{"id":13926,"date":"2017-03-25T12:39:00","date_gmt":"2017-03-25T15:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13926"},"modified":"2017-04-08T16:24:41","modified_gmt":"2017-04-08T19:24:41","slug":"outubro-vermelho-o-significado-da-revolucao-bolchevique-e-seu-impacto-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13926","title":{"rendered":"Outubro Vermelho: o significado da Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique e seu impacto no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/QOyb8u9IOSG98dKaWJ6SizmqJz1qm_F5pxswAWSaK_qwNVC0dZ9yZWTs8_5HADHfeDluRHOS3mUb8xKYrStyCC-83BQq92iImATMvsmIbqHVHxO9hc7hJZK_k7v0fJWosnp02tF5j78w2_d9ZS93LmklSd0c4oY3b_udIkQvauyP2EH4DKa_YpnwWE4SappSwCyLg2nTdg7p3i2PaEruoZXNsrL4_8iTlAwvfgjUqJmmZc_35Vutn4X4SWarFyudbCf1O_jzi_PflFBI-9_4DZD3rLFpAvOebwZAYZHVXqkJaoc6GTlbNBPyDmu0bvbjsI304eWUblBFucXaVQuN71bJntsDQ2g0I16XflOCVDZOC0j1SUfa9iYoQV_ICdJ6Gncgb3dW-R-a1bMVKAuhprC99j-UZu09yd2DkPoZ1iqYuoB3HUnggfRz7Eldt1rgpBe7KKz_TbDypG0r3tkMXP6hn2YO8FUn2JaqH2lcbQ9nnSeX8iPA3JoTunWZDY-veInOVRt3SjbDSUkj6iGRy_Djmcav20hSv0GCxeW6YClmp1p9QK5Y7DVP0j0-gxozJZ3BGXwoJd6fPa8n03VrSqc0yNaFBjfBzxQBLc-FDUJ6GntC_mKvq12noZTuOnYEMNlPXCwXfjQmrjZjCmD1IqJ-KVYIQJsm-pnAfTYfHg=w1366-h356-no\" alt=\"imagem\" \/><strong>Muniz Ferreira e Ricardo Costa<\/strong>*<\/p>\n<p>De acordo com o historiador brit\u00e2nico Eric J. Hobsbawm, o s\u00e9culo XX se desenvolveu \u00e0 sombra do embate econ\u00f4mico, pol\u00edtico e ideol\u00f3gico que contrap\u00f4s as for\u00e7as do capitalismo ocidental e o sistema sovi\u00e9tico. Ainda segundo aquele autor, tal contraposi\u00e7\u00e3o balizou os pr\u00f3prios limites inicial e conclusivo do s\u00e9culo e diferenciou sua extens\u00e3o cronol\u00f3gica de sua delimita\u00e7\u00e3o propriamente hist\u00f3rica. Vers\u00e3o novecentista da disputa s\u00f3cio-pol\u00edtica que, a partir da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, op\u00f4s <em>direita <\/em>e <!--more--><em>esquerda, <\/em>o conflito entre o movimento comunista e seus antagonistas contribuiu decisivamente para o delineamento do perfil da cent\u00faria h\u00e1 dezesseis anos encerrada. No curso de tal embate, a produ\u00e7\u00e3o de um discurso e de um imagin\u00e1rio anticomunistas adquiriu um significado estruturante do ponto de vista da conserva\u00e7\u00e3o e da estabilidade das sociedades do hemisf\u00e9rio ocidental. \u00c9 na rejei\u00e7\u00e3o ao projeto comunista que se reconfigurou o pr\u00f3prio sentido do conceito de <em>Ocidente<\/em>, particularmente a partir da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>A sociedade brasileira n\u00e3o se manteve inc\u00f3lume aos efeitos da citada polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica, tampouco \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o global da ideologia e do discurso anticomunistas. <em>Anarquista <\/em>primeiro e <em>comunista <\/em>depois se constitu\u00edram, atrav\u00e9s da locu\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica entre n\u00f3s, em categoriza\u00e7\u00f5es equivalentes a ep\u00edtetos difamat\u00f3rios tais como: <em>subversivo, desordeiro, inimigo da na\u00e7\u00e3o, anticrist\u00e3o, destruidor da fam\u00edlia e liberticida<\/em>. Conforme demonstraram Moniz Bandeira, Clovis Mello e Astrojildo Pereira, a imprensa brasileira \u2013 tanto a chamada <strong>grande imprensa<\/strong> quanto a <strong>imprensa oper\u00e1ria<\/strong> \u2013 n\u00e3o foi indiferente a Outubro de 1917, tendo veiculado aqui reportagens, an\u00e1lises e controv\u00e9rsias a seu respeito. Seria no bojo destas abordagens acerca do evento russo que se delineariam os primeiros contornos de uma representa\u00e7\u00e3o acerca do <em>bolchevismo<\/em>, antecessor conceitual direto do <em>comunismo<\/em> na imprensa e no imagin\u00e1rio brasileiros. Este, por sua vez, enquanto nomenclatura de um movimento pol\u00edtico em atua\u00e7\u00e3o no solo brasileiro teria sua utiliza\u00e7\u00e3o consolidada a partir do ano de 1922, data da funda\u00e7\u00e3o do Partido Comunista do Brasil (PCB), express\u00e3o nacional da corrente pol\u00edtica e organizativa inspirada e animada pelos comunistas\/bolcheviques do pa\u00eds dos sovietes.<\/p>\n<p><strong>Classes dirigentes e anticomunismo na sociedade brasileira<\/strong><\/p>\n<p>Por um lado, a vit\u00f3ria dos bolcheviques, aliada \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o e crise provocadas pela guerra, acendeu a esperan\u00e7a de que era poss\u00edvel um mundo alternativo ao caos que se vivenciava, pois trabalhadores de outros pa\u00edses europeus e sul-americanos passaram a se organizar e tentaram seguir o caminho trilhado pelos russos. Por outro, ao longo deste duelo de tit\u00e3s \u2013 representado pelo choque ideol\u00f3gico entre capitalismo e socialismo \u2013 foi sendo edificado um discurso anticomunista que, difundido no imagin\u00e1rio coletivo, refor\u00e7ou-se de um significado legitimador de governos antidemocr\u00e1ticos em qualquer pa\u00eds.<\/p>\n<p>Concomitante \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, foi sendo tra\u00e7ado um esbo\u00e7o de discurso anticomunista, por meio de ag\u00eancias internacionais respons\u00e1veis pela elabora\u00e7\u00e3o de not\u00edcias sobre o acontecimento na R\u00fassia e que funcionaram como servi\u00e7os de intriga e desinforma\u00e7\u00e3o desenvolvidos pelas ag\u00eancias associadas ao capital financeiro internacional. O estudo sobre as origens de um imagin\u00e1rio anticomunista no Brasil toma como fonte de pesquisa a produ\u00e7\u00e3o dos jornais da grande imprensa brasileira entre os anos que se seguem \u00e0 repercuss\u00e3o internacional da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique e os efeitos que dela foram produzidos no cen\u00e1rio pol\u00edtico do pa\u00eds \u2013 tanto no que diz respeito \u00e0s altera\u00e7\u00f5es verificadas no movimento oper\u00e1rio local, quanto ao que se refere \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de um novo arqu\u00e9tipo comunista a ser destru\u00eddo pelas classes conservadoras \u2013 a partir de novembro (pelo calend\u00e1rio gregoriano) de 1917 at\u00e9 o momento em que \u00e9 declarado o Estado Novo (a ditadura de Get\u00falio Vargas), em 1937.<\/p>\n<p>De fato, a opini\u00e3o p\u00fablica em geral rapidamente aceita e reconhece o governo provis\u00f3rio que foi estabelecido na R\u00fassia, t\u00e3o logo ocorre a derrubada do Czar Nicolau II, podendo ser verificado pelas not\u00edcias: \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia encontrou munidos o ex\u00e9rcito e o povo. A Duma dominou os reacion\u00e1rios, a burocracia foi vencida. Vit\u00f3ria das for\u00e7as liberais. A Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 considerada um movimento antigerman\u00f3filo e antialem\u00e3o\u201d (A CIDADE, 19\/03\/1917). \u201cO embaixador norte-americano (&#8230;) reconhece o governo provis\u00f3rio e felicita\u201d (A CIDADE, 24\/03\/1917). \u201cA C\u00e2mara (da It\u00e1lia) saudou a Duma e desejou a consolida\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es liberais\u201d (A CIDADE, 26\/03\/1917). \u201cO papa Bento XV declarou estar satisfeito com a implanta\u00e7\u00e3o na democracia na R\u00fassia Ortodoxa\u201d (A CIDADE, 15\/05\/1917).<\/p>\n<p>A maioria das informa\u00e7\u00f5es sobre a R\u00fassia era produzida por ag\u00eancias internacionais como Havas, Reuters, Associated Press, Americana, todas ligadas aos interesses norte-americanos e\/ou europeus. No entanto, o que chama a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que, apesar de a revolu\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o ter sido vista com bons olhos, paralelamente \u00e0 sua aceita\u00e7\u00e3o houve ind\u00edcios daquilo que ganharia forma posteriormente: o desenvolvimento de uma ideologia anticomunista. Neste primeiro momento foi assim explicada a associa\u00e7\u00e3o entre russos e agentes alem\u00e3es: \u201c(&#8230;) A Alemanha tinha seu principal sustent\u00e1culo na R\u00fassia autocrata; esta desapareceu. Entre o povo e o ex\u00e9rcito existe um pequeno grupo, exportado pela Alemanha, imbu\u00eddo de ideias anarquistas\u201d (A CIDADE, 28\/03\/1917). Da\u00ed por diante v\u00e1rias not\u00edcias mostrar\u00e3o um teor similar.<\/p>\n<p>O jornalista Astrojildo Pereira comentou em certo artigo: \u201cUma das teclas mais batidas pelas ilustr\u00edssimas gazetas do Rio, quando se referem \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Russa, \u00e9 a de que os bolcheviques em geral e L\u00eanin em particular s\u00e3o agentes do governo alem\u00e3o\u201d. Esta associa\u00e7\u00e3o parece at\u00e9 natural, visto que em 1917, al\u00e9m da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, a Europa est\u00e1 em plena guerra, e os aliados (EUA, Fran\u00e7a e Inglaterra, e neste momento a It\u00e1lia tamb\u00e9m) lutavam contra tr\u00eas imp\u00e9rios: dois decadentes, o Austro-H\u00fangaro e o Turco-Otomano, e um poderoso, o alem\u00e3o, que se encontrava em posi\u00e7\u00e3o ofensiva de conquista territorial, o que o tornava principal inimigo dos aliados. Ap\u00f3s a vit\u00f3ria dos bolcheviques, a R\u00fassia foi incorporada ao grupo dos inimigos.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, outro elemento muito importante, precisamente o fato de a imprensa brasileira ter assumido uma posi\u00e7\u00e3o de alinhamento com as ag\u00eancias internacionais sobre a R\u00fassia, utilizando muitas vezes a palavra trai\u00e7\u00e3o para caracterizar a sa\u00edda da R\u00fassia da I Guerra Mundial. Uma not\u00edcia comenta com especial entusiasmo o surgimento de um suposto movimento contrarrevolucion\u00e1rio: \u201cO povo russo, trabalhando por ideias de liberdade e de justi\u00e7a, n\u00e3o poderia tolerar o grave crime de lesa-p\u00e1tria, com que o maximalismo traidor cedeu \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es teut\u00f4nicas, consagrando como fato irremedi\u00e1vel \u2013 argumento de mera covardia \u2013 a inf\u00e2mia da humilhante paz agora referendada\u201d (A HORA, 27\/03\/1918). A import\u00e2ncia de tal alinhamento deriva da estreita liga\u00e7\u00e3o entre os jornais da grande imprensa e os chefes das fac\u00e7\u00f5es olig\u00e1rquicas que controlavam o Estado em todas as suas fun\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, significa dizer que a imprensa se comportava como meio de propaganda pol\u00edtica, como \u00f3rg\u00e3o defensor dos interesses das classes dominantes, em suma, n\u00e3o muito diferente da maior parte da imprensa (televisiva, de r\u00e1dio ou escrita) atual, mas a parcialidade era ostensiva e escandalosa. Ainda sobre a repercuss\u00e3o de mar\u00e7o de 1917, tr\u00eas not\u00edcias podem ser destacadas, duas delas pela prematuridade com que a revolu\u00e7\u00e3o foi associada \u00e0 ideia de viol\u00eancia e criminalidade:<\/p>\n<blockquote><p>A marcha da ideia nova socialista n\u00e3o cessa nunca nas estepes geladas (&#8230;) E tamanho era esse \u00f3dio \u00e0s classes dominantes, no sentido libert\u00e1rio da vingan\u00e7a dos radicalistas do socialismo moscovita que, certa feita, ao assassino do conde de Ignatieff, sendo perguntado qual era dogma de sua seita, respondera: \u2018matar todos os homens do Estado\u2019. Depois ao lhe ser inquirido sobre a pol\u00edcia do czar, qual o nome Del, dissera, apenas: \u2018veja o meu rev\u00f3lver\u2019. Havia na arma indicada esta inscri\u00e7\u00e3o de morte aos tiranos: Partido Socialista Revolucion\u00e1rio (O DEMOCRATA, 18\/03\/1917).<\/p><\/blockquote>\n<p>Outra, com sentido similar, acrescenta os termos capitalista e socialismo em confronta\u00e7\u00e3o, identificando as ideias socialistas como elemento respons\u00e1vel por crimes sociais:<\/p>\n<blockquote><p>Causou penosa impress\u00e3o a divulga\u00e7\u00e3o do tr\u00e1gico acontecimento de anteontem, de que foi v\u00edtima o advogado e capitalista Dr. Jo\u00e3o Alfredo Conde. Um esp\u00edrito de loucura, traduzido numa fria perversidade e no sentimento de ideias an\u00e1rquicas, guiou a m\u00e3o do criminoso, que procurou esconder a hediondez do crime premeditado por traz da quest\u00e3o econ\u00f4mica que divide as sociedades europeias e sustem o abomin\u00e1vel socialismo, fundado no crime contra o direito de vida e de propriedade, assegurados por todos os direitos como condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia social (JORNAL MODERNO, 16\/06\/1917).<\/p><\/blockquote>\n<p>Vale ressaltar que o teor contido nestas \u00faltimas fontes coletadas n\u00e3o foi encontrado em nenhum outro jornal de data anterior \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique. O destaque da terceira not\u00edcia seria a sua condi\u00e7\u00e3o emblem\u00e1tica daquilo que at\u00e9 ent\u00e3o era produzido:<\/p>\n<blockquote><p>De apreens\u00f5es s\u00e9rias \u00e9 o momento atual (&#8230;) Mas, para c\u00famulo do agravamento dessa situa\u00e7\u00e3o anormal\u00edssima, que enche de preocupa\u00e7\u00f5es a todos os esp\u00edritos de responsabilidade, h\u00e1, neste instante, no seio da nossa querida P\u00e1tria um trabalho que, \u00e0 surdina, se opera para um movimento de desarmonia entre as v\u00e1rias classes, principalmente aquelas cujos interesses mais de perto se podem chocar no campo das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, ao influxo de ideias de um largo e desenvolto socialismo, e sob o prop\u00f3sito da defesa dos fracos contra os fortes, dos pobres contra os ricos (&#8230;) \u00c0s autoridades e representantes das classes conservadoras aconselharemos a maior prud\u00eancia e todo cuidado (&#8230;) (A CIDADE, 18\/07\/1917).<\/p><\/blockquote>\n<p>Na verdade, o trecho acima faz parte de um artigo, esp\u00e9cie de editorial, embora este termo n\u00e3o seja utilizado na \u00e9poca, e expressa a linha adotada pelo jornal. Este mesmo jornal, ao tecer coment\u00e1rios a respeito da famosa greve de S\u00e3o Paulo de 1917, aponta um movimento que opera para a \u201cdesarmonia entre as classes\u201d: \u201cEm S\u00e3o Paulo, surgiram, com a \u00faltima greve, os efeitos desse trabalho a que nos referimos, e informa\u00e7\u00f5es que chegam dali dizem que o mais intenso esfor\u00e7o dos insufladores desse movimento se volta agora para as outras capitais (&#8230;)\u201d.<\/p>\n<p>Este artigo \u00e9 emblem\u00e1tico porque ser\u00e1 dessa forma que ser\u00e1 tra\u00e7ado o primeiro esbo\u00e7o de um discurso anticomunista. \u00c9 atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de que as ideias socialistas promovem a desordem e a desarmonia entre as classes que os setores conservadores v\u00e3o dar in\u00edcio \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da ideologia anticomunista.<\/p>\n<p><strong>A constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio anticomunista e o avan\u00e7o das lutas dos trabalhadores brasileiros<\/strong><\/p>\n<p>A greve geral ocorrida no Estado da Bahia no ano de 1919, segundo seus estudiosos, foi uma das mais importantes dentre todas as manifesta\u00e7\u00f5es grevistas realizadas pelo operariado brasileiro nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Teve o Sindicato dos Pedreiros e Carpinteiros e Demais Classes como polo aglutinador e motivador da paralisa\u00e7\u00e3o geral dos servi\u00e7os da cidade. A sua import\u00e2ncia vem do fato de que, quando ela ocorre, percebe-se uma inflex\u00e3o da postura dos trabalhadores diante da defesa de seus interesses, isto \u00e9, passando de uma posi\u00e7\u00e3o defensiva (em que se luta para se fazer cumprir as conquistas j\u00e1 existentes) para uma posi\u00e7\u00e3o ofensiva, apresentando novas reivindica\u00e7\u00f5es e defendendo objetivos comuns. A greve geral de 1919 legou para boa parte do operariado baiano um novo padr\u00e3o de comportamento pol\u00edtico frente \u00e0s necessidades imediatas.<\/p>\n<p>Na sequ\u00eancia dos acontecimentos de Outubro na R\u00fassia, as manchetes dos jornais, ao se referirem ao governo l\u00e1 instalado, noticiam \u201cos excessos maximalistas\u201d, \u201co regime do assassino na R\u00fassia\u201d, \u201co canibalismo maximalista\u201d, enfim, \u00e9 assim que a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique \u00e9 tratada nos jornais. Desta forma, as ideias socialistas ser\u00e3o acompanhadas de novas express\u00f5es pejorativas e difamat\u00f3rias. Al\u00e9m da caracteriza\u00e7\u00e3o do socialismo como elemento respons\u00e1vel pela desordem e desarmonia, houve tamb\u00e9m a tentativa de definir as ideias socialistas\/anarquistas (palavras sin\u00f4nimas na \u00e9poca) como \u201ccoisa de estrangeiro\u201d, \u201carruaceiros que, tangidos da Europa, v\u00eam encher as algibeiras para, de volta, rirem abertamente da ingenuidade brasileira\u201d (O IMPARCIAL, 27\/11\/1918), terminando por explicar da seguinte maneira:<\/p>\n<blockquote><p>Compreende-se a organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria defensiva e combativa na Europa, onde a luta entre o capital e o trabalho se fundamenta em raz\u00f5es muito para respeitar e ponderar. No Brasil, por\u00e9m, onde os sal\u00e1rios s\u00e3o relativamente compensadores; e essa antinomia fatal n\u00e3o existe entre patr\u00f5es e prolet\u00e1rios, no Brasil onde uns e outros s\u00e3o amigos, (&#8230;) esses exploradores, mascarados de socialistas, anarquistas ou reformadores devem ser expulsos pelos pr\u00f3prios a que eles, matreiros e sagazes, instru\u00eddos na arte de embair o proletariado com suas l\u00e1bias e seus ardis, dizem defender e salvar de um perigo inexistente.<\/p><\/blockquote>\n<p>O car\u00e1ter ex\u00f3geno das ideias, aliado ao ecumenismo da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, contribuiu para a formula\u00e7\u00e3o de ideais apolog\u00e9ticos do trabalhador nacional, do Brasil, antes \u201cordeiro\u201d, mas que se v\u00ea ent\u00e3o invadido por \u201cideias estrangeiras e perniciosas\u201d. Por isso, os jornais \u2013 representantes dos setores olig\u00e1rquicos \u2013 afirmam:<\/p>\n<blockquote><p>Os elementos corrosivos e tarados que a Europa decadente e corro\u00edda de males sociais tem enviado, juntamente com os bons contingentes imigrat\u00f3rios ao nosso pa\u00eds, insinuando-se entre os grupos de trabalhadores brasileiros, intrometendo-se no meio oper\u00e1rio das primeiras cidades do Brasil, aproveitam-se da relativa ingenuidade dos art\u00edfices nacionais para incutir neles o \u00f3dio ao capital, a m\u00e1 vontade aos empres\u00e1rios, a irrita\u00e7\u00e3o permanente contra os patr\u00f5es e contra os grandes diretores da ind\u00fastria (&#8230;). Se os nossos oper\u00e1rios estivessem preparados para ver, discernir e entender os fen\u00f4menos sociais que dizem respeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do trabalho brasileiro, seriam eles os primeiros a repelir e fazer correr os pregadores da anarquia, os amotinadores que se encobrem com o interesse da classe. (JORNAL MODERNO, 17\/07\/1917).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ap\u00f3s o per\u00edodo que se abre com a greve geral de 1919, seguem-se as lam\u00farias das classes dirigentes pelas transforma\u00e7\u00f5es que se fizeram sentir no seio do proletariado, como esta: \u201co caos russo trouxe para alma oper\u00e1ria de todos os povos da terra o mal de a tentar subverter, mergulhando-a na mesma treva sem lumes em que se debate a alma eslava\u201d (A HORA, 12\/11\/1920). Nota-se que houve uma mudan\u00e7a no discurso, de trabalhadores ing\u00eanuos e ordeiros passaram a ser encarados como pessoas entregues ao mesmo mal, a anarquia.<\/p>\n<p>No percurso da constru\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio anticomunista no Brasil, v\u00ea-se a publica\u00e7\u00e3o de artigos que tamb\u00e9m foram exibidos na Europa, tencionando com isso, dar respaldo ao discurso anticomunista feito aqui, como este que defende a persegui\u00e7\u00e3o aos adeptos do regime russo:<\/p>\n<blockquote><p>Quer um mundo eficazmente impedir os horrores que se passam na R\u00fassia e precaver-se ele pr\u00f3prio de futuro contra hospedes t\u00e3o perigosos? S\u00f3 tem um \u00fanico meio: uma declara\u00e7\u00e3o formal dos Estados Aliados e neutros, assentando que os indiv\u00edduos que hoje est\u00e3o senhores do poder na R\u00fassia n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos como formando um partido pol\u00edtico; acentuando que todos os crimes por eles praticados pessoalmente e pelos seus adeptos, sob sua instiga\u00e7\u00e3o, s\u00e3o considerados como crimes de direito comum; que o direito de asilo lhes n\u00e3o \u00e9 reconhecido e que as suas v\u00edtimas poder\u00e3o persegui-los nos tribunais de todos os pa\u00edses, e que ao futuro governo russo ser\u00e1 reservada a possibilidade de pedir a sua extradi\u00e7\u00e3o pelos crimes cometidos contra o Estado. (O IMPARCIAL, 07\/01\/1919).<\/p><\/blockquote>\n<p>Foram in\u00fameros os artigos encontrados na imprensa brasileira que tinham como principal objetivo explicar para os leitores o que \u00e9 anarquia ou socialismo, como este que se segue:<\/p>\n<blockquote><p>Que \u00e9 a anarquia? \u00c9 a desordem, \u00e9 o regime da inseguran\u00e7a, \u00e9 o bolchevismo, \u00e9 a subleva\u00e7\u00e3o de todos os maus instintos, \u00e9 o crime erigido em virtude, \u00e9 o escorra\u00e7amento da liberdade, a barricada nas ruas, o sossobro do direito, a viola\u00e7\u00e3o dos lares, os sacrif\u00edcios do pudor, a vas\u00e3o de todas as energias de um povo at\u00e9 o completo e absoluto aniquilamento. A anarquia \u00e9 isto! A mis\u00e9ria, a inf\u00e2mia do caos russo, com seus Lenine, brotados da esterqueira das ruas para afogar em sangue um povo e transformar em propriedade p\u00fablica a honra das m\u00e3es e a pulcridade das virgens! (O IMPARCIAL, 11\/03\/1919).<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora a semente da ideologia anticomunista tenha sido brotada antes mesmo da radicaliza\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, ela foi regada pelas greves que explodiram em todo o Brasil no per\u00edodo, com destaque para aquelas que aconteceram no sudeste do pa\u00eds. \u00c9 importante atentar para o fato de os jornais exporem as opini\u00f5es das classes dominantes, inclusive no que diz respeito \u00e0 vis\u00e3o que apresentavam do socialismo e dos socialistas, e ainda, ao trabalho pedag\u00f3gico feito por estes jornais, no sentido de que a informa\u00e7\u00e3o transmitida por eles tinha um objetivo muito claro de preserva\u00e7\u00e3o dos privil\u00e9gios dos capitalistas.<\/p>\n<p>Mas, apesar de todo discurso anticomunista disseminado na imprensa burguesa \u00e0 \u00e9poca, os revolucion\u00e1rios brasileiros, diretamente influenciados pelos novos ventos trazidos mundialmente pela Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, se organizaram em torno de um n\u00facleo inicial de comunistas, fundando, em 1922, o Partido Comunista no Brasil.<\/p>\n<p><strong>A forma\u00e7\u00e3o do Partido Comunista no Brasil: os anos iniciais<\/strong><\/p>\n<p>Fundado em congresso realizado nos dias 25, 26 e 27 de mar\u00e7o de 1922, na cidade de Niter\u00f3i, Estado do Rio de Janeiro, o Partido Comunista surgia, no Brasil, em meio ao contexto internacional da afirma\u00e7\u00e3o do regime socialista na R\u00fassia, ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Sovi\u00e9tica de 1917, e da cria\u00e7\u00e3o da Internacional Comunista em 1919, epis\u00f3dios hist\u00f3ricos que sinalizavam, para os integrantes do movimento oper\u00e1rio e sindical, a possibilidade real de vit\u00f3ria das for\u00e7as prolet\u00e1rias no combate ao sistema capitalista. Grande parte dos fundadores do PC brasileiro, como o jornalista Astrojildo Pereira, haviam sa\u00eddo do movimento anarcossindicalista, muito forte, principalmente em S\u00e3o Paulo, no interior do operariado fabril, mas vivendo sua fase de descenso na d\u00e9cada de 1920, devido \u00e0 forte repress\u00e3o policial que se abateu sobre ele, mas tamb\u00e9m em decorr\u00eancia da boa nova que a vit\u00f3ria dos bolcheviques representava, naquele momento hist\u00f3rico. No ano de 1924, admitido no \u00f3rg\u00e3o m\u00e1ximo representativo dos comunistas em todo o mundo, o PCB adquiria a condi\u00e7\u00e3o de Se\u00e7\u00e3o Brasileira da Internacional Comunista (PC-SBIC).<\/p>\n<p>Nos primeiros anos de sua exist\u00eancia, o Partido Comunista exerceu importante influ\u00eancia entre os trabalhadores dos grandes centros, verificada, por exemplo, na circula\u00e7\u00e3o da revista <em>Movimento Comunista<\/em>, criada em janeiro de 1922, com tiragem m\u00e9dia de 1.500 exemplares e tendo 24 n\u00fameros editados at\u00e9 o ano de 1923, quando se tornou a primeira dentre as v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es comunistas a ser fechada pela repress\u00e3o policial no Brasil. Parte consider\u00e1vel das mat\u00e9rias divulgadas na revista era composta por tradu\u00e7\u00f5es de artigos que faziam refer\u00eancias \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e \u00e0s proposi\u00e7\u00f5es do Komintern. Contando inicialmente com menos de 100 militantes, os comunistas priorizaram sua atua\u00e7\u00e3o no interior dos sindicatos. Concentrados em sua maioria no munic\u00edpio do Rio de Janeiro e em Niter\u00f3i, buscavam difundir as conquistas da Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique e as ideias contr\u00e1rias ao capitalismo atrav\u00e9s de palestras, festas nas sedes dos sindicatos, revistas, livros, panfletos e artigos publicados na imprensa sindical. Contribu\u00edram para a produ\u00e7\u00e3o de pequenos jornais dos sindicatos oper\u00e1rios e controlaram a p\u00e1gina sindical do jornal <em>O Paiz<\/em>, da chamada grande imprensa, mas seu mais importante ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o foi o seman\u00e1rio <em>A Voz Oper\u00e1ria<\/em>, editado pela primeira vez em 1\u00ba de maio de 1925, chegando a alcan\u00e7ar a tiragem de onze mil exemplares no n\u00famero 12, quando tamb\u00e9m foi fechado pela pol\u00edcia. Posteriormente, o jornal reapareceria em diferentes momentos da hist\u00f3ria do PCB, como num outro 1\u00ba de maio, no ano de 1928, j\u00e1 com uma tiragem entre quinze e trinta mil exemplares, num contexto de acirramento da luta de classes e de crescentes embates pol\u00edticos entre as oligarquias que disputavam o poder de Estado na Primeira Rep\u00fablica brasileira, vivendo seu momento decadente.<\/p>\n<p>Figura de destaque desta primeira fase de organiza\u00e7\u00e3o do Partido foi Astrojildo Pereira, que come\u00e7ou sua milit\u00e2ncia em entidades oper\u00e1rias de cunho anarquista. <strong>Astrojildo Pereira Duarte Silva<\/strong> nasceu a 8 de outubro de 1890, em Rio Bonito, interior do Estado do Rio de Janeiro. Era filho de um m\u00e9dico propriet\u00e1rio rural e comerciante, descendente pr\u00f3ximo de portugu\u00eas. Estudou no Col\u00e9gio Anchieta, em Nova Friburgo, educand\u00e1rio de orienta\u00e7\u00e3o jesu\u00edta, de onde foi expulso. Morando com a fam\u00edlia em Niter\u00f3i, come\u00e7ou a trabalhar como gr\u00e1fico e entrou em contato com o universo cultural do Rio de Janeiro. Na d\u00e9cada de 1910, aproximou-se dos n\u00facleos anarquistas. Em 1913, participou ativamente da organiza\u00e7\u00e3o do II Congresso Oper\u00e1rio Brasileiro, que, sob hegemonia dos grupos anarquistas, reestruturou a Confedera\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria Brasileira (COB).<\/p>\n<p>Foi na imprensa oper\u00e1ria que Astrojldo deu in\u00edcio \u00e0 carreira de jornalista, atividade a que se dedicou durante a maior parte de sua vida. Em fins de 1918, participou de uma frustrada tentativa de levante anarquista, raz\u00e3o pela qual foi preso. No entanto, os ecos da Revolu\u00e7\u00e3o Socialista de 1917 na R\u00fassia j\u00e1 se faziam sentir entre os militantes do movimento oper\u00e1rio no Brasil, e Astrojildo acabou por afastar-se do anarquismo. Proferiu palestras defendendo a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o internacionalismo prolet\u00e1rio e editou a revista <em>Movimento Comunista<\/em>. Deu in\u00edcio \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o de uma se\u00e7\u00e3o brasileira da Internacional Comunista, efetivada em mar\u00e7o de 1922 com a funda\u00e7\u00e3o do Partido Comunista do Brasil, do qual foi eleito Secret\u00e1rio-Geral. Fez sua primeira viagem \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1924 e foi encarregado, em 1927, de estabelecer o primeiro contato do PCB com o l\u00edder do movimento tenentista Luiz Carlos Prestes, ent\u00e3o exilado na Bol\u00edvia. Passou a fazer parte do Comit\u00ea Executivo da IC em 1928, mas, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930, a guinada \u201cobreirista\u201d no Partido foi respons\u00e1vel pelo afastamento dos intelectuais, e Astrojildo seria substitu\u00eddo na Secretaria-Geral.<\/p>\n<p>O II Congresso do PC brasileiro aconteceu em maio de 1925, com a presen\u00e7a de dezessete delegados, os quais aprovaram resolu\u00e7\u00f5es que apontavam para a necessidade de uma fase democr\u00e1tico-burguesa na revolu\u00e7\u00e3o brasileira, resultante de uma alian\u00e7a pol\u00edtica do proletariado com a pequena burguesia radicalizada, em fun\u00e7\u00e3o da forte presen\u00e7a dos grupos urbanos nas lutas sociais do per\u00edodo, diferentemente do que ocorrera na R\u00fassia, onde o campesinato era preponderante. O elemento de originalidade da formula\u00e7\u00e3o dos comunistas brasileiros encontrava-se justamente na proposta da alian\u00e7a com o tenentismo, identificado como um movimento pequeno burgu\u00eas revolucion\u00e1rio surgido no interior das For\u00e7as Armadas, propenso a abra\u00e7ar a luta contra o imperialismo e pela supera\u00e7\u00e3o dos entraves semicoloniais ou semifeudais admitidos na realidade nacional.<\/p>\n<p>Foi o intelectual Oct\u00e1vio Brand\u00e3o, que entrou para o PCB em novembro de 1922 e integrou seu Comit\u00ea Central entre 1923 e 1930, o principal inspirador das teses aprovadas no II Congresso do Partido. <strong>Oct\u00e1vio Brand\u00e3o do Rego<\/strong>, alagoano nascido em 1896, farmac\u00eautico por profiss\u00e3o, tamb\u00e9m come\u00e7ou sua milit\u00e2ncia pol\u00edtica nos meios anarquistas, inicialmente em sua cidade natal, Vi\u00e7osa e, depois, em Macei\u00f3. Estudando no Recife, centro catalisador das lutas antiolig\u00e1rquicas no Nordeste, nas quais se destacavam seus primos Cristiano Cordeiro e Rodolfo Coutinho (tamb\u00e9m futuros dirigentes do PCB) e o advogado social-reformista Joaquim Pimenta, foi atra\u00eddo para as ideias comunistas com o impacto da Revolu\u00e7\u00e3o Sovi\u00e9tica naquele meio intelectual. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde o contato com Astrojildo Pereira foi fundamental para sua milit\u00e2ncia no rec\u00e9m-fundado Partido Comunista do Brasil. Eleito para a Comiss\u00e3o Central Executiva do Partido poucos meses ap\u00f3s a sua filia\u00e7\u00e3o, foi o principal intelectual org\u00e2nico dos comunistas at\u00e9 a sua destitui\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do PCB em 1930, quando foi acusado de \u201cdesvios de direita\u201d, juntamente com Astrojildo e outros dirigentes.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, passou a viver o ostracismo partid\u00e1rio, tendo permanecido por quinze anos na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ap\u00f3s ser preso e deportado pela pol\u00edcia do Presidente Get\u00falio Vargas em 1931. Retornando da URSS em 1946, mesmo tratado com indiferen\u00e7a pela dire\u00e7\u00e3o do Partido, conquistou a cadeira de vereador no Rio de Janeiro (ent\u00e3o Distrito Federal) no ano seguinte, \u00eaxito conquistado gra\u00e7as \u00e0 antiga base oper\u00e1ria que o elegera intendente pelo Bloco Oper\u00e1rio e Campon\u00eas (BOC) em 1928, mas tinha seus pronunciamentos constantemente censurados pelos dirigentes comunistas, perseguido ainda pela injusta acusa\u00e7\u00e3o de \u201cerros direitistas\u201d, que teriam sido cometidos na d\u00e9cada de 1920. Por conta da cassa\u00e7\u00e3o do PCB em 1947, no per\u00edodo da Guerra Fria, foi preso e torturado, passando a viver na clandestinidade entre 1948 e 1956, ap\u00f3s o que voltou \u00e0 milit\u00e2ncia partid\u00e1ria e intelectual, sem o mesmo prest\u00edgio de antes.<\/p>\n<p>Brand\u00e3o foi pioneiro na utiliza\u00e7\u00e3o da express\u00e3o \u201cmarxista-leninista\u201d para designar o tipo de an\u00e1lise te\u00f3rico-metodol\u00f3gica de corte materialista a que se propunha fazer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade brasileira, an\u00e1lise na qual j\u00e1 despontava a no\u00e7\u00e3o de revolu\u00e7\u00e3o em etapas no Brasil. Por meio da obra te\u00f3rica <em>Agrarismo e Industrialismo<\/em> (que publicou em 1916, sob o pseud\u00f4nimo Fritz Mayer), definia a fase da revolu\u00e7\u00e3o brasileira, na conjuntura hist\u00f3rica dos anos vinte, como de car\u00e1ter \u201cdemocr\u00e1tico-pequeno-burguesa\u201d, a partir de estudos sobre as revoltas tenentistas de 1922 e 1924. Brand\u00e3o analisou a disputa interimperialista no Brasil, travada entre Inglaterra e Estados Unidos, concluindo haver um v\u00ednculo crescente entre os interesses da emergente burguesia industrial brasileira e o imperialismo norte-americano, enquanto a economia agr\u00e1rio-exportadora mantinha-se subordinada aos interesses dos bancos ingleses. Por outro lado, as camadas m\u00e9dias urbanas, de cujos estratos sobressaiu o tenentismo, seriam portadoras de uma vis\u00e3o nacionalista, entrando, de fato, em contradi\u00e7\u00e3o com os prop\u00f3sitos imperialistas no Brasil. Sendo assim, o alargamento da a\u00e7\u00e3o das for\u00e7as populares estaria condicionado \u00e0 possibilidade de uma terceira revolta tenentista. Ao considerar a natureza da sociedade brasileira como semicolonial, Brand\u00e3o propunha a alian\u00e7a pol\u00edtica do proletariado \u201ccom a pequena burguesia revoltosa e a grande burguesia liberal, contra o Partido Republicano e os fazendeiros do caf\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>Tal linha pol\u00edtica foi tamb\u00e9m respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o do BOC, Bloco Oper\u00e1rio e Campon\u00eas, articulado, inicialmente em janeiro de 1927, sob a designa\u00e7\u00e3o de Bloco Oper\u00e1rio, com o prop\u00f3sito de se constituir como uma \u201cFrente \u00danica Prolet\u00e1ria\u201d na luta contra o imperialismo, pelo reconhecimento da URSS pelo governo brasileiro e em defesa de uma s\u00e9rie de reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas dos trabalhadores. Representou a \u201cprimeira tentativa sistem\u00e1tica de uma pol\u00edtica de alian\u00e7as\u201d dos comunistas brasileiros. No entanto, devido \u00e0 limitada capacidade do PCB em organizar sua presen\u00e7a junto ao sindicalismo urbano, \u00e0 falta de conhecimentos sobre a quest\u00e3o agr\u00e1ria no Brasil e \u00e0 inexist\u00eancia de um movimento aut\u00f4nomo e expressivo dos trabalhadores rurais \u00e0 \u00e9poca, o BOC acabou se transformando num instrumento para a participa\u00e7\u00e3o dos comunistas no processo eleitoral da \u00e9poca, n\u00e3o conseguindo se constituir em uma organiza\u00e7\u00e3o de massas ou uma frente pol\u00edtica que unificasse as a\u00e7\u00f5es do proletariado urbano e das \u201cmassas camponesas\u201d, como previsto.<\/p>\n<p>Numa \u00e9poca em que o Partido Comunista vivia na ilegalidade, o Bloco Oper\u00e1rio serviu para que os comunistas elegessem, em 1927, um deputado para a C\u00e2mara Federal, o m\u00e9dico Azevedo Lima, que n\u00e3o era comunista. No ano seguinte, j\u00e1 sob a fachada do BOC, foram eleitos Oct\u00e1vio Brand\u00e3o e o oper\u00e1rio Minervino de Oliveira para o Conselho Municipal do Rio de Janeiro. Em mar\u00e7o de 1930, na \u00faltima participa\u00e7\u00e3o da sigla eleitoral, lan\u00e7aram-se candidatos comunistas \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ao Senado Federal e \u00e0s assembleias legislativas, mas as vota\u00e7\u00f5es foram inexpressivas, e nenhum deles se elegeu. Como j\u00e1 vinha sendo muito criticado pelos pr\u00f3prios comunistas brasileiros e pelos membros da IC, o Bloco Oper\u00e1rio Campon\u00eas foi imediatamente extinto.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria do Partido Comunista Brasileiro, portanto, \u00e9 parte constitutiva da hist\u00f3ria do Brasil. Se, na sua g\u00eanese, convergiram os ideais libert\u00e1rios do nascente proletariado, no seu desenvolvimento e consolida\u00e7\u00e3o foram sintetizados os processos de matura\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que buscava (e ainda busca at\u00e9 hoje) conjugar em suas fileiras os mais destacados dirigentes das lutas dos trabalhadores e representantes da intelectualidade e da cultura brasileira. Quando se tornou um verdadeiro partido de dimens\u00f5es nacionais, no imediato p\u00f3s-guerra, o PCB revelou-se como a inst\u00e2ncia de universaliza\u00e7\u00e3o de uma vontade pol\u00edtica que fundia o mundo do trabalho com o mundo da cultura. \u00c0 companhia de Astrojildo Pereira e Oct\u00e1vio Brand\u00e3o, juntaram-se intelectuais do porte de Caio Prado Jr., Graciliano Ramos e M\u00e1rio Schenberg, entre muitos outros, vinculados a projetos e perspectivas que tinham nas camadas prolet\u00e1rias o sujeito real da interven\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Se a hist\u00f3ria do PCB foi marcada por uma sistem\u00e1tica repress\u00e3o, que o compeliu \u00e0 clandestinidade por mais da metade de sua exist\u00eancia e que entregou ao povo brasileiro boa parte de seus maiores her\u00f3is do s\u00e9culo XX, nem por isto o PCB foi um partido marginal. Ao contr\u00e1rio: da d\u00e9cada de 1920 aos dias atuais, os comunistas, com seus acertos e erros, mas especialmente com sua profunda liga\u00e7\u00e3o aos interesses hist\u00f3ricos das massas trabalhadoras brasileiras, participaram ativamente da din\u00e2mica social, pol\u00edtica e cultural do pa\u00eds. O ponto de partida e refer\u00eancia permanente desta trajet\u00f3ria hist\u00f3rica, sem d\u00favida alguma, \u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917.<\/p>\n<p>*<strong> Muniz Ferreira e Ricardo Costa<\/strong> s\u00e3o historiadores e membros do Comit\u00ea Central do Partido Comunista Brasileiro &#8211; PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Muniz Ferreira e Ricardo Costa* De acordo com o historiador brit\u00e2nico Eric J. 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