{"id":13940,"date":"2017-03-27T20:18:35","date_gmt":"2017-03-27T23:18:35","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13940"},"modified":"2017-04-08T16:25:00","modified_gmt":"2017-04-08T19:25:00","slug":"neoliberalismo-ordem-contestada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13940","title":{"rendered":"Neoliberalismo, ordem contestada"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"220\" width=\"485\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/170325-NuitsDebout2-e1490487636732-485x220.jpg?resize=485%2C220\" alt=\"imagem\" \/>PERRY ANDERSON<\/p>\n<p>Movimento \u201cNuit Debout\u201d (Noite Desperta), que contestou o neoliberalismo pela esquerda em Paris, 2016. Na Fran\u00e7a, no entanto, principal contesta\u00e7\u00e3o \u00e9 de direita. Segundo Anderson, um dos motivos \u00e9 o fato de ela ter propostas mais simples e claras contra a tirania da Uni\u00e3o Europeia<!--more--><\/p>\n<p><em>Sistema sofre press\u00e3o in\u00e9dita \u2013 da esquerda e da direita \u2013 mas resiste, apoiando-se no medo. Por que o populismo retr\u00f3grado ainda \u00e9 mais forte. Como mudar o jogo<\/em><br \/>\nPor\u00a0<strong>Perry Anderson<\/strong>, no\u00a0<em>Le Monde Diplomatique<\/em>\u00a0| Tradu\u00e7\u00e3o:<strong>\u00a0Antonio Martins<\/strong><\/p>\n<p>O termo \u201cmovimentos antissist\u00eamicos\u201d era comumente usado, h\u00e1 25 anos<sup>1<\/sup>, para caracterizar for\u00e7as de esquerda, em revolta contra o capitalismo. Hoje, ele n\u00e3o perdeu relev\u00e2ncia no Ocidente, mas seu sentido mudou. Os movimentos de revolta que se multiplicaram na \u00faltima d\u00e9cada n\u00e3o se rebelam mais contra o capitalismo, mas contra o neoliberalismo \u2013 os fluxos financeiros desregulados, os servi\u00e7os privatizados e a desigualdade social crescente, uma variante espec\u00edfica do dom\u00ednio do capital adotada na Europa e Am\u00e9rica desde os anos 1980. A ordem econ\u00f4mica e pol\u00edtica resultante foi aceita indistintamente por governos de centro-direita e centro-esquerda, de acordo com o princ\u00edpio central do\u00a0<em>pensamento \u00fanico\u00a0<\/em>e do dito de Margareth Thatcher, segundo o qual \u201cn\u00e3o h\u00e1 alternativa\u201d. Dois tipos de movimento agora mobilizam-se contra este sistema; e a ordem estabelecida estigmatiza-os \u2013 sejam de direita ou de esquerda \u2013 como a \u201camea\u00e7a populista\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, estes movimentos emergiram antes na Europa que nos Estados Unidos. Sessenta anos ap\u00f3s o Tratado de Roma, a raz\u00e3o \u00e9 clara. O Mercado Comum Europeu de 1957, um desdobramento da comunidade de carv\u00e3o e a\u00e7o do Plano Schuman \u2013 concebido tanto para prevenir o retrocesso a um s\u00e9culo de hostilidades franco-alem\u00e3s quanto para consolidar o crescimento econ\u00f4mico p\u00f3s-guerra na Europa Ocidental \u2013 foi produto de um per\u00edodo de pleno emprego e aumento dos rendimentos populares, a consolida\u00e7\u00e3o da democracia representativa e dos sistemas de Bem-estar Social. Seus arranjos comerciais pesavam muito pouco na soberania dos Estados-Na\u00e7\u00f5es que o compunham \u2013 e \u00e0 \u00e9poca, foram fortalecidos, n\u00e3o enfraquecidos. Os or\u00e7amentos e as taxas de c\u00e2mbio eram determinados internamente, por parlamentos que prestavam contas a seu eleitorado nacional, e nos quais pol\u00edticas contrastantes eram debatidas com vigor. Tentativas da Comiss\u00e3o de Bruxelas para tornar-se mais poderosa foram notoriamente recha\u00e7adas em Paris. N\u00e3o apenas a Fran\u00e7a de Charles de Gaulle mas tamb\u00e9m a Alemanha Ocidental de Konrad Adenauer, ainda que de forma mais discreta, perseguia pol\u00edticas externas independente dos Estados Unidos e capazes de desafi\u00e1-los.<\/p>\n<p>O fim dos\u00a0<em>trinta anos gloriosos\u00a0<\/em>imp\u00f4s uma grande mudan\u00e7a a esta constru\u00e7\u00e3o. A partir de meados dos 1970, o mundo capitalista avan\u00e7ado mergulhou num longo decl\u00ednio, analisado pelo historiador norte-americano Robert Brenner<sup>2<\/sup>: taxas de crescimento mais baixas e aumentos de produtividade menores a cada d\u00e9cada, menos emprego e maior desigualdade, pontuados por recess\u00f5es agudas. A partir dos 1980, as orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas foram revertidas, num processo que come\u00e7ou no Reino Unido e nos Estados Unidos mas espalhou-se rapidamente para a Europa. Os sistemas de bem-estar foram cortados, as ind\u00fastrias e servi\u00e7os p\u00fablicos foram privatizados e os mercados financeiros, desregulamentados. O neoliberalismo havia chegado. Na Europa, ele adquiriu com o tempo uma forma institucional particularmente r\u00edgida: o n\u00famero de Estados-membros do que se tornou a Uni\u00e3o Europeia (UE) multiplicou-se mais de quatro vezes, incorporando uma vasta zona de baixos sal\u00e1rios a leste.<\/p>\n<p><strong>Austeridade draconiana<\/strong><\/p>\n<p>Da Uni\u00e3o Monet\u00e1ria (1990) ao Pacto de Estabilidade (1997) e \u00e0 Lei do Mercado \u00danico (2011), os poderes dos parlamentos nacionais foram esvaziados por uma estrutura supranacional de autoridade burocr\u00e1tica blindada da vontade popular, exatamente como o economista ultraliberal Friedrich Hayek havia profetizado. Com esta maquinaria instalada, a \u201causteridade\u201d draconiana p\u00f4de ser imposta sobre eleitorados desprotegidos, sob a dire\u00e7\u00e3o conjunta da Comiss\u00e3o Europeia e de uma Alemanha reunificada \u2013 agora o Estado mais poderoso da Uni\u00e3o, onde pensadores influentes anunciaram de modo c\u00e2ndido sua voca\u00e7\u00e3o para\u00a0<em>hegemon\u00a0<\/em>continental. Externamente, no mesmo per\u00edodo, a Uni\u00e3o Europeia e seus membros deixaram de jogar qualquer papel relevante no mundo, tornando-se a guarda avan\u00e7ada de novas pol\u00edticas de guerra fria contra a R\u00fassia \u2013 articuladas pelos Estados Unidos e pagas pela Europa.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o \u00e9 surpresa que a casta cada vez mais olig\u00e1rquica da Uni\u00e3o Europeia, desafiando a vontade popular em sucessivos referendos e for\u00e7ando\u00a0<em>diktats\u00a0<\/em>or\u00e7ament\u00e1rios nas leis constitucionais, tenha gerado tantos movimentos de protesto contra si. Qual o panorama destas for\u00e7as?<\/p>\n<p>No cora\u00e7\u00e3o da UE pr\u00e9-expans\u00e3o, da era da Guerra Fria (a topografia da Europa Oriental \u00e9 t\u00e3o diferente que pode ser posta \u00e0 parte, para os prop\u00f3sitos deste texto), movimentos de direita dominam a oposi\u00e7\u00e3o ao sistema na Fran\u00e7a (Frente Nacional), Holanda (Partido da Liberdade, PVV), \u00c1ustria (Partido da Liberdade da \u00c1ustria), Su\u00e9cia (Democratas Suecos), Dinamarca (Partido do Povo Dinamarqu\u00eas), Finl\u00e2ndia (Finlandeses Verdadeiros), Alemanha (Alternativa para a Alemanha, AfD) e Gr\u00e3-Bretanha (Partido pela Independ\u00eancia do Reino Unido, UKIP).<\/p>\n<p>Na Espanha, Gr\u00e9cia e Irlanda, movimentos de esquerda predominaram: Podemos, Syriza e Sinn Fein. Em caso \u00fanico, a It\u00e1lia tem tanto um forte movimento antissist\u00eamico de direita (a Lega) quanto um ainda maior, que atravessa a fronteira esquerda\/direita: o Movimento Cinco Estrelas (M5S). Sua ret\u00f3rica extra-parlamentar sobre impostos e imigra\u00e7\u00e3o coloca-o na direita, mas ele est\u00e1 \u00e0 esquerda por seu hist\u00f3rico parlamentar de oposi\u00e7\u00e3o consistente \u00e0s medidas neoliberais do governo Matteo Renzi (particularmente sobre Educa\u00e7\u00e3o e mercado de Trabalho) e seu papel central ao derrotar os esfor\u00e7os de Renzi para enfraquecer a Constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da It\u00e1lia<sup>3<\/sup>. A todos estes pode ser acrescentado o Momentum, movimento que emergiu na Gr\u00e3-Bretanha por tr\u00e1s da inesperada elei\u00e7\u00e3o de Jeremy Corbyn para a lideran\u00e7a do Partido Trabalhista. Todos os movimentos de direita, exceto a AfD, precedem o crash de 2008; alguns t\u00eam hist\u00f3rias que remontam aos 1970 ou antes. O Syriza decolou, e o M5S, Podemos e Momentum nasceram como resultados diretos da crise financeira global.<\/p>\n<p>O fato central \u00e9 o peso maior do conjunto de movimentos de direita em rela\u00e7\u00e3o aos de esquerda, tanto em n\u00famero de pa\u00edses em que s\u00e3o maios fortes quanto em for\u00e7a eleitoral. Ambos s\u00e3o rea\u00e7\u00f5es \u00e0 estrutura do sistema neoliberal, que tem sua express\u00e3o mais aguda e concentrada na EU atual, com sua ordem fundada na redu\u00e7\u00e3o e privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos, no abandono do controle democr\u00e1tico e representa\u00e7\u00e3o; e na desregula\u00e7\u00e3o dos fatores de produ\u00e7\u00e3o. As tr\u00eas tend\u00eancias est\u00e3o presentes em plano nacional na Europa e em outras partes, mas s\u00e3o mais intensas no espa\u00e7o europeu \u2013 como atestam a tortura da Gr\u00e9cia, o atropelamento dos referendos e o tr\u00e1fego humano. Na arena pol\u00edtica, eles suscitam temas de preocupa\u00e7\u00e3o popular, convocando protestos contra o sistema relacionados \u00e0 \u201causteridade\u201d, soberania e imigra\u00e7\u00e3o. Os movimentos antissist\u00eamicos diferenciam-se pelo peso que d\u00e3o a cada tema \u2013 ou com a cor da paleta neoliberal que mais hostilizam.<\/p>\n<p>Os movimentos de direita predominam sobre os de esquerda porque, desde o in\u00edcio, apoderaram-se do tema da imigra\u00e7\u00e3o, estimulando rea\u00e7\u00f5es xenof\u00f3bicas e racistas para obter apoio amplo entre os setores mais vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o. Com exce\u00e7\u00e3o dos movimentos na Holanda e Alemanha, que acreditam em liberalismo econ\u00f4mico, esta rea\u00e7\u00e3o est\u00e1 (na Fran\u00e7a, Dinamarca, Su\u00e9cia e Finl\u00e2ndia) tipicamente ligada \u00e0 defesa \u2013 e n\u00e3o \u00e0 den\u00fancia \u2013 do Estado de Bem-estar social. Afirma-se que a chegada de imigrantes sabota-o. Mas seria errado atribuir a vantagem da direita a esta carta. Em casos importantes \u2013 a Frente Nacional (FN) francesa \u00e9 o mais significativo \u2013, ela apoia-se tamb\u00e9m em outros temas.<\/p>\n<p>A uni\u00e3o monet\u00e1ria \u00e9 o exemplo mais \u00f3bvio. A moeda e o banco central \u00fanicos, concebidos no acordo de Maastricht, produziram, num \u00fanico sistema, a imposi\u00e7\u00e3o da \u201causteridade\u201d e a nega\u00e7\u00e3o da soberania popular. Os movimentos de esquerda atacam-no t\u00e3o veementemente como os de direita, ou at\u00e9 mais. Mas as solu\u00e7\u00f5es que prop\u00f5em s\u00e3o menos radicais. Na direita, a FN e a Lega t\u00eam rem\u00e9dios claros para a moeda \u00fanica e a imigra\u00e7\u00e3o: sair do euro e proibir a entrada de estrangeiros. Na esquerda, com exce\u00e7\u00f5es isoladas, h\u00e1 respostas amb\u00edguas. No m\u00e1ximo, prop\u00f5em-se ajustes t\u00e9cnicos \u00e0 moeda \u00fanica, complicados demais para ter audi\u00eancia popular; e alus\u00f5es vagas, envergonhadas, a quotas para imigrantes. Nenhuma destas propostas \u00e9 t\u00e3o facilmente intelig\u00edvel para os eleitores como as proposi\u00e7\u00f5es diretas da direita.<\/p>\n<p><strong>O desafio da migra\u00e7\u00e3o crescente<\/strong><\/p>\n<p>A imigra\u00e7\u00e3o e a uni\u00e3o monet\u00e1ria criam, por raz\u00f5es hist\u00f3ricas, dificuldades especiais para a esquerda. O Tratado de Roma foi estabelecido sob a premissa do livre movimento de capital, mercadorias e trabalho no interior do Mercado Comum Europeu. Enquanto a Comunidade Europeia esteve restrita aos pa\u00edses da Europa Ocidental, os fatores de produ\u00e7\u00e3o para os quais a mobilidade importava eram o capital e as mercadorias: a migra\u00e7\u00e3o entre fronteiras dentro da comunidade era bem modesta. Mas no final dos 1960, o trabalho imigrante das antigas col\u00f4nias africanas, asi\u00e1ticas e caribenhas, e das regi\u00f5es semicoloniais do antigo Imp\u00e9rio Otomano, j\u00e1 era numericamente significativo. A expans\u00e3o da UE para a Europa Oriental ampliou de modo agudo a migra\u00e7\u00e3o intra-Uni\u00e3o. Finalmente, aventuras neo-imperiais nas antigas col\u00f4nias do Mediterr\u00e2neo \u2013 a blitz militar na L\u00edbia e o incentivo por procura\u00e7\u00e3o \u00e0 guerra civil na S\u00edria \u2013 projetaram grandes ondas de refugiados na Europa, al\u00e9m de terror retaliat\u00f3rio por militantes de uma regi\u00e3o onde o Ocidente permanece instalado como senhor, com suas bases, bombardeiros e for\u00e7as especiais.<\/p>\n<p>Tudo isso alimentou a xenofobia. Os movimentos antissist\u00eamicos de direita alimentaram-se dela e os movimentos de esquerda combateram-na, leais \u00e0 causa do internacionalismo humanit\u00e1rio. As mesmas liga\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas levaram a maior parte da esquerda a rejeitar qualquer pensamento de fim da uni\u00e3o monet\u00e1ria, vista como uma regress\u00e3o a um nacionalismo respons\u00e1vel pelas cat\u00e1strofes europeias do passado. O ideal de Uni\u00e3o Europeia ainda \u00e9, para estas for\u00e7as, um valor central. Mas a Europa concreta, de integra\u00e7\u00e3o neoliberal, \u00e9 mais coerente que qualquer das alternativas at\u00e9 agora propostas. \u201cAusteridade\u201d, oligarquia e mobilidade de fatores de produ\u00e7\u00e3o formam um sistema interconectado. A mobilidade dos fatores n\u00e3o pode ser separada da oligarquia. Historicamente, nenhum eleitorado europeu foi consultado jamais sobre a chegada em grande escala de trabalho estrangeiro; ela ocorreu pela porta dos fundos. A nega\u00e7\u00e3o da democracia, que se incorporou \u00e0 estrutura da UE, excluiu de in\u00edcio qualquer voz na composi\u00e7\u00e3o de suas popula\u00e7\u00f5es. A rejei\u00e7\u00e3o desta Europa por movimentos de direita \u00e9 politicamente mais consistente que a rejei\u00e7\u00e3o pela esquerda, outra raz\u00e3o para a vantagem da direita.<\/p>\n<p><strong>N\u00edveis in\u00e9ditos de descontentamento dos eleitores<\/strong><\/p>\n<p>A chegada do M5S, Syriza, Podemos e AfD marcou um salto no descontentamento popular na Europa. As pesquisas mostram agora rejei\u00e7\u00e3o nunca antes vista \u00e0 UE. Mas, sejam de direita ou esquerda, o peso eleitoral dos movimentos antissist\u00eamicos permanece limitado. Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es europeias, os tr\u00eas melhores resultados da direita \u2013 UKIP, FN e o Partido do Povo da Dinamarca \u2013 tiveram em torno de 25% do voto nacional. Em elei\u00e7\u00f5es nacionais, o n\u00famero m\u00e9dio na Europa Ocidental, para todas estas for\u00e7as de esquerda e direita, \u00e9 cerca de 15%. Esta percentagem do eleitorado representa pouco perigo ao sistema; 25% podem representar uma dor de cabe\u00e7a, mas o \u201cperigo populista\u201d que a m\u00eddia alardeia permanece muito modesto ainda. Os \u00fanicos casos em que movimentos antissist\u00eamicoos chegaram ao poder, ou pareceram pr\u00f3ximos de faz\u00ea-lo, s\u00e3o aqueles onde uma despropor\u00e7\u00e3o proposital das cadeiras do Parlamento, constru\u00edda como um pr\u00eamio para fortalecer o\u00a0<em>establishment,\u00a0<\/em>saiu pela culatra ou amea\u00e7a faz\u00ea-lo, como na Gr\u00e9cia e It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Na verdade, h\u00e1 uma larga dist\u00e2ncia entre a grande desilus\u00e3o popular com a UE neoliberal \u2013 no ver\u00e3o passado, maiorias expressaram, na Fran\u00e7a e Espanha, sua avers\u00e3o a ela, e mesmo na Alemanha apenas metade dos entrevistados t\u00eam uma opini\u00e3o positiva \u2013 e a extens\u00e3o do apoio a for\u00e7as que se declaram contra ela. Indigna\u00e7\u00e3o ou repulsa diante da UE tornaram-se comuns, mas h\u00e1 algum tempo o determinante fundamental dos padr\u00f5es de voto na Europa tem sido, e \u00e9, o medo. O\u00a0<em>status quo\u00a0<\/em>socioecon\u00f4mico \u00e9 amplamente detestado. Mas \u00e9 regularmente ratificado nas pesquisas, com a reelei\u00e7\u00e3o dos partidos respons\u00e1veis por ele, devido ao medo de que sacudir a ordem e alarmar os mercados torne a mis\u00e9ria pior. A moeda \u00fanica n\u00e3o acelerou o crescimento na Europa, e infligiu aridez aguda nos pa\u00edses do sul mais afetados. Mas a perspectiva de uma sa\u00edda aterroriza mesmo aqueles que sabem o quanto j\u00e1 sofreram. O medo derrota a raiva. Por isso, a aquiesc\u00eancia do eleitorado grego diante da capitula\u00e7\u00e3o do Syriza a Bruxelas, as decep\u00e7\u00f5es do Podemos na Espanha e as trapalhadas do Partido de Esquerda na Fran\u00e7a. O sentido geral \u00e9 o mesmo, em todos os lugares. O sistema \u00e9 ruim. Confront\u00e1-lo \u00e9 arriscar-se \u00e0 vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>O que explica, ent\u00e3o, o Brexit? A imigra\u00e7\u00e3o em massa \u00e9 outro medo que atravessa a UE, e foi agitada no Reino Unido pela campanha pela Retirada, em que que Nigel Farage foi um orador e organizador not\u00e1vel, junto a conservadores destacados. Mas a xenofobia sozinha n\u00e3o \u00e9 suficiente para superar o medo do colapso econ\u00f4mico. Na Inglaterra, e em outros pa\u00edses, ela cresceu \u00e0 medida em que um governo depois do outro mentiu sobre a escala da imigra\u00e7\u00e3o. Mas se o referendo sobre a UE tivesse sido apenas uma disputa entre estes dois medos, como o\u00a0<em>establishment\u00a0<\/em>pol\u00edtico desejava, a op\u00e7\u00e3o por permanecer teria certamente vencido por uma boa margem, como ocorreu em 2014, no referendo sobre a independ\u00eancia da Esc\u00f3cia.<\/p>\n<p>Houve outros fatores. Depois de Maastricht, a classe pol\u00edtica brit\u00e2nica rejeitou a camisa de for\u00e7a do euro, apenas para buscar um neoliberalismo local mais dr\u00e1stico que qualquer outro no continente. Primeiro, a arrog\u00e2ncia financeirizada do Novo Trabalhismo, que afundou a Gr\u00e3-Bretanha numa crise banc\u00e1ria antes de todos os outros pa\u00edses europeus. Em seguida, um governo Conservador-Liberal de \u201causteridade\u201d mais dr\u00e1stica que qualquer pol\u00edtica gerada por constrangimento europeu. Do ponto de vista econ\u00f4mico, os resultados desta combina\u00e7\u00e3o s\u00e3o \u00fanicos. Nenhum outro pa\u00eds europeu foi t\u00e3o polarizado regionalmente, entre uma metr\u00f3pole na bolha, de alta renda (Londres e Sudeste) e um Norte e Nordeste empobrecidos, desindustrializados. Onde os eleitores sentiram que tinham pouco a perder se votassem pela Retirada (uma perspectiva mais abstrata do que deixar o euro), n\u00e3o importou o que poderia acontecer \u00e0 City e aos investimentos estrangeiros. Nesse caso, o Medo importou menos que o Desespero.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m do ponto de vista pol\u00edtico, nenhum outro pa\u00eds tem um sistema eleitoral t\u00e3o escancaradamente blindado. Em 2014, sob um regime de representa\u00e7\u00e3o proporcional, o UKIP tornou-se o maior partido ingl\u00eas no Parlamento Europeu. Mas um ano depois, com 13% dos votos, ele obteve um \u00fanico assento em Londres, enquanto o Partido Nacional Escoc\u00eas, com menos de 5%, conquistou 55 cadeiras. Sob os regimes intercambi\u00e1veis de Trabalhistas e Conservadores, produzidos por este sistema, os eleitores da base da pir\u00e2mide de renda abandonaram as elei\u00e7\u00f5es. Mas ao adquirirem subitamente, por uma vez, uma chance real de decidir um referendo nacional, eles voltaram para tomar a decis\u00e3o que desolou Tony Blair, Gordon Brown e David Cameron.<\/p>\n<p>Por fim, e de modo decisivo, h\u00e1 a diferen\u00e7a hist\u00f3rica que separa a Gr\u00e3-Bretanha do continente. Al\u00e9m de ter sido, por s\u00e9culos, um imp\u00e9rio que apequenou culturalmente todos os rivais europeus, o pa\u00eds n\u00e3o sofreu qualquer derrota, invas\u00e3o ou ocupa\u00e7\u00e3o nas duas guerras mundiais \u2013 ao contr\u00e1rio da Fran\u00e7a, Alemanha, It\u00e1lia e a maior parte do continente. Por isso, a expropria\u00e7\u00e3o dos poderes locais por uma burocracia na B\u00e9lgica causou mais atrito que em outros lugares. Por que um Estado que derrotou duas vezes o poder de Berlim deveria se curvar \u00e0 intromiss\u00e3o insolente de Bruxelas ou de Luxemburgo? Temas relacionados \u00e0 identidade podem desencadear rea\u00e7\u00f5es mais diretas que no resto da UE. Por isso, a f\u00f3rmula normal \u2013 o medo de vingan\u00e7a econ\u00f4mica supera o medo da imigra\u00e7\u00e3o desconhecida \u2013 n\u00e3o funcionou, curvado por uma combina\u00e7\u00e3o de desespero econ\u00f4mico e autoestima nacional.<\/p>\n<p><strong>O salto no escuro dos EUA<\/strong><\/p>\n<p>Estas foram tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es em que, nos EUA, um candidato presidencial republicano de hist\u00f3ria e temperamento sem precedentes \u2013 detest\u00e1vel para a opini\u00e3o tradicional dos dois partidos, sem nenhum esfor\u00e7o para conformar-se aos c\u00f3digos aceitos de conduta civil ou pol\u00edtica e mal visto por muitos de seus eleitores \u2013 pode atrair um n\u00famero suficiente de trabalhadores industriais desprezados e ganhar a elei\u00e7\u00e3o. Como na Gr\u00e3-Bretanha, o desespero superou a apreens\u00e3o, nas regi\u00f5es prolet\u00e1rias desindustrializadas. Tamb\u00e9m l\u00e1, de forma muito mais crua e aberta, num pa\u00eds com uma hist\u00f3ria mais profunda de racismo, os imigrantes foram denunciados e exigiram-se barreiras f\u00edsicas e burocr\u00e1ticas. Acima de tudo, o imp\u00e9rio n\u00e3o era uma mem\u00f3ria distante do passado, mas um atributo v\u00edvido do presente e uma exig\u00eancia natural do futuro. No entanto, tinha sido posto de lado pelos poderosos em nome de uma globaliza\u00e7\u00e3o que significou ru\u00edna das pessoas comuns e humilha\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds. O slogan de Trump foi\u00a0<em>Fazer os EUA grandes de novo\u00a0<\/em>\u2013 pr\u00f3speros e dispostos a descartar os fetiches do livre movimento de bens e trabalho, vitoriosos em ignorar as barreiras e piedades do multilateralismo. Ele n\u00e3o errou ao proclamar que seu triunfo foi um Brexit em grande escala. Foi uma revolta muito mais espetacular, porque n\u00e3o se restringiu a um \u00fanico item \u2013 simb\u00f3lico, para a maioria \u2013 e n\u00e3o contava com nenhum respeito do\u00a0<em>establishment\u00a0<\/em>ou b\u00ean\u00e7\u00e3o editorial.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria de Trump deixou a classe pol\u00edtica europeia \u2013 o centro-direita e o centro-esquerda unidos \u2013 em desencanto ultrajado. Romper as conven\u00e7\u00f5es estabelecidas sobre migra\u00e7\u00e3o \u00e9 ruim demais. A UE pode ter tipo poucos escr\u00fapulos para encurralar os refugiados na Turquia de Recep Tayyip Erdogan, com suas dezenas de milhares de presos pol\u00edticos, tortura policial e suspens\u00e3o do imp\u00e9rio da lei; ou para fazer vistas grossas \u00e0s barricadas de arame farpado na fronteira norte da Gr\u00e9cia, para mant\u00ea-los bloqueados nas ilhas do Mar Egeu. Mas a UE, em respeito \u00e0 dec\u00eancia diplom\u00e1tica, nunca glorificou abertamente suas exclus\u00f5es. A desinibi\u00e7\u00e3o de Trump nesta mat\u00e9ria n\u00e3o afeta diretamente a Uni\u00e3o. O que afeta, e causa preocupa\u00e7\u00f5es muito mais s\u00e9rias, \u00e9 sua rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 ideologia do livre movimento dos fatores de produ\u00e7\u00e3o e, ainda mais, seu desd\u00e9m sem cerim\u00f4nia pela OTAN e seus coment\u00e1rios sobre uma atitude menos beligerante diante da R\u00fassia. Se alguma destas atitudes \u00e9 mais de um gesto a ser em breve esquecido, como muitas de suas promessas dom\u00e9sticas, ainda falta saber. Mas sua elei\u00e7\u00e3o cristalizou uma diferen\u00e7a significativa entre diversos movimentos antissist\u00eamicos da direita ou de um centro amb\u00edguo e partidos da esquerda estabelecida \u2013 rosados ou verdes. Na Fran\u00e7a e It\u00e1lia, movimentos de direita opuseram-se de modo consistente a pol\u00edticas de nova guerra fria e a aventuras militares aplaudidas por partidos da esquerda \u2013 incluindo a blitz sobre a L\u00edbia e as san\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia.<\/p>\n<p>O referendo brit\u00e2nico e a elei\u00e7\u00e3o norte-americana foram convuls\u00f5es antissist\u00eamicas da direita, por\u00e9m acompanhadas por levantes antissist\u00eamicos de esquerda (o movimento de Bernie Sanders nos EUA e o fen\u00f4meno Corbyn, no Reino Unido) menores em escala, embora mais surpreendentes. Ainda n\u00e3o se sabe quais ser\u00e3o as consequ\u00eancias dos dois fen\u00f4menos, embora certamente mais limitadas que as previs\u00f5es atuais. A ordem estabelecida n\u00e3o foi nem de longe derrotada nos dois pa\u00edses e, como demonstrou a Gr\u00e9cia, ela \u00e9 capaz de absorver e neutralizar revoltas de qualquer sentido, com rapidez impressionante. Entre os anticorpos que ela j\u00e1 gerou, est\u00e3o simulacros\u00a0<em>yuppies\u00a0<\/em>das rupturas populistas (Albert Rivera na Espanha, Emmanuel Macron na Fran\u00e7a), que investem contra os impasses e corrup\u00e7\u00f5es do presente e prometem uma pol\u00edtica mais limpa e din\u00e2mica no futuro, al\u00e9m dos partidos decadentes.<\/p>\n<p>Para os movimentos antissist\u00eamicos de esquerda, a li\u00e7\u00e3o dos anos recentes \u00e9 clara. Se n\u00e3o desejam ser superados pelos movimentos de direita, n\u00e3o podem ser menos radicais em atacar o sistema \u2013 e precisam ser mais coerentes em sua oposi\u00e7\u00e3o a ele. Isso significa, na Europa, admitir a possibilidade de que a UE pode ter se tornado t\u00e3o atrelada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o neoliberal que reform\u00e1-la j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 seriamente conceb\u00edvel. Ela precisaria ser desfeita, antes que algo melhor possa ser constru\u00eddo \u2013 ou por meio de rupturas em face da UE real, ou reconstruindo a Europa em outras bases, jogando Maastricht \u00e0s chamas. Estas possibilidades provavelmente s\u00f3 ser\u00e3o reais em caso de uma crise econ\u00f4mica nova, e mais profunda.<\/p>\n<p>1. Por Immanuel Wallerstein, Giovanni Arrighi e outros<br \/>\n2. Robert Brenner,\u00a0<em>The Economics of Global Turbulence: the Advanced Capitalist Economies from Long Boom to Long Downturn 1945-2005,<\/em>\u00a0Verso, Nova York, 2006.<br \/>\n3. Raffaele Laudani, \u2018<a href=\"http:\/\/mondediplo.com\/2017\/01\/11italy\" target=\"_blank\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?hl=pt-BR&amp;q=http:\/\/mondediplo.com\/2017\/01\/11italy&amp;source=gmail&amp;ust=1490733297074000&amp;usg=AFQjCNHPZtERcoRslWt_zdumxcIqYKFQbg\">Renzi\u2019s fall and Di Battista\u2019s rise<\/a>\u2019,\u00a0<em>Le Monde diplomatique,<\/em>\u00a0edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas, Janeiro de 2017<\/p>\n<p>http:\/\/outraspalavras.net\/capa\/neoliberalismo-ordem-contestada\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"PERRY ANDERSON Movimento \u201cNuit Debout\u201d (Noite Desperta), que contestou o neoliberalismo pela esquerda em Paris, 2016. 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