{"id":13938,"date":"2017-03-27T20:15:13","date_gmt":"2017-03-27T23:15:13","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13938"},"modified":"2017-04-08T16:24:57","modified_gmt":"2017-04-08T19:24:57","slug":"no-campo-terceirizacao-e-alibi-para-o-trabalho-escravo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13938","title":{"rendered":"No campo, terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00e1libi para o trabalho escravo"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.opalheiro.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/LATIF%C3%9ANDIO-MATA-1200x545_c.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>Empresas e pol\u00edticos acusados de explorar trabalhadores costumam invocar terceiros para justificar os flagrantes da fiscaliza\u00e7\u00e3o.<!--more--><\/p>\n<p>H\u00e1 um roteiro previs\u00edvel nas not\u00edcias sobre pol\u00edticos envolvidos em den\u00fancias de trabalho escravo. Regra n\u00famero 1: eles n\u00e3o sabiam de nada. Alegam responsabilidade das empresas \u201cterceirizadas\u201d. Regra n\u00famero 2: ao contr\u00e1rio do que ocorre com outros propriet\u00e1rios de terra, eles logo t\u00eam seus nomes retirados da lista suja do trabalho escravo \u2013 ou nela nem s\u00e3o inclu\u00eddos.<\/p>\n<p>A reportagem \u00e9 de\u00a0Alceu Lu\u00eds Castilho e publicado por De Olho nos Ruralistas, 23-03-2017.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o as palavras que abrem o cap\u00edtulo sobre trabalho escravo do livro Partido da Terra \u2013 como os pol\u00edticos conquistam o territ\u00f3rio brasileiro (Contexto, 2012). \u00c9 o cap\u00edtulo mais longo do livro \u2013 de minha autoria. Diante da aprova\u00e7\u00e3o nesta quarta-feira (23\/03), pela C\u00e2mara, do projeto que libera a terceiriza\u00e7\u00e3o para todas as atividades, vale copiar alguns trechos:<\/p>\n<p>\u201cSitua\u00e7\u00e3o Subumana\u201d<\/p>\n<p>Aos 88 anos, um dos pol\u00edticos mais ricos do Congresso, o capixaba Camilo Cola (PMDB) teve 21 de seus trabalhadores libertados por equipes da Pol\u00edcia Federal e do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho, em outubro de 2011. Eles estavam em uma fazenda do Complexo Agropecu\u00e1ria Pindobas, do Grupo Itapemirim. Cola [que, em 2017, n\u00e3o \u00e9 mais deputado] \u00e9 dono de uma fortuna de R$ 259 milh\u00f5es. Possui dezenas de im\u00f3veis rurais, empresa agropecu\u00e1ria etc.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o era a mesma encontrada nas regi\u00f5es mais pobres do pa\u00eds: falta de \u00e1gua pot\u00e1vel, esgoto a c\u00e9u aberto, falta de eletricidade, comidas, roupas e rem\u00e9dios misturados no mesmo espa\u00e7o.<\/p>\n<p>O procurador Djailson Rocha, do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho, definiu a situa\u00e7\u00e3o, ao jornal O Globo, como subumana: \u201c\u00c9 inconceb\u00edvel que no s\u00e9culo XXI existam pessoas trabalhando nestas condi\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o humanas\u201d, disse.<\/p>\n<p>A desculpa do deputado foi a de sempre: trabalhadores eram de uma terceirizada \u2013 no caso, a Cute Empreiteira Ltda.<\/p>\n<p>\u201cSem minha autoriza\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>O radialista Beto Mansur [hoje deputado federal] foi prefeito de Santos entre 1997 e 2004. Em 2005, suas fazendas em Bon\u00f3polis (GO), a Tri\u00e2ngulo e a Terra Boa, foram fiscalizadas. O Grupo M\u00f3vel libertou 46 trabalhadores. Entre eles, 7 menores.<br \/>\nO patr\u00e3o descontava R$ 10 por dia pelas refei\u00e7\u00f5es. Dormiam em ch\u00e3o batido, bebiam \u00e1gua suja, n\u00e3o tinham dia de folga. Um deles era encarregado de pulverizar veneno, sem m\u00e1scara e sem luvas. Intoxicou-se.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o deplor\u00e1vel\u201d, avaliou Mansur ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o do caso. \u201cOs funcion\u00e1rios que estavam l\u00e1 acabaram contratando mais gente para agilizar o servi\u00e7o sem minha autoriza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Alojados em um curral<\/p>\n<p>Em Davin\u00f3polis, o prefeito Francisco Lima, o Chico do R\u00e1dio (PDT), declarou um patrim\u00f4nio de R$ 4,5 milh\u00f5es. Propriedades rurais, duas: uma de R$ 1 milh\u00e3o, outra de R$ 2 milh\u00f5es. Em 2006, 20 trabalhadores foram libertados de uma delas, no munic\u00edpio de Bom Jardim. A \u00e1rea fica dentro da Reserva Biol\u00f3gica de Gurupi, \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o ambiental. A atividade, extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira.<\/p>\n<p>O grupo e fiscaliza\u00e7\u00e3o apreendeu dez motosserras. E espingardas. Macacos e tatus mortos completavam o cen\u00e1rio. Os trabalhadores ficavam alojados (mais uma vez) em um curral. O sal\u00e1rio sempre chegaria \u201cno dia 10\u201d. Mas nunca chegava.<\/p>\n<p>No curral, com ratos<\/p>\n<p>Ainda no Maranh\u00e3o, um ex-prefeito de A\u00e7ail\u00e2ndia, o m\u00e9dico Gilson Freire de Santana, teve 19 trabalhadores libertados. Um deles tinha 17 anos. Quinze deles dormiam onde? No curral, em redes, ao lado de ratos, do gado e de agrot\u00f3xicos. \u00c0s tr\u00eas horas da madrugada, o vaqueiro chegava gritando com os bichos, e ningu\u00e9m conseguia mais dormir.<\/p>\n<p>Santana \u00e9 dono de um hospital em A\u00e7ail\u00e2ndia, chamado Santa Luzia. Mas no alojamento de sua fazenda n\u00e3o havia sanit\u00e1rios nem chuveiros. Tomavam banho de caneca. Em entrevista \u00e0 rep\u00f3rter Bianca Pyl, a auditora fiscal M\u00e1rcia Albernaz, do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho, sintetizou a situa\u00e7\u00e3o da seguinte forma: \u201cO empregador igualou os trabalhadores aos animais que possui\u201d.<\/p>\n<p>Fazenda Jesus de Nazar\u00e9<\/p>\n<p>Em Rondon do Par\u00e1, a multa para Idelfonso Abreu Ara\u00fajo (PP) foi de R$ 53 mil. Ele era prefeito de Abreu Figueiredo, munic\u00edpio vizinho, quando a fiscaliza\u00e7\u00e3o resgatou 21 trabalhadores de sua fazenda de 7,2 mil hectares, em 2006. Diante da mata densa e do terreno \u00edngreme, n\u00e3o conseguiam atingir as metas de produtividade, e por isso recebiam cerca de R$ 100 por m\u00eas \u2013 menos do que as d\u00edvidas.<\/p>\n<p>A caderneta dos trabalhadores registrava d\u00edvidas de at\u00e9 R$ 800. Ningu\u00e9m tinha carteira de trabalho. Em setembro daquele ano uma tora caiu nas pernas de um homem de 24 anos. Ele morreu a caminho do hospital, ap\u00f3s esperar o transporte, perdendo sangue por cinco horas. Pecuarista e dono de serraria (o desmatamento era ilegal), Abreu pagou a indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 53 mil. O nome de sua fazenda? \u201cJesus de Nazar\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 n\u00e3o tem ar-condicionado\u201d<\/p>\n<p>Outro senador que costuma dizer que foi inocentado \u00e9 Jayme Campos (DEM-MT), dono de mais de 32 mil hectares no Mato Grosso. Mas ele assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho em 2006. N\u00e3o houve flagrante: 15 pessoas contaram que trabalhavam em condi\u00e7\u00f5es degradantes na Fazenda Santa Am\u00e1lia, em Alta Floresta.<\/p>\n<p>O TAC foi assinado em 2008, com trinta exig\u00eancias. Entre elas, n\u00e3o alojar trabalhadores em barracos de lona; oferecer prote\u00e7\u00e3o e transporte adequados; oferecer repouso semanal remunerado; garantir \u00e1gua pot\u00e1vel. Caso n\u00e3o houvesse acordo, seria movida uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica, com base nos testemunhos dos trabalhadores.<\/p>\n<p>O senador negou as acusa\u00e7\u00f5es. Disse que tr\u00eas pessoas teriam denunciado a propriedade como uma forma de chantagem, para receber horas extras. Segundo Campos, as condi\u00e7\u00f5es dos trabalhadores regulares eram normais. \u201cN\u00e3o registrar hoje pode sair bem mais caro do que registrar\u201d, afirmou. \u201cS\u00f3 n\u00e3o tem ar-condicionado\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/566076-no-campo-terceirizacao-e-alibi-para-o-trabalho-escravo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Empresas e pol\u00edticos acusados de explorar trabalhadores costumam invocar terceiros para justificar os flagrantes da fiscaliza\u00e7\u00e3o.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13938\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[190],"tags":[],"class_list":["post-13938","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fora-temer"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3CO","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13938","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13938"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13938\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}