{"id":13632,"date":"2017-02-22T15:10:26","date_gmt":"2017-02-22T18:10:26","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13632"},"modified":"2017-03-12T03:11:36","modified_gmt":"2017-03-12T06:11:36","slug":"le-fil-rouge-uma-saga-revolucionaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13632","title":{"rendered":"Le Fil Rouge &#8211; Uma saga revolucion\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.odiario.info\/b2-img\/lefilrouge.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Miguel Urbano Rodrigues<\/p>\n<p>Num panorama editorial, nacional e internacional, onde predominam esmagadoramente obras cujos personagens n\u00e3o t\u00eam aparentemente compromisso de classe, este livro publicado em 2016 \u00e9 singular. Os personagens s\u00e3o comunistas, e a sua a\u00e7\u00e3o insere-se em alguns dos mais duros combates de classe da primeira metade do s\u00e9culo XX.<!--more--><\/p>\n<p>LE FIL ROUGE* (O Fio Vermelho) \u00e9 uma saga. Apresenta-se como romance, mas enquadra-se mal nesse g\u00eanero liter\u00e1rio. Gilda Landino Guibert escreveu um poema revolucion\u00e1rio em prosa que projeta os leitores para cen\u00e1rios de luta pela liberdade e pela transforma\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>O sujeito \u00e9 simultaneamente individual, uma fam\u00edlia, e coletivo, os italianos de aldeias da Toscana que se bateram contra o fascismo mussoliniano e, posteriormente em Fran\u00e7a, como imigrantes, ao lado dos franceses da Resist\u00eancia contra a ocupa\u00e7\u00e3o alem\u00e3. A a\u00e7\u00e3o transcorre na primeira metade do seculo XX.<\/p>\n<p>O patriarca da fam\u00edlia \u00e9 Aristodemo, um lenhador de Torniella, uma aldeia toscana de camponeses sem terra, a grande maioria analfabetos. Residem em toscos casebres, e a fome \u00e9 companheira di\u00e1ria dessa gente prolet\u00e1ria que sobrevive com sal\u00e1rios de mis\u00e9ria.<br \/>\nAristodemo \u00e9 desde a adolesc\u00eancia um rebelde. Aos 14 anos a sua participa\u00e7\u00e3o ativa na ocupa\u00e7\u00e3o de terras comunais de que se tinha apropriado um conde, grande latifundi\u00e1rio, assinala o in\u00edcio de uma vida dedicada \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o. L\u00ea tudo o que lhe cai nas m\u00e3os. Descobre Marx e Lenin, entusiasma-se com a gesta da Comuna de Paris. Mobilizado para combater contra o povo l\u00edbio, deserta. \u00c9 preso, condenado e, no c\u00e1rcere, aprofunda a sua cultura pol\u00edtica A companheira, Violeta, passa tamb\u00e9m pela pris\u00e3o; torturada, n\u00e3o cede. Ambos s\u00e3o revolucion\u00e1rios, muito antes da forma\u00e7\u00e3o do Partido Comunista Italiano.<\/p>\n<p>A escritora dedica cap\u00edtulos \u00e0 ascens\u00e3o do fascismo na It\u00e1lia, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da cidade de Roccabrada pelos camisas negras de Mussolini, \u00e0 pris\u00e3o dos comunistas de Torniella, nomeadamente Aristodemo.<\/p>\n<p>O chefe dos Landini, com a cabe\u00e7a a pr\u00eamio, emigra para Fran\u00e7a onde a mulher e os filhos se re\u00fanem a ele.<\/p>\n<p>Gilda descreve com min\u00facias a dif\u00edcil, dolorosa integra\u00e7\u00e3o de Aristodemo (passa a chamar-se Aristide em Fran\u00e7a) nas minas de ferro da Lorena, e, depois, como lenhador, noutra regi\u00e3o e finalmente na Proven\u00e7a, onde a fam\u00edlia, j\u00e1 com quatro filhos, se fixa numa aldeia onde a maioria dos habitantes s\u00e3o imigrantes italianos, quase todos comunistas.<br \/>\nAs persegui\u00e7\u00f5es acentuam-se ap\u00f3s a derrota da Fran\u00e7a. O filho mais velho, Arnolfo (torna-se Roger na Proven\u00e7a), destacado militante comunista como o pai, \u00e9 particularmente visado pelas autoridades de Vichy. A fam\u00edlia vegeta numa pobreza pr\u00f3xima da mis\u00e9ria sem perder a alegria. Quando o cerco aperta, Aristide e os seus mudam-se para Creuse, um departamento do Maci\u00e7o Central. Fi\u00e9is ao seu ide\u00e1rio, mant\u00eam uma combatividade exemplar.<\/p>\n<p>GILDA<\/p>\n<p>Gilda Landini Guibert \u00e9 neta de Aristide, filha de Leo, o ca\u00e7ula da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>N\u00e3o viveu a dram\u00e1tica epopeia da fam\u00edlia. Dela tomou conhecimento escutando o pai e atrav\u00e9s do muito que se escreveu sobre os Landini. Professora de hist\u00f3ria, presidente da Comiss\u00e3o de Hist\u00f3ria do Museu da Resist\u00eancia, dedicou dez anos \u00e0 pesquisa e estudo dos acontecimentos de que os seus antepassados foram protagonistas. O seu trabalho levou-a \u00e0 Toscana natal do av\u00f4, aos arquivos de Roccastrada, ao Museu da Resist\u00eancia de Floren\u00e7a, aos arquivos proven\u00e7ais de Draguyignan e Muy, ao antigo pres\u00eddio de Montluc, ao Centro da Resist\u00eancia em Lyon e ao Museu Nacional da Resist\u00eancia e da Deporta\u00e7\u00e3o em Champigny sur Marne. Comunista desde a juventude, na tradi\u00e7\u00e3o familiar, a sua op\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica transparece do in\u00edcio ao fim do livro. Ela escreve com a paix\u00e3o, a confian\u00e7a e o entusiasmo dos bolcheviques da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro.<\/p>\n<p>As dezenas de combatentes citados por Gilda foram revolucion\u00e1rios reais. Muitos deles personagens hist\u00f3ricos. Togliatti dormiu em casa do av\u00f4, e Thorez pronunciou no Norte o discurso de que ela transcreve alguns par\u00e1grafos.<\/p>\n<p>A emo\u00e7\u00e3o que escorre das p\u00e1ginas de muitos cap\u00edtulos suscita reparos da cr\u00edtica. Mas n\u00e3o foi a ambi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria que a empurrou para a escrita da saga dos Landini.<\/p>\n<p>DO TERROR NAZI \u00c0 ESPERAN\u00c7A<\/p>\n<p>Em circunst\u00e2ncias diferentes, Aristide, Roger e Leo s\u00e3o presos e torturados. Resistem; nenhum deles fala.<\/p>\n<p>A luta contra os alem\u00e3es na Resist\u00eancia \u00e9 o tema das \u00faltimas duzentas p\u00e1ginas, mais de um ter\u00e7o do livro.<\/p>\n<p>Roger primeiro e depois Leo, um adolescente de17 anos, participam de m\u00faltiplas a\u00e7\u00f5es de sabotagem que visam os transportes ferrovi\u00e1rios, f\u00e1bricas, avi\u00f5es, edif\u00edcios que produzem armas para os alem\u00e3es.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 a regi\u00e3o de Lyon. Gilda move-se no tempo como historiadora. Cita as datas e os lugares de cada iniciativa da guerrilha rural (o maquis) e da urbana. Alguns cap\u00edtulos abrem ao leitor p\u00e1ginas da hist\u00f3ria da Fran\u00e7a do ano 44, quando a derrota alem\u00e3 era j\u00e1 uma certeza Leo, capturado, \u00e9 submetido pela Gestapo a sess\u00f5es de tortura minuciosamente descritas. Mas n\u00e3o lhe arrancam uma palavra. Sofre tanto que deseja a morte. Nesses dias venceu mais uma batalha. Adquiriu a certeza de que era poss\u00edvel resistir, que supl\u00edcio algum o faria falar\u2026<\/p>\n<p>KLAUS BARBIE<\/p>\n<p>O chefe local da Gestapo, Klaus Barbie, o &#8220;a\u00e7ougueiro de Lyon&#8221; dirige pessoalmente a tortura de Leo Landini.<\/p>\n<p>O seu retrato \u00e9 esbo\u00e7ado com realismo. Foi um dos mais sanguin\u00e1rios assassinos da organiza\u00e7\u00e3o criminosa.<\/p>\n<p>Finda a guerra, conseguiu fugir para os EUA protegido pelo Country Intelligence Corps da US Army, com o qual passou a trabalhar intimamente no quadro da Guerra Fria.<\/p>\n<p>Em 1951 estava na Argentina, colaborando com a CIA. Mas em 1961 j\u00e1 vive na Bol\u00edvia, sob o nome de Klaus Altman e torna-se um prospero comerciante. Durante a ditadura do general Hugo Banzer \u00e9 assessor do alto comando do ex\u00e9rcito boliviano. Enriquece.<\/p>\n<p>N\u00e3o esqueci que em 1983 eu estava em La Paz quando o presidente progressista Siles Suazo decidiu prender e entregar \u00e0 Fran\u00e7a Altman-Barbie, que fora identificado por um jornalista que o entrevistara. Julgado como criminoso de guerra, foi condenado \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua. Faleceu no c\u00e1rcere em 1991.<\/p>\n<p>EP\u00cdLOGO<\/p>\n<p>O livro termina com a reuni\u00e3o de toda a fam\u00edlia Landini. Um desfecho feliz.<\/p>\n<p>Gilda escreveu um livro comovedor. Mas ao magnificar Aristide, Roger, Leo, a m\u00e3e Violeta e outros membros da fam\u00edlia, erige-os em her\u00f3is quase sobre-humanos.<br \/>\nOs Landini surgem na sua saga rom\u00e2ntica como revolucion\u00e1rios exemplares. O leitor \u00e9 levado \u00e0 conclus\u00e3o de que a grande maioria dos comunistas s\u00e3o como eles, aut\u00eanticos continuadores dos bolcheviques da gera\u00e7\u00e3o de 1917.<\/p>\n<p>Oxal\u00e1 assim fosse. Mas a evolu\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria contempor\u00e2nea desmente essa vis\u00e3o idealista da neta de Aristodemo Landini.<\/p>\n<p>Vila Nova de Gaia, Fevereiro de 2017<\/p>\n<p>*Le Fil Rouge, Gilda Landini Guibert, Ed. Delga, 560 pags, Paris 2016<\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/le-fil-rouge-uma-saga-revolucionaria\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Miguel Urbano Rodrigues Num panorama editorial, nacional e internacional, onde predominam esmagadoramente obras cujos personagens n\u00e3o t\u00eam aparentemente compromisso de classe, este livro \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13632\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[],"class_list":["post-13632","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3xS","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13632","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13632"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13632\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13632"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13632"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13632"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}