{"id":13851,"date":"2017-03-16T11:50:55","date_gmt":"2017-03-16T14:50:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13851"},"modified":"2017-03-31T13:36:21","modified_gmt":"2017-03-31T16:36:21","slug":"meio-seculo-depois-o-livro-alexei-tolstoi-e-a-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13851","title":{"rendered":"Meio s\u00e9culo depois &#8211; O Livro, Alexei Tolstoi e a Revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci6.googleusercontent.com\/proxy\/WilW4GUvxxFNj_GdUkA5BzcAZ89FwE3dmo0zdEhtOWn-Jth_4OO5iz7FXjyvCjgq4OWs6b2lcCROhFU=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.odiario.info\/b2-img\/__.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Miguel Urbano Rodrigues<\/p>\n<p>Pode suceder que a leitura de um livro desencadeie uma op\u00e7\u00e3o que marcar\u00e1 todo o resto da vida. E pode suceder que a releitura desse mesmo livro, muitos anos passados, surja como decepcionante. O livro \u00e9 o mesmo. Mas o trajecto hist\u00f3rico percorrido modificou profundamente o leitor.<!--more--><\/p>\n<p>Percorrendo a estrada de muitos reencontros com autores que descobri na juventude, reli nas \u00faltimas semanas O Caminho dos Tormentos, de Alexei Tolstoi.<\/p>\n<p>Lido em Conakry em 1961, provocou em mim o terramoto interior que infletiu o rumo da minha vida. O choque emotivo e ideol\u00f3gico desencadeado pela trilogia de Alexei Tolstoi conduziu-me \u00e0 op\u00e7\u00e3o comunista e ao combate politico pelo socialismo.<\/p>\n<p>Ao regressar a S\u00e3o Paulo, o encontro com o Caminho dos Tormentos gerou o desejo de contribuir para a sua divulga\u00e7\u00e3o. Traduzi para portugu\u00eas, a partir da edi\u00e7\u00e3o francesa, as 1200 p\u00e1ginas da trilogia, com a ajuda de Manuela Antunes, camarada do jornal Portugal Democr\u00e1tico. A obra foi editada em 1966 pela Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Transcorridas mais de cinco d\u00e9cadas, iniciei a releitura, interrogando-me. Que sentiria?<\/p>\n<p>Afirmar que n\u00e3o gostei seria expressar mal o efeito produzido pelo reencontro com uma obra que marcou tao profundamente uma viragem existencial.<\/p>\n<p>O desencontro com o autor e o livro foi aumentando de cap\u00edtulo para cap\u00edtulo. Porqu\u00ea essa rejei\u00e7\u00e3o inesperada?<br \/>\nA dece\u00e7\u00e3o era, creio, inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>O Caminho dos Tormentos n\u00e3o \u00e9 uma obra-prima liter\u00e1ria. O romance n\u00e3o mudou. Eu sim, mudei, sou outro.<br \/>\nTudo era ent\u00e3o novo para mim na hist\u00f3ria romanceada da Revolu\u00e7\u00e3o Russa. Nas p\u00e1ginas do Caminho dos Tormentos descobri a complexidade<\/p>\n<p>da revolu\u00e7\u00e3o russa, o mural \u00e9pico da guerra civil, o sofrimento e a esperan\u00e7a de uma gera\u00e7\u00e3o que lutara para mudar o mundo.<br \/>\nPouco conhecia na \u00e9poca de marxismo, e de Lenin lera somente um livro. Hoje o meu olhar sobre a Historia \u00e9 insepar\u00e1vel de meio s\u00e9culo de milit\u00e2ncia como comunista, da viv\u00eancia de revolu\u00e7\u00f5es e contra-revolu\u00e7\u00f5es, e de uma intimidade relativa com culturas antag\u00f3nicas em dezenas de pa\u00edses por onde andei.<\/p>\n<p>O Caminho dos Tormentos foi escrito ao longo de mais de vinte anos. O autor iniciou o primeiro tomo durante a guerra civil e terminou o terceiro em junho de 1941, quando o Reich nazi invadiu a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>O pano de fundo da obra \u00e9 a pr\u00f3pria Revolu\u00e7\u00e3o, motor das transforma\u00e7\u00f5es ocorridas entre 1913 e 1919 num territ\u00f3rio gigantesco.<br \/>\nNa introdu\u00e7\u00e3o que escrevi para a edi\u00e7\u00e3o brasileira cometi um primeiro erro. Influenciado por um artigo lido numa revista liter\u00e1ria francesa, afirmei que Alexei Tolstoi era parente do autor da Guerra e Paz. Estabeleci uma ponte imagin\u00e1ria entre ambos. Imperdo\u00e1vel o disparate porque entre os dois escritores de comum apenas existe o apelido.<\/p>\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o da literatura russa desfilam pelo romance centenas de personagens. \u00c9 aquilo a que os franceses chamam roman fleuve, uma est\u00f3ria torrencial no qual o autor aspirou a colocar a totalidade da vida. N\u00e3o atingiu o objetivo.<\/p>\n<p>Mas nesse desfile de homens e mulheres muito diferentes apenas quatro personagens atravessam a trilogia. As secund\u00e1rias importantes, uma meia d\u00fazia, surgem em tomos diferentes, com uma ou duas exce\u00e7\u00f5es. As outras entram no bin\u00f3mio antag\u00f3nico revolu\u00e7\u00e3o-contra revolu\u00e7\u00e3o para logo desaparecerem.<\/p>\n<p>O fasc\u00ednio obsessional que senti ent\u00e3o foi t\u00e3o absurdo que sugeri que a um filho nascido durante a tradu\u00e7\u00e3o fosse atribu\u00eddo o nome de uma dessas personagens secund\u00e1rias: Sergei Sergeievitch Sapojkov. A proposta esbarrou com um veto inultrapass\u00e1vel da m\u00e3e do menino. Houve, porem, consenso quanto ao prenome: S\u00e9rgio. Mas durante anos, em fam\u00edlia, chamei-lhe Sapojkov.<\/p>\n<p>Com alguma surpresa, conclui agora tardiamente que O Caminho dos Tormentos conquistou um prest\u00edgio exagerado.<\/p>\n<p>A sua estrutura \u00e9 tosca. A mensagem transmitida \u00e9 transparente: a defesa e apologia da Revolu\u00e7\u00e3o e do socialismo. Escrevi na \u00e9poca que era \u00abum poema revolucion\u00e1rio em prosa\u00bb. N\u00e3o perfilho j\u00e1 essa opini\u00e3o. O resultado n\u00e3o correspondeu \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o do projeto.<\/p>\n<p>O romance alcan\u00e7ou um grande \u00eaxito e contribuiu decisivamente para que Alexei Tolstoi conquistasse uma enorme popularidade e fosse pela cr\u00edtica considerado um dos mais importantes escritores sovi\u00e9ticos. Uma s\u00e9rie televisiva inspirada na obra teve uma audi\u00eancia de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>No primeiro tomo, a atmosfera de Petersburgo no ano 13 \u00e9 bem evocada por Alexei Tolstoi. Na maravilhosa cidade fundada por Pedro I existia um abismo entre a classe dominante e a massa da popula\u00e7\u00e3o por ela desprezada.<\/p>\n<p>\u00abA capital \u2013 transcrevo &#8211; levava uma vida agitada, uma vida de not\u00edvago entediado. Fosforescentes noites de ver\u00e3o, loucas e voluptuosas noites de inverno sem sono; mesas de jogo e o tilintar do ouro sobre panos verdes, m\u00fasica, pares girando por tr\u00e1s das janelas, troicas lan\u00e7adas a toda a velocidade,ciganas, duelos ao alvorecer, desfiles militares ao sopro de uma brisa gelada e com acompanhamento de estridentes p\u00edfaros, sob os olhos bizantinos e severos do imperador (\u2026) A devassid\u00e3o infiltrava-se por toda a parte; o pal\u00e1cio parecia atingido por uma epidemia\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio de fim da belle \u00e9poque russa, efervescente e nauseabunda, que Katia e Dacha, as duas irm\u00e3s, procuram um sentido para a vida sem o encontrarem. A aristocracia e a grande burguesia russas, num clima de t\u00e9dio, confus\u00e3o e perplexidade, buscavam uma sa\u00edda para a sua frustra\u00e7\u00e3o no \u00e1lcool, no sexo, no dinheiro, em loucas aventuram intelectuais.<br \/>\nAs duas irm\u00e3s, belas, instru\u00eddas, n\u00e3o sabem que caminho seguir.<\/p>\n<p>Katia \u00e9 casada, mas o marido aborrece-a. Procura o amor numa aventura com um poeta imbecil. Sai amargurada da experi\u00eancia e foge para Paris em busca, afinal, de nada. Dacha, virgem, apaixona-se pelo mesmo peralvilho, mas recua a tempo.<\/p>\n<p>Para essa classe decadente, o modelo, nas ideias, na literatura, no quotidiano \u00e9 a Europa ocidental, sobretudo a Fran\u00e7a.<br \/>\nA Revolu\u00e7\u00e3o de Fevereiro perturba a intelligentsia burguesa de Petrogrado. Adere porque sentia repulsa pela autocracia, mas n\u00e3o entende o que se passa.<\/p>\n<p>Surgem ent\u00e3o no romance Ivan Ilich Teleguine e Vadime Rochtchine. Diferentes- o primeiro \u00e9 um engenheiro, o segundo um oficial de cavalaria &#8211; tamb\u00e9m s\u00e3o produto da burguesia de Petrogrado.<\/p>\n<p>Ambos s\u00e3o protagonistas do Caminho dos Tormentos.<\/p>\n<p>Alexei Tolstoi destina-os a Dacha e Katia. Um amor esbo\u00e7ado pelo autor como avassalador, quase doloroso pela intensidade.<br \/>\nO vendaval da Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro separa-os. Rochtchine integra-se no ex\u00e9rcito contra revolucion\u00e1rio dos brancos; Teleguine luta no ex\u00e9rcito vermelho.<\/p>\n<p>O romance adquire facetas folhetinescas. Perde qualidade.<\/p>\n<p>Dacha liga-se a uma organiza\u00e7\u00e3o anarquista, mas ignora o que \u00e9 o anarquismo; o percurso de Katia \u00e9 marcado por uma intimidade permanente com a ang\u00fastia. Ambas enfrentam situa\u00e7\u00f5es de beira de abismo. Interrogam-se sobre transforma\u00e7\u00f5es de uma R\u00fassia desconhecida que n\u00e3o entendem.<\/p>\n<p>Alexei Tolstoi, creio, ter\u00e1 alterado mais de uma vez o projeto do romance. No terceiro tomo, sobretudo, as concess\u00f5es \u00e0s teses oficiais sobre a literatura e a Hist\u00f3ria, s\u00e3o transparentes. As atitudes e o discurso de algumas personagens chocam pelo absurdo.<\/p>\n<p>O Caminho dos Tormentos n\u00e3o resvala em alguns cap\u00edtulos para a sub literatura porque as aventuras folhetinescas de Katia, Dacha, Teleguine e Rochtchine (que adere \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o) e o relato inconvincente das batalhas no C\u00e1ucaso e nas estepes do Don alternam com p\u00e1ginas bel\u00edssimas sobre a vida quotidiana na R\u00fassia devastada.<\/p>\n<p>Mas Tolstoi esbo\u00e7a mal o grande painel \u00e9pico da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O desfecho \u2013 um happy end &#8211; \u00e9 preparado com larga anteced\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao terminar a releitura de O Caminho dos Tormentos, invadiu-me uma sensa\u00e7\u00e3o de mal-estar. Aquele livro, repito, foi determinante para a minha op\u00e7\u00e3o pelo comunismo.<\/p>\n<p>Transcorrido mais de meio s\u00e9culo, continuo comunista. Sinto ser mais comunista do que no in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril. Mas interrogo-me: como p\u00f4de um romance t\u00e3o imperfeito fascinar-me?<\/p>\n<p>http:\/\/www.odiario.info\/meio-seculo-depois-o-livro-alexei\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Miguel Urbano Rodrigues Pode suceder que a leitura de um livro desencadeie uma op\u00e7\u00e3o que marcar\u00e1 todo o resto da vida. 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