{"id":13896,"date":"2017-03-21T15:52:11","date_gmt":"2017-03-21T18:52:11","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13896"},"modified":"2017-03-31T13:34:14","modified_gmt":"2017-03-31T16:34:14","slug":"a-cia-le-a-teoria-francesa-sobre-o-trabalho-intelectual-de-desmantelamento-da-esquerda-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13896","title":{"rendered":"A CIA l\u00ea a teoria francesa: sobre o trabalho intelectual de desmantelamento da Esquerda cultural"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/ci6.googleusercontent.com\/proxy\/j60eW47W0ktOjBOvxdma8weH2SsKL6BGpszU-MNB6g4xpPY1adkjzsnTTNTPxIF6EJyfn6UX9KS1io6H0IZrcs2JLwx85TzT=s0-d-e1-ft#http:\/\/www.odiario.info\/b2-img\/GabrielRockhill.jpg\" alt=\"imagem\" \/>Gabriel Rockhill<\/p>\n<p>Est\u00e1 j\u00e1 muito solidamente identificada e investigada a interven\u00e7\u00e3o da CIA no plano da cultura e das artes, no plano do esfor\u00e7o de influenciar a intelectualidade. Este texto recorda aspectos fundamentais de uma a\u00e7\u00e3o que, nestes moldes, remonta \u00e0 guerra fria. E que exige uma muito maior mobiliza\u00e7\u00e3o e combate, e de compreens\u00e3o de que o terreno da cultura \u00e9 hoje uma das frentes centrais do combate anti-imperialista.<!--more--><\/p>\n<p>Presume-se, com frequ\u00eancia, que os intelectuais t\u00eam pouco ou nenhum poder pol\u00edtico. Empoleirados numa privilegiada torre de marfim, desligados do mundo real, envolvidos em debates acad\u00eamicos sem sentido sobre min\u00facias especializadas ou flutuando nas abstrusas nuvens da alta teoria, os intelectuais s\u00e3o frequentemente retratados n\u00e3o apenas como isolados da realidade pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m como incapazes de ter nela qualquer impacto significativo. A CIA (Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia dos Estados Unidos) n\u00e3o pensa assim.<\/p>\n<p>De fato, a ag\u00eancia respons\u00e1vel pelos golpes de Estado, os assass\u00ednios direcionados e a manipula\u00e7\u00e3o clandestina de governos estrangeiros n\u00e3o s\u00f3 acredita no poder da teoria, como tamb\u00e9m dedicou significativos recursos para ter um grupo de agentes secretos dedicados a debru\u00e7ar-se sobre o que alguns consideram ser a mais rec\u00f4ndita e intrincada teoria j\u00e1 produzida. Num intrigante trabalho de pesquisa escrito em 1985 (&lt;<a href=\"https:\/\/www.cia.gov\/library\/readingroom\/docs\/CIA-RDP86S00588R000300380001-5.PDF\" target=\"_blank\">https:\/\/www.cia.gov\/library\/<wbr \/>readingroom\/docs\/CIA-<wbr \/>RDP86S00588R000300380001-5.PDF<\/a><wbr \/>&gt;) Informa\u00e7\u00e3o (Freedom of Information Act), a CIA revela que os seus agentes andaram estudando a complexa e internacionalmente influente teoria francesa, filiada nos nomes de Michel Foucault, Jacques Lacan e Roland Barthes.<\/p>\n<p>A imagem de espi\u00f5es americanos reunindo-se em caf\u00e9s parisienses para estudar assiduamente e comparar notas acerca dos sumos sacerdotes da intelligentsia francesa pode chocar quem presuma que tal grupo de intelectuais \u00e9 constitu\u00eddo por lumin\u00e1rias cuja requintada sofistica\u00e7\u00e3o jamais poderia ser capturada numa rede policial t\u00e3o tosca, ou quem assuma que, pelo contr\u00e1rio, charlat\u00e3es produtores de uma ret\u00f3rica incompreens\u00edvel que pouco ou nenhum impacto tem sobre o mundo real. N\u00e3o deveria, entretanto, surpreender aqueles familiarizados com o longo e cont\u00ednuo investimento da CIA numa guerra cultural global, incluindo o apoio \u00e0s suas formas mais vanguardistas, que tem sido bem documentado por pesquisadores como Frances Stonor Saunders, Giles Scott-Smith, Hugh Wilford (fiz a minha pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o em \u201cRadical History &amp; the Politics of Art\u201d, &lt;<a href=\"https:\/\/cup.columbia.edu\/book\/radical-history-and-the-politics-of-art\/9780231152006\" target=\"_blank\">https:\/\/cup.columbia.edu\/book\/radical-history-and-the-politics-of-art\/9780231152006<\/a>&gt;).<\/p>\n<p>Thomas W. Braden, anterior supervisor de atividades culturais na CIA, explicou o poder da ofensiva cultural da Ag\u00eancia num franco relato<a href=\"http:\/\/http\/\/www.cambridgeclarion.org\/press_cuttings\/braden_20may1967.html\" target=\"_blank\"> publicado em 1967<\/a> : \u201cLembro-me da enorme alegria que tive quando a Orquestra Sinf\u00f4nica de Boston [que foi apoiada pela CIA] ganhou mais elogios para os EUA em Paris do que John Foster Dulles ou Dwight D. Eisenhower poderiam ter conseguido com uma centena de discursos\u201d. Esta n\u00e3o era de modo algum uma opera\u00e7\u00e3o pequena ou pouco elaborada. De fato, como Wilford argumentou com raz\u00e3o, o Congresso para a Liberdade Cultural (CCF), que foi sediado em Paris e mais tarde identificado como uma organiza\u00e7\u00e3o da CIA no decurso da Guerra Fria, foi um dos mais importantes patrocinadores na hist\u00f3ria mundial, apoiando uma incr\u00edvel gama de atividades art\u00edsticas e intelectuais. Contava com escrit\u00f3rios em 35 pa\u00edses, publicou dezenas de revistas de prest\u00edgio, esteve envolvida na ind\u00fastria do livro, organizou confer\u00eancias internacionais de grande relevo e exposi\u00e7\u00f5es de arte, coordenou apresenta\u00e7\u00f5es e concertos, e contribuiu com amplo financiamento para v\u00e1rios pr\u00e9mios culturais e bolsas de estudo, bem como para organiza\u00e7\u00f5es de fachada como a Farfield Foundation.<\/p>\n<p>A ag\u00eancia de intelig\u00eancia entende que a cultura e a teoria s\u00e3o armas cruciais no arsenal global que desdobra a fim de perpetuar interesses dos EUA em todo o mundo. O trabalho de investiga\u00e7\u00e3o de 1985, intitulado \u201cFran\u00e7a: Defec\u00e7\u00e3o dos intelectuais de esquerda\u201d, recentemente publicado, examina \u2013 sem d\u00favida para manipular \u2013 a intelectualidade francesa e o seu papel fundamental na conforma\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias que geram op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Sugerindo que tem havido um relativo equil\u00edbrio ideol\u00f3gico entre esquerda e direita na hist\u00f3ria do mundo intelectual franc\u00eas, o relat\u00f3rio destaca o monop\u00f3lio da esquerda no imediato per\u00edodo p\u00f3s-guerra \u2013 ao qual, sabemos, a CIA se op\u00f4s raivosamente \u2013 devido ao papel chave dos comunistas na resist\u00eancia ao fascismo e em finalmente ganhar a guerra contra ele. Embora a direita tivesse sido massivamente desacreditada devido \u00e0 sua contribui\u00e7\u00e3o direta para os campos de exterm\u00ednio nazistas, bem como pela sua agenda xen\u00f3foba, anti-igualit\u00e1ria e fascista (de acordo com a pr\u00f3pria descri\u00e7\u00e3o da CIA), os agentes secretos sem nome que elaboraram o esbo\u00e7o do estudo sublinham com n\u00edtido deleite com o retorno da direita aproximadamente a partir do in\u00edcio dos anos 1970.<\/p>\n<p>Mais especificamente, os guerrilheiros culturais secretos aplaudem o que veem como um duplo movimento que tem contribu\u00eddo para a desloca\u00e7\u00e3o do foco cr\u00edtico da intelligentsia dos EUA para a URSS. \u00c0 esquerda, havia uma gradual desafecta\u00e7\u00e3o intelectual para com o estalinismo e o marxismo, uma retirada progressiva do debate p\u00fablico por parte dos intelectuais radicais e um afastamento te\u00f3rico do socialismo e do partido socialista. Mais \u00e0 direita, os oportunistas ideol\u00f3gicos referidos como \u201cNovos Fil\u00f3sofos\u201d e os intelectuais da \u201cNova Direita\u201d lan\u00e7aram uma intensa campanha medi\u00e1tica de denegrimento do marxismo.<\/p>\n<p>Enquanto outros tent\u00e1culos da organiza\u00e7\u00e3o mundial de espionagem estavam envolvidos em derrubar l\u00edderes eleitos democraticamente, fornecendo intelig\u00eancia e financiando ditadores fascistas e apoiando esquadr\u00f5es da morte de direita, o esquadr\u00e3o central de intelligentsia de Paris estava recolhendo dados sobre como a guinada te\u00f3rica \u00e0 direita do mundo beneficiava diretamente a pol\u00edtica externa dos EUA. Os intelectuais de esquerda do imediato p\u00f3s-guerra tinham sido abertamente cr\u00edticos do imperialismo norte-americano. A influ\u00eancia midi\u00e1tica de Jean-Paul Sartre como cr\u00edtico marxista aberto e seu papel not\u00e1vel \u2013 como fundador do Lib\u00e9ration \u2013 em desmascarar a esta\u00e7\u00e3o da CIA em Paris e dezenas de agentes secretos, foi monitorado de perto pela Ag\u00eancia e considerado um problema s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Em contraste, a atmosfera anti-sovi\u00e9tica e antimarxista da emergente era neoliberal desviou o escrut\u00ednio p\u00fablico e forneceu excelente cobertura para as guerras sujas da CIA, tornando \u201cmuito dif\u00edcil para qualquer um mobilizar entre as elites intelectuais oposi\u00e7\u00e3o significativa \u00e0s pol\u00edticas dos EUA na Am\u00e9rica Central, por exemplo\u201d. Greg Grandin, um dos principais historiadores da Am\u00e9rica Latina, resumiu perfeitamente esta situa\u00e7\u00e3o em \u201cThe Last Colonial Massacre\u201d (&lt;<a href=\"http:\/\/www.press.uchicago.edu\/Misc\/Chicago\/305724.html\" target=\"_blank\">http:\/\/www.press.uchicago.<wbr \/>edu\/Misc\/Chicago\/305724.html<\/a>&gt;): \u201cAl\u00e9m de realizar interven\u00e7\u00f5es visivelmente desastrosas e mort\u00edferas na Guatemala em 1954, na Rep\u00fablica Dominicana em 1965, no Chile em 1973, em El Salvador e Nicar\u00e1gua durante a d\u00e9cada de 1980, os Estados Unidos emprestaram discreto e constante apoio financeiro, material e moral aos Estados terroristas assassinos e contra-insurgentes. [\u2026] Mas a enormidade dos crimes de St\u00e1lin garante que tais hist\u00f3rias s\u00f3rdidas, por mais convincentes, completas ou condenat\u00f3rias, n\u00e3o perturbem a fundamenta\u00e7\u00e3o de uma cosmovis\u00e3o que assume o papel exemplar dos Estados Unidos na defesa do que hoje conhecemos como democracia.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto que os mandarins mascarados da CIA elogiam e apoiam a cr\u00edtica implac\u00e1vel que uma nova gera\u00e7\u00e3o de pensadores antimarxistas como Bernard-Henri Levy, Andr\u00e9 Glucksmann e Jean-Fran\u00e7ois Revel desencadearam sobre \u201ca \u00faltima camarilha de comunistas ilustrados\u201d (composta, segundo os agentes an\u00f4nimos, por Sartre, Barthes, Lacan e Louis Althusser). Dadas as tend\u00eancias de esquerda destes antimarxistas na sua juventude, eles fornecem o modelo perfeito para construir narrativas enganosas que amalgamam o suposto amadurecimento pol\u00edtico pessoal com a marcha progressiva do tempo, como se tanto a vida individual como a hist\u00f3ria fossem simplesmente uma quest\u00e3o de \u201ccrescer\u201d e reconhecer que a profunda transforma\u00e7\u00e3o social igualit\u00e1ria \u00e9 uma coisa do passado pessoal e hist\u00f3rico. Este derrotismo paternalista e omnisciente n\u00e3o s\u00f3 serve para desacreditar novos movimentos, especialmente os impulsionados pela juventude, mas tamb\u00e9m desfigura os relativos sucessos da repress\u00e3o contrarrevolucion\u00e1ria como o natural progresso da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mesmo te\u00f3ricos que n\u00e3o eram t\u00e3o opostos ao marxismo quanto esses intelectuais reacion\u00e1rios deram uma contribui\u00e7\u00e3o significativa para um ambiente de desilus\u00e3o com o igualitarismo transformador, o desapego \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o social, a \u201cinvestiga\u00e7\u00e3o cr\u00edtica\u201d desprovida de pol\u00edticas radicais. Isto \u00e9 extremamente importante para entender a estrat\u00e9gia geral da CIA nas suas amplas e profundas tentativas de desmantelar a esquerda cultural na Europa e em outros lugares. Reconhecendo que era improv\u00e1vel que pudesse aboli-la inteiramente, a organiza\u00e7\u00e3o de espionagem mais poderosa do mundo procurou afastar a cultura de esquerda de uma resoluta pol\u00edtica anticapitalista e transformadora para posi\u00e7\u00f5es reformistas de centro-esquerda que s\u00e3o menos abertamente cr\u00edticas das pol\u00edticas externa e dom\u00e9stica dos EUA. Na verdade, como Saunders demonstrou detalhadamente, a Ag\u00eancia seguiu na esteira do Congresso de lideran\u00e7a macartista do per\u00edodo p\u00f3s-guerra de modo a apoiar diretamente e promover projetos de esquerda que desviaram os produtores culturais e os consumidores para longe da esquerda resolutamente igualit\u00e1ria. Ao cindir e desacreditar esta \u00faltima, tamb\u00e9m aspirava a fragmentar a esquerda em geral, deixando o que restava do centro-esquerda com apenas um m\u00ednimo poder e apoio p\u00fablico (bem como sendo potencialmente desacreditada pela sua cumplicidade com pol\u00edticas da direita de luta pelo poder, quest\u00e3o que continua a atormentar partidos institucionalizados contempor\u00e2neos \u00e0 esquerda).<\/p>\n<p>\u00c9 sob esta luz que devemos compreender a afei\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia de intelig\u00eancia pelas narrativas de convers\u00e3o e a sua profunda aprecia\u00e7\u00e3o pelos \u201cmarxistas reformados\u201d, um leitmotiv que atravessa o trabalho de pesquisa sobre a teoria francesa. \u201cAinda mais eficazes em minar o marxismo\u201d, escrevem as toupeiras, \u201cforam aqueles intelectuais que se propuseram aplicar a teoria marxista \u00e0s ci\u00eancias sociais mas terminaram por repensar e rejeitar toda essa tradi\u00e7\u00e3o\u201d. Citam, em particular, a profunda contribui\u00e7\u00e3o dada pela Escola dos Annales na historiografia, e pelo estruturalismo \u2013 particularmente Claude L\u00e9vi-Strauss e Foucault \u2013 \u00e0 \u201cdemoli\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da influ\u00eancia marxista nas ci\u00eancias sociais\u201d. Foucault, que \u00e9 referido como \u201co pensador mais profundo e influente da Fran\u00e7a\u201d, \u00e9 especificamente aplaudido pelo seu elogio aos intelectuais da Nova Direita por recordarem aos fil\u00f3sofos que \u201csangrentas\u201d consequ\u00eancias \u201cflu\u00edram da teoria social racionalista do Iluminismo do s\u00e9culo 18 e da era revolucion\u00e1ria\u201d. Embora seja um erro creditar o colapso de qualquer pol\u00edtica ou efeitos pol\u00edticos face a uma \u00fanica posi\u00e7\u00e3o ou resultado, o esquerdismo antirrevolucion\u00e1rio de Foucault e a sua perpetua\u00e7\u00e3o da chantagem do Gulag \u2013 isto \u00e9, a afirma\u00e7\u00e3o de que os movimentos radicais expansivos que visam \u00e0 profunda transforma\u00e7\u00e3o social e cultural apenas ressuscitam as mais perigosas tradi\u00e7\u00f5es \u2013 est\u00e3o perfeitamente em sintonia com as estrat\u00e9gias globais de guerra psicol\u00f3gica da ag\u00eancia de espionagem.<\/p>\n<p>A leitura da teoria francesa pela CIA deveria dar-nos uma pausa, ent\u00e3o, para reconsiderar o verniz radical-chic que acompanhou boa parte de sua recep\u00e7\u00e3o angl\u00f3fona. De acordo com uma concep\u00e7\u00e3o etapista da hist\u00f3ria progressista (que \u00e9 normalmente cega \u00e0 sua teleologia impl\u00edcita), o trabalho de figuras como Foucault, Derrida e outros te\u00f3ricos franceses de ponta \u00e9 muitas vezes identificado intuitivamente como uma forma de cr\u00edtica profunda e sofisticada que presumivelmente ultrapassa qualquer coisa encontrada nas tradi\u00e7\u00f5es socialista, marxista ou anarquista. \u00c9 certamente verdade, e merece \u00eanfase, o fato de que a recep\u00e7\u00e3o angl\u00f3fona da teoria francesa, como justamente apontou John McCumber, teve importantes implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas enquanto polo de resist\u00eancia \u00e0 falsa neutralidade pol\u00edtica, aos tecnicismos seguros da l\u00f3gica e da linguagem, ou \u00e0 ideologia do conformismo operante nas tradi\u00e7\u00f5es da filosofia anglo-americana apoiadas por McCarthy. No entanto, as pr\u00e1ticas te\u00f3ricas de figuras que deram as costas ao que Cornelius Castoriadis chamou a tradi\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica radical \u2013 significando resist\u00eancia anticapitalista e anti-imperialista \u2013 certamente contribu\u00edram para a deriva ideol\u00f3gica que se afasta de pol\u00edticas transformadoras. Segundo a pr\u00f3pria Ag\u00eancia de espionagem, a teoria francesa p\u00f3s-marxista contribuiu diretamente para o programa cultural da CIA de empurrar a esquerda para a direita, ao mesmo tempo que desacreditava o anti-imperialismo e o anticapitalismo, criando assim um ambiente intelectual no qual seus projectos imperiais poderiam ser prosseguidos sem serem incomodados pelo exame cr\u00edtico s\u00e9rio por parte da intelligentsia.<\/p>\n<p>Como sabemos da investiga\u00e7\u00e3o sobre o programa de guerra psicol\u00f3gica da CIA, a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 acompanhou e procurou coagir os indiv\u00edduos, mas sempre se interessou por compreender e transformar institui\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o cultural. Na verdade, o seu estudo sobre a teoria francesa aponta para o papel estrutural que as universidades, as editoras e os meios de comunica\u00e7\u00e3o social desempenham na forma\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o de um ethos pol\u00edtico colectivo. Em descri\u00e7\u00f5es que, tal como o resto do documento, nos deveriam convidar a pensar criticamente sobre a atual situa\u00e7\u00e3o acad\u00eamica no mundo angl\u00f3fono e para al\u00e9m dele, os autores do relat\u00f3rio colocam em primeiro plano as formas pelas quais a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho acad\u00eamico contribui para a demoli\u00e7\u00e3o do radicalismo de esquerda. Se as pessoas de esquerda mais convictas n\u00e3o conseguirem os meios materiais necess\u00e1rios para realizar seu trabalho, ou se somos mais ou menos subtilmente obrigados a conformar-nos para encontrar emprego, publicar os nossos textos ou ter uma audi\u00eancia, est\u00e3o dadas as condi\u00e7\u00f5es estruturais para uma comunidade de esquerda enfraquecida. A profissionaliza\u00e7\u00e3o do ensino superior \u00e9 outra ferramenta utilizada para este fim, uma vez que visa transformar as pessoas em engrenagens tecnocient\u00edficas no aparelho capitalista em vez de cidad\u00e3os aut\u00f4nomos com ferramentas confi\u00e1veis para a cr\u00edtica social. Os mandarins da teoria da CIA louvam assim os esfor\u00e7os por parte do governo franc\u00eas para \u201cempurrar estudantes para os neg\u00f3cios e cursos t\u00e9cnicos\u201d. Apontam igualmente as contribui\u00e7\u00f5es de editores de destaque como Grasset, dos grandes media e o sucesso da cultura americana na promo\u00e7\u00e3o da sua plataforma p\u00f3s-socialista e anti-igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Que li\u00e7\u00f5es podemos extrair deste relat\u00f3rio, particularmente no ambiente pol\u00edtico actual, com o seu cont\u00ednuo ataque \u00e0 intelligentsia cr\u00edtica? Em primeiro lugar, ele deve ser um lembrete convincente de que, se alguns presumem que os intelectuais s\u00e3o impotentes, e que as nossas orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o importam, a organiza\u00e7\u00e3o que tem sido um dos mais poderosos corretores de poder na pol\u00edtica mundial contempor\u00e2nea n\u00e3o pensa desse modo. A Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia, como o seu nome ironicamente sugere, acredita no poder da intelig\u00eancia e da teoria, e devemos levar tal fato muito a s\u00e9rio. Supondo falsamente que o trabalho intelectual tem pouco ou nenhum impacto no \u201cmundo real\u201d, n\u00e3o apenas deturpamos as implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas do trabalho te\u00f3rico, como corremos o risco de fechar perigosamente os olhos aos projetos pol\u00edticos dos quais podemos facilmente tornar-nos, sem o saber, embaixadores culturais. Embora seja certo que o Estado-na\u00e7\u00e3o e o aparelho cultural franceses constituem uma plataforma p\u00fablica muito mais significativa para os intelectuais do que a que se encontra em muitos outros pa\u00edses, a preocupa\u00e7\u00e3o da CIA em mapear e manipular a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e cultural noutros lugares deveria servir como um alerta para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Segundo, os agentes do poder do presente t\u00eam interesse em cultivar uma intelectualidade cuja vis\u00e3o cr\u00edtica tem sido embotada ou destru\u00edda por institui\u00e7\u00f5es patrocinadoras fundadas em interesses empresariais e tecnocient\u00edficos, equiparando pol\u00edtica de esquerda com anticientificidade, correlacionando a ci\u00eancia com uma suposta &#8211; mas falsa &#8211; neutralidade pol\u00edtica, promovendo meios de comunica\u00e7\u00e3o que saturam as ondas sonoras com cavaqueira conformista, sequestrando gente s\u00f3lida de esquerda fora das principais institui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas e dos media, e desacreditando qualquer reivindica\u00e7\u00e3o de transforma\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria e ecol\u00f3gica radical. Idealmente, procuram nutrir uma cultura intelectual que, se est\u00e1 \u00e0 esquerda, \u00e9 neutralizada, imobilizada, tornada ap\u00e1tica e contente com um esbracejar derrotista, ou com o criticismo passivo da esquerda radicalmente mobilizada. Esta \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais podemos considerar a oposi\u00e7\u00e3o intelectual ao esquerdismo radical, que \u00e9 preponderante na academia norte-americana, como uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica perigosa: n\u00e3o \u00e9 ela diretamente c\u00famplice da agenda imperialista da CIA em todo o mundo?<\/p>\n<p>Terceiro, para combater este assalto institucional a uma resoluta cultura de esquerda, \u00e9 imperativo resistir \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o voltada para a profissionaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 igualmente importante criar esferas p\u00fablicas de debate verdadeiramente cr\u00edtico, proporcionando uma plataforma mais ampla para aqueles que reconhecem que outro mundo \u00e9 n\u00e3o apenas poss\u00edvel mas necess\u00e1rio. Tamb\u00e9m precisamos nos unir para contribuir para (ou continuar a) desenvolver meios de comunica\u00e7\u00e3o alternativos, diferentes modelos de educa\u00e7\u00e3o, contra-institui\u00e7\u00f5es e coletivos radicais. \u00c9 vital promover precisamente o que os combatentes culturais encobertos querem destruir: uma cultura de esquerda radical com um amplo quadro institucional, amplo apoio p\u00fablico, influ\u00eancia midi\u00e1tica prevalecente e poder expansivo de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Finalmente, os intelectuais do mundo devem unir-se no reconhecimento do nosso poder e basear-se nele para fazer tudo o que pudermos para desenvolver uma cr\u00edtica sist\u00eamica e radical t\u00e3o igualit\u00e1ria e ecol\u00f3gica como anticapitalista e anti-imperialista. As posi\u00e7\u00f5es que se defendem na sala de aula ou publicamente s\u00e3o importantes para definir os termos do debate e tra\u00e7ar o campo da possibilidade pol\u00edtica. Em oposi\u00e7\u00e3o direta \u00e0 estrat\u00e9gia cultural da ag\u00eancia espi\u00e3 de fragmentar e polarizar, pela qual tem buscado separar e isolar a esquerda anti-imperialista e anticapitalista, que ao mesmo tempo se op\u00f5e a posi\u00e7\u00f5es reformistas, devemos federar-nos e mobilizar-nos, reconhecendo a import\u00e2ncia de trabalharmos juntos \u2013 em toda a esquerda, como <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2017\/jan\/24\/women-march-diversity-minorities-working-class\" target=\"_blank\">Keeanga-Yamahtta Taylor <\/a>nos lembrou recentemente \u2013 para o cultivo de uma intelligentsia verdadeiramente cr\u00edtica. Ao inv\u00e9s de proclamar ou lamentar a impot\u00eancia dos intelectuais, devemos aproveitar a capacidade de falar a verdade ao poder trabalhando em conjunto e mobilizando a nossa capacidade de criar coletivamente as institui\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para um mundo aberto \u00e0 esquerda cultural. Pois \u00e9 somente em tal mundo, e nas caixas-de-resson\u00e2ncia que a intelig\u00eancia cr\u00edtica produz, que as verdades ditas podem realmente ser ouvidas e assim mudar as pr\u00f3prias estruturas de poder.<\/p>\n<p><em>Publicado originalmente no site<a href=\"http:\/\/thephilosophicalsalon.com\/the-cia-reads-french-theory-on-the-intellectual-labor-of-dismantling-the-cultural-left\/\" target=\"_blank\"> The Philosophical Salon<\/a> e traduzido por Pablo Polese para o site <a href=\"http:\/\/passapalavra.info\/2017\/03\/110892\" target=\"_blank\">Passa Palavra<\/a>.<\/em><\/p>\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o revista por ODiario.info &lt;<\/em>http:\/\/www.odiario.info\/a-cia-le-a-teoria-francesa\/&gt;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Gabriel Rockhill Est\u00e1 j\u00e1 muito solidamente identificada e investigada a interven\u00e7\u00e3o da CIA no plano da cultura e das artes, no plano do \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13896\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-13896","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s14-cultura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3C8","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13896","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13896"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13896\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13896"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13896"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13896"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}