e1 a dif\u00edcil quest\u00e3o da longevidade das motiva\u00e7\u00f5es, a quest\u00e3o de se o compromisso individual coincide (enquanto durar) com o objetivo socialista partilhado por outros durante o tempo suficiente para que se sedimente.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m preciso dizer que enquanto o socialismo foi compreendido como consequ\u00eancia necess\u00e1ria de um desenvolvimento hist\u00f3rico inexor\u00e1vel, n\u00e3o houve necessidade de perguntar por que socialismo? No per\u00edodo posterior \u00e0 morte de Karl Marx e at\u00e9 \u00e0 primeira metade do s\u00e9culo passado, o socialismo entendeu-se, habitualmente, como algo t\u00e3o inevit\u00e1vel que, para alguns pensadores, podia ver-se como pouco desej\u00e1vel para a humanidade, mas apesar disso era parte de um futuro inelud\u00edvel (basicamente, entres outros, a postura do economista austr\u00edaco Joseph Schumpeter) [1].<br \/>\nSer\u00e1 talvez aqui que nos encontramos com a verdadeira import\u00e2ncia do artigo \u00abPor que socialismo?\u00bb de Albert Einstein [2]. Mais que pelo seu conte\u00fado que inclui elementos interessantes \u2013 por exemplo a defesa de que s\u00f3 uma economia socialista planificada pode superar a mutila\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo imposta pelo capitalismo \u2013 este breve ensaio de 1949 constitui um marco por adoptar uma postura original: a de conceder que o socialismo n\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel e deve ser desejado. Efetivamente, o texto de Einstein reconhece que o socialismo deve ser ativamente procurado.<\/p>\n<p>Indubitavelmente, o interesse de Einstein na quest\u00e3o foi o resultado da crise geral de 1914 a 1945, que t\u00e3o profundamente sacudiu a f\u00e9 no progresso abstrato e nos esquemas da hist\u00f3ria universal. As li\u00e7\u00f5es daquela crise definem a \u00e9poca atual; o determinismo hist\u00f3rico tem hoje poucos adeptos, fora dos claustros acad\u00e9micos do marxismo anal\u00edtico [3]. Mais, a crise sist\u00e9mica que come\u00e7ou \u00e0 volta dos anos 70 do s\u00e9culo passado e continuou at\u00e9 ao presente foi t\u00e3o eficaz como a anterior na sua pulveriza\u00e7\u00e3o, uma vez mais, da f\u00e9 no progresso inevit\u00e1vel. Por estas raz\u00f5es, a pergunta por que socialismo \u2013 por que h\u00e1 que desejar e lutar pelo socialismo \u2013 permanece t\u00e3o vigente como foi no momento em que Einstein a colocou.<\/p>\n<p><strong>Textualmente na esteira de Marx<\/strong><br \/>\nNa generalidade, Karl Marx deixou de lado a pergunta por qu\u00ea socialismo (o que \u00e9 que motiva o indiv\u00edduo ou o coletivo a trabalhar pela sociedade socialista). Isto deve-se, em parte, \u00e0 sua obra ter nascido como um esfor\u00e7o de responder \u00abcientificamente\u00bb \u00e0s quimeras do socialismo ut\u00f3pico, cujos partid\u00e1rios tinham dominado o debate. Outra raz\u00e3o \u00e9 que Marx nem sempre foi alheio ao determinismo do seu momento e em algumas ocasi\u00f5es pareceu pensar que o efeito acumulativo das lutas sindicais e o crescimento num\u00e9rico do proletariado seriam suficientes para formar um sujeito revolucion\u00e1rio [4].<br \/>\nReconhecendo em Marx estas duas peias, apesar disso existe um encadeado de chaves liter\u00e1rias na sua obra que conduzem \u00e0 quest\u00e3o crucial, \u00abexistencial\u00bb, do empurr\u00e3o subjetivo para o socialismo, das raz\u00f5es para fazer a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx emprega duas figuras em apoio \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o comunista, o espectro do Manifesto comunista e a cegueira de Lu\u00eds Bonaparte do 18 de Brum\u00e1rio, ambas provenientes do Hamlet de Shakespeare. As refer\u00eancias s\u00e3o alus\u00f5es ao primeiro ato da obra em que o fantasma do velho rei visita as muralhas do castelo de Elsinor. Quando o fantasma est\u00e1 vis\u00edvel \u00e9 espectro \u2013 tamb\u00e9m \u00abapari\u00e7\u00e3o\u00bb e \u00abesp\u00edrito\u00bb \u2013, mas quando est\u00e1 atr\u00e1s da cortina \u00e9 chamado de \u00abcego\u00bb. Como podes cavar t\u00e3o depressa? comenta Hamlet quando o fantasma, nesse momento escondido, lhe pede o juramento.<\/p>\n<p>Frequentemente considera-se Hamlet como a obra constitutiva da moderna consci\u00eancia. A obra conta a hist\u00f3ria do personagem ep\u00f4nimo que luta por restaurar a ordem perdida, usurpado pelo seu tio Cl\u00e1udio, que assassinou o velho rei e pai de Hamlet. Visto que o aventureiro Cl\u00e1udio toma o destino nas suas pr\u00f3prias m\u00e3os (como faria outro usurpador shakespeariano, Macbeth) e \u00e9 um \u00abhomem que lavra o seu pr\u00f3prio \u00eaxito\u00bb, pode ser comparado com um burgu\u00eas. Assim, neste drama que data dos primeiros tempos do capitalismo europeu, o protagonista luta contra a nova ordem burguesa, e a sua inspira\u00e7\u00e3o prov\u00e9m de uma figura que \u00e9 velha: a figura paterna. Trata-se de um velho cego, um velho fantasma, uma voz do passado [5].<\/p>\n<p>Como interpretar esta voz shakespeariana do passado de que Marx se apropriou n\u00e3o s\u00f3 uma vez, mas em m\u00faltiplas ocasi\u00f5es [6]? Apesar disso, por que raz\u00e3o tantos textos marxistas, incluindo textos atuais, empregam as imagens do espectro e do cego para se referirem \u00e0 promessa do socialismo, com aquele pressagiando o poss\u00edvel advento do socialismo e este representando uma for\u00e7a revolucion\u00e1ria que irresistivelmente rebentar\u00e1 no presente? A melhor explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que o recurso a estas met\u00e1foras de Shakespeare por Marx e Engels \u2013 e mais importante, a sua import\u00e2ncia na tradi\u00e7\u00e3o marxista viva \u2013 implica que hoje ainda consideramos que o apelo do socialismo vem do passado e n\u00e3o de um futuro abstrato, nem se inspira na necessidade abstrata de progresso.<\/p>\n<p>Vale a pena sublinhar que esta forma de interpretar o discurso marxista \u2013 com os olhos postos no passado e procurando a\u00ed as raz\u00f5es as raz\u00f5es da revolu\u00e7\u00e3o socialista \u2013 n\u00e3o \u00e9 nova. De facto, \u00e9 um tema central na obra, influenciada pelo romantismo de Walter Benjamin. Benjamin afirmou criticamente no seu Sobre o conceito de hist\u00f3ria (1940) que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o se far\u00e1 por inveja do futuro, mas antes por uma felicidade que \u00e9 essencialmente pret\u00e9rita: a revolu\u00e7\u00e3o redime as vidas do presente e do passado. Em conson\u00e2ncia com esta obriga\u00e7\u00e3o de redimir o passado, Benjamin aponta a \u00abd\u00e9bil for\u00e7a messi\u00e2nica\u00bb conferida \u00e0s gera\u00e7\u00f5es vivas, \u00e0s quais o passado tem o direito de dirigir as suas reclama\u00e7\u00f5es. Como o pr\u00f3prio Hamlet, Benjamin reconhece que as reclama\u00e7\u00f5es que o passado faz ao presente \u00abn\u00e3o s\u00e3o facilmente satisfeitas\u00bb [7].<\/p>\n<p><strong>Uma coisa \u00abvelha\u00bb: o valor de uso<\/strong><\/p>\n<p>Seja qual for o papel atribu\u00eddo ao passado e aos seus mensageiros fantasm\u00e1ticos de Marx, Benjamin e Shakespeare, h\u00e1 que reconhecer que a ideia de que o passado proporciona o impulso para o socialismo \u00e9 profundamente n\u00e3o intuitiva. Por que \u00e9 que desde a modernidade se insiste que o motivo ou o apelo ao socialismo prov\u00e9m de uma \u00e9poca anterior? Se o socialismo se vai construir no futuro, por que \u00e9 que o apelo n\u00e3o prov\u00e9m do futuro? De facto, as respostas a estas perguntas t\u00eam muito que ver com a constru\u00e7\u00e3o da modernidade capitalista e mais especificadamente com a sua qualidade fantasmag\u00f3rica.<\/p>\n<p>Em \u00abO fetichismo da mercadoria e o seu segredo\u00bb, sec\u00e7\u00e3o chave de O Capital, Marx mostra como o mundo das mercadorias com a sua abstra\u00e7\u00e3o do trabalho humano na forma fetichista de valor, \u00e9 essencialmente fantasmag\u00f3rico: numa palavra, \u00e9 um mundo futurista. O reino \u00absensorialmente suprassens\u00edvel\u00bb a que Marx se refere nesta sec\u00e7\u00e3o de O Capital antecipa o mundo dos centros comerciais de hoje e a sua incessante apresenta\u00e7\u00e3o de produtos e encantos novos; este \u00e9 um mundo que excluir a morte, ao assumir paradoxalmente o rigor mortis das superf\u00edcies duras e brilhantes das mercadorias. Dada a natureza excessivamente moderna e futurista do universo das mercadorias, qualquer ruptura com este \u00e2mbito deve provir de uma voz subterr\u00e2nea ou de um espa\u00e7o metaf\u00f3rico que contrasta, pelo car\u00e1cter \u00abvelho\u00bb o unheimlich, com a aliena\u00e7\u00e3o futurista do capitalismo [8].<\/p>\n<p>Este espa\u00e7o metaf\u00f3rico, de certo modo compar\u00e1vel \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de espectro do pai de Hamlet, \u00e9 a esfera do valor de uso na modernidade capitalista. Como faceta suprimida da mercadoria, o valor de uso \u00e9, ami\u00fade, representado na arte, na filosofia, e inclusive na pol\u00edtica, como qualquer coisa pertencente a uma esp\u00e9cie de para\u00edso perdido [9]. Por exemplo, na poesia de Baudelaire e, um pouco mais \u00e0 frente, nos quadros de Paul Gauguin e Henri Matisse, o reencontro com valores e prazeres projeta-se sobre uma terra ex\u00f3tica ou mais primitiva de \u00abluxe, calme et volupt\u00e9\u00bb. Na filosofia, tal como os pensadores liberais apelam \u00e0 \u00abposi\u00e7\u00e3o original\u00bb e ao \u00abestado de natureza\u00bb para decidir quest\u00f5es fundamentais de justi\u00e7a social \u2013 situando o valor trans-hist\u00f3rico num espa\u00e7o que se imagina primordial \u2013 tamb\u00e9m Martin Heidegger apela a contextos campesinos arcaicos para evocar um mundo mais aut\u00eantico (regido pela utilidade) anterior \u00e0s pseudoconcretiza\u00e7\u00f5es do capitalismo [10].<\/p>\n<p>No \u00e2mbito pol\u00edtico, o projeto de recupera\u00e7\u00e3o de valores hist\u00f3ricos e ideais comuns \u2013 valores do passado que subjazem no presente \u2013 percebe-se claramente na luta abertzale basca que se leva a cabo em nome de um povo milen\u00e1rio que mora de ambos os lados dos Piren\u00e9us. Este projeto \u00e9 essencialmente socialista, apesar de estar marcado no resgate do que alguma vez existiu. Outro exemplo id\u00eantico \u00e9 projeto socialista bolivariano que, devido \u00e0 sua dimens\u00e3o continental, depende da reativa\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o latino-americana primordial que se encontra sepultada sob a modernidade balcanizada e capitalista do continente [11]. Em ambas as lutas, que se contam entre os esfor\u00e7os mais vibrantes para superar o capitalismo e criar um novo mundo socialista, o projeto constr\u00f3i-se sob a reden\u00e7\u00e3o do que h\u00e1 \u00abatr\u00e1s\u00bb e \u00abantes de\u00bb as pseudoconcretiza\u00e7\u00f5es fetichizadas do capitalismo.<\/p>\n<p><strong>Socialismo como obriga\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Que o chamado socialismo vem do passado confirma-o tamb\u00e9m a forma em que comumente utilizamos os termos e os conceitos. Isto \u00e9, a maioria da esquerda revolucion\u00e1ria coloca o socialismo n\u00e3o como uma simples op\u00e7\u00e3o, mas como uma obriga\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o existem obriga\u00e7\u00f5es com o porvir exceto na forma figurativa. Uma atitude revolucion\u00e1ria para o futuro seria a de preparar o caminho e manter a esperan\u00e7a: \u00aboptimismo do esp\u00edrito\u00bb (ao arrepio do que disse Gramsci). Pelo contr\u00e1rio, o motivo da luta socialista aproxima-se mais do cumprimento de uma promessa. \u00c9 uma promessa feita ao passado e \u00e0s gera\u00e7\u00f5es pret\u00e9ritas<\/p>\n<p>Como devemos considerar aqueles do passado a quem nos amarra esta obriga\u00e7\u00e3o? Podemos imaginar um longo cortejo de antepassados \u2013 como faria Jos\u00e9 Mart\u00ed num discurso muito pr\u00f3prio em 1893 \u2013 cujos projetos ainda est\u00e3o por realizar. Mart\u00ed evoca o rebelde paraguaio Jos\u00e9 de Antequera e o l\u00edder ind\u00edgena T\u00fapac Amaru, e tamb\u00e9m rememora Jos\u00e9 Antonio Gal\u00e1n e Juan Francisco Bebeo, ambos comuneiros colombianos [12]. As nossas refer\u00eancias nas lutas do passado podem diferir hoje, dependendo das condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas concretas. No entanto, o essencial aqui \u00e9 que quando estendemos a m\u00e3o \u00e0s gera\u00e7\u00f5es, como o faria Mart\u00ed, seja porque consideramos a humanidade como um projeto.<\/p>\n<p>Passando em revista esta ideia constatamos que se bem que se vislumbra o projeto da humanidade no humanismo renascentista, ele s\u00f3 se consolida no s\u00e9culo XVIII como ideal normativo. O projeto constitui a base que sustenta tanto a Declara\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem como o esquema da \u00abpaz perp\u00e9tua\u00bb que Immanuel Kant imaginou como poss\u00edvel efeito da crescente ades\u00e3o ao liberalismo [13]. Um s\u00e9culo depois, Simon Bol\u00edvar e o pr\u00f3prio Mart\u00ed tiveram o m\u00e9rito de ter lutado por uma p\u00e1tria latino-americana, mas as suas lutas sempre estiveram moduladas pela ambi\u00e7\u00e3o de uma p\u00e1tria humana; assim, vemos que a ideia da humanidade, de um projeto humano, ainda persiste como substrato de projeto de constru\u00e7\u00e3o nacional. No s\u00e9culo XX, o projeto da humanidade apenas se manteve vigente numa \u00e9poca turbulenta de guerras mundiais e genoc\u00eddios, mas sobreviveu pelo menos na ideologia do socialismo real, tanto na sua modalidade de \u00abluta final\u00bb como na forma posterior de \u00abconviv\u00eancia pac\u00edfica\u00bb. Tamb\u00e9m persistiu como horizonte nas lutas anticoloniais e antirracistas.<\/p>\n<p>Na rela\u00e7\u00e3o com estas gera\u00e7\u00f5es anteriores e a sua vis\u00e3o de humanidade como projeto digno de luta, a nossa gera\u00e7\u00e3o deu um enorme passo atr\u00e1s, um passo que expressa uma terr\u00edvel perda de ambi\u00e7\u00e3o e compromisso [14]. Regra geral n\u00e3o retom\u00e1mos as suas lutas nem mantivemos o ideal humano que lhes deu horizonte e alcance. Esta \u00e9 uma enorme perda, mesmo quando o nosso abandono, a nossa fuga a responsabilidades, \u00e9 inconsciente ou fruto da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Assim, hoje em dia apresentam-se duas op\u00e7\u00f5es para a nossa gera\u00e7\u00e3o. Ou persistimos neste estado \u00abtombado\u00bb ou recuperamos projetos pret\u00e9ritos, escutando o passado e os seus legados de luta. Para fazer isto temos que recuperar uma vis\u00e3o da humanidade que excede a soma dos indiv\u00edduos e v\u00ea-la de novo como projeto com uma longa trajet\u00f3ria de luta e sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Naturalmente, \u00e9 importante deixar claro que, no que respeita \u00e0s lutas chave do nosso passado \u2013 inclusive as que n\u00e3o foram explicitamente socialistas como os projetos de Bol\u00edvar, Mart\u00ed e Martin Luther King Jr. \u2013 a \u00fanica forma de hoje as manter vivas e dar-lhes uma base coerente \u00e9 o socialismo. No nosso tempo, dado o desenvolvimento da Hist\u00f3ria, s\u00f3 o socialismo pode garantir uma sociedade pac\u00edfica, livre de racismo e justa. Evidentemente, isto deve ser demonstrado. Mas abundam argumentos de peso como os que se desenvolvem no ensaio do pr\u00f3prio Einstein, que nos mostra, entre outras coisas, que uma economia capitalista conduz necessariamente ao caos, \u00e0 inseguran\u00e7a laboral e a m\u00faltiplas formas de injusti\u00e7a. A conclus\u00e3o, ent\u00e3o, \u00e9 que qualquer pessoa \u00e9 ou um traidor ao passado e ao seu legado, ou escolhe lutar e assumir o projeto que representa a continua\u00e7\u00e3o destes esfor\u00e7os anteriores: o projeto do socialismo.<\/p>\n<p><strong>Uma guinada cultural (positiva)<\/strong><\/p>\n<p>Este modo de ver as coisas ilustra-se com uma importante guinada na produ\u00e7\u00e3o cultural pr\u00e9via \u00e0 \u00faltima guinada do s\u00e9culo passado. At\u00e9 meados dos anos setenta do s\u00e9culo passado a tend\u00eancia dominante na literatura e no cinema, sobretudo na vertente da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, era a de representar novos futuros e cada vez mais avan\u00e7ados. Isto foi o que transmitiu, ami\u00fade com um toque de cepticismo, na tradi\u00e7\u00e3o que se estende de J\u00falio Verne e H.G. Wells at\u00e9 Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. No entanto, em meados dos anos setenta, esta postura orientada para o futuro esgotou-se, e a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica deu um salto espetacular: voltou o seu olhar para o passado.<\/p>\n<p>O filme chave desta viragem foi \u00abA guerra das gal\u00e1xias\u00bb, que se estreou em 1977 com o memor\u00e1vel texto de abertura: \u00abH\u00e1 muito tempo, numa gal\u00e1xia muito, muito long\u00ednqua\u00bb. Esta surpreendente pel\u00edcula de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica proclamou relatar acontecimentos sucedidos num passado, e tinha uma clara d\u00edvida com o romantismo evidenciado nos cavaleiros, princesas e magos que povoavam os seus cen\u00e1rios. Sem d\u00favida alguma, a pel\u00edcula \u00e9 med\u00edocre em quase todos os sentidos, mas a primeira s\u00e9rie da \u00abA guerra das gal\u00e1xias\u00bb marcou um ponto de inflex\u00e3o. Iniciou-se uma corrente rom\u00e2ntica e nost\u00e1lgica que continua dominante em grande parte da cultura de massas, como demonstra o \u00eaxito das recentes produ\u00e7\u00f5es, o Senhor dos an\u00e9is e a Guerra dos Tronos.<\/p>\n<p>Este regresso ao passado, que teve lugar no cinema e na televis\u00e3o na d\u00e9cada de setenta poder\u00e1 ter sido (e foi-o) interpretado como um facto negativo. Isto \u00e9, podia-se interpretar A guerra das gal\u00e1xias como uma simples evid\u00eancia da degenera\u00e7\u00e3o da atual cultura capitalista e a sua car\u00eancia de ideias (como parecem confirmar a miser\u00e1vel interpreta\u00e7\u00e3o e as cru\u00e9is reciclagens cinematogr\u00e1ficas do filme). No entanto, dada a natureza da \u00e9poca da guinada cultural que se evidenciou naquele momento, vemo-nos obrigados, pelo menos, a levar a s\u00e9rio e estrutura temporal de \u00abA guerra das gal\u00e1xias\u00bb. De facto, o filme p\u00f4s em evid\u00eancia a aprecia\u00e7\u00e3o essencialmente correta entre as audi\u00eancias populares de que o mito progressista tinha fracassado e que hoje a f\u00e9 num futuro predestinado superior \u00e9 insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente isto o que \u00abA guerra das gal\u00e1xias\u00bb, juntamente com a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica rom\u00e2ntica que segue na sua esteira, representa. Por um lado, o primeiro filme da s\u00e9rie, dirigida por George Lucas, reconheceu que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma garantia de que a humanidade v\u00e1 progredir para um ideal luminoso, reconhecimento que tamb\u00e9m \u00e9 feito com os filmes quase contempor\u00e2neos, Blade Runner (1982) e Brasil (1985), com a suas cenas dist\u00f3picas do futuro. Por outro lado, quer os guionistas quer as audi\u00eancias de \u00abA guerra das gal\u00e1xias\u00bb entenderam que n\u00e3o h\u00e1 nada a que estejam obrigados na vis\u00e3o progressista da vida: n\u00e3o h\u00e1 compromisso algum e, portanto, n\u00e3o h\u00e1 aventura.<\/p>\n<p>Mas se recuarmos uma d\u00e9cada que seja encontramos uma produ\u00e7\u00e3o radicalmente diferente, uma s\u00e9rie de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que coincidia com a tend\u00eancia ent\u00e3o dominante no seu g\u00e9nero, a que olhava para o futuro. Referimo-nos a Star Trek, a s\u00e9rie de culto que inicialmente foi transmitida entre 1966 e 1969. Ainda que superficialmente semelhante a \u00abA guerra das gal\u00e1xias\u00bb, esta s\u00e9rie televisiva tinha, de facto, um argumento contraposto. Encarnava uma cosmovis\u00e3o progressista que \u2013 em estreito paralelismo com os ideais positivistas da Segunda Internacional \u2013 predizia uma nova sociedade superior como produto do desenvolvimento hist\u00f3rico inexor\u00e1vel. Entre outros \u00eaxitos civilizacionais que se apresentam como faits accomplis em Star Trek, encontramo-nos com uma federa\u00e7\u00e3o interplanet\u00e1ria \u00e0 maneira do foedus pacificum internacional de Kant. Em Star Trek o iluminismo triunfa.<\/p>\n<p><strong>Walter Benjamin versus James Kirk<\/strong><\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, \u00abA guerra das gal\u00e1xias\u00bb de Lucas operou um registo totalmente diferente e a sua mensagem entra em profunda contradi\u00e7\u00e3o com o pensamento iluminista. Com uma mix\u00f3rdia que recicla as f\u00f3rmulas do western e a lenda medieval, a narrativa ao mais d\u00e9bil estilo hollywoodiano assenta em dois poderosos argumentos: o primeiro \u00e9 que h\u00e1 que lutar pela mudan\u00e7a e o segundo que h\u00e1 uma miss\u00e3o de longa data \u2013 um projeto humano que remonta a muitas gera\u00e7\u00f5es atr\u00e1s \u2013 que a gera\u00e7\u00e3o atual abandonou. A pel\u00edcula transmite \u00e0 audi\u00eancia \u2013 como o pr\u00f3prio fantasma shakespeariano que Marx adoptou no Manifesto Comunista \u2013 que cada um deve escolher entre participar nesta miss\u00e3o heroica (chame-se a miss\u00e3o emancipa\u00e7\u00e3o ou socialismo) ou ser um traidor a ela\u2026<\/p>\n<p>Isto conduz-nos de novo a Walter Benjamin e \u00e0s suas teses sobre a hist\u00f3ria. Muitas pessoas de inclina\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica lutaram com este dif\u00edcil texto que acabou por ser o derradeiro testamento te\u00f3rico do escritor alem\u00e3o. Uma das refer\u00eancias mais misteriosas no texto de Benjamin \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o sobre a presen\u00e7a de uma \u00abd\u00e9bil for\u00e7a messi\u00e2nica\u00bb na presente gera\u00e7\u00e3o (afirma\u00e7\u00e3o que referimos brevemente mais acima). Precisamente antes desta estranha frase, o texto menciona o \u00abeco daqueles que foram silenciados\u00bb nas \u00abvozes a que damos ouvidos hoje em dia\u00bb, e tamb\u00e9m alude \u00e0 surpreendente ideia de um compromisso secreto entre as gera\u00e7\u00f5es do passado e a nossa\u00bb [15].<\/p>\n<p>Esta sec\u00e7\u00e3o de Sobre o conceito de hist\u00f3ria de Benjamin \u00e9 na verdade enigm\u00e1tica. Por que \u00e9 a \u00abfor\u00e7a messi\u00e2nica\u00bb na atual gera\u00e7\u00e3o considerada \u00abd\u00e9bil\u00bb? E, por outro lado, que variante exc\u00eantrica da historiografia materialista prop\u00f5e Benjamin (visto que posiciona o seu texto como uma vertente cr\u00edtica do materialismo hist\u00f3rico)? Uma resposta completa a estas perguntas est\u00e1 fora do alcance deste ensaio. No entanto, para captar a ess\u00eancia destas teses de Benjamin n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ir mais al\u00e9m de uma das primeiras cenas de \u00abA guerra das gal\u00e1xias\u00bb, aquela em que o protagonista se encontra no planeta Tatooine com uma figura envelhecida que \u00e9 portadora de uma mensagem do passado. \u00c9 Obi-Wan Kenobi, mas no seu lugar podemos imaginar Sim\u00f3n Bolivar, Karl Marx ou mesmo Hugo Ch\u00e1vez. Nesta cena de \u00abA guerra das gal\u00e1xias\u00bb temos uma representa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica do \u00abcompromisso\u00bb de Benjamin entre o passado e as gera\u00e7\u00f5es presentes. A gera\u00e7\u00e3o anterior, representada por Obi-Wan, interpela a gera\u00e7\u00e3o presente para uma aventura, dizendo: H\u00e1 uma miss\u00e3o dif\u00edcil e de velha data; deves aprender sobre ela e ser-lhe leal.<br \/>\nA miss\u00e3o, a lealdade e a aventura \u2026 talvez estes aspectos do projeto humano sejam dif\u00edceis de expressar de forma conveniente fora da literatura e da arte, e n\u00e3o encaixam facilmente no contexto do ensaio te\u00f3rico. Ainda assim s\u00e3o essenciais para o socialismo. H\u00e1 que compreender que o projeto do socialismo \u2013 uma aspira\u00e7\u00e3o tanto expl\u00edcita como impl\u00edcita num grande n\u00famero de gera\u00e7\u00f5es pret\u00e9ritas \u2013 n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o mas uma obriga\u00e7\u00e3o. A miss\u00e3o que herd\u00e1mos do passado, a de alcan\u00e7ar o socialismo, exige lealdade e valentia se n\u00e3o a queremos atrai\u00e7oar. \u00c9 isto excessivo? S\u00f3 se o cinzentismo permanente do capitalismo tivesse acabado por se apoderar da imagina\u00e7\u00e3o humana poder\u00e1 considerar-se excessiva a afirma\u00e7\u00e3o. De facto, o socialismo e o seu projecto seriam decepcionantes se n\u00e3o atuassem \u2013 ao menos uma parte do tempo \u2013 neste registo heroico.<br \/>\n\u200b<br \/>\n<em>Notas<\/em><\/p>\n<p><em>[1] Joseph A. Schumpeter: Capitalismo, socialismo y democracia, Folio, Barcelona, 1996.<\/em><\/p>\n<p><em>[2] Albert Einstein: \u00abWhy Socialism?\u00bb, Monthly Review (Maio 1949).<\/em><\/p>\n<p><em>[3] Gerard A. Cohen: La teor\u00eda de la historia de Karl Marx: una defensa, Siglo XXI, Madrid, 1986, pp. 177-182.<\/em><\/p>\n<p><em>[4] Daniel Bensa\u00efd: La pol\u00edtica como arte estrat\u00e9gico, Oveja Roja, Madrid, 2013, p. 34.<\/em><\/p>\n<p><em>[5] O car\u00e1cter paternal do fantasma enfatiza-se duplamente na leitura de Hamlet que Stephen Dedalus no epis\u00f3dio 9 de Ulisses de James Joyce. Dedalus mant\u00e9m que Shakespeare, que tinha um filho chamado \u00abHamlet\u00bb interpretou o papel de fantasma do pai (o espectro) nas representa\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas da obra. \u00c9 interessante que Macbeth, uma obra um pouco mais tardia, p\u00f5e a hist\u00f3ria do usurpador \u00abburgu\u00eas\u00bb no centro da obra.<\/em><\/p>\n<p><em>[6] Outro exemplo \u00e9 Karl Marx: Speech at Anniversary of the \u00abPeople\u2019s Paper\u00bb, 1856 (<a href=\"http:\/\/www.marxists.org\/archive\/marx\/works\/1856\/04\/14.htm\" target=\"_blank\">www.marxists.org\/archive\/<wbr \/>marx\/works\/1856\/04\/14.htm<\/a>).<\/em><\/p>\n<p><em>[7] Walter Benjamin: Tesis sobre la historia y otros fragmentos, edici\u00f3n y traducci\u00f3n de Bol\u00edvar Echeverr\u00eda, Desde Abajo, Bogot\u00e1, 2010.<\/em><\/p>\n<p><em>[8] Sigmund Freud: \u00abLo ominoso\u00bb, Obras completas, volumen XVII (1917-1919): \u00abDe la historia de una neurosis infantil\u00bb y otras obras, Amorrortu Editores, Buenos Aires, 1978, pp. 217-225. <\/em><em>Seguindo Julia Kristeva podemos captar el sentido da palavra unheimlich, que ami\u00fade se traduz como \u00absinistro\u00bb, com a frase \u00abinquietante estranheza\u00bb.<\/em><\/p>\n<p><em>[9] Herbert Marcuse: Eros y Civilizaci\u00f3n, SARPE, Madrid, 1983, p. 33: \u00abE o passado continua a impor exig\u00eancias sobre o futuro: [o inconsciente] gera o desejo de que o para\u00edso seja criado outra vez sobre a base dos \u00eaxitos da civiliza\u00e7\u00e3o\u2026 La recherche du temps perdu chega a ser o ve\u00edculo da futura liberta\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/em><\/p>\n<p><em>[10] Mart\u00edn Heidegger: \u00abEl origen de la obra de arte\u00bb, Arte y Poes\u00eda, Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, M\u00e9xico, 1973. <\/em><em>O termo pseudoconcreta\u00e7\u00e3o vem de Karol Kosik: Dial\u00e9tica de lo concreto, Grijalbo, M\u00e9xico, 1967. Estudo sobre os problemas do homem e do mundo.<br \/>\n[11] Este \u00e9 o argumento de Jorge Abelardo Ramos na Historia de la Naci\u00f3n Latinoamericana, Continente, Buenos Aires, 2012.<\/em><\/p>\n<p><em>[12] Jos\u00e9 Mart\u00ed: \u00abBol\u00edvar\u00bb (Discurso vig\u00edlia da Sociedade Liter\u00e1ria Hispano-americana de 28 de Outubro de 1893), Pol\u00edtica de Nuestra Am\u00e9rica, Fondo Cultural del ALBA, La Habana, 2006, p. 145.<\/em><\/p>\n<p><em>[13] Immanuel Kant: Sobre la paz perpetua, Tecnos, Madrid, 1985.<br \/>\n[14] Esta perda de compromisso com o projecto humano regista-o Einstein com uma anedota em \u00abPor que socialismo?\u00bb sobre o \u00abhomem inteligente e bem-disposto\u00bb que se pergunta por que h\u00e1 que estar preocupado pelo desaparecimento da humanidade.<br \/>\n[15] Walter Benjamin: op. cit., veja-se a tese II.<\/em><\/p>\n<p><em>*Professor de Estudios Pol\u00edticos na Universidade Bolivariana de Venezuela<\/em><\/p>\n<p><em>Este artigo foi publicado em <a href=\"http:\/\/www.lahaine.org\/nuestra-cita-con-la-revolucion\" target=\"_blank\">http:\/\/www.lahaine.org\/<wbr \/>nuestra-cita-con-la-revolucion<\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Paulo Gasc\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/o-nosso-encontro-com-o-socialismo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Chris Gilbert* O ensaio que se segue faz parte de uma antologia publicada pelas editorias Boltxe (Euskal Herria) e Trinchera (Venezuela). 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