{"id":13770,"date":"2017-03-09T11:32:13","date_gmt":"2017-03-09T14:32:13","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13770"},"modified":"2017-03-30T10:51:55","modified_gmt":"2017-03-30T13:51:55","slug":"as-tecelas-incendeiam-a-pradaria-o-centenario-da-revolucao-de-fevereiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13770","title":{"rendered":"As tecel\u00e3s incendeiam a pradaria: o centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/rev.png?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Por Neirlay Andrade<\/p>\n<p>Resumen Latinoamericano<\/p>\n<p>\u201cP\u00e3o, p\u00e3o, p\u00e3o\u2026\u201d. Em 08 de mar\u00e7o de 1917 (23 de fevereiro no antigo calend\u00e1rio juliano), as mulheres de Petrogrado clamavam por p\u00e3o. Eram centenas e marchavam ao longo da avenida Nevsky, a caminho da Duma.<!--more--><\/p>\n<p>Eram as tecel\u00e3s da cidade e desde as primeiras horas tinham se declarado em greve. Avan\u00e7aram pelo emblem\u00e1tico distrito fabril de Vyborg, incitando o resto dos trabalhadores e conseguiram: ao final desse hist\u00f3rico dia, o rio Neva era cen\u00e1rio de confrontos abertos de classe: os oper\u00e1rios gritavam contra o czar e contra a guerra imperialista.<\/p>\n<p>H\u00e1 100 anos eclodiu a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro. O Dia Internacional da Mulher foi o pano de fundo deste ato heroico das trabalhadoras das f\u00e1bricas t\u00eaxteis de Petrogrado, que convenceram seus irm\u00e3os de classe que <em>os de baixo <\/em>j\u00e1 n\u00e3o suportavam sobreviver como antes e que<em> os de cima<\/em> \u2013 o czar e seu bando \u2013 j\u00e1 n\u00e3o podiam viver (e muito menos governar) <em>como at\u00e9 ent\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cNa manh\u00e3 de 23 de fevereiro \u2013 relata o oper\u00e1rio bolchevique Ilya Mitrofanovich Gordienko \u2013 escut\u00e1vamos, atrav\u00e9s das janelas da f\u00e1brica, vozes femininas procedentes das ruas: Abaixo a guerra! Abaixo os pre\u00e7os altos! Abaixo a fome! P\u00e3o para todos os trabalhadores!\u201d. [1]<\/p>\n<p>Alguns dias antes, as autoridades de Petrogrado declararam um racionamento da distribui\u00e7\u00e3o do p\u00e3o. Uma medida que aprofundou o j\u00e1 lament\u00e1vel panorama de escassez no qual se encontrava a cidade. Um duro inverno deixou preso vag\u00f5es com v\u00edveres nas deterioradas vias f\u00e9rreas. Desde o in\u00edcio da guerra (1914), ao menos 25% das unidades do sistema ferrovi\u00e1rio foram perdidas.<\/p>\n<p>A confronta\u00e7\u00e3o interimperialista tamb\u00e9m trouxe consigo o aumento sem precedentes dos pre\u00e7os dos produtos de primeira necessidade. De acordo com dados coletados pelo setor econ\u00f4mico do Soviete de deputados oper\u00e1rios de Moscou, o aumento de pre\u00e7os dos alimentos cresceu, entre 1914 e 1917, em m\u00e9dia 556%.<\/p>\n<p>No caso do p\u00e3o preto, o aumento foi de 330% nesse per\u00edodo; o queijo, 754% e a carne de porco, 770%. No entanto, nada disto superava a lenha (1110%) ou o carv\u00e3o (1525%). Enquanto isso, o aumento do pre\u00e7o do couro para a sola dos sapatos estava pr\u00f3ximo a 2000%.<\/p>\n<p>Relata o jornalista estadunidense John Reed que, paralelamente, o rublo teve uma queda, atingindo menos que a ter\u00e7a parte de seu valor [2].<\/p>\n<p>A escassez de combust\u00edvel empurrou centenas de trabalhadores ao desemprego. A paralisa\u00e7\u00e3o esteve na ordem do dia e as greves se multiplicaram nos principais centros industriais.<\/p>\n<p>Em 18 de fevereiro, os oper\u00e1rios da f\u00e1brica Put\u00edlov empreenderam uma greve. Ao final do m\u00eas, o movimento grevista j\u00e1 alcan\u00e7ava 200 mil pessoas, ou seja, quase a metade dos trabalhadores de Petrogrado. [3]<\/p>\n<p><strong>Uma crise nas alturas <\/strong><\/p>\n<p>Certamente, na R\u00fassia o desenvolvimento do capitalismo foi tardio em rela\u00e7\u00e3o ao restante da Europa. J\u00e1 em finais do s\u00e9culo XIX, \u00e9 poss\u00edvel identificar claramente as caracter\u00edsticas da fase imperialista. Quando estoura a Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro, 28 mil nobres controlavam 62 milh\u00f5es de desiatinas [4] de terra, enquanto 10 milh\u00f5es de fam\u00edlias camponesas concentravam 73 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>O capital banc\u00e1rio tamb\u00e9m estava concentrado em sete entidades financeiras em Petersburgo e t\u00e3o somente tr\u00eas monop\u00f3lios (Shell, Oil e Nobel) controlavam a ind\u00fastria petroleira.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 1915, 60% dos trabalhadores estavam concentrados em grandes empresas, quest\u00e3o crucial para o trabalho de agita\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio de 1917, dos 3,5 milh\u00f5es de oper\u00e1rios existentes, 3,3 milh\u00f5es estavam nas ind\u00fastrias de comunica\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o e transporte.<\/p>\n<p>Nesse convulso fevereiro, Lenin definiria a guerra imperialista como \u201co diretor da cena onipotente\u201d [5]. A conflagra\u00e7\u00e3o afundou quase 4 mil das 9750 grandes empresas do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cA crise revolucion\u00e1ria amadurecia com grande rapidez. O movimento grevista abarcou as principais zonas industriais do pa\u00eds. Segundo dados, que est\u00e3o muito longe de serem completos, nos meses de janeiro e fevereiro de 1917, foram \u00e0 greve 676.000 trabalhadores\u201d [6]<\/p>\n<p>Como se isto fosse pouco, no interior do pa\u00eds, os camponeses incendiavam as propriedades dos latifundi\u00e1rios e se apoderavam da prec\u00e1ria produ\u00e7\u00e3o de trigo para enfrentar a fome.<\/p>\n<p>Entretanto, o czarismo pretendia negociar uma paz em separado com a Alemanha para enfrentar o fantasma da revolu\u00e7\u00e3o que vertiginosamente ia ganhando corpo nos centros fabris.<\/p>\n<p>Definitivamente, havia uma<em> crise nas alturas<\/em>. A monarquia era incapaz de conseguir deter o movimento de massas e, por sua parte, a burguesia russa conseguiu afian\u00e7ar seu poder com a guerra. N\u00e3o lhe convinha colocar fim ao conflito b\u00e9lico, pois seus interesses estavam irrevogavelmente enla\u00e7ados aos dos capitalistas da Inglaterra, Fran\u00e7a e Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cA burguesia imperialista russa decidiu, por sua vez, antecipar-se \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o mediante uma revolta palaciana. Pensavam ser poss\u00edvel obrigar Nicolau II, t\u00e3o odiado pelo povo, a abdicar do trono em favor de seu pequeno filho Alexei, encarregando a reg\u00eancia a Mikhail, irm\u00e3o do czar. Assim \u00e9 como a burguesia calculava continuar a guerra at\u00e9 a vit\u00f3ria final. Por\u00e9m, os planos da autocracia e da burguesia fracassaram\u201d [7]<\/p>\n<p><strong>As tecel\u00e3s foram a fa\u00edsca revolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Neste estado de coisas, irromperam as tecel\u00e3s de Petrogrado. Mais de 16 milh\u00f5es de homens foram enviados \u00e0 frente de batalha. O papel da mulher passou a ser de primeira ordem nas cidades.<\/p>\n<p>No dia seguinte ao primeiro chamado \u00e0 greve das trabalhadoras, as ruas foram novamente tomadas. Os cossacos foram dispostos pelas ruas principais para frustrar qualquer tentativa, por\u00e9m, a aud\u00e1cia das oper\u00e1rias t\u00eaxteis foi superior: cercaram os cossacos e os lembraram que eles tamb\u00e9m tinham m\u00e3es, esposas e filhas. Para surpresa do regime moribundo, os cossacos n\u00e3o carregaram suas armas contra as tecel\u00e3s e em um clima de euforia geral, se come\u00e7ou a entoar: &#8220;Abaixo a guerra! Viva a unidade dos trabalhadores e dos soldados!&#8221;<\/p>\n<p>A mesa estava servida para a insurrei\u00e7\u00e3o. Em 25 de fevereiro, os bolcheviques publicam um panfleto no qual se lia: \u201cTemos a luta pela frente, por\u00e9m, nos aguarda a vit\u00f3ria certa! Todos sob as bandeiras vermelhas da revolu\u00e7\u00e3o! Toda a terra dos latifundi\u00e1rios para o povo! Abaixo a guerra! Viva a fraternidade dos trabalhadores do mundo inteiro!\u201d [8]<\/p>\n<p>Dois dias depois, cerca de 60.000 soldados da guarni\u00e7\u00e3o de Petrogrado se colocaram ao lado dos trabalhadores e junto com eles tomaram as esta\u00e7\u00f5es de trens, os escrit\u00f3rios dos Correios e Tel\u00e9grafos e a Fortaleza de Pedro e Paulo.<\/p>\n<p>As pontes sobre o rio Neva \u2013 que separavam a zona fabril do centro da cidade \u2013 estavam nas m\u00e3os do proletariado, e os ministros do czar foram detidos e confinados no Pal\u00e1cio de T\u00e1uride.<\/p>\n<p>A primeira etapa da Revolu\u00e7\u00e3o tinha triunfado. Os pr\u00f3ximos passos estavam definidos: os oper\u00e1rios e soldados deviam escolher imediatamente seus representantes para o Governo revolucion\u00e1rio que devia outorgar liberdades democr\u00e1ticas, jornada de oito horas para os trabalhadores, terra para os camponeses e paz sem anexa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Passariam oito meses antes da vit\u00f3ria definitiva. Os fatos dariam raz\u00e3o a Lenin e aos bolcheviques: s\u00f3 os trabalhadores no poder poderiam sepultar a velha ordem e conjurar a contrarrevolu\u00e7\u00e3o. Hoje recordamos com entusiasmo aquelas mulheres, as tecel\u00e3s de Petrogrado, aquelas que \u2013 como diria Alexandra Kollontai \u2013 \u201cbrandiram a tocha da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria\u201d [9] e incendiaram a pradaria.<\/p>\n<hr \/>\n<p>1. Jonathan Daly y Leonind Trofimov, <em>Russia in War and Revolution, 1914-1922. A Documentary History. <\/em>Hackett Publishing Company, 2009, pp. 36-38. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/revolucionbolchevique.blogspot.com\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/revolucionbolchevique.blogspot.com&amp;source=gmail&amp;ust=1489155081139000&amp;usg=AFQjCNHnn9Nkx5ImDryCHIzIUCEFP0RcJQ\">revolucionbolchevique.blogspot.com<\/a>&gt;.<\/p>\n<p>2. John Reed, <em>Diez d\u00edas que estremecieron al mundo. <\/em>Ocena Sur, 2014, pp. 296-297.<\/p>\n<p>3. VV.AA, <em>Historia de la Gran Revoluci\u00f3n Socialista de Octubre<\/em>. Editorial Progreso, 1977. Edici\u00f3n digital, p. 5.<\/p>\n<p>4. Antiga medida de superf\u00edcie equivalente a 1,09 hectares.<\/p>\n<p>5. Lenin, <em>Cartas desde lejos.<\/em> <em>Primera carta. La primera etapa de la primera revoluci\u00f3n.<\/em> Foi escrita por Lenin em 7 (20) de mar\u00e7o de 1917. Publicada uma vers\u00e3o resumida nas edi\u00e7\u00f5es de 21 e 22 de mar\u00e7o do <em>Pravda<\/em>. N\u00e3o apareceu publicada integramente at\u00e9 1949.<\/p>\n<p>6. <em>El movimiento obrero en 1917<\/em>. M.-L., 1926, p\u00e1gs. 20, citado por VV.AA, <em>Historia de la Gran Revoluci\u00f3n Socialista de Octubre, <\/em>Editorial Progreso, 1977. Edici\u00f3n digital, p. 4.<\/p>\n<p>7. <em>Op. Cit, <\/em>p. 5.<\/p>\n<p>8. <em>El proletariado de Petrogrado y la organizaci\u00f3n bolchevique en los a\u00f1os de la guerra imperialista. 1914- 1917.<\/em> Compila\u00e7\u00e3o de materiais e documentos. 1939, p. 201<\/p>\n<p>9. Alexandra Kollontai, <em>D\u00eda Internacional de las Mujeres. <\/em>Artigo publicado em <em>Rabotnitsa,<\/em> 1920.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2017\/03\/07\/opinion-las-textileras-incendian-la-pradera-el-centenario-de-revolucion-de-febrero\/\" target=\"_blank\">http:\/\/www.<wbr \/>resumenlatinoamericano.org\/<wbr \/>2017\/03\/07\/opinion-las-<wbr \/>textileras-incendian-la-<wbr \/>pradera-el-centenario-de-<wbr \/>revolucion-de-febrero\/<\/a><\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Neirlay Andrade Resumen Latinoamericano \u201cP\u00e3o, p\u00e3o, p\u00e3o\u2026\u201d. 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