{"id":13531,"date":"2017-02-11T12:06:25","date_gmt":"2017-02-11T15:06:25","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13531"},"modified":"2017-03-02T18:17:51","modified_gmt":"2017-03-02T21:17:51","slug":"o-muro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13531","title":{"rendered":"O muro"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/fernandobuenabad_02.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Fernando Buen Abad Dominguez<\/p>\n<p>O Muro de Trump \u00e9 a imagem de outras barreiras &#8211; incluindo as de classe &#8211; que passam n\u00e3o pela fronteira, mas pelo interior do M\u00e9xico. S\u00f3 a men\u00e7\u00e3o de o acabar j\u00e1 atraiu simpatias de classe e solidariedades ideol\u00f3gicas. Dos dois lados do M\u00e9xico. J\u00e1 n\u00e3o somos t\u00e3o ing\u00eanuos que acreditemos que a iniciativa de <!--more-->uma aberra\u00e7\u00e3o assim nasceu apenas de um lado. Edificaram-se muros (comerciais, pol\u00edticos, raciais, educativos\u2026) de igual ou pior envergadura e sempre contaram com a cumplicidade volunt\u00e1ria de setores servis.<\/p>\n<p>De todas as formas poss\u00edveis de \u00absan\u00e7\u00e3o\u00bb, \u00abcr\u00edtica\u00bb ou \u00abdisciplinamento\u00bb com que um imp\u00e9rio gosta de \u00abcastigar\u00bb, Donald Trump escolheu um Muro e n\u00e3o o fez impensadamente (como dizem alguns dos seus detratores) nem o fez apenas por neg\u00f3cio como imaginam algumas das construtoras que sonham com o projeto\u2026<\/p>\n<p>Trata-se de uma opera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que tem ra\u00edzes profundas numa disputa territorial de latifundi\u00e1rios, que \u00e9 tamb\u00e9m simb\u00f3lica, por reafirmar-se na usurpa\u00e7\u00e3o e delimita\u00e7\u00e3o das \u00absuas\u00bb terras. Trump sonha com um Muro de 1600 quil\u00f4metros. L\u00f3gica <em>old fashion<\/em> como na China. Dos 3.200 quil\u00f3metros de fronteira entre os EUA e o M\u00e9xico quase um ter\u00e7o j\u00e1 tem vigas de cimento armado, cercas eletrificadas e c\u00e2maras de vigil\u00e2ncia.<\/p>\n<p>P\u00f4r um muro num territ\u00f3rio que tem uma hist\u00f3ria de ocupa\u00e7\u00e3o, corrup\u00e7\u00e3o e crime sem limites \u00e9 coerente com a l\u00f3gica da burguesia empenhada em transformar em amea\u00e7a tudo o que \u00e9 diferente. Especialmente se isso incluir cor de pele, idioma e cultura de racismo e todas as loucuras do imperialismo. O seu prot\u00f3tipo mais claro est\u00e1 em Israel. Custar\u00e1 25 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares e querem que seja o povo mexicano a pagar. A\u00ed est\u00e1 o verdadeiro \u00abcastigo\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 a l\u00f3gica dos \u00abbairros privados\u00bb que tanto encantam a pequena burguesia. O magnata imobili\u00e1rio sabe-o bem. O Muro d\u00e1 relevo \u00e0s ideias mais acarinhadas pela burguesia: \u00abisto \u00e9 meu\u00bb. Reafirma a \u00abpropriedade privada\u00bb e o distanciamento do \u00aboutro\u00bb. Configura a caracteriza\u00e7\u00e3o do \u00abdiferente\u00bb como \u00abperigoso\u00bb e surge como corretivo simb\u00f3lico indel\u00e9vel para que o mundo entenda de que lado est\u00e1 o \u00abpoder\u00bb. Quando o verdadeiro poder est\u00e1 sim do lado do povo\u2026 embora os povos (por enquanto) n\u00e3o se apercebam disso.<br \/>\nParece uma antiguidade de magnata petulante, parece um capricho de \u00abmenino rico\u00bb empenhado em castigar-nos com o seu ego desaforado. Parece uma idiotice\u2026 parecesse mil coisas num mundo em que nada \u00e9 o que parece. Embora pudesse tomar mil medidas alfandeg\u00e1rias, impositivas, tecnol\u00f3gicas\u2026 exibir os seus \u00abRambos\u00bb, os seus soldados, as suas armas. Embora pudesse semear paramilitares (como na Venezuela), pudesse financiar os seus Ku Klux Klans, drones, c\u00e3es, raios laser\u2026 pudesse impor leis mais \u00abduras\u00bb, imprensa mais amarela, patrulha de fronteira mais fascista\u2026 Embora pudesse mil coisas mais, mas escolheu o Muro. E isso n\u00e3o \u00e9 inocente.<\/p>\n<p>O Muro de Trump \u00e9 um b\u00e1lsamo midi\u00e1tico para as ang\u00fastias end\u00f3genas do Imp\u00e9rio. \u00c9 um b\u00e1lsamo oportunista de longa dura\u00e7\u00e3o e de efeitos incont\u00e1veis. \u00c9 um espelho ideol\u00f3gico de tijolo e cimento em que se espelha a partir de dentro a monstruosidade do capitalismo e a sua l\u00f3gica de esmagamento. Cada vez que Trump o menciona, fortalece um drama hist\u00f3rico infestado com a humilha\u00e7\u00e3o do saque e da escravatura anexos a que t\u00eam sido submetidos os imigrantes mais desvalidos e maltratados. Entretanto, as matilhas neoliberais, obedecendo ao imp\u00e9rio no M\u00e9xico, s\u00f3 acrescentam mais \u00aboutro tijolo ao muro\u00bb. O Muro \u00e9 uma forma de Guerra Ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Por agora, s\u00f3 a men\u00e7\u00e3o de acabar o Muro j\u00e1 atraiu simpatias de classe e solidariedades ideol\u00f3gicas. Dos dois lados do M\u00e9xico. J\u00e1 n\u00e3o somos t\u00e3o ing\u00e9nuos que acreditemos que a iniciativa de uma aberra\u00e7\u00e3o assim nasceu apenas de um lado. Edificaram-se muros (comerciais, pol\u00edticos, raciais, educativos\u2026) de igual ou pior envergadura e sempre contaram com a cumplicidade volunt\u00e1ria de sectores servis. Sempre foi assim. O Muro \u00e9 pois, uma forma de tortura como Trump gosta.<\/p>\n<p>Mencionar o Muro (acabar a constru\u00e7\u00e3o) serve tamb\u00e9m para alvoro\u00e7ar corifeus intermedi\u00e1rios que se dizem capazes de inspirar moral e m\u00e9todo na tarefa de ajoelhar-se perante o muro. Com os argumentos como \u00abseguran\u00e7a\u00bb, a estabilidade econ\u00f4mica\u00bb, o \u00abbem comum\u00bb e bl\u00e1 bl\u00e1 bl\u00e1 aos quatro ventos vociferam receitas diplom\u00e1ticas para ficar bem entre si. Os povos n\u00e3o t\u00eam lugar na mesa das suas partilhas. Uns j\u00e1 t\u00eam o or\u00e7amento para acabar o Muro, outros j\u00e1 t\u00eam o discurso para a sua inaugura\u00e7\u00e3o, outros t\u00eam os \u00abjornalistas\u00bb id\u00f4neos para desenvolver a cr\u00f4nica da constru\u00e7\u00e3o, minuto a minuto\u2026 enfim, todos querem uma talhada material e pol\u00edtica com que ampliar os seus neg\u00f3cios e as suas simpatias com o imp\u00e9rio.<br \/>\nO trabalho dos imigrantes n\u00e3o \u00e9 uma d\u00e1diva do imp\u00e9rio. H\u00e1 que tornar bem claro que cada d\u00f3lar ganho \u00e9 acumula\u00e7\u00e3o de riqueza para os ianques que se aproveitam do trabalho escravo. Os trabalhadores pagam um pre\u00e7o muito alto (n\u00e3o s\u00f3 pelo que levam as empresas parasitas que cobram pelos envios das remessas) mas porque a maioria imigrante sofre na pela diariamente e tem de contrair empr\u00e9stimos, embora viva com todas as limita\u00e7\u00f5es, sob o peso da dist\u00e2ncia, a saudade permanente, a condi\u00e7\u00e3o de &#8220;ilegal&#8221;, a marginaliza\u00e7\u00e3o, o racismo, o medo, a desconfian\u00e7a sistem\u00e1tica e os maus tratos consuetudin\u00e1rios. E tudo em terras que foram roubadas pelo imp\u00e9rio ianque. Isso tamb\u00e9m o Muro torna vis\u00edvel, o qual querem financiar com as remessas dos mexicanos.<\/p>\n<p>Esse Muro \u00e9 um ato de provoca\u00e7\u00e3o inaceit\u00e1vel e desumano. Cont\u00e9m a amea\u00e7a de matar e reprimir milhares de pessoas. \u00c9 um Muro pensado para acentuar a injusti\u00e7a de que padecem os imigrantes tratados como \u00abilegais\u00bb e \u00e9 um horror contra todas essas pessoas que, para sobreviver, procuram qualquer esp\u00e9cie de \u00abemprego\u00bb. A fronteira com os EUA \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 fonte permanente de abusos, explora\u00e7\u00e3o e ignominia como o projeto para completar este Muro \u00e9 uma afronta de tal calibre que temos de estar preparados para as consequ\u00eancias. Quem provoca o desemprego, quem gera a mis\u00e9ria toma agora medidas de \u00abcontrole\u00bb para p\u00f4r \u00abordem\u00bb na fronteira. Sem deixar de tirar proveito com as remessas, claro!<\/p>\n<p>O que o Muro n\u00e3o vai tapar \u00e9 o drama do desemprego, a barb\u00e1rie da humilha\u00e7\u00e3o, o inferno da fome e a monstruosidade do despojo. Pelo contr\u00e1rio. Deixa \u00e0 vista a barb\u00e1rie, a aberra\u00e7\u00e3o e a bofetada auspiciadas pela burguesia que n\u00e3o tem limites nem freios na fase predadora em que se encontra o imp\u00e9rio. O Muro \u00e9 o seu espelho.<\/p>\n<p>Eles levantam o Muro para nos calar e para deter toda a rebeldia, n\u00f3s (todos) podemos dar o exemplo e transformar o mundo. Vamos derrubar o Muro com as lutas ind\u00edgenas, camponesas e oper\u00e1rias. Que o Muro caia antes, durante e depois de o acabarem. Que o Muro venha abaixo por obra e gra\u00e7a dos trabalhadores, de aqui e de ali, imigrantes, e n\u00e3o imigrantes\u2026 unidos de uma vez por todas.<\/p>\n<p><em>Dr. Fernando Buen Abad Dominguez<\/em><\/p>\n<p>Universidade de Filosofia<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/fbuenabad.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">http:\/\/fbuenabad.blogspot.com\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/filimagen.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">http:\/\/filimagen.blogspot.com\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/universidaddelafilosofia.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">http:\/\/<wbr \/>universidaddelafilosofia.<wbr \/>blogspot.com\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/paperII\/FBuenAbad%211315843074@FBuenAbad\" target=\"_blank\">http:\/\/paperII\/FBuenAbad!<wbr \/>1315843074@FBuenAbad<\/a><\/p>\n<p><em>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.alainet.org\/es\/articulo\/193159\" target=\"_blank\">http:\/\/www.alainet.org\/es\/<wbr \/>articulo\/193159<\/a><\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o: Manuela Antunes<\/em><\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/o-muro\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Fernando Buen Abad Dominguez O Muro de Trump \u00e9 a imagem de outras barreiras &#8211; incluindo as de classe &#8211; que passam n\u00e3o \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13531\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[],"class_list":["post-13531","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3wf","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13531","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13531"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13531\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13531"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13531"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13531"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}