{"id":13724,"date":"2017-03-05T19:04:53","date_gmt":"2017-03-05T22:04:53","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13724"},"modified":"2017-03-16T12:29:56","modified_gmt":"2017-03-16T15:29:56","slug":"america-latina-o-progressismo-afastou-se-das-ideias-iniciais-da-esquerda-entrevista-com-eduardo-gudynas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13724","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina. \u201cO progressismo afastou-se das ideias iniciais da esquerda\u201d. Entrevista com Eduardo Gudynas"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/03\/02_03_eduardo_gudynas_foto_youtube.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/549493-debates-em-torno-do-extrativismo-colonialismo-simpatico-e-as-contradicoes-dos-nossos-progressismos-artigo-de-eduardo-gudynas\" target=\"_blank\">Eduardo Gudynas<\/a>, especialista em temas relacionados ao meio ambiente e desenvolvimento, considera que os governos progressistas da regi\u00e3o ca\u00edram na armadilha do desenvolvimentismo, que destr\u00f3i a natureza.<!--more--><\/p>\n<p>Nesta entrevista, Gudynas analisa o processo eleitoral no Equador e reflete por que o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/565219-pos-correismo-e-novas-segmentacoes-no-equador\" target=\"_blank\">corre\u00edsmo<\/a> n\u00e3o conseguiu a vit\u00f3ria no primeiro turno e por que as comunidades ind\u00edgenas afetadas pela explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo e da minera\u00e7\u00e3o lhe deram as costas e optaram pela direita.<\/p>\n<p>O analista est\u00e1 familiarizado com a realidade boliviana. Seus \u00faltimos livros s\u00e3o: <em>Extrativismo, um modo de entender o desenvolvimento e a natureza<\/em>, publicado por CEDIB, e <em>Direitos da Natureza<\/em>, por Plural.<\/p>\n<p>Nesse contexto, faz uma leitura da Bol\u00edvia e assinala que, no passado, era a esquerda quem promovia os referendos e outras formas de democracia consultiva; hoje, os <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/558093-uma-esquerda-latino-americana-sem-a-ecologia-caira-novamente-na-crise-dos-progressismos\" target=\"_blank\">progressismos<\/a> nos governos procuram desestimul\u00e1-los.<\/p>\n<p>A entrevista \u00e9 de Juan Carlos V\u00e9liz M. e publicada por P\u00e1gina Siete, 28-02-2017. A tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 de Andr\u00e9 Langer.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista:<\/strong><\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Por que o corre\u00edsmo n\u00e3o conseguiu ganhar no primeiro turno?<\/strong><\/p>\n<p>Pecou-se por autossufici\u00eancia, assumindo que teriam uma grande maioria e que a oposi\u00e7\u00e3o seria min\u00fascula. Mais do que se equivocar, foram cegos.<\/p>\n<p>De qualquer forma, o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/565276-o-equador-contra-a-politica-offshore\" target=\"_blank\">candidato<\/a> apoiado por Rafael Correa conseguiu uma boa vota\u00e7\u00e3o: 39%. Nisso operou todo o apoio do Estado, a publicidade em massa, a coopera\u00e7\u00e3o dos grupos econ\u00f4micos beneficiados pelo corre\u00edsmo e os militantes que, sinceramente, compartilham suas ideias. A oposi\u00e7\u00e3o conservadora, embora dividida em duas op\u00e7\u00f5es, e a esquerda plural conseguiram subtrair-lhe os votos necess\u00e1rios para evitar uma vit\u00f3ria j\u00e1 no primeiro turno.<\/p>\n<p><strong>O que significam para o Equador e a regi\u00e3o os resultados das recentes elei\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00e3o muito importantes para entender a din\u00e2mica dos progressismos. Se compararmos com a Argentina, ali o progressismo kirchnerista perdeu a elei\u00e7\u00e3o presidencial e teve uma m\u00e1 vota\u00e7\u00e3o. No Equador, ao contr\u00e1rio, tiveram uma boa vota\u00e7\u00e3o e mant\u00e9m a maioria parlamentar. Mas, da mesma maneira que na Argentina, deixa o pa\u00eds dividido, com confrontos muito duros, nervosos, irritados e que constantemente s\u00e3o incentivados pelo pr\u00f3prio Presidente.<\/p>\n<p>Se compararmos com a Bol\u00edvia, o caso do Equador exemplifica que pode haver renova\u00e7\u00e3o sem se cair em reelei\u00e7\u00f5es presidenciais indefinidamente. Mas, assemelham-se pelo fato de que os progressismos se afastam e acabam entrando em confronto com muitos setores sindicais ou ind\u00edgenas.<\/p>\n<p><strong>O que est\u00e1 acontecendo com os governos progressistas na regi\u00e3o? Bateram no teto?<\/strong><\/p>\n<p>No meu modo de ver, o progressismo est\u00e1 esgotado, mas n\u00e3o \u00e9 seu fim. N\u00e3o compartilho os diagn\u00f3sticos de v\u00e1rios analistas que falam do fim do progressismo, porque muitos s\u00f3 veem o que acontece no Brasil, onde a presidenta Dilma sofreu um impeachment, ou na Argentina, como se os outros pa\u00edses n\u00e3o existissem.<\/p>\n<p>O progressismo, por enquanto, continua no poder na Bol\u00edvia, no Equador e no Uruguai, com certa estabilidade. Mas est\u00e1 esgotado no sentido de que j\u00e1 n\u00e3o produz novidades pol\u00edticas, afastou-se das ideias iniciais de esquerda ao tornar-se cada vez mais obcecado pelo desenvolvimentismo baseado em extrativismos e ao manter-se no pal\u00e1cio de Governo a qualquer pre\u00e7o.<\/p>\n<p>N\u00e3o dialoga, n\u00e3o escuta. Sofre den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o em todos os pa\u00edses. N\u00e3o duvida em atacar ind\u00edgenas, camponeses ou diversos movimentos sociais quando esses os questionam.<\/p>\n<p>Isso explica em parte o triste caso do progressismo de Maduro na Venezuela, que se aferra ao poder, mesmo que dia ap\u00f3s dia aprofunda a crise.<\/p>\n<p><strong>Uma an\u00e1lise recente assinala que os ind\u00edgenas nas regi\u00f5es atingidas por projetos hidrocarbor\u00edferos votaram contra Lenin Moreno. O que est\u00e1 acontecendo com as bases da esquerda que n\u00e3o se mant\u00eam leais e optam pela direita?<\/strong><\/p>\n<p>A an\u00e1lise das elei\u00e7\u00f5es mostra que quase todas as regi\u00f5es onde se est\u00e1 promovendo a minera\u00e7\u00e3o ou os hidrocarbonetos votaram contra Moreno.<\/p>\n<p>\u00c9, especialmente, um voto de castigo contra Correa. N\u00e3o passa despercebido que pouco tempo atr\u00e1s diversas comunidades ind\u00edgenas amaz\u00f4nicas come\u00e7aram a reagir por causa da invas\u00e3o de seus territ\u00f3rios por empresas de minera\u00e7\u00e3o, sobretudo uma de capital chin\u00eas.<\/p>\n<p>Houve tumultos e outra vez se caiu na viol\u00eancia para impor o extrativismo. O Governo militarizou a regi\u00e3o e judicializou l\u00edderes ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>Este \u00e9, justamente, um exemplo de um progressismo que n\u00e3o sabe ouvir. Mostra, al\u00e9m disso, que n\u00e3o acreditam em toda essa publicidade de que a minera\u00e7\u00e3o ou os po\u00e7os de petr\u00f3leo trazem bem-estar local ou que se compensar\u00e1 os moradores com b\u00f4nus em dinheiro.<\/p>\n<p>Mas, o chamativo \u00e9 que esses grupos locais est\u00e3o t\u00e3o zangados com os progressismos que se voltaram para os candidatos da direita, embora tradicionalmente muitos apoiassem a esquerda ou o partido ind\u00edgena.<\/p>\n<p>\u00c9 como se eles n\u00e3o quisessem correr riscos com a esquerda e quisessem garantir uma mudan\u00e7a radical que s\u00f3 veem como poss\u00edvel com a direita. Este processo \u00e9 preocupante, e vimos express\u00f5es similares em outros pa\u00edses andinos.<\/p>\n<p>As t\u00e1ticas progressistas de imposi\u00e7\u00e3o dos extrativismos est\u00e3o provocando rea\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que, em \u00faltima an\u00e1lise, alimentam as alternativas conservadoras. E o mais triste \u00e9 que esses conservadores tamb\u00e9m ser\u00e3o extrativistas, embora de outra maneira, como acontece agora na Argentina com o governo Macri.<\/p>\n<p><strong>Por que os governos chamados progressistas j\u00e1 n\u00e3o seduzem mais?<\/strong><\/p>\n<p>Os progressismos, em suas pr\u00e1ticas reais e n\u00e3o nos discursos publicit\u00e1rios, ca\u00edram na armadilha do desenvolvimentismo que explora a natureza e os territ\u00f3rios e em acreditar que o bem-estar era mais consumo. Para manter-se no poder, eles atacaram a esquerda chamando-a, por exemplo, de esquerda descafeinada ou assediaram ou tentaram cooptar as organiza\u00e7\u00f5es de base, reduzindo suas autonomias. Ent\u00e3o, o progressismo impede renova\u00e7\u00f5es na esquerda, e isso faz com que j\u00e1 n\u00e3o seja mais sedutor. O livre pensamento e a cr\u00edtica, t\u00e3o necess\u00e1rios para a renova\u00e7\u00e3o, s\u00e3o atacados como trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea v\u00ea o caso boliviano? O presidente Morales quer uma nova reelei\u00e7\u00e3o, embora essa porta tenha sido fechada pelo \u201cn\u00e3o\u201d de um referendo, e agora culpa a mentira.<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o da Bol\u00edvia \u00e9 comovente, um pa\u00eds e que gosto tanto, j\u00e1 que seu progressismo est\u00e1 repetindo muitos dos erros cometidos nos pa\u00edses vizinhos. Sem d\u00favida, a primeira coisa a se respeitar \u00e9 o marco legal, ter um senso republicano e isso implica em aceitar os referendos.<\/p>\n<p>Esse foi o grande aprendizado da esquerda no Cone Sul. Por exemplo, a esquerda do Uruguai ganhou assim como perdeu referendos, mas, acima de tudo, ao aceitar os resultados demonstrou maturidade e isso lhe permitiu crescer ainda mais.<\/p>\n<p>No passado, a esquerda promovia os referendos e outras formas de democracia consultiva; hoje, s\u00e3o os progressismos no governo que procuram desestimul\u00e1-los.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/565328-o-progressismo-afastou-se-das-ideias-iniciais-da-esquerda-entrevista-com-eduardo-gudynas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Eduardo Gudynas, especialista em temas relacionados ao meio ambiente e desenvolvimento, considera que os governos progressistas da regi\u00e3o ca\u00edram na armadilha do desenvolvimentismo, \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13724\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-13724","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3zm","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13724","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13724"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13724\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13724"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13724"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13724"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}