{"id":13952,"date":"2017-03-29T15:45:04","date_gmt":"2017-03-29T18:45:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=13952"},"modified":"2017-04-08T16:25:20","modified_gmt":"2017-04-08T19:25:20","slug":"a-classe-media-nao-vai-ao-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13952","title":{"rendered":"A classe m\u00e9dia n\u00e3o vai ao para\u00edso"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/gustavohorta.files.wordpress.com\/2016\/09\/fiesppato.jpg?w=747\" alt=\"imagem\" \/>por Golbery Lessa (membro do Comit\u00ea Central do PCB)<\/p>\n<p>Onze meses ap\u00f3s o primeiro afastamento de Dilma Rousseff da presid\u00eancia da rep\u00fablica, ocorrido em 12 de abril de 2016, a parte da classe m\u00e9dia capturada pelo discurso da direita perdeu a motiva\u00e7\u00e3o para ir \u00e0s ruas, encontra-se ideologicamente confusa e experimenta circunst\u00e2ncias econ\u00f4micas piores do que antes. Como o fracasso dos atos p\u00fablicos de 26 de mar\u00e7o demonstra, a nova atitude desse setor social tender\u00e1 a desidratar os inorg\u00e2nicos movimentos de massa liderados de maneira oportunista e anti\u00e9tica por grupos neoliberais como o MBL (Movimento Brasil Livre) e o Vem Para a Rua. Esse fen\u00f4meno parece ter as <!--more-->seguintes causas: 1) o objetivo imediato desse segmento, o impeachment da presidente, foi alcan\u00e7ado, e isso eliminou o principal motivo da unidade e da mobiliza\u00e7\u00e3o; 2) para serem coerentes com o pr\u00f3prio discurso, os chamados coxinhas tiveram que passar de uma atitude de oposi\u00e7\u00e3o para a uma atitude de defesa acr\u00edtica do governo de plant\u00e3o, o que \u00e9 desmobilizador em si, principalmente para quem lastreou o pr\u00f3prio discurso no moralismo; 3) como n\u00e3o houve crescimento econ\u00f4mico no p\u00f3s-Dilma nem medidas para conter a cont\u00ednua ofensiva do grande capital contra a classe m\u00e9dia (aumento do pre\u00e7o dos planos de sa\u00fade, manuten\u00e7\u00e3o do cartel das montadoras de autom\u00f3veis, progressiva majora\u00e7\u00e3o das mensalidades das escolas e universidades privadas, juros extorsivos dos bancos, etc.) e as propostas de reforma da previd\u00eancia e reforma trabalhista contrariarem tamb\u00e9m os setores m\u00e9dios, os coxinhas est\u00e3o mais abandonados no presente do que no governo anterior e, portanto, n\u00e3o est\u00e3o dispostos a se mobilizar em defesa de Michel Temer, o usurpador.<\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias mudaram bastante, mas a ess\u00eancia do fen\u00f4meno continua a mesma: durante os governos de Lula e Dilma, a esquerda petista, por ter apostado numa alian\u00e7a estrat\u00e9gica com a direita e na consequente despolitiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, propondo a inclus\u00e3o pelo consumo e n\u00e3o pela pol\u00edtica, perdeu influ\u00eancia sobre um setor decisivo da classe m\u00e9dia, que foi hegemonizado pelos neoliberais e mobilizado em apoio ao golpe. Parte dessa classe passou a seguir a direita n\u00e3o por ser atavicamente conservadora, mas por falta de op\u00e7\u00e3o, pelo fato de a \u201cesquerda\u201d mais vis\u00edvel, o Partido dos Trabalhadores (PT), n\u00e3o lhe ter acolhido no seu projeto pol\u00edtico. A an\u00e1lise da composi\u00e7\u00e3o social das manifesta\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis e contr\u00e1rias ao impeachment, a partir de formul\u00e1rios respondidos pelos manifestantes, demonstra que a classe m\u00e9dia era majorit\u00e1ria nos dois polos ant\u00edpodas. E mais: as quantidades de funcion\u00e1rios p\u00fablicos, de profissionais liberais aut\u00f4nomos, de trabalhadores do setor privado mais bem remunerados e de pequenos e m\u00e9dios propriet\u00e1rios, os elementos basilares do que se concebe como classe m\u00e9dia, bem como suas respectivas rendas e forma\u00e7\u00e3o escolar, eram mais ou menos as mesmas nos dois lados. Em vez de reconhecer essa proximidade social b\u00e1sica entre os dois grupos e investigar as causas de suas conjunturais diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas e pol\u00edticas, a maioria dos analistas passou a essencializar o conservadorismo que parte da classe m\u00e9dia tem apresentado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o PT ser retirado do Pal\u00e1cio do Planalto pelo golpe, a classe m\u00e9dia capturada pelos neoliberais (e mesmo pelos fascistas, numa porcentagem minorit\u00e1ria, mas preocupante) passou a ter uma nova experi\u00eancia com um governo federal de partidos bem mais \u00e0 direita e, em poucos meses, come\u00e7ou a perceber que sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica piorou e seu protagonismo pol\u00edtico vem sendo solapado pelo Executivo Federal e seus aliados nos outros poderes e na grande m\u00eddia. Isto \u00e9, est\u00e1 percebendo que os \u201crevolucion\u00e1rios da \u00e9tica na pol\u00edtica\u201d instalados no poder querem desmobilizar os jacobinos, desejam \u201cparar o carro da revolu\u00e7\u00e3o\u201d em benef\u00edcio do status quo burgu\u00eas. Esse conflito entre os promotores do golpe ocorre porque o projeto do grande capital de enfrentar a crise econ\u00f4mica por meio da radicaliza\u00e7\u00e3o do neoliberalismo n\u00e3o comporta ganhos econ\u00f4micos e pol\u00edticos para a classe m\u00e9dia, pois \u00e9 um projeto fundado na total destrui\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas, no rebaixamento do n\u00edvel de emprego, na pulveriza\u00e7\u00e3o dos direitos sociais, na restri\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o popular e no fortalecimento das grandes empresas em detrimento das pequenas, ou seja, em elementos tamb\u00e9m hostis aos interesses dos setores m\u00e9dios.<\/p>\n<p>H\u00e1 um mito de que a classe m\u00e9dia contempor\u00e2nea seria formada majoritariamente por pequenos e m\u00e9dios capitalistas. Esse mito parece ser resultado de uma proje\u00e7\u00e3o no presente de uma constata\u00e7\u00e3o emp\u00edrica da sociologia cl\u00e1ssica relativa \u00e0 estrutura social do s\u00e9culo XIX europeu. Mas, segundo a PNAD\/IBGE\/2015, das 5.250.000 pessoas que recebiam, em 2015, entre cinco e dez sal\u00e1rios-m\u00ednimos no Brasil, 62,5% delas eram empregadas, 20,8% trabalham por conta pr\u00f3pria e apenas 16,7% eram empregadoras. Entre os citados 62,5 % (3.286.000, em n\u00fameros absolutos) empregados, cerca de 2.000.000 (61,0%) eram funcion\u00e1rios p\u00fablicos (fonte: RAIS\/2014); estes servidores correspondiam, portanto, a 38% da faixa fundamental dos setores sociais que estamos analisando. A maioria dos membros dessa faixa de rendimentos, por mais que recebam maiores rendimentos e tenham melhor qualifica\u00e7\u00e3o, est\u00e1 inserida numa rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica id\u00eantica, do ponto de vista estrutural, \u00e0quela dos trabalhadores menos remunerados e qualificados. Esse fato tem desdobramentos ideol\u00f3gicos e pol\u00edticos fundamentais, n\u00e3o \u00e9 um detalhe. A efetiva\u00e7\u00e3o das reformas da previd\u00eancia e trabalhista propostas pelo governo federal, por exemplo, teria o mesmo impacto desastroso para 86,3% dessa faixa da classe m\u00e9dia (a soma entre empregados e aut\u00f4nomos) que teria para o operariado industrial. A renda e o status intelectual separa, mas o assalariamento une essas duas classes. A rigor, a express\u00e3o \u201cclasse m\u00e9dia\u201d, quando usada, como estamos fazendo neste artigo, para definir assalariados de alta renda e maior qualifica\u00e7\u00e3o profissional, sejam do setor privado ou do setor p\u00fablico, \u00e9 apenas uma forma abreviada de levar em conta as singularidades dessa camada da classe trabalhadora e n\u00e3o, de fato, a convic\u00e7\u00e3o de que eles comporiam uma classe diferente do proletariado. A maior parte da \u201cclasse m\u00e9dia\u201d \u00e9, portanto, apenas um setor melhor remunerado e mais qualificado tecnicamente do que as outras camadas da classe trabalhadora, por mais que seus h\u00e1bitos de consumo e tra\u00e7os culturais sejam singulares.<\/p>\n<p>Uma coisa era mobilizar parte dessa classe contra governos petistas que se aliaram ao grande capital (todos lembramos de Lula dizendo: \u201cOs banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro quanto no meu governo\u201d) em detrimento dos principais interesses dos trabalhadores e dos setores m\u00e9dios, apesar do Bolsa Fam\u00edlia e do aumento da renda (30%, em m\u00e9dia) determinado por fatores econ\u00f4micos alheios \u00e0 a\u00e7\u00e3o governamental, como fez o MBL entre 2015 e 2016, outra coisa \u00e9 tentar mobilizar a classe m\u00e9dia contra a sua pr\u00f3pria aposentadoria e seus pr\u00f3prios direitos trabalhistas em benef\u00edcio dos planos da grande burguesia, ainda mais diante de um governo abarrotado de pol\u00edticos profissionais processados por corrup\u00e7\u00e3o. O MBL e outros grupos do g\u00eanero t\u00eam consci\u00eancia das diferen\u00e7as entre os dois momentos pol\u00edticos, mas, a partir do fan\u00e1tico programa neoliberal do qual partem, ditado por institutos financiados por governos de pa\u00edses centrais, principalmente os EUA, n\u00e3o conseguem apresentar propostas capazes de compatibilizar as aspira\u00e7\u00f5es da classe m\u00e9dia e os interesses do grande capital; acabam, ent\u00e3o, ensaiando um discurso escroto e inconsistente no qual tentam enganar seus milhares de seguidores.<\/p>\n<p>Este \u00e9, portanto, um momento prop\u00edcio para a esquerda voltar a influenciar a parte da classe m\u00e9dia hegemonizada pelos neoliberais durante as lutas em torno do impeachment. Principalmente porque a direita passou a expor mais claramente todas suas mazelas ao assumir o governo e, na outra ponta, os movimentos sociais e sindicatos come\u00e7am a abandonar a passividade imposta pelos governos petistas, principalmente devido \u00e0 necessidade de defenderem suas bases da radicaliza\u00e7\u00e3o sem precedentes do projeto neoliberal. Entretanto, para a esquerda cumprir essa e outras tarefas ideol\u00f3gicas e pol\u00edticas fundamentais, \u00e9 imperioso afastar-se de qualquer estrat\u00e9gia de concilia\u00e7\u00e3o de classes, que foi a causa principal do avan\u00e7o da direita nos \u00faltimos 13 anos. A classe m\u00e9dia s\u00f3 ir\u00e1 ao para\u00edso social e pol\u00edtico pela via de uma alian\u00e7a consciente com o proletariado e n\u00e3o pela subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 direita e ao grande capital. Sua alian\u00e7a com os trabalhadores seria apenas o reconhecimento de sua pr\u00f3pria natureza assalariada, do seu efetivo pertencimento \u00e0 classe trabalhadora; mas esse reconhecimento necessita da media\u00e7\u00e3o incontorn\u00e1vel dos movimentos sociais, sindicatos e partidos de esquerda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Golbery Lessa (membro do Comit\u00ea Central do PCB) Onze meses ap\u00f3s o primeiro afastamento de Dilma Rousseff da presid\u00eancia da rep\u00fablica, ocorrido \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/13952\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":true,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[190],"tags":[],"class_list":["post-13952","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fora-temer"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-3D2","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13952"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13952\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}