{"id":13703,"date":"2017-03-02T17:05:47","date_gmt":"2017-03-02T20:05:47","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13703"},"modified":"2017-03-16T12:29:24","modified_gmt":"2017-03-16T15:29:24","slug":"eleicoes-no-equador-um-triunfo-em-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13703","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es no Equador: um triunfo em risco"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci5.googleusercontent.com\/proxy\/rUJSHTUZYjpPnlEvoHc5Gbx89NqR-2I0ymljJsXuw8iseHgM9Og0b7jyUKt_ECPmA6ooBr1KOPg7pOej844hSki8lb_9KukdVOhHxlJIgy7b=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.odiario.info\/b2-img\/eleccionesecuadorfebrero.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Juan J. Paz e Mi\u00f1o Cepeda*<\/p>\n<p>Nas recentes elei\u00e7\u00f5es no Equador a Alianza Pa\u00eds ficou \u00e0 frente. Mas os seus candidatos \u00e0 presid\u00eancia e \u00e0 vice-presid\u00eancia n\u00e3o obtiveram votos suficientes para ganhar no primeiro turno. E n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil vencerem no segundo, porque n\u00e3o s\u00f3 a direita e o imperialismo apostar\u00e3o tudo na outra candidatura, como se verificou uma desloca\u00e7\u00e3o do apoio em setores populares.<!--more--><\/p>\n<p>No domingo, 19 de Fevereiro de 2017, realizaram-se no Equador elei\u00e7\u00f5es para presidente e vice-presidente, membros da Assembleia Nacional, Parlamentares Andinos e uma consulta popular para que os funcion\u00e1rios p\u00fablicos e dignat\u00e1rios n\u00e3o possam ter capitais em para\u00edsos fiscais.<br \/>\nO SIM ganhou na consulta (com pelo menos 55%); e Alianza Pa\u00eds (AP) ter\u00e1 maioria na Assembleia (previstos 64 dos 138 lugares) e ganha no Parlamento Andino.<\/p>\n<p>E o Executivo?<\/p>\n<p>Todas as empresas de sondagens previram o triunfo do bin\u00f4mio de AP Lenin Moreno\/Jorge Glas. Mas a contagem oficial, por parte do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e sobre a base de 98.5% dos boletins de votos escrutinados (quarta-feira, 22 de fevereiro), atribuiu a esse bin\u00f4mio 39.33% e ao ex-banqueiro Guillermo Lasso 28.19%. Moreno ficou praticamente a um ponto de atingir os 40% requeridos (e al\u00e9m disso ter pelo menos 10 pontos de vantagem sobre o candidato seguinte), para ganhar no primeiro turno. O CNE admitiu que haver\u00e1 segundo turno.<\/p>\n<p>Mas essa diferen\u00e7a deu \u00e2nimo \u00e0 direita pol\u00edtica, econ\u00f4mica e midi\u00e1tica que apoiou o banqueiro. Numa bem orquestrada estrat\u00e9gia, antes do processo eleitoral, n\u00e3o s\u00f3 lan\u00e7aram uma \u201ccampanha suja\u201d como difundiram a ideia de que se preparava uma \u201cfraude eleitoral\u201d; e, com os resultados em marcha, ativaram outros mecanismos indubitavelmente j\u00e1 preparados: v\u00eddeos de indiv\u00edduos detidos com mochilas cheias de votos j\u00e1 preenchidos; simpatizantes de Lasso convocados a sair \u00e0s ruas, exigir o segundo turno antes ainda de os resultados oficiais serem conhecidos e vociferar contra a escandalosa \u201cfraude\u201d.<br \/>\nFizeram igualmente circular supostos pronunciamentos das for\u00e7as armadas pedindo \u201ctranspar\u00eancia\u201d do processo, desmentidos pelo Comando Conjunto; e levantaram a agressividade contra todo \u201ccholo\u201d e \u201ccorre\u00edsta\u201d. A \u201cpeluconer\u00eda\u201d (\u201ccabeleiraria\u201d, termo que descreve esses agressivos setores da classe \u201calta\u201d) mobilizou-se da mesma forma que fizeram os \u201cesqu\u00e1lidos\u201d na Venezuela.<\/p>\n<p>A direita pol\u00edtica equatoriana tem larga experi\u00eancia hist\u00f3rica sobre o \u00eaxito que lhes podem proporcionar essas campanhas, que contam agora com o apoio de uma s\u00e9rie de meios de comunica\u00e7\u00e3o privados, que passaram a ser os seus instrumentos ideol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>As direitas promoveram uma intensa campanha contra o referendo constitucional de 1978 e atacaram a nova Constitui\u00e7\u00e3o de \u201ccomunista\u201d. No mesmo ano, no primeiro turno, ficou \u00e0 frente o progressista Jaime Rold\u00f3s, que no segundo devia enfrentar o social-crist\u00e3o Sixto Dur\u00e1n Ball\u00e9n, cujo partido lan\u00e7ou ent\u00e3o a ideia de \u201cfraude\u201d, ao mesmo tempo em que Dur\u00e1n era pressionado a abandonar a sua candidatura e criar assim um vazio que impedisse as elei\u00e7\u00f5es. Finalmente, ganhou Rold\u00f3s (1979-1981). O seu governo e o do sucessor Osvaldo Hurtado (1981-1984) foram sistematicamente atacados de \u201ccomunistas\u201d pelas direitas pol\u00edticas e empresariais.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es de 1984, o perdedor no primeiro turno foi o social-crist\u00e3o Le\u00f3n Febres Cordero e novamente os seus partid\u00e1rios vociferaram contra a \u201cmonstruosa fraude\u201d eleitoral a favor de Rodrigo Borja, candidato da Izquierda Democr\u00e1tica, que foi o vencedor; mas, como Febres ganhou o segundo turno, nunca mais voltaram a falar do assunto.<\/p>\n<p>O governo de Febres Cordero (1984-1988) foi dos empres\u00e1rios e assim o proclamaram. Com ele houve imposi\u00e7\u00f5es violentas sobre o Congresso, onde n\u00e3o tinha maioria. E o pa\u00eds viveu uma administra\u00e7\u00e3o violadora da Constitui\u00e7\u00e3o e dos direitos humanos, que inaugurou a hegemonia do modelo empresarial\/neoliberal, com v\u00e1rios esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o que envolveram personagens do governo.<\/p>\n<p>Em cada elei\u00e7\u00e3o posterior, as direitas se anteciparam \u00e0 previs\u00e3o de uma \u201cfraude\u201d, cada vez que lhes conveio. Assim voltaram a dizer quando triunfou Rodrigo Borja (1988-1992). Se eles n\u00e3o est\u00e3o no poder, n\u00e3o h\u00e1 fraude. \u00c9 essa a consigna da sua experi\u00eancia hist\u00f3rica. Hoje prepararam o caminho com efic\u00e1cia e, para o segundo turno, lan\u00e7ar\u00e3o todo o seu arsenal midi\u00e1tico e pol\u00edtico a fim de impedir o triunfo dos candidatos de AP.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que h\u00e1 uma alian\u00e7a poderosa entre as direitas pol\u00edticas, as elites empresariais dos gr\u00eamios da produ\u00e7\u00e3o e os meios de comunica\u00e7\u00e3o privados colocados a seu servi\u00e7o. N\u00e3o os preocupa carecer de maioria no Legislativo, nem a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o de 2008, mas sim o controle do Executivo num sistema presidencialista no qual o presidente \u00e9 chefe do Estado e chefe do governo; e porque, al\u00e9m disso, sabem como impor-se a toda institucionalidade contr\u00e1ria aos seus interesses, sem descartar &#8211; como a experi\u00eancia hist\u00f3rica do pa\u00eds verifica -, o uso da repress\u00e3o, o autoritarismo e a prepot\u00eancia.<\/p>\n<p>No Equador est\u00e1 em jogo um tipo de economia e de sociedade iniciado pela Revolu\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3, que ficaria truncado se triunfasse o outro projeto do ex-banqueiro Lasso e das suas for\u00e7as de apoio. N\u00e3o s\u00f3 isso. No Equador est\u00e1 em jogo a vig\u00eancia do ciclo de governos progressistas, democr\u00e1ticos e de nova esquerda, os quais uma internacional direitista e, sem d\u00favida, o imperialismo procuram derrotar, e j\u00e1 podem exibir os seus \u201ctriunfos\u201d na Argentina e no Brasil.<br \/>\nMas est\u00e1 sobretudo em jogo a possibilidade de que a popula\u00e7\u00e3o equatoriana avance em maiores conquistas sociais, em institucionalidade e em democracia. Boa parte dos cidad\u00e3os parecem esquecer a hist\u00f3ria e deixaram-se seduzir pela ideia de que a \u201cmudan\u00e7a\u201d oferecida vir\u00e1 pela m\u00e3o das elites que sempre os t\u00eam dominado.<\/p>\n<p>O triunfo de AP no primeiro turno n\u00e3o \u00e9 garantia para o segundo, porque n\u00e3o s\u00f3 ter\u00e1 que enfrentar as for\u00e7as poderosas antes referidas, mas tamb\u00e9m tratar de modificar a consci\u00eancia de amplos setores da popula\u00e7\u00e3o que votaram contra ela.<\/p>\n<p>AP ganha nas sete prov\u00edncias da Costa, o que altera o predom\u00ednio direitista nessa regi\u00e3o, embora a tradicional oligarquia costenha e particularmente de Guayaquil mantenha uma base eleitoral nada desprez\u00edvel. AP perdeu em cinco das 10 prov\u00edncias da Serra, onde h\u00e1 uma viragem conservadora, incluindo em prov\u00edncias centrais com significativa presen\u00e7a ind\u00edgena onde Lasso ganha; tamb\u00e9m perde em Gal\u00e1pagos e em cinco das seis prov\u00edncias da Amaz\u00f4nia, onde provavelmente pesou o controverso extrativismo mineral.<\/p>\n<p>De modo que o triunfo no primeiro turno tem algo de sabor amargo, a que h\u00e1 que somar o fato de n\u00e3o ter ao menos alcan\u00e7ado os 40% da vota\u00e7\u00e3o para evitar o segundo turno.<\/p>\n<p>N\u00e3o contam s\u00f3 os avan\u00e7os das for\u00e7as opositoras; pesaram tamb\u00e9m os dois \u00faltimos anos da administra\u00e7\u00e3o do Presidente Rafael Correa, por certas viragens conceituais, decis\u00f5es sobre leis laborais, o tratado comercial com a Europa, as alian\u00e7as p\u00fablico\/privadas, o endividamento, a forte recess\u00e3o econ\u00f4mica e as ampliadas den\u00fancias da oposi\u00e7\u00e3o sobre a corrup\u00e7\u00e3o que, ao que parece, afastaram antigos simpatizantes.<\/p>\n<p>Tudo isso n\u00e3o impede a avalia\u00e7\u00e3o de que em uma d\u00e9cada o Equador teve mudan\u00e7as econ\u00f4micas, sociais, pol\u00edticas e institucionais in\u00e9ditas no s\u00e9culo XX, algo reconhecido inclusive por diferentes organismos internacionais como Cepal, Pnud, BM e at\u00e9 o FMI.<\/p>\n<p>Mas o balan\u00e7o da gest\u00e3o e os sucessos de uma d\u00e9cada indubitavelmente ganha &#8211; em que a lideran\u00e7a do presidente Rafael Correa tem sido guia e indiscut\u00edvel -, tampouco foi suficiente para criar uma consci\u00eancia social que impe\u00e7a as possibilidades de revers\u00e3o do que foi alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p>N\u00e3o conta, portanto, apenas a pol\u00edtica ou a economia, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia social; e trabalhar sobre ela \u00e9 um assunto \u00e1rduo, dif\u00edcil no tempo. Na Am\u00e9rica Latina h\u00e1 momentos de progresso democratizador e outros de largos retrocessos, que esperamos n\u00e3o se repitam em consequ\u00eancia de decis\u00f5es populares no segundo turno presidencial que se realizar\u00e1 no pr\u00f3ximo 2 de abril. AP est\u00e1 otimista que triunfar\u00e1.<\/p>\n<p>Quito, 22\/Fevereiro\/2017.<\/p>\n<p>*Historiador, investigador e jornalista equatoriano.<\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/eleicoes-no-equador-um-triunfo-em\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Juan J. Paz e Mi\u00f1o Cepeda* Nas recentes elei\u00e7\u00f5es no Equador a Alianza Pa\u00eds ficou \u00e0 frente. 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