{"id":13606,"date":"2017-02-20T12:41:25","date_gmt":"2017-02-20T15:41:25","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13606"},"modified":"2017-03-12T03:11:07","modified_gmt":"2017-03-12T06:11:07","slug":"condominio-residencial-e-utopia-burguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13606","title":{"rendered":"Condom\u00ednio residencial e utopia burguesa"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/cHRPza19bm9PhkzHLkaDn-9dmqQYmQ_NGUYrgGC2yAF4FQ3OmhWcovYMpN4PozAivy63YFfYpukpxMs8fP1FSIGHM5ZS9-Wi7hIJ822EEb5g-TT-j-ECCor9CuGJNc8IBOxYPwAhmOx4P8dX8k1fljZweNP4DP23MrM0UWjAiXebtKjZtE-SQD5035jRzOBVvwQTUOyWXV5zhEyCWfkSbi6M_MqUmQCA1-x-Il56eNtXhH6xEIacZ6BZMUmbwGvKJGpMA3ulCICSTxLYX4PHvx0ARqjXPOrojwfWAubYIPXnUDUXa8hSl6Aa40qemUm_PbB_rH1X5iji3Je6vO5K5xsl7dLPzE12vBpcENsV_U3FdfAVzZkMNntqAI7TByTuZunjQHlKf23hLwAshJ_VvOUhJVOSLYUx-ncj8msGL_iC7RhzhLGvvxL0RxP-x-pZdr2fV5xqyO9CGpnvstwkioPTpus6b5wCtaUTbwaWVY0JGOXtkDSiQF8HaHSy6Nx9JOE1jqm3MUPQ1q46hGvwOOndTanjgWHrECOP-chl-f0yoGq2BeAoo1qYoCf6OSc9HNfOZxc7XL2TCadoQqOOeioxZ_plIr0DTJ_ydf8pNlrbzcgcYG5OIZrkWMyIluYXeRDC0ux-3i3h3XFXT8n6jz_J7W4l0rnihVxpbbYWfA=w294-h281-no\" alt=\"imagem\" \/>por Golbery Lessa, membro do Comit\u00ea Central do PCB<\/p>\n<p>O condom\u00ednio residencial \u00e9 uma das mais inconsistentes utopias j\u00e1 inventadas. Uma parte da elite econ\u00f4mica levanta muralhas contra o resto da cidade e obriga-se a construir casas sem muros,<!--more--> num estilo arquitet\u00f4nico marcado pela possibilidade de o transeunte enxergar v\u00e1rias dimens\u00f5es do cotidiano dos moradores. A mensagem ut\u00f3pica \u00e9 clara: aqui se vive uma intera\u00e7\u00e3o perfeita entre individualidade e comunidade, entre indiv\u00edduo e sociedade civil, nesse solo prevalecem os princ\u00edpios republicanos da transpar\u00eancia, da fraternidade e da liberdade, aqui se chega mesmo a tocar as franjas do socialismo. O nomes desses condom\u00ednios s\u00e3o s\u00ednteses lingu\u00edsticas dessa utopia.<\/p>\n<p>Visitei uma casa na qual um pequeno gramado com menos de dez metros separava a cal\u00e7ada e uma parede externa com setenta por cento de sua \u00e1rea feita de vidro. Como o dono da casa deve se sentir diante de tal intera\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria com o espa\u00e7o coletivo, mesmo sendo um l\u00f3cus de sua classe social? Por que ele se presta ao evidente inc\u00f4modo de ter sua vida potencialmente devassada diuturnamente pelo olhar de quem passa?<\/p>\n<p>Esse indiv\u00edduo tem necessidade de ver e viver sua utopia liberal, aquilo que justifica e empresta sentido \u00e0 sua sede de lucro, mas a realidade do capitalismo contempor\u00e2neo levanta cidades ca\u00f3ticas e refrat\u00e1rias a qualquer apar\u00eancia de utopia. A elite mercantil inviabilizadora de pol\u00edticas urbanas racionais \u00e9 ela mesma v\u00edtima do caos da urbe; vende at\u00e9 a corda na qual se enforcar\u00e1, destr\u00f3i a pr\u00f3pria utopia justificadora de sua vis\u00e3o de mundo. Inventa, ent\u00e3o, um pouco consciente e um pouco inconscientemente, uma farsa de utopia: o condom\u00ednio residencial.<\/p>\n<p>O mesmo comerciante destruidor de fachadas com valor arquitet\u00f4nico paga caro para o seu condom\u00ednio ter uma paisagem sem qualquer refer\u00eancia ao com\u00e9rcio. O industrial poluidor dos rios pode ser visto regando as plantas. O latifundi\u00e1rio monocultor n\u00e3o constr\u00f3i cercas ao redor do seu jardim, contradizendo a lenda rousseauniana sobre o nascimento do direito de propriedade. Ocorre uma transforma\u00e7\u00e3o geral, o novo homem surge no interior daquele per\u00edmetro cercado por guaritas, vigilantes e cercas el\u00e9tricas.<\/p>\n<p>Muitos acreditam morar ali por mero status, simples ostenta\u00e7\u00e3o de riqueza, ou para enturmar-se de modo seguro com sua classe social, garantindo lazer, \u201cbons casamentos\u201d para os filhos, bem-estar arquitet\u00f4nico, distanciamento dos pobres e seguran\u00e7a. Mas para isso n\u00e3o seria necess\u00e1ria a \u00e1rdua constru\u00e7\u00e3o de uma apar\u00eancia de utopia. A utopia igualit\u00e1ria e exibicionista dos condom\u00ednios n\u00e3o \u00e9 funcional para nada disso. Ela \u00e9, essencialmente, uma busca desesperada por coer\u00eancia moral e sentido para a vida efetivada de maneira farsesca por uma classe sem mais possibilidades objetivas de ter coer\u00eancia e sentido na sua pr\u00e1tica e na sua subjetividade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Golbery Lessa, membro do Comit\u00ea Central do PCB O condom\u00ednio residencial \u00e9 uma das mais inconsistentes utopias j\u00e1 inventadas. 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