{"id":1388,"date":"2011-04-11T03:43:17","date_gmt":"2011-04-11T03:43:17","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1388"},"modified":"2017-08-25T00:55:01","modified_gmt":"2017-08-25T03:55:01","slug":"o-terrorismo-de-columbine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1388","title":{"rendered":"O terrorismo de Columbine"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 dif\u00edcil separar a emo\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o, quando escrevemos sobre trag\u00e9dias como a de ontem. A morte de crian\u00e7as nos toca fundo: pensamos em nossos pr\u00f3prios filhos, em nossos pr\u00f3prios netos. Por mais que deles cuidemos, s\u00e3o indefesos em um mundo a cada dia mais in\u00f3spito.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as e professores s\u00e3o agredidos pelos pr\u00f3prios colegas nas escolas. Traficantes de drogas e aliciadores esperam \u00e0s suas portas a fim de perverter os adolescentes. Em 1955, baseado em livro de Evan Hunter, Richard Brooks dirigiu um filme forte sobre a brutalidade nas escolas norte-americanas, Blackboard Jungle, exibido no Brasil com o t\u00edtulo de Sementes da Viol\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil entender como um rapaz de 24 anos se arma e volta \u00e0 escola onde estudara, a fim de atirar contra adolescentes. No calor dos fatos, com a irresponsabilidade comum a alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o, associaram o crime ao bode expiat\u00f3rio de nosso tempo, o \u201cterrorismo mu\u00e7ulmano\u201d. No interesse dessa ila\u00e7\u00e3o, chegaram a anunciar que isso estava expl\u00edcito na carta que ele deixou. Ela, no entanto, revela loucura associada n\u00e3o ao islamismo, mas, sim, \u00e0s seitas pentecostais, de origem norte-americana, com sua vis\u00e3o obscurantista da f\u00e9. S\u00e3o seitas que alimentaram atos de loucura como o de Jim Jones, ao levar 900 de seus seguidores, a Peoples Temple, ao suic\u00eddio, na Guiana, em 18 de novembro de 1978. \u00c9 o que hoje fazem pastores da Fl\u00f3rida, ao queimar um exemplar do livro sagrado dos mu\u00e7ulmanos \u2013 e provocar a rea\u00e7\u00e3o irada de fi\u00e9is no Iraque e no Afeganist\u00e3o. Segundo revelou sua irm\u00e3, a m\u00e3e adotiva de Wellington, cuja morte o transtornou, pertencia \u00e0 seita das Testemunhas de Jeov\u00e1, preocupada com a pureza do corpo, que o assassino menciona em sua carta. A refer\u00eancia \u00e0 volta de Jesus e ao dogma da Ressurrei\u00e7\u00e3o dos justos, n\u00e3o deixa d\u00favida. Ele nada tinha a ver com o Isl\u00e3, apesar de suas recomenda\u00e7\u00f5es lembrarem ritos mortu\u00e1rios comuns \u00e0s religi\u00f5es monoteistas.<\/p>\n<p>A carta revela um jovem perturbado pela id\u00e9ia de pureza. Aos 24 anos, o assassino diz que seu corpo \u201cvirgem\u201d n\u00e3o pode ser tocado pelos impuros. Ao mesmo tempo, presumindo-se herdeiro da casa que ocupava em Sepetiba, deixa-a, em legado, para institui\u00e7\u00f5es que cuidem de animais abandonados. Os c\u00e3es, que s\u00e3o a maioria dos bichos de rua no Brasil, s\u00e3o, para os mu\u00e7ulmanos, animais amaldi\u00e7oados.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso recha\u00e7ar, de imediato, qualquer insinua\u00e7\u00e3o de fundamentalismo islamita ao ato de insanidade do rapaz. O pior \u00e9 que homens p\u00fablicos eminentes endossaram essa insensatez. O terrorismo de Wellington \u00e9 o dos atos, j\u00e1 rotineiros, de assassinatos em massa nas escolas norte-americanas, a partir do epis\u00f3dio de Columbine em 20 de abril de 1999. Desde que os meios de comunica\u00e7\u00e3o e do entretenimento transformaram o homem nesse ser unidimensional, conforme Marcuse, o modelo de vida, que o cinema, as hist\u00f3rias em quadrinhos, a televis\u00e3o e, agora, a internet, nos trazem, \u00e9 o da pujante, bem armada e soberba civiliza\u00e7\u00e3o norte-americana. Ela nos prometia a realiza\u00e7\u00e3o do sonho da prosperidade, da sa\u00fade, da seguran\u00e7a, do conforto e da alegria, da virilidade e da beleza. Mas essa civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas pesadelo, contrato faustiano com o diabo, s\u00f3cio emboscado da morte. O diabo come\u00e7ou a cobrar seu pre\u00e7o, ao levar essa civiliza\u00e7\u00e3o \u00e0 loucura, no Vietn\u00e3; nas muitas interven\u00e7\u00f5es armadas em terra alheia; em Oklahoma, em Columbine, em Waco, e nos demais assassinatos coletivos dos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Limpemos as nossas l\u00e1grimas, e reflitamos se vale a pena insistir nessa forma de vida. Se vale a pena continuar sepultando crian\u00e7as, e com elas, os sentimentos de solidariedade, de humanismo, de civilidade e de justi\u00e7a. As crian\u00e7as que morreram ontem, ao proteger as mais fracas com seus corpos, nos disseram o que temos a fazer, para que a vida volte a ter sentido.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n<p>A VIOL\u00caNCIA DA LOUCURA E A VIOL\u00caNCIA PLANEJADA<\/p>\n<p>Ernesto (PCB-SP)<\/p>\n<p>A viol\u00eancia da loucura que se viu em Realengo foi seguida de uma viol\u00eancia de estupidez nos coment\u00e1rios que invadiram imediatamente a internet, como um tsunami ap\u00f3s o terremoto. N\u00e3o se pode dizer qual \u00e9 a pior, a mais grave, pois n\u00e3o h\u00e1 termos de compara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia da loucura n\u00e3o agiu sozinha. Foi combinada com a facilidade de um louco conseguir armas. Ao se pensar em o que fazer deve-se enfrentar a dificuldade de uma profilaxia das doen\u00e7as mentais, especialmente num pa\u00eds em que a sa\u00fade p\u00fablica est\u00e1 sendo sucateada para favorecer criminosamente a privatiza\u00e7\u00e3o. A loucura pode ter um componente heredit\u00e1rio, mas tem certamente componentes sociais. O individualismo, a competi\u00e7\u00e3o, a aus\u00eancia de solidariedade e de compreens\u00e3o podem levar ao <em>bulliyng<\/em> nas escolas, que dispara um processo de agravamento da condi\u00e7\u00e3o mental, das v\u00edtimas e dos agentes. O misticismo, ao apagar a racionalidade e a discuss\u00e3o, tamb\u00e9m favorece a loucura.<\/p>\n<p>O outro lado da combina\u00e7\u00e3o \u00e9 mais trat\u00e1vel: a posse e a comercializa\u00e7\u00e3o de armas devem ser proibidas. Isso n\u00e3o resolve, j\u00e1 se sabe, mas ao menos tornaria mais dif\u00edcil a um louco conseguir armas.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia da estupidez \u00e9 claramente social. O louco foi considerado um \u201cterrorista\u201d, e da\u00ed para ser considerado um isl\u00e2mico foi imediato. Ent\u00e3o centenas de mensagens cretinas come\u00e7aram a atacar o islamismo, com alt\u00edssimo n\u00edvel de bo\u00e7alidade, revelando, na maioria das vezes, um baixo n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o, visto que os manifestantes em geral mal sabem escrever. Quando se soube, atrav\u00e9s da carta do agressor suicida, que ele era \u201cde Jesus\u201d, calaram-se esses manifestantes e surgiram outros igualmente malucos, mas menos violentos: \u00e9 um \u201csinal dos tempos\u201d, da falta de f\u00e9, etc.<\/p>\n<p>Apenas a educa\u00e7\u00e3o pode levar a uma supera\u00e7\u00e3o desse tipo de viol\u00eancia. Mesmo pa\u00edses ricos, como os EUA, apresentam essa epidemia de bo\u00e7alidade, neste caso ligada, quase sempre, ao fundamentalismo crist\u00e3o. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema de falta de recursos (embora, mesmo nos EUA, faltem recursos p\u00fablicos para a educa\u00e7\u00e3o, cortados por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas). A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 apenas entre os muros da escola. Os maiores educadores do Brasil s\u00e3o o Sr. Silvio Santos, os bispos faturantes da Record, os fazedores de not\u00edcias e novelas da Globo. \u00c9 promovido o esp\u00edrito do individualismo, a esperteza, a desumaniza\u00e7\u00e3o. Falta uma educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (poderia at\u00e9 dizer \u201cmoral e c\u00edvica\u201d se isso n\u00e3o tivesse sido ridicularizado pela ditadura). Falta uma educa\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, que ensine os jovens a pensar mais do que crer. O problema \u00e9 o entrave ideol\u00f3gico imposto pela classe dominante, como uma viol\u00eancia planejada.<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 onde mais se deve agir para reduzir a probabilidade de mais viol\u00eancias.<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p><strong>Ainda sobre a trag\u00e9dia do Realengo<\/strong><\/p>\n<p><em>(Duarte Pereira)<\/em><\/p>\n<p>Estou cada vez mais estarrecido com a cobertura predominantemente passional e facciosa da trag\u00e9dia ocorrida anteontem em escola municipal do Rio de Janeiro, no bairro do Realengo.<\/p>\n<p>O jovem Wellington de Oliveira, autor dos disparos que mataram e feriram alunos inocentes da escola, foi chamado de \u201cmeliante\u201d nas primeiras declara\u00e7\u00f5es do policial que o abateu e continua sendo indigitado como \u201cassassino\u201d por quase toda a m\u00eddia, embora j\u00e1 se saiba que sofria de esquizofrenia desde crian\u00e7a. A m\u00eddia negligencia as informa\u00e7\u00f5es de que Wellington passou por vexames e humilha\u00e7\u00f5es por causa de sua introvers\u00e3o e bizarrices, quando era aluno da escola. N\u00e3o aborda a falta de acompanhamento e tratamento adequados de um paciente diagnosticado de esquizofrenia h\u00e1 muito tempo, o que agravou a evolu\u00e7\u00e3o de sua enfermidade. N\u00e3o trata das informa\u00e7\u00f5es sobre atentados e manejo de armas que podem ser acessadas facilmente na internet. N\u00e3o reavalia a divulga\u00e7\u00e3o maci\u00e7a, cotidiana e acr\u00edtica dos mais variados atos e formas de viol\u00eancia praticados por grandes pot\u00eancias e contumazes delinquentes, reproduzidos em filmes de sucesso e at\u00e9 mesmo em jogos eletr\u00f4nicos. N\u00e3o esclarece como Wellington conseguiu as armas e as muni\u00e7\u00f5es, sem as quais n\u00e3o poderia ter feito seus disparos cru\u00e9is e desvairados. N\u00e3o alerta para a atmosfera envenenada de individualismo e competi\u00e7\u00e3o em que a inf\u00e2ncia e a juventude v\u00eam sendo forjadas. Com essa cobertura irrespons\u00e1vel e superficial, a maioria da m\u00eddia apenas acirra a dor e as rea\u00e7\u00f5es equivocadas dos parentes das v\u00edtimas e de um amplo setor popular. E, nesse clima irracional, as autoridades policiais j\u00e1 alertam para poss\u00edveis ataques de repres\u00e1lia a familiares do jovem atirador.<\/p>\n<p>S\u00e3o poucos tamb\u00e9m os professores e mais reduzidas ainda as entidades do magist\u00e9rio que t\u00eam vindo a p\u00fablico para lembrar a viol\u00eancia que se tornou end\u00eamica nas escolas, principalmente nas escolas p\u00fablicas, rebatendo a ideia de que a trag\u00e9dia do Realengo possa ser considerada um fato isolado e imprevis\u00edvel. Surpreende tamb\u00e9m que os movimentos de sa\u00fade, sobretudo os de sa\u00fade mental, n\u00e3o se empenhem em repor a aprecia\u00e7\u00e3o do tr\u00e1gico acontecimento num quadro mais objetivo e multilateral, que leve em conta a condi\u00e7\u00e3o do autor dos disparos, a falta de acompanhamento e tratamento de seu padecimento mental e as circunst\u00e2ncias finais de seu gesto de sofrida insanidade.<\/p>\n<p>Abalados pelo acontecimento, que n\u00e3o conseguem entender satisfatoriamente, muitos parecem retroceder \u00e0 Idade M\u00e9dia, quase pregando a condena\u00e7\u00e3o dos loucos como endemoninhados e bruxos e seu justi\u00e7amento nas chamas de fogueiras.<\/p>\n<p>V\u00eam \u00e0 lembran\u00e7a as advert\u00eancias de Engels e de Rosa Luxemburgo de que o decl\u00ednio da civiliza\u00e7\u00e3o capitalista poderia ser seguido n\u00e3o por um salto socialista, mas por uma regress\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie. \u00c9 preciso insistir, portanto, na necessidade de lutar pela alternativa de uma civiliza\u00e7\u00e3o superior, socialista, baseada n\u00e3o apenas no poder democr\u00e1tico dos trabalhadores, na propriedade social dos meios de produ\u00e7\u00e3o, no planejamento das atividades econ\u00f4micas, ou em servi\u00e7os p\u00fablicos universais e de qualidade, principalmente nas \u00e1reas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e previd\u00eancia, mas tamb\u00e9m em valores de respeito, solidariedade e ajuda m\u00fatua no conv\u00edvio social.<\/p>\n<p>9\/4\/2011<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Latuff\n\n\n\n\n\n\n\n\n(Mauro Santayana, publicado no JB, em 08\/04\/2011)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1388\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1388","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-mo","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1388","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1388"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1388\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1388"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1388"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1388"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}