{"id":13552,"date":"2017-02-13T13:14:55","date_gmt":"2017-02-13T16:14:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13552"},"modified":"2017-03-02T18:18:36","modified_gmt":"2017-03-02T21:18:36","slug":"a-luta-e-a-arte-de-mulheres-palestinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13552","title":{"rendered":"A luta e a arte de mulheres palestinas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci6.googleusercontent.com\/proxy\/EzsRR7t8tMPb32dHElf5TVUIKMKAhY1lg8YqxqkA73tZQV522QfvJO1IulHIr-Vnqo4fZ0GTuR2oCx8xPFJ6zm1rz9OHycDc-T14KWDD6cSb46KGrN8=s0-d-e1-ft#https:\/\/farm4.staticflickr.com\/3761\/32768908746_496a6e79a7_z.jpg\" alt=\"imagem\" \/><strong>Conhe\u00e7a os projetos culturais e sociais coordenados por palestinas na Cisjord\u00e2nia ocupada<\/strong><\/p>\n<p>J\u00falia Dolce e Victor Labaki<\/p>\n<p>Brasil de Fato e Revista F\u00f3rum<!--more--><\/p>\n<p>No Ocidente, o estere\u00f3tipo de mulheres \u00e1rabes, principalmente as mu\u00e7ulmanas, quase sempre est\u00e1 atrelado a submiss\u00e3o e passividade. A no\u00e7\u00e3o de superioridade das na\u00e7\u00f5es ocidentais se fundamenta muitas vezes em uma suposta ideia de que vivemos em uma sociedade mais avan\u00e7ada em rela\u00e7\u00e3o aos direitos e \u00e0 igualdade social.<\/p>\n<p>Baseado nesse estigma, at\u00e9 mesmo interven\u00e7\u00f5es militares em pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio j\u00e1 foram justificadas. Na Palestina ocupada n\u00e3o \u00e9 diferente: Israel se privilegia constantemente de uma m\u00e1scara \u2018democr\u00e1tica\u2019 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es de g\u00eanero para desumanizar e oprimir a popula\u00e7\u00e3o palestina.<\/p>\n<p>No entanto, de guerrilheiras como Leila Khaled, \u00e0 poetisas como Rafeef Ziadah, as mulheres palestinas v\u00eam destruindo esse estere\u00f3tipo h\u00e1 d\u00e9cadas. Recentemente, o discurso poderoso da ativista palestina-estadunidense Linda Sarsour na Marcha das Mulheres, em Washington, no dia seguinte \u00e0 posse de Trump, viralizou na internet. \u201cEu me coloco aqui em frente a voc\u00eas, sem remorsos por ser mu\u00e7ulmana-americana, sem remorsos por ser palestina-americana\u201d.<\/p>\n<p>Nessa reportagem, conversamos com tr\u00eas mulheres palestinas, que atrav\u00e9s da lideran\u00e7a de projetos sociais e culturais exemplificam seu empoderamento e for\u00e7a. Uma atriz, uma escritora, uma professora de culin\u00e1ria. Duas mu\u00e7ulmanas, uma agn\u00f3stica. Ativistas. Uma j\u00e1 foi presa e torturada em dois momentos da sua vida. A segunda \u00e9 refugiada e desenvolve um projeto para m\u00e3es de crian\u00e7as com defici\u00eancia no Campo de Aida (Bel\u00e9m). A terceira j\u00e1 realizou performances em diversos pa\u00edses, mas quase perdeu seu show em Jerusal\u00e9m por conta da restri\u00e7\u00e3o de locomo\u00e7\u00e3o imposta por Israel. Todas elas n\u00e3o hesitam em negar: \u201cAs mulheres palestinas t\u00eam muito poder\u201d.<\/p>\n<p><strong>Sireen Khudairi<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagemp\" src=\"https:\/\/ci6.googleusercontent.com\/proxy\/cYF-4gUjKmZ4xdHzOUJyUHnjQAGpgoBhxJmN6qpOCZdhjai99983XfCS0tAOgksEdT6J6e2rMiwZgb3SjTx3is-8I0JNaTwuvejl1i6PpAxBVW9UaJc=s0-d-e1-ft#https:\/\/farm3.staticflickr.com\/2861\/32428881710_7a51761537_o.jpg\" alt=\"imagem\" \/>\u201cEu nasci no norte do Vale do Jord\u00e3o (Cisjord\u00e2nia, mas classificado, na sua maior parte, como \u201c\u00c1rea C\u201d, o que significa que est\u00e1 sob o comando militar de Israel). Hoje eu moro no campo de refugiados de Dheisheh, em Bel\u00e9m, com meu marido. Eu era uma volunt\u00e1ria na Campanha de Solidariedade ao Vale do Jord\u00e3o e fazia tours com turistas estrangeiros para eles saberem da nossa situa\u00e7\u00e3o. Mas depois de um tempo, especialmente depois de ter sido presa duas vezes, foi dif\u00edcil para mim voltar a fazer as mesmas coisas.<\/p>\n<p>Eu comecei a pensar em como mudar isso e conquistar meu poder novamente. Ent\u00e3o comecei a estudar teatro. Eu estudei o Teatro do Oprimido na companhia Ashtar Theatre, em Ramallah. Quando voc\u00ea repete a sua hist\u00f3ria, come\u00e7a a olhar para ela, percebe que \u00e9 s\u00f3 uma hist\u00f3ria. Eu lembrei de algo que meu irm\u00e3o me contou depois da minha pris\u00e3o. Ele disse: \u201cA Ocupa\u00e7\u00e3o pode destruir sua casa e tudo a sua volta, roubar sua \u00e1gua, sua eletricidade, seus direitos, te colocar na pris\u00e3o. Mas eles n\u00e3o podem ocupar sua esperan\u00e7a\u201d. A partir do momento em que ocupam sua esperan\u00e7a voc\u00ea realmente vive sob ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu tive a ideia de um projeto para coletar hist\u00f3rias de diferentes pessoas, e contar os relatos para crian\u00e7as e idosos. Eu comecei a coletar os relatos de pessoas do Vale do Jord\u00e3o. Cada detalhe aqui na Palestina \u00e9 uma hist\u00f3ria. Assim eu comecei a trabalhar como contadora de hist\u00f3rias. As pessoas gostam e precisam ser ouvidas, especialmente as mulheres. Elas t\u00eam hist\u00f3rias com detalhes mais profundos, porque s\u00e3o tudo na comunidade. Se voc\u00ea for para o Vale do Jord\u00e3o vai ver que na pr\u00e1tica as coisas s\u00e3o feitas pelas mulheres, mesmo nos lugares mais simples. Elas tomam conta dos animais, vendem os produtos, quando tem demoli\u00e7\u00f5es pelo ex\u00e9rcito israelense s\u00e3o elas que come\u00e7am a constru\u00e7\u00e3o das casas. Elas t\u00eam muito poder.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos projetos feitos por mulheres na Palestina. Mas acho que n\u00f3s temos que trabalhar mais com cultura, desenvolver projetos com significados de luta para n\u00f3s, porque n\u00f3s lutamos todos os dias, mas n\u00e3o sabemos disso. \u00c0s vezes eu perguntava para uma mulher o que ela fazia da vida e ela respondia \u2018nada\u2019, mesmo que fizesse muitas coisas. Agora eu estou come\u00e7ando a escrever um livro, juntando os relatos com a minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A primeira vez que eu fui presa foi em 2013, no caminho de volta da universidade. Dois soldados me levaram para a solit\u00e1ria na pris\u00e3o militar. L\u00e1 \u00e9 o inferno\u2026 N\u00e3o tem vida nenhuma, voc\u00ea tem que criar vida em um ambiente de um metro por dois metros, com uma latrina dentro. Fiquei l\u00e1 por um m\u00eas e meio. Me lembro que a primeira vez que sa\u00ed n\u00e3o conseguia abrir os olhos porque a luz era muito forte. Tem pequenos detalhes sobre a pris\u00e3o que ningu\u00e9m comenta, mas significam muito. Por exemplo, eu pedia coisas engra\u00e7adas para os soldados, tipo um espelho. Depois de um m\u00eas eu queria ver o meu rosto\u2026<\/p>\n<p>Dentro da solit\u00e1ria tinha um cano de \u00e1gua que ficava pingando a noite toda, era imposs\u00edvel dormir. Eu era interrogada o tempo todo, n\u00e3o me deixavam descansar. Eu ficava sentada na cadeira do detector de mentiras por 12 horas sem mexer um m\u00fasculo, apenas respondendo \u2018sim\u2019 ou \u2018n\u00e3o\u2019. Perguntavam se eu amava os meus pais, se j\u00e1 havia mentido para a minha m\u00e3e. Claro que j\u00e1 menti. Eu fazia yoga durante os testes para aguentar\u2026 Eles falavam \u2018voc\u00ea foi treinada para usar armas\u2019. Falavam que eu estava em contato com inimigos de Israel em Gaza. Eu dizia que conhecia muitas pessoas l\u00e1, tenho familiares em Gaza e eles provavelmente j\u00e1 sabiam disso. Encontrei ativistas palestinas incr\u00edveis na pris\u00e3o, como a Lena Jarboni, que est\u00e1 presa h\u00e1 mais de dez anos. Voc\u00ea n\u00e3o pode imaginar quanto poder ela tem\u2026<\/p>\n<p>Mas a minha segunda pris\u00e3o foi a pior\u2026 O ex\u00e9rcito atacou a casa dos meus pais, a minha procura. Meu irm\u00e3o me ligou e me disse para eu n\u00e3o voltar. Joguei meu telefone fora, fiquei foragida por tr\u00eas meses. Fui para uma casa pequena e fiquei pensando no que fazer com meu tempo. Tive a ideia de escrever um livro sobre o Vale do Jord\u00e3o, mas acabei ele em uma semana. Ent\u00e3o pensei que eu deveria visitar lugares que n\u00e3o conhecia na Cisjord\u00e2nia. Tirei meu hijab, troquei a cor do meu cabelo, mudei de nome. Dizia nos checkpoints que meu nome era Maya.<\/p>\n<p>Me prenderam na cidade de Nablus, em uma noite em que fazia -4 graus e nevava. Estavam t\u00e3o irritados que pareciam que iriam me matar com o olhar. Me levaram para a pris\u00e3o e foi o momento mais horr\u00edvel da minha vida. Me colocaram em um lugar aberto, amarraram meus p\u00e9s e me vendaram. Tiraram meus sapatos e meu casaco. Eu sentia pedras e agulhas no ch\u00e3o. Ent\u00e3o pediram para eu correr. Soltaram cachorros atr\u00e1s de mim. Eu corri e senti que tinha perdido toda a minha resist\u00eancia. At\u00e9 hoje, n\u00e3o consigo ouvir os latidos de cachorros.<\/p>\n<p>Mas o teatro me devolveu meu poder. Quando eu estou no palco, sinto que tenho o poder de todas as pessoas do mundo, especialmente se tenho um p\u00fablico. Toda vez que termino uma performance sinto que nasci de novo. \u00c9 um sentimento estranho. Quando o diretor pede para nos lembrarmos da voz dos opressores para o treinamento, \u00e9 como uma revolu\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea tem que passar por isso para ent\u00e3o poder resistir\u201d.<\/p>\n<p><strong>Islam Jameel Abu Auda<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagemp\" src=\"https:\/\/ci3.googleusercontent.com\/proxy\/JIfhHrXZB6i4qC5u6kyGzIje_piqo55RpQau4W8k_GVTlgKN9OKSet70shy7UVH3i4WeNNFQ5rCFxx4dr27A8Q7WX0HaGarh6n9tHRoWHXu2nXgHkDM=s0-d-e1-ft#https:\/\/farm3.staticflickr.com\/2473\/32768867216_7ccacbb765_o.jpg\" alt=\"imagem\" \/>\u201cN\u00f3s come\u00e7amos o projeto Noor Women\u2019s Empowerment Group (Luz: Grupo de Empoderamento de Mulheres), em 2010, quando uma chef brasileira chamada Sandra veio aqui no campo de refugiados de Aida (Bel\u00e9m) com uma amiga belga e viram meu filho mais velho, que tem paralisia cerebral e epilepsia.<\/p>\n<p>Elas tentaram ajudar meu filho e n\u00f3s conversamos muito sobre ele e sobre as muitas crian\u00e7as como ele aqui no campo. N\u00f3s falamos sobre como ajudar todas elas. Eu disse que n\u00e3o gostava que as pessoas dessem dinheiro para o meu filho. Ela pensou e teve a ideia de eu fazer um curso de culin\u00e1ria junto com outras mulheres do campo que tem filhos com defici\u00eancia, para arrecadar dinheiro para a reabilita\u00e7\u00e3o deles. N\u00f3s come\u00e7amos na minha casa, nessa cozinha aqui. Eu gosto das aulas de culin\u00e1ria porque com ela n\u00f3s ensinamos nossa cultura para os turistas, queremos que eles vejam nossa cultura e o que as mulheres podem fazer.<\/p>\n<p>Mas era dif\u00edcil para mim nas primeiras vezes. Eu tenho outros seis filhos e n\u00e3o falava ingl\u00eas, era muito t\u00edmida. A Sandra precisava falar com as pessoas, mas eu n\u00e3o entendia. Depois ela trouxe um volunt\u00e1rio que nos ensinou ingl\u00eas. Hoje em dia eu consigo me comunicar melhor e isso foi gra\u00e7as ao projeto.<\/p>\n<p>A iniciativa cresceu e n\u00f3s precis\u00e1vamos de mais espa\u00e7o porque minha casa era pequena. Meu marido me ajudou a montar os ambientes e depois de dois anos e meio n\u00f3s sa\u00edmos de dentro da minha casa. N\u00f3s fazemos muitas atividades ativas para mulheres. Bordado, trazemos psic\u00f3logas, ensinamos as m\u00e3es e as crian\u00e7as. O significado do nome \u2019empoderamento\u2019 \u00e9 porque n\u00f3s come\u00e7amos com 3, 5, 10, 13 e agora s\u00e3o 30 m\u00e3es no projeto.<\/p>\n<p>As m\u00e3es precisam de algu\u00e9m que venha ajudar, antes elas tinham medo de vir aqui, agora elas v\u00eam ao projeto e dizem que precisavam de algo e de algu\u00e9m para ajudar. Conseguimos at\u00e9 fazer uma escola, esse era o nosso sonho. Quando come\u00e7amos o projeto com as aulas de culin\u00e1ria n\u00f3s sonh\u00e1vamos em fazer algo maior para as crian\u00e7as. Meu filho hoje tem 17 anos e n\u00e3o consegue ir para a escola porque n\u00f3s n\u00e3o temos escolas especiais para ele.<\/p>\n<p>Agora temos 3 mulheres empregadas, trabalhando para 120 crian\u00e7as. Uma fisioterapeuta, uma professora e uma psic\u00f3loga. \u00c9 dif\u00edcil e n\u00f3s n\u00e3o temos nenhuma associa\u00e7\u00e3o para vir e ajudar o projeto, apenas as mulheres. Para mim isso \u00e9 incr\u00edvel, porque as mulheres e as m\u00e3es fazem tudo sozinhas.<\/p>\n<p>Muitos maridos aqui tem medo at\u00e9 de carregar no colo os filhos com defici\u00eancia. Quem traz os filhos aqui? As m\u00e3es. Quem vai trabalhar podem ser os maridos, mas muitos homens n\u00e3o trabalham, n\u00e3o t\u00eam empregos e mesmo assim n\u00e3o fazem nada. Eu fui at\u00e9 as casas e vi que quem cuida das crian\u00e7as com defici\u00eancia s\u00e3o as m\u00e3es.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o israelense \u00e9 muito dura para todos, mas fica muito mais dif\u00edcil quando voc\u00ea tem um filho com defici\u00eancia. Eu lembro uma noite em que os soldados israelenses jogaram g\u00e1s dentro da minha casa. Meu filho n\u00e3o conseguia respirar e ele n\u00e3o pode andar. N\u00f3s tentamos abrir a porta e carregar meu filho, ele \u00e9 pesado e todas as minhas crian\u00e7as me ajudaram. Ele tamb\u00e9m desenvolveu trauma de sons de bombas. \u00c0s vezes o celular de algu\u00e9m toca, ele fica com medo e come\u00e7a a bater na pr\u00f3pria cabe\u00e7a. A professora ensina as crian\u00e7as a brincarem, para se distra\u00edrem, mas eles sempre lembram do que acontece aqui, das crian\u00e7as que foram presas e assassinadas. N\u00f3s tentamos mudar e solucionar isso, mas essa \u00e9 a realidade da ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00f3s mulheres mudamos muito, agora n\u00f3s nos sentimos fortes, talvez j\u00e1 fossemos fortes antes, mas agora somos mais. Antes as pessoas n\u00e3o gostavam de falar que tinham crian\u00e7as com defici\u00eancia, agora elas v\u00eam aqui e perguntam se podemos ajudar. Eu me sinto muito orgulhosa.<\/p>\n<p>A UNRWA (Ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas de Assist\u00eancia aos Refugiados da Palestina) n\u00e3o faz nada sobre isso. Se n\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos ningu\u00e9m para nos ajudar, precis\u00e1vamos trabalhar juntas. Se trabalharmos juntas, Inshallah (\u201cSe Deus Quiser\u201d, em \u00e1rabe) que no futuro conseguiremos algo para as m\u00e3es e para as crian\u00e7as. As pessoas est\u00e3o t\u00e3o preocupadas com a ocupa\u00e7\u00e3o que esquecem das crian\u00e7as com defici\u00eancia e das m\u00e3es delas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Riham Isaac<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagemp\" src=\"https:\/\/ci6.googleusercontent.com\/proxy\/nVlDu_jr63bDpw01-EjBbfIe6K2wVBSINaioWEhTeDnaTobO4hstFqQICYzD7OIEkjsd3_Ix7R6v7dsWevQWtlw5JWwuEn01-YcDZJBmAtnayaBgxg=s0-d-e1-ft#https:\/\/farm1.staticflickr.com\/430\/32428907260_e048c66e14_o.jpg\" alt=\"imagem\" \/>\u201cEu venho de uma fam\u00edlia crist\u00e3, da cidade de Beit Sahour. As pessoas n\u00e3o sabem mas nem todos os palestinos s\u00e3o mu\u00e7ulmanos, e nem todas as mu\u00e7ulmanas escolhem usar o hijab. Mas eu n\u00e3o sou religiosa, minha religi\u00e3o \u00e9 a arte. Ser uma mulher aqui e fazer arte foi muito desafiador, n\u00e3o \u00e9 algo esperado de uma mulher. Eles esperam que a gente se gradue na escola, se case ou v\u00e1 para a universidade arranjar um marido. S\u00e3o as expectativas para mulheres em muitos lugares do mundo, aqui n\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Foi uma surpresa para as pessoas quando comecei a fazer teatro. Sou graduada em fisioterapia e isso era respeitado, eu poderia trabalhar em um hospital e ganhar dinheiro. Mas minha fam\u00edlia me apoiou muito. Se eu fosse escutar a sociedade eu n\u00e3o teria esse est\u00fadio agora, n\u00e3o faria nada disso. O pr\u00f3prio est\u00fadio virou fofoca na cidade, as pessoas vem ver quem eu sou, o que estou fazendo \u2013 mesmo que conhe\u00e7am minha fam\u00edlia. Perguntam se eu sou casada.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, as mulheres palestinas s\u00e3o muito fortes, mesmo quando n\u00e3o est\u00e3o elevando suas vozes em uma associa\u00e7\u00e3o. Elas comandam as vilas, mas o estere\u00f3tipo que sai para o mundo \u00e9 que somos vulner\u00e1veis, fracas. Eu j\u00e1 encontrei muitas mulheres inspiradoras na Palestina. Elas trabalham no campo, coletam uvas, atravessam checkpoints diariamente, acordam cedo e trabalham duro. A Palestina \u00e9, de certa forma, baseada em muitas tradi\u00e7\u00f5es que nos impedem de conseguir direitos e justi\u00e7a. Mas tamb\u00e9m temos muita for\u00e7a. As coisas est\u00e3o mudando, estamos estudando mais, trabalhando mais. Mas, como no resto do mundo, temos uma longa jornada pelos nossos direitos.<\/p>\n<p>Para mim, foi natural que eu me afastasse da fisioterapia. Eu fazia teatro ao mesmo tempo e estava sobrecarregada. O meu projeto com que mais me identifico \u00e9 o \u00faltimo que fiz, o \u201cI Am You\u201d, uma performance que junta m\u00fasica, dan\u00e7a, identidade e conex\u00f5es. Ela questiona o fato de sermos todos um ser, sofrendo da mesma forma e nos sentindo sozinhos nesse mundo ca\u00f3tico. \u00c9 uma apresenta\u00e7\u00e3o \u2018clown\u2019, bastante independente. Meu palha\u00e7o \u00e9 bastante normal, honesto e vulner\u00e1vel. \u00c9 um viajante do mundo, que tenta descobrir o que estamos fazendo aqui, de um jeito sensitivo. Eu n\u00e3o uso maquiagem, apenas o nariz vermelho.<\/p>\n<p>H\u00e1 muita press\u00e3o para que artistas palestinos fa\u00e7am arte pol\u00edtica. As pessoas t\u00eam expectativas e nos colocam na moldura das v\u00edtimas, necessariamente. Eu j\u00e1 fiz diversas apresenta\u00e7\u00f5es mais politizadas. Em uma delas, me vesti com as roupas de uma palestina de Bel\u00e9m, que foi fotografada atirando pedras na Primeira Intifada, e fiquei empurrando uma pedra enorme pelas ruas de Ramallah. Ela se vestia com um vestido preto, um len\u00e7o e sapatos amarelos. A foto \u00e9 bastante famosa e eu me sinto muito orgulhosa dessa mulher, porque ela parecia muito elegante, comum, como se tivesse sa\u00eddo da missa e parado para participar um pouco da Intifada. N\u00e3o queria me vestir com algo clich\u00ea para a performance, como uma Keffiyeh (len\u00e7o com bordado xadrez tradicional palestino).<\/p>\n<p>N\u00e3o sou contra fazer pol\u00edtica, porque viver na Palestina faz com que eu seja muito conectada com esse lugar. Mas a arte n\u00e3o precisa ser feita dessa forma, e eu n\u00e3o preciso fazer algo sobre o muro, ou sobre checkpoints, apenas porque sou artista. Me senti muito livre quando sa\u00ed desse ciclo e pude escolher como me expressar sobre a humanidade.<\/p>\n<p>\u00c9 muito importante para mim fazer arte em um lugar como este. Em um n\u00edvel pessoal, quando voc\u00ea vive em um espa\u00e7o limitado, sem poder se locomover livremente, a arte te d\u00e1 espa\u00e7o para sonhar e criar coisas novas. Eu ensino crian\u00e7as e universit\u00e1rios aqui e sinto que est\u00e3o sedentos por arte. Nosso sistema educacional \u00e9 muito duro, at\u00e9 culturalmente, pelo jeito que nossa sociedade funciona.<\/p>\n<p>Eu morei em Londres por um ano e fiz um mestrado em performance na Universidade de Goldsmiths. Me apresentei em diferentes pa\u00edses, inclusive no Brasil, em Bel\u00e9m do Par\u00e1. Voc\u00eas tamb\u00e9m t\u00eam uma Bel\u00e9m\u2026 Mas senti que eu precisava me reconectar com minhas ra\u00edzes, e que deveria compartilhar coisas com o povo aqui. H\u00e1 novas ideias emergindo no mundo e eu sinto que sou mais necess\u00e1ria aqui, apresentando essas iniciativas que n\u00e3o s\u00e3o esperadas, criando um novo movimento.<\/p>\n<p>Mas aqui a ocupa\u00e7\u00e3o funciona principalmente limitando nossa liberdade. Para mim, o mais cr\u00edtico \u00e9 n\u00e3o poder me locomover. \u00c9 mais f\u00e1cil para mim conseguir um visto do que me apresentar em Jerusal\u00e9m, que fica a 15 minutos daqui. Meu \u00faltimo desafio foi conseguir me apresentar l\u00e1, em uma galeria, em janeiro. Fiquei esperando muito tempo por uma permiss\u00e3o de Israel, em certo ponto achei que n\u00e3o conseguiria. Tive que adiar o show, e todo o tempo eu pensava como era perto mas eu n\u00e3o podia simplesmente ir para l\u00e1. Consegui a permiss\u00e3o tr\u00eas dias antes do show. Depende puramente da vontade das For\u00e7as Armadas, eles podem muito bem te barrar se decidirem. N\u00e3o h\u00e1 regras\u201d.<\/p>\n<p><em>Edi\u00e7\u00e3o: Ivan Longo<\/em><\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Graffiti no muro que divide Israel e Palestina em Bel\u00e9m \/ J\u00falia Dolce\/Brasil de Fato<\/p>\n<p>https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2017\/02\/09\/a-luta-e-a-arte-de-mulheres-palestinas\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Conhe\u00e7a os projetos culturais e sociais coordenados por palestinas na Cisjord\u00e2nia ocupada J\u00falia Dolce e Victor Labaki Brasil de Fato e Revista F\u00f3rum\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13552\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[78],"tags":[],"class_list":["post-13552","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c91-solidariedade-a-palestina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3wA","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13552","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13552"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13552\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13552"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13552"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13552"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}