{"id":13583,"date":"2017-02-16T20:21:58","date_gmt":"2017-02-16T23:21:58","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13583"},"modified":"2017-03-02T18:21:00","modified_gmt":"2017-03-02T21:21:00","slug":"espirito-santo-o-modelo-de-uma-tragedia-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13583","title":{"rendered":"Esp\u00edrito Santo: o modelo de uma trag\u00e9dia brasileira"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/Cc_Wvin4bSsNS0TkyqU6b0_YNLPwykyH2x7Z4KmtNZ6PxgxkeTV7D6G-Piv9GwFy_t21X5rFkGmnxS_win1eF86y_CufDQnWGlGN0OhWmOlkt6u2WF5xLDjOfLI=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/02\/14_02_FabioMaliniIII.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Entrevista com F\u00e1bio Malini<\/p>\n<p>Por Jo\u00e3o Vitor Santos<\/p>\n<p>Para compreender mais amplamente a situa\u00e7\u00e3o pela qual vem passando o estado do Esp\u00edrito Santo \u00e9 necess\u00e1rio recorrer ao passado. \u00c9 o que sugere o professor de Comunica\u00e7\u00e3o<!--more--> Social da Universidade Estadual do Esp\u00edrito Santo, F\u00e1bio Malini. Ele destaca que essa crise de hoje tem conex\u00e3o direta com o ano de 2003, quando o estado estava completamente quebrado e come\u00e7a uma esp\u00e9cie de plano de recupera\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 um modelo de gest\u00e3o que beneficia em muito modelos empresariais na \u00e1rea de commodities do Esp\u00edrito Santo e que tem um conjunto muito grandes de renuncias fiscais que faz, num contexto de crise, a arrecada\u00e7\u00e3o do estado cair\u201d, explica.<\/p>\n<p>O resultado desse arrocho aparece nos servi\u00e7os p\u00fablicos que devem ser oferecidos pelo Esp\u00edrito Santo. Servidores com sal\u00e1rios congelados chegam a 2017 com uma situa\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel. \u201cIsso vai demonstrando que esse modelo de estado, pautado na austeridade fiscal, n\u00e3o consegue deter um ac\u00famulo de conflitos sociais que ele mesmo produz. Esse pano de fundo acaba sendo terreno f\u00e9rtil dos conflitos sociais que acontecem no Esp\u00edrito Santo\u201d, analisa Malini em entrevista concedida por telefone \u00e0 IHU On-Line.<\/p>\n<p>O professor ainda n\u00e3o descola de sua an\u00e1lise a situa\u00e7\u00e3o nacional. De certa forma, a experi\u00eancia do Esp\u00edrito Santo serve de pren\u00fancio pelo que podem passar outros estados como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, e at\u00e9 mesmo a Uni\u00e3o. \u201cNesse sentido, o Esp\u00edrito Santo acaba sendo um pr\u00f3prio modelo da trag\u00e9dia brasileira\u201d, dispara. E alerta: \u201cEm pouco tempo, os bens p\u00fablicos come\u00e7am a serem entregues, de bandeja, para o setor privado, como acontece no Estado do Rio. E a tend\u00eancia, me parece, a continuar essas pol\u00edticas contracionistas \u00e9 de piorar o quadro social brasileiro\u201d.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Malini \u00e9 professor do Departamento de Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo desde 2005. Coordena o Laborat\u00f3rio de estudos sobre Imagem e Cultura &#8211; LABIC\/UFES, onde desenvolve pesquisas sobre ci\u00eancia de dados, movimentos sociais e redes sociais (com especialidade em coleta, processamento e visualiza\u00e7\u00e3o de megadados). Escreveu, em co-autoria com Henrique Antoun, da Universidade Federal do Rio de Janeiro &#8211; UFRJ, o livro <em>A internet e a Rua<\/em> (Sulina, 2013).<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como o senhor vem acompanhando as manifesta\u00e7\u00f5es de familiares de policiais militares e a quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica no Esp\u00edrito Santo?<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Malini &#8211; Essa manifesta\u00e7\u00e3o se tornou popularizada no Esp\u00edrito Santo na noite de domingo [dia 05\/02] para segunda-feira [06\/02]. \u00c9 quando come\u00e7am a circular as informa\u00e7\u00f5es de que os familiares dos policiais militares bloqueavam mesmo a sa\u00edda dos carros dos quart\u00e9is e que circulava um v\u00eddeo do secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a, Andr\u00e9 Garcia, em que dizia que n\u00e3o iria negociar nos termos solicitados pelos familiares. E como familiares leiam-se as esposas, namoradas, m\u00e3e e irm\u00e3s dos policias, basicamente. Majoritariamente isso porque n\u00e3o h\u00e1 somente homens na Pol\u00edcia Militar.<\/p>\n<p>Claro que essa \u00e9 uma primeira narrativa que tamb\u00e9m \u00e9 constru\u00edda pelo campo midi\u00e1tico para tentar criar um n\u00edvel de polariza\u00e7\u00e3o entre os \u201cfamiliares\u201d e a \u201csociedade\u201d. Ou seja, a sociedade ser contra o pleito dos familiares. Num primeiro momento, \u00e9 o que ocorre. \u00c9 bom saber, tamb\u00e9m, que os policiais v\u00eam num processo de degrada\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o aos seus sal\u00e1rios e essa degrada\u00e7\u00e3o tem muito a ver com a pol\u00edtica de ajuste fiscal do atual governo do Estado, que reduziu muito os investimentos nos gastos p\u00fablicos. Isso acaba tendo um efeito concreto na qualidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos, que passa objetivamente pela qualidade da seguran\u00e7a p\u00fablica e da pol\u00edtica que \u00e9 implementada.<\/p>\n<p>Assim, esse processo dispara, na segunda-feira [6\/2], um caos na cidade. H\u00e1 um recolhimento em massa das pessoas nas suas casas, numa esp\u00e9cie de c\u00e1rcere privado. E isso produz duas din\u00e2micas: uma din\u00e2mica de saques e crimes contra a propriedade nas regi\u00f5es mais centrais e mais ricas das cidades e uma onda de viol\u00eancia ligada ao tr\u00e1fico de drogas, basicamente, nas periferias das cidades onde acontecem mais de 120 mortes. \u00c9 algo desesperador.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quais as quest\u00f5es de fundo desse movimento, como compreend\u00ea-lo com toda sua complexidade? Que campos est\u00e3o em disputa?<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Malini &#8211; \u00c9 claro que essa quest\u00e3o passa pelo modelo de estado que se implementou j\u00e1 h\u00e1 alguns anos no Esp\u00edrito Santo, n\u00e3o \u00e9 algo ligado apenas ao atual governo do PMDB. \u00c9 tamb\u00e9m uma sequ\u00eancia de gest\u00f5es que passam desde a recupera\u00e7\u00e3o do estado em 2003, quando ele estava completamente falido at\u00e9 agora. \u00c9 um modelo de gest\u00e3o que beneficia em muito modelos empresariais na \u00e1rea de <em>commodities<\/em> do Esp\u00edrito Santo e que tem um conjunto muito grandes de renuncias fiscais que faz, num contexto de crise, a arrecada\u00e7\u00e3o do estado cair. Al\u00e9m de que o estado tem, obviamente, uma queda grave de arrecada\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria crise econ\u00f4mica que acontece e tamb\u00e9m pelo fato de que 5% do seu PIB vinha sendo preenchido pela Samarco. Assim, ela deixando de operar tamb\u00e9m faz cair a arrecada\u00e7\u00e3o. Veja como a receita tem a ver com a crise, mas tamb\u00e9m com o modelo de ren\u00fancia fiscal.<\/p>\n<p>Por outro lado, o governo atual j\u00e1 vem vivenciando uma s\u00e9rie de revoltas noticiadas nacionalmente. Tem, num primeiro momento, uma grande revolta dos estudantes secundaristas, que depois v\u00e3o ter um segundo momento na onda de ocupa\u00e7\u00f5es que acontecem no final do ano passado, existe a crise ambiental e h\u00eddrica, que \u00e9 algo ser\u00edssimos no Esp\u00edrito Santo e, agora, a quest\u00e3o da seguran\u00e7a p\u00fablica. Isso vai demonstrando que esse modelo de estado, pautado na austeridade fiscal, n\u00e3o consegue deter um ac\u00famulo de conflitos sociais que ele mesmo produz. Esse pano de fundo acaba sendo terreno f\u00e9rtil dos conflitos sociais que acontecem no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o Esp\u00edrito Santo acaba sendo um pr\u00f3prio modelo da trag\u00e9dia brasileira. Ou seja, isso porque, ap\u00f3s o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a pol\u00edtica de ajuste continuou. Lembrando que Dilma vinha tamb\u00e9m produzindo uma pol\u00edtica de ajuste agressiva e isso se atenua no p\u00f3s-impeachment, enquanto o Esp\u00edrito Santo se torna o modelo ideal para o pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Austeridade, conflitos sociais e divis\u00e3o pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Chegamos, agora, numa realidade em que vemos que essa pol\u00edtica de austeridade produz um ac\u00famulo de conflitos sociais e esse ac\u00famulo de conflitos sociais come\u00e7a a transbordar pelas ruas. Claro que, ao mesmo tempo, se tem tamb\u00e9m fatores muito locais, das pol\u00edticas locais, em que a gest\u00e3o atual produziu tamb\u00e9m um conjunto grande de advers\u00e1rios pol\u00edticos e isso em fun\u00e7\u00e3o de uma divis\u00e3o pol\u00edtica do grupo que governava o estado desde 2003. Essa divis\u00e3o pol\u00edtica atenua as possibilidades de constru\u00e7\u00e3o de uma pauta de negocia\u00e7\u00e3o que passa tamb\u00e9m pelo apoio de lideran\u00e7as pol\u00edticas que agora se ausentam de qualquer tipo de media\u00e7\u00e3o tanto com os policiais como com os familiares.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quem s\u00e3o as v\u00edtimas da viol\u00eancia no Esp\u00edrito Santo? Onde ocorrem a maioria das mortes?<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Malini &#8211; Toda a sociedade, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um grupo que est\u00e1 sendo v\u00edtima da m\u00e1 gest\u00e3o da pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica. Acontece que, obviamente, nos setores perif\u00e9ricos da cidade, onde existe conflitos armados e guerra entre pequenos e m\u00e9dios traficantes, a popula\u00e7\u00e3o se sente muito mais acuada porque a onda de tiroteios, saques, roubos \u00e9 muito mais intensa do que nas \u00e1reas mais centrais, nas \u00e1reas mais nobre em que se tem um processo de amplia\u00e7\u00e3o da guarda municipal, tem a presen\u00e7a do Ex\u00e9rcito. H\u00e1, obviamente, uma segrega\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de seguran\u00e7a sendo instalada. E h\u00e1, ainda, muitos outros receios como, por exemplo, a gest\u00e3o dos pres\u00eddios. N\u00e3o se sabe at\u00e9 agora como est\u00e3o acontecendo as gest\u00f5es dos pres\u00eddios, o que gera um certo p\u00e2nico diante da possibilidade de rebeli\u00f5es tamb\u00e9m acontecerem dentro deles.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Pela cobertura que a imprensa nacional vem dando \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, pode-se concluir que a PM e seus familiares, apesar de apresentarem reivindica\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas, s\u00e3o os respons\u00e1veis por toda onda de viol\u00eancia. Em que medida isso corresponde ao que o senhor v\u00ea a\u00ed no estado?<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Malini &#8211; Se voc\u00ea analisa dentro de um contexto de que os policiais militares s\u00e3o uma categoria de servidores p\u00fablicos impedidos de fazerem qualquer tipo de paralisa\u00e7\u00e3o e greve, h\u00e1 uma inconstitucionalidade dos seus atos. Nesse sentido, as responsabilidades pelos crimes que est\u00e3o acontecendo seriam deles, do ponto de vista do discurso midi\u00e1tico. Mas, na realidade, quando voc\u00ea pondera quest\u00f5es ligadas \u00e0 pr\u00f3pria vida dos policiais militares, \u00e0 pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o de trabalho desses policiais militares, a quest\u00e3o passa a ser outra.<\/p>\n<p>\u00c9 uma categoria que precisa de reposi\u00e7\u00e3o salarial de 43%, \u00e9 a categoria de policiais militares no Brasil com o pior sal\u00e1rio no come\u00e7o de carreira, \u00e9 uma categoria que vivencia uma redu\u00e7\u00e3o da sua capacidade de opera\u00e7\u00e3o. Por exemplo: v\u00e1rios carros que s\u00f3 saem com gasolina contada, muitos carros parados por problemas de manuten\u00e7\u00e3o, etc. E tudo isso al\u00e9m de ser uma categoria que vivencia muito mais a possibilidade de morte dado os conflitos que precisa enfrentar.<\/p>\n<p>E, obviamente, aliado ao estado que renuncia a sua capacidade de arrecada\u00e7\u00e3o de impostos para grandes empres\u00e1rios e, ao mesmo tempo, faz um processo de arrocho dos sal\u00e1rios de seus trabalhadores. Quando se coloca essa discuss\u00e3o em jogo, claro que os pesos dessa balan\u00e7a tendem a serem redefinidos. Me parece que o grande conflito acontece a\u00ed, de um lado voc\u00ea tem uma responsabiliza\u00e7\u00e3o dos policiais, mas, no debate pol\u00edtico, quando acontece com a sociedade, voc\u00ea tamb\u00e9m tem uma responsabiliza\u00e7\u00e3o do governo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como a situa\u00e7\u00e3o vinha aparecendo nas redes sociais? E, em que medida contaminava o que de fato estava acontecendo?<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Malini &#8211; Houve duas fases nas redes sociais. A primeira foi da incerteza, quando n\u00e3o se sabia o que estava acontecendo, n\u00e3o se sabia o que estava por acontecer. Assim, houve uma circula\u00e7\u00e3o de boatos, muito em fun\u00e7\u00e3o da ansiedade das pessoas em obterem as informa\u00e7\u00f5es e circularem essa informa\u00e7\u00e3o para se proteger. Essa condi\u00e7\u00e3o de incerteza aconteceu muito no domingo [05\/02] e na segunda-feira [06\/02]. A partir da ter\u00e7a-feira [07\/02], quando, de fato, se caracteriza uma paralisa\u00e7\u00e3o e um aquartelamento dos policiais militares, come\u00e7a o debate p\u00fablico nas redes sociais.<\/p>\n<p>\u00c9 quando se discute exatamente todas as pondera\u00e7\u00f5es associadas ao aquartelamento, desde pontos de vista que o criticam, do ponto de vista que o defendem, h\u00e1 discuss\u00e3o em torno do Ex\u00e9rcito nas ruas. Enfim, as redes sociais passam a ser um palco mais de debate pol\u00edtico. \u00c9 o momento das certezas. Sendo um mundo das incertezas, as redes sociais cumprem esse debate de alargar as informa\u00e7\u00f5es sobre o que acontece no Esp\u00edrito Santo. At\u00e9 mesmo para criar redes de solidariedades, para as pessoas poderem se movimentarem, para saberem onde que est\u00e3o os supermercados, as padarias, as farm\u00e1cias que est\u00e3o abertos, como fazer para manter a doa\u00e7\u00e3o de sangue. \u00c9 toda uma din\u00e2mica de sobreviv\u00eancia que acontece muito em fun\u00e7\u00e3o das redes sociais.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, num per\u00edodo de incerteza, as redes funcionam muito mais intensamente como espa\u00e7o da boataria e do rumor, mas isso \u00e9 logo reduzido em fun\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es oficiais que v\u00e3o chegando, serenando mais o esp\u00edrito.\u00a0As redes t\u00eam tamb\u00e9m um papel de internacionalizar o fato, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais nem nacionalizar o fato. Ou seja, faz com que aquela informa\u00e7\u00e3o que seria apenas local, at\u00e9 mesmo aquele drama que seria apenas local, se nacionalize para que ent\u00e3o se politize e para que outras autoridades possam estar atentas ao que est\u00e1 acontecendo no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>At\u00e9 esse momento, o presidente da Rep\u00fablica sequer mencionou o fato publicamente. Isso demonstra uma total omiss\u00e3o da presid\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos temas que est\u00e3o acontecendo em Vit\u00f3ria. A \u00fanica media\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 o envio de For\u00e7as Armadas para o Esp\u00edrito Santo que, mesmo tendo atualmente 3 mil homens, sequer chega a capacidade de parar a sangria literal. Ou seja, parar o conjunto de homic\u00eddios que v\u00eam acontecendo na periferia das cidades.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Quando e como foi o \u00e1pice da crise nas redes sociais?<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Malini &#8211; O grande \u00e1pice, como referi anteriormente, foi na segunda-feira [06\/02]. Depois, com a chegada das For\u00e7as Armadas, da For\u00e7a de Seguran\u00e7a Nacional, ocorreu um pouco mais de calma e reduziu a ansiedade, as pessoas come\u00e7aram a fazer suas atividades na rua, com muito limita\u00e7\u00e3o, mas, enfim, come\u00e7aram. Agora, nesse momento [manh\u00e3 de sexta-feira, dia 10\/02] h\u00e1 uma queda de bra\u00e7o entre o governo e os policiais militares. O governo tem um vi\u00e9s de n\u00e3o deixar pedra sobre pedra, e os militares tentam negociar algum ganho salarial. O governo come\u00e7a a notifica\u00e7\u00e3o de pris\u00f5es e indiciamentos de 700 policiais, enquanto os militares s\u00ea mant\u00e9m em aquartelamento. E a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 confiando em sair e ficar \u00e0 merc\u00ea das For\u00e7as Armadas e da For\u00e7a de Seguran\u00e7a Nacional. Esse \u00e9 o n\u00edvel de tens\u00e3o [da sexta-feira, dia 10, por volta das 12h].<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; No mapeamento que o senhor fez nas redes sociais, percebeu a incid\u00eancia de rob\u00f4s nas postagens. Como se d\u00e1 e como compreender \u2013 qual a fun\u00e7\u00e3o, o objetivo \u2013 essas postagens?<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Malini &#8211; Esse foi justamente o per\u00edodo da incerteza, quando os rob\u00f4s pr\u00f3-militares passam a publicar e difundir informa\u00e7\u00f5es de caos, saques, mortes, omiss\u00f5es do governo, not\u00edcias falsas. Todo um arsenal \u00e9 utilizado para propagar a defesa das a\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Militar. O que realmente nos assusta \u00e9 saber que o estado tem em suas m\u00e3os, atrav\u00e9s de estrat\u00e9gias militares, um conjunto t\u00e3o grande de perfis que funcionam como rob\u00f4s para qualificar ou desqualificar um determinado tipo de assunto.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como o senhor analisa os movimentos que aconteceram nas redes sociais entre a quinta-feira, 09\/02, e a madrugada de sexta-feira, 10\/02, no Rio de Janeiro, havendo at\u00e9 a suspens\u00e3o de transporte coletivo? Qual sua avalia\u00e7\u00e3o sobre a cobertura dos grandes ve\u00edculos de imprensa no caso do Rio de Janeiro?<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Malini &#8211; O padr\u00e3o \u00e9 sempre o mesmo. Convocat\u00f3rias em alta intensidade de posts no Facebook, WhatsApp e Twitter. E, permeado a uma narrativa do caso, produ\u00e7\u00e3o de <em>fake news<\/em> [not\u00edcias falsas]. No Rio de Janeiro, onde a intensidade de conflitos dura desde 2013, o aparelho de Estado conseguiu criar uma infraestrutura para se contrapor aos movimentos na rede. De um lado, perfis oficias se antecipam, em tempo real, a responder que a situa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 de normalidade. De outro, a imprensa repete o mantra do governo. \u00c9 uma dobradinha j\u00e1 conhecida no mundo carioca. Mas tamb\u00e9m \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel, porque \u00e9 imposs\u00edvel ocultar os dramas pessoais do funcionalismo e a sequ\u00eancia de roubos da gangue do S\u00e9rgio Cabral.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Tamb\u00e9m nas grandes empresas de comunica\u00e7\u00e3o, h\u00e1 o discurso de que policiais do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o pior porque recebem os sal\u00e1rios atrasados e n\u00e3o est\u00e3o aquartelados. Que efeitos essa narrativa pode ter sobre Esp\u00edrito Santo e at\u00e9 mesmo Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul?<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Malini &#8211; Pouco. Por qu\u00ea? Porque o governo atual recebeu o estado em melhores condi\u00e7\u00f5es financeiras que no Rio e no Rio Grande. E criou poupan\u00e7a atrav\u00e9s do arrocho salarial ao mesmo tempo que concedeu benesses para os empres\u00e1rios. Ent\u00e3o, nada mais justo que os servidores p\u00fablicos reivindiquem o direito a essa poupan\u00e7a. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m problemas que derivam da impopularidade que a PM tem dentro da sociedade civil, em fun\u00e7\u00e3o da longa hist\u00f3ria de repress\u00e3o aos anseios populares, ao mesmo tempo que uma gera\u00e7\u00e3o (3 mil novos soldados) de soldados n\u00e3o &#8220;respeitam&#8221; as hierarquias autorit\u00e1rias e abusivas da PM. \u00c9 uma crise dentro e fora, que, parece, tem potencial de exporta\u00e7\u00e3o para os outros estados federados.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O senhor destaca que o Esp\u00edrito Santo viveu uma situa\u00e7\u00e3o de fal\u00eancia em que a austeridade e o ajuste fiscal foram os \u00fanicos caminhos postos para superar a crise financeira. Qual a li\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo para estados como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, que passam por s\u00e9rias dificuldades financeiras e que o governo federal, embora em crise, condiciona aux\u00edlio \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o de planos de ajuste fiscal?<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Malini &#8211; Sem d\u00favida, a pol\u00edtica de ajuste significou um arrocho sobre os sal\u00e1rios do funcionalismo. Isso, no caso do setor policial, fez explodir um endividamento entre os PMs, ou adquiridos em bancos ou com agiotas. N\u00e3o \u00e0 toa que, nessa crise, muitos deles passam por press\u00e3o psicol\u00f3gica e at\u00e9 tentam suic\u00eddio. O impacto vai al\u00e9m. Nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho e na infraestrutura p\u00fablica, que se degrada. Na situa\u00e7\u00e3o capixaba, a frota est\u00e1 totalmente sucateada, a gasolina \u00e9 permanentemente controlada e os policiais precisam revezar coleta \u00e0 prova de bala, enquanto isso a pol\u00edtica de ren\u00fancia fiscal do Esp\u00edrito Santo \u00e9 protegida por sigilo, garantida por lei estadual. Um total absurdo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma panela de press\u00e3o que j\u00e1 vem estourando: ocupa\u00e7\u00f5es das escolas, crise h\u00eddrica (que \u00e9 basicamente a incapacidade do Estado em investir em pol\u00edtica de seguran\u00e7a h\u00eddrica), greve dos PMs. Em pouco tempo, os bens p\u00fablicos come\u00e7am a serem entregues, de bandeja, para o setor privado, como acontece no Estado do Rio. E a tend\u00eancia, me parece, a continuar essas pol\u00edticas contracionistas \u00e9 de piorar o quadro social brasileiro.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como avalia todo esse processo, agora que policiais j\u00e1 come\u00e7am a voltar para as ruas no Esp\u00edrito Santo? E o que fica de todo esse epis\u00f3dio?<\/strong><\/p>\n<p><strong>F\u00e1bio Malini &#8211;<\/strong> H\u00e1 um baixo contingente de policiais na rua, entre 5 a 10% da tropa. Muitos destes n\u00e3o possuem experi\u00eancia com o chamado &#8220;policiamento ostensivo&#8221;. Ent\u00e3o, h\u00e1 um clima de normalidade que \u00e9 todo voltado a dar serenidade \u00e0s classes m\u00e9dias e altas, protegidas por guardas, esses policiais e o Ex\u00e9rcito. Contudo, nas periferias, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma &#8220;anormalidade&#8221;, com guerras entre traficantes, acertos de contas e grupos de exterm\u00ednios, fazendo o n\u00famero de homic\u00eddio, em sete dias, bater, at\u00e9 agora [manh\u00e3 de segunda-feira, dia 13\/02], as 164 mortes.<\/p>\n<p>Enquanto isso, os policiais continuam aquartelados. N\u00e3o h\u00e1 negocia\u00e7\u00e3o salarial no horizonte. E n\u00e3o se sabe se, ao voltarem, a taxa de homic\u00eddios vai continuar, dado o &#8220;sangue nos olhos&#8221; que essa tropa pode vir a estar, o que tem sempre como consequ\u00eancia a mortes dos pobres e pretos das periferias.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/564822-crise-no-espirito-santo-o-modelo-de-uma-tragedia-brasileira-entrevista-especial-com-fabio-malini<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Entrevista com F\u00e1bio Malini Por Jo\u00e3o Vitor Santos Para compreender mais amplamente a situa\u00e7\u00e3o pela qual vem passando o estado do Esp\u00edrito Santo \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13583\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-13583","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3x5","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13583","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13583"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13583\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13583"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13583"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13583"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}