{"id":13549,"date":"2017-02-13T13:08:53","date_gmt":"2017-02-13T16:08:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13549"},"modified":"2017-03-02T18:18:21","modified_gmt":"2017-03-02T21:18:21","slug":"cia-sempre-esteve-de-olho-no-petroleo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13549","title":{"rendered":"CIA sempre esteve de olho no petr\u00f3leo brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/fXKvtpVPg1TeIzi_BsUMNQ8pnEUMbrxqlLKSeV2qYv-46iYKScanknrTZHMrbBq7fAnbmLvNybqDCn8N9Q9TgF0llNWLd0nJXlh3Yprpxwum39OwWWm52djFka2VpdIumYThZdocV1oZxXrSu7Aj6Q=s0-d-e1-ft#https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/media\/k2\/items\/cache\/f760663977d77059fbad524e87e56524_L.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Eduardo Vasco<\/p>\n<p>Relat\u00f3rios disponibilizados pela CIA (Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia dos EUA) desde o final do ano passado permitem tra\u00e7ar um hist\u00f3rico do monitoramento a respeito da explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo brasileiro.<!--more--><\/p>\n<p>Praticamente todos, desde a d\u00e9cada de 1950, ressaltam as possibilidades do Brasil alcan\u00e7ar a autossufici\u00eancia e tamb\u00e9m de abrir o setor do petr\u00f3leo para empresas estrangeiras.<\/p>\n<p><b>Preocupa\u00e7\u00e3o com parceria entre Brasil e URSS<\/b><\/p>\n<p>Alguns documentos mostram que os Estados Unidos acompanhavam com aten\u00e7\u00e3o as negocia\u00e7\u00f5es entre Brasil e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica no setor petrol\u00edfero pouco antes do golpe de 1964.<\/p>\n<p>Na virada da d\u00e9cada de 1950 para a d\u00e9cada de 1960, a URSS estava expandindo suas exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo para os pa\u00edses capitalistas. Um documento datado de 9 de junho de 1960 evidencia a preocupa\u00e7\u00e3o da CIA com a atividade sovi\u00e9tica na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Moscou \u201caparentemente est\u00e1 usando o petr\u00f3leo como um meio para explorar o sentimento nacionalista contra os investimentos dos EUA na ind\u00fastria petrol\u00edfera da Am\u00e9rica Latina e para romper os padr\u00f5es de mercado das companhias estadunidenses na \u00e1rea\u201d, comenta o informe.<\/p>\n<p>O mesmo relat\u00f3rio aponta que o Brasil havia importado em 1959 cerca de 420 mil barris de \u00f3leo cru da URSS em troca da exporta\u00e7\u00e3o de cacau. Um acordo de dezembro do mesmo ano havia proporcionado ao pa\u00eds sul-americano mais de 4 milh\u00f5es de barris anualmente durante tr\u00eas anos (aproximadamente 4% de todo o consumo brasileiro), embora o Brasil n\u00e3o tivesse certeza se completaria o acordo.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o de intelig\u00eancia dos EUA destaca que, em 1959, \u201cuma grande delega\u00e7\u00e3o\u201d de neg\u00f3cios do Brasil, incluindo membros da Petrobras, foi a Moscou para ver se era poss\u00edvel adquirir equipamento sovi\u00e9tico especializado. Depois, quatro t\u00e9cnicos sovi\u00e9ticos visitaram S\u00e3o Paulo para aconselhar uma empresa privada a extrair xisto.<\/p>\n<p>Outro documento, de 28 de agosto de 1961, aponta que \u201cos vastos dep\u00f3sitos de \u00f3leo de xisto no Brasil continuam a ser de interesse da URSS\u201d. Embora a Petrobras tivesse pedido um empr\u00e9stimo do Export-Import Bank dos EUA para financiar a constru\u00e7\u00e3o de uma usina piloto de \u00f3leo de xisto no Paran\u00e1, engenheiros da Petrobras visitariam o pa\u00eds socialista para estudar as opera\u00e7\u00f5es sovi\u00e9ticas relacionadas com o \u00f3leo de xisto.<\/p>\n<p>Logo depois, a Companhia Industrial de Rochas Betuminosas (CIRB) contratou t\u00e9cnicos sovi\u00e9ticos para fazerem estudos geol\u00f3gicos e t\u00e9cnicos a fim de determinar a viabilidade do desenvolvimento comercial dos dep\u00f3sitos de \u00f3leo de xisto no Vale do Para\u00edba, em S\u00e3o Paulo. Pelo acordo, em meados de 1962 a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica forneceu equipamento e assist\u00eancia t\u00e9cnica para a constru\u00e7\u00e3o da usina de produ\u00e7\u00e3o de g\u00e1s de xisto em Pindamonhangaba, munic\u00edpio da regi\u00e3o. No final de 1960, especialistas sovi\u00e9ticos j\u00e1 haviam ficado tr\u00eas meses no local, com a aprova\u00e7\u00e3o do antigo Conselho Nacional do Petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Estimava-se que o sudeste do Brasil continha reservas de 102 bilh\u00f5es de barris de \u00f3leo de xisto, menor apenas do que as dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagemp\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/iBblv1HMRSRMEca4bZvuHiqdZlMq4Y-GSFj9H2s-AWhK3-zPzIULpSTM4q_FMbUFkqbAvKpw8-LKl9jSrRPeoWNVST85pV3tH8o4e-0hIsjCp1Jv-iHaNKmDoANnMOG__IevrPtvu2EfHaIYLn8i=s0-d-e1-ft#https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/images\/images_thumbs\/ff0d21a36f41d84a2e984afb7b5b97f7.jpeg\" alt=\"imagem\" \/><\/p>\n<p><em>Relat\u00f3rio de 16 de mar\u00e7o de 1962 (Arquivo: CIA)<\/em><\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o brasileira de petr\u00f3leo vinha aumentando a cada ano, embora o pa\u00eds necessitasse importar a maior parte do que consumia. Mesmo assim, a CIA comentava, em 16 de mar\u00e7o de 1962: \u201cas condi\u00e7\u00f5es parecem favor\u00e1veis para o desenvolvimento de \u00f3leo de xisto.\u201d<\/p>\n<p>A URSS utilizava o \u00f3leo de xisto na fabrica\u00e7\u00e3o de produtos qu\u00edmicos a partir de seus derivados e tamb\u00e9m em locomotivas e usinas termoel\u00e9tricas.<\/p>\n<p>\u201cA capacidade sovi\u00e9tica para fornecer assist\u00eancia tecnol\u00f3gica no desenvolvimento de uma ind\u00fastria de \u00f3leo de xisto no Brasil \u00e9 baseada em mais de 40 anos de experi\u00eancia na \u00e1rea, incluindo produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, g\u00e1s e produtos qu\u00edmicos do xisto e seu uso como um combust\u00edvel s\u00f3lido\u201d, relata a ag\u00eancia.<\/p>\n<p>Assim, o Kremlin poderia fornecer ao Brasil qualquer tipo de equipamento para a ind\u00fastria de \u00f3leo de xisto encontrado no Ocidente e outros exclusivamente sovi\u00e9ticos. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tamb\u00e9m era o \u00fanico pa\u00eds que desenvolvia uma ind\u00fastria de g\u00e1s de xisto.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o das reservas de \u00f3leo de xisto era levada em considera\u00e7\u00e3o por altos oficiais, possivelmente com o aux\u00edlio dos EUA ou da URSS, segundo informou um agente em 23 de mar\u00e7o de 1962. \u201cEsse programa, se prometer ser bem-sucedido, teria forte apoio de l\u00edderes pol\u00edticos e militares que h\u00e1 tempos se op\u00f5em \u00e0 depend\u00eancia de fontes estrangeiras de petr\u00f3leo.\u201d<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia com a URSS ainda \u00e9 mais acentuada, no mesmo relat\u00f3rio, afirmando-se que o governo do ent\u00e3o presidente Jo\u00e3o Goulart tem dado continuidade \u00e0 pol\u00edtica \u201cde desenvolver rela\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas com o bloco sino-sovi\u00e9tico\u201d do governo anterior de J\u00e2nio Quadros, a quem o agente se referiu como tendo desempenhado \u201catividades anti-EUA\u201d.<\/p>\n<p>Quadros assumira o mandato em janeiro de 1961 e renunciara apenas sete meses depois, denunciando inclusive a participa\u00e7\u00e3o estrangeira em conspira\u00e7\u00f5es contra ele. Jo\u00e3o Goulart, ent\u00e3o vice-presidente, tomou posse em seu lugar e dois meses depois reatou rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas do Brasil com a URSS ap\u00f3s 13 anos.<\/p>\n<p>Poucos dias depois do \u00faltimo comunicado, a CIA escreve outro, vendo a possibilidade de Moscou utilizar o projeto \u201ccomo uma oportunidade para demonstrar a efici\u00eancia dos t\u00e9cnicos sovi\u00e9ticos e como os precursores de extensa ajuda para o desenvolvimento do xisto em coopera\u00e7\u00e3o com a Petrobras\u201d.<\/p>\n<p>Em outubro de 1963, a espionagem estadunidense envia um relat\u00f3rio sobre as atividades econ\u00f4micas do bloco sino-sovi\u00e9tico em pa\u00edses do Terceiro Mundo. \u00c9 dedicada uma p\u00e1gina inteira \u00e0s recentes atividades no Brasil, mas somente o resumo de um par\u00e1grafo foi disponibilizado no site da CIA. Informava das potencialidades para o desenvolvimento de petr\u00f3leo na Amaz\u00f4nia e no nordeste do pa\u00eds, segundo um comunicado sovi\u00e9tico enviado \u00e0 Petrobras.<\/p>\n<p><b>Golpe militar e esfriamento das rela\u00e7\u00f5es com a URSS<\/b><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagemp\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/proxy\/oXprp0Gkb1ZTFOzj--bGxkCBBf6nFeJBUt9hYyQS3PnCD88JCSbtGPINGdNNc2u5RygHDDAywngYqtKNp2D_6qKRrjOXT69uGyWTf6neMJGXSIyhFfz3FyxacYYqKkdJGrxLXUyZXWQB1HIK0E8U=s0-d-e1-ft#https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/images\/images_thumbs\/86b4c6317506e77bdadd2bb5b9d86d5e.jpeg\" alt=\"imagem\" \/><\/p>\n<p><em>Relat\u00f3rio de 19 de mar\u00e7o de 1964 (Arquivo: CIA)<\/em><\/p>\n<p>As refinarias privadas de Capuava, Ipiranga, Manguinhos, Amazonas e Destilaria Riograndense seriam encampadas a partir de 15 de abril de 1964, de acordo com decreto assinado por Jo\u00e3o Goulart no com\u00edcio da Central do Brasil, em 13 de mar\u00e7o do mesmo ano, como parte das Refomas de Base. A essa altura, Jango j\u00e1 se apoiava nas for\u00e7as populares para se defender dos ataques conservadores que o acuavam cada vez mais.<\/p>\n<p>Na semana seguinte, a CIA mostrava preocupa\u00e7\u00e3o com as medidas nacionalistas do presidente brasileiro. \u201cH\u00e1 rumores na imprensa de que o pr\u00f3ximo passo de Goulart ser\u00e1 expropriar companhias privadas de distribui\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo que t\u00eam pesados investimentos europeus e dos EUA\u201d, relata um agente. E continua: \u201cA embaixada dos EUA duvida que Goulart v\u00e1 t\u00e3o longe em provocar os EUA e outros governos nesse momento, mas diz que a possibilidade n\u00e3o pode ser descartada.\u201d<\/p>\n<p>Em 1\u00ba de abril, Jango e suas reformas s\u00e3o derrubados por um golpe militar. Posteriormente, descobrem-se provas de que os Estados Unidos desempenharam importante papel nos acontecimentos. Washington apoiou o golpismo de diversas formas, desde o financiamento de pol\u00edticos opositores, meios de comunica\u00e7\u00e3o, entidades da sociedade civil, at\u00e9 o deslocamento de navios pr\u00f3ximos \u00e0 costa brasileira.<\/p>\n<p>Militares participantes do golpe e do restante do per\u00edodo foram treinados por instrutores estadunidenses na Escola das Am\u00e9ricas, no Panam\u00e1.<\/p>\n<p>De acordo com o ministro do Trabalho do Governo Jango, Almino Affonso, o monop\u00f3lio estatal do petr\u00f3leo era uma quest\u00e3o central do golpe militar que vinha desde o governo de Get\u00falio Vargas, quando foi criada a Petrobras, em 1953.<\/p>\n<p>\u201cA cria\u00e7\u00e3o da Petrobras e da Eletrobras [estatal de energia el\u00e9trica], proposta por Vargas, confrontava interesses norte-americanos de maneira absoluta, porque ambas feriam os interesses que eles gostariam de ver triunfar no Brasil. Ou seja: gostariam de participar da explora\u00e7\u00e3o direta do petr\u00f3leo, sozinhos ou como parte da Petrobras\u201d, declarou em uma <a href=\"https:\/\/soundcloud.com\/riobravoinvestimentos\/almino-affonso-as-memorias-dos-idos-de-marco-de-1964\" target=\"_blank\">entrevista<\/a> em 2014. Ele n\u00e3o descartou a influ\u00eancia de \u201cinteresses escusos\u201d sobre pol\u00edticos da oposi\u00e7\u00e3o, que desde a d\u00e9cada de 1950 vinham pressionando por uma maior liberaliza\u00e7\u00e3o do setor.<\/p>\n<p>O historiador e cientista pol\u00edtico Roberto Bitencourt da Silva lembra tamb\u00e9m que no final dos anos 1950 uma CPI (Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito) encabe\u00e7ada por parlamentares da esquerda nacionalista denunciou o envolvimento direto das petrol\u00edferas multinacionais Esso e Shell \u201cpor condicionarem a imprensa brasileira em um sentido entreguista, via vultuosas propagandas, possivelmente conformando os maiores gastos de anunciantes no Brasil\u201d. A Esso patrocinava um programa de r\u00e1dio e TV, \u201cRep\u00f3rter Esso\u201d, que veiculava o ponto de vista contr\u00e1rio da empresa ao monop\u00f3lio estatal do petr\u00f3leo, assim como \u00e0 limita\u00e7\u00e3o de remessa de lucros para o exterior.<\/p>\n<p>O regime p\u00f3s-64 n\u00e3o rompeu com o bloco comunista, mas esfriou suas rela\u00e7\u00f5es, limitando-as mais ainda ao com\u00e9rcio e a acordos de coopera\u00e7\u00e3o de pouca import\u00e2ncia. Al\u00e9m disso, perseguiu com m\u00e3o de ferro as ideias de esquerda dentro do pa\u00eds. Mas no \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es internacionais, havia um certo pragmatismo.<\/p>\n<p>No entanto, o que parecia ser uma firme parceria no setor do petr\u00f3leo acabou por desmoronar-se. Logo nos primeiros anos do regime militar, a Petrobras cortou rela\u00e7\u00f5es com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica sobre a lavra do xisto e, para construir a usina piloto de S\u00e3o Mateus do Sul, no Paran\u00e1, aproximou-se da empresa estadunidense Cameron &amp; Jones Company, que desde 1958 havia se interessado no projeto. A companhia era ligada ao Escrit\u00f3rio de Minas do Governo dos EUA em opera\u00e7\u00f5es de \u00f3leo de xisto no Colorado.<\/p>\n<p>Um ano ap\u00f3s o golpe, o governo aprovou o investimento privado de qualquer origem na ind\u00fastria petroqu\u00edmica. Isso beneficiou empresas como a Union Carbide, a Phillips Petroleum e o grupo Rockefeller, al\u00e9m da Dow Chemical \u2013 presidida no Brasil pelo general Golbery do Couto e Silva, uma das principais figuras do regime e ex-diretor do IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), que conspirou contra Jango e era financiado pelo governo dos EUA.<\/p>\n<p>Foi a realiza\u00e7\u00e3o parcial do interesse expresso desde os anos 1950 de privatiza\u00e7\u00e3o ou participa\u00e7\u00e3o de capital privado estrangeiro em empresas estatais, especialmente de petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Logo depois, franqueou-se o aproveitamento do xisto betuminoso da regi\u00e3o sul que at\u00e9 ent\u00e3o era reservado \u00e0 Petrobras.<\/p>\n<p>Curiosamente, por outro lado, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica continuou desenvolvendo pesquisas para a constru\u00e7\u00e3o do complexo de xisto da CIRB em S\u00e3o Paulo, pelo menos at\u00e9 1968, conforme dois relat\u00f3rios da CIA.<\/p>\n<p><b>Relat\u00f3rios detalhados sobre riquezas naturais brasileiras<\/b><\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980 a CIA manteve a produ\u00e7\u00e3o de informes sobre as rela\u00e7\u00f5es do Brasil com diversos pa\u00edses e sua produ\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de riquezas naturais. O principal interesse continuou sendo o petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio de 1975 diz que o ent\u00e3o presidente Ernesto Geisel era favor\u00e1vel \u00e0 ideia de ter empresas estrangeiras trabalhando no setor petrol\u00edfero. De fato, o governo foi afrouxando a partir da d\u00e9cada de 1970 o monop\u00f3lio estatal da Petrobras.<\/p>\n<p>Os principais respons\u00e1veis por essa pol\u00edtica foram o ent\u00e3o ministro de Minas e Energia, Shigeaki Ueki, e o economista e ex-ministro do Planejamento no governo de Castelo Branco, Roberto Campos, que defenderam \u201carduamente\u201d os chamados contratos de risco, segundo Carlos Alberto Lucena, em seu livro \u201cTempos de destrui\u00e7\u00e3o: educa\u00e7\u00e3o, trabalho e ind\u00fastria do petr\u00f3leo no Brasil\u201d.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 1970 o Brasil havia declarado que seu territ\u00f3rio mar\u00edtimo era at\u00e9 200 milhas da costa, o que contraria os interesses dos EUA. Relat\u00f3rio de 1974 intitulado \u201cEstudo da Lei do Mar \u2013 Brasil\u201d, com informa\u00e7\u00f5es pormenorizadas, mas que n\u00e3o foi totalmente disponibilizado na internet, ressalta que esse posicionamento do governo brasileiro restringia atividades de pesca dos EUA. O pa\u00eds norte-americano acabou fazendo um acordo para continuar operando nas \u00e1guas da regi\u00e3o norte do Brasil, apesar de algumas limita\u00e7\u00f5es e do pagamento de 200 mil d\u00f3lares anuais.<\/p>\n<p>Em 1979, Ueki assumiu a presid\u00eancia da Petrobras at\u00e9 o fim do regime militar (1984) e o caminho para a abertura da companhia ao capital estrangeiro continuou sendo trilhado. Na metade da d\u00e9cada de 1980, a empresa j\u00e1 havia come\u00e7ado a trabalhar junto com companhias estrangeiras. Por meio de decretos-leis e do sucateamento da Petrobras, o governo buscou iniciar as privatiza\u00e7\u00f5es das estatais, que se tornariam realidade no final dos anos 1980 e durante a d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>Documentos da CIA de 1986 tamb\u00e9m apontavam nessa dire\u00e7\u00e3o. Um deles dizia que as pol\u00edticas adotadas por organiza\u00e7\u00f5es comerciais estatais (State Trading Organizations, STOs na sigla em ingl\u00eas) de pa\u00edses do Terceiro Mundo, como o bloqueio de investimentos estrangeiros, afetam os interesses dos EUA ao reduzir a competitividade de suas companhias e serem hostis ao livre com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio sugere ainda que os EUA deveriam pressinar por reformas nessas empresas estatais (como a Petrobras e a Vale do Rio Doce, algumas das maiores e mais importantes STOs citadas) atrav\u00e9s de diversos organismos internacionais, porque seu desmantelamento favoreceria os interesses comerciais e pol\u00edticos do governo estadunidense.<\/p>\n<p>O outro, do mesmo ano, afirmava que as novas descobertas de campos de petr\u00f3leo brasileiros no final dos anos de 1980 \u201ct\u00eam o potencial de, no in\u00edcio dos anos de 1990, reduzir, sen\u00e3o eliminar, a depend\u00eancia do pa\u00eds na importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo\u201d.<\/p>\n<p>Segundo esse \u00faltimo relat\u00f3rio, as implica\u00e7\u00f5es do desenvolvimento da \u00e1rea petrol\u00edfera da Bacia de Campos (onde, em 1984, foi descoberto o primeiro campo gigante em \u00e1guas profundas, o de Albacora) e outras \u00e1guas profundas para os EUA eram os seguintes: assist\u00eancia de companhias de engenharia estrangeiras na explora\u00e7\u00e3o do que fosse encontrado em \u00e1guas profundas; oportunidades para empresas estadunidenses vencerem contratos de perfura\u00e7\u00e3o na explora\u00e7\u00e3o adicional de offshores; e concess\u00f5es comerciais do Brasil, facilitando as chances para exporta\u00e7\u00f5es dos EUA entrarem no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio adverte, entretanto, que empresas dos EUA enfrentariam a competi\u00e7\u00e3o de outros pa\u00edses para operar em parceria com a Petrobras e que as companhias brasileiras poderiam ficar em uma posi\u00e7\u00e3o muito forte para competir no mercado offshore mundial na d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>Entre os <a href=\"https:\/\/www.cia.gov\/library\/readingroom\/search\/site\/Petrobras\" target=\"_blank\">arquivos que citam a Petrobras<\/a>, nenhum dos que est\u00e3o dispon\u00edveis \u00e9 datado da d\u00e9cada de 1990 para frente.<\/p>\n<p>Em 1995, o monop\u00f3lio estatal da Petrobras foi quebrado pelo Congresso brasileiro, o que permitiu a abertura do setor petrol\u00edfero \u00e0 iniciativa privada em 1997 pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. No mesmo ano, o governo privatizou a Vale.<\/p>\n<p><b>A hist\u00f3ria se repete?<\/b><\/p>\n<p>Em entrevista concedida no in\u00edcio deste ano ao jornalista Fernando Morais, o fundador do Wikileaks, Julian Assange, <a href=\"https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/brasil\/item\/119182-assange-golpe-no-brasil-estava-sendo-construido-ha-muito-tempo-com-apoio-dos-eua.html\" target=\"_blank\">afirmou<\/a> que o Brasil \u00e9 o pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina mais espionado pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Como publicou o jornal <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2013\/09\/1342289-agentes-da-cia-conseguem-atuar-livremente-no-brasil.shtml\" target=\"_blank\"><i>Folha de S. Paulo<\/i><\/a> em setembro de 2013, agentes da CIA atuam livremente no Brasil. Eles colaboram em diversas opera\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Federal, principalmente atrav\u00e9s da parceria de fachada entre a embaixada dos EUA e a PF formalizada em 2010. Agentes trabalham em regi\u00f5es estrat\u00e9gicas do pa\u00eds, como S\u00e3o Paulo (maior polo industrial e financeiro), Amazonas e Foz do Igua\u00e7o (ambas com recursos naturais invej\u00e1veis).<\/p>\n<p>\u201cZona cinza \u2013 assim s\u00e3o chamadas pelos policiais federais algumas t\u00e9cnicas dos espi\u00f5es americanos no pa\u00eds: invas\u00e3o de sistemas, compra de informa\u00e7\u00f5es e suborno de funcion\u00e1rios de empresas p\u00fablicas ou privadas\u201d, informa a reportagem.<\/p>\n<p>Mas a CIA n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica ag\u00eancia de espionagem dos EUA atuando no pa\u00eds. Ainda em 2013, o analista Edward Snowden vazou documentos que provaram que a NSA (Ag\u00eancia de Seguran\u00e7a Nacional dos EUA) espionou a Petrobras e a ent\u00e3o presidenta da Rep\u00fablica, Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>Um dos motivos da espionagem foi possivelmente para que petrol\u00edferas estadunidenses obtivessem vantagem no leil\u00e3o do Campo de Libra, na Bacia de Santos, maior reserva do pr\u00e9-sal \u2013 que, por sua vez, \u00e9 a maior reserva de petr\u00f3leo descoberta em todo o mundo nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>As gigantes companhias dos EUA, Exxon Mobil e Chevron, acabaram ficando de fora da explora\u00e7\u00e3o daquele campo. O leil\u00e3o foi vencido por cons\u00f3rcio liderado pela Petrobras (com 40% de participa\u00e7\u00e3o \u2013 sendo 30% obrigat\u00f3rios por lei) e formado por duas empresas chinesas, al\u00e9m da Shell e da francesa Total.<\/p>\n<p>As multinacionais norte-americanas foram passadas para tr\u00e1s na competi\u00e7\u00e3o pelo petr\u00f3leo brasileiro. Mas o Wikileaks j\u00e1 havia revelado em 2010 que Exxon Mobil e Chevron faziam lobby junto ao Congresso para flexibilizar ainda mais o regime de explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal. Diplomatas dos EUA e o ent\u00e3o senador Jos\u00e9 Serra estavam envolvidos.<\/p>\n<p>Em 2016, Serra elaborou um projeto de lei que retira a obrigatoriedade da participa\u00e7\u00e3o da Petrobras na explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal e sua exclusividade na opera\u00e7\u00e3o dos campos.<\/p>\n<p>No mesmo ano, Dilma Rousseff foi derrubada por um golpe judicial-parlamentar-midi\u00e1tico que vinha sendo tramado desde 2014. Grandes manifesta\u00e7\u00f5es por todo o Brasil apoiaram sua destitui\u00e7\u00e3o. Algumas pediam interven\u00e7\u00e3o militar, outras pediam interven\u00e7\u00e3o dos EUA.<\/p>\n<p>Uma das principais entidades organizadoras dos protestos foi o Movimento Brasil Livre (MBL), do qual nunca se havia ouvido falar. Alguns de seus principais membros s\u00e3o ligados a institui\u00e7\u00f5es financiadas pelos irm\u00e3os Charles e David Koch, bilion\u00e1rios estadunidenses da ind\u00fastria do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, que investiga crimes de corrup\u00e7\u00e3o envolvendo a Petrobras, foi o carro-chefe que embalou o impeachment da presidenta, apesar dela nunca ter sido relacionada a a\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o, levada a cabo pela Pol\u00edcia Federal, contou com apoio direto dos Estados Unidos no fornecimento de dados sigilosos sobre a companhia e afetou especialmente os setores nacionais da Petrobras, n\u00e3o os estrangeiros. A empresa, que at\u00e9 aquele momento tinha enorme prest\u00edgio internacional, sofreu crise de grandes propor\u00e7\u00f5es e o atual governo j\u00e1 iniciou novo desmonte do que restou da estatal.<\/p>\n<p>Ju\u00edzes que comandam a Lava Jato e policiais federais foram treinados por instrutores estadunidenses. Os primeiros, no Brasil, e os segundos, nos EUA.<\/p>\n<p>Ainda em 2016, o rec\u00e9m-empossado ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Jos\u00e9 Serra, viu aprovado em outubro o seu projeto de lei na C\u00e2mara dos Deputados. Ele ainda dever\u00e1 ser sancionado pelo presidente Michel Temer.<\/p>\n<p>Em janeiro deste ano, foi anunciado o leil\u00e3o de 21 campos de \u00f3leo e g\u00e1s da Petrobras a partir de 2018 e licita\u00e7\u00e3o para uma obra no Complexo Petroqu\u00edmico do Rio de Janeiro com a participa\u00e7\u00e3o de 30 empresas estrangeiras e nenhuma nacional.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 uma \u00f3tima oportunidade para as companhias estadunidenses.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Com\u00edcio da Central do Brasil, em 13 de mar\u00e7o de 1964. Foto de Ag\u00eancia Petrobras.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/\" target=\"_blank\">Di\u00e1rio Liberdade<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Eduardo Vasco Relat\u00f3rios disponibilizados pela CIA (Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia dos EUA) desde o final do ano passado permitem tra\u00e7ar um hist\u00f3rico do \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13549\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[],"class_list":["post-13549","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3wx","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13549","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13549"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13549\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13549"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13549"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13549"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}