{"id":13545,"date":"2017-02-12T12:15:10","date_gmt":"2017-02-12T15:15:10","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13545"},"modified":"2017-03-02T18:18:18","modified_gmt":"2017-03-02T21:18:18","slug":"diante-da-dor-dos-outros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13545","title":{"rendered":"Diante da dor dos outros*"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/HqjlZlxQr1NQ8Rnu3X_GfdA7O0_4qB6Gs6txxIWkKjJHRbz6ATdMDaAQT8bLNm9qopr3Q84tHcjW5gUnXvwcHu_z5OQn50wi5RDdFYGS6udyzcYPimRpVQhOjwWMxQpYxeq3OFi4CRdx4dFy8Dq5R7S5qbB2ZS3XfDPOV8DWD-mW3ERrJuudqRuXVzbYQ-8rhXUguZSOr-oKCuZ48mClnumiatBFMx8YrrdLEG2MP-Oj0Ey5H8fA3WsaQzy9WA767ycZybaSkj4hE6Sju5AOxdlQQX0N8RyLPQPwg03zN2lOTH8QMiUgQggEfx4cSqlHMtmsrLLgEBUjQEYS6r68Xm5ixFxWHSEVMy_73HA6K_Abvp2JGlX2T4F9Rd650vUDy3MeGx9BjLgcy8NUIS-oOwEVJTIDsAkX6iBjYJDMU7f4MljB39cV00OrB6eEnUhew5XIx2JZp4kz5piZP6VaBFaEmqJkPzVYkv8ZuqYzxOcVl3xghJnjrT4Y_Ah7VSzSwW-BiGvRX_dNXoiQJDMFCbEYv7qrc7NLB7eV-5alxpm5OH9ZbYqClR7ocAPtO9RytfBHi_15lYkiyygVaRncNPQQPivshf_NwGOd-lXoeAhoLsH_Gf48YSbVQFhTVXJ69OMBdTKRQt12t5oNk4gID-7Caiy2qjjfiFKYkM479w=w549-h309-no\" alt=\"imagem\" \/>por Golbery Lessa<\/p>\n<p>Antes dos grandes massacres existe um per\u00edodo de luta em torno da estigmatiza\u00e7\u00e3o dos advers\u00e1rios e os massacrados s\u00e3o sempre os perdedores desta contenda discursiva. Esse jogo s\u00f3rdido expressa uma decad\u00eancia civilizacional determinada pelo fato de os principais protagonistas n\u00e3o estarem \u00e0 altura das tarefas impostas pela hist\u00f3ria em termos de compreens\u00e3o da realidade e propostas pol\u00edticas. <!--more-->Uma coisa \u00e9 aceitar a dimens\u00e3o b\u00e9lica da esfera pol\u00edtica, incontorn\u00e1vel nas revolu\u00e7\u00f5es populares e nas guerras contra o fascismo, outra \u00e9 acatar a ideia absurda de exterm\u00ednio moral e f\u00edsico dos advers\u00e1rios. As constantes e crescentes inciativas de estigmatiza\u00e7\u00e3o dos advers\u00e1rios pol\u00edticos no Brasil dos \u00faltimos anos, principalmente a partir de 2013, deveriam nos mobilizar mais seriamente para a efetiva\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es individuais e coletivas com o objetivo de sustar a atual marcha da insensatez que tem inviabilizado o debate e preparado trag\u00e9dias.<\/p>\n<p>Apesar de ter singularidades, o conte\u00fado e a forma da atual onda de m\u00fatua estigmatiza\u00e7\u00e3o entre os brasileiros n\u00e3o \u00e9 uma novidade na hist\u00f3ria do pa\u00eds e nem \u00e9 determinada pela exist\u00eancia das redes digitais. Ao contr\u00e1rio do afirmado por uma persistente lenda nacional, a sociedade brasileira nunca foi particularmente pac\u00edfica, sempre desrespeitou a alteridade e os padr\u00f5es de civilidade no espa\u00e7o p\u00fablico. Para S\u00e9rgio Buarque de Holanda, por exemplo, o \u201chomem cordial brasileiro\u201d n\u00e3o seria bondoso, mas movido pelo cora\u00e7\u00e3o, pelas paix\u00f5es, boas ou m\u00e1s, em detrimento da raz\u00e3o. Acolheria com maior amor e mataria com mais o mais \u00f3dio. Esta constata\u00e7\u00e3o verdadeira n\u00e3o deveria surpreender num pa\u00eds estruturado a partir da escravid\u00e3o e do consequente massacre sistem\u00e1tico de \u00edndios, negros e brancos pobres.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe justificativa racional para que a an\u00e1lise da moralidade dos governantes seja o centro do debate p\u00fablico, mesmo sendo verdadeiro que o tema n\u00e3o \u00e9 irrelevante para as quest\u00f5es relativas ao Estado. A moral de indiv\u00edduo ou grupo A ou B n\u00e3o pode ser o centro do debate porque o determinante do grau de corrup\u00e7\u00e3o de um sistema pol\u00edtico \u00e9 o desenho concreto e as possibilidades estruturais das institui\u00e7\u00f5es. Ao longo da hist\u00f3ria do Brasil e de outros pa\u00edses, foi frequente o fato de que o baixo n\u00edvel moral das interven\u00e7\u00f5es e das atitudes no espa\u00e7o p\u00fablico tenha ocorrido no contexto de um presumido esfor\u00e7o de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Isso aconteceu e ainda acontece porque a alega\u00e7\u00e3o repetida de que os outros grupos s\u00e3o corruptos e de que o pr\u00f3prio grupo \u00e9 honesto dispensa a apresenta\u00e7\u00e3o de ideias concretas sobre os rumos das institui\u00e7\u00f5es sociais e relativas a um programa pol\u00edtico fact\u00edvel. O moralismo pol\u00edtico \u00e9 ref\u00fagio de grupos incapazes de expressar um discurso coerente e de propor um projeto plaus\u00edvel e minimamente inclusivo de outros setores sociais.<\/p>\n<p>As possibilidades de um grupo pol\u00edtico usar ou n\u00e3o o moralismo no debate p\u00fablico e, portanto, de praticar ou n\u00e3o a estigmatiza\u00e7\u00e3o da alteridade, dependem da rela\u00e7\u00e3o entre os interesses objetivos da classe que se prop\u00f5e a representar e as necessidades do progresso social, bem como do tipo de advers\u00e1rio que enfrenta. As classes ultrapassadas pela marcha da hist\u00f3ria, como foi a nobreza a partir do avan\u00e7o do capitalismo, e passou a ser a burguesia com o amadurecimento desse sistema econ\u00f4mico, se expressam em partidos com dificuldade de fazer uma defesa racional persuasiva de seus projetos pol\u00edticos, pois suas propostas s\u00e3o excludentes das aspira\u00e7\u00f5es de outros grupos sociais. Basta observar o car\u00e1ter descaradamente c\u00ednico do neoliberalismo. Esta tend\u00eancia hist\u00f3rica se agrava nos pa\u00edses perif\u00e9ricos, nos quais a exclus\u00e3o total das classes populares ocorreu at\u00e9 no per\u00edodo ascendente da sociedade capitalista.<\/p>\n<p>O moralismo do discurso de Carlos Lacerda contra Get\u00falio Vargas, nos anos 1950, n\u00e3o era apenas um recurso de ret\u00f3rica, expressava principalmente a impossibilidade de a UDN (Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Nacional) apresentar um programa pol\u00edtico mais inclusivo e patri\u00f3tico do que o defendido pelo getulismo, pois os pressupostos ideol\u00f3gicos udenistas eram antipopulares e pr\u00f3-imperialismo norte-americano. No presente, o moralismo estigmatizante dos partidos de direita, dos setores conservadores da classe m\u00e9dia e de uma parte poderosa do Judici\u00e1rio expressam, em ess\u00eancia, o car\u00e1ter excludente e indefens\u00e1vel do neoliberalismo, a ideologia que, no fundo, os move e orienta, e que esteve escondida sob grossas nuvens de lacerdismo at\u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o do impeachment. Efetivado o golpe contra o governo Dilma, o moralismo desses setores tem sido substitu\u00eddo por uma cada vez mais c\u00ednica e constrangedora defesa das ideias neoliberais e dos seus representantes pol\u00edticos mais destacados, como Michel Temer e Jo\u00e3o D\u00f3ria. A pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o de classes efetivada pelo PT principalmente a partir de 2003 causou uma mudan\u00e7a na sua base social, na qual foram acrescentados setores da grande burguesia industrial-financeira e do agroneg\u00f3cio, e inoculou neste partido, paulatinamente, ideias provenientes da vis\u00e3o de mundo das classes dominantes. Isso explica porque, mesmo n\u00e3o tendo a mesma radicalidade presente na direita, o moralismo e a estigmatiza\u00e7\u00e3o dos advers\u00e1rios tamb\u00e9m passaram a se expressar no discurso de v\u00e1rios setores petistas, fato que tem potencializado o rebaixamento do debate p\u00fablico no pa\u00eds. Para colocar o debate pol\u00edtico nos trilhos da racionalidade e da civilidade \u00e9 necess\u00e1rio uma nova estrat\u00e9gia pol\u00edtica, fundada principalmente nos interesses e nas aspira\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas das classes populares.<\/p>\n<p>*O t\u00edtulo \u00e9 refer\u00eancia a um ensaio de Susan Sontag (1933-2004), escritora e cr\u00edtica de arte norte-americana, chamado \u201cRegarding the Pain of Others\u201d, no qual analisa a fun\u00e7\u00e3o social das fotografias do cotidiano das guerras.<\/p>\n<div class=\"fb-post\" data-href=\"https:\/\/www.facebook.com\/golbery.lessa\/posts\/1583077515054474\" data-width=\"552\" style=\"background-color: #fff; display: inline-block;\"><\/div>\n<p><iframe loading=\"lazy\" style=\"border: none; overflow: hidden;\" src=\"https:\/\/www.facebook.com\/plugins\/post.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fgolbery.lessa%2Fposts%2F1583077515054474&amp;width=500\" width=\"500\" height=\"531\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Golbery Lessa Antes dos grandes massacres existe um per\u00edodo de luta em torno da estigmatiza\u00e7\u00e3o dos advers\u00e1rios e os massacrados s\u00e3o sempre \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13545\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-13545","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3wt","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13545","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13545"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13545\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13545"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13545"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13545"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}